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Retóricas

Uma senhora idosa está a esperar o ônibus enquanto eu pratico o running. Ela gira a cabeça lentamente para acompanhar o meu movimento e pergunta: por que corre? Durante o resto do percurso fico a me perguntar sozinho: por que corro?

Num contexto ainda mais introspectivo-filosófico: por que faço as coisas que faço, por que escrevo?, por que tiro as fotografias?, por que abraço a guitarra para dedilhar canções desassossegadas?

Tarefas rotineiras, sem as quais não saberia para onde me virar — como costuma acontecer com toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de setembro de 2020


Café em Walden

Atualmente voltei a ser hóspede da civilização.

Essa frase de Thoreau me persegue mais do que eu gostava de admitir.

Movimento pendular do recluso que de quando em vez precisa de beber da fonte social. Apenas o bastante para saciar-se. Depois, volta, para o esconderijo da praxe.

«Pois se viveram com sinceridade, só podem tê-lo feito numa terra distante.»

Publicado por P. R. Cunha / 23 de setembro de 2020


Para ele o mundo é mudo

A história giraria em torno do pai, um pai neurótico, diga-se, que depois de ler sobre o caso Kaspar Hauser, assistir à adaptação teatral de Peter Handke, e também ao filme Jeder für sich und Gott gegen alle (cada um por si e deus contra todos [O enigma de Kaspar Hauser]) do Werner Herzog, resolve prender o próprio filho numa espécie de caverna. À laia de dramaticidade, haveria contexto paralelo a explicar que a mãe morrera num «grave acidente», cujas consequências ainda dilaceravam o coração do pai. O menino, diferentemente de Kaspar Hauser, não sobreviveria ao cativeiro, muito menos teria a chance de relatar a própria experiência. Ao velório — vazio —, o pai faria um estranho discurso a reforçar a ideia de que pelo menos o filho não sofrera, não foi contaminado pela sociedade, morreu ileso. O pai chamar-se-ia Guattari (mas sem qualquer parentesco com o filósofo Pierre-Félix Guattari).

Publicado por P. R. Cunha / 20 de setembro de 2020


Loja de inconveniências

¶ No centro da cidade, estão a preparar (com andaimes, lonas, vigas etc.) a outrora belíssima estrutura de uma catedral gótica para ser transformada num grotesco shopping mall. Nada poderia ser mais nietzschiano.

¶ Seres humanos que não conseguem sequer cuidar de si mesmos e ainda assim escrevem manuais de «como viver bem», dão toda a sorte de pitacos esdrúxulos, fazem-se de gurus modernos enquanto se entopem com o creme de amendoim à frente do televisor.

¶ «Você está abandonando trinta e dois velhinhos, o senhor sabia disso?!, trinta e dois velhinhos» — de uma secretária de certo lar dos velhinhos que me ligara furiosa para dizer que eu havia esquecido de depositar a doação mensal.

¶ Quando o avião se aproxima do aeroporto, e levantamos a cortina de plástico para observar: vemos árvores, prédios, automóveis, antenas… Mas as pessoas são miudinhas de mais para serem notadas, como se nem existissem. 

¶ No sofá da casa da minha mãe há umas almofadas com capa verde repleta de terríveis pedrinhas pontiagudas que de tão desconfortáveis acabam por tirar todo o propósito da coisa. Para quê, então, ter almofadas?, eu pergunto. São enfeites, mamãe diz. Nunca compreendi.

¶ Vários desequilíbrios — se calhar todos os desequilíbrios — provêm de vontades reprimidas, vontades que adiamos durante demasiado tempo. O desespero, por outro lado, surge quando essas vontades são satisfeitas, e no entanto o abismo permanece.

¶ A história da literatura explica que boa parte dos escritores jamais será publicada. Ou coisa pior: escritores que só recebem o «devido» reconhecimento depois de terem há muito visitado a morgue.

¶ Escritores que escrevem, portanto, mesmo quando cientes da própria fatalidade. Como os coveiros que insistem em fazer filhos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de setembro de 2020


Ruminante

Escritor que gosta de tomar notas em público precisa de ter alguns cuidados. Numa palavra: ser discreto. Fita o rosto das pessoas — há alturas em que toda a gente parece vestir feições atordoadas, como se tivessem saído de algum livro do Orwell (estou a pensar em O caminho para Wigan Pier ou talvez em Como morrem os pobres). Sem contato ocular, sem alarde. A discrição vale também para os chamados «instrumentos de trabalho»: bloco-notas o mais miudinho possível, caneta barata tipo Bic edição econômica (azul e/ou preta [o vermelho chama atenção, carrega atmosfera corretiva na própria escrita]).

O corpo do escritor: momentos em que se quer cuidar do corpo, corpo-santuário, mantê-lo em ordem, deixá-lo saudável; também momentos de raiva/fúria/vontade de absoluto aniquilamento, desaparecer. Faz o exercício físico num dia, enche a cara e fuma charutos noutro dia &tc.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de setembro de 2020


Passeios eternos

Levo a minha avó para um passeio ao jardim. Minha avó tem 92 anos. Ela caminha com dificuldade, segura firme no meu braço. Ela já viu de tudo. Vovó observa as árvores, que nesta época do ano estão secas, retorcidas, com as folhas a cair. Vovó diz: estas árvores, as folhas, os pássaros, tudo tem o próprio tempo.

Acontece que alguns organismos são biologicamente imortais. Quer dizer: eles morrem, mas não por causa da idade.

A medusa Turritopsis dohrnii, que pertence à classe dos hidrozoários, «reinicia-se» a cada ciclo de vida. 

Pinus longaeva, uma espécie de pinheiro das White Mountains californianas, o ser vivo mais velho do mundo. Essas árvores podem ultrapassar os 4 mil anos.

Turritopsis dohrnii e Pinus longaeva não têm o próprio tempo. Mas não chego a comentar isto com vovó.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de setembro de 2020


Lançamentos

Já estão disponíveis à lojinha deste sítio web os livros Sinfonia do fracasso e Saturno embaçado, ambos editados pela Bandoleiro. Para acessá-los, aperte aqui.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de setembro de 2020