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Acasos amorosos

Então estás a ter um romance com o teu livro…

Enquanto tudo parece desmoronar ao redor, tu focas naquilo que permanece a única constante em tua vida — a escrita.

Sentimentos que mudam, confundem-se, aglomeram-se.

«Reconstruir-se através da literatura», e através dessa reconstrução adquirir perspectivas, experiências.

A empreitada enviar-te-á alguns sinais: dias bons, dias ruins, dias produtivos, contemplativos, monótonos, dias paralisantes. Mas se tu podes interpretar mal os pequenos vacilos, então, na mesma, tu podes interpretar mal quando as coisas estão a acontecer do «teu jeito».

Noutros termos: por vezes tu crias belas, porém falsas expectativas, que falham quando colocadas à prova. Maquetes esteticamente agradáveis de um ideal. Ideais que tu gostavas que funcionassem de determinada maneira, mas dão para o torto. Nunca é de todo perfeito, há sempre algo etc.

Teoria diferente da prática, diriam os acadêmicos.

Tens lá que tomar algumas decisões: o que tu precisas esquecer?, e o que se mostra realmente importante, crucial, para o andamento do teu romance? Há um armário, ou melhor, um baú. Dentro do baú, muitos objetos. Manténs alguns, jogas para o lixo outros.

Novo estilo, nova composição, uma capacidade imaginativa surpreendente. Ato de sobrevivência. Ressuscitas. A escrita como desfibrilador cardíaco. Mas trata-se de uma ressurreição temporária. Tu precisas dar novos pulsos de choque.

Mantém a mão firme, a dança da caneta. É mais do que um livro, é um meio de preencher perdas. Quando escreves, estás também a enfrentar a separação, o vazio, o abandono, a morte.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de fevereiro de 2021


Mensagem engarrafada

Há uma pequena ilha com formato vagamente circular — 20/30 metros de diâmetro. O horizonte mostra-se nublado, cinza, como nas primeiras horas de uma manhã invernal. De forma lenta e constante, o volume de água ao redor começa a baixar, revelando um abismo profundo, intransponível. E tu estás ali, no meio da ilha. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de fevereiro de 2021


Certas indefinições

Por absolutamente não existir mais qualquer fronteira (cerca, arame farpado, muro) entre o meu eu-escritor e eu como homem (civil, etc.), falhar como escritor significa falhar como homem.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de fevereiro de 2021


Proxima Centauri b

Esta canção — gravada e mixada no Estúdio da Cris — é sobre como muitas vezes não conseguimos cuidar de quem a gente ama.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de fevereiro de 2021


Castelos de areia

O pequeno P. R. Cunha está sentado numa cadeirinha de praia em Búzios, Rio de Janeiro. A mamã do pequeno P. R. Cunha espalhou uma substância pegajosa no rosto dele, disse que era «para proteger o meu bebê». P. R. Cunha não se importa, ele está concentrado a fazer um castelo de areia. Ainda um bocadinho atabalhoada, ele pega as ferramentas de plástico que estão dentro de um balde amarelo com alça azul. O pequeno P. R. Cunha levanta o castelo com paciência, um monte de areia aqui, outro monte de areia ali, mais um do lado direito, mais outro do lado esquerdo. Aos poucos, a estrutura ganha proporções significativas, o que faz chamar a atenção do papai. O papai do pequeno P. R. Cunha tira os óculos de sol e diz: que castelo enorme!, e quem foi que fez esse castelo enorme?! Orgulhoso, P. R. Cunha aponta para si mesmo. Mas eis que vem uma onda e derruba o castelo. Depois de tanto trabalho, tanto esforço, tanto cuidado, uma simples e indiferente onda arruinou os planos do pequeno P. R. Cunha. E essa seria apenas a primeira de incontáveis vezes em que a vida lhe proporcionaria tal lição.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de fevereiro de 2021


Notas do mato / epílogo

Segunda viagem a Pirenópolis.

Se tu ficas sozinho, e se tu perguntas: afinal, quem eu sou? —, podes encontrar respostas inquietantes.

[Muitos preferem não perguntar.]

Sento na cadeira e permaneço em silêncio. A cabeça ainda contaminada pelos ruídos da cidade, constantemente invadida por loopings de pensamentos aleatórios. «Monkey mind».

Não deixa de ser um prodígio observar que as minhas inseguranças como que se dissipam quando sei que estou a trabalhar num livro de fôlego. Mas sei também que essa confiança se faz provisória.

A obra literária, amante severa, vingativa.

O silêncio, portanto, não é apenas «não conversar/não falar». A cacofonia costuma surgir desses monólogos dentro do nosso cérebro.

Desassossegos que não pedem licença.

Altura em que o livro deixa de ser apenas uma abstração amorfa e começa a se transformar numa criatura coerente — e tu achavas que não conseguirias, que esta transição nunca chegaria.

Tens aí contigo uma pedra preciosa, uma pedra bruta que precisa de ser lapidada. Toma cuidado com as machadadas.

Livro bom, livro promissor.

Uma obra que demora quatro anos para ser produzida (pesquisas + escrita + descartes + escrita + revisões + pânico + escrita + descartes + pesquisas + escrita etc.) e que será consumida num par de dias. Se calhar, até menos.

Andar com o livro pra cima e pra baixo, viajar com o livro — ainda é apenas um arquivo de computador. Medo de ser roubado. Perder tudo, todo o esforço, à toa.

Ficar sozinho em Pirenópolis, acúmulos de pensamentos. Espremo as laranjas, as minhas laranjas, e o que sai é o meu suco.

TRILHA SONORA: Max Richter, Vladimir’s blues.

Era uma vez um menino muito malvado e mandão. Vivia enfurecido, a brigar com toda a gente. Até que um dia distraiu-se e caiu num buraco. Outras crianças, educadas e prestativas, correram para tirá-lo de lá. O menino malvado apenas limpou a poeira com as mãos e continuou a ser o malvado de sempre.

Às vezes sinto que não sou eu a escrever, que sou apenas um passageiro, estou dentro de um veículo, e não consigo ver o rosto do motorista — ou melhor, sequer consigo ter a certeza se existe mesmo um motorista.

Plantavam as melhores sementes, mas eram péssimos jardineiros: meu pai… [eu?]

Se sou igual a ele, se montanha de gelo, mundo de gelo, se também sou um frigorífico que só se aquece quando mete-se a escrever.

Características que eu gostaria de ter herdado dele, mas não herdei. Características que eu não gostaria de ter herdado dele, mas herdei.

Não saber absolutamente o que fazer quando não estou trabalhando no livro.

«É preciso imaginar Sísifo feliz.»

Sempre fico com a impressão de que as pessoas do campo fazem muitas refeições no decorrer do dia porque a comida é um pretexto para se encontrarem, para amenizar uma qualquer solidão coletiva.

Escrever cedo, enquanto o mundo a dormir.

TRILHA SONORA: This Is The Kit, Keep going.

Um vendedor de seguros conversa com o cliente. Ele se mostra simpático, diz palavras motivacionais, sorri — o vendedor de seguros não para de sorrir. Mas quando o cliente insiste que não precisa de seguros, que está muito bem sem os seguras, e o cliente vira as costas para seguir com os afazeres da praxe, o vendedor de seguros se aborrece imenso, começa a ofender a pessoa com quem há pouco compartilhava boas risadas.

Moral: lembrar-se sempre do sorriso do vendedor de seguros quando diante de situações mercadológicas.

Há um manuscrito. Enterrar o manuscrito na floresta. Se acharem o manuscrito, tudo bem. Se não acharem — tudo bem.

Antes das redes sociais, quando os seres humanos passavam por alguma situação ardilosa, contavam com certo período para refletir a respeito, recolhiam-se, mudavam de opinião. Hoje, desabafam em tempo real no Twitter, de cabeça quente. Qualquer desentendimento sem importância torna-se motivo para um ilusório debate público.

É fácil fingir que estamos escutando quando a pessoa que fala não nos enxerga.

Cochilar, uns dez minutinhos, à tarde. Acordar como se tivesse dormido uns quinze anos.

Quando estou a trabalhar no livro, a organizar determinados trechos, criando situações, e sinto um regojizo imenso…, gosto de acreditar que esta é a melhor versão de mim mesmo. Mas como isso só acontece quando estou sozinho, longe, ninguém percebe essa minha melhor versão. Eu volto, e ficam com as minhas piores versões.

