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Efeito dominó

De acordo com as convicções de Paul, a maior prova de que o sofrimento é mais resiliente do que o contentamento está no facto de que para revivermos sensação agradável por vezes é necessário um enorme esforço de concentração, enquanto a simples referência à palavra «sofrimento» já é mais do que o suficiente para desencadear uma série de passados terríveis na nossa cabeça. Baumeister disse, escreve Paul com letras minúsculas numa pequena caderneta sem pautas, Baumeister disse que o poder dos eventos ruins pode ser encontrado em cada esquina do nosso quotidiano. E aqui Paul cria uma breve lista com o título Traumas: relacionamentos dilacerados, interações interpessoais à beira do colapso, guerras, emoções perturbadoras, pais severos, uma palavra hostil, tudo isso tem muito mais impacto (i.e.: permanece por mais tempo) do que as situações ditas aprazíveis. E observamos os rostos das pessoas na rua, continua Paul, toda aquela gente mais preocupada em evitar/amenizar desastres do que correr atrás de algo «bom». É provável que incontáveis passantes tenham acabado de perder a mãe, ou o filho está demasiado doente, ou tiveram de vender a casa para pagar dívidas, ou cogitam o suicídio. Impressões ruins formam-se com imensa rapidez, criam raízes, assombram, enquanto as boas são curtas, efêmeras, fugidias — escreve Paul, ciente de que talvez tenha que voltar a este tema para explicar-se melhor.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2022


Corridas

Não importa a dor que estejas sentindo, o desespero, a angústia, não importa, reflete Paul ao praticar o running matinal, não importa o teu desassossego, não importa a tua vontade, ou melhor, a tua falta de vontade, a tua melancolia, enquanto estás escondido num buraco negro de desilusões, enquanto com imensa dificuldade levantas a mão para te protegeres da luz solar que entra por uma brecha minúscula da cortina fechada, alguém está lá fora sorrindo, pássaros despreocupados cantam, mamã girafa cuida dos filhotes, casal entrelaçado admira as cores de um arco-íris, poeta escreve sobre as ondas do Pacífico, jovens comemoram conquistas acadêmicas: tudo e todos completamente indiferentes ao teu pequeno inferno particular, pensa Paul — correndo.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2022


Fundações, estrutura e paredes

É tudo um processo, pensa Paul enquanto toma o pequeno-almoço. Pode-se ter uma infância agradável, juventude amena, até que algo terrível acontece, e talvez a pessoa esteja ainda tão anestesiada, tão alheia dentro das bolhas de proteção que não consiga de imediato perceber o que está se passando. De início, um brando e quase imperceptível desconforto, pensa Paul ao morder a torrada, de aí o desconforto se transforma numa série de inquietações, que se acumulam, e se multiplicam, dia após dia, como aquelas células que se dividem vertiginosamente, perturbações insuportáveis, angústias, dores físicas e emocionais, falta de vontade, paralisias sufocantes — implosões silenciosas. A verdade é que dificilmente um edifício se transforma em ruína de uma hora para a outra. Sentimos algo diferente nas paredes, insiste Paul, notamos as rachaduras do fracasso, por vezes tarde demais: a construção estava há muito condenada, só não queríamos enxergar. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de janeiro de 2022


As colunas que sustentam o céu acima da terra

Hoje em dia, se alguém diz: não estou preocupado, não estou ansioso, nem à beira de um burnout — muito provavelmente esse alguém tem outro ser humano a lhe servir de para-raios, pensa Paul enquanto caminha pelas ruas como que perdido num transe. O marido diz: minha vida está ótima, não tenho com o que me preocupar, e logo analisamos a fisionomia da esposa, completamente exausta, esgotada, pois precisa de resolver todas as pendências do marido. E o contrário também pode acontecer, não se trata de questão machista e/ou feminista, as pessoas são falhadas, esposas, maridos, homens, mulheres, médicos, jogadoras de futebol, advogados, executivas, independentemente do rótulo, justifica-se Paul a um interlocutor invisível. Um filho que dissesse: que vida boa estou a levar, que maravilha, nenhuma preocupação, nenhum sofrimento, e lá estão os pais a pagar as contas do filho, o aluguel do filho, o plano de saúde do filho, os pais perdem os cabelos, engordam, tomam toda a sorte de remédios, dão entrada em hospitais psiquiátricos, mas o filho está a levar uma boa vida, e é isso que importa.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de janeiro de 2022


