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Café Gerberei

Em Linz comemora-se o próprio infortúnio no Café Gerberei, escreve o escritor. Estou sentado na parte externa, mesinhas de madeira, tenho diante de mim uma chávena de Doppelter Espresso, água gaseificada (copinho), torta da casa e a Herbert Bayer Platz com miúdos a brincar de bola. A verdade é que comecei a escrever ficção porque fracassei terrivelmente em todas as outras áreas em que me meti: jornalismo, música, fotografia, publicidade, garçom, ajudante de serralheiro, professor de xadrez. Linz me inquieta porque me obriga a lidar com esses fracassos, sem anestesia, sem filtro, escreve o escritor no Café Gerberei. Se estou noutras partes, não lido com a minha personalidade falhada, mas em Linz só consigo lidar com essa personalidade falhada. Em qualquer outro café, estaria calmo, tranquilo, mas no Café Gerberei, em Linz, estou ansioso, irascível, com a sensação de ser observado sem poder ver os observadores, e de facto viro-me para trás, para os lados, e percebo que ninguém está a me observar, era mesmo coisa da minha cabeça. Estamos num lugar público e podemos acreditar que tudo o que acontece em redor nos diz respeito, mas isso não é verdade, pois nada nos diz respeito, nada dos invade incessantemente, visto que ninguém dá a mínima para a nossa presença, muito menos para a nossa ausência, à medida que os anos passam nos apercebemos disso com uma clareza brutal. Quanto mais penso, quanto mais escrevo, quanto mais questiono, mais desvairado eu me torno, escreve o escritor no Café Gerberei. Por vezes preciso de sintonizar o rádio, prefiro as estações estrangeiras, com vozes estrangeiras, línguas estrangeiras, sintonizo o rádio estrangeiro, portanto, para afastar os pensamentos, a escrita, para afastar as perguntas, as loucuras. Nada é mais perturbador do que a observação incessante, mesmo quando as observações não passam de meras fantasias. E, como alguém disse há muito: quem não se adapta à vigilância, sente-se perseguido — ou foge para Linz.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de setembro de 2022


Danúbio

Depois de visitar a lápide do Benninghoff em St. Barbara Friedhof, deixei o cemitério para trás numa espécie de adeus provisório e segui pela Humboldtstraße até ao Kunstmuseum Lentos, que fica às margens do Danúbio — caminhada de vinte e cinco minutos. Sou tomado por um entusiasmo irresistível sempre que estou diante da estrutura envidraçada desse que, na minha modesta opinião, escreve o escritor, é talvez o museu de arte moderna mais bonito do mundo. Posso estar macambúzio em Linz, a pensar grosserias, até que vou ao Kunstmuseum Lentos e de súbito começo a ter novamente ideias promissoras. Acordo no hotel e digo: Linz me devora, dali a pouco estou ao Kunstmuseum Lentos e digo: Linz me inspira, que cidade incrível. No quarto de hotel, com aquela estrutura repetitiva, é impossível pensar. No Kunstmuseum Lentos já não consigo dominar os meus pensamentos criativos, que chegam, como se diz, aos borbotões. No hotel, Linz é-me um sítio terrível, insuportável. No Kunstmuseum Lentos, nunca é demais repetir, Linz é impressionate, magnífica. Já me acostumei a isso. Enquanto observava os esboços de Gustav Klimt (Frauenkopf), escreve o escritor, escutei um guia atrás de mim a dizer para um grupo de visitantes que «segundo estimativas, cerca de 117 bilhões de pessoas já viveram no planeta Terra, hoje, todas mortas». O contexto em que essa frase foi dita bem como as motivações do guia do Kunstmuseum Lentos ao dizê-la eram, naturalmente, coisas difíceis de serem resgatadas.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de setembro de 2022


Raízes contorcidas 

A escrita não exige apenas adequação física. Há também o ajuste mental, a solitude, as saudades, náusea, tédio, riscos de morte. Pouco se sabe sobre o paradeiro do nosso parente Benninghoff. Parece que numa altura tivera pretensões literárias, escrevera um tratado complexo sobre as fraquezas humanas, e logo depois, como se diz, abandonou o mundo para viver alheado numa cabana florestal. E quantos ainda ignoram o facto de ele ter suicidado-se nessa cabana florestal, quantos ainda preferem utilizar toda a sorte de eufemismos — acidente, infortúnio, tragédia, mistérios da vida, etc. —, quando, se fossem honestos, o que não são, nunca foram, mas suponhamos que fossem, escreve o escritor, suponhamos que tivessem coragem, suponhamos que conseguissem encarar a realidade, de aí de certeza que diriam: Benninghoff enforcara-se na cabana florestal. Mas não o dizem. E vistas as coisas sob estes aspectos, não é de admirar que o nosso parente hoje não passe de uma lápide borrada em St. Barbara Friedhof, um cemitério igualmente borrado, numa cidade igualmente borrada que é Linz, berço de Adolf Hitler, não nos esqueçamos disso.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de setembro de 2022


Campa

No dia seguinte, ao saber que ainda me encontrava em Linz, escreve o escritor, meu irmão me enviara correio eletrônico a pedir que, em nome da família, eu visitasse em St. Barbara Friedhof o túmulo de um parente nosso que cometera suicídio por causa de, segundo os jornais da época, uma dívida impagável — embora estabelecer os verdadeiros motivos de um suicida seja sempre tarefa especulativa. De tanto observar St. Barbara Friedhof da janela do meu quarto de hotel, o cemitério já não representava para mim qualquer enigma. De longe, achamos que não conseguiremos lidar com a morte, até lidarmos com ela, bem de perto (geográfica e mentalmente), e chegarmos à conclusão de que, sim, conseguimos lidar com a morte, ela é de certeza terrível, mas nos acostumamos. Depois de ziguezaguear uma data de lápides avulsas, cheguei à cruz mortuária do nosso parente, cuja localização exata havia sido enviada pelo meu irmão pouco antes de eu tomar o pequeno-almoço no refeitório do hotel. Certa vez conversei com o coveiro de um cemitério no Brasil e ele comentara como que por alto que os túmulos dos suicidas eram os mais negligenciados, ninguém aparecia, dissera-me o coveiro, escreve o escritor, e em pouco tempo a pedra sepulcral mostrava-se tão arruinada quanto o morto encerrado sob a terra. O mesmo se passava com a lápide do nosso parente, diante da qual só a duras penas consegui decifrar o sobrenome Benninghoff.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de setembro de 2022


Hospedagem

Janela com vista para o cemitério. Ainda em Linz. Quartos de hotéis são todos iguais. Escritor arruma a cama e coloca o aviso de «NÃO PERTURBE» à porta. Camareira bate mesmo assim. Serviço de quarto, ela diz. Escritor permanece em silêncio. Serviço de quarto, ela repete, como quem esperasse abrir a porta e encontrar um corpo suicidado no tapete. Senhora, há um aviso na maçaneta — o escritor enfim se pronuncia e escuta a porta fechando-se lentamente. Abrir a janela para que o vento glaciar invadisse o quarto. O cemitério de Linz (St. Barbara Friedhof) é uma vasta paisagem pontuada de sepulturas, crucifixos, árvores que se contorcem durante o crepuscular outono austríaco. Escritor observa um homem solitário que chora sobre uma lápide enegrecida, tem as mãos sujas de terra molhada, talvez resultado de uma vã tentativa de convencer os mortos a retornarem para a superfície de Linz.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de setembro de 2022


Linz

Não sei por que cargas ainda insisto em vir para Linz, escreve o escritor, a Alta Áustria sempre me gera toda a sorte de desassossegos, mas por algum motivo inexplicável eu acesso o sítio web da companhia aérea, compro as passagens para Linz, e de facto entro na aeronave, e dali a algumas horas aterro em Linz, escreve o escritor perto da StifterHaus. Odeio Linz, mas todos os anos retorno a Linz, sou esse tipo de escritor, escreve o escritor enquanto se decide se entra ou não na antiga moradia de Adalbert Stifter, hoje um museu. Odeio Linz com todas as minhas forças, como se diz, e retorno a Linz também com todas as minhas forças, no Brasil idealizo Linz, e quando chego em Linz percebo o tanto que fui tolo ao idealizar essa cidade perturbadora. A distância é capciosa, construímos imagens canhestras, absolutamente irrealistas, escreve o escritor, mas quando nos damos conta da emboscada, já é demasiado tarde, sempre foi assim, e não só com Linz, com as gentes, com as chamadas «áreas de interesse», hoje gostamos de determinadas atividades, ou de determinadas pessoas, amanhã as mesmas atividades e as mesmas pessoas nos irritam, odiamos aquelas atividades, odiamos aquelas pessoas, geram tonturas. No Brasil eu penso, escreve o escritor, preciso de Linz, em Linz eu me sinto um verdadeiro idiota por ter pensado que preciso de Linz, não preciso de Linz, e a bem da verdade, Linz tampouco precisa de mim. O clima é sem dúvida fabuloso, excelente atmosfera para escrever, a cidade é limpíssima, os serviços são fantásticos, os habitantes têm bons modos, há o Musiktheater, o Landestheater, não me falta nada em Linz, nuvens de chumbo, chuvas, neves, as janelas lacrimosas, aqui escrevi meus melhores ensaios, ou melhor, aqui sem dúvida escrevi minhas melhores obras, escreve o escritor à porta da StifterHaus a sentir um desconforto no peito. No Brasil, não consigo escrever, muito quente. Preciso de ir para Linz, Alta Áustria, clima adequado para qualquer tipo de trabalho literário. No Brasil, há sempre qualquer coisa. Em Linz, consigo me perder. No Brasil, uma simples caminhada me deixa ensopado de suor. Em Linz, posso caminhar sem problemas. Naturalmente, essas peculiaridades me levam para Linz todos os anos, consigo compreender, escreve o escritor enquanto se aproxima da entrada da StifterHaus, ainda a sentir o desconforto no peito.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de setembro de 2022


Desenvolvimentos

Na escola, o nosso professor de música tinha perdido o filho num acidente terrível, e a esposa se suicidara pouco depois. Ele mostrava-nos o bilhete de despedida ainda com marcas de sangue seco, apenas uma frase repetida diversas vezes pela caligrafia hesitante da esposa: não suportei não suportei não suportei… E nós, os alunos, tínhamos oito, nove anos. O professor de música garantia que estávamos a aprender importante lição ao lermos aquele bilhete.

Minha avó costumava me levar à pracinha perto de casa e lá havia esse homem que vendia tartarugas. Ele segurava com força o braço da minha avó e dizia que iria colocar todas aquelas tartarugas na panela caso ninguém as comprassem, sopa de tartaruga, e o homem também olhava para mim, olhos loucos, perguntava se por um acaso eu não tinha pena das tartarugas.

Quando meus pais saíam à noite eles me deixavam com a vizinha, uma senhora chamada Ruth. Se ficasse muito tarde eu tinha de dormir no quarto de hóspedes. Ela então colocava um manequim perto da porta, a cabeça do boneco com dois chifres vermelhos, capa negra, e dizia que eu precisava de me comportar direitinho, porque aquele era o próprio diabo.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de setembro de 2022


Propriedade das cores

Há um objeto; objeto causa dor, alegria, ódio, pesar, entusiasmo, etc. — pode-se analisar se objeto está ali de facto ou se é apenas construção imaginativa (miragem[?]), no entanto, o que ele gera, por mais abstrato que pareça, é «real». Numa abordagem cromática, o olho humano só consegue identificar porção bastante específica do espectro eletromagnético: extremo vermelho 400 THz / extremo violeta 750 THz, não percebe os raios cósmicos, raios gama, raios x, micro-ondas, rádio, frequências extremamente baixas, mas estão todos em volta. Cachorros e gatos enxergam bem a preto e branco. Escritor articula — ou tenta articular — essas metamorfoses. Inventário de percepção. Escolhe recorte específico, procura retirá-lo das multidões, do fluir do esquecimento, evita ruídos, impõe ordens, valores, sentidos, fronteiras. A Nasa, por exemplo, desenvolve espectômetro de raios gama, um dispositivo fantástico que captura luzes invisíveis à retina humana. Nasa e escritor, portanto, lutam contra a sombra da negligência involuntária.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de setembro de 2022


Visita paterna (primeiro esboço)

Pai, ele diz enquanto vira para os lados a ver se alguém o observa, pai, sei que o senhor tinha grandes expectativas, que eu era o seu maior projeto, a possibilidade de realizar algumas coisas que, por circunstâncias da vida, o senhor não pôde concretizar, e sei também que o decepcionei, jamais conseguiria ser a sua continuidade, pois minha natureza é frágil, vulnerável, meus isolamentos, introspecção, tudo bem diferente do seu vigor, do seu empreendedorismo, da sua capacidade de lidar com toda a sorte de intempéries, você havia subido tão alto contando apenas com a própria força, contra a brutalidade glaciar do vovô, contra a melancolia intrínseca da vovó, a viver num ambiente caótico, infância de desesperos, ressentimentos, egoísmos, traições, sim, foram essas as suas raízes, mas nada disso parecia lhe abalar, nada disso o impediu de conquistar impérios, de ter confiança ilimitada, o senhor construiu clínicas, hospitais, salvou uma data de vidas, influenciou pessoas, teve amigos, admiradores, procurava entender os inimigos, os invejosos, e a nossa indiferença dentro de casa, a indiferença dos seus próprios filhos, éramos crianças, não percebíamos nada, e o senhor era uma espécie de deus lá fora, sabia conversar sobre todos os assuntos, corrigia (com razão) especialistas em outras áreas, dava aulas, arquitetava, mas um anti-herói inatingível quando voltava tarde do trabalho e jogava o jaleco surrado no sofá e pedia silêncio, silêncio absoluto, precisava de dormir, de hibernar, papai-urso, acontece que do seu consultório o senhor se mostrava um visionário, organizava mundos, alterava as órbitas planetárias, exercia o seu poder gravitacional, e cheguei mesmo a compará-lo (diretamente) com uma estrela supergigante, isto num livrinho tolo que escrevi, quanto maior a massa de uma estrela mais rapidamente ela consumirá o suprimento de combustível, e menor será a vida útil, e o fim costuma ser violento, explode, devasta, deixa uma trilha de ruínas, e todos que chegavam perto de si pareciam descartáveis anãs-brancas, estrelinhas moribundas, sem luz, já não lembro ao certo o que mais escrevi a esse respeito, isso faz muito tempo, personagem sem nome que não era exatamente o senhor, mas possuía imensas características suas, e eu também me sentia um inútil ao seu lado, não conseguia acompanhá-lo, a velocidade do seu raciocínio afiado, meus complexos de inferioridade, minha latente esquizofrenia, meu transtorno bipolar, todas as mentiras que inventei para satisfazê-lo, para chegar aos pés dos seus padrões, para que o senhor sentisse orgulho de mim, mesmo que um orgulho fugidio, quantos anos não tiveram de passar até que eu me desse conta destas coisas, e eu sabia como tirá-lo do sério, fazia birra, me jogava no chão, protestava, gritava, chorava, e, mais tarde, minha insistência em trilhar os caminhos das letras, meus estudos geográficos, a música, a fotografia, e o senhor com a ideia fixa de que eu precisava de ser médico, herdar o seu império, dar prosseguimento ao seu legado, manter seu nome em evidência, mantê-lo no cume, e só pude resistir e superar as censuras — eis um paradoxo curioso — porque foi o senhor mesmo que me ensinara a nunca desistir, a ter resiliência, a acreditar no meu potencial, etc., ninguém vai lhe ajudar, ainda escuto o senhor a dizer essas palavras, ninguém vai lhe apoiar, ninguém vai lhe carregar no colo, lembro como se fosse ontem, e muitas vezes o senhor me abraçava com tanto carinho que nada mais me importaria, naquele momento eu podia me sentir invencível como o senhor, sentia que nada me atingiria, eu conquistaria o que quisesse, como naquela madrugada em que você veio ao me quarto, antes da sua viagem para o Alasca, e sussurrou baixinho «pai te ama muito», e naquela tarde em que toquei com a banda no auditório da livraria, e o senhor batia palmas com tanto entusiasmo, e foi o primeiro a pedir que voltássemos ao palco, e os seus olhos marejavam de felicidade, e a satisfação ao mostrar que o seu filho tocava bateria, se soubesse, pai, se soubesse o tanto que sinto falta das nossas contradições… — diz o escritor enquanto lança um último olhar para a sepultura, e pergunta a si mesmo se afinal o pai não terá ouvido tudo, se só parece, mas não está enterrado.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de setembro de 2022


Solipsismo

A minha barba te incomoda? Bom, já que perguntaste, talvez fosse melhor fazê-la, terias uma melhor figura. Ele chega ao apartamento, vai até à casa de banho, faz a barba.

Sobre a mesa: pilha de livros, marcadores de página, canetas, umas quantas anotações que o lembram de que, afinal, ainda escreve, a despeito das fobias, das fissuras, da atmosfera paranoide, do cortejo fúnebre que marcha às decepções, este apetite incontrolável pela escrita, um vício, sempre com dúvidas, em declínio ou ascensão, a metáfora da bolha, bolha hermética, membranas que o protegem dos cataclismas, e o escritor ali, num isolamento que se basta a si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de setembro de 2022


Determinismo cronológico

O escritor é, ou melhor, sempre foi este ser negativista, problematizador, com tendências melancólicas, inadequado, nunca se sente de facto à vontade em sítio algum, e isso desde miúdo, na escola, com os amigos, em casa, com os pais, sim, principalmente com os pais, a mamã e o papá diziam: não sabemos como lidar com a criança, não sabemos o que fazer, é imprevisível, etc., mas quando o escritor exerce o próprio ofício, quando toma notas, o rosto inclinado sobre o papel, mão ágil, as folhas pautadas preenchidas com toda a sorte de pensamentos, ele experimenta, ainda que por um triz, a eternidade. Matar o tempo, as suspensões da escrita — como demonstrara Sebald dando como exemplo Léon Bloy, que parece citar Baudelaire —, os divertimentos do escritor sont comme la mort (são como a morte).

Publicado por P. R. Cunha / 17 de setembro de 2022


Vulnerabilidades

Às vezes o escritor se pergunta se prefere escrever ou ler, o que lhe é mais prazeroso, qual desses antídotos se mostra mais adequado durante o processo de esquecimento de si mesmo.

Queriam acreditar que aquelas nuvens estavam a trazer chuva, mas eram acúmulos de fogo, fuligens, restos de árvores e folhas mortas.

Se ao menos soubessem o quanto é difícil para ele estar «fora», participar dos rituais coletivos, o esforço empreendido, corresponder às exigências…

Longe do escrutínio alheio, numa paisagem minimamente convidativa, consumia livros com voracidade animalesca.

Onde estão os amigos agora que o Sol existencial começa a buscar abrigo atrás do horizonte de ruínas, prestes a completar trinta e sete anos, e a juventude é já um comboio que há muito partira a nenhures?

Publicado por P. R. Cunha / 16 de setembro de 2022


Supervazios

Seguimos como tratores, a passar por cima de gentes, relva, derrubando casas, etc.

Quando se perde a ilusão de legado, de estar-se a produzir algo aos poucos, envolvido em projeto «indispensável», a névoa se dissipa, e o escritor precisa mesmo de cobrir os olhos, porque a escuridão irá cegá-lo.

[Vazio de Boötes: 330 milhões de anos-luz de diâmetro, 0,27% do universo observável, e apenas sessenta galáxias perdidas nesse abismo cósmico. Uma galáxia a cada dez milhões de anos-luz. O minimalismo dessa escala é brutal.]

Objetivos, metas, brigas de bar, discussões políticas, melhorias no relacionamento, caridades, escrever livros… Essas coisas só têm sentido enquanto dura o estado de estupor (de negação, dir-se-ia).

Tomar café no esconderijo pouco antes da escrita matinal, ler Montaigne, o passeio pela rua — compenetrado em tarefas artificiais, tolerâncias momentâneas da infelicidade.

Até que outras doses anestésicas sejam aplicadas, encara-se a conclusão de que todo o esforço é inútil, não há planos milagrosos a seguir. 

Publicado por P. R. Cunha / 15 de setembro de 2022


Que ruídos são aqueles

A pergunta que o escritor se faz constantemente é: sou relevante? Ou melhor — sinto-me relevante? O que escrevo é relevante? Robert Walser passou os últimos vinte anos de vida numa instituição para loucos em Herisau, nos confins da Suíça, esquecido, negligenciado, sem amigos, sem leitores, talvez se sentisse relevante para si mesmo, ou fabricasse uma relevância qualquer, até que no Natal de 1956, depois do lanche noturno, sai para caminhar na neve, colapsa no gelo e não desperta. Quem hoje lê Thomas Bernhard, o próprio Sebald, ou mesmo Claudio Magris? Tocar bateria, escrever, tirar fotografias, praticar corridas, estudar russo, ler este ou aquele autor, nada disso faz sentido, a não ser que o sujeito que se predispõe a realizar essas tarefas crie (construa/invente) propósitos específicos. O poeta Ernst Herbeck tivera trajetória parecida, trancafiado no hospício pouco depois de completar vinte anos, um vivo-morto a tomar notas no cárcere, poemas avulsos com letras miúdas que pareciam querer se perder de propósito na gélida Niederösterreich (Baixa Áustria). A folha de papel, universo em que cada mínimo detalhe é digno de atenção, e talvez esses cuidados com os pormenores, certas obsessões pelo inútil e pelo microscópico, sejam mecanismos de defesa contra os despropósitos, contra os absurdos da suposta grandiosidade que os últimos séculos tanto prometeram. A escrita como ato de adoração, forma de criar novas miragens, novas âncoras — mesmo que efêmeras. Meu apego pela vida é hesitante, comentou certa vez Jim Harrison, então escrevo para garantir a minha sobrevivência. Walser, Kafka, Herbeck, Woolf, Hemingway, Plath, Abbie Hoffman, Foster Wallace, quantos também não hesitaram, e tentaram se adequar, resistiram, reinventaram-se, e, no meio do caminho, fizeram perguntas indiscretas cujas respostas dolorosas ainda hoje criam toda a sorte de constrangimentos.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de setembro de 2022


Prazeres intranquilos / torres em ruínas

Você sofre você está escrevendo o livro você viaja para as montanhas e está escrevendo o livro você se decepciona você perde a razão você se descontrola você está escrevendo o livro você se esconde numa cabana e está escrevendo o livro você está preso no trânsito preso na fila do supermercado preso numa emboscada você está escrevendo o livro você caminha no parque você estuda os pássaro as árvores e está escrevendo o livro você se entrega a uma felicidade mais amena e está escrevendo o livro você sente medo você está escrevendo o livro você se abandona você permanece em total quietude até quando acha que não está escrevendo o livro você está escrevendo o livro.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de setembro de 2022


Porta-luvas

Depois de um voo longo e difícil entre Lisboa e Brasília, ele entrou no táxi e acendeu um cigarro. A moça ao volante olhou pelo retrovisor e disse: senhor, não é permitido fumar neste táxi. Ele tragou o cigarro com mais força, a fumaça preencheu todo o interior do automóvel. Sem tirar as vistas do trânsito, que até fluía bem àquela hora da noite, ela abriu o porta-luvas, pegou o revólver calibre 38 e deu quatro tiros no peito do homem — que, naturalmente, não resistiu aos ferimentos. No tribunal, antes de ser condenada a trinta anos de prisão, a motorista mostrava-se muito preocupada em como iria remover as manchas de sangue do banco traseiro, garantindo, inclusive, que esse serviço lhe custaria meses de trabalho árduo.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de setembro de 2022


Ausência de variedade

Até mesmo as pequenas tarefas do dia-a-dia podem gerar angústias sufocantes na «alma» (em falta de melhor termo) do escritor, que se perde, e fica tonto, e gostava de sumir, não ter de lidar com nada, nem com ninguém. Pensa muitas vezes a respeito disso, deixa que as ideias sigam o rumo sem que ele interfira.

Obrigações, dar satisfação, exigências, envolver-se com a complexidade alheia, não ter o controle da caneta sobre o papel — eis o que o prejudica terrivelmente.

Toma o café à escrivaninha e o telemóvel toca. O escritor não atende. De certeza é alguém a pedir qualquer coisa.

Em troca, ele não pede favores a ninguém. Deveria de ser um acordo tácito. Mas nunca é.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de setembro de 2022


Acusações improváveis (manhã da independência [o coração de D. Pedro {suspenso em formol} cruzou o Atlântico])

Percebemos, de facto, o isolamento em que cada um se encontra?

Viver no passado é estar preso num teatro de marionetes cujos bonecos com toda a sorte de deformações permanecem na memória com energia apenas duvidosa. Qual era a roupa do boneco, a fisionomia do boneco, a postura, mostrava-se triste, alegre, arrependido? A mente humana, como se sabe, é péssima para reproduzir enredos à risca — retira imenso, adiciona detalhes, substitui, dissimula.

Nostalgia que impele o sujeito a agir da forma que agia noutras épocas, porém o corpo não acompanha mais.

E quando os membros não obedecem, os verbos são acionados. Muita literatura surgiu dessa frustração.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de setembro de 2022


Mutuamente

Anos e anos dedicando-se à mesma ideia, obcecado pela mesma ideia, consumido pela mesma ideia, até concretizá-la.

De súbito, um vazio.

Escritor sonha que vai ser publicado / escritor é publicado / escritor está sozinho.

A obra no prelo de nada adianta.

Os ruídos agora se tornam cada vez mais malignos (hipersensibilidade auditiva). Fantasmas que voltam a criar morada no teu átrio — mas estavas na altura distraído por qualquer razão.

Não percebeste.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de setembro de 2022


Os trinta e sete que se aproximam

1.
traço invisível
como é estranha
a caneta sem tinta

2.
podam a árvore
noite de outono —
que sinistro!