Aqui, no silêncio, isolado, não machuco ninguém, não magoo ninguém.

O mágico sabe que a partir do momento em que o segredo é revelado a mágica perde a graça.

Um pensamento me surge à cabeça e eu o acho magnífico. Quando tento colocá-lo no papel, já não o acho mais um pensamento magnífico.

Os rastros de dores, e lágrimas, e lamentos — pedaços dos corações que tantas vezes dilaceramos. 

Último jantar [LAST SUPPER], com a caixinha de som da JBL sentada na cadeira diante de mim. Toca Melin Wynt, de King Creosote/Kenny Anderson (álbum: Astronaut meets appleman). Suco de uva Aurora, gaseificado, sem adição de açúcar-água-corante.

Céu sem estrelas.

Céu cinza, inviável, como costuma acontecer em todas as despedidas.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de fevereiro de 2021


Zona de descompressão

Este blogue mostra-se ofegante e pede umas férias. Volta brevemente, com os apontamentos da segunda viagem à cidade de Pirenópolis.

[…]

Quando começo a escrever de facto, o livro consome-me de uma maneira miserável. É uma gestação, o bebê requer cuidados a tempo inteiro. Desenvolvo olheiras, alguém estala os dedos perto do meu rosto, pergunta se estou vivo, se estou realmente ali. Baixo a guarda, cedo, sinto-me vulnerável e, como num ingrato balé conspiratório, todas as dificuldades do mundo resolvem investir de uma só vez contra as minhas ruínas. E deve ser por isso que nunca se volta o mesmo, depois de dar à luz um livrinho.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de fevereiro de 2021


Cartão de visita

Somos convidados para, digamos, tomar café na casa de alguém. Enquanto tomamos o café analisamos despudoradamente os móveis da casa, o tapete, as cores, o acabamento, a pia do lavabo, e chegamos à conclusão de que os móveis não nos agradam, nem o tapete, nem as cores, o acabamento, tampouco a pia do lavabo; a casa, portanto, é feia. Da mesma forma, convidamos alguém para a nossa casa, e a pessoa analisa os nossos móveis, o nosso tapete, as cores, o acabamento, a pia do nosso lavabo. A pessoa balança a cabeça para cima e para baixo em sinal de aprovação, porém, se soubéssemos o que se passa por dentro, veríamos que ela também acha os nossos móveis feios, o nosso tapete é feio, o acabamento é feio, as cores são feias, a pia do nosso lavabo é feia — mas raramente sabemos o que se passa por dentro. Assim, não nos magoamos e nem magoamos ninguém. 

Publicado por P. R. Cunha / 4 de fevereiro de 2021


Incertezas

Não sei ao certo para onde vai este ruminar…, vejamos: quando eu nasci, meus pais me levaram para o nosso apartamento na 106 Norte. Posso dizer — o apartamento na 106 Norte, e Brasília, e o automóvel Monza no qual eles se deslocaram depois do parto de mamã, tudo isso de facto existia antes do meu nascimento. (É uma mistura de Wittgenstein com Nabokov.) O carrinho do nenê que me aguardava na sala, também existia? Posso perguntar para a mamã se existia e, de acordo com as recordações dela, chegar à conclusão que sim, o carrinho existia, e também o berço, o móbile com temas astronômicos a girar em cima do berço. Ela diz que existia. Hoje, não posso mais perguntar para o meu pai se esses objetos estavam no nosso apartamento, pois ele faleceu em 2010. E talvez ele se mostrasse um bocadinho cansado, ou com a memória, como se diz, fraca. Se meu pai respondesse: acho que o carrinho existia, porém, não tenho tanta certeza quanto ao móbile com temas astronômicos. Daí, surge um impasse indecoroso: mamã diz que o móbile estava lá, enquanto papai diz que não tem as certezas. E como eu mesmo não existia, não consigo averiguar quem está certo, quem se equivocara. Posso passar o resto da minha vida com esta dúvida na cabeça: meu primeiro berço não tinha móbile com temas astronômicos como um dia cheguei a acreditar? E se tenho dúvidas a respeito dessas miudezas infantis, o que dizer sobre todas as outras coisas?

Publicado por P. R. Cunha / 3 de fevereiro de 2021


Se a pessoa em causa for digna de confiança

Damião está em pé, abotoa a camisa do pijama enquanto observa a esposa deitada com um livro no colo. Ele respira fundo e diz: não acredito em Júpiter, esse planeta não existe. A esposa abaixa os óculos de leitura, que fica a pender na ponta do nariz: andaste bebendo de novo? Damião se mete lentamente embaixo das cobertas: de forma alguma, nunca estive tão sóbrio. Ela termina de ler o parágrafo, coloca os óculos sobre a mesinha de cabeceira e apaga a luz do abajur. Ficam os dois em silêncio, no escuro. Estás falando a sério?, diz a esposa. Damião ajeita o travesseiro e resmunga: é o quê? Estás falando a sério que não acreditas que Júpiter existe? Estou, ele diz, Júpiter não existe. Ela fecha os olhos, torna a abri-los: mas e as fotografias? Damião vira-se para a esposa: que fotografias? Ela diz: ora, fotografias, há imensas fotografias de Júpiter, já mandaram sondas espaciais para lá, não sabias disso? Não, não sabia, ele diz. A esposa tira o telemóvel da gaveta: pois, se eu te mostro agora as fotografias, acreditarias que Júpiter existe? De forma alguma, diz Damião. A esposa se levanta e encosta na parede atrás do colchão: e por que não acreditarias? Porque as fotografias não me apetecem, boceja Damião. A esposa estende o telemóvel, que quase encosta no rosto do marido: vê, fotografias de Júpiter, são da Nasa. Damião dá de ombros: podem ser lá umas montagens, com os computadores que eles têm hoje, nunca se sabe… Não posso crer no que estou a ouvir, diz a esposa. Mas Damião permanece quieto, como se dormisse um sono tranquilo.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de fevereiro de 2021


Notas do mato

Ligeiras observações (& imagem) durante a primeira de duas viagens a Pirenópolis.

Ensina-nos o Henry James que só existe uma receita: gostar imenso do que se cozinha. O resto é autoexplicativo.

Quem na cidade ainda se demora diante das miudezas ditas (abre aspas) «naturais» (fecha aspas); o capim que cresce nas brechas de uma pedra, ou a flor roxa que deita na extremidade de um galho solitário. 

A fotografia de uma mata arborizada é muito bonita — porque não vem com cobras, mosquitos, morcegos nem outros bichos vampirescos. É a idealização da natureza, mais do que a natureza em si.

Cada um precisa de criar, consciente ou inconscientemente, objetivos/metas/narrativas (dir-se-iam ilusões) à laia de lidar com o vazio cósmico que a nossa espécie bípede dotada desta estranha capacidade de ruminar mostra-se condenada até à morte. Acontece de muitas vezes (92,3% das vezes, embora essas coisas sejam sempre difíceis de serem calculadas) existir discrepância nos chamados «sonhos individuais». Alguém diz: tenho vontades de ir viver para o campo, cultivar a minha chácara, etc. O outro que escuta e que nunca quis viver para o campo e muito menos cultivar chácara responde: não devias fazer isso, não vale a pena, a manutenção, o trabalho, o custo, esquece, investe noutras coisas…

…a réplica poderia de ser: independentemente da vossa opinião (objetivo/meta/narrativa — ilusões), comprarei a chácara na mesma.

Uma cobra desengonçada tenta atravessar o azulejo escorregadio da varanda. Por diversos motivos, identifico-me com a cobra.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de fevereiro de 2021


Máximas (i)morais

Sabe-se que muitos artistas pintam/escrevem/cantam sobre a morte para se anteciparem à perda de algum ser humano que lhes é caro. Talvez acreditem que agindo dessa forma conseguirão ludibriar a lâmina afiada da ceifadeira. Simulacro, ensaio, prevenções: quando acontecer, estarei preparado, etc. Mas algumas perdas são tão inesperadas, e devastadoras, e dolorosas, e absurdas, e catastróficas que nem mesmo quatro vidas inteiras de contemplação mórbida seriam capazes de anestesiá-las. Eis que, de súbito, o artista também fita o abismo, um náufrago à deriva, como tantos outros que boiam em redor.