Incêndios

Depois de uma série de acontecimentos grotescos, Paul agora tenta não se aproximar das pessoas. Gosta de ficar sentado na poltrona felpuda, a luz leitosa do fim de tarde ilumina as páginas de algum filósofo pessimista. O caráter introspectivo de Paul busca resignação, o quietismo, enquanto uma necessidade demoníaca o arremessa com força na direção da escrita, dos gritos, do choque elétrico. Esta dicotomia, avanços-&-recuos: tensões contraditórias que representam o interior de um homem estilhaçado.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2022


E o universo irá se esquecer de si mesmo

À guisa de distrações, Paul tenta recriar significados através dos fantasmas da própria consciência. Ele sabe que é um jogo inútil, um exercício que leva ao penhasco, mas lá está Paul a fazê-lo. Fantasmas do passado, uma terra que não é mais, o pai de Paul, o avô de Paul, a irmã que ele nunca conhecera, e também fantasmas do futuro, estes simulacros amorfos do que ainda está por vir. Em ambos os cenários: miragens. Paul observa uma dália amarela que, pela inclinação, dá indícios de um desabamento iminente. Mesmo a imagem daquela flor moribunda já é um passado, pois a luz que ela emite leva tempo até atingir os olhos de Paul. Noutros termos, o que Paul chama de presente torna-se pretérito antes que ele consiga processar a informação que recebera. Fantasmas que insistem em desaparecer, imagina Paul enquanto se agacha para avaliar melhor a dália que morre, fantasmas travessos cuja dúbia e fugidia presença é presságio de abatimento.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de janeiro de 2022


Arquitetura da desilusão

A verdade é que com o tempo Paul foi desistindo das pessoas, e as pessoas também foram desistindo de Paul, foi algo gradativo, quase imperceptível, Paul simplesmente refletia: será que chamo as pessoas?, e cada vez mais decidia não chamá-las, o mesmo se passava com as pessoas: será que chamamos Paul?, e cada vez mais decidiam não chamar Paul, e se antes havia uma certa dependência, ou seja, Paul precisava das pessoas e as pessoas precisavam de Paul, aos poucos todas as partes perceberam a parvoíce desse modo de agir, Paul não precisava das pessoas, as pessoas tampouco precisavam de Paul, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de janeiro de 2022


Naufrágios previsíveis

Quando acontece de Paul acordar no meio da noite, e ele percebe que é inútil tentar voltar a dormir, ele cobre o rosto com os lençóis, imagina-se dentro de um barco, à deriva no oceano, e o barco tem o tamanho exato da cama de Paul, que agora tenta adivinhar o que a escuridão marítima estaria a esconder lá fora. Às vezes Paul sente a embarcação afundando, lentamente, e ele se entrega ao naufrágio de bom grado, nem balança as pernas, apenas aguarda. A cena toda é bastante solitária e instila tristeza.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de janeiro de 2022


Ciclo do gelo

Por vezes é difícil prever os movimentos de Paul — ele anda, vira a cabeça, contrai os olhos, senta, levanta, inclina-se. Como um coelho que se locomovesse na floresta, essas ações de Paul também fazem parecer que ele tem vontade própria, que sabe com o que está lidando. Enquanto toma o café matinal e abre a porta da varanda para sentir os primeiros ventos do dia que lhe atingem o rosto como ceifas afiadas, Paul lembra que à medida que o ser humano permanece no planeta, dá voltas e voltas ao redor do Sol nesta nave de pedra sem condutor, à medida que acumula anos, ele está a colecionar memórias, e certas memórias podem ser avassaladores. Paul segura a chávena quente que libera vapores na atmosfera gelada da manhã, pensa ainda que alguns humanos nunca aprendem: passam por momentos terríveis, grandes dificuldades, contorcem-se, desesperam-se, prometem que vão mudar, que não vai mais acontecer, juram, choram, imploram, e quando a tempestade passa, quando tudo é calmaria novamente, lá estão eles a cometer os mesmos erros, os mesmos vícios, os mesmos maus hábitos. Paul até acha graça, mas não consegue rir, talvez porque tenha se identificado imenso com o que acabara de pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de janeiro de 2022