3.
caminhada no parque
uma andorinha
me viu sorrir

Publicado por P. R. Cunha / 5 de setembro de 2022


Este pequeno habitante das ruínas

Numa perspectiva quântica, escritor está bem longe de ser aquela mesma criaturinha dobradiça que nascera na madrugada de 14 de outubro de 1985.

Na verdade, ele não tem praticamente nenhum dos átomos «originais». A cada dia, 330 bilhões de células do corpo do escritor eram substituídas.

330 bilhões de novas células, diariamente — ainda assim, o consideramos a mesma pessoa.

Fazemos isso com base na continuidade de pensamentos, na memória, nos propósitos, narrativas desconfiadas.

Um navio batizado de Alteza que ao longo do tempo tivesse todas as peças trocadas poderia continuar a ser chamado de Alteza? É o mesmo navio?

Escritor: eterna construção, ou melhor: reconstrução. Por vezes, ao meio da noite, ele acorda, lembra de algum episódio indecoroso, e dirige a palavra a si mesmo: se tivesse se passado hoje, eu não teria dito aquilo (ou feito aquilo), etc.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de setembro de 2022


Questão de nervos ou os efeitos da gravidade

Se escrevo para me proteger, diz o escritor, se escrevo para me resguardar, para fugir, para me tornar invisível, então preciso de entender friamente a utilidade (i.e.: necessidade) do mercado literário, de ser publicado, participar de todo o circo que sempre me assustou muitíssimo, ter/ser uma «voz relevante», noite de autógrafos, leituras de trechos do livro, mesas literárias, vão querer ouvir minhas opiniões a respeito de uma série de assuntos sobre os quais não tenho opiniões, o consentimento de pessoas desconhecidas, vão querer saber se li Proust, se li Joyce, se li Melville, se estudei os russos, se li os brasileiros contemporâneos…

É isto mesmo o que tu queres? Ou, na verdade, sempre romantizaste o ofício?

Nunca deste conta de lidar com as coisas externas, por que diabos achas que darias conta agora? Só porque tens um livrinho idiota publicado? Só porque escreveste umas frases edificantes, certo conteúdo estilístico (que muito brevemente será considerado kitsch, ultrapassado e senil)?

Obsessões, neuroses, ansiedades, agorafobia, isolamento são termos muito mais apropriados para a tua natureza. Mas só te dás conta disso quando precisas de encarar as demandas do mundo. Do contrário, idealizas.

* * *

As horas agradáveis, ninguém por perto, um frio aprazível que entra pela janela, o conforto que a chávena de café oferece (está simplesmente ali, estática, não quer nada, não exige nada). Permaneço diante da folha em branco e passo horas inteiras assim, como se meditasse, sem escrever uma única palavra. O silêncio em que nos recolhemos antes de dar o salto — como diria Pavese. Eis o que de facto me agrada, o que me conforta: a solidão, os livros, meus pensamentos, e uma borracha.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de setembro de 2022


Insônia (segredos do riacho)

Marinheiro perguntou:

— Senhor, tem confiança neste barco?

Ao que o capitão respondeu: o suficiente [pausa]…, o suficiente.

Homens do mar que fumam cachimbo, mancam da perna direita (ou esquerda), têm âncora tatuada no bíceps braquial, etc.

À noite, permitem-se visitas aos estabelecimentos etílicos.

Escreveram tanto que não soam mais como seres humanos, não falam, não agem, nem caminham como seres humanos, protegem-se dos olhares das outras pessoas, andam de cabeça baixa, vista esquecida num ponto de fuga invisível.

O casco de uma tartaruga, que é tanto o corpo quanto a casa do animal.

Escrevem ficção (realidades inventadas [realidades que {ainda?} não foram]) para expressar os múltiplos que habitam a própria caixa craniana. Bifurcações. A cada decisão que tomamos, uma infinidade de outros caminhos deixa de ser percorrida.

Hoje decidem permanecer ao esconderijo, enquanto lá fora pode estar a oportunidade que tanto esperavam. Ou aquele tipo que fura o sinal vermelho e a poucos metros dali colide mortalmente com outro automóvel.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de setembro de 2022


Aparências simbólicas

Se está envolvido em uma data de projetos (música, ilustração, fotografia, etc.), escritor se aborrece e sente falta da simplicidade de ter apenas a escrita como ofício, mas quando só faz escrever, nada além de escrever, quando a escrita é a única musa bajulada, cérebro procrastina e escritor quer logo estar envolvido numa data de projetos novamente.

Insistir na dicotomia: mundo exterior/vida interior. O que vem dos «outros» e o que se constrói, como se diz, «por dentro».

Palavras malditas e repetitivas: fantasia como estratégia de resistência. Aquilo que a realidade te oferece não é o bastante, de forma que crias a tua própria. Agentes anestésicos temporários. Controlas o caos, mesmo que a miragem se desmanche diante dos teus olhos.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de agosto de 2022


Vilanias oportunas (a cama é a mesma, mudou foi o homem que nela deitava-se)

De manhãzinha, o escritor abre a porta da cabana. Está tudo calmo, tranquilo. Ao longe, nuvens de tempestades.

O barulho da motosserra confunde-se com os acordes hipnóticos de Everything you do is a baloon, Boards of Canada.

Sossego prolongado, verdadeiramente ininterrupto, a isto chamam de morte. Antes de o escritor nascer, havia também esse silêncio, essa mesma escuridão, mesma ausência.

Presente suspenso — sem sentidos.

Se não queremos ver, fechamos os olhos e não vemos. Com a audição, no entanto, é muito mais ardiloso fazê-lo. Há sempre qualquer ruído que ultrapassa os muros.

Incontáveis aflições particulares que tanto perturbam o escritor. Quando bem-humorado, a escrita floresce, há paz, prosperidade. Mas basta-lhe uma intempérie para tudo se tornar feio de se ler, triste, macambúzio, e paraíso transforma-se em deserto, como diria um erudito.

River, Hiatus («Parklands»). A chuva cai, escritor fecha a porta da cabana.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de agosto de 2022


Manuscrito

O início não faz muito sentido, ela disse, permaneceu em silêncio durante alguns segundos e continuou, «quer dizer, o meio, o fim, nada ali faz muito sentido». Ele tentou disfarçar.

(Pela manhã, guerreiros zen que tinham acabado de ler pensamentos de Laozi, também conhecido com Lao Tzu ou Lao-Tze [nome próprio: Li Er], são atacados por espírito maligno, possivelmente fruto da imaginação dos guerreiros, pois fumaram ópio durante a leitura do livro Tao Te Ching, que, a julgar pela capa surrada, devia ter já uns bons noventa e sete anos. Os guerreiros zen não falam chinês, de forma que o Tao Te Ching que eles possuem é uma tradução. Um dos guerreiros do grupo por vezes se questionava se muita coisa não teria se perdido no processo de traduzir os pensamentos do sábio Li Er para outros idiomas. Mas agora o guerreiro não tinha tempo para esse tipo de miudeza, agora precisava de lidar com o espírito maligno.)

Eu peço imensas desculpas, ela disse.

Enquanto ela se afastava, ele lembrou de um dia em que estava a assistir à novela com a mãe, e era uma televisão antiga, desengonçada, e numa altura ele simplesmente levantou e disse: esta televisão é velha, não me apetece… A mãe o puxara de volta para o sofá com certa violência (digamos violência 8 — numa escala de 1 a 10) e o fez prometer, ou melhor, jurar que nunca mais chamaria a televisão de velha, acrescentando ainda: não apenas esta televisão (ela apontava para a televisão), mas qualquer outra televisão.

Televisões têm sentimentos, ela disse, e chorava, e assistia à novelinha vespertina.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de agosto de 2022


Vidas, interiores

Necessário haver certo equilíbrio entre escritor disciplinado — que adota rotinas rigorosas, «bate cartão», duas mil palavras por dia, foco, meta —, e escritor espontâneo — que não leva o ofício tão a sério, distraído, boêmio, travesso, contraditório.

O escritor que lá fora tem de lidar com a imprevisível realidade, precisa do interior do próprio gabinete para lhe sustentar as ilusões. O escrutínio alheio é como uma radiografia: fique muito tempo diante dos raios X e sairá com toda a sorte de cancros.

Escrever é um prazer voluntário e não determinista. 

Publicado por P. R. Cunha / 26 de agosto de 2022


Mutações

Alberto trabalha numa empresa de inteligência artificial. Ele nunca viu o próprio chefe pessoalmente. Na verdade, nunca viu pessoalmente qualquer funcionário da empresa. Todos trabalham em sítios remotos. O nome da empresa é Colossus. Segundo a página web, o nome é uma homenagem ao vídeo-jogo dos anos 1970 chamado Colossal Cave Adventure. Alberto nunca percebeu a semelhança. O computador que ele utiliza é um MacBook Pro 16 polegadas. O computador pertence à Colossus. Se, ou melhor, quando Alberto for demitido, terá de devolver o MacBook Pro 16 polegadas. Sem nenhuma avaria, como se diz. O MacBook Pro 16 polegadas chegara pelos correios na manhã do dia 23 de maio. Estava dentro de uma caixa de papelão, todo coberto de plástico bolha. As reuniões da Colossus são realizadas através de softwares de videoconferência. Zoom é o software mais requisitado para essa finalidade. Plataformas como Altspace, Beat Saber, Bigscreen, Rec Room, também já foram testadas. A sala eletrônica que Alberto mais gosta é a VRChat, por causa dos avatares pós-modernos. Nas férias, Alberto assume o corpo desengonçado de um avatar feminino a que ele chama de Dorothy.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de agosto de 2022


Proposições (ou abuso de figuras retóricas)

1 Se deixado em paz, o escritor prefere não se mover.

1.1 Contempla certas possibilidades interiores.

1.2 Gatilhos.

1.3 Senta-se à escrivaninha — toma notas.

1.4 Depois que começa a escrever, não gosta de parar.

[Segue, portanto, os princípios da inércia, o escritor.]

2 Se quiserem que ele aja diferente, uma nova força terá de ser aplicada.

2.1 Caso contrário, permanecerá inerte.

2.2 Extensão contínua.

3 Outra boa analogia seria chamá-lo de rogue planet.

3.1 Planeta flutuante livre, interestelar, desgarrado, nômade, órfão, sem sol, sem estrelas, sem limites.

3.2 Objeto de massa planetária que não gira à volta de nenhum astro.

3.3 Planeta (do grego πλανήτης): viajante.

3.4 Escritor-viajante à deriva no espaço.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de agosto de 2022


Ânimo para continuar algo que requer esforço*

Não sei se é coincidência o escritor amiúde preferir ambientes com características de refúgio. O silêncio de uma biblioteca, as seções retangulares das livrarias, o café hermético e anônimo, ou mesmo o próprio escritório — com as paredes de livros a protegê-lo (dir-se-ia) das intempéries externas. Pode até lhe apetecer estar algures, mas os castelos literários serão sempre a zona de conforto do escritor.

*Estimulante entregar-me a estes trechinhos despretensiosos numa altura em que mergulho nas profundezas de projeto longo e exigente, cujo fim ainda se mostra um bocadinho inalcançável.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de agosto de 2022


Por hábito

O escritor é aquele tipo que chega ao fundo do poço, é esmiuçado, humilhado, negligenciado, ignorado, jogam-lhe dejetos, cospem, xingam-lhe de idiota, estúpido, alienado, até que alguém estende uma corda, o escritor sobe à superfície e diz «se calhar sou mesmo louco, mas quero descer ali outra vez», etc.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de agosto de 2022


Dominical

O reverendo Wilson estava a sair da capela numa agradável tarde de domingo quando um rapaz montado na bicicleta passou, como se diz, raspando. Sem desviar a cabeça, o rapaz gritou: olha por onde anda, pinguim. Muitos teriam deixado aquilo para lá, talvez até fizessem troça do incidente, ainda mais num dia tão soalheiro, porém tal não era o feitio do reverendo Wilson. Tomado de uma ira sinistra, levantou a batina até aos joelhos, correu atrás da bicicleta e, numa altura, não se sabe ao certo como, conseguiu derrubar o rapaz na calçada. Ambos começaram a se debater. Com o auxílio do próprio crucifixo — preso a uma corrente de ouro —, e enquanto repetia «quem é o pinguim agora, diga!, quem é o pinguim agora», o reverendo estrangulara o rapaz diante dos transeuntes, que não podiam acreditar na cena grotesca que presenciavam.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de agosto de 2022


Lista de supermercado

Contra todas as probabilidades, Martha estava realmente feliz quando chegou em casa. Ela pendurou a bolsa e o casaco no átrio e foi direto para a despensa averiguar se, desta vez, o marido comprara os produtos certos. O marido, a julgar pelo barulho estrondoso da TV (narrador esportivo explicando qualquer coisa sobre um possível adiamento da partida), estava na sala. Martha abria lentamente as sacolas, analisava o conteúdo de cada uma delas como se fosse uma inspetora sanitária. Logo percebeu que o marido havia comprado a marca errada de manteiga, esquecido dos biscoitos de baunilha, e deixado os pães amassarem. Ela então puxou uma das gavetas na cozinha, tirou de lá o revólver, caminhou até à sala. Disparou três vezes — duas balas atingiram a cabeça do marido, enquanto a outra se alojara caprichosamente na mesinha de centro.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de agosto de 2022


Insistência

E se ele não consegue escrever fica desnorteado, corre atrás disso, corre atrás daquilo, entrega-se a alguma tarefa absurda, conserta o ventilador, tenta polir a mesa da sala, vai ao mercado e não compra nada, sempre às pressas, engole o almoço, tropeça nos degraus, muito irritado, sem foco, procura justificativas para manter o moinho da vida funcionando, até finalmente conseguir escrever de novo.

Se não um gosto pelo abatimento, pelo menos um acordo tácito entre as partes.

Escritores pessimistas são os mais aptos a suportar grandes aguaceiros. Atmosferas trágicas não o intimidam. Abrem o chapéu-de-chuva e continuam a estrada.

Angústia como efeito colateral, imposto que o escritor precisa de pagar a título de disciplina.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de agosto de 2022


Padrões de conduta

Quando o escritor está a trabalhar num projeto de fôlego ele sabe que eventualmente as vicissitudes do acaso irão surgir para tirá-lo, como se diz, dos trilhos. Ele monta para si oficina subterrânea, complexa estrutura literária, tenta se proteger das intempéries externas. Foco, resiliência, rotina, continuidade, etc. Mera aparência de estabilidade. Tudo corria bem, até que algo terrível acontece. Escritor escorrega, debate-se na praia, como alguém que não sabe mais o que dizer.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de agosto de 2022


Planetário

Tema massivo que se destaca, uma enorme estrela no centro em redor da qual orbitassem diversos assuntos relacionados, e o escritor também flutua nesta cintura de asteroides, tenta se agarrar nos múltiplos objetos irregulares. Alguém diz: mas não sabes escrever sobre outras coisas? O escritor dá de ombros: até que me sinta à vontade para migrar, estarei atrelado a esta específica distorção da matéria. Talvez por não saber ainda como se expressar da melhor maneira possível, talvez por ter se apegado sobremaneira ao sistema e querer esgotá-lo antes de partir, talvez por sentir-se demasiado confortável, e o escritor não confia na força centrípeta, pode ser ejetado a nenhures: perder-se-ia. Por vezes acontece de ele achar que tem tudo esquematizado dentro da cabeça, escritor está a comprar frutas e legumes e tudo faz sentido, encontrara, enfim, um ponto de fuga, a forma ideal, volta a casa com ânimo redobrado, certo de que finalmente conseguirá explicar-se, mas quando se coloca a escrever, quando abre o caderno para o exorcismo, os fantasmas hesitam, as supostas palavras certas o traíram, aliás, provavelmente não havia palavra certa, foi enganado por miragens. Constrangido, o escritor então levanta, sacode-se, sabe que retornara ao ponto de partida — como um planeta condenado a repetir as mesmas jornadas de sempre.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de agosto de 2022


Cabernet Sauvignon (o caráter efêmero/transitório das uvas e dos indivíduos [ou tentativa de reforçar pontos supracitados]

Daqueles meses, ou melhor, daqueles anos de cega dedicação, noites insones, má alimentação, daquele sofrimento maníaco, daquelas batalhas para manter a sanidade, palavras após palavras após palavras, daquele desespero errante, não restou quase nada, com exceção de um livro estranho cujas páginas dificilmente encontrarão leitores. A memória gravada com tinta na superfície de papel, ou os bits-&-bytes elétricos armazenados no computador, informações fugidias, instáveis, supérfluas, sem destino estabelecido, mais uma prova da inutilidade (a curto, a médio, a longo prazos) das empreitadas literárias, esta ânsia irracional pelo prolongamento da própria consciência, mensagens engarrafadas (vidro pouco resistente) que de certeza irão se perder num vasto oceano de esquecimento. Depois dos bisavós, o escritor não consegue sequer lembrar o nome de algum parente que vivera há poucas gerações — seres humanos que nasceram, lutaram, trabalharam, escreveram, choraram e morreram sem deixar vestígio: como se nunca tivessem existido. 

Publicado por P. R. Cunha / 1º de agosto de 2022


Fuga preparada num sigilo altamente eficaz

A partir de quantas décadas o escritor começa a sentir que está a viver numa espécie de looping?, quando os momentos que antes se apresentavam como únicos e especiais passam a se repetir, quando grande parte da existência se replica — com imperceptíveis variações —, quando a rotina se consolida tornando-se agressivamente reconhecível, e mesmo uma viagem, uma aventura algures, um fim de semana à beira-mar que, num primeiro momento, parecem quebrar o ciclo vicioso, logo se revelam apenas mais uma viagem, mais uma aventura algures, mais um fim de semana à beira-mar, iguais a tantos outros que se acumularam no passado e a tantos outros que acumular-se-ão no futuro.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de julho de 2022


Desprendimentos

No final da década de 1950, a casa do meu avô era considerada uma das mais charmosas de Niterói. Não chegava a ser muito grande, porém a arquitetura colonial portuguesa, o agradável jardim de entrada, e os cuidados com os mínimos detalhes arrancaram — segunda a lenda da nossa família — elogios até de Frank Sinatra. Durante breve visita ao Rio de Janeiro o cantor teria se encantado com a residência e chegara — ainda segundo a lenda — a fazer generosa oferta para adquiri-la, proposta rapidamente recusada pelo meu orgulhoso avô.

Hoje, meros sessenta anos depois, a casa é um esqueleto de vigas e paredes arruinadas.

Sempre que termina de escrever alguma coisa, o escritor revisita essa história. O repositório de conhecimentos, o catálogo de textos, livros publicados, nada disso — por maior que seja o esforço, a despeito das horas e horas e horas de dedicação —, nada disso permanece. O escritor morrerá e será esquecido como toda a gente, ninguém se importará se ele foi uma boa pessoa, se trabalhara com afinco ou se procrastinava. Ao fim, a própria casa literária do escritor também se reduzirá a ruínas ilegíveis.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de julho de 2022


Paredes

O desafio seria pôr em prática aquilo que o escritor se propõe no mundo imaginário, quando sentado à mesa, inclinado a meditar e a reconstruir. Já se sabe que o que funciona no papel não necessariamente funcionará quando colocado à prova diante dos outros — sem as intervenções «divinas» do próprio escritor, as coisas podem dar para o torto. Longe do bunker reina o caos, a imprevisibilidade. Eis a importância da lentidão, pois ela permite criar raízes e o escritor não vacilará ao ser confrontado pelas incontáveis dúvidas externas. Sê lento a escrever, sugere um antigo, diferentemente das inclinações contemporâneas em que se estimula a velocidade, o acúmulo quantitativo, o tempo das máquinas. De que adianta ler-e-escrever muitos livros se nada é acrescentado, se fechamos as brochuras como se nada tivesse acontecido? Alguém possui vários objetos, mansões, quintas, ouros e fortunas, mas nada disto está nele próprio, apenas à volta, como bem sabiam os estoicos. O texto, portanto, como personalidade em constante formação, e a cada tijolo o escritor se sente mais seguro de si, menos duvidoso.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de julho de 2022


Observam o escritor e atribuem àquela figura taciturna uma enigmática condição — mas por dentro a lógica é outra

Confesso que existo num mundo à parte, imaginário, escreve o escritor. Não dou conta…, quero dizer, nunca dei conta de lidar com a realidade, o mais simples pormenor burocrático (boleto, fazer compras, ir ao banco [mesmo online], etc.) me dá nos nervos, trabalhei na redação de um jornal e não havia um dia sequer em que eu não olhasse para a janela e pensasse: hoje eu pulo, de hoje não passa!, estar fora com outras pessoas deixa minha cabeça à roda, enquanto meu psiquiatra — com naturalidade desconcertante, como quem comenta que vai passear no parque este sábado — explica que essa inquietação, esse «pavorzinho» (diminutivo dele) de estar fora é chamado de agorafobia pela literatura médica, e depois ele me oferece um café, o psiquiatra, e garante que vai ficar tudo bem, que outras pessoas possuem neuroses muito mais graves e mesmo assim dão conta de levar uma vida relativamente saudável. A verdade é que acredito nas minhas mentiras, na minha imaginação, acredito na arquitetura que criei à laia de lidar com as minhas limitações infinitas, escreve o escritor. Invento narrativas, projeto-me para além dos caracteres na página, sinto como se tudo aquilo estivesse realmente acontecendo comigo — e quem conseguiria me convencer que não?

Publicado por P. R. Cunha / 28 de julho de 2022


Mares polares

Para lidar com esse silêncio glaciar — o universo em expansão nunca deu a mínima para os afazeres humanos —, continua o escritor, há uma variedade de narcóticos (anestesias [locais & gerais]), computador, aplicativos de namoro, sexo virtual entre avatares, indústria do entretenimento, desligar o cérebro, suicídio filosófico, não fazer perguntas, ou melhor/pior, nem ao menos querer fazer perguntas, os livros religiosos já «têm» as respostas, as ditaduras utópicas já «têm» as respostas, os algoritmos já «têm» as respostas, tudo o que a pessoa precisa de fazer é reclinar a poltrona & relaxar, não refletir sobre o despropósito, sobre o comboio de dores & desespero & disparates que transpassa a nossa existência qual navalha afiada, recorrer aos ansiolíticos em caso de emergência: Alprazolam, Nitrazepam, Diazepam, sedativos, antidepressivos, Agomelatina, Fluoxetina, Reboxetina, manter-se raso, à superfície, estável, por que as coisas mais estúpidas me afetam tanto, escreve o escritor, ruídos, lembranças indecorosas, futilidades, manchas na madeira da escrivaninha, a vida é demasiado curta.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de julho de 2022


Sem fim — caminhar na direção do abismo

O escritor constrói para si estruturas de valores & objetivos: propósitos artificiais. Digamos que ele escreva para surpreender os amigos, para se destacar de alguma forma, para uma noite de autógrafos na livraria envidraçada, para aliviar-se, para (re)conquistar, por vingança, à fama póstuma, pelo simples prazer de ter o próprio livro publicado. Se um dia essa rede simbólica desaba — noutros termos, escritor se depara com o absurdo, com o ridículo & com a estranheza do ofício ao qual há anos se dedicara assiduamente —, ele se vê condenado ao fracasso. Perde-se o prazer desinteressado, o improviso, o diálogo com o acaso, ou a conquista do inútil, como diria Herzog. A escrita se torna mecânica, crua, sem fôlego, ao que o escritor entra num arriscado ciclo vicioso, pergunta-se qual a finalidade de tanto sacrifício, estudos-pesquisas-revisões, por que continuar, qual o sentido? Ele procura respostas e não encontra nada além de um frio e indiferente silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de julho de 2022


Impressões provisórias de uma breve viagem a Arraial do Cabo, Rio de Janeiro

As brochuras e os postais de Arraial — como a cidadezinha é carinhosamente chamada pelos nativos — são deslumbrantes: céu limpo, água cristalina, as tonalidades hipnóticas de azul, areias de algodão. Parecem fotografias tiradas num paraíso há muito perdido, ou as ilustrações de algum relato de viagem do Joseph Conrad. Mas o que essas imagens não costumam mostrar é a presença humana, e isso, sabemos, modifica tudo. Milhares de seres humanos, cada qual com um conceito específico do que seria conviver entre os pares, querendo usufruir dessas paisagens encantadoras, ao passo que corriqueiro passeio transforma-se em caos porque há tanta gente que a limitada topografia da região simplesmente não consegue suportar. Como várias praias só podem ser acessadas pela água, o oceano se transforma num terrível estacionamento de embarcações, teatro de batalhas de diversas agências de turismo, enquanto a fumaça dos motores, os gritos dos marinheiros e o ziguezague dos botes que levam até à areia os banhistas vestidos com coletes salva-vidas lembram mais o desembarque na Normandia durante a Guerra Mundial do que um presságio de entretenimento soalheiro. Em suma, chega-se em Arraial do Cabo à mesma conclusão de sempre: belezas naturais e geográficas não devem ser responsabilizadas pelo caráter perturbador do animal humano.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de julho de 2022


Fantasmas existem

Parece plausível a figura amorfa, espectral, de difícil discernimento a que os antigos costumavam chamar de assombração. Mostram-se por toda a parte. Contemplamos os retratos dos mortos como forma de amenizar saudades: fantasmas. O perfume preferido do meu avô que minha mãe ainda guardar para lembrar do pai de tempos em tempos: fantasma. A carta de um relacionamento mal resolvido que encontramos numa gaveta: fantasma. Colega de juventude que reaparece como que do nada depois de décadas sem dar sinal de vida: fantasma. A nossa antiga professora do primário que está na televisão a falar sobre desmoronamento de terra que arruinara o prédio da escola: fantasma igual.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de julho de 2022


Esmagador

Outro dia, outra manhã, outra chávena de café, a expectativa do recomeço, a que artimanhas se dedicaria o cérebro para anestesiar angústias, aliviar o desespero, a culpa, como o cérebro, em suma, coloca tudo isso debaixo do tapete, & a cada nascer do sol esta ilusão de um novo início, «hoje faço tudo certinho», nova chance, deixar-se tentar por atividade virtuosa, filosofia, literatura, dedicar-se às tintas, «os mesmos erros não cometo mais», agora é diferente, estou mudado, ou aquela imagem (difusa & confusa) de continuidade, acréscimos contemplativos, um degrau por vez, sem saber ao certo qual seria o cimo da escadaria, aonde leva, &tc., alma corroída por remorsos, louca voluptuosidade (sofrer as consequências dos próprios atos, como diria um antigo), que procura apagar(-se), ignorar(-se), seguir em frente, o que é bem possível se as catástrofes não se mostrarem aniquiladoras o bastante, quando os vícios ainda não se transformaram em hábito, pois o tempo é máquina de criar vestígios.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de julho de 2022


Desproporcional

Sabe-se que o que é necessário para o escritor não é a quantidade, mas sim a eficácia das palavras. Muitos troçavam do estilo «demasiado simples» de Karl Kraus, ao que o aforista austríaco respondia — ficam furiosos pois consigo dizer em duas frases o que eles não conseguem num romance inteiro. O oposto também possui qualquer coisa de grotesco, como aquele jornalista preguiçoso que tentara abreviar Dom Quixote e David Copperfield dizendo que «Quixote enlouquece, e o sr. Copperfield envelhece».