Talvez não seja assim tanta coincidência o fato de bons escritores se mostrarem péssimos políticos e bons políticos se mostrarem péssimos escritores.

Os melhores trabalhos literários — contradizem-se.

Um escritor que exibe de mais a própria biblioteca é como um bandido em fuga que deixa rastros do crime para a polícia.

Não culpes a folha em branco pela tua falta de assunto.

Escritor obcecado por elipses termina com livro invisível.

Se o escritor compreende direitinho as próprias qualidades, não se aborrecerá quando alguém lhe apontar as próprias limitações.

Os críticos odeiam o escritor que consegue exprimir em poucas palavras o que eles não conseguiriam em dezenas de artigos.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de janeiro de 2021


Como todos os uniformes, este também era um disfarce atrás do qual ele poderia se esconder

O escritor não usa camisa com figuras porque [1] as estampas o incomodam (i.e.: irritam a pele do escritor com aquela camada de tinta arenosa); [2] tiram-lhe a atenção enquanto ele procura se concentrar no próprio trabalho (a visão periférica encontra a figura da camisa e o escritor distrai-se numa espécie de looping abismal — um pouco como acontece quando, antes de dormir, escutamos o gotejamento da torneira que deixamos ligeiramente aberta); [3] as figuras restrigem, datam a camisa, assim que o escritor enjoar da imagem estampada, nunca mais usará a camisa. O escritor, portanto, só usa camisas lisas, sem nada, nenhuma caricatura de revolucionário, logotipo de banda, tribais, representação de ídolos… Ao passo que esse minimalismo é bom para as finanças do escritor, visto que ele só se livra das camisas quando elas apresentam algum furo/defeito absolutamente irreparável.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de janeiro de 2021


The gadget lover

(Song & lyrics by P. R. Cunha)

I’m alone in the global village
My pixel is hurting
With my hands over your keyboard

I’m alone in the global village
My pixel is hurting
With my hands over your keyboard

The gadget lover
I will buy it in some Apple store
But my memory is full
And I can’t download you

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2021


Perspectivas ilógicas de um boneco

1. Quando leio as entrevistas da Paris Review, gosto de analisar com certo afinco os queixumes dos escritores. E é mesmo uma coisa extraordinária, pois sempre que me deparo com algum relato azedo, chego logo à conclusão de que já sofri disso: que o autor está enjoado de escrever, que a autora fica como que perdida depois de terminar o livro, que este está sem ideias (talvez para sempre), que a outra pensa em largar tudo e ir viver nenhures, que aquele ali passou anos a lapidar um único parágrafo para depois jogá-lo na lata do lixo, que aquela ali está para ser internada num sanatório… Diagnósticos que parecem corresponder exatamente ao meu teatro hipocondríaco.

2. Escrita e jardinagem, gosto imenso desta analogia. Vai-se devagar. De aí vêm os próximos passos, o desenvolvimento. Processo contínuo. Algumas plantas necessitam de determinados cuidados, porque frágeis. Outras, crescem por si (pensemos um instantinho nos cactos). Leva-se também em consideração o clima: flores sazonais, que gostam do calor tropical, ou preferem a temperatura mais amena das montanhas etc. etc.

3. Acontece que pensar não deixa de ser uma espécie de «acúmulo de experiências» — situações que encontramos no chamado mundo externo, outras com as quais nos deparamos ao abrir as páginas de um romance, quando ouvimos uma canção que nos atinge como flecha afiada (é Nietzsche), ou quando diante de um quadro de Chirico.

E depois de determinada altura, nosso bagageiro está tão repleto dessas experiências que acaba por transbordar. O sujeito que era pacato e comedido começa a ter uns pensamentos sinistros: por que me levanto de manhã?, por que vou me deitar à noite?, por que é que eu como?, por que leio as coisas que leio?, por que com alguns livros me entendo bem?, por que alguns livros não me dizem nada?, por que escrevo, todos os dias, praticamente à mesma hora, tomando café da mesma marca, mesma intensidade?, por que sinto raiva, compaixão (às vezes), indiferença (muitas vezes), melancolia/euforia?, por que essas perguntas têm respostas diferentes em momentos diferentes?, e por que a grande maioria delas fica sem resposta alguma?

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2021


Fuga líquida

No fundo, no fundo, ninguém é normal, escreve Ignácio numa longa carta antes de desaparecer. O que se passa é que a sociedade e a cultura impõem regras, e as pessoas que conseguem segui-las serão consideradas «normais». E aqueles que não deram conta, aqueles que não se adequam, que não dissimulam, estes são os loucos, os depravados, os criminosos. Durante muitos anos, continua Ignácio, tive uma vida de relativo sucesso material. Bom salário, casa, automóvel importado, viajava com frequência para Düsseldorf, Madrid, Istambul, Santiago, ficava nos melhores hotéis, usava as melhores roupas, sapatos, relógios que custavam mais que apartamentos… enfim: uma daquelas existências generosas, com as comodidades que os executivos veneram etc. etc. Acontece que também sempre tive um fraco irremediável por bebidas, e me chamavam de alcoólatra, bebum, filho do capeta, beberrão, posto de gasolina, pé-de-cana, e quanto mais me rotulavam, mais eu enchia a cara. Então que quando você tem um emprego decente, uma vida promissora, quando você viaja por aí na primeira classe de uma aeronave do Oriente Médio, quando você tem um escritório muito bonito no trigésimo sexto andar de um edifício espelhado, em suma, quando você tem tudo, é complicado entregar-se aos prazeres do álcool sem que lhe passem um sermão conservador a cada gole, e dali a pouco a conjuntura se torna realmente insuportável. Alcoólatras que continuam bebendo não querem se ver livres dos problemas, eles se sentem até muito confortáveis com isso; alcoólatras, e falo por experiência própria, só querem ser deixados em paz, escreve Ignácio. E como nunca me deixavam em paz, resolvi adotar postura, dir-se-ia, suicida, resolvi largar tudo, sim, fugir, perder o emprego, perder a casa, as viagens, os automóveis de luxo, o learjet árabe, de forma que, quando eu voltar — se eu voltar —, e me pegarem entornando um copinho, espero a piedade que costumam oferecer aos fracassados, tolerância, receber uns tapinhas de condolência nas costas: pobre Ignácio, pobrezinho, perdeu tudo, misericórdia, deixem o homem beber, não o importunem, e tretas dessa natureza.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2021


Afirmações

Após mais uma noite sem sonhos nem pesadelos, Miguel Herz acorda sentindo-se vazio. Enquanto tira as remelas cristalizadas dos olhos decide que irá participar da confraternização da firma, que, na verdade, seria mesmo insensato não participar da confraternização da firma, conviver com os colegas da firma fora do ambiente de trabalho, jogar conversa fora com os funcionários da firma, mostrar-se um bocadinho sociável, quem sabe até beber um dry martini, flertar com Magdalena do setor de faturamento. Miguel Herz boceja e lembra que o chefe é lá um ser humano patético, menino-homem, infantilizado, irresponsável, como alguém assim pode ser chefe de firma? A verdade é que qualquer imbecil pode ser chefe de alguma coisa, Miguel Herz pensa. E, para ser sincero, será que alcançar as pessoas é algo realmente importante nos dias atuais?, estar por perto, marcar território, vê lá a futilidade dessas confraternizações, das festinhas de aniversário depois do expediente, da happy hour que de happy não tem nada, apenas almas frustradas à mesa de algum estabelecimento duvidoso a aproveitar bebidas alcoólicas um pouco mais baratas do que da praxe, gravata desabotoada, a preguiça, o tédio, isso é essencial?, imprescindível?, ir à confraternização da firma é realmente necessário? Miguel Herz agora está nas dúvidas.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de janeiro de 2021


Café Lisboa

Estás com dores de cabeça porque sentaste perto da nossa antena wifi, disse a moça que trabalha no café. Ela olha para os lados como quem procura alguém perdido na multidão: ali está!, um sítio seguro para a tua leitura. Levou-me a uma mesa vazia, longe da antena wifi. Antes de voltar à cantina, disse-me com voz didática: logo-logo essas dores passam, fica tranquilinho.