Cenotáfio

Paul gosta de automóveis antigos
vulcões neve café teatro do
Thomas Bernhard
arquitetura prosa finlandesa Paul
já escreveu poemas
com reações emocionais
depois de ver eclipse solar
e cometa Paul
está sempre a ir para algum sítio
ou a voltar
de algum sítio Paul
entrega-se às trevas
não gosta de ser
incomodado quando
comprometido com alguma
tarefa criativa
temeroso facilmente confuso Paul
inflexível longas ausências longas
viagens impossíveis obras
criadas na solidão refletem
inquietações diante do
presente que logo se torna
ruína do passado como se Paul
procedesse à fundição
afundado nas lavas do
trabalho Paul
parece um objeto projetado
sombra sob luz
pálida e difusa da
luminária.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de janeiro de 2022


Guerra indefinida — polaridades e tensões (temperamentos de Paul)

Há muito que Paul decidira viver numa realidade paralela, ou melhor: criar cenários imunes à interferência externa, pois bem cedo percebera que não conseguiria se adequar aos chamados costumes comuns. Pode-se dizer que o isolamento de Paul é uma dupla tentativa de defesa (para si e para os outros). Passa os dias debruçado sobre livros, a vontade de compreender aqueles mundos internos, de abranger razões, inventar sentidos, a tomar notas de frases que lhe agradam para depois construir qualquer coisa com esse material: pintura, microtexto, música, fotografia — Paul nunca sabe ao certo. E esse modo de existir, como se pode imaginar, acarreta uma série de desafios, principalmente quando as circunstâncias sociais exigem que Paul se afaste do próprio universo controlável para ter com os seres humanos algures. Choque de realidade, dir-se-ia, o presságio do fracasso. Os amigos de Paul não conseguem compreender: de início ele se mostra o mais charmoso do grupo, conversa, cita Tranströmer de cabeça, discorre sobre Jünger, Beckett, McEwan, até ao imprevisível momento em que Paul simplesmente para de falar, rosto sombrio, olhares vagos, postura de tristeza. A demanda do conhecimento, escrevera um antigo, parece mesmo estar destinada a causar um certo estado de melancolia. Paul então se despede dos amigos, um homem que agora se afasta, em silêncio, confrontado com mil demônios invisíveis.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de janeiro de 2022


Energia produtiva / calor inútil

Ao sair para tomar café com torradas amanteigadas, Paul esquecera a janela do escritório aberta. Ele mastiga as torradas, leva a chávena aos lábios e pergunta se teria fechado bem a janela. Os dentes trituram as torradas, Paul gosta do ruído. Ele bebe o restinho de café, paga a conta, e caminha de volta para o escritório. Paul acende a luz, uma mixórdia de papéis, e canetas, e lápis, e borrachas, e livros de bolso, e toda a sorte de miudezas cobria o chão do escritório. Isso em meros trinta minutos, ele pensa, o planeta a me dar lições de entropia. Paul senta-se à escrivaninha e com mão trêmula anota — tudo no universo tem a avassaladora tendência de se degradar, uma deterioração contínua, imperceptível, violenta, agressiva. Fica-se, Paul escreve ainda, fica-se sempre com esta sensação de perda, de vulnerabilidade: de impotência.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2022


Radiação cósmica de fundo (Café Wittgenstein)

Nietzsche pede ao leitor que se imagine sozinho, talvez à noite, quando se desperta de sonhos intranquilos. O leitor abre os olhos e se depara com uma espécie de demônio-filosófico que anuncia isto: a vida que estás a viver irá se repetir, para sempre, e para sempre, e para sempre.

Eterno retorno. A supor que teremos de passar por esta mesma existência ao infinito, com os mesmos eventos, bons e/ou ruins — os mesmos beijos, as mesmas decepções, os mesmos pavores, as mesmos alegrias —, tudo de novo.

Acontece que em determinados momentos da vida humana essas recorrências nem sequer precisam de mortes para se reciclarem. É quando os dias se tornam iguais, os noticiários (re)publicam as mesmas desgraças, sequências previsíveis, o Sol pela manhã, a Lua na escuridão, a cama, o vento, o café — como se o tal demônio-filosófico estivesse ansioso, com imensa pressa de mostrar o que nos aguarda mais ao longe.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2022


Sublimação

Estás a fazer isto há tanto tempo que não consegues mais separar a tua parcela escritora da tua parcela pessoal: elas se dissolvem, transformam-se numa substância homogênea. Dir-se-ia, portanto, que se falhasses como escritor, estarias a falhar igual como pessoa.