Publicado por P. R. Cunha / 18 de julho de 2022


O gatilho criativo do escritor é inexplicável — ele senta, deixa o caderno aberto sobre a escrivaninha, faz movimentos giratórios com a caneta & quando ele menos espera lá estão as palavras escorregando na página, como um grupo de bailarinas apressadas

A cada dia uma nova torrente de informações: crimes, acidentes de trânsito, golpistas, catástrofes, assaltos, homicídios, tiroteios, novos nomes, novas senhas, compromissos, tarefas enfadonhas. Há muito que o escritor se pergunta qual seria o verdadeiro propósito desse acúmulo desacerbado, e como nunca encontra justificativa satisfatória, decide não participar. Sai de cena, como se diz. E talvez a imagem de «permanecer atrás das cortinas, nos bastidores» seja inapropriada, pois a verdade é que nem ao teatro o escritor se faz mais presente. Longe das vistas, escreve qualquer bobagem para se distrair, lê sobre avanços neurológicos, escuta o vaporwave antes de adormecer, e tudo bem.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de julho de 2022


Mergulho na correnteza do tempo

O escritor percorre trilha encoberta por espessa camada de névoa. Ele começa a atravessar ponte sobre um precipício, mas, como não consegue ver nada, não percebe o abismo que se extende para o infinito. Por meio dessa curiosa ignorância, o escritor segue adiante, firme e convicto, sem nunca saber que está a meros dois passinhos da queda sem retorno. 

Publicado por P. R. Cunha / 16 de julho de 2022


Caprichos do clima

Acolheu-se de bom grado à obscuridade da vida privada, desistiu da megalomania, dos excessos, das festas, das pompas, das aglomerações, preferiu a tranquila simplicidade, o lusco-fusco, anonimato. Escritor compartilha pensamentos, pequenos nadas, utiliza linguagem avulsa (quase um idioleto), publica-se quietinho numa ilha remota no meio desta vasta World Wide Web.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de julho de 2022


Felicidade retrospectiva — um basta a tanto adiamento

A ideia de livros não escritos, de futuras narrativas, estimula o escritor e promete amenizar o aguaceiro intempestivo que perturba-o antes do término de uma obra de fôlego. Quando não está a escrever, o escritor costuma se entregar a bebedeiras descontroladas, boicota-se, ingere substâncias venenosas, fica de muito mau gênio, adota (inconsciente e/ou deliberadamente) postura do exilado enigmático, desiludido, tomado pela ânsia instintiva de voltar ao refúgio dos velhos hábitos, isto é: dedicar-se à literatura infinita, sentado à escrivaninha de mogno com a ideia fixa de que «gostava de morrer neste sítio».

Publicado por P. R. Cunha / 14 de julho de 2022


Por vezes o trabalho do escritor vai bem, o livro vai bem, a vida (na medida do possível) vai bem e ele de facto precisa de tomar cuidados para não se tornar, como se diz, uma pessoa enjoativamente ridícula

O café, pet friendly, as mesas ainda vazias, o sol matinal invade o terraço num ângulo agudo, o escritor em local e tempo particulares permite-se este átimo de amenidade, fôlego, enquanto o mundo lá fora não fica quieto, nunca fica, ele mesmo — o escritor — longe de ser um sujeito sereno, pelo contrário, homem desequilibrado, que gosta de se fazer invisível, escreve este parágrafo tentando evitar o sentimentalismo gratuito.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de julho de 2022


Autoexame (fenômenos periódicos [causas e/ou influências])

As pessoas podem acusar o escritor de inescrupuloso, insensível, arrogante, instável, tirano, ele não liga. Mas o terrível é quando o próprio escritor chega a essas conclusões, quando ele se analisa e diz: sou um ser humano ruim, desprezível, sou uma enganação, etc. Enche-se de culpa, remorso, vergonha, arrepende-se, tenta consertar as coisas e só consegue piorá-las, afunda-se cada vez mais, até se ver numa rua sem saída. No fundo do poço, tenta encontrar justificativas, pretextos, culpados, mesmo que o escritor saiba desde o início que ele é a justificativa, ele é o pretexto, ele é o culpado. O escritor pode pensar: foi a minha educação, os meus amigos, os meus pais, até chegar ao ponto de sempre, não foi a educação, nem amigos, nem os pais, foi o escritor, ninguém além do próprio escritor. O cérebro dele é comprimido pelo desespero, e, à guisa de sobrevivência, começa a forçar o esquecimento, a única maneira de lidar com tantas perturbações, esquecer, e remanejar a culpa, transformar, triturar a culpa, dilacerar a culpa, inventar narrativas para inocentá-lo, manter o escritor respirando, mantê-lo lutando, e toda a sorte de desastres torna-se mero vestígio daquele gigante insaciável que mastigava o escritor de bocadinho em bocadinho. Por fim, com o devido distanciamento, ele se reinventa, baixa a guarda, volta às miragens que lhe davam sustentação, numa cega (e momentânea) tentativa de estabilidade.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de julho de 2022


Saudades do afastamento

O escritor não consegue reler os livros favoritos sem uma sensação de perda. Parece um pouco como viajar para a mesma cidade depois de algumas décadas — a paisagem se modificara, o viajante também.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de julho de 2022


Entre limites

Há escritores, escreve o escritor, que só se sentem à vontade diante da própria escrivaninha, a mesma sala de trabalho de sempre, com as canetas da praxe, o caderno pautado, a chávena de café, a cadeira, o horário habitual; e outros que escrevem em qualquer sítio, qualquer altura, numa folha avulsa, num guardanapo, na palma da mão se for preciso, não se importam com os ruídos da vizinhança, latidos de cachorros, podem sentir uma terrível enxaqueca e escrevem — num comboio, saguão de aeroporto, átrio de hotel, dentro do táxi —, faça chuva ou faça sol, como diria um antigo. 

Publicado por P. R. Cunha / 5 de julho de 2022


Interrogatório

Estás em casa, é noite, lês um livro na confortável poltrona perto da janela, tudo tranquilo, perfeito, como querias, o tempo suspenso, luz baixa, toca Sinatra ao fundo, ideias surgem, o copinho etílico…, até que o teu telemóvel vibra, desbloqueias o aparelho, alguém a te convidar algures, levantas, vestes-te e abandonas o refúgio, sem perceberes (ainda) o erro que cometeste.

O que leva as pessoas a não ficarem quietinhas no próprio canto — reflete o escritor —, mesmo sabendo que muitas vezes o sair é mais prejudicial do que o permanecer: uma intrínseca necessidade de deslocamento?, disposição genética (nossos ancestrais tinham de abandonar as cavernas para se alimentar, reproduzirem-se, etc.)?, aversão à inércia?, medo da solidão?, ingênuas idealizações (há sempre algo melhor «lá fora»)? 

Publicado por P. R. Cunha / 4 de julho de 2022


Aparência daquilo que deveria ser

Depois de um curto período de calma e estabilidade, eis que a cabeça do escritor começa a criar fantasmas novamente: ouvido hipersensível, agarra-se às contradições, inventa toda a sorte de conflitos, como se agir dessa maneira belicosa pudesse gerar um qualquer propósito, foco, mesmo que ilusório. Sofrimentos, prazeres, imprevisibilidades, nada mais do que isso, escritor compreende. No entanto, há quem preferia anestesiar-se com juízos de valor quando diante do precipício: não pode ser coincidência, passamos por determinadas situações por alguma razão, nada é circunstancial, deve existir algum significado por trás de tantos absurdos, etc., etc. Passam a vida toda procurando motivos, e tropeçam no abismo sem jamais encontrá-los.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de julho de 2022


Batalha dos elementos

A tranquilidade é rara na vida do escritor, em que o «estado normal» parece ser a inquietação, por vezes uma espécie de alerta constante — efeito Doppler. Qualquer pequeno detalhe pode tirá-lo, como se diz, dos trilhos. Enquanto caminha numa aprazível tarde de inverno, sob a abóboda do imenso céu cor de cianureto, o escritor elabora lista mental com coisas que lhe causam perturbações (stress, em inglês):

¶ Trânsito;
¶ Overdose de telemóvel;
¶ Ficar muito tempo sem ler e/ou escrever;
¶ Exposição prolongada a atividades sociais;
¶ Botafogo de Futebol e Regatas;
¶ Velocidade(s).

Publicado por P. R. Cunha / 2 de julho de 2022


Reincidências

À noite, antes de dormir, o escritor cogita abandonar a escrita, tornar-se saudável, ir viver para as montanhas, até que, no dia seguinte, logo de manhãzinha, lá está ele tomando notas novamente:

Processos repetitivos (rotinas) oferecem uma falsa impressão de controle sobre o tempo.

E depois de tantos anos a descrever, escritor conclui que tinha inventado verdades.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de julho de 2022


Loucos da vã esperança

Jogaram escritores dentro de um balde (desses que podemos encontrar nas cozinhas de qualquer residência). Os escritores tentam fugir do cativeiro. A cena é comovente. Quando um deles está prestes a alcançar a borda do balde, os outros vêm é puxam-no para baixo. Ora conhece-se a mentalidade dos escritores: raça muito cruel. Sempre que não conseguem controlar um colega de ofício, devoram-no.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de junho de 2022


Tarefas que exigem solidão e doses significativas de sofrimento

O futuro do escritor está repleto de fracassos em potencial: livros inacabáveis, ou um livro que depois de terminado não será lido por muita gente, livros incompreensíveis, livros absurdos, além de outras tragédias, acidentes, corações partidos, desprezo, doenças neurológicas, abandonos, alguém que ele ama de certeza morrerá, alguém imprescindível, alguém de suma importância, e o próprio escritor não escapa da ceifa afiada por tanto tempo (mais um trio de décadas, quem sabe?)… Porém, hoje, pelo menos hoje, tudo está certinho, e o escritor permite-se desfrutar do café, do bolo de milho, e Mariachi México de Pepe Villa toca no rádio.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de junho de 2022


Cabeça nas nuvens

O escritor se recorda de uma estranha conversa que teve com certa socióloga alemã ao Literaturnoye Kafe (Café Literário), na avenida Nevski, nº 18 — São Petersburgo. Tomavam cappuccino, a socióloga fitava o escritor e dizia num russo difícil que ele era aquilo a que os alemães chamariam de Luftmensch. Alguém que se dedica a atividades filosóficas e intelectuais em vez de lidar com questões práticas, ela tentou se explicar. Como o escritor permanecia calado, a socióloga prosseguiu dizendo que Luftmensch interessa-se por arte, música, literatura, luas de Saturno, e não dá a mínima para as convenções capitalistas, não quer dinheiro, nem fama, essas coisas. Sonhador impraticável, faz planos mirabolantes, alma contemplativa que prefere ansiar por mundos diferentes, a socióloga dizia, e quando Luftmensch não encontra o que quer na chamada «realidade» (socióloga fez aspas com os dedos), cria mecanismos de defesa para lidar com frustrações, reinventa-se, destrói-se, isola-se. Pouco antes de ir morar na Rússia ele leu algo parecido do próprio psiquiatra, que anotara num receituário timbrado que o escritor «existia em universos imaginários, longe do convívio social, incapaz de manter empregos regulares, sempre às margens, satisfeito em naufragar num intricado sistema de valores criado por ele mesmo: traços de bipolaridade, talvez esquizofrenia». A socióloga misturava russo-com-inglês-com francês-com-alemão e o escritor percebera que um sujeito muito parecido com Alexander Sergeyevich Pushkin (a mesma barba, o mesmo cabelo desgrenhado) acabara de entrar no Literaturnoye Kafe em busca de etílicos.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de junho de 2022


Lições de oratória

Antigamente, o escritor recitava para as namoradas aquilo que estava a escrever na altura. Faziam sexo, elas aproveitavam que ele se mostrava vulnerável e perguntavam: podes ler em voz alta o que está escrito nos teus cadernos? O escritor então se ajeitava na cama, colocava o travesseiro às costas, caçava os óculos na mesinha de cabeceira e com uma voz marcante, severa, bem diferente da habitual lia os parágrafos — até virar-se para a mulher que, amiúde, ou bocejava, ou dormia, ou procurava o controle remoto de uma televisão que nunca existiu. Hoje (precavido, vacinado, protegido por uma camada de gelo cada vez mais espessa), o escritor não lê os esboços nos quais está a trabalhar nem para o próprio reflexo. 

Publicado por P. R. Cunha / 27 de junho de 2022


Traças no tempo (chapéu desalinhado do senhor rural)

A cada ano um cansaço
diferente, mais agudo,
debilitante — como se
o nível do mar se elevasse
e respirar (algo natural,
espontâneo) já não fosse
assim tão simples —, a água
resvala no rosto, entrando
pelas narinas, incômoda
sensação de afogamento,
enquanto no céu nuvens
que antes se aglomeravam
agora apartadas em pequenos
e insignificantes vapores, ou
o boneco de neve que derrete,
deformando-se durante
o processo.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de junho de 2022


Peregrinação

Ele estava a lavar a louça enquanto observava pela janela o sol alaranjado que se escondia atrás da floresta. A maioria dos convidados já tinha ido embora. No jardim, a esposa mexia nos cabelos, encostara-se no canto da mesa, conversava com três amigos. Bebiam vinho e riam de algo que ele não conseguia escutar. Ele saiu pela porta da cozinha, enxugou as mãos com o pano de prato e disse: tudo bem por aqui? Todos levantaram as respectivas taças e responderam que sim, tudo bem. Ele olhou para o céu — praticamente coberto pela escuridão. Depois, aproximou-se da esposa e a tocou no braço com uma ternura forçada. Os outros amigos se entreolhavam, sem saber ao certo como agir. Ele virou para a floresta e disse: quero lhes mostrar algo. Hesitantes, seguiram-no em direção às árvores. À medida que avançavam, o céu sem lua ficava cada vez mais parecido com uma enorme manta cósmica. Ele apertava a mão da esposa, os três amigos atrás, em silêncio. Chegaram ao vale perto da montanha. Ele apontou para o cume. Sentindo um medo incontrolável do que poderia acontecer, a esposa o puxou pelo casaco e disse: o que estamos fazendo, Brian?

Publicado por P. R. Cunha / 24 de junho de 2022


Telex

Sobre a escrivaninha do escritor há uma pistola que nunca foi disparada.

No inverno, a pistola fica escondida numa das gavetas da escrivaninha, e não sobre a escrivaninha.

O escritor é uma torre de rádio que demora a sintonizar. Quando finalmente encontra estação audível espalhada pelo espectro, tenta manter-se ali, captar o máximo de sinais que vêm de «fora», até surgirem as interferências.

Obstáculos, ondas radioelétricas, rotina do escritor prejudicada por: falência, fracassos, distrações (telemóveis, demandas, computador, correio eletrônico), intranquilidades.

Evitar o ruído externo.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de junho de 2022


Inconsistência

Tudo está sempre prestes a ruir, escreve o escritor, a desmoronar, um império de argila, acaso ingovernável. Oscilações: num dia, o êxtase da hiperprodutividade, acontecimentos de grande dimensão, ritmo alucinante; já no outro dia — prostrações, glaciar imóvel num deserto de neve, onde nada acontece.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de junho de 2022


Derivativo às ocupações habituais

Balonismo, ler, observar os astros com o telescópio caseiro, escrever-estilo-fluxo-de-pensamento, scuba diving (tentativas de não se afogar), assistir ao Botafogo, temporada da NFL, xadrez, bicicleta, caminhadas, filosofar, gravar canções no estúdio musical, cuidar do jardim, desenhos vespertinos, pores-do-sol alaranjados, fazer bolo de milho, inventar realidades nas quais o escritor amiúde se faz o único habitante.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de junho de 2022


Trincheiras

Um ataque de nervos, de fúria, lapso de razão, ansiedades, a culpa é dupla: por estar-se irascível e pelo arrependimento que se segue (não devia ter dito aquilo, nem agido dessa ou daquela maneira &tc.) — síndrome de pânico, pelos vistos, um gatilho necessário ao escritor (como que para despertá-lo), de tanto em tanto, perder as estribeiras, como se diz, escrever zangado, aborrecido, fora de si, estar no front, onde as balas voam, quando o que realmente importa é o agora, o instante, o presente, e o único desafio é expressar o impossível nos limites de uma folha em branco.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de junho de 2022


Degelo

Há muito o escritor aceitara que a literatura não é conciliatória, mas escapatória.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de junho de 2022


Rápida menção

O que o escritor escreve reflete aquilo que o escritor está a sentir/perceber na altura (uma série de acidentes inesperados [felizes e infelizes], projetos incompletos, medos e angústias, expectativas, sucessos e fracassos). Toda a escrita teria, portanto, elementos autobiográficos — independentemente dos propósitos do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de junho de 2022


Tanta coisa passa pela cabeça de quem escreve

O escritor que leva aos limites [entre sanidade e loucura] a própria escrita corre toda a sorte de riscos. Sabe que é inviável manter a máquina funcionando assim por muito tempo. Já no dia seguinte, se calhar até antes, percebe um cansaço, um estupor que o paralisa, e ele se dá conta do equívoco que cometera. Dagon, de H. P. Lovecraft, eis o início: «Escrevo esta história sob uma pressão mental considerável, uma vez que hoje à noite me apago». O estoque de morfina [que torna a vida suportável] próximo do fim, a ânsia pelo esquecimento ou pela morte [tinha vontades de ficar sozinho], reflexos de uma mente perturbada. E o remédio que cura, se tomado em grandes quantidades, gera náuseas, tonturas, ânsia de vômito — organismo repele. Ao passo que escrever de mais pode ser perigoso, muitos livros e se tem overdose, a literatura [um ato de sacrifício] precisa de ser cortejada com certa moderação. Um constante caminhar às beiradinhas da falésia vertiginosa, uma questão de equilíbrio, sempre.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de junho de 2022


Construção civil

Ele está sentado diante de uma máquina de escrever Olympia (estilo Paul Auster) que faz barulho estrondoso a cada tecla que pressiona como se o mundo estivesse a acabar e a máquina gritasse. O silêncio da manhã dominical, parece fita VHS com imagens de outras estações e que de súbito para numa cena particularmente importante ao escritor, «sentimental» dir-se-ia, ou Polaroid a retratar alguém que há muito já não existe. Passar o café, o cheiro do café, as lembranças do café, beber as lembranças. Nas últimas semanas, dedicara-se pouco à escrita — negligência, preguiça, tarefas mundanas, receios, compromissos diversos, &tc. Um escritor que não escreve é ainda um escritor? Sim, ele diz, pois não escrever é também uma forma de descrever. Estar compenetrado no desenvolvimento de uma estrutura criativa, neste caso: num texto, e esquecer, ou melhor, anestesiar-se temporariamente, mesmo que a barragem se mostre arruinada, prestes a desabar, e os jorros de imundices devastadoras que vêm depois. Tornar-se o próprio trabalho artístico — sem juízo de valor —, um processo em constante desenvolvimento, como o Templo Expiatório da Sagrada Família em Barcelona, cuja construção já dura 140 anos, e os andaimes, os capacetes, os tratores, os guindastes sugerem uma obra infinita. Abandonar o mundo real um bocadinho que seja e dedicar-se a este «outro» que se reinventa à guisa de lidar com o despropósito, com a falta de sentido, com a indiferença. Em suma: escrever, ou pensar em escrever, e por um momento abdicar de todas as coisas, inclusive de si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de junho de 2022


Luz

Realidade de mais
ofusca a vista do escritor
— que almeja cavernas.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de junho de 2022


Fonte

O silêncio, a distância, o ócio, o tédio, a angústia, o desconforto, a fuga, o acerto de contas, a neurose, o vazio, o imprevisível — fertilizantes da fazenda literária.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de junho de 2022


Turnos

A maioria dos escritores não o é a tempo inteiro. Frank O’Hara: funcionário de museu; Arthur Conan Doyle: cirurgião; Sebald era professor universitário; Vonnegut vendia automóveis, Margaret Atwood — barista; Paul Laurence Dunbar operava elevadores; Jack London: pirata de ostras (roubava peixes); William Faulkner, como se sabe, era carteiro, já Steinbeck trabalhava na construção civil; Douglas Adams, guarda-costas. A escrita surge da necessidade, do tédio, do escapismo. E, ao que parece, é preciso de ter um bom bocado de caos diário dentro de si.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de junho de 2022


Pretérito imperfeito (a sugerir nostalgias)

Passava as manhãs a escrever, com a janela aberta, luz leitosa iluminava a prateleira, e cada livro representava uma fuga à parte, um [re]início plausível, anotações despretensiosas acumulavam-se sobre a mesa, e o escritor se sentia uma navalha, um justiceiro, o dono do mundo.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de junho de 2022


Combalido

O escritor, sempre atento aos efeitos das tempestades, pressente mudanças irremediáveis que, brevemente, varrerão a própria rotina literária para o abismo.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de junho de 2022


Tonto

Às vezes acontece de o escritor passar imenso tempo sem conseguir ficar sozinho que quando finalmente se vê solitário ele não sabe como agir, por onde começar, e perambula pela casa, desnorteado, qual barata envenenada pelo inseticida.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de junho de 2022


Espelho

O escritor abaixa a cabeça, leva as mãos para as têmporas, fita demoradamente a folha em branco. Olhos castanhos e melancólicos que parecem esperar um comboio que nunca chega. Então, aos bocadinhos, ele percebe uma imagem a se formar na superfície do papel: alguém que lhe aponta o dedo indicador, como se o desafiasse. Diante daquele retrato hostil, ele enfim compreende do que se trata — a figura é o próprio escritor a dar broncas por ele estar tão distante da escrita, dos livros, da literatura… daquilo que, em suma, o faz querer respirar.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de junho de 2022


Possibilidades variáveis

O escritor é uma máquina registradora. Ele documenta tudo o que vê, o que escuta, o gosto, os aromas, os detalhes (supostamente) efêmeros, as conversas das garçonetes que fumam à porta do restaurante, os passos cambaleantes do idoso que atravessa a avenida movimentada sem se importar com o semáforo. Não se sabe ao certo quantas imagens o escritor leva na cabeça quando chega a noite e ele começa a se organizar para dormir — supõe-se que em torno de mil, mas a memória, sabemos, prega peças.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de junho de 2022


Relógio de bolso

Estou aqui para ver o diretor deste departamento [ele diz enquanto coloca a mala no chão]. [A secretária abaixa um pouco a armação dos óculos e, num silêncio ambíguo, fita o homem sobre as lentes.] [O homem repete, desta vez com ar solene, como um soldado que respondesse a um superior]: estou aqui para ver o diretor deste departamento. [A secretária larga a caneta em cima dos documentos empilhados e diz]: o diretor não está. [O homem pega a maleta do chão, aperta contra o peito, como se abraçasse um bebezinho]: pois bem, posso esperar, não estou com pressa, fosse ontem, talvez eu estivesse, aliás, com certeza, ontem eu estava com imensa pressa, tive de resolver coisas, mas hoje [pausa — aqui ele olha para o relógio de bolso, dá duas batidinhas no vidro do relógio], hoje, não estou. [O homem fica parado, a secretária diz]: e não quer sentar? De forma alguma, gosto de ficar em pé, auxilia as pernas [o homem diz e a secretária volta ao trabalho, analisa com minúcia a papelada]. Muitos papéis? [pergunta o homem, inclinando-se levemente para ver do que se tratam, e a secretária esconde os papéis com as mãos]: não é da sua conta. [O homem faz hum e continua parado]. Apetece-me fumar um cigarro [ele diz para si mesmo, e faz que vai acender o cigarro, ao que a secretária, já perdendo a paciência, aumenta o tom de voz]: aqui não se pode fumar, senhor [e aponta para a placa grudada na parede: «PROIBIDO FUMAR»]. [O homem faz outro hum, e uma careta de quem diz: justo, aqui não se pode fumar, e guarda o cigarro.] [A secretária atende ligação, balbucia qualquer coisa, coloca o fone no gancho]: não vem. [O homem, como se acordasse de um transe, diz]: como é? [A secretária diz]: não vem, o diretor. E como pode ter tanta certeza? [ele diz]. Acabei de falar com o próprio [diz a secretária], garantiu que não vem. [O homem coça a têmpora, apara o bigode]: mas é isto um disparate! [e continua parado, abraçando a maleta]. [A secretária volta a fitá-lo sobre as lentes dos óculos]: e pretende ficar aqui na mesma? Pretendo [responde o homem, sem se mover um milímetro sequer].

Publicado por P. R. Cunha / 29 de maio de 2022


Farsa

Perda de ingenuidade/inocência: processo que pode ocorrer de diversas maneiras. Como quando alguém diz: vou sempre estar lá para ti. E, poucos meses depois, esse alguém simplesmente desaparece. Um amor que acaba, uma amizade que definha, a indiferença de todas as coisas, a morte do meu avô, a morte do meu pai, o suicídio do meu tio, a minha morte, &tc.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de maio de 2022


Desconstrução

No meu aniversário de quinze anos, escreve o escritor, toquei no piano de uma tia húngara trechos de Mahler e quando me virei para beber água percebi que meu avô estava em prantos. Naquela altura compreendi que atingira o cimo da minha suposta carreira musical: fiz meu amado vovô, o centro de todo o universo, chorar. E, de facto, nunca houve outro momento sonoro em que sensações desse gênero se repetissem. Isso foi em outubro de 2000.  

Publicado por P. R. Cunha / 25 de maio de 2022


Espelho

O escritor dirige a palavra a si mesmo.

Tédio, o dia a passar lentamente depois de finalizadas as tarefas literárias. Preencher lacunas enquanto não se escreve — do contrário, enlouquece-se.

A folha em branco, esta psicanalista silenciosa, pede ao escritor que diga tudo o que lhe venha à cabeça, observe os impulsos, os incontáveis defeitos, deite aqui as falhas, ela pede, os fracassos, os sentimentos reprimidos, &tc.

Ao caderno, o escritor compartilha as entranhas, detalhes que não ousaria admitir nem para o próprio espelho (de aí o título desta entrada: espelho).

O que há nestas atividades literárias que impele o escritor — de resto tão recluso e discreto — às vertiginosas falésias da insanidade? Ali ele é um outro.

Segunda frustração: o escritor imagina determinadas estruturas narrativas, tudo faz muito sentido dentro da cabeça dele, mas as palavras [mal]ditas têm valores diferentes daquelas que ainda se mostravam meras representações mentais.

Constante exercício de aproximação, paráfrases, sem nunca chegar lá propriamente.  

Publicado por P. R. Cunha / 24 de maio de 2022


Impassível

A bebida alcoólica, mesmo qualquer outro tipo de entorpecente, que anestesia, induz profundo estado de suspensão, e faz o embriagado esquecer de tudo, como se — pelo menos por algumas horas — o inaceitável se tornasse aceitável, o insuportável, suportável, e as paranoias, as neuroses, as manias desaparecem, pois são todas construções da mente em alerta, mente racional, policialesca, e não têm lugar… ou melhor: não têm influência, nem importância, quando o cérebro se desconecta do mundo.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de maio de 2022


Ecos

Com o tempo (e com certa prática), aprende-se a não ter vergonha/receio de escrever — é uma questão mais de pudor do que de talento, esta voz que se expressa melhor no auditório da indiferença.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de maio de 2022


Cerimônia

O primeiro gole de café, as leituras inspecionais, as possibilidades, as pesquisas sistemáticas, a hesitação, a imprevisibilidade, os avanços-e-recuos, a trégua, o atabacado, as eliminações, os recomeços, as permanências, o destaque, os esconderijos, a catarse, as expectativas, o desconhecido — idealizar a escrita (como nas paixões sexuais) parece sempre mais prazeroso do que o resultado em si.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de maio de 2022


O que há de vir

gelo —
a dor do vento
folhas se despedem


Escritor ajeita os óculos, senta e escreve: Quinteros estava a tomar chávena de café durante o intervalo na fábrica, demasiado perto das máquinas trituradoras de pedra, quando a parte de trás do casaco dele (presente da ex-esposa) prendeu-se na engrenagem, que arrastou Quinteros para dentro, esmagando-o na frente de uma dúzia de funcionários atônitos; Guimard trabalhava nas docas quando numa manhã gelada de inverno as cordas do guindaste romperam-se e um contêiner de 24 toneladas caiu em cima dele e o achatara como uma panqueca; a senhora Hirsch, que morava sozinha e adorava gatos, estava a preparar o almoço e de início sentira leve desconforto no coração, uma alfinetada, até que a dor se tornara tão insuportável que ela apenas deixou-se cair, e quando o corpo foi descoberto por um vizinho, ficou claro que estavam a faltar certas partes, que, segundo a polícia, foram consumidas pelos animais de estimação da senhora Hirsch, gatos famintos devoram os restos mortais da dona à laia de sobrevivência; mas o que de facto o escritor quer dizer é que os livros lhe deram tudo — e, um dia, ele tornará a perder tudo, talvez de uma maneira igualmente trágica.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de maio de 2022


Variações

Fazer silêncio em um momento ou outro, prolongados períodos sem dizer palavra (fugas cada vez mais demoradas, caminhadas distantes a nenhures) — escrever também é falar, não escrever, portanto: forma de silêncio —, saber não escrever nada quando a ocasião exige, o escritor calado guarda a caneta no bolso, esquece a folha em branco sobre a mesa, e o dia a seguir, normalmente.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de maio de 2022


Explorar vastidões interiores em vez das que o rodeavam

Mudança gradual, do infinito cósmico ao epicentro de si mesmo. O que é que há que atraia o escritor para um determinado tema em vez de o atrair para outro qualquer? Ele se dá conta de que nunca conseguiu escrever enquanto satisfeito. Nem mesmo as coisas mais banais, nem as frases mais simples, mais estúpidas. O escritor precisa de estar deprimido, ou irascível, furioso, ou deslocado. O que o faz continuar é a insatisfação, um vestígio de sofrimento, certas dores. As temporadas felizes, embora desejáveis, não são bom tema para as pretensões do escritor. Alguma coisa tem de estar fora do lugar. Escrever, para ele, é isto: um constante acerto de contas.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de maio de 2022


Errância necessária

O escritor olha para a capa amarela do caderno e diz: quando eu terminar de preencher este caderno, começo a, de facto, escrever o livro.

Pensa-se normalmente no livro como uma continuidade: o escritor escreve o início, depois o meio, até ao fim. Receita de bolo. Ou como se fosse uma mera atividade mediúnica, cartas psicografadas. Essa é uma imagem enganosa. O livro — tal e qual a vida — faz-se desconexo, arbitrário, imprevisível.

As etapas raramente acontecem como planejadas. O escritor decide fugir para o litoral, dedicar-se integralmente ao livro, e não escreve uma palavra sequer. Enquanto no caos da cidade, em meio a balbúrdias e incontáveis desassossegos, ele vai e escreve noventa/cem páginas numa (como se diz) sentada só.

O estímulo, a matéria-prima, o combustível…, tudo isso pode estar escondido em situações inusitadas, fruto do acaso. Permanecer estático é talvez o maior risco à saúde do escritor, que, a cada dia que passa, fica menos surpreendido do que confessa.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de maio de 2022


Sigilo, as falésias de boca aberta, um coração vazio e seco

Períodos de imersão, isolamento — máquina de colagens, caçador de detalhes fugidios. Em larga escala: a falta de propósito/sentido de todas as coisas, e, mesmo assim, levar adiante especulações, e, mesmo assim, acordar, levantar, tomar banho gelado, o café, o pequeno-almoço. Numa palavra, história da loucura. Escritor anda tenso, perturbado, num estado febril, sempre prestes a explodir (não à toa Nietzsche dizia-se dinamite), escritor furioso, a discutir com toda a gente, a discordar de toda a gente, ninguém o compreendia, e a velha sensação de não-pertencimento, não-presença, ausências cada vez mais constantes, «inadequação», ele escreve, «invisibilidade», a vida-comédia, a vida-tragédia, teatro de marionetes (de novo esta imagem: manequins, bonecos manipulados por cordas ocultas atrás de uma tela), futuro absurdo, presente igualmente absurdo, respirar é absurdo, almejar é absurdo, ele escreve, preguiça de engajamentos, preguiça profunda de pessoas engajadas, doutrinas, imposições, e assim vai tudo, até desaparecer o brilho (o breve facho de luz entre duas eternidades de escuridão [como o próprio Nabokov verificaria por si mesmo]).

Publicado por P. R. Cunha / 16 de maio de 2022


Limitado pelo horizonte

De manhã —
tom leitoso do céu
fumaça de tabaco
confunde-se com a nuvem
solitária.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de maio de 2022


Perda momentânea do autocontrole

Aproximar-se do abismo. Sentir vertigem. Dançar à beira do abismo. Fitá-lo. Quase cair. O medo. Afastar-se do abismo.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de maio de 2022


Rotas de fuga

Não é comum, mas pode acontecer de o escritor aceitar convite para, digamos, festa na casa de alguém. Ao chegar lá, a primeira coisa que ele faz é aprender a maneira mais rápida de fugir sem ser notado — portas laterais, área de serviço com acesso à rua, atalhos no jardim, etc. Após minuciosa vistoria, o escritor finamente permite-se um qualquer relaxamento: agora já sabe direitinho como se vir embora.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de maio de 2022


Componentes elementares

Não raro o escritor se perde em ruminações a respeito da expansão cósmica, energia escura, o aumento exponencial do tecido espaço-tempo. Os planetas, as estrelas, as galáxias, o próprio escritor, os leitores são feitos de átomos finitos, com arranjos limitados pela física de partículas. E numa hipótese de o universo se expandir infinitamente, ele se pergunta, ou mesmo a probabilidade de lidarmos com multiversos, bolhas separadas por horizontes de eventos? Coisas esquisitas ocorreriam. Os arranjos atômicos começariam a se repetir, a gerar galáxias idênticas, com sóis idênticos, planetas idênticos — e aqui o escritor hesita —, com pessoas idênticas. Um outro escritor absolutamente igual a ele, a bilhões e bilhões e bilhões e bilhões de anos-luz de distância, estaria também a escrever sobre a expansão cósmica, sobre a possibilidade de existir um doppelgänger numa longínqua região do espaço. Condições assustadoras!, pensa consigo mesmo o escritor, que de súbito lembra do que dissera Arthur C. Clarke: ou estamos sozinhos no universo, ou não estamos — ambas as possibilidades aterrorizam.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de maio de 2022


Qualquer marca confiável de quem foi o escritor (e do que ele realizara [blogues, livros, medalhas, fracassos, decepções]) se perderá no ruído quântico — ou o teorema da poeira

Átrio de um centro comercial envidraçado o escritor anota no próprio bloquinho de apontamentos que «escrever fortalece o corpo, prepara a constituição para a fadiga, aclara a vista, ameniza o coração, aumenta a capacidade cognitiva, e, principalmente, alivia os efeitos nocivos da súbita mudança de humor».

Existe apenas uma quantidade finita de histórias que podem ser contadas. A linha do tempo das pessoas — ainda mais numa época em que se fetichiza a padronização — acentua determinadas limitações: nascimento, maternal, crescimento, escola, maturidade, universidade, mercado de trabalho, envelhecimento, decrepitude, solidão e morte. O ser humano como matéria-prima do escritor. Não à toa, alguém lê trecho num livro e diz: mas isto aqui foi escrito para mim!, este sou eu!, etc. É certo, portanto, que as narrativas se repetirão, várias vezes. A realidade, os desafios que toda a gente experimenta, as dores, as alegrias, as desilusões, as conquistas, as perdas, tudo está a ser registrado em livros, na cabeça de incontáveis escritores.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de maio de 2022


Fantoche

Logo depois do almoço o escritor entorna um copinho de bebida destilada com menta e permite-se um atabacado, agindo com moderação, sem se entregar à destemperança. Brinca com a fumaça a sair da boca enquanto lê qualquer literatura na confortável poltrona cinza — um dos poucos móveis que permitiu entrar no escritório —, desfrutando de bom grado dessas simples gratificações pessoais. À medida que a tarde consome o céu, a luz do sol atinge brandamente a capa do livro que o escritor está a segurar, num interessante teatro cromático.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de maio de 2022


Sonho dentro de sonho dentro de um sonho

Campo largo, sem prédios, sem qualquer construção humana, solo arenoso, como o leito de um rio moribundo, neblina forte e densa, difícil de distinguir o que se passa em redor, há uma árvore contorcida, sem folhas, o escritor enxerga tudo a preto e branco, por vezes em tons de sépia, vento gelado, tristeza indefinível que invade o escritor, nebulosidade, sensação de profundo desamparo, como se em queda livre, terra arruinada, quer desistir, mesmo sem saber ao certo de quê, a melancolia, aos poucos, transforma-se em alívio, esconderijo entre as nuvens, não ser visto, não ser alcançado, por ninguém, enfim.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de maio de 2022


À mesma ordem

Parece estar tudo bem com o escritor. Até que, de repente, ele tem um ataque de nervos, atitude intempestiva, tosca, absolutamente infantil. Como se arruinasse tudo o que estava a construir nos últimos tempos (i.e.: ser uma pessoa menos irascível, controlar-se, agir conforme a própria idade, etc.). Desnecessário dizer que essas oscilações perturbam imenso a alma do pobre homem, que passa dias ruminando o lapso de razão.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de maio de 2022


Periodicidade do movimento pendular

Absorver informações (estímulos diversos [livros, filmes, músicas, teatros, passeios ao parque, etc.]), digerir, triturar, misturar, exercício de remodelagem — a argila é a mesma, o pote é outro —, contemplar o que foi criado, mesmo que se mostre um fracasso, com rachaduras, um pote que não servisse para nada, que vazasse pelos cantos, dou-me por satisfeito, diz o escritor, afasto-me novamente à guisa de descanso, o cérebro também deve se alimentar de silêncios, de inércia, não pensar em nada, não pensar em livros, filmes, músicas, teatros, passeios ao parque, nenhum processamento, nenhuma estrutura narrativa, deixo minha mente sozinha, explica o escritor, paro de procurar sentido, adormeço, até que o inverno acabe.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de maio de 2022


Você interage com as pessoas e você está sozinho, você se explica e está igualmente sozinho

Livre-se das distrações. O escritor só acordará por um certo número de manhãs (não dá para ler tudo o que se quer, escrever tudo o que se quer, ouvir, nem ver tudo o que se quer). Num determinado dia — que pode muito bem ser amanhã — o escritor não acorda. Eis o enredo: escritor nasce, toma algumas notas, cria, destrói e morre. No fim das contas, como já disseram tantas vezes, tudo acaba desmoronando. Tomar cuidado com procrastinações dilatadas. Escrever é prática e concentração e repetição. Repetir. Repetir. Repetir. Quando está a escrever o escritor entra numa espécie de «zona» (à moda Tarkovsky): bloqueia o ruído externo, os pensamentos infelizes, dores, frustrações, é viciante, porque focado na geografia da narrativa, na vida interior de personagens imprevisíveis, nos detalhes de um jardim italiano que não recebe água há meses e onde uma flor de cravo (Dianthus caryophyllus) insiste em sobreviver. Escritor em transe, portanto. Imerso no mundo subjetivo e abstrato dos próprios pensamentos.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de maio de 2022


Desfiladeiro

O escritor finalmente encontra um lugar tranquilo para escrever. O silêncio, a caneca de café, a disposição acumulada para trabalhar fazem com que ele consiga impor certa aparência de ordem ao caos que o rodeava. É disso que ele vive, o escritor: sensível aos padrões, busca sempre conectá-los. Quer montar narrativas. Enquanto escreve, a mente como que flutua, livre, sem pressa. O escritor está-e-não-está. O corpo segura a caneta preta. A cabeça, alhures, lembra de coincidências, regularidades, atribuindo relevância ao irrelevante. É tudo muito prazeroso, mas temporário. A atividade criativa cessa e o escritor, em desintegração, torna a fitar o gélido abismo, o imenso nada, a própria insignificância.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de maio de 2022


Ênfase

A verdade é que pouco adianta ler milhares de livros se a cabeça não está preparada para receber esses milhares de livros. Vai tudo, como se diz, por água abaixo.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de abril de 2022


Não-linear

O matemático Edward Lorenz à escrivaninha do próprio laboratório anota que uma borboleta a bater asas no Brasil poderia, através de efeito dominó, gerar tornado no Texas. Sensibilidade às condições iniciais, continua Lorenz: um pequeno acréscimo, uma minúscula mudança, o aparentemente insignificante movimento de um inseto alado e o sistema tornar-se-ia imprevisível.

Refletir, portanto, sobre as consequências de determinadas escolhas, as possibilidades que elas geram (ou deixam de gerar), por mais desprezíveis que pareçam. Abrir um livro em vez de sair com os amigos, tomar café em casa em vez de ir ao shopping mall, furar ou não o sinal vermelho, imaginar universos em que se desenrolam realidades alternativas — escritor se prepara melhor e não fala bobagem durante a entrega do prêmio literário, escritor se controla e não magoa o sentimento da mulher que ele tanto ama, ou mesmo o pai do escritor consegue desviar o automóvel e não morre no trágico acidente.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de abril de 2022


Fluidez

Escrever a esmo — despretensiosamente, de forma aleatória, sem focar em buscar explicações, livre de dogmas, apenas deixar-se levar pela maré das palavras — pode gerar resultados raros e fortuitos. 

Publicado por P. R. Cunha / 28 de abril de 2022


Em outra estação

O escritor gosta de escrever,
fotografar, ler,
de fazer música,
e o escritor também gosta
de não escrever,
não fotografar, não ler
de não fazer música.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de abril de 2022


Supostas medições e observações e cálculos de um estado comatoso

Não sei ao certo o que aconteceu. Cabeça dói. Corpo dói. Não consigo me mexer. Falam sobre acidente, acidente terrível, autocarro, tem até foto na internet, cruzamento, colisão, poucas chances, muito poucas chances. Estou deitado. Leito de hospital. Olhos fechados. Estou em coma. Alguém segura minha mão. Mão da pessoa que segura minha mão é enrugada. Pode ser mão de avó. Pessoa que segura minha mão não diz nada, apenas segura minha mão, por vezes aperta minha mão, aperta com força, como se esperasse que eu reagisse, mas não reajo, sinto minha mão sendo pressionada, não reajo. Depois pessoa que segurava minha mão deixa de fazê-lo. Silêncio. Torno a escutar vozes, vozes de enfermeiras, vozes de médicos, de transeuntes aleatórios, de pacientes, vozes de hospital. Reconheço enfermeiras pelo perfume. Enfermeiras com perfumes cítricos, enfermeiras com perfumes adocicados, enfermeiras que não têm cheiro, aroma de alvejante dos uniformes. Devem achar que estou morto. Quero dizer, tecnicamente morto. Instrumentos ainda mostram que funciono. Coração funciona, cérebro funciona. E apitam. Instrumentos. Bip (dois segundos), bip (dois segundos), bip (dois segundos). Só não acorda. Está ali. Mas não acorda. Coração bate, mas não acorda. Metrônomo que não acorda. Bip (dois segundos), bip (dois segundos). Espetaram alfinete nos meus braços. Não acorda. Já devia estar morto. Instrumentos dizem que está vivo. Verificar sondas. Soro. Manter hidratação. Que é isto de se estar em coma? Levam foguetes para Saturno, montam computadores, olham para os confins do universo, erguem cidades, e não sabem o que é isto de se estar em coma. Família raramente visita. Triste quando essas coisas acontecem, diz alguém. Eu preferiria morrer, diz outro alguém. Às vezes lembro da minha primeira casa. Casa de infância. Da minha mãe. Às vezes lembro do futebol. Da escola. Do meu pai. Da música do Frank Sinatra. Dos meus livros. Memórias fugidias. Lembranças de pensamentos não garantem que eles tenham acontecido. E se fossem miragens? Ilusões. Impossível de confiar. Estou em coma. Sofri acidente. Não lembro do acidente. Cruzamento. Autocarro. Não lembro. Médico disse que é sério. Muito sério, salientou o médico. Praticamente irreversível, disse também o médico. Escuto tudo. Tento abrir os olhos. Não consigo. Tento mexer as pernas. Não consigo. Escuto tudo. Bip (dois segundos), bip (dois segundos), bip… Talvez o coma seja apenas isto: corpo que escuta, corpo que insiste, corpo com memórias duvidosas, corpo que expira.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de abril de 2022


Horizonte literário: o nada impresso

Há muitos livros e pouco entusiamo para lê-los. Apatia profunda acomete o escritor. Angústia sufocante, insuportável. Não é um lugar feliz de se estar. Joga-se na poltrona iluminada pela luz fraca do abajur. Um corpo disperso, configuração de partículas, células aglutinadas de modo aleatório. A expansão acelerada do espaço em redor, o isolamento, a fronteira além da qual todos se afastam sem qualquer possibilidade de contato e/ou influência — a solidão do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de abril de 2022


Extinção

Você está sentado diante de um livro do Thomas Bernhard. Você folheia o livro, gosta do livro, sente um estranho apreço pelo livro. Você não tem passado. Você se distrai com os barulhos que vêm de fora — motocicletas, ambulâncias, obras no bairro, uma criança chora enquanto chama pelo pai. Você teve um pesadelo: locomotiva em câmera lenta, você amarrado nos trilhos, a locomotiva se aproxima, mas nunca chega. Você pensa nas compras do mês, frutas, verduras, arroz, etc., você precisa de ir ao mercado comprar todas essas coisas, mas agora não dá, agora você está a ler Thomas Bernhard. Você acabou de surgir. Você deixou tarefas se acumularem. Você se mostra abatido, até um bocadinho melancólico. Você jura que existe há uns 35/36 anos. Você possui pensamentos e lembranças de coisas que jamais aconteceram. Você é um produto de ficção.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de abril de 2022


Termos probabilísticos

Um grande dilema para o escritor é ter de lidar com situações que, a depender das circunstâncias, podem gerar regojizo ou pavor. Assim como a solidão, a melancolia e o caráter introspectivo possibilitam a criação de obras literárias, tais características podem também significar a ruína da alma escritora. Armadilhas pendulares, dir-se-iam. A título de manter essa balança minimamente equilibrada, o escritor por vezes tem de sair da própria zona hermética e colocar-se em cenários improváveis, ao que muitos não conseguem compreender quando — a despeito de toda a ojeriza — ele decide ir à reunião de ex-alunos da universidade, ou ao chá-de-fralda de certa prima insuportável.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de abril de 2022


Covil

A imprevisibilidade também é um ideal para o escritor, que não gosta de se mostrar facilmente. O escritor prefere a dúvida, a inconstância, o oculto, a névoa, a conjectura. Calcular a probabilidade de ele ser encontrado neste ou naquele sítio, dentro ou fora, insatisfeito ou receptivo — eis aqui umas equações difíceis de serem resolvidas. As variáveis contraditórias, então, ajudam a construir o mito do escritor fugidio: este curioso sujeito rodeado de mistérios.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de abril de 2022


À deriva e em silêncio (através do vazio)

Um livro que é lido em segredo, quase como se fosse um crime, uma transgressão, livro sobre o qual não podemos ouvir o bastante — do contrário, perde-se o encanto da rara descoberta (tais palavras foram escritas [só!] para mim). Alguém que viesse falar connosco e perguntasse: estás a ler o quê?, e guardássemos ligeiro o livro na mochila antes que respondêssemos: nada, na altura não estou a ler nada.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de abril de 2022


Zero: número simétrico cujo valor é firmemente mantido quando multiplicado ou dividido por qualquer outro número

O número zero — um ideal.

Insensibilidade à mudança. O que acontece quando o escritor passa imenso tempo sem ter que lidar com tragédia/catástrofe? Ele baixa a guarda, acostuma-se com o sossego, chega a pensar que a vida não é assim tão terrível, o escritor abre as portas para toda a sorte de ilusões, miragens, até ser pego de surpresa, completamente desprevenido — uma morte, um relacionamento amoroso que de súbito chega ao fim, uma doença incurável, o caos.

O espaço repleto de substâncias invisíveis. Não seria exagero dizer que o escritor se enclausura num sítio solitário justamente a ver se consegue, através da própria literatura, prolongar um bocadinho que seja esse hiato de tranquilidades.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de abril de 2022


Antiquário

Escritor na loja de livros usados abre o livro do Raymond Carver e percebe que a folha de rosto foi arrancada. O escritor se pergunta o motivo: por que teriam arrancado — a julgar pelas inúmeras imperfeições no corte — com tanta fúria a folha de rosto do livro do Raymond Carver? Dizem que este crime livresco é cometido por aqueles que querem evitar o constrangimento de a obra ser encontrada pela pessoa que presenteara o livro. Justo. Mas o escritor não está satisfeito. Ele acredita que a folha de rosto foi arrancada por alguém muito ferido, ferido no peito, como se diz, que a dedicatória foi escrita por um emissor que era próximo, mas que se tornou hostil, e o livro do Raymond Carver passou a causar pavores, perturbações, náuseas, e por isso foi parar ali, na loja de livros usados, perdido, esquecido, com a folha de rosto dilacerada. Sim, é bem esta a hipótese do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de abril de 2022


Partilha de bens

A história da literatura, ou melhor, inventário da literatura, uma lista enorme de misérias, o escritor miserável, com relacionamentos miseráveis, condições miseráveis, abandonos miseráveis, livros igualmente miseráveis, escritores que terminam numa casa de loucos, sozinhos, ou se jogam pela janela, tomam arsênico, abandonam o automóvel no estacionamento, negligenciados, os filhos não se importam, os amigos há muito desapareceram — é esta a sorte do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de abril de 2022


Passeios esporádicos — breve ensaio sobre o desconforto

A batalha constante do escritor, diz o escritor, é sair e sempre tentar se mostrar menos inquieto, doido, inadequado, desajustado, aluado do que realmente é. Abandonar a previsibilidade da própria rotina literária, eis o desafio. Alguém pode observá-lo caminhando distraidamente pela calçada — o escritor como que a conversar com interlocutores invisíveis —, analisa os trajes amarrotados do escritor e pensa consigo mesmo: estranha figura, deve estar com a cabeça algures.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de abril de 2022


Grande penalidade

Para o colega de letras Adam Ehrlich Sachs

O atacante coloca a bola na marca do penalty. É ele, a bola, 60 mil torcedores no estádio, outros milhões a assistir em casa, nos bares, muita gente a olhar o atacante ajeitando a bola na marca do penalty, ele fita o guarda-redes, o guarda-redes como que dança dentro do gol, desengonçado, de um lado para o outro, sem se decidir se há de atirar-se para a esquerda, ou para a direita, ou ficar parado, os braços abertos do guarda-redes, que depois bate as luvas com força, grita, faz caretas, o atacante ajeita a bola, sente vontade de rir das atitudes grotescas do guarda-redes, mas obviamente não ri, o atacante apenas ajeita a bola com as mãos, girando a bola, bonita bola, ele diz, tornando a colocá-la na marca do penalty, os jogadores adversários posicionados fora da grande área, bem como os companheiros de time do atacante, também posicionados fora da grande área, todos a esperar, o atacante agachado, toca na bola com a ponta dos dedos, levanta a bola mais uma vez, aperta a bola com as duas mãos, acha que a bola está um bocadinho murcha, pressiona de novo a bola, sim, definitivamente, murcha, o atacante precisa de avisar ao árbitro, levar a bola até ao árbitro, dizer: senhor árbitro principal, com esta bola não dá, com esta bola eu não bato o penalty, gostava de outra bola, uma que, de preferência, não esteja murcha, mas o atacante só pensa nessa possibilidade, já está a tomar imenso tempo de toda a gente, ao que ele decide ficar com aquela bola mesmo, ou seja, não vai trocar de bola, ele então ajeita as meias, averigua as chuteiras, desamarra os cadarços, e amarra os cadarços, desta vez com demasiada força, tanta força que o atacante sente a circulação sanguínea ser bloqueada pelos cadarços da chuteira, ele levanta, visivelmente incomodado, dá dois chutes na relva, dói, acha que vai desmaiar, dói muito, ele enxuga o suor com o dorso da mão direita, vou desmaiar, ele pensa, não consegue mais distinguir a silhueta do guarda-redes, imagina o pé dentro da chuteira a ficar roxo, o guarda-redes agora é uma mancha amorfa, uma mancha que dança para-lá-e-para-cá, o atacante respira fundo, conta três passos para trás, pé roxo, dor insuportável, coloca as mãos na cintura, o atacante fecha os olhos, o árbitro assopra o apito, autoriza a cobrança do penalty, o atacante corre para chutar a bola.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de abril de 2022


Geografia literária

A título de sobrevivência, o escritor teve de aprender a escrever em, como se diz, «tudo quanto é buraco». Há esta imagem romantizada de certos escritores que cultivaram para si enormes escritórios com toda a sorte de livros, quadros clássicos na parede, clima ameno, e uma confortável poltrona para os momentos de descompressão, mas isso está longe de ser a regra — o escritor ocioso que se debruça sobre a balaustrada para observar o oceano, a luz da escrivaninha (quente e convidativa) que aguarda o devaneio apropriado: quer dizer, poucos conseguem usufruir de tais confortos. Via de regra, existe o barulho do tráfego lá fora, a balbúrdia da feira, as crianças gritam no parquinho do prédio, o vizinho do andar de cima faz reformas, contas a pagar, o almoço que ainda não está pronto, uma qualquer demanda aflige os nervos do escritor. Com o tempo, ele simplesmente deixa de se rebelar contra os incômodos do mundo e, ciente de que sempre sairá derrotado, acaba por abraçá-los. Porém, influenciado pelo meio ambiente, o escritor pode/deve escrever de acordo com o sítio em que está situado. Silêncio, algazarras, mar, campo, mesa de café, coworking, é certinho que os pormenores externos serão (direta ou indiretamente) traduzidos no papel do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de abril de 2022


Maturidade

À medida que o escritor envelhece, e percebe um cansaço, percebe que as possibilidades começam a se fechar, os caminhos cada vez mais limitados, pequena margem para erro, um passo em falso e tudo desmorona, à medida que envelhece, portanto, o escritor desenvolve uma certa frieza, um distanciamento, constrói para si miragens que proporcionam fundo para incontáveis paixões/idealizações, sem com elas se relacionar diretamente — o escritor, enfim, é engolido pelo teatro de marionetes.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de abril de 2022


Nono andar

Escritor acorda de madrugada. Fica a se mexer na cama, perdido, insone. Ele desiste e vai até à varanda para respirar. Olha para a cidade, que dorme. O escritor não sabe o que está a fazer da vida.

Pergunta qual a importância da privacidade nos dias de hoje, a importância de se ter segredo, de se ter o próprio espaço — físico e mental —, qual a importância de manter determinadas informações somente para si, sem a necessidade (obrigatoriedade[?]) de compartilhá-las com os outros, a importância de se contradizer, mudar de opinião de acordo com as circunstâncias, de se isolar, qual a importância de se manter discreto, invisível, à parte, qual, afinal, a importância do silêncio, do não dizer nada, da fuga voluntária…

Publicado por P. R. Cunha / 8 de abril de 2022


Café latte ou nostalgias de papel

O escritor termina uma obra que demandara tempo (vamos supor: quatro anos), uma força descomunal, obra em gestação que sugara as energias, como se diz, vitais do escritor, consumindo as vontades do escritor, a sanidade do escritor, e agora que a obra está finalizada, agora que o escritor deu à luz um manuscrito que de início se mostrava tão desengonçado quanto um baiacu fora d’água, agora que não há mais sentido meter-se em infinitas pesquisas, acordar cedo para escrever a obra, viajar algures para alimentar a obra, reler os clássicos para estilizar a obra, agora o escritor sente um enorme e impreenchível vazio no coração, e algumas pessoas dizem que isso é bobagem, exagero, capricho de escritor, onde já se viu, mas o escritor acredita neste sofrimento idealizado, neste luto literário, e para ele é isto o que realmente importa.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de abril de 2022


Tempo bom e quente / frustrar expectativas: nenhuma explicação

Céu da livraria —
o lamento
dos escritores mortos


A pergunta é esta: o que faz o escritor? Poder-se-ia poupar o valioso tempo dos leitores, dizer simplesmente que o escritor escreve. Mas não é só isso. O escritor prepara o pequeno-almoço, limpa a casa, leva o enteado ao treino de futebol, o escritor se aborrece no trânsito, levanta as mãos para algum deus invisível quando se depara com o preço da gasolina, o escritor sente tédio, sono, o escritor lê, faz exercício físico (não tanto quanto deveria), o escritor tropeça, pisa num pedaço de chiclete na calçada, o escritor esfrega os óculos, grita gol do Botafogo, depois xinga o zagueiro lento e senil do Botafogo — o escritor bebe água, álcool, suco, café, faz desenhos estranhos nas margens da cadernetinha na qual toma estas notas —, o escritor às vezes está de bom humor, noutras de mau humor. O escritor faz uma infinidade de coisas.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de abril de 2022


Casa-fantasma

Dizem que o escritor morre três vezes. A primeira é quando o corpo deixa de funcionar (cérebro para, coração para, etc.), a segunda é o funeral, o enterro, a cremação, e a terceira é quando o livro do escritor é lido pela última vez. A longa sombra de palavras que ele deixara de herança, agora engolida pelo abismo irreversível do esquecimento. O escritor abandonado e dilapidado, coberto de vegetação, como aquelas casas arruinadas a que os japoneses chamam de akiya. Não restam legados, nem prestígio, nem os prêmios, as noites de gala, não sobra memória, não sobra pedra sobre pedra. Não sobra nada.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de abril de 2022


À deriva (recônditos)

O escritor costuma sonhar que está afundando num enorme oceano, e à medida que ele desce a luz fica cada vez mais difusa, até desaparecer completamente, e o escritor é rodeado pela escuridão marítima. O escritor debate-se como pode e de alguma forma — sonho estranho! — consegue tirar do bolso um lápis e um pedaço de papel. Com imensa dificuldade, tenta escrever, e a cada linha que o escritor escreve ele sente o corpo subir um bocadinho do mar subterrâneo. Ele percebe o mecanismo de salvamento e assim que termina uma frase o escritor logo escreve outra, e outra, e outra, e outra, está a subir, sem, no entanto, jamais alcançar a superfície do oceano.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de abril de 2022


Variações de humor

Solitário, diante de uma folha de papel, o escritor pode escrever incontáveis mentiras numa possível autobiografia, e contar verdades obscenas num texto de ficção. O leitor coça as têmporas. Fica a pergunta: qual das duas versões é o escritor? A resposta enigmática gera ainda mais dúvidas — o escritor é as duas e nenhuma das versões. Ele é ruína em eterna construção, manequim das metamorfoses, troca, muda, mantém. Sabe que não é confiável, e prefere não sê-lo. 

Publicado por P. R. Cunha / 3 de abril de 2022


O caçador de borboletas

O caçador de borboletas está em trajes de domingo. Depois do almoço, ele beija a testa da esposa e diz: bom, é hora de ir caçar as borboletas. No vestíbulo, o caçador pega a própria rede entomológica — aro de arame que sustenta saco de pano, o conjunto preso a um longo cabo de madeira. O caçador bate o cabo no chão, duas-três-vezes, averiguando a resistência do instrumento. Satisfeito com o que vê, ele sai e caminha para o bosque, não fica longe. Algumas gotas de chuva atingem os braços do caçador. Dali a pouco, um homem de fisionomia séria que vem na outra direção (isto é: está a sair do bosque) segura a aba do chapéu com a devida vênia e diz para o caçador: dia ruim, não há borboletas. O caçador inclina a cabeça em forma de agradecimento e continua a entrar no bosque mesmo assim. Ele encontra uma clareira que julga ser adequada, respira fundo, limpa o rosto com a manga da camisa, posiciona a rede de pegar borboletas, e espera.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de abril de 2022


Baile de máscaras

Sou um tipo muito solitário, escreve Brambilla. Preciso de aproximadamente oito horas de sono. Acordo cedo. Durante as 16 horas em que estou acordado, se calhar passo 14 em absoluta solitude. Por vezes tomo notas, por vezes preparo um café, por vezes elaboro hipóteses filosóficas impossíveis de serem confirmadas (i.e.: os buracos negros têm sentimentos?, se sim, quais?). Agora estou a olhar pela janela — as pessoas na rua de certeza devem achar que sou uma espécie de maluco, ou um mero suicida. Não vou pular, eu digo aqui de cima, escreve Brambilla, não se agitem, não vou pular, e por aí adiante. No decorrer dos anos, manufaturei as minhas próprias máscaras, camada após camada após camada. Hoje as máscaras se mostram pesadíssimas. Em certa ocasião, garanti que essas máscaras representavam quem eu era, o Brambilla de sempre, o que não é absolutamente verdade. Nas últimas férias, isso foi em fevereiro, aluguei cinco chalés, só para mim. Num deles, instalei-me com conforto e apreço, já os chalés restantes ficaram desocupados. Dessa forma, evitei imensa dor de cabeça com eventuais vizinhos barulhentos, escreve Brambilla. Monsieur Proust, vim a saber com grande surpresa, fazia o mesmo. Alugava um andar inteiro do hotel no qual se hospedaria: um quarto só para si, os outros conteriam o nada, o silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de março de 2022


Sistema respiratório

A pessoa que lê muito, que escreve muito, que fantasia muito, e numa altura percebe-se saturada diante dos excessos da cidade — sons, imagens, gostos, fumaças —, o cérebro nunca conseguiria processar tanta informação, e não resta outra alternativa para a pessoa a não ser buscar algum tipo de refúgio, geralmente uma vila pequena (Drummond em Itabira, Conrad em Kent, Dinesen em Rungsted), onde não há grotescos painéis publicitários, onde os habitantes andam devagarzinho, as bicicletas substituem os carros ruidosos, onde ainda se pode ver o céu e as praças arborizadas oferecem espaço o suficiente para o descanso imaginativo.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de março de 2022


Inclinações às rotinas

Procuro levar uma vida tranquila e sossegada, pelo menos até onde isso é possível, porque há sempre qualquer coisa — uma doença, o automóvel que precisa de ser consertado, contas a pagar, reformas domésticas, etc. etc. Trabalho melhor no período da manhã, preferencialmente a partir das 8h. Se me atraso, a escrita perde o fôlego. À tarde: caminhadas, responder ao correio eletrônico, pedalar a bicicleta, comer, beber, leituras descompromissadas (cada vez mais difíceis, pois estou sempre em busca de motivos para [d]escrever). Raramente vou a festas, confraternizações, reunião de ex-alunos, pois as multidões (inclusive as pequenas) me aborrecem. Gosto, portanto, de ficar em casa, repetir sempre as mesmas tarefas, e, além da minha esposa e do meu enteado, devo ter, se muito, uns quatro ou cinco amigos.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de março de 2022


Camadas

Gosto de estar longe, de ficar várias horas sem pronunciar palavra, gosto de água gaseificada, janelas rústicas, vistas para as montanhas, gosto do Botafogo de Futebol e Regatas, do primeiro gole de café antes de começar a escrever, gosto da minha solidão crônica, dos livros de papel, tipologias asiáticas, gosto do Chet Baker, dos absurdos, das imprevisibilidades, gosto do Cioran, do Schopenhauer, do Baruch Spinoza, gosto de aparecer & desaparecer.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de março de 2022


Lar, solitário

Uma fuga ligada a um sentimento de culpa, quando aquele que deseja estar alhures escreve bilhetes explicativos numa vã tentativa de poupar/livrar os que ficam para trás (não leva para o pessoal, ou não és culpada de nada, ou cheguei ao fundo do poço, etc. etc.) — este é o tipo de desaparecimento que costuma dar mau resultado. Ir-se embora num lapso imprevisível, experimentar o agridoce abandono, a liberdade, não dar satisfações, ler Pascal à sombra de uma jabuticabeira, perceber que, sim, boa parte dos problemas humanos decorre da incapacidade de ficarmos quietos num quarto vazio.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de março de 2022


Pressentir

Talvez eu já sentisse isso em criança, enquanto esperava meu pai depois do treino de futebol, sozinho, a atmosfera azulada do fim de tarde, ou durante a reprimenda de algum professor na escola, a dizer que eu não daria conta, que eu não tinha jeito, caso perdido, ou nas missas dominicais, as senhoras vestidas de preto, com os rostos manchados, a tristeza naquelas vozes que entoavam hinos religiosos em ré menor, enquanto o ponteiro do relógio parecia perdido num abismo eterno, ou mesmo no início da adolescência, quando a menina por quem eu me apaixonara dissera «não quero mais estar contigo», nós dois prostrados perto da entrada do cinema, eu com os bilhetes no bolso, e de um momento para o outro, a vontade, ou melhor, a necessidade irreversível de estar nenhures.

Em 1810, Heinrich von Kleist escreveu o ensaio «Sobre o teatro de marionetes». A calma e a destreza desse trabalho, diz Idris Parry — estudioso da obra de Kleist —, sugerem um homem confiante, engajado, firmemente no controle.

No ano seguinte, Kleist deu-se um tiro na têmpora.

David Foster Wallace, durante discurso aos alunos finalistas do Kenyon College (algumas ideias, expressas numa ocasião importante, sobre como viver uma vida compassiva), David Foster ajeita o microfone diante de si, faz que vai beber um gole d’água mas não bebe, comenta que não há a mínima coincidência no facto de os adultos que cometem suicídio com armas de fogo darem quase sempre um tiro na… cabeça.

O escritor que realmente deseja o desaparecimento dos seus livros (e de si mesmo, eu acrescentaria) não encarrega outro dessa tarefa. Esse é o argumento de Jorge Luis Borges, que acreditava que Kafka e Virgílio não queriam a destruição dos próprios manuscritos, ansiavam apenas por se desligarem da responsabilidade que uma obra sempre nos impõe.

Wittgenstein relembra a história de um amigo que, em casa, ao remexer numa gaveta cheia de textos inacabados, estes lhe pareciam tão excelentes que ele (o amigo de Wittgenstein) pensava que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. Mas bastava cogitar na possibilidade de publicar uma seleção desses escritos para, de súbito, as coisas perderem o encanto e o valor. O projeto tornava-se impossível.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de março de 2022


Partidas falsas (dois esboços que [ainda] não foram a parte alguma)

Escrevo isto no escuro, com a minha mão esquerda, pois a outra está a segurar uma pistola. Tudo o que eu queria era chegar em casa como toda a gente — protegido, despreocupado. A verdade é que ninguém em sã consciência espera abrir a porta do próprio apartamento e se deparar com aquilo que vi…

*

Depois de quase quatro anos de casamento, eles finalmente conseguiram sincronizar o período das férias e alugaram uma cabana algures. À noite, ele abriu a porta da varanda, encostou-se na balaustrada de madeira e ficou a observar as estrelas. Ela também se aproximou. Ele apontou para a constelação do Cisne e disse: enxergamos padrões nas coisas mais exdrúxulas. Ela permaneceu em silêncio, sem olhar para ele. Ele continuou: não parece com um cisne, não mesmo. Ela hesitou, algumas lágrimas discretas começaram a cair, e disse:

Publicado por P. R. Cunha / 24 de março de 2022


Sítios afastados

Para sentir nostalgia, vontades de ir morar para o campo, é necessário antes ter tido alguma experiência, como se diz, campestre. Certa manhã a pessoa acorda e percebe a janela de madeira aberta: lá fora cantam os pássaros, o sol baixo e preguiçoso abraça a relva ainda molhada, vento agradável, o aroma do café a preencher o quarto, em silêncio. Quanto mais passageira e efêmera, mais a experiência parece causar saudades indeléveis. Esses fragmentos de paisagem, portanto, teriam interesse para quem os presenciara — porque lá estava e sentiu algo. Mas qualquer pessoa que não compartilhe das mesmas idealizações olhará para elas com fria indiferença. Sempre foi assim.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de março de 2022


Samuel Beckett e outras tentativas absurdas

À espera de Godot (que hoje não virá, talvez amanhã), Pozzo — suposto aristocrata que garante possuir piano Steinway e cuja vestimenta mostra-se em péssimas condições — reflete a respeito da jornada humana neste estranho planeta: «Dão à luz já à beira do túmulo, o dia ilumina por um instantinho, depois, mais uma vez, volta a cair a noite».

Pozzo (poço, em italiano) é Beckett, ou melhor, um boneco de Beckett, marionete. Autor ciente da brevidade existencial, ainda mais se comparada às escalas vertiginosas de um cosmo guloso e indiferente que não para de se esticar.

Numa palavra: acordamos, espirramos, e de súbito deixamos de existir. De aí certo sentimento de urgência, de não querer perder tempo, pois o ponteiro do relógio, a despeito das ilusões relativas, continua girando.

Tic-tac-tic-tac-tic-tac, como uma bomba guardada na mochila. Tentamos nos livrar da mochila, mas ela está colada às costas.

Acumulamos informações e filtramos tudo de acordo com a nossa, como se diz, personalidade. Conjecturamos sobre o tipo de pessoa que queremos ser: como nos comportar, como agir, quais palavras devemos utilizar, se é melhor permanecermos em silêncio, mostrar-nos calmos, sensatos, equilibrados — uma obra, portanto, em constante transformação.

Levantamos e/ou derrubamos muros enquanto dançamos a música de tentativas e erros. Moldamos a estrutura à medida que nos deparamos com os materiais de uma vida que pode ser tudo, menos previsível.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de março de 2022


Intimidades

Goethe não me intimida, Machado de Assis não me intimida, Clarice Lispector me intimida, Beckett me intimida, Faulkner não me intimida, Susan Sontag me intimida, Philip Roth não me intimida, Thomas Bernhard e Sterne e Kafka me intimidam muitíssimo, Novalis me intimida, DeLillo não me intimida, Claudio Magris me intimida, Jonathan Franzen não me intimida, Ivan Turguêniev me intimida, Montaigne me intimida, Raymond Carver me intimida, DFW também me intimida, Sylvia Plath me-intimida-e-não-me-intimida, Dostoiévski de certeza que me intimida, H. P. Lovecraft me intimida, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin me intimidam, Mario Vargas Llosa não me intimida, Agustina Bessa-Luís me intimida, Walser sempre me intimidou, Wittgenstein me intimida, Fitzgerald me intimida brandamente, Virginia Woolf não me intimida, Borges me intimida, W. G. Sebald me intimida mais do que toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de março de 2022


Premonições (ou as múltiplas faces do abandono)

Ingênuo mecanismo de defesa, imaginar o que ainda está por vir utilizando as ferramentas disponíveis no presente — alternativa àqueles que buscam tranquilidade/continuidade neste mundo em que os pormenores humanos são, com frequência, representados de maneira caótica, destrutiva, efêmera. O sujeito que se arrisca às margens dessas falésias temporais utiliza um mapa ardiloso cujas diretrizes mostram-se borradas pelas tintas do agora e do passado. Dir-se-ia que à medida que o sujeito investigasse as coisas do mapa, não há dúvida de que entenderia muitas delas de um jeito completamente equivocado. A metáfora marítima funciona igual: o navio move-se de determinada maneira quando o oceano está calmo, boas condições meteorológicas, mas não sabemos ao certo o que pode acontecer se durante uma tempestade ondas irascíveis atingirem-lhe o casco. O futuro não é simples equação matemática, há infinitas variáveis, diversos fatores que influenciam os resultados. Trata-se de uma marcha sinuosa, rotas que se bifurcam exponencialmente, que se alteram a cada mínimo movimento do navio. Qualquer exercício de previsibilidade — por mais intuitivo que pareça — será, portanto, mera especulação. Acrescente-se ainda a certeza de que as regras sociais estão sempre a mudar, a depender de interesses (alguns mais obscuros e discutíveis do que outros). O que é correto e digno de louvor hoje, pode muito bem ser inadmissível e reprovável amanhã. Bastaria uma rápida análise das imensas contradições que permearam os últimos séculos para perceber essa maleabilidade. Num determinado momento, glorificamos certas atitudes, enaltecemos este ou aquele indivíduo, construímos estátuas e monumentos aos heróis circunstanciais, para dali a pouco atacarmos essas mesmas atitudes, repreendermos os mesmos indivíduos, derrubarmos as mesmas estátuas, os mesmos monumentos. Os heróis são demonizados, enquanto os antigos demônios agora recebem os novos elogios, sorriem friamente com a possibilidade de retornarem ao trono do império. Mudanças bruscas de valores, ideologias, princípios, símbolos. O que a história da civilização também insiste em demonstrar é que essas transformações estão longe de serem colocadas em prática de acordo com os interesses da maioria, são antes impostas por pequenos grupos dominantes, que explicam, deturpam, confundem, alteram, inventam toda a sorte de narrativas para justificar as próprias atrocidades. E, pelo menos aparentemente, não há indícios de que isso vá mudar tão cedo.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de março de 2022


Parecer

O artista às vezes só está à procura de um receptor compreensível no meio da multidão — porém, cansado de buscá-lo, cansado das recusas, das ilusões, dos desentendimentos, cansado (acima de tudo) da indiferença, recolhe-se ao isolamento silencioso. Pode até continuar a criar, mas de uma forma que ninguém consiga ver. Artista invisível, um ideal.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de março de 2022


Experiências enterradas

Franz ainda faz planos para o futuro. Diz que numa altura vai terminar de escrever o livro que esquecera na gaveta, que retomará a rotina de exercícios físicos, que irá se alimentar melhor, que se dedicará aos amigos, que arrumará o sótão, que cortará a grama do jardim. Numa altura, mas não hoje, não agora, talvez amanhã. Imensas vezes Franz é assolado pela angústia, pois sabe que por mais previsível que essa existência possa se mostrar, tudo nela é mutável, precário, transitório. Como naquela noite de primavera em que Franz se preparava para dormir, e o telefone tocou, e o policial dera a notícia que todos os pais temem receber.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de março de 2022


Descrição dos traços (metáfora equilibrista [de novo])

Como condená-lo
se ao sair precisa
de enfrentar

terríveis intempéries —
e quando retorna
encontra refúgio
nas cabanas de papel?


Poder-se-ia insistir no seguinte retrato: alguém inclina-se à escrivaninha, ar alheado, cabelos avulsos, como se não dormisse há dias, um reflexo distorcido de ansiedades, isolamento, persistência, reclusão, certa paranoia…, «a história de uma existência no buraco».

Alguém que estivesse sempre a andar, ou melhor, a engatilhar na corda bamba, atormentado pelas vertigens.

Alguém que causasse fascínio e estranhamento, que condenasse tudo, que se contradissesse (hoje pensa assim, amanhã de outra forma, depois torna a pensar como pensava ontem, e por aí adiante) — rupturas, descontinuidade, refluxos, insensatez.

Quanto mais turbulento e atroz o mundo exterior se mostra, quanto mais caótico, excessivo, fabricado, censurável, instantâneo, mais ele procura impor uma narrativa previsível para si mesmo. O clássico embate: matéria orgânica a lidar com entropia (i.e. indiferença) inorgânica.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de março de 2022


Complexos habitacionais

Se o escritor tem um dia de trabalho ruim, quer dizer, se escreve pouco, ou mal, ou nada, não consegue se concentrar, a cabeça orbita nenhures, os olhos ardem, perambula de um lado para o outro, ataques neuróticos, presta imensa atenção nas paredes, nos padrões dos tijolos, curiosos fractais, na poeira que se acumula perto das estantes de livros, na árvore que chacoalha lá fora, transe hipnótico, um quase-morto estendido na cama: esse simulacro de sepultura, como dissera Jerome K., «em que esticamos nossos membros cansados e imergimos no silêncio e no repouso».

*

O prédio residencial era uma gigantesca estrutura brutalista. Retangular, cinza. Diziam que indestrutível. O próprio engenheiro responsável pelas obras repetira imensas vezes essa palavra: indestrutível. Inclusive, ao finalizar o projeto, sugeriu à imobiliária que destacasse o adjetivo na capa da brochura promocional, sugestão devidamente acatada pela equipe publicitária. «GOSTAVA DE MORAR NUM APARTAMENTO INDESTRUTÍVEL?», perguntava a brochura em letras garrafais. À noite, quando acendiam os postes de luz fluorescente, o edifício parecia um cárcere. Os moradores não se incomodavam com aquela aparência lúgubre. Ou melhor: talvez alguns se incomodassem, mas não chegavam a, como se diz, verbalizar o incômodo. O síndico era um homem carrancudo que andava na casa dos quarenta anos mas aparentava ter quase setenta. Ossos do ofício, ele se lamentava. Certo dia o síndico estava a fazer a vistoria da praxe e percebeu umas rachaduras no concreto do prédio. Pequenas rachaduras, ele repetiu para si mesmo, nada com o que se preocupar. Tão insignificantes que o síndico sequer tocou no assunto durante a reunião do condomínio. Apenas garantiu que estava tudo, absolutamente tudo sob controle. Os moradores assentiram com a cabeça e retornaram aos respectivos apartamentos. Dias depois, as rachaduras já não estavam assim tão pequenas. O síndico, porém, insistia consigo que não era nada, não havia necessidade de pânico. Algumas semanas se passaram e desta vez foram os próprios moradores que começaram a notar a curiosa teia que cortava as paredes do prédio, alastrando-se aos andares mais altos. Chamaram o síndico. O síndico coçou as têmporas, observava surpreso, perplexo, atônito, como se as rachaduras fossem a gestação de um alienígena hostil. O síndico passou a mão na parede, olhou para cima, fez ar de quem entende do assunto, deu batidinhas de leve, sorriu e disse: dilatação natural do concreto, nada com o que se preocupar. Cerca de três meses depois, as rachaduras tatuavam toda a fachada do prédio, que agora parecia o poroso leito de um rio em extinção. Muitos moradores decidiram que a situação havia passado dos limites aceitáveis, fizeram as malas, contrataram as carrinhas de mudança e foram-se embora. Outros preferiram dar um voto de confiança ao síndico, que insistia no discurso de «está tudo bem, não é nada, rachaduras normais, qualquer um que entenda minimamente de engenharia saberá o que estou a dizer», etc. Até que numa soalheira tarde de domingo em que o céu azul e sem nuvens ofuscava a vista de toda a gente, ouviu-se o estrondoso barulho do primeiro bloco de concreto a cair, e logo depois outro pedaço de concreto, e logo mais outro pedaço. Desesperados, os moradores evacuavam o prédio às pressas, enquanto o síndico permanecia imóvel na guarita da portaria, mastigando o pão com mortadela, bebericando o café com leite que começava a esfriar.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de março de 2022


Encosta abaixo (ou alguns aspectos da alma humana)

Amiúde, buscam o céu com tanta voracidade que sequer percebem o precipício ao lado — só quando tropeçam.

*

Escrever é um pouco como conduzir automóvel: alguns dirigem melhor do que outros, mas isso não tem muita importância se o destino (objetivo) final é alcançado. Motorista habilidoso que adotasse um estilo inovador ao volante mas que nunca conseguisse chegar ao ponto que realmente almeja: se é isto um motorista útil?

*

Na luta constante contra a total falta de sentido/propósito das coisas, qualquer pedaço de madeira é âncora para o náufrago.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de março de 2022


Interesses

Homem da cidade se perde e vai parar numa remota aldeia. Todos o recebem de braços abertos, tratam-no com muita reverência, como se ele fosse um corajoso aventureiro, um ser humano excepcional, oferecem-lhe cervejas, abundantes refeições, as moças da aldeia suspiram, fitam-no com vontades ilícitas, o melhor quarto da estalagem é oferecido ao homem da cidade — que fica envaidecido com aquele caloroso acolhimento e decide, como se diz, mudar-se de vez para a aldeia. Acontece que em pouquíssimo tempo o homem da cidade se mostra tão monótono, fútil, rude, vazio, tão estúpido quanto toda a gente que os aldeões — arrependidos e, com certa razão, sentindo-se enganados — perdem o interesse.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de março de 2022


Acúmulo de conhecimento

Luzes artificiais, piscina que imita as ondas do oceano, neve fabricada por gasóleo, ar viciado, telas de silício, coração feito por impressora 3D, robô-recepcionista, bitcoins, cansaço constante, lagos no deserto, bombas, superpopulação, colônia penal em Marte, gás lacrimogêneo, falta de vontade, neurolinks, sala de espera, propagandas, centros comerciais, pornografia virtual, espaço aéreo, hegemonias, esgotamento, narrativas convenientes, fábricas bélicas, símbolos, escritórios, construção de valores, tentativa de suicídio, laboratório químico, complexo viário, delírios, campeonato mundial de futebol, manifestações, preço da soja, síndrome de perseguição, jornada de trabalho, bebida alcoólica, tecidos sintéticos, vulcanismo, transplante facial.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de março de 2022


Perturbação potencial

Dali a pouco, abre-se a janela para ver se condições adequadas. Uma neblina se dissipa, mas o tormento da incerteza não tem fim. Hesitar — porque ainda não é tempo de sair. As fugas nem sempre são repentinas/irrefletidas (como nos filmes), por vezes elas se constroem às prestações.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de março de 2022


Cerâmica

Empreitada contraintuitiva tentar se livrar do barro trazido pela chuva enquanto a tempestade insiste em cair. Tão logo passamos o rodo, e o átrio se inunda novamente. 

Publicado por P. R. Cunha / 8 de março de 2022


Limiares

O metódico repete-se porque encontrara refúgio de calma e previsibilidade no meio do oceano irascível com ondas contraditórias. Sente-se seguro nesta fortaleza, aproveita-se do caráter contínuo, disciplinado, das ferramentas que o protegem das inquietações externas. Pragmático, não quer conquistar nada nem ninguém, não alimenta ilusões desnecessárias a respeito dos pormenores mundanos: muitas vezes, o metódico sequer consegue abraçar a si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de março de 2022


Descarga elétrica entre nuvens

Num desses rompantes criativos que surgem quando menos se espera, e nenhum lápis, nenhuma caneta no bolso para tomar as devidas notas — apenas o bom, e velho, e gelatinoso, e imprevisível cérebro, dispersas associações de conceitos, repetir imensas vezes as mesmas frases, até que algo se fossilize na memória, um qualquer vestígio da tal grande ideia.

Pequena habitação perdida no meio do nada, quarenta minutos de distância (se automóvel) da próxima localidade humana. Longe de tudo e de todos, como se diz, das exigências cívicas, do torturante contato social, sentado numa cadeira improvisada, rodeado de árvores, morros, um vasto campo que se extende ao infinito. De manhã, enquanto a água do café está a ferver, escuta-se o cacarejo das galinhas.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de março de 2022


Imperativo categórico

Paralisia, marasmo, dormência, torpor, abatimento quando se enaltece de forma desacerbada um passado com modificações voluntárias e/ou involuntárias — o rio decrépito converte-se num cristalino curso d’água, tarde de fortes tempestades ganha ares de manhã soalheira, o gosto amargo dos medicamentos é substituído pelo doce sumo de uma fruta tropical, sim vira não, dores viram êxtases, traumas substituídos por miragens, fantasias. Passado idealizado que não existe mais (se é que alguma vez existiu), passado refém dos imperativos da entropia, a flecha do tempo numa única direção, sem retorno. Nostalgia: mecanismo de defesa, refúgio, esconderijo. Como uma remota ilha que será atingida por tsunami, onde tudo parece calmo e estável, enquanto os animais se inquietam, olham para os lados, buscam lugares mais altos bem antes da chegada das ondas, reagem, portanto, a um instinto que lhes anuncia um cataclismo, compreendem que algo terrível está prestes a acontecer.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de março de 2022


Saltos

Cada empreitada criativa aproxima o criador de um abismo imprevisível. Alguns hesitam, sentem vertigem, tonturas, outros pulam, podem até fechar os olhos, sem saber ao certo se será uma queda eufórica ou sinistra. A mesma ideia pode ser utilizada na analogia criador-alpinista, que antes de escalar a montanha criativa não percebe o que se esconde no cume nebuloso: desespero, tranquilidade, alucinações, catarse… loucura?

Publicado por P. R. Cunha / 4 de março de 2022


Precipício infinito (Café Wittgenstein)

Cordilheiras de livros acumulados sobre a escrivaninha, nas paredes, ao redor da cama, dentro dos armários, livros no chão, na despensa, livros na cozinha, atrás das portas, no pequeno sofá de dois lugares — e de súbito uma inquietação, ou melhor, uma necessidade de se estar algures, necessidade de fugir dos cárceres: físicos e mentais.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de março de 2022


Megalofobia

Como as coisas funcionam, exposições narrativas, quantos casais se divorciaram, teorias econômicas, história da arte assimétrica, as fornalhas que se apagam, as pessoas fingem entusiasmos, muito telemóvel, contrastes lógicos, questões polêmicas carregadas de sentimentos ambíguos, práticas culturais, o mais próximo possível de um não-discurso, idade das trevas, vertigem, carvalhos envelhecidos no México, existir não faz sentido, síndrome do impostor, construir edifícios, máscaras, caminhadas solitárias, filosofias africanas, livros bons, a luta para salvar a vinícola, retratos químicos, algumas pessoas estão sempre atrasadas, nada possui qualquer significado intrínseco no universo, falésias, livros ruins, destruir lentamente a memória do que passou, Belfast, as pessoas também perdem o entusiasmo, imagens poderosas, criar propósitos artificiais, causa e efeito, positivo e negativo, fugas, culpas, descrições, alguém que senta no canto de um quarto vazio e confessa, série de eventos não relacionados, esconderijos, arranjos de aproximações, a impermanência de tudo, sequências temporais, elucidar, confundir, empurrar, conter, como prevenir a morte súbita do coração, revisionismos, o passado, o futuro, o comboio que vai à frente, o comboio que não funciona mais — a despeito de todo o testemunho documental, Paul, na realidade, nunca existiu: apenas esta figura fantasmagórica diante de espelhos distorcidos. 

Publicado por P. R. Cunha / 27 de fevereiro de 2022


Imortalidades

Paul está a ler Miguel de Unamuno, folheia o livro, sublinha isto: a vida humana é trágica porque temos a consciência de que vamos morrer. Gasta-se muito tempo, anota Paul na margem da folha, em vãs tentativas de se sobreviver à morte, seja num sentido simbólico, místico-religioso, ou mesmo numa inútil elevação de status social — regalias que, como sabemos, o morto não poderá usufruir. Deixa-se um legado póstumo, heranças, diário de memórias, empresa bem-sucedida, automóveis, apartamentos, uma quantidade absurda de quinquilharias, deixa-se uma «ideologia», um exemplo, uma carta de amor, a ingenuidade do combatente que se joga sobre a granada, pois de certeza (será mesmo?) que irão organizar eventos com toda a pompa para que todos (menos o combatente) possam rememorar esse ato heroico e destemido. A empreitada absurda, insiste Paul já quase preenchendo toda a página do livro de Unamuno, alastra-se também ao campo científico, à cosmologia, por exemplo, astrônomos que viverão, o quê, até aos 80/90 anos conjecturando dia-e-noite sobre o fim do universo, um evento para daqui a bilhões de séculos, quando nem a estrela mais persistente poderá contar como realmente foi.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de fevereiro de 2022


Mecanismos de reconhecimento

A mente de Paul também é ávida pela busca de padrões. Ele olha para as sombras da Lua e percebe um coelho. Ou quando Paul deita na relva numa manhã particularmente amena e observa as nuvens que formam variedade de objetos, rostos, bestiário, sequências ocultas. Se distraído, é certinho que Paul será ludibriado por essas miragens a que a literatura científica chama de pareidolia — «tendência do cérebro de impor interpretações a um estímulo vago e nebuloso, significado onde não há nenhum». Com esses pensamentos na cabeça, Paul debruça-se sobre o papel e logo se distrai com as manchas na madeira da mesa: ondas claras e escuras, alguns desgastes que se assemelham a penhascos, variações da cor cremosa, rios que correm para todos os lados, ou, quem saberia, uma fotografia do planeta Júpiter tirada muito de perto. Prestes a inventar algum pormenor filosófico, Paul enxerga nessas paisagens de madeira um número infinito de possibilidades. E por mais bem polidas e bem selecionadas, ele compreende que as palavras que utiliza não passam de aproximações insuficientes dos próprios pensamentos. No entanto, isso não impede que Paul continue a tentar.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de fevereiro de 2022


Trajetória orbital

Dizem que a melhor qualidade de Paul é a persistência: não importa o que esteja acontecendo em redor, na cidade, no país, no mundo, enorme asteroide pode estar em rota de colisão com o planeta, Paul doente ou saudável, chuva ou sol, barulho ou silêncio, na praia ou na montanha, no papel ou no computador, ele está sempre a escrever, a filosofar, a fazer perguntas. Aprendera a construir refúgios mentais. Mesmo quando rodeado por multidões, Paul se isola em si mesmo, como que hipnotizado, em transe. Entende que a tarefa de aliviar a angústia das transitoriedades (amanhã posso não existir, conflitos bélicos, crises econômicas, mortes, desastres [como já foi dito noutra ocasião]) requer paliativos rigorosos — algo difícil de se alcançar se estamos constantemente presos às correntes, às normas, às construções culturais: leis, entretenimentos diversos, costumes, identidades nacionais, religiões, mitos, etc., que mitigam, ou melhor, anestesiam os efeitos debilitantes que acompanham a consciência da nossa insignificância. Válvulas de escape, repete Paul, frágeis técnicas de adestramento coletivo. Um movimento em falso, e o castelo de cartas vai abaixo, desabam as vigas e o animal humano se vê exposto as intempéries. Basta apenas uma mudança ínfima, uma pequena alteração nas regras, e nada mais é como era antes, escreve Paul. Saber que as coisas mudam, por mais que busquemos rotinas, estabilidades, saber, portanto, que nada permanece da mesma forma.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de fevereiro de 2022


Valhala

Por vezes as memórias se dissipam quando Paul tenta recordar, mas criam casas na mente quando ele quer esquecer. Como pode a mesma sensação que há pouco oferecia-me os maiores regozijos, pensa Paul, agora me causar tremenda repulsa, e me destruir sem qualquer cerimônia? Tal e qual aqueles casais que passam décadas juntos, e dividem a cama, e tomam o pequeno-almoço, e têm filhos, e compartilham segredos atrozes, até que, de súbito, um não consegue mais olhar na cara do outro, sentem antipatia, raiva infinita, desgosto, agonias, como se fossem dois estranhos que precisam de sentar juntos durante uma longa e tediosa viagem de avião. Paul lembra dos traços aéreos de A vigília da valquíria, quadro pintado por Edward Robert Hughes — a dama melancólica iluminada pela luz etérea da Lua, o vestido translúcido, sentada na balaustrada de um castelo, segurando espada que de certeza pertencera a algum soldado abatido em batalha. Sabe-se que na mitologia nórdica as valquírias eram divindades que escolhiam os mortos mais corajosos, serviam hidromel e cerveja às almas belicosas antes de levá-las a Odin, que recrutava guerreiros para a batalha do fim do mundo. Pode-se dizer que os neurônios de Paul são como valquírias escondidas dentro da cabeça, ressuscitando memórias moribundas, a criar um estranho arsenal consciente prestes a lutar contra um inimigo desconhecido. E Paul acha graça nessa analogia.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de fevereiro de 2022


Paul abre janelas para realidades invisíveis

Quando chove, o barulho dos trovões repercute pela casa, como se simulasse um pequeno tremor de terra, alguns móveis chacoalham e Paul se aproxima do parapeito da janela para não só admirar a fúria da tempestade como também para entregar-se à toda a sorte de questionamentos sobre sentidos e propósitos. Rajada de vento acerta-lhe o rosto enquanto Paul se perde em devaneios hipnóticos, pontes para diferentes estágios da realidade — como ele gosta de acreditar. Sabe-se que a natureza é fonte inesgotável de acontecimentos imprevisíveis. Um planeta indiferente que pode até oferecer alguns prazeres aos habitantes, mas também deixa-os desprevenidos, atônitos, desabrigados, frustra tentativas convencionais de gerar sentido, um planeta produtor de cataclismos que colocam o animal humano diante do precipício: Paul olha para o despenhadeiro refletindo sobre os limites da própria razão, essas fronteiras imaginárias sempre prestes a sucumbir. Nuvens cor de pólvora mancham o céu, escondem a linha do horizonte. Paul se esforça para encontrar padrões neste cenário desolador, e numa altura em que a melancolia se faz implacável ele escreve que filosofar é transcender, mesmo que temporariamente, o caráter definitivo da minha morte.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de fevereiro de 2022


Romênia

Paul faz a toalete. Quer evitar o cliché «pensador-que-se-observa-no-espelho» entregando-se a longas e imprevisíveis ruminações. Não vou fazê-lo, ele diz para a própria imagem refletida — a palidez da face, os olhos castanhos de criança, o cabelo claro. Paul faz a barba e recorda de uma amiga romena que estava a passear num parque em Bucareste. Era outono e as folhas das árvores caíam sobre a trilha que levava o caminhante a uma espécie de praça central, onde a filha e o marido dessa amiga de Paul a aguardavam para o piquenique. A verdade é que caminhamos num parque em Bucareste e jamais imaginamos que o pior pode acontecer, ainda mais numa manhã soalheira de outono em que o ar puro e a temperatura aprazível sugerem, sem dúvida, uma qualquer boa-vontade de existir, pensa Paul. Minha amiga a caminhar nesse parque em Bucareste, ele continua, e há um bueiro destampado escondido pelas folhas que caíam, acumulavam-se e criavam travesseiros vegetais em pontos aleatórios da trilha. Minha amiga olha para frente, a encher-se de expectativa, em breve encontrará marido e filha que a esperam embaixo do gazebo da praça central, minha amiga de cabeça erguida, continua Paul, talvez sorrisse, e, de repente, um barulho seco, grave, e outros frequentadores do parque se aproximam para ver o que aconteceu, diz Paul enquanto desliza a navalha perto do queixo, e os paramédicos do parque correm na direção do corpo estendido da minha amiga romena, temendo pelo pior. Paul limpa a navalha na água corrente da pia: podemos estar aqui um momento, e um instante depois, desaparecemos.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de fevereiro de 2022


Inclinações obsessivas

Esta contínua e repetitiva atração de Paul pelos fantasmas: representações conscientes e inconscientes daquilo a que chamam de «mundo real» — as cores que enxergamos, as formas, os sons que escutamos, as texturas, os aromas que sentimos, elementos processados pelo cérebro, que, para criar algum padrão, mastiga e descarta quantidade absurda de informações, infinitos detalhes que se perdem durante o procedimento, e Paul fica apenas com o mínimo, com a matéria bruta, umas miragens simplificadas. Quando ele reflete demasiadamente a respeito desses simulacros, das ilusões imaginadas, daquilo que enxerga mas não armazena, quando ele tenta se concentrar em outras tarefas e não consegue porque imerso num looping simbólico, Paul pensa na possibilidade de ele mesmo ser uma figura espectral dentro deste universo de espelhos retorcidos, uma mera mancha redundante no horizonte de outras criaturas diáfanas.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de fevereiro de 2022


Falésias (ou o que realmente atrai Paul está sempre em outro sítio, e ele nunca faz a ideia de onde fica esse outro sítio)

De manhãzinha, alguém convida Paul para um evento noturno, e às vezes calha de ele estar, como se diz, predisposto e receptivo, ao que, guiado por arranjos canhestros de dopamina — via de regra causados pela imprevisibilidade de uma chávena de café —, Paul diz «sim» sem saber ao certo no que está a meter-se. Num primeiro momento, Paul sente branda expectativa para o evento noturno, percebe as movimentações incomuns no sistema neurológico, diz consigo: até que não é assim tão mau, isto de ter a possibilidade de sair. Mas à medida que as horas passam, e o organismo de Paul reequilibra-se, e os neurotransmissores reequilibram-se, e a euforia também reequilibra-se, ele começa a sentir uma estranha ansiedade durante a qual confusão e pavor glaciar se alternam. Durante o impasse (ligar para dizer que não vai mais ao evento vs. ir ao evento na mesma), Paul se pergunta se é possível que uma alma tão inquieta quanto a dele sinta-se feliz, genuinamente feliz, e não aquela alegria efêmera e fugidia que sentimos quando ingerimos imensas doses de açúcar, ou quando somos brevemente correspondidos por uma pessoa que nos atrai: sou convidado para um evento noturno, reflete Paul, e digo sim ao convite, e compareço ao evento noturno, mesmo que na altura já não queira mais ir ao evento noturno, continua Paul, mesmo que só de escutar os termos «evento noturno» eu seja invadido por uma ojeriza inominável, e nada, absolutamente nada me agrada no evento noturno, diz Paul, nem o tosco local que escolheram, nem aquela petiscaria insalubre, nem a música estúpida, nem os seres humanos (muito menos os seres humanos, destaca Paul), e embriagado por aquela atmosfera sufocante questiono-me se não teria sido melhor ter ficado em casa com meus livros, diz Paul, com meu Bernhard, meu Jünger, meu Beckett, minha Virginia Woolf, minha Lispector, minha Zadie Smith, a velha certeza do não-pertencimento, de futilidade, onde quer que eu vá, continua Paul, e finjo interesse pelo que não me interessa, finjo ouvir o que não estou ouvindo, balanço a cabeça mecanicamente, sorrio mecanicamente, ingiro bebidas mecanicamente, diz Paul, sem nunca ser pego no flagra, sem nunca perceberem que «não estou ali de facto».

Publicado por P. R. Cunha / 19 de fevereiro de 2022


As luzes dos postes de eletricidade se apagam automaticamente com a chegada da primeira radiação solar

Paul não faz ideia de quanto tempo está deitado na cama, o ventilador gira e produz ruído branco, densidade espectral de potência constante, os lençóis cobrem a metade do corpo, não lhe apetece levantar. Desapegar-se discretamente do mundo, sem alardes, sem bilhete, sem preparativos, dar contornos claros às inquietações, um passeio sem volta, sem vestígios — quantas vezes Paul não cogitou nessas possibilidades. A vida não passa de um desaparecimento constante, disse Arthur Schopenhauer, com quem Paul costuma concordar. Uma perpétua máquina de misérias desprovida de significado ou propósito além de um autoconsumo cego e estúpido. Às vezes Paul nem sequer abre as cortinas, fica ali deitado na cama, ruminando na escuridão, enquanto lá fora cai a chuva persistente. O maquinário de Paul rejeita a retórica do «faz sentido» com a qual muitos seres humanos buscam impor uma qualquer ordem nesta natureza fundamentalmente desordenada, caótica, natureza indiferente — nunca é demais repetir. Paul tateia a mesinha de cabeceira. Deixa cair duas caixinhas de remédio. Pega o bloco-notas e escreve sem se preocupar com a tipologia: depois de uma temporada amena em Florença, Michelstaedter, já a nutrir má vontade generalizada e irreversível por tudo e por todos, termina os apêndices críticos da própria obra, enviando o manuscrito final em 16 de outubro de 1910. No frontispício da tese, desenha uma lamparina com o enigmático termo grego — apesbésthen («eu me apaguei»). 17 de outubro: Michelstaedter mete uma bala de pistola na cabeça. Tinha 23 anos na altura. Há quem prefira acreditar em coisas como progressões lineares, estabilidade de significados, compreensão dos elementos materiais, propósitos, céu, inferno, deuses aborrecidos com o comportamento de criaturas minúsculas, missões, objetivos, legado, nada seria em vão, escreve Paul e recoloca o bloco-notas sobre a mesinha de cabeceira.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de fevereiro de 2022


Reverso

Paul, que nunca foi de escrever poemas, escreveu:

Brasília. Cidade
vulnerável. Para se

proteger esconde-se
atrás do concreto armado.

E, outra vez, faz perante si próprio a mesma pergunta com a qual se vê às voltas sempre que as oscilações de humor reivindicam território: o que estou fazendo aqui?

Publicado por P. R. Cunha / 17 de fevereiro de 2022


Apegos (ou sinais de um futuro incerto)

Paul se acha sentado à mesa sombreada pelo toldo do café-restaurante, cercado por pessoas que falam alto, riem alto, comem alto, arrastam cadeiras, levantam as mãos enquanto gritam para chamar a atenção de algum funcionário: garçons e garçonetes que a esta hora da manhã tropeçam/giram/deslizam/correm/param, ora dando respostas curtas e mordazes à clientela, ora em absoluto silêncio, ora se esforçando para simplesmente não terem um ataque de nervos (burnout). Não raro, ao observar a movimentação dos cafés Paul é surpreendido pela familiar melancolia, por um sentimento de culpa e inferioridade. Inquietação mental, dir-se-ia, atormentado por aborrecimentos infinitos, o cappuccino esfriando sobre a madeira da mesa, Paul agarra-se a qualquer ideia obsessiva que não consegue erradicar: recordações desagradáveis, bombardeado com algum desejo impossível, a culpa por alguma das inúmeras falhas — tudo o que dissera, e que machucara, e que destruíra o interior de alguém —, os receios da praxe. Paul, em suma, é surpreendido pela própria insuficiência, esta pesarosa sensação de derrota que o consome sem que ele se dê conta.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de fevereiro de 2022


Égide/covil/remédio/resguardo

O gigantismo da estrutura inquieta — teto que se estende por metros, e metros, e metros, sem fim: elevadores panorâmicos sobem e descem, sincronizados, dança mecânica, ensaiada, quase erótica, a luz cremosa atravessa o teto com vidro jateado, nunca se sabe ao certo se luz do Sol, da Lua, se holofotes artificiais a simular claridades, a música reverberizada ecoa nas enormes paredes da estrutura, glaciares de concreto, sensação de abandono, solitude, esquecimento: Paul limpa os óculos com um paninho cor de abóbora, pano especial, presente da funcionária da ótica, o paninho executa bem o trabalho, isto é: desanuvia os óculos de Paul, que agora se pergunta «por que escrevo, por que me entrego às reflexões filosóficas, por que utilizo palavras, qual, ou melhor, quais seriam as finalidades destas empreitadas?», leva a caneta à boca, mordiscando a tampinha azul: escrevo para remodelar a realidade, anota Paul, escrevo para vingar-me, para contar, compartilhar, para me defender, escrevo para conquistar, agredir, entreter, contemporizar, distrair, mentir, justificar, inventar, escrevo para lamentar, instigar, evadir, provocar, esquecer, curar insanidades, escrevo para fazer sentido, confundir, escapar, questionar; Paul respira fundo, um ar adocicado invade os pulmões, deita a caneta sobre o caderno, olha em redor, não consegue entender como foi parar dentro daquele edifício brutalista, refúgio moderno, talvez esteja sonhando: talvez.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de fevereiro de 2022


A caminho do intangível

Paul preza pela liberdade filosófica: ele sabe que vai errar, acertar, contradizer-se, recuar, repetir-se, avançar, destruir, fracassar, construir, e, principalmente: Paul arcará com as consequências desta liberdade, com os resultados dos próprios pensamentos, sem juízo de valor. Paul não busca fama, poder, benefícios financeiros, sabe que a filosofia preenche a cabeça, mas nunca o bolso. Livrou-se gradativamente das amarras, dos impedimentos, das inibições, das pessoas que o aborreciam, queimou pontes, como se diz, isolou-se, mostrou-se, escondeu-se. No entanto, é necessário insistir que a despeito das análises minuciosas Paul ainda não sabe exatamente quem é, por que está vivo, o que precisa de ser feito, Paul apenas acompanha a si mesmo, um espectador a tomar notas, o decaimento do corpo, a aproximação da morte, a memória que começa a falhar, os músculos que não respondem com a prontidão dos melhores anos, um ser efêmero, Paul, preso neste planeta d’água que gira em torno de uma bola de fogo, preso em um dos bilhões de sistemas solares, bilhões de galáxias, bilhões e bilhões e bilhões de partículas que rodopiam neste universo absurdo que não para de se expandir, cosmos indiferente aos propósitos de Paul, às vontades de Paul, aos desejos, às perdas, aos sofrimentos, às batalhas de Paul, aos pensamentos, às anotações, à literatura, à filosofia de Paul, um espaço repleto de vazios que se afastam, que se repelem — preso na barriga deste monstro astronômico cego, frio, devorador, apático e insaciável. 

Publicado por P. R. Cunha / 14 de fevereiro de 2022


Sem prometer recompensas ou redenções em vida futura

O que mais chamou a atenção de Paul na época do suicídio do tio foi a rapidez, a forma apressada — dir-se-ia atabalhoada — com que os familiares trataram de maquiar os factos, modificá-los, escondê-los, adequar a narrativa para atender aos próprios interesses. Não queriam ter o nome da família, ou melhor, o prestígio da família prejudicado pela insensatez de uma automorte, ao que a palavra «suicídio» de súbito se tornara expressamente proibida, um tabu, ninguém podia falar no suicídio do tio de Paul, apenas no acidente, no infortúnio, na ocorrência, no acaso do tio de Paul, na infelicidade do destino, etc. Um revisionismo histórico comum àqueles que têm vergonha, mas mesmo assim sentem a necessidade de se explicar. Nos anúncios fúnebres, no obituário, no velório, nos discursos antes de soterrarem o caixão do tio de Paul, em nenhum momento citaram a palavra suicídio, lembra Paul enquanto caminha por entre as lápides à procura do nome do tio. As palavras do padre ao observar os dois funcionários uniformizados do cemitério que aguardavam o sinal para despejar o caixão do tio de Paul na cova, o padre a dizer: eis aqui uma alma que se vai cedo demais, quando, verdade seja dita, o tio de Paul suicidara-se justamente porque já era tarde demais. Um desconhecido que porventura passasse pela lápide do tio de Paul leria alguns detalhes insignificantes sobre a vida dele (homem carinhoso, coração puro), quando nasceu, quando morreu, que não deixara filhos, nem esposa, que a família estará em luto eterno, membros dessa família que há muito também morreram, pessoas com vontades, sofrimentos, objetivos, dores, medos, pessoas que acreditaram, que falharam, que obtiveram algum sucesso, que andaram, que foram igualmente enterradas, esquecidas: mas nenhuma, nenhuma menção ao suicídio do tio de Paul, nem sequer uma discreta insinuação, nada. Para todos os efeitos, o desconhecido bem podia imaginar que o tio de Paul morrera tranquilamente numa tarde amena de primavera, reflete Paul enquanto percebe os próprios pensamentos retornando ao presente, enquanto reconhece que, com o tempo, todos somos esquartejados, nossa biografia esquartejada, nossas narrativas esquartejadas, nossas vontades esquartejadas, nossos propósitos esquartejados, nossa memória esquartejada, nosso corpo esquartejado, todos seguem a comitiva fúnebre destes que agora estão deitados na pousada dos mortos, todos, incluindo Paul.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de fevereiro de 2022


A persistência das miragens

Paul aprendeu a caçar fantasmas. Ele sabe que determinadas coisas não desaparecem completamente, insistem em assombrar, deixam vestígios, um rasto espectral: a morte de alguém querido, o término de um relacionamento amoroso, um fracasso, decepções, um acidente automobilístico, a frustração de uma longa amizade que de súbito chega ao fim, situações que abrem feridas, comprometem o padrão de processamento neurológico, constroem ciladas, armadilhas, afetam as partículas cerebrais, causam rebuliço, caos, fazendo com que o organismo humano busque anestesias, falsos sentimentos de conforto. Paul aprendeu, portanto, a caçar esses fantasmas, a exorcizá-los, sabe que a memória é traiçoeira, que ela pode reprisar filmes tão perturbadores quanto o que de facto aconteceu — reconstituições fidedignas capazes de reabrir cicatrizes, resgatar as mesmas dores, o mesmo sofrimento, a mesma apunhalada nas costas —, Paul compreende que para ludibriar essas criaturas espectrais é preciso jogar fora, eliminar tudo que remeta aos vultos agonizantes (roupas, perfumes, acessórios, detalhes, quadros, filmes, fotografias, livros, cartas, todo e qualquer objeto que ressuscite lembranças, que atraia a presença opaca daquilo que não deveria mais existir): tudo deve desaparecer. E, assim, com esse mecanismo tosco, imperfeito, frágil, pode-se, quem sabe, criar ilusão temporária de esquecimento.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de fevereiro de 2022


Previsão meteorológica no rádio e as sirenes industriais

Acontece que estou sempre atento aos mínimos detalhes, com as antenas sintonizadas — escreve Paul. Pensemos, a título de curiosidade, nos andamentos do cotidiano. A degradação das nossas relações naturais (observar o céu noturno, as fases da Lua, as estações do ano, utilizar de forma sustentável os recursos finitos do planeta, as transformações do solo, cooperar com outras espécies, etc.) talvez tenha mesmo um marco significativo: a invenção do relógio, escreve Paul. Com os instrumentos de medições temporais, surgiram expressões como «estou a perder tempo» — leia-se: estou a perder a oportunidade de ganhar alguma coisa (via de regra, dinheiro). Olhar para as estrelas, cuidar das hortaliças, acompanhar o fluxo das estações, admirar a Lua são, para os interesses industriais, atividades absurdas que não geram benefícios financeiros. De aí a contabilidade/rentabilidade dos cronômetros, jornadas de trabalho, sirenes nas fábricas, despertadores barulhentos, escreve Paul, o banho matinal, as vestimentas sufocantes, o pequeno-almoço às pressas, ir para a firma, realizar tarefas disparatadas, o sacrifício de longas-e-longas-e-longas horas dentro de um cubículo, a lidar com pessoas enfurnadas dentro de outros cubículos, a tela do computador que faz doer as vistas, o horário de almoço, a comida insalubre, a continuidade no período vespertino, quando a cabeça já não funciona, os dedos já não funcionam, as pernas já não funcionam, o fim do expediente, a torturante volta para casa, os últimos movimentos do ponteiro, a televisão ligada, o noticiário estúpido, o banho noturno, a cama, o desmaio, o barulho do despertador na manhã seguinte, o mesmo dia, escreve Paul, o mesmo automatismo, a mesma ausência, a mesma loucura, a mesma obsessão pelo relógio, pela engrenagem, pelo suicídio a prestações.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de fevereiro de 2022


Outros comportamentos de Paul enquanto eventos sociais (o teatro da morte)

Muitos dos nossos desejos nunca serão realizados, escreve Paul, e alguns desejos realizados mostrar-se-ão bem menos satisfatórios do que imaginávamos. Durante muito tempo o sujeito se esforça, se dedica, se entrega, se organiza, se compromete para conquistar determinado objetivo, até conquistá-lo e perceber que se sente tão vazio quanto antes. Numa era de GPS, Google Earth, Wikipédia, Waze, abundância de conectividade, redes sociais, não deixa de ser irônico que tantos ainda se percam pelo caminho — escreve isso de forma literal e figurativa. Nesta altura, está mais do que claro que Paul é um problematizador. Ele observa as pessoas, toma notas, analisa o movimento das pessoas, as palavras que as pessoas utilizam, o modo como as pessoas se vestem, esmiuça, como se diz, a «alma» das pessoas: um modo de agir que pode ser um bocado inquietante. Paul cria representações esquemáticas, tenta avaliar o que se passa dentro dos outros seres humanos. Imaginamos ele conversando com certa moça à bancada de um bar, Paul determina as intenções da interlocutora: se ela representa perigo, se está em busca de oportunidades mútuas, se quer apenas afogar as mágoas de um relacionamento indecoroso, se ela boceja, se ela olha para o relógio, que tipo de bebida ela pede, com ou sem gelo, se fala alto, se sorri, se ela mexe no próprio cabelo enquanto Paul comenta sobre o teatro da morte de Tadeusz Kantor, se ela tem marca de aliança nos dedos, até que a moça se sente desconfortável com aquele escrutínio, toda aquela análise esmiuçada, atribuições de Paul (expectativas/intenções/cálculos probabilísticos [64% interessada?, 23% entediada?, quem saberia…]), até que a moça simplesmente pede licença, enxuga os lábios com o guardanapo, levanta e não volta mais. Paul então manuseia o telemóvel, sem saber ao certo como voltará para casa.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de fevereiro de 2022


Vários Pauls

A mente de Paul está constantemente a funcionar. Mesmo quando ele prepara o café, e não precisa de se preocupar com mais nada além do café, beber o café, degustar o café, uma enxurrada de sensações internas — lembranças, imagens aleatórias, sons, sabores, um ensaio que ainda não foi finalizado: Paul tem de processar tudo isso —, minuto após minuto, hora após hora, dia após dia, ano após ano, Paul anda, fala, escreve, o coração dele bate, o sangue flui, os pulmões respiram, o estômago digere, os músculos se contraem, uma sinfonia sem maestro, numa espécie de modo automático, sem que Paul necessite prestar atenção ao que se passa, como uma ferida que se fecha e não percebemos, ou uma doença curada pelo sistema imunológico durante a qual somos meros passageiros a observar o comboio orgânico tentando manter-se nos trilhos, inúmeras ocasiões em que o inconsciente de Paul resolve problemas, fornece soluções de forma quase espontânea, sugere uma palavra ao livro suspenso, um prodígio de atividades, conflitos, fobias, desejos que chegam, permanecem e vão-se embora, comportamentos coordenados pelo cérebro — órgão gelatinoso que pesa menos de um quilo e meio — e um conjunto de Pauls (vários Pauls) a surgir nesta estranha teia neural.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de fevereiro de 2022


Confraria

No inverno de 2001, Paul — um jovem com tempo a perder — estava a perambular pela livraria quando o momento de conversão (num sentido místico, revelador/transformador), quando o momento de iluminação, ponto de virada, quando o Paul adolescente que nada sabe, errante, perdido, desinteressado, quando Paul encontra aquele que lhe servirá de tutor, de norte, de âncora, de mestre, de exemplo, de oráculo, quando Paul agacha-se para pegar o último exemplar de Os anéis de Saturno disponível, quando Paul folheia, lê as primeiras frases do livro que o transformará num sujeito introspectivo, em busca de ideias, sujeito com caneta e bloco-notas sempre em mãos, quando Paul inicia a jornada do discípulo ignorante que quer deixar de sê-lo, quando Paul, enfim, conhece W. G. Sebald.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de fevereiro de 2022


Entre um nada e outro

Essencial para o trabalho de Paul é que as modificações na chamada rotina sejam mínimas, uma estabilidade (previsibilidade) a proteger, ou melhor, a fomentar os aperfeiçoamentos literários e/ou filosóficos do sujeito que escreve, assegurando que ele não perca a linha de raciocínio, garantindo, portanto, um processo com poucas distrações. Quando Paul se vê longe dessa terra preparada para os próprios estudos da natureza das coisas, ele sente a boca seca, os braços queimam, as pernas enveredadas pelo caminho do inferno — um náufrago sem boia de salvação, um piloto abatido sem paraquedas, um alpinista sem cordas, motorista de autocarro que pisasse forte no pedal do freio e o freio nunca funcionasse.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de fevereiro de 2022


Observações: a abóbada estrelada das noites amenas

Paul não consegue esquecer que deu imensas chances para a «sociedade civilizada», tentou se adaptar às diretrizes da maioria, fazer parte dos rituais estabelecidos insistentemente: pelo vício, pela repetição, pela conveniência —  vida correta aos olhos dessa sociedade (i.e.: casa, matrimônio, procriar, aborrecer-se com as contas a pagar, com os problemas do condomínio, entregar-se aos entorpecentes etílicos para esquecer, as fugas da praxe, reinícios, fingir que está tudo bem, que está a cumprir determinado papel no grande esquema das coisas, que está contribuindo para o avanço do grupo), até chegar à conclusão (Paul) de que nunca se adequaria às normas, nunca seria um «bom cidadão», um exemplo para as próximas gerações, um caso de sucesso, nunca conseguiria construir carreira, subir os degraus rumo ao cimo, ter filhos, e Paul odeia a velocidade dos automóveis, das mensagens, as aparências artificiais, as roupas das pessoas, os sapatos das pessoas, as marcas, os cosméticos, os rostos marcados pelo aborrecimento, a insatisfação generalizada, o imediatismo, Paul odeia o instantâneo, a pressa, o desprezo, o desespero, o descartável, a loucura da metrópole, o calor insuportável que irradia do asfalto, dos edifícios, das placas de metal, odeia as buzinas, as sirenes, as britadeiras que abrem espaço para um túnel que cortará o centro da cidade. Dir-se-ia com certa segurança que Paul é uma espécie de árvore deslocada num jardim de concreto, árvore lenta, descompromissada, um bocadinho inútil, o balançar sem pretensões dos galhos que não resistem aos sabores do vento, um eremita que cansara de sair, e sempre se aborrecia, e se condenava ao retornar, e sentava-se à mesa para reconstruir tudo não como era, mas como ele achava que deveria ter sido, e o cérebro não se incomoda com essa ardil, o cérebro se satisfaz na mesma, o cérebro de Paul aceita, ou melhor, abraça a falácia, recebe as recompensas, sente-se satisfeito com as reconstruções, com o fantástico, e ao agir dessa forma Paul como que coloca umas lentes de aumento nas feridas da sociedade, nas ficções criadas para manter essa sociedade funcionando, uma sociedade sempre a um ou dois passos do desfiladeiro, uma sociedade que prefere ignorar, que sempre preferiu fechar os olhos, que sempre preferiu se esquivar, refugiar-se nas inúmeras negações disponíveis, sociedade que não quer saber o que um pária, um lunático, um desajustado como Paul tem a dizer sobre feridas, falhas, defeitos, equívocos, sobre os analgésicos postiços, sobre as doses cada vez mais desproporcionais, sobre o castelo de cartas que uma simples brisa de verdade indecorosa seria o bastante para colocar tudo ao chão. 

Publicado por P. R. Cunha / 6 de fevereiro de 2022


Longas caminhadas (sem pressa)

As reflexões de Paul são exercícios que se formam por tentativas e erros, longe de serem pensamentos fixos, bem-formados, assemelham-se mais a combinações aleatórias, mutações que se juntam a outras mutações, ideias que se fundem e geram novas possibilidades, novos testes, novos caminhos, até que, cedo ou tarde, Paul consegue encontrar um clarão na floresta, olha por entre as árvores, analisa as condições meteorológicas: se chuva, se sol, se dia, se noite, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de fevereiro de 2022


Tire a literatura ou a filosofia de Paul e não sobra nada

Paul escolheu ser um tipo que escreve, que observa, que problematiza, que tenta filosofar sobre os mínimos detalhes deste mundo alheado. Esse sentimento sintético de «importância pessoal», de ser útil, de fazer parte de algo maior do que si mesmo, ajuda a manter certa coerência (âncora) numa realidade em que, se pararmos para pensar, impera o caos, a intranquilidade, o despropósito. Construções artificiais à laia de anestesias: um médico sente-se seguro se a equipe do hospital lhe tem em alta conta, um empresário respeitado pelos pares tem a impressão de estar contribuindo para a sociedade em que ele acredita, um engenheiro contempla a obra que ajudara a terminar e volta para casa com a certeza de dever cumprido. O sistema de recompensa cerebral é ativado e após cada tarefa finalizada o indivíduo sai em busca de outros desafios, pois quer sentir novamente o fluxo inebriante dos hormônios superestimulados. Mesmo que Paul não tenha leitores, ele faz de conta que tem, ou que terá — depois de morto. O cérebro não se importa com a veracidade das fontes (leitor real/leitor imaginário), ele está interessado no fim, na consequência, no prêmio. Elogie uma pessoa e ela se sentirá bem: mesmo que o elogio seja uma farsa.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de fevereiro de 2022


As cinzas dos mortos

Há noites que de tão pesadas deixam Paul com a impressão de que as horas cessaram, como se o planeta tivesse caído às margens de uma galáxia inoperante, e nada se mexe, nem os átomos, nem a luz, um silêncio afiado que parece durar séculos, milênios, um silêncio eterno, silêncio dos mortos, o silêncio do tio de Paul, enterrado no Campo Santo depois de apertar o gatilho, a mira da pistola virada para a própria têmpora, e os eufemismos na lápide desse tio que, quando vivo, não dera, como se diz, trabalho para ninguém, nunca pedira para que o defendessem, para que o justificassem, mas depois de um suicídio há sempre a necessidade de se justificar, e cabe aos familiares escolher as justificativas «adequadas», essa postura canhestra de redimir os suicidas, que não querem redenções, não buscam perdão, apenas almejavam o vazio, o abismo, o não-estar, e Paul bem se recorda da última visita que fizera ao túmulo do tio, a data de nascimento do tio, a data da morte do tio, e os dizeres mais inautênticos, mais hipócritas, sim, mais desajuizados que alguém poderia imaginar, um modo de escrita religioso que caberia a um padre, a um seminarista, mas não a um indivíduo livre e desimpedido como o tio de Paul, umas frases toscas, vulgares, que nada tinham que ver com o temperamento do tio de Paul, além das figuras de santos, os pequenos crucifixos ao lado da lápide, tudo completamente alheio ao gosto do meu tio, pensa Paul deitado na cama sem se mexer, meu tio jamais usaria um crucifixo, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi enchê-lo de crucifixos, meu tio jamais acreditara em santo, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi cobri-lo com toda a sorte de santos, meu tio, é necessário que eu insista neste ponto, insiste Paul na cama, meu tio jamais se esquivara das próprias responsabilidades, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi eximi-lo da culpa encomendando uma placa de péssimo gosto estético, para dizer delicadamente, uma placa de bronze com citações bíblicas, e pedidos de perdão, e súplicas para que aquela pobre alma (a do tio de Paul) pudesse entrar no paraíso celeste, a despeito da falha terrível, a despeito, portanto, do suicídio, da pistola na têmpora, do gatilho, pensa Paul, paralisado no quarto escuro.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de fevereiro de 2022


Nossa fugaz existência biológica

Um fazendeiro mexicano ajoelha-se na vegetação seca, levanta as mãos ao céu e implora para que Tláloc, o deus da chuva, jogue água àquele campo devastado. Subo ao Templo Mayor, diz o fazendeiro, se fecundarem a minha terra moribunda. Como que por milagre, escuta-se um trovão ao longe, num acaso comum ao culto agrário. Paul escreve esse esboço de mitologia asteca enquanto observa a chuva cair na varanda da própria casa. Recorremos às divindades porque não damos conta da sufocante indiferença das coisas naturais, ele anota no canto da página, ainda sem saber ao certo o que fazer com a frase. Hoje é quarta-feira e nosso cérebro conforta-se com o facto de que haverá uma outra quarta-feira na próxima semana, e depois mais outra, e outra, como se as quartas-feiras se estendessem ao infinito. Mas e se não houvesse outra quarta-feira?, reflete Paul estendendo a palma da mão para capturar os respingos de chuva. Noutros termos: e se passássemos boa parte da nossa existência a questionar as quartas-feiras… Se retirássemos toda a maquiagem cultural, todas as narrativas atrás das quais nos escondemos, os mitos, as leis, as convicções, os costumes, todas as armadilhas que criamos artificialmente, o que sobra são corpos em decomposição, corpos que sentem um fluxo transitório de sensações, corpos fustigados pelo pavor, corpos efêmeros que nascem, existem um bocadinho, e deixam de respirar abruptamente. Consolar-se com as quartas-feiras eternas, escreve Paul, é mais um mecanismo de defesa, modo de negar a ceifa da finitude. Relaxo, tomo o gin, não preciso de me preocupar, haverá sempre a próxima quarta-feira, etc., escreve Paul, mesmo que essa certeza seja tão imprevisível quanto o humor de Tláloc — que pode ou não trazer chuva ao campo das folhas mortas.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de fevereiro de 2022


Baía protegida contra os rigores da força do mar

A verdade é que Paul levou décadas para estabelecer rotina adequada, modus operandi que permitisse ao próprio cérebro um automatismo quase instantâneo, sem perda desnecessária de energia: a chávena de café, a mesa com os materiais convenientes, os livros, o caderno, a escrita — décadas para construir essa espécie de pré-conforto, um abrigo, estrutura aprazível para a prática de atividades literárias e/ou filosóficas, a depender do humor de Paul na altura. Mas com que facilidade tudo isso vai, como se diz, «por água abaixo», com que facilidade Paul se distrai, com que facilidade uma doença pode tirá-lo dos trilhos, com que facilidade um simples evento social consegue perturbá-lo por dias a fio. Não é o bastante criar para si uma fundação bem planejada, é preciso também reforçá-la constantemente, manter-se atento às rachaduras, pois nunca se sabe o tipo de cataclisma que pode atingir as paredes do castelo amanhã.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de fevereiro de 2022


Analgésicos

Paul está sentado à mesa. Segunda-feira. 10h34 de uma manhã cinza com nuvens modorrentas. Paul neste momento se mostra imerso dentro de si mesmo, está, como se diz, filosofando. Mas quem passasse pela rua e observasse Paul pela janela, o que veria? — um ser humano inclinado sobre papéis e livros, com caneta Bic na mão direita, a tomar notas avulsas, um corpo que agora pode estar quente e funcionando, mas que a qualquer altura também sucumbirá: descobre-se um cancro, é-se atropelado, leva-se um tiro. Paul está a filosofar exatamente sobre tais imprevisibilidades, sobre as estruturas ilusórias da cultura que vêm para nos proteger (?) da certeza de morte, narrativas repletas de mentiras, ordens, hinos, etiquetas, valores, símbolos, mitos, heróis, vilões. Um verdadeiro castelo de areia, reflete Paul, uma estrutura sempre prestes a desabar, ruínas que exporiam toda a sorte de cicatrizes, caos indomável, o nosso fim irremediável. A verdade é que Paul não está alheio a essas armadilhas narrativas. Tenta evitá-las, olha para o lado, mas volta, retorna aos vícios indecentes, ao conforto narcótico desses ópios filosóficos.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de janeiro de 2022


Enfermidade

Uma doença bastante rigorosa que nos colocasse na cama durante vários dias, e as dores múltiplas dessa doença, o desconforto, a sensação de estarmos à deriva, ou num treinamento de morte, simulação de morte, presságio de morte, e nossa consciência delirante nos apresenta uma série de cenários, despedidas, febres, e vemos nestas alucinações como seria o mundo sem a nossa presença, e temos de lidar com a futilidade do nosso passado, com a nossa procrastinação, com os momentos em que deixamos de fazer isto ou aquilo, e bem podíamos estar tomando banho numa cachoeira, ou com os pés no oceano, todas as vezes em que deixamos de olhar para o céu, ou nos olhos de quem sempre esteve ao nosso lado, pensa Paul enquanto levanta a chávena de café contra o Sol percebendo uma curiosa criatura cromática, uma doença, portanto, que nos impelisse para fora, que nos despertasse, como o providencial tapa no rosto de um pugilista após o nocaute, doença cujas perturbações machucassem, incomodassem, mas que também deixassem uma herança de aprendizagens, doença que nos desse esta nova chance, um recomeço, novas possibilidades.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de janeiro de 2022


Leito de morte

No nosso pensamento as frases são bonitas, fazem sentido, conseguimos nos expressar, imaginamos um receptor a nos compreender, até falarmos essas frases, isto é, até verbalizarmos o que antes eram apenas figuras simbólicas enclausuradas dentro da consciência, de aí notamos que as frases não eram assim tão bonitas, nem faziam tanto sentido, e muito menos conseguimos expressá-las da maneira que gostaríamos, reflete Paul enquanto rola para cima as fotografias que publicaram no Instagram. Diante de toda aquela enxurrada de narrativas alheias — selfies, beijos supostamente apaixonados, cenários aventureiros, sorrisos, restaurantes, florestas a preto e branco, quartos de hotel com vista para o mar, estações de neve, exames médicos, dançarinos caseiros, engajamento partidário —, Paul também se pergunta se a humanidade não teria atingido um grau tão avançado de auto-exposição que deixamos de ter segredos, ou pior: deixamos de ser segredo para nós mesmos, um ponto em que nada (nem ninguém) nos surpreende. Olhamos as fotografias das pessoas no Instagram e as pessoas olham as nossas fotografias no Instagram, compartilhamos os nossos momentos, as pessoas compartilham os momentos delas, mas jamais nos tocamos, apenas deslizamos o indicador no ecrã do telemóvel, e nos acostumamos com essa forma silenciosa de interagir. Mas chega o dia em que queremos contar para alguém o que sentimos por esse alguém, chega o dia em que estamos sentados com a nossa esposa, ou com a nossa mãe, ou com a vovó deitada no leito de morte, queremos comunicar o que se passa dentro de nós, e nos sentimos miseravelmente incapazes de fazê-lo, não encontramos as palavras adequadas, permanecemos ali, corpos falhados, impotentes, inúteis, como se numa outra dimensão.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de janeiro de 2022


Efeito dominó

De acordo com as convicções de Paul, a maior prova de que o sofrimento é mais resiliente do que o contentamento está no facto de que para revivermos sensação agradável por vezes é necessário um enorme esforço de concentração, enquanto a simples referência à palavra «sofrimento» já é mais do que o suficiente para desencadear uma série de passados terríveis na nossa cabeça. Baumeister disse, escreve Paul com letras minúsculas numa pequena caderneta sem pautas, Baumeister disse que o poder dos eventos ruins pode ser encontrado em cada esquina do nosso quotidiano. E aqui Paul cria uma breve lista com o título Traumas: relacionamentos dilacerados, interações interpessoais à beira do colapso, guerras, emoções perturbadoras, pais severos, uma palavra hostil, tudo isso tem muito mais impacto (i.e.: permanece por mais tempo) do que as situações ditas aprazíveis. E observamos os rostos das pessoas na rua, continua Paul, toda aquela gente mais preocupada em evitar/amenizar desastres do que correr atrás de algo «bom». É provável que incontáveis passantes tenham acabado de perder a mãe, ou o filho está demasiado doente, ou tiveram de vender a casa para pagar dívidas, ou cogitam o suicídio. Impressões ruins formam-se com imensa rapidez, criam raízes, assombram, enquanto as boas são curtas, efêmeras, fugidias — escreve Paul, ciente de que talvez tenha que voltar a este tema para explicar-se melhor.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2022


Corridas

Não importa a dor que estejas sentindo, o desespero, a angústia, não importa, reflete Paul ao praticar o running matinal, não importa o teu desassossego, não importa a tua vontade, ou melhor, a tua falta de vontade, a tua melancolia, enquanto estás escondido num buraco negro de desilusões, enquanto com imensa dificuldade levantas a mão para te protegeres da luz solar que entra por uma brecha minúscula da cortina fechada, alguém está lá fora sorrindo, pássaros despreocupados cantam, mamã girafa cuida dos filhotes, casal entrelaçado admira as cores de um arco-íris, poeta escreve sobre as ondas do Pacífico, jovens comemoram conquistas acadêmicas: tudo e todos completamente indiferentes ao teu pequeno inferno particular, pensa Paul — correndo.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2022


Fundações, estrutura e paredes

É tudo um processo, pensa Paul enquanto toma o pequeno-almoço. Pode-se ter uma infância agradável, juventude amena, até que algo terrível acontece, e talvez a pessoa esteja ainda tão anestesiada, tão alheia dentro das bolhas de proteção que não consiga de imediato perceber o que está se passando. De início, um brando e quase imperceptível desconforto, pensa Paul ao morder a torrada, de aí o desconforto se transforma numa série de inquietações, que se acumulam, e se multiplicam, dia após dia, como aquelas células que se dividem vertiginosamente, perturbações insuportáveis, angústias, dores físicas e emocionais, falta de vontade, paralisias sufocantes — implosões silenciosas. A verdade é que dificilmente um edifício se transforma em ruína de uma hora para a outra. Sentimos algo diferente nas paredes, insiste Paul, notamos as rachaduras do fracasso, por vezes tarde demais: a construção estava há muito condenada, só não queríamos enxergar. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de janeiro de 2022


As colunas que sustentam o céu acima da terra

Hoje em dia, se alguém diz: não estou preocupado, não estou ansioso, nem à beira de um burnout — muito provavelmente esse alguém tem outro ser humano a lhe servir de para-raios, pensa Paul enquanto caminha pelas ruas como que perdido num transe. O marido diz: minha vida está ótima, não tenho com o que me preocupar, e logo analisamos a fisionomia da esposa, completamente exausta, esgotada, pois precisa de resolver todas as pendências do marido. E o contrário também pode acontecer, não se trata de questão machista e/ou feminista, as pessoas são falhadas, esposas, maridos, homens, mulheres, médicos, jogadoras de futebol, advogados, executivas, independentemente do rótulo, justifica-se Paul a um interlocutor invisível. Um filho que dissesse: que vida boa estou a levar, que maravilha, nenhuma preocupação, nenhum sofrimento, e lá estão os pais a pagar as contas do filho, o aluguel do filho, o plano de saúde do filho, os pais perdem os cabelos, engordam, tomam toda a sorte de remédios, dão entrada em hospitais psiquiátricos, mas o filho está a levar uma boa vida, e é isso que importa.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de janeiro de 2022


Incêndios

Depois de uma série de acontecimentos grotescos, Paul agora tenta não se aproximar das pessoas. Gosta de ficar sentado na poltrona felpuda, a luz leitosa do fim de tarde ilumina as páginas de algum filósofo pessimista. O caráter introspectivo de Paul busca resignação, o quietismo, enquanto uma necessidade demoníaca o arremessa com força na direção da escrita, dos gritos, do choque elétrico. Esta dicotomia, avanços-&-recuos: tensões contraditórias que representam o interior de um homem estilhaçado.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2022


E o universo irá se esquecer de si mesmo

À guisa de distrações, Paul tenta recriar significados através dos fantasmas da própria consciência. Ele sabe que é um jogo inútil, um exercício que leva ao penhasco, mas lá está Paul a fazê-lo. Fantasmas do passado, uma terra que não é mais, o pai de Paul, o avô de Paul, a irmã que ele nunca conhecera, e também fantasmas do futuro, estes simulacros amorfos do que ainda está por vir. Em ambos os cenários: miragens. Paul observa uma dália amarela que, pela inclinação, dá indícios de um desabamento iminente. Mesmo a imagem daquela flor moribunda já é um passado, pois a luz que ela emite leva tempo até atingir os olhos de Paul. Noutros termos, o que Paul chama de presente torna-se pretérito antes que ele consiga processar a informação que recebera. Fantasmas que insistem em desaparecer, imagina Paul enquanto se agacha para avaliar melhor a dália que morre, fantasmas travessos cuja dúbia e fugidia presença é presságio de abatimento.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de janeiro de 2022


Arquitetura da desilusão

A verdade é que com o tempo Paul foi desistindo das pessoas, e as pessoas também foram desistindo de Paul, foi algo gradativo, quase imperceptível, Paul simplesmente refletia: será que chamo as pessoas?, e cada vez mais decidia não chamá-las, o mesmo se passava com as pessoas: será que chamamos Paul?, e cada vez mais decidiam não chamar Paul, e se antes havia uma certa dependência, ou seja, Paul precisava das pessoas e as pessoas precisavam de Paul, aos poucos todas as partes perceberam a parvoíce desse modo de agir, Paul não precisava das pessoas, as pessoas tampouco precisavam de Paul, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de janeiro de 2022


Naufrágios previsíveis

Quando acontece de Paul acordar no meio da noite, e ele percebe que é inútil tentar voltar a dormir, ele cobre o rosto com os lençóis, imagina-se dentro de um barco, à deriva no oceano, e o barco tem o tamanho exato da cama de Paul, que agora tenta adivinhar o que a escuridão marítima estaria a esconder lá fora. Às vezes Paul sente a embarcação afundando, lentamente, e ele se entrega ao naufrágio de bom grado, nem balança as pernas, apenas aguarda. A cena toda é bastante solitária e instila tristeza.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de janeiro de 2022


Ciclo do gelo

Por vezes é difícil prever os movimentos de Paul — ele anda, vira a cabeça, contrai os olhos, senta, levanta, inclina-se. Como um coelho que se locomovesse na floresta, essas ações de Paul também fazem parecer que ele tem vontade própria, que sabe com o que está lidando. Enquanto toma o café matinal e abre a porta da varanda para sentir os primeiros ventos do dia que lhe atingem o rosto como ceifas afiadas, Paul lembra que à medida que o ser humano permanece no planeta, dá voltas e voltas ao redor do Sol nesta nave de pedra sem condutor, à medida que acumula anos, ele está a colecionar memórias, e certas memórias podem ser avassaladores. Paul segura a chávena quente que libera vapores na atmosfera gelada da manhã, pensa ainda que alguns humanos nunca aprendem: passam por momentos terríveis, grandes dificuldades, contorcem-se, desesperam-se, prometem que vão mudar, que não vai mais acontecer, juram, choram, imploram, e quando a tempestade passa, quando tudo é calmaria novamente, lá estão eles a cometer os mesmos erros, os mesmos vícios, os mesmos maus hábitos. Paul até acha graça, mas não consegue rir, talvez porque tenha se identificado imenso com o que acabara de pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de janeiro de 2022


Cenotáfio

Paul gosta de automóveis antigos
vulcões neve café teatro do
Thomas Bernhard
arquitetura prosa finlandesa Paul
já escreveu poemas
com reações emocionais
depois de ver eclipse solar
e cometa Paul
está sempre a ir para algum sítio
ou a voltar
de algum sítio Paul
entrega-se às trevas
não gosta de ser
incomodado quando
comprometido com alguma
tarefa criativa
temeroso facilmente confuso Paul
inflexível longas ausências longas
viagens impossíveis obras
criadas na solidão refletem
inquietações diante do
presente que logo se torna
ruína do passado como se Paul
procedesse à fundição
afundado nas lavas do
trabalho Paul
parece um objeto projetado
sombra sob luz
pálida e difusa da
luminária.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de janeiro de 2022


Guerra indefinida — polaridades e tensões (temperamentos de Paul)

Há muito que Paul decidira viver numa realidade paralela, ou melhor: criar cenários imunes à interferência externa, pois bem cedo percebera que não conseguiria se adequar aos chamados costumes comuns. Pode-se dizer que o isolamento de Paul é uma dupla tentativa de defesa (para si e para os outros). Passa os dias debruçado sobre livros, a vontade de compreender aqueles mundos internos, de abranger razões, inventar sentidos, a tomar notas de frases que lhe agradam para depois construir qualquer coisa com esse material: pintura, microtexto, música, fotografia — Paul nunca sabe ao certo. E esse modo de existir, como se pode imaginar, acarreta uma série de desafios, principalmente quando as circunstâncias sociais exigem que Paul se afaste do próprio universo controlável para ter com os seres humanos algures. Choque de realidade, dir-se-ia, o presságio do fracasso. Os amigos de Paul não conseguem compreender: de início ele se mostra o mais charmoso do grupo, conversa, cita Tranströmer de cabeça, discorre sobre Jünger, Beckett, McEwan, até ao imprevisível momento em que Paul simplesmente para de falar, rosto sombrio, olhares vagos, postura de tristeza. A demanda do conhecimento, escrevera um antigo, parece mesmo estar destinada a causar um certo estado de melancolia. Paul então se despede dos amigos, um homem que agora se afasta, em silêncio, confrontado com mil demônios invisíveis.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de janeiro de 2022


Energia produtiva / calor inútil

Ao sair para tomar café com torradas amanteigadas, Paul esquecera a janela do escritório aberta. Ele mastiga as torradas, leva a chávena aos lábios e pergunta se teria fechado bem a janela. Os dentes trituram as torradas, Paul gosta do ruído. Ele bebe o restinho de café, paga a conta, e caminha de volta para o escritório. Paul acende a luz, uma mixórdia de papéis, e canetas, e lápis, e borrachas, e livros de bolso, e toda a sorte de miudezas cobria o chão do escritório. Isso em meros trinta minutos, ele pensa, o planeta a me dar lições de entropia. Paul senta-se à escrivaninha e com mão trêmula anota — tudo no universo tem a avassaladora tendência de se degradar, uma deterioração contínua, imperceptível, violenta, agressiva. Fica-se, Paul escreve ainda, fica-se sempre com esta sensação de perda, de vulnerabilidade: de impotência.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2022


Radiação cósmica de fundo (Café Wittgenstein)

Nietzsche pede ao leitor que se imagine sozinho, talvez à noite, quando se desperta de sonhos intranquilos. O leitor abre os olhos e se depara com uma espécie de demônio-filosófico que anuncia isto: a vida que estás a viver irá se repetir, para sempre, e para sempre, e para sempre.

Eterno retorno. A supor que teremos de passar por esta mesma existência ao infinito, com os mesmos eventos, bons e/ou ruins — os mesmos beijos, as mesmas decepções, os mesmos pavores, as mesmos alegrias —, tudo de novo.

Acontece que em determinados momentos da vida humana essas recorrências nem sequer precisam de mortes para se reciclarem. É quando os dias se tornam iguais, os noticiários (re)publicam as mesmas desgraças, sequências previsíveis, o Sol pela manhã, a Lua na escuridão, a cama, o vento, o café — como se o tal demônio-filosófico estivesse ansioso, com imensa pressa de mostrar o que nos aguarda mais ao longe.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2022


Sublimação

Estás a fazer isto há tanto tempo que não consegues mais separar a tua parcela escritora da tua parcela pessoal: elas se dissolvem, transformam-se numa substância homogênea. Dir-se-ia, portanto, que se falhasses como escritor, estarias a falhar igual como pessoa.

Encontraste um conjunto de vozes (com as quais procuras comunicar teus pensamentos — angústias, euforias, verdades, ficções, o caos). Rabiscas no caderno, inventas, exageras, confundes de acordo com o teu humor na altura. Tentas, de alguma forma, obedecer à demanda dos instintos.

Hoje, estás seguro e confortável no casulo. Aproveita…

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2022


É inútil bancar o hipócrita

As pessoas te observam e não fazem a ideia do que se passa dentro de ti. Elas podem até achar que sabem, que compreendem, mas elas não sabem, tampouco compreendem. Em verdade, imensas vezes tu também não compreendes, não sabes descrever teus próprios pensamentos, não consegues, como se diz, verbalizá-los. Um grande mal-entendido. Tu entras em pane, percebes as rachaduras, e todas aquelas coisas que supostamente deveriam te proteger durante o colapso — livros, filosofias, artes, etcétera, etcétera — não servem para nada. Tu pensas: estou preparado, tenho cá meu Montaigne, meu Burton, meu Novalis, minha escrivaninha, meu bloco-notas, meu Jünger, meu Wittgenstein, meu Nietzsche, mas quando a tragédia de facto acontece, quando tens de encarar a perturbação, a catástrofe, quando, em suma, tens de colocar esses mecanismos de defesa à prova, constatas que não funcionam, que não te defendem, que a ideia de estares preparado não passava de uma parvoíce, ilusão, não estavas preparado, e, obviamente, é sempre mais fácil falar que estamos preparados para a guerra, que saberemos lidar com os desastres, e falamos isso nos momentos de paz, de tranquilidade, falamos: a guerra não me assusta, pode vir a guerra, meu exército está de prontidão, mas assim que ouvimos o barulho da primeira bomba a explodir, ou perdemos alguém que nos era crucial, ou partem o nosso coração, ou melhor, estraçalham o nosso coração da forma mais ultrajante que se possa imaginar, percebemos (tarde demais, é claro) que estávamos apenas nos ludibriando, que andávamos perdidos em miragens reconfortantes, alienados. Apesar dos nossos esforços, das nossas fortalezas, dos nossos arsenais filosóficos, nunca estaremos 100% preparados para o pior — essa é a desmascaradora e deprimente verdade.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2022


Formiga

Uma pessoa que estivesse a andar na calçada e se deparasse com uma formiga morta e porventura se agachasse para perguntar às outras formigas qual era o sentido da vida daquela formiga morta — o propósito, a motivação, as querelas, o legado, ou mesmo se ela estaria agora num céu (ou inferno) de formigas — de certeza que seria considerada louca.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2022


Nevoeiros

Tudo o que querias era uma tarde nublada para te dedicares à leitura e à escrita. Mas, por vezes, são justamente essas tardes — chuvosas, opacas, lentas, lacrimosas — que te assolam o coração, que te enchem de angústias. Círculo vicioso: se não consegues ler, raramente consegues escrever, e se não consegues escrever ficas melancólico, que é bem a maior causa da tua não-vontade-de-ler. Queres aprender imensas coisas para que tenhas, como se diz, as ferramentas necessárias na hora de descreveres o que se passa dentro de ti. Os momentos de vulnerabilidade são aqueles que colocam tais ferramentas numa prateleira alta, longe do teu alcance, e não tens escada (nem força) para chegares lá.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2022


Rotas de fuga

Sentamos para escrever e temos o alfabeto inteiro à disposição: com essas letras (moléculas gramaticais) formamos palavras, e com essas palavras podemos declarar guerras, refletir sobre a indiferença cósmica, criar personagens, decretar leis, mentir, exprimir, rebater, podemos demonstrar amor, ódio, cortejar, emocionar, fazer rir, afogar-nos em lágrimas, podemos nos aproximar, ou nos distanciar, ser entendidos, incompreendidos, destruir muros, podemos, inclusive, quando nem a combinação infinita se mostra o bastante, permanecer em silêncio — um mergulho no abismo, vazio.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2022


Presságios

Tenho diante de mim o computador aberto. Estou prestes a fazer o teste «Saiba se você é um psicopata» enviado — não sei se a sério ou se a brincar — por um amigo de juventude.

Parte significativa da minha, como se diz, consciência está temerosa.

Algumas pessoas já disseram que sou indiferente, outras que não tenho coração, um monolítico sem sentimentos, perverso, melancólico, problematizador, ranzinza, tosco, megalômano… Confesso que não gostava de adicionar outro adjetivo perturbador ao meu extenso portfólio emocional.

A capa do teste (formato PDF) tem o rosto de Norman Bates, personagem interpretado por Anthony Perkins no filme Psycho, do Hitchcock. Escolha apropriada, se pararmos para pensar. Um rosto que olha diretamente nos nossos olhos, como quem diz: compartilhamos um segredo macabro, e tu bem sabes disso.

Há não muito tempo, minha irmã me enviou uma foto nossa durante certa bebedeira e comentou, por alto, que eu estava com a cara do ator Malcolm McDowell — o Alex, em Laranja mecânica. É o mesmo olhar de Norman Bates.

Coincidências à parte, abro o teste e leio a primeira frase: traços de um psicopata, saiba identificá-los. Posso (e quero) desistir de fazê-lo, mas sigo adiante mesmo assim.

* * *

Postscript a título de curiosidade: depois de responder a um questionário genérico e ambíguo (quinze perguntas elaboradas por sabe o diabo quem [nenhuma fonte, nem citações]), meu resultado foi: «Parabéns!, você não é psicopata».

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2022


Tudo isto acaba de repente

Em julho de 1989, o pequeno P. R. Cunha está sentado às margens da laguna de Araruama, com chapeuzinho de pescador, faz castelo de areia com ferramentas de plástico. Talvez fosse mais um daqueles dias na Região dos Lagos, dias morosos em que o tédio como que paralisava o mundo do pequeno P. R. Cunha, que por vezes escutava a voz do papai e da mamãe e sentia-se invencível.

Um outro tipo de relógio: infantil, despretensioso, seguro, relativo.

O pequeno P. R. Cunha tem apenas três anos de planeta, está ainda, portanto, mais próximo do vazio que precede ao nascimento, do que aquele que engolirá a todos quando retornarmos às entranhas da terra. O bom senso de Nabokov, a dizer que nossa existência é apenas uma fina fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Refletir sobre o passado, principalmente sobre o tempo de tranquilidades infinitas da infância, tentativas simbólicas de dilatar essa fenda — o P. R. Cunha adulto compreende, sem, todavia, negar à morte a capacidade de apagá-lo.

Planetas, estrelas, cometas, sistemas solares, galáxias, buracos negros, são transitórios: surgem, permanecem, desaparecem. Tartaruga gigante de Galápagos, rinoceronte negro do oeste africano, golfinho-do-rio-chinês, tigre-de-Java, tubarão-lagarto, cabra montesa, mamute, dinossauros… todos extintos. Por que seria diferente com os seres humanos (e nossos acúmulos desesperados [livros, músicas, filmes, internet, luzes elétricas, câmeras de vigilância, selos comemorativos, armas, etcétera, etcétera])?

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2022


Circunstâncias exteriores

É sempre um prodígio. Antes de dormir, inquieto-me com a possibilidade de, na manhã seguinte, não ter nada sobre o que escrever. Parece que Hemingway era assolado pelos mesmos fantasmas. Terminamos o nosso trabalho literário antes de o Sol se pôr, ele diz, e torcemos para que tenhamos alguma coisa na cabeça quando a estrela voltar ao horizonte. A tragédia, ainda no caso do sr. Hemingway, foi acordar e ver-se vazio por dentro.

Recentemente, recebi visita inesperada e a pessoa ficou observando a disposição do meu quarto: pois!, não sabia que eras minimalista. Respondi que o estilo espartano não fora adotado de maneira intencional, que não sigo nenhuma doutrina, nenhum guia, nenhum manual de instruções, apenas aprendi, com o tempo, a identificar as coisas que se mostravam essenciais para a minha escrita e livrei-me dos supérfluos, isto é: de tudo aquilo que não me ajudava a escrever.

Nunca me propus criar manifesto minimalista. O que é pouco para alguns, pode ser muito para outros — e vice-versa. Um músico de certeza não poderia viver sem o instrumento musical; da mesma forma, pedir ao fotógrafo que se livre da própria câmera fotográfica seria um disparate.

Utilizo este exemplo tosco e caricato à guisa de ilustração: antropólogo que morasse na floresta com alguma tribo aborígene não precisaria de ter um relógio Gaff Diamonds Hallucination (que custa mais de 55 milhões de dólares). Um valor absurdo para um objeto igualmente absurdo.

Eis, portanto, um relato simples e sincero das minhas, como se diz, «posses».

– Duas estantes*;
– Uma escrivaninha;
– Um computador;
– Uma luminária de mesa;
– Poltrona para descanso;
– Estojo com canetas diversas;
– Caderno de anotações (140mm x 202mm);
– Tapete**;
– Minha cama.

*Apenas com os livros essenciais para a minha atividade literária — depois de algumas décadas de leituras, toda a gente consegue identificar (até com certa facilidade) quais livros prestam, e quais não valem a pena.

**Bom para a acústica.

Tão logo percebi que não precisava de mais nada além desses itens supracitados, tratei de jogar fora o material excedente. Como naquela frase de Michelangelo, possivelmente apócrifa: não foi difícil criar a escultura de David, apenas peguei um bloco de mármore e me livrei de tudo aquilo que não era David.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2022


Gravidades

Quando nos perguntam algo, como se diz, de supetão, raramente respondemos o que queríamos, da forma que queríamos, com as palavras que queríamos, saem umas coisas estranhas, desconexas, difíceis de entender, termos dos quais sentimos vergonha, e a inquietação permanece, prolonga-se, começamos a pensar: e se eu tivesse dito isto, ou aquilo, e se eu não tivesse hesitado, gaguejado, por que sou tão pedante, ou tolo, vazio, etcétera. Toda a gangorra humana poderia ser justificada por esses constrangimentos sociais — movimento de marés (sair/esconder-se, aparecer/desaparecer). Por um lado, a exposição, a caça, a busca; por outro, a proteção, o refúgio, o silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2022


Naturezas finitas

Boas, leitores! — como sempre, muito desejoso de estar a serviço de vossa graça. É dois mil e vinte e dois e ainda não faço a ideia o que isso significa. Os anos mudam e eu cá não sinto tanta diferença. Ontem era domingo, hoje se faz segunda, amanhã: terça-feira. Nada de especial. Mantenho a mesma rotina, tomo o café forte para despertar, leio Michaux, Leopardi, Novalis, sinto um conforto momentâneo, volto a ter as angústias da praxe. Imensas nuvens chuvosas cobrem o céu. O cenário cinza me apetece. As flores do mal de Baudelaire estão deitadas no meu colo, e os espinhos não incomodam. Pássaro confuso corta o jardim em busca de abrigo. Minhas resoluções também permanecem as mesmas: ler mais, escrever mais, ser menos irascível com aqueles que me querem bem, compor músicas, etc.

Eletricidade
jazigos de concreto
prédios & asfaltos
motores sujos
soltam fumaças
poluentes —
ondas de ruídos.


Um professor de química do meu colégio certa vez me dissera: «Entenderás quando passares dos 30». Pois bem. Há muito que passei dos trinta e ainda não entendo. Entra ano e sai ano, continuo a tatear no escuro, a ver se lido com a inevitabilidade do meu próprio fim sem perder as estribeiras.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2022


Nervos filosóficos

Um comboio para na estação. Das duas uma: ou entramos, ou ficamos ali parados, observando o comboio partir.

A humanidade inventou de forma arbitrária os costumes culturais para não ter de lidar com o obsceno facto de que só precisamos mesmo de dormir, comer, defecar e gerar filhos — eis as únicas funções realmente importantes para a propagação desta estranha espécie bípede.

Morremos enquanto combinação
mas sobrevivemos enquanto átomos…

…é Lucrécio.

Em primeiro de janeiro, à meia-noite e um, já me invadiam umas vontades maníacas de escrever.

A vida, na verdade, não é nada do que parece: num dia soltamos fogos-de-artifício, no outro queremos nos esconder de toda a gente, depois há sol, há tardes de chuva, nevoeiro, calor, por vezes não conseguimos enxergar os fogos-de-artifício.

O homem de nervos filosóficos que passa imenso tempo longe a refletir sobre toda a sorte de assuntos precisará de pôr à prova essas reflexões quando as querelas da realidade exigirem, como se diz, «ação concreta». Do contrário, será sempre rotulado de imbecil.

Pensar demasiadamente a respeito de determinados problemas não faz com que o desastre se resolva.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de janeiro de 2022


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