Atrás de mim, um jovem casal conversa sobre o futuro. Estudantes de engenharia [diz o rapaz] observam uma data de imagens do meu tio morto, depois instalam uma caricatura emborrachada do rosto do meu tio na cabeça de um robô. O robô [continua o rapaz] é programado para simular as mesmas expressões básicas do meu tio: raiva, medo, tristeza, felicidade, supresa, nojo, etcétera, etcétera, daí conectam o HD do robô a um banco de dados com informações sobre o meu tio, coisas que ele costumava fazer quando era vivo, palavras que ele costumava utilizar. [O rapaz prossegue]: robô com o rosto do meu tio morto, com as características do meu tio morto, com os pensamentos, ideologias, ansiedades do meu tio morto, responderá aos estímulos exteriores tal e qual o meu tio fazia, alguém pode gritar «fogo!» e o meu tio-robô estremecerá de medo, talvez até saia correndo, ou uma bela mulher lhe diz palavras carinhosas, ao que os lábios do meu tio-robô sorriem um sorriso apaixonado. [A namorada do rapaz coloca as mãos no queixo — não consigo perceber se num sinal de interesse ou indiferença.]

Publicado por P. R. Cunha / 20 de janeiro de 2021


Insaciável desejo de imagem

Corporações gigantescas que possuem mais poder do que continentes inteiros, hackers de computador que lideram protestos anárquicos nas chamadas redes interconectadas, o corpo humano se transforma em ciborgue — aumentado/melhorado/desenvolvido por produtos químicos, próteses biônicas, implantes neurais, nanorobótica, realidade virtual, deslocar-se sem sair do lugar, auxílio medicamentoso para as devidas imersões em espaços artificiais («viajar» por França utilizando óculos elétricos enquanto toma pílula alucinógena: esteve em França ou tudo não passou de um sonho?).

Civil que trabalhou o dia inteiro chega em casa às 20h49 e busca alguma atividade para 1) esquecer que trabalhou o dia inteiro; 2) anestesiar-se, porque amanhã o ciclo recomeça. Ele olha para a estante com alguns punhados de livros, depois para o controle remoto jogado sobre o sofá da sala…

[Por mais que muitos escritores ainda prefiram endeusar as próprias obras, tratá-las como se fossem escrituras sagradas, a verdade é que, no fim de contas, o livro é uma ocupação-distração como outra qualquer.]

…Civil abre a geladeira, retira o suco de caju e toma no gargalo. Decide, mais uma vez, assistir às séries na Netflix.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de janeiro de 2021


Finitude cósmica

Durante a Idade Média, observadores dos astros apontavam para o firmamento em busca de respostas às penúrias terrestres. Queriam medir a influência celestial, tomar notas, comparar os resultados com a classificação sugerida por médicos e filósofos da Grécia antiga, a saber: que a personalidade humana é governada pelos chamados quatro humores — sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. Segundo os astrólogos, a Melancolia (que assolava os pensadores especulativos e aqueles que se dedicavam várias horas aos estudos), era filha de Cronos, deus do tempo e rei dos titãs que em Roma receberia o nome de Saturno. Os melancólicos, possuidores de um grande poder imaginativo, porém altamente suscetíveis, indivíduos propensos aos assédios de memórias febris, fantasmas, sonhos proféticos: o saturnino — sombrio, triste, provocado pelo chumbo. «Marcus de Siracusa era melhor poeta quando perdia a cabeça e perambulava alhures, macambúzio», quem nos diz é Aristóteles, possivelmente numa altura em que ele mesmo mostrava-se sob a influência de Saturno. Mais de dois mil anos depois, persiste a hipótese de que tédio, depressão (spleen), e até a loucura, podem, ou melhor, devem estar relacionados com a genialidade — ou, pelo menos, com uma sensibilidade artísticas mais apurada. A pessoa saudável desfrutará de certo equilíbrio das emoções, mas uma ligeira mudança na quantidade de «bile negra» seria o suficiente para induzir estados de tristeza, irracionalidade, apatia, desespero, ansiedade, e o melancólico, sinistro, fora de si, considerar-se-ia um súdito do planeta macabro. Para a epígrafe do livro Die Ringe des Saturn, Sebald escolhera este trecho da Enciclopédia Brockhaus: «Os anéis de Saturno são constituídos por cristais de gelo e provavelmente partículas de meteoritos que giram em faixas circulares ao nível do equador; é possível que se trate de fragmentos de uma lua que estivesse demasiado próxima do planeta e tenha sido destruída pelo seu efeito de maré (limite de Roche)». O campo magnético de Saturno, que, assim como o melancólico, é curvado para dentro, as forças descomunais da bola de hidrogênio e hélio, estão, aos poucos, a devorar as partículas que compõe o sistema de anéis. Gravidade saturnina termina de puxar os fragmentos do disco para si, queimando-os já nas primeiras camadas atmosféricas. Estima-se que esse processo de consumação dure cerca de 100 milhões de anos.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de janeiro de 2021


Questões referenciais

Quando éramos pequenos e ainda brincávamos na rua, havia esse velho muito solitário que praguejava consigo mesmo. Ele morava no conjunto dois, mas raramente permanecia em casa. Saía cedo, voltava tarde. Todas as crianças achavam-no um bocado estranho e passamos a chamá-lo de «louco misterioso». Bastava ele aparecer e parávamos de jogar bola, ou de brincar de pega-pega, ou de contar sobre como tinha sido o nosso dia na escola. O «louco misterioso» está vindo, alguém sussurrava. E permanecíamos em silêncio, observando aquela triste figura a conversar com espectros invisíveis.

Dia desses flagrei-me a falar sozinho. Eu respondia à entrevista de algum suplemento literário de Moscou, e desculpava-me com a entrevistadora imaginária, pois que o russo não é a minha língua materna, eu disse, estudei russo, ou melhor, ainda estudo russo, mas estou longe de dominá-lo devidamente, ao que a entrevistadora imaginária dizia: de forma alguma, o teu russo é muito bom… e eu cá não percebia se isso era um elogio da entrevistadora imaginária, ou apenas uma, como se diz, batidinha nas costas, consolação (vais melhorar, continua com os teus estudos que vais melhorar), etc. Nessa altura, não pude deixar de lembrar do «louco misterioso». E que a única diferença entre nós dois, pensei, é que ele praguejava nas ruas, lá fora, e eu — por enquanto — só o faço diante do espelho.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de janeiro de 2021


Águas passadas

Um lugar lhe marca profundamente — um país estrangeiro, digamos. Você chega a esse sítio, vive coisas incríveis, conhece pessoas notáveis, os funcionários do hotel lhe tratam com muito esmero, e depois você volta para casa. Então que dali a três, quatro anos você está sozinho no escritório, sente saudades daquele país estrangeiro, das coisas incríveis que viveu, das pessoas notáveis que conhecera, da comida, dos cafés, das noites com lua prateada, e você quer voltar, sim, você precisa voltar, e você de fato compra passagem, reserva quarto no mesmo hotel de antes. Mas você esquece de levar Heráclito na bagagem, esquece que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, ninguém visita duas vezes o mesmo país, porque quando retornamos, tudo já se modificou, e o próprio viajante já é outro. Agora as pessoas não são mais notáveis, elas apenas falam, esbarram-se e se vão, os funcionários do hotel se mostram indiferentes, o café da esquina é amargo, a lua está encoberta por nuvens tempestuosas. Não resta mais nada, e apetece-lhe fugir depressa desse teatro grotesco.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2021


Epitáfio

Dona Miranda abriu as cortinas da janela da sala e apontou para a portaria do bloco de apartamentos à direita: vê ali, Breno, Tobias continua a andar de um lado para o outro. A claridade da manhã incomodou as vistas de Breno, que afundou na cadeira, balbuciou qualquer disparate, ajeitou os óculos no nariz, dobrou o jornal, e, custosamente, como se a força gravitacional da Terra tivesse triplicado, levantou para ver o que se passava. Dona Miranda encostou-se no ombro côncavo do marido: ali, Breno, vês? Vejo…, ele disse. Dona Miranda começou a soluçar: pobrezinho, deve ter perdido os botões de uma vez por todas. Breno então fechou os olhos e imaginou Tobias a andar daquele jeito durante todo o tempo, horas, e horas, e dias, e meses, de um lado para o outro, sempre no mesmo sítio, sempre nas mesmas direções, sempre a esperar não se sabe bem o quê, para lá, para cá, e depois de tanto caminhar, os passos de Tobias teriam criado uma espécie de sepultura, e quem o observasse naquelas atitudes absurdas só conseguiria ver a pontinha da cabeça grisalha do Tobias a sobressair, cada vez mais imersa no buraco. Queres café?, Breno escutou a esposa perguntar da cozinha.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2021