Encontraste um conjunto de vozes (com as quais procuras comunicar teus pensamentos — angústias, euforias, verdades, ficções, o caos). Rabiscas no caderno, inventas, exageras, confundes de acordo com o teu humor na altura. Tentas, de alguma forma, obedecer à demanda dos instintos.

Hoje, estás seguro e confortável no casulo. Aproveita…

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2022


É inútil bancar o hipócrita

As pessoas te observam e não fazem a ideia do que se passa dentro de ti. Elas podem até achar que sabem, que compreendem, mas elas não sabem, tampouco compreendem. Em verdade, imensas vezes tu também não compreendes, não sabes descrever teus próprios pensamentos, não consegues, como se diz, verbalizá-los. Um grande mal-entendido. Tu entras em pane, percebes as rachaduras, e todas aquelas coisas que supostamente deveriam te proteger durante o colapso — livros, filosofias, artes, etcétera, etcétera — não servem para nada. Tu pensas: estou preparado, tenho cá meu Montaigne, meu Burton, meu Novalis, minha escrivaninha, meu bloco-notas, meu Jünger, meu Wittgenstein, meu Nietzsche, mas quando a tragédia de facto acontece, quando tens de encarar a perturbação, a catástrofe, quando, em suma, tens de colocar esses mecanismos de defesa à prova, constatas que não funcionam, que não te defendem, que a ideia de estares preparado não passava de uma parvoíce, ilusão, não estavas preparado, e, obviamente, é sempre mais fácil falar que estamos preparados para a guerra, que saberemos lidar com os desastres, e falamos isso nos momentos de paz, de tranquilidade, falamos: a guerra não me assusta, pode vir a guerra, meu exército está de prontidão, mas assim que ouvimos o barulho da primeira bomba a explodir, ou perdemos alguém que nos era crucial, ou partem o nosso coração, ou melhor, estraçalham o nosso coração da forma mais ultrajante que se possa imaginar, percebemos (tarde demais, é claro) que estávamos apenas nos ludibriando, que andávamos perdidos em miragens reconfortantes, alienados. Apesar dos nossos esforços, das nossas fortalezas, dos nossos arsenais filosóficos, nunca estaremos 100% preparados para o pior — essa é a desmascaradora e deprimente verdade.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2022


Formiga

Uma pessoa que estivesse a andar na calçada e se deparasse com uma formiga morta e porventura se agachasse para perguntar às outras formigas qual era o sentido da vida daquela formiga morta — o propósito, a motivação, as querelas, o legado, ou mesmo se ela estaria agora num céu (ou inferno) de formigas — de certeza que seria considerada louca.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2022


Nevoeiros

Tudo o que querias era uma tarde nublada para te dedicares à leitura e à escrita. Mas, por vezes, são justamente essas tardes — chuvosas, opacas, lentas, lacrimosas — que te assolam o coração, que te enchem de angústias. Círculo vicioso: se não consegues ler, raramente consegues escrever, e se não consegues escrever ficas melancólico, que é bem a maior causa da tua não-vontade-de-ler. Queres aprender imensas coisas para que tenhas, como se diz, as ferramentas necessárias na hora de descreveres o que se passa dentro de ti. Os momentos de vulnerabilidade são aqueles que colocam tais ferramentas numa prateleira alta, longe do teu alcance, e não tens escada (nem força) para chegares lá.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2022


Rotas de fuga

Sentamos para escrever e temos o alfabeto inteiro à disposição: com essas letras (moléculas gramaticais) formamos palavras, e com essas palavras podemos declarar guerras, refletir sobre a indiferença cósmica, criar personagens, decretar leis, mentir, exprimir, rebater, podemos demonstrar amor, ódio, cortejar, emocionar, fazer rir, afogar-nos em lágrimas, podemos nos aproximar, ou nos distanciar, ser entendidos, incompreendidos, destruir muros, podemos, inclusive, quando nem a combinação infinita se mostra o bastante, permanecer em silêncio — um mergulho no abismo, vazio.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2022


Presságios

Tenho diante de mim o computador aberto. Estou prestes a fazer o teste «Saiba se você é um psicopata» enviado — não sei se a sério ou se a brincar — por um amigo de juventude.

Parte significativa da minha, como se diz, consciência está temerosa.

Algumas pessoas já disseram que sou indiferente, outras que não tenho coração, um monolítico sem sentimentos, perverso, melancólico, problematizador, ranzinza, tosco, megalômano… Confesso que não gostava de adicionar outro adjetivo perturbador ao meu extenso portfólio emocional.

A capa do teste (formato PDF) tem o rosto de Norman Bates, personagem interpretado por Anthony Perkins no filme Psycho, do Hitchcock. Escolha apropriada, se pararmos para pensar. Um rosto que olha diretamente nos nossos olhos, como quem diz: compartilhamos um segredo macabro, e tu bem sabes disso.

Há não muito tempo, minha irmã me enviou uma foto nossa durante certa bebedeira e comentou, por alto, que eu estava com a cara do ator Malcolm McDowell — o Alex, em Laranja mecânica. É o mesmo olhar de Norman Bates.

Coincidências à parte, abro o teste e leio a primeira frase: traços de um psicopata, saiba identificá-los. Posso (e quero) desistir de fazê-lo, mas sigo adiante mesmo assim.

* * *

Postscript a título de curiosidade: depois de responder a um questionário genérico e ambíguo (quinze perguntas elaboradas por sabe o diabo quem [nenhuma fonte, nem citações]), meu resultado foi: «Parabéns!, você não é psicopata».

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2022


Tudo isto acaba de repente

Em julho de 1989, o pequeno P. R. Cunha está sentado às margens da laguna de Araruama, com chapeuzinho de pescador, faz castelo de areia com ferramentas de plástico. Talvez fosse mais um daqueles dias na Região dos Lagos, dias morosos em que o tédio como que paralisava o mundo do pequeno P. R. Cunha, que por vezes escutava a voz do papai e da mamãe e sentia-se invencível.

Um outro tipo de relógio: infantil, despretensioso, seguro, relativo.

O pequeno P. R. Cunha tem apenas três anos de planeta, está ainda, portanto, mais próximo do vazio que precede ao nascimento, do que aquele que engolirá a todos quando retornarmos às entranhas da terra. O bom senso de Nabokov, a dizer que nossa existência é apenas uma fina fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Refletir sobre o passado, principalmente sobre o tempo de tranquilidades infinitas da infância, tentativas simbólicas de dilatar essa fenda — o P. R. Cunha adulto compreende, sem, todavia, negar à morte a capacidade de apagá-lo.

Planetas, estrelas, cometas, sistemas solares, galáxias, buracos negros, são transitórios: surgem, permanecem, desaparecem. Tartaruga gigante de Galápagos, rinoceronte negro do oeste africano, golfinho-do-rio-chinês, tigre-de-Java, tubarão-lagarto, cabra montesa, mamute, dinossauros… todos extintos. Por que seria diferente com os seres humanos (e nossos acúmulos desesperados [livros, músicas, filmes, internet, luzes elétricas, câmeras de vigilância, selos comemorativos, armas, etcétera, etcétera])?

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2022


Circunstâncias exteriores

É sempre um prodígio. Antes de dormir, inquieto-me com a possibilidade de, na manhã seguinte, não ter nada sobre o que escrever. Parece que Hemingway era assolado pelos mesmos fantasmas. Terminamos o nosso trabalho literário antes de o Sol se pôr, ele diz, e torcemos para que tenhamos alguma coisa na cabeça quando a estrela voltar ao horizonte. A tragédia, ainda no caso do sr. Hemingway, foi acordar e ver-se vazio por dentro.

Recentemente, recebi visita inesperada e a pessoa ficou observando a disposição do meu quarto: pois!, não sabia que eras minimalista. Respondi que o estilo espartano não fora adotado de maneira intencional, que não sigo nenhuma doutrina, nenhum guia, nenhum manual de instruções, apenas aprendi, com o tempo, a identificar as coisas que se mostravam essenciais para a minha escrita e livrei-me dos supérfluos, isto é: de tudo aquilo que não me ajudava a escrever.

Nunca me propus criar manifesto minimalista. O que é pouco para alguns, pode ser muito para outros — e vice-versa. Um músico de certeza não poderia viver sem o instrumento musical; da mesma forma, pedir ao fotógrafo que se livre da própria câmera fotográfica seria um disparate.

Utilizo este exemplo tosco e caricato à guisa de ilustração: antropólogo que morasse na floresta com alguma tribo aborígene não precisaria de ter um relógio Gaff Diamonds Hallucination (que custa mais de 55 milhões de dólares). Um valor absurdo para um objeto igualmente absurdo.

Eis, portanto, um relato simples e sincero das minhas, como se diz, «posses».

– Duas estantes*;
– Uma escrivaninha;
– Um computador;
– Uma luminária de mesa;
– Poltrona para descanso;
– Estojo com canetas diversas;
– Caderno de anotações (140mm x 202mm);
– Tapete**;
– Minha cama.

*Apenas com os livros essenciais para a minha atividade literária — depois de algumas décadas de leituras, toda a gente consegue identificar (até com certa facilidade) quais livros prestam, e quais não valem a pena.

**Bom para a acústica.

Tão logo percebi que não precisava de mais nada além desses itens supracitados, tratei de jogar fora o material excedente. Como naquela frase de Michelangelo, possivelmente apócrifa: não foi difícil criar a escultura de David, apenas peguei um bloco de mármore e me livrei de tudo aquilo que não era David.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2022


Gravidades

Quando nos perguntam algo, como se diz, de supetão, raramente respondemos o que queríamos, da forma que queríamos, com as palavras que queríamos, saem umas coisas estranhas, desconexas, difíceis de entender, termos dos quais sentimos vergonha, e a inquietação permanece, prolonga-se, começamos a pensar: e se eu tivesse dito isto, ou aquilo, e se eu não tivesse hesitado, gaguejado, por que sou tão pedante, ou tolo, vazio, etcétera. Toda a gangorra humana poderia ser justificada por esses constrangimentos sociais — movimento de marés (sair/esconder-se, aparecer/desaparecer). Por um lado, a exposição, a caça, a busca; por outro, a proteção, o refúgio, o silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2022


Naturezas finitas

Boas, leitores! — como sempre, muito desejoso de estar a serviço de vossa graça. É dois mil e vinte e dois e ainda não faço a ideia o que isso significa. Os anos mudam e eu cá não sinto tanta diferença. Ontem era domingo, hoje se faz segunda, amanhã: terça-feira. Nada de especial. Mantenho a mesma rotina, tomo o café forte para despertar, leio Michaux, Leopardi, Novalis, sinto um conforto momentâneo, volto a ter as angústias da praxe. Imensas nuvens chuvosas cobrem o céu. O cenário cinza me apetece. As flores do mal de Baudelaire estão deitadas no meu colo, e os espinhos não incomodam. Pássaro confuso corta o jardim em busca de abrigo. Minhas resoluções também permanecem as mesmas: ler mais, escrever mais, ser menos irascível com aqueles que me querem bem, compor músicas, etc.

Eletricidade
jazigos de concreto
prédios & asfaltos
motores sujos
soltam fumaças
poluentes —
ondas de ruídos.


Um professor de química do meu colégio certa vez me dissera: «Entenderás quando passares dos 30». Pois bem. Há muito que passei dos trinta e ainda não entendo. Entra ano e sai ano, continuo a tatear no escuro, a ver se lido com a inevitabilidade do meu próprio fim sem perder as estribeiras.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2022


Nervos filosóficos

Um comboio para na estação. Das duas uma: ou entramos, ou ficamos ali parados, observando o comboio partir.

A humanidade inventou de forma arbitrária os costumes culturais para não ter de lidar com o obsceno facto de que só precisamos mesmo de dormir, comer, defecar e gerar filhos — eis as únicas funções realmente importantes para a propagação desta estranha espécie bípede.

Morremos enquanto combinação
mas sobrevivemos enquanto átomos…

…é Lucrécio.

Em primeiro de janeiro, à meia-noite e um, já me invadiam umas vontades maníacas de escrever.

A vida, na verdade, não é nada do que parece: num dia soltamos fogos-de-artifício, no outro queremos nos esconder de toda a gente, depois há sol, há tardes de chuva, nevoeiro, calor, por vezes não conseguimos enxergar os fogos-de-artifício.

O homem de nervos filosóficos que passa imenso tempo longe a refletir sobre toda a sorte de assuntos precisará de pôr à prova essas reflexões quando as querelas da realidade exigirem, como se diz, «ação concreta». Do contrário, será sempre rotulado de imbecil.

Pensar demasiadamente a respeito de determinados problemas não faz com que o desastre se resolva.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de janeiro de 2022


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