Classe artística

Um cineasta muito talentoso que gostava de correr diversos riscos como dirigir em alta velocidade, nadar com tubarões, entornar garrafas de uísque nos bares da periferia, prender a respiração debaixo d’água por um tempo estranhamente longo, fumar haxixe, foi aconselhado não só pelos médicos, mas também por toda a classe artística, inclusive por uma experiente atriz com quem tivera um caso em 1997, foi aconselhado, portanto, a adotar um modo de vida mais ameno, seguir rotinas mais saudáveis, do contrário ele morreria cedo, de certeza que morreria muito cedo, insistiram, ao que o cineasta, um pouco a contragosto, resolveu seguir os conselhos de toda a gente, comprou uma pequena residência rural longe da cidade à guisa de, como se diz, «baixar o facho», e antes mesmo de completar a primeira semana da mudança, isto é, de uma vida agitada para uma vida tranquila no campo, o cineasta, que estava a analisar despreocupadamente o tamanho da propriedade que adquirira, foi atingido na cabeça por uma pedra que, segundo nos diz a perícia, caíra do teto do abrigo abandonado dentro do qual o cineasta, ao que parece, procurava se proteger do forte calor de verão. Como todos os funcionários da residência rural estavam de folga, visto que era sábado, o corpo frio do cineasta só foi encontrado na segunda-feira de manhã por um ordenhador de vacas leiteiras. Assim que souberam do ocorrido, os jornais começaram a publicar as devidas homenagens póstumas, inclusive uma carta aberta da mesma classe artística, que censurara o cineasta por ter trocado as aventuras e as conveniências da cidade por um refúgio campestre absolutamente sem cabimento. 

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2021


Trate de olhar ao redor

À medida que a idade avança, o escritor adquire para si novas experiências. Talvez ele ainda não queira falar sobre isso, sobre o próprio passado, talvez ainda não seja a altura de fazê-lo. Mas ele toma notas avulsas, ele arquiva essas notas, coloco-as numa gavetinha à parte. O escritor acumula observações e também se dilata — erra, aprende, conserta-se, arrepende-se: quem o diz são as linhas profundas no rosto, a têmpora que começa a ficar grisalha, os trejeitos taciturnos, cada mancha na pele, os arranhões, as feridas, as cicatrizes que só a custo se fecham.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2021


In memoriam

Morei na Rússia em 2009. São Petersburgo, que também já se chamou Petrogrado e Leningrado. Às vezes demoro para perceber que isso foi há doze anos. Uma criança universitária que achava que sabia tudo, a perambular com câmera fotográfica pela cidade do Dostoiévski enquanto a neve batia-lhe às costas. Aquela petulância juvenil que ilude, que permite criar expectativas irracionais: eu era o centro do universo, etc. E, como diria Calvino, todas as promessas são agora recordações.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2021


De dentro para fora

Podemos caminhar pelas ruas, há uma praça movimentada, e paramos para observar os seres humanos que andam de um lado para o outro, como que sem rumo específico, cada um com os próprios problemas para resolver, dores, separações, perdas, enganos, mentiras, dívidas, fracassos. Se estou com o meu bloco-notas de capa emborrachada que comprei em Niterói, sento-me num banquinho qualquer, tiro a caneta do bolso e escrevo. É quase como se a realidade hibernasse. As palavras e os meus pensamentos parecem ser as únicas coisas que realmente importam, enquanto qualquer pormenor exterior soa como uma distração irrelevante. E quanto mais dores, separações, perdas, enganos, mentiras, dívidas, fracassos, mais poderosa será essa imersão ficcional. Porque, diante das páginas do meu bloco-notas, posso ignorar — ou recriar — as complexidades que me chegam. E consigo conter, mesmo que brevemente, o caos do mundo.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2021


Potencialidades

O segredo não está necessariamente no «morrer cedo», mas talvez no «morrer antes que você se torne um estorvo para toda a gente». É raro vermos uma multidão nas cerimônias fúnebres dos velhos.

* * *

Nós podemos tentar adivinhar o que alguém pensa ou sente e nunca sabermos ao certo o que de facto se passa dentro da cabeça desse outro ser humano. E, por vezes, a própria pessoa procura explicar-se, diz: estou pensando nisto, estou sentindo aquilo, sem, no entanto, lograr êxito na empreitada. Pois, mesmo que não perceba, está a fazer uma edição desses sentimentos/pensamentos, torna-se outra ao verbalizar-se. E o que nos resta é apenas uma mera aproximação — uma espécie de sinopse em migalhas daquilo que poderia ser.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de janeiro de 2021


Waves

Depois de assistir a uma entrevista com Lars von Trier em que ele não parava de se tremer por conta dos medicamentos que tem tomado, sento-me para compor música. Como da praxe, consigo sentir os espectros da banda Doves respirando no meu cangote.

O tema se chama (provisoriamente) Did we go too far. Ainda não faço bem a ideia do que pode acontecer com isto até à versão final — ou mesmo se haverá versão final. Mas, pelo menos, gravei as vozes, o que é sempre um pequeno prodígio, visto que morro de medo de cantar.

Um special thanks para o Rafael Mnstr, que me ajudou um bocado nos processos de organização desta sopa de instrumentos e ruídos.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2021


A equação dos noticiários

O tempo será minuciosamente calculado, você começa com alguma catástrofe — ataque terrorista, desastre de helicóptero, a criança que roubara o rifle do pai e resolvera atirar nos coleguinhas da escola, florestas a arder, assaltos, políticos a tomar decisões apocalípticas etcétera etcétera —, depois, alguma observação a respeito, não precisa de se demorar muito nos pormenores, as imagens devem falar por si mesmas, então você coloca o ponto de vista do oponente, da outra parte, do antagonista, poucos segundos, porque ninguém liga muito para o que essa gente fala, afinal, são os inimigos, e a história, assim como o presente, e o futuro, será escrita pelos vencedores, os heróis, os bons, os santos, os deuses, os bilionários. É de suma importância que o receptor (aquele que recebe a notícia) consuma (i.e.: engula) tudo isso sem que consiga tirar conclusões claras, ou seja: que se mostre ainda mais perdido/confuso do que estava antes de começar a assistir ao noticiário.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2021


Padrões reconhecíveis

Como se sabe, o xadrez e a escrita têm muito em comum. Ambos são jogos — com peças, com palavras, com disfarces. O tabuleiro é folha a preto-e-branco. Se compreendemos os movimentos, traçamos determinadas estratégias, movimentamo-nos de determinadas maneiras. Um taxista que passe diariamente pela mesma avenida saberá nos dizer detalhes importantes sobre a pista: quando estará engarrafada, mais tranquila para o tráfego, repleta de pedestres, quais semáforos demoram uma pequena eternidade, e assim por diante. O mesmo acontece com o jogador e com os escritores. Repetem-se, escolhem certas ruas, a abertura de sempre, os temas de sempre, dobram esquinas familiares, cercam o rei com a rainha. Lembro exatamente da minha primeira partida de xadrez: foi aos oito anos, contra o meu avô. Era uma época boa, em que eu apreciava imenso o facto de ser o caçula da família, o menorzinho, o mimado, o xodó. Mas, hoje, não sei bem o que pensar: agora que também estou a ficar velho, e todos os meus parentes estão ainda mais velhos, e paira essa profunda infelicidade, essa angústia de que a qualquer momento posso perder alguém. Todo o ano é isso.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2021


Nem todos os parágrafos são iguais

O sujeito que escreve mete-se consciente e inconscientemente em apuros, atormenta-se diante da falta de sentido das coisas, dedica-se com afinco ao estudo da angústia, depois sente a dor das feridas abertas, como se diz, sente a ira invadir-lhe as entranhas — o sujeito que escreve está então furioso, e pretende-se descrever justamente para amenizar todo esse caos que atrai para si: até que o ciclo recomece, etc.

Um hipopótamo está a andar pela sala do apartamento quando o telefone toca. O telefone é modelo antigo, vermelho, com números dispostos ao redor de um disco de plástico transparente. Acontece que o hipopótamo tem lá umas patas muito avantajadas, com dedos (se é que podemos chamá-los de dedos) gordos e imprecisos. Ele até tenta atender o telefone, tirar o auscultador do gancho, dizer algumas palavras de hipopótamo, mas a cena é patética. Depois da frustrada tentativa, o hipopótamo esquece o telefone no chão e — dir-se-ia bastante despreocupado — continua a andar pela sala do apartamento.

Em 1929, o sr. Keynes, que na altura morava em Cambridge, escrevera para a esposa: é isso, querida, deus chegou — eu o encontrei na estação, a sair do trem das cinco e quinze. Deus era um homem franzino e desorientado. Chamavam-no de Wittgenstein.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2021


Velho ano novo

Ainda não escrevi em 2021. A bem da verdade, as passagens de ano não me comovem mais: nenhuma reflexão elaborada, nem expectativas, planos, bons presságios, nada. Apenas uma qualquer letargia, autodesprezo. Estou sentado na poltrona que fica na varanda da casa da minha mãe enquanto a Jéssica, o meu cunhado, a noiva do meu cunhado e o primo da Jéssica jogam baralho. Eles riem, conversam, fumam o vape. Chove muito. Há pouco estávamos todos na piscina. Tenho a bermuda molhada. Os cantos da folha na qual eu escrevo também estão molhados, sou muito desatento. Acendi os postes do jardim. Ainda não é tão tarde, mas a chuva, o céu cinza, a luz amarela das lâmpadas dão a impressão de noite. — 4h30 da madrugada, domingo: a Jéssica disse que não conseguia dormir, e que iria para a sala de televisão distrair-se. Tentei pegar no sono novamente, e como também não dei conta, fui fazer companhia a ela na sala. Jéssica ficou aborrecida (de forma branda) quando me viu todo descabelado, e pediu para que eu voltasse para o quarto e tentasse dormir. Não dei ouvidos e deitei no sofá. Alguns minutos depois, porém, voltei para o quarto e dormi.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2021


Dunas

Há esta pergunta que me faço constantemente: pode um escritor ser feliz? Noutros termos: o escritor pode se permitir ser feliz? Um amigo meu, poeta, diz que não consegue escrever «nada que preste» quando está satisfeito. E dizem que a filosofia mais contundente — pelo menos se levarmos em consideração os últimos trezentos anos — foi escrita em momentos de A) leve desespero; B) melancolia; C) desassossego com as incoerências existenciais; D) raiva e/ou ira. Se estou esparramado na areia da praia, a sentir a brisa atlântica, e observo o horizonte ondulado, o sol a refletir nos telhados reluzentes dos quiosques à beira-mar, e alguém me traz mojito com uma travessa de peixe ao molho, é certinho que não me apetece escrever: estou onde eu deveria estar. Mas se me tranco no meu pequeno escritório, e observo as rachaduras nas paredes, e penso no absurdo que é viver, que dentro do meu corpo órgãos filtram, bobeiam sangue, recebem nutrientes, expelem o que precisa de ser expelido, sem qualquer interferência direta de minha parte, pois que não preciso pedir para o meu coração bater, ou para que meus rins produzam urina, tudo simplesmente funciona, se estou, portanto, neste estado contemplativo, e meus pensamentos vão ao longe, de aí que tenho a necessidade (o substantivo não seria outro: necessidade) de sentar-me à mesinha e tomar as devidas anotações a respeito. 

Publicado por P. R. Cunha / 29 de dezembro de 2020


Calculista

Em criança eu corria muito. Corria atrás da bola de futebol, corria do meu irmão mais velho que por algum motivo (por vezes justificável, noutras vezes nem tanto) queria me bater, corria atrás do transporte escolar porque como da praxe eu estava atrasado, corria para me arrumar às festinhas de aniversário dos colegas, corria para terminar as tarefas de matemática, corria para acabar de ler as pequenas narrativas do livro Machado de Assis aos miúdos, corria para chegar em casa. Hoje, eu ainda corro. E quando alguém me vê correndo, a pessoa geralmente diz: tens um bom preparo físico, devias ir para as maratonas, se calhar. Mas cá dentro percebo que a vontade/capacidade de correr desvanece. Não é mais o mesmo fôlego, e nem poderia de ser. Destravo o ecrã do meu telemóvel e abro a app da calculadora. Uma conta simples demonstra que estou neste planeta atmosférico há aproximadamente 10.950 dias. 10.950 dias a correr, e, como se diz, uma hora o boleto chega.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de dezembro de 2020


O professor de Habermas

Edgard está sentado no vaso sanitário. Ele vai tentar, pela vigésima quinta vez no dia, abrir o livro Minima moralia, de Theodor W. Adorno. Curiosamente, a latrina, a casa de banho, o azulejo frio, a luz fluorescente que compete com os últimos raios solares, o odor de desinfetante parecem servir direitinho aos propósitos de Edgard, que agora avança as páginas com muita desenvoltura.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de dezembro de 2020


Circunstancial

Quando eu escrevo, escrevo; quando eu sonho, sonho; quando eu ando, ando; quando eu fujo, fujo.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de dezembro de 2020


Rotinas de sempre

Eu costumava achar exagero quando lia a respeito de escritores que ficavam doentes se não conseguissem escrever. Philip Roth era assim, Gay Talese e Vila-Matas são assim, Mamet, Joyce Carol Oates, ao que se diz, têm piripaques quando longe da escrita. Hoje, no entanto, numa altura em que eu mesmo padeço se fico muito tempo sem trabalhar nas minhas narrativas, acho que consigo compreender um bocadinho o que se passa. Apesar de por vezes surgirem incômodos físicos, ânsias de vômito, tonteiras, falta de ar, parece que se trata de uma enfermidade primordialmente psicológica. Um tio-avô por parte de mãe que durante décadas praticara as caminhadas vespertinas e tivera de parar depois que a osteoporose o impedia de dar dois passos sem que ele gritasse de dores, perdeu completamente as estribeiras pois estava proibido de fazer a única atividade que, segundo o próprio tio-avô, o livrava de cair nos abismos da insanidade. Observamos com o coração apertado a fisionomia de algum amigo que nos é caro a batalhar contra a dependência química, a ter crises de abstinência, alucinações, recaídas. Ou mesmo o caso daquele funcionário de uma fábrica de automóveis que de súbito viu-se substituído por máquinas robóticas e agora perambula pelo apartamento tal fantasma desnorteado. Criaturas de hábitos que de repente perdem o rumo, o conforto do previsível, o castelo que construíram justamente para lidar com as complexidades da existência moderna, eis do que estou a tratar aqui. E os escritores, por mais que não pareçam, são também seres humanos, e estão suscetíveis a essas mesmas derrocadas. Acordam todos os dias num determinado horário, escrevem durante (vamos supor) quatro horas, depois dedicam-se outras duas horas às leituras dos clássicos, depois almoçam, depois vão ao café para espairecer, depois resolvem pendências domésticas, depois se preparam para dormir, esperando que na manhã seguinte o moinho de vento continue a girar da mesma maneira. Portanto, experimentes impedir que o escritor desfrute dessa rotina produtiva e verás, sim, um animal doente, irascível, perdido, a cabeça suspensa, os olhos fora da órbita, como um inseto que acabara de mordiscar bolinhas de naftalina e sabe-se condenado.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de dezembro de 2020


Posfácio de lugar nenhum

Então você se torna um poço de contradições. Você odeia a cidade, a sujeira da cidade, o barulho, a algazarra da cidade, os seres artificiais da cidade, a correria desenfreada da cidade, os prédios, as ruas, os estabelecimentos da cidade, a indiferença disfarçada de anonimato da cidade — todo o citadino parece repetir aquela mesma ladainha, que a cidade oferece anonimato, quando, se pensássemos com a devida seriedade, veríamos que esse anonimato não passa mesmo de indiferença, asco, repulsa, mas nunca pensamos com a devida seriedade, e, além disso, quando pensamos, tentamos imediatamente e da forma mais megalomaníaca transmitir esse pensamento, verbalizá-lo, como se diz, e assim que tentamos traduzir nossos pensamentos, assim que abrimos a boca percebemos toda a tragédia da empreitada, a tragédia que é a nossa tradução, a parvoíce dessa tentativa, já que todo o pensamento traduzido, até o pensamento mais canhestro e insignificante, sim, todo o pensamento traduzido, nunca é demais repetir, todo o pensamento traduzido é já outra coisa, outro pensamento, outra ideia, outro absurdo. De aí ocorre que você tampouco é um sujeito do campo, definitivamente não é uma pessoa que gosta da natureza, só a ideia de acampar lhe causa coceiras, a vida vazia do campo, as horas intermináveis do campo, o tédio do campo, os animais do campo, a lentidão do campo, os quadros bucólicos do campo, nada disso nunca lhe apeteceu.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de dezembro de 2020


Perecer

E se for verdade
realmente verdade
que a morte é a mãe
de todas as artes

Publicado por P. R. Cunha / 23 de dezembro de 2020


Passeios noturnos

Menino acorda de madrugada para ir ao banheiro. Quando está a voltar para o quarto, ele escuta os pais murmurando qualquer coisa sobre os estudos da irmã, a universidade da irmã, o futuro promissor da irmã. Menino começa a se sentir culpado pela indiscrição, sabe que não é correto ouvir a conversa alheia. Numa altura o pai diz baixinho: mas e o Menino? A mãe fica calada por alguns segundos e depois diz: Menino é muito sombrio, pesado. E aqui Menino se mete dentro do cobertor, tenta voltar a dormir.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de dezembro de 2020


Gigantes desalinhados

A primeira claridade matinal
que bate à janela é cinza
nuvens adiposas
que insistem em chover
no dia em que
Júpiter e Saturno alinham-se
conjunção de planetas
ameaçada pelas condições
metereológicas
provas evidentes de que
nem Cirrocumulus
nem Cirrostratus
nem Nimbus se importam
com os caprichos visuais
do animal humano
apontando freneticamente o telescópio
aos céus à espera
do espetáculo luminoso
aproximação de dois astros
gigantescos
enquanto fico a observar o
horizonte encoberto
penso o que estou
a fazer da minha vida.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de dezembro de 2020


Pestilência

Minhas anotações (estudos superficiais [e despretensiosos]) sobre ervas daninhas, que parecem sempre germinar com maior fertilidade e mais abundância do que as plantas vizinhas. Espalham-se pelos canteiros e asfixiam outras espécies, como diria um antigo, que nasce espontaneamente em local indesejado, que interfere negativamente nas plantações dos seres humanos. O velho adágio: separar o joio do trigo: o joio como erva daninha do trigo. Rápido crescimento, absorção otimizada de água, adaptabilidade, longevidade, produções contínuas, o fazendeiro olha para a própria agricultura devastada por esse mato impositivo, grita uma série de improbidades e considera-se assolado pela peste gramínea. Há um conjunto de pessoas e uma delas está a interferir na harmonia do grupo: chamem-la de «erva daninha» — a planta no sítio errado, planta a crescer nos lugares mais improváveis (nas brechas do concreto/betão, entre as rachaduras do asfalto etc.) planta do diabo, àqueles com inclinações supersticiosas. O que será do mundo, canta-nos o poema, uma vez dominado pela umidade selvagem? Pois que tudo será entregue às intempéries da natureza: longa vida ao deserto, à manta de ervas daninhas que cobre os rastros da humanidade.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de dezembro de 2020


Desconsolos

Assim que meu pai morreu, desenvolvi manias. Isso para um ser humano que, desde miúdo, já cultivava para si transtornos obsessivos compulsivos os mais diversos. Policial do Sul liga para lhe dizer que o motorista do automóvel não sobrevivera, que não é fácil, nunca é fácil dar uma notícia dessas etc. Então é assim: basta um telefonema para que tudo desmorone. O facto é que depois do enterro do meu pai passei a ser um indivíduo ainda mais cauteloso, procurei preservar os meus pertences — principalmente os objetos de literatura — com um zelo, dir-se-ia, neurótico: empacotei os livros para evitar o envelhecimento precoce, jamais anotei nada nas páginas, muito menos utilizei marca-texto, nem fiz «orelhinhas» no canto das folhas, passei a fechar as cortinas antes que a luz do sol batesse nas estantes… e essa diligência se alastrara para todas as direções, como o vinho que jorra de uma garrafa que acabou de se espatifar no chão: o mesmo carro, o mesmo computador, a mesma cadeira, o mesmo ventilador, a mesma luminária, as mesmas canetas. Dizem que quando perdemos alguém que nos é muito caro, ou melhor, que nos é vital, imprescindível, dizem que passamos a encarar a entropia de uma forma ainda mais agressiva, desafiadora, lutamos com unhas e dentes contra os infortúnios do tempo, contra a total ausência de sentido, até ficarmos um bocadinho sem fôlego, e aos poucos renunciamos, conformados diante do adversário imbatível.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de dezembro de 2020


Reprografias

Catarina e Bernardo eram felizes. Procuravam comer as refeições juntos, adequaram os próprios horários para que acordassem mais ou menos na mesma altura, ela ía ao Centro de Yoga dar aulas de meditação, ele ía ao setor de reprografia de uma pequena gráfica há cerca de duzentos metros do estádio de futebol. Certa tarde, uma das alunas de meditação convidou, ou melhor, insistiu que Catarina fosse com Bernardo lanchar no apartamento dela, que o marido iria preparar uns tira-gostos, e que ele já tinha até comprado vinhos portugueses. A fachada do prédio da aluna de meditação era discretamente luxuosa, como se os moradores quisessem demonstrar status social, sem, no entanto, cair para o kitsch. Catarina tocou o interfone. Uma voz metálica disse qualquer coisa incompreensível e o portão abriu. Dentro do elevador, Catarina e Bernardo seguraram as mãos. Fazia imenso tempo que não se encontravam com pessoas fora do ambiente de trabalho. Depois da primeira euforia do casamento, a vida dos dois se estabilizara, e, como costuma acontecer, fechara-se como uma bolha ao redor do casal. Quando saíram do elevador, a aluna de meditação os esperava à porta do apartamento. Sorriram, deram os beijinhos da praxe e entraram. Catarina e Bernardo eram felizes. Ou pelo menos acreditavam que fossem.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de dezembro de 2020


O escritor não está

De início você (pronome de tratamento formal) tenta/experimenta todas aquelas ladainhas da praxe aqueles subterfúgios inescrupulosos falar sobre não ter o que falar escrever sobre a falta do que escrever estar sentado à mesa e não ter nenhum assunto então tratar disso minuciosamente não ter assunto e meio que se desesperar por não ter assunto ser um completo falhado ou um completo imbecil por estar a fazer o mesmo que tantos antes de si fizeram isso de nunca é demais repetir «vasculhar os motivos de não conseguir escrever justo você que é escritor a tempo inteiro e gaba-se com toda a gente por ser escritor a tempo inteiro e toda a gente deslumbra-se por você conseguir ser um escritor a tempo inteiro numa altura em que é quase impossível ser qualquer outra coisa senão um autômato de carne e osso com um trabalho avassalador com um horário fixo de entrada-e-saída bater ponto essas cosias ganhar o pão de cada dia essas coisas e depois deitar no sofá para assistir séries essas coisas» ao passo que você tenta tudo isso todas essas artimanhas e estratagemas e agora se sente péssimo numa ressaca moral indizível vergonhoso o ponto ao qual chegara dedicar-se horas e horas e horas à escrita aos livros à literatura e não ter uma linha sequer para anotar enquanto médicos estão nos hospitais a salvar vidas enquanto engenheiros estão a construir prédios enquanto advogados defendem esta e aquela causa enquanto motoristas de autocarros levam passageiros do ponto A para o ponto B em suma enquanto o mundo é mundo enquanto a sociedade produz compra vende comercializa cresce funciona enquanto isso você que tem tudo ou melhor toda a estrutura tem uma mesa de madeira branca que comprou na Tok&Stok porque era a mesma mesa que um colega ilustrador tinha e você pensara que ter a mesma mesa desse amigo ilustrador iria lhe dar as mesmas ideias desse amigo ilustrador você começa a perceber o total disparate desse raciocínio o absurdo de pensar dessa maneira que ter a mesma mesa que alguém é garantia de ter as mesmas ideias que esse alguém mas você tem a mesa a mesma mesa do amigo ilustrador e agora não tem ideia não tem assunto não tem como se diz inspiração frase esclarecedora nenhuma linha de raciocínio promissora nenhuma você tem a mesa você tem o computador o editor de texto com mais de 5 mil tipologias que você instalara no decorrer dos últimos cinco anos 5 mil tipologias e você sempre utiliza a mesma tipologia isto é 4.999 tipologias sem qualquer utilidade para si apenas uma tipologia e há também toda a estrutura da sua biblioteca essas paredes de conhecimento e possibilidade que você cultiva desde tempos imemoriais e um relógio vermelho de corda e um mini-globo terrestre com países coloridos e oceano negro estranhamente fora de escala a miniatura de um automóvel Lada Niva 1991 lembranças de quando você era/é obcecado pela União Soviética/Rússia a chávena de café com selos internacionais demonstrando não só erudição mas experiência de vida um sujeito viajado que fala vários idiomas tem conteúdo passara de certeza por diversas situações tem tempo para escrever para ser escritor em período integral tem insisto tudo tem tudo e agora não consegue colocar nada disso em prática nem sequer uma vírgula e fica a olhar para as hélices do ventilador como se fosse um alheado como se fosse — sem papas na língua — um doente mental a poltrona cinza que fica no canto do quarto na qual você raramente senta você conseguiria contar nos dedos de uma única mão todas as vezes em que se sentara nessa poltrona cinza que tem ainda uma almofada (também!) cinza sobre o assento a dar a impressão de que a poltrona é sim um objeto muito utilizado quando em verdade é apenas um objeto de adorno de decoração e essas constatações chegam-lhe nos momentos mais inusitados quando está a comer o pequeno-almoço ou durante uma caminhada ou quando está deitado na cama depois de fazer sexo e pensa que tem uma mesa de madeira branca igual à mesa do seu colega ilustrador e que tem muitos livros e que tem uma poltrona cinza que nunca utiliza e que é mesmo uma vergonha ter tudo isso e mesmo assim não conseguir escrever uma única palavra uma única frase que preste não conseguir sair do ponto de partida não conseguir aguentar esses privilégios que sempre tivera e agora começa a lhe assombrar os fantasmas da culpa do remorso e que uma outra pessoa com as mesmas condições já teria de certeza escrito uma dezena não! uma centena se calhar milhares de livros enquanto você se queixa de tudo enquanto você fica a esperar pelo «momento certo intervenção divina mesmo que não acredite em nenhuma intervenção divina esse tipo de assunto é-lhe absolutamente indiferente esse assunto místico opaco enganador mas você continua a esperar essa mãozinha amiga de um além qualquer essa sementinha de um jardim qualquer sempre arando a terra sempre preparando o terreno sempre colocando areia e nunca construindo nada» você cobre os olhos com as mãos numa atitude patética dramática de quem está desesperado quando verdade seja dita você não está desesperado coisa nenhuma você está envergonhado sente o remorso sente o sabor amargo da incapacidade de escrever qualquer coisa mesmo quando você tem tudo para poder escrever toda a estrutura dir-se-ia ainda toda a disponibilidade todas as ferramentas todos os privilégios e mesmo assim e mesmo assim e mesmo assim a página permanece vazia.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de dezembro de 2020


Objetivar-se

Nenhuma atividade humana está verdadeiramente imune ao escrutínio desta pergunta em duas partes: por que cargas estou a fazer isto, qual o propósito?

Publicado por P. R. Cunha / 15 de dezembro de 2020


Danças

Um dia tu és um rapaz muito bonito, sedutor, interessante, até o jeito que tu seguras o copo de café é charmoso, sabes conversar, ser o centro das atenções, sabes ir às festas — e não te sentes um verdadeiro imbecil quando voltas para o teu apartamento com mobília minimalista —, tens muitos talentos, chamam-te artista, sabes fazer música, arriscas o lápis na prosa, na poesia, nos ensaios, peças teatrais, sabes desenhar, tens o cabelo volumoso, bom fôlego para as práticas desportivas: então um dia tu tens tudo isso, sem dares conta, sem qualquer desconfiança de que essas ilusões também desvanecem, para nunca mais se repetirem da mesma maneira.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de dezembro de 2020


Poesia de um domingo à tarde

Dentro de casa
todas as tempestades 
são belas

Publicado por P. R. Cunha / 13 de dezembro de 2020


Verdade(s)

Num outro contexto social em que uma imagem vale mais do que mil palavras, existe a necessidade de ver/analisar figuras antes de atestar se algo é verdadeiro ou falso. Mas por vezes acontece de a própria realidade mostrar-se insatisfatória, não conseguir suprir determinadas exigências representativas. A imagem real de um vírus captada pelas lentes de um microscópio

pode não ser, como se diz, instigante-apelativa-interessante-chamativa o suficiente para apreender as atenções do público consumidor de informação. De forma que precisam de utilizar «recursos gráficos» ao sabor dos caprichos especulativos. A isso Baudrillard chamara de hiper-realidade, um mundo-cópia programado para gerar estímulos. O vírus é estilizado, ganha cores improváveis, aumenta e diminui de tamanho, recebe texturas, causa fortes impressões no receptor. Essa manipulação imagética pode ser vista também quando astrônomos descobrem algum planeta longínquo cuja decepcionante luz chega-nos deveras embaçada.

Acontece que esse tipo de registro um bocadinho amorfo, baixa qualidade, ambíguo é enfadonho para o sujeito hiper-realista. Ao que ilustradores competentes são convidados a fazer concepções artísticas do exoplaneta. E como as ferramentas digitais conseguem reconstruir o mundo exterior com adornos cada vez mais complexos, ninguém percebe — ou escolhem não perceber — que tudo não passara de uma mera (dis)simulação.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de dezembro de 2020


Espectros

Ir-se ao concerto, ao jogo de futebol, ao teatro, à ópera, ao apartamento de uma amiga, ao café, ir-se fisicamente a qualquer parte: é de se perguntar se numa possível sociedade em que os membros gratificam-se (satisfazem-se) com ecrãs de pixels, com os televisores, com as relações mediadas por tecnologias, é de se perguntar, portanto, se o evento «real» é ainda absolutamente necessário, ou se a mera ideia de espetáculo — aparência —, por mais artificial que seja, já não seria o bastante para saciar vontades de entretenimento/pertencimento.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de dezembro de 2020


Os melhores amigos do homem

Vamos dizer apenas que tu tens aí um cão. Trata-se de um cão muito amistoso. Ele fica embaixo da tua mesa enquanto tu escreves. Ele se comporta direitinho. Mas numa altura o cão se entedia, e começa a balançar o rabo, e fica com a língua de fora, e circula a tua cadeira, e tenta pular no teu colo. O cão quer sair para brincar. Calha, porém, de estares a escrever uma parte realmente importante do teu livro. Ou seja: tu preferes ficar à escrivaninha escrevendo, enquanto o cão quer brincar. Das duas uma: ou tu sais com o cão para brincar, ou tu ficas sentadinho à escrivaninha escrevendo. Se sais com o cão para brincar, pensas que devias estar sentadinho à escrivaninha escrevendo, mas se ficas à escrivaninha escrevendo, pensas que devias levar em conta as vontades do cão, que sempre te foi um companheiro fiel, etc. E isso meio que acontece em todas as ocasiões. Tu vives nesses dilemas existenciais: ou escreves o livro que precisas escrever, ou atendes às demandas externas que surgem nos momentos mais inconvenientes. 

Publicado por P. R. Cunha / 9 de dezembro de 2020


O assistente do Durval

O Durval limpa piscinas há mais de vinte anos. Mas ele mesmo nunca pulou numa piscina. Jamais pulei numa piscina, ele diz, nem por acidente, limpo as piscinas mas nunca estive dentro de uma piscina. Eu digo que isso é lá mesmo um absurdo, disparate, como pode limpar piscinas há mais de vinte anos e nunca ter entrado numa? Combino qualquer coisa com o assistente do Durval e dali a pouco o assistente empurra, com trejeitos amistosos, o Durval na piscina. Nós dois, eu e o assistente, estamos satisfeitos com o rebuliço. Durval, nem tanto.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de dezembro de 2020


Ausências

Algumas bebedeiras são mais parecidas com a morte do que os sonhos — lembremos que determinadas culturas chegam mesmo a chamar os sonhos de primos da morte. Dizem que quando estamos dormindo, simulamos a nossa finitude. Não nos mexemos, tão vulneráveis, podemos ou não acordar. Já com as bebedeiras… Se houvesse uma analogia, esta seria a de um sonho lúcido, mas nem toda a gente sentir-se-ia confortável com esse tipo de comparação. Bebemos muito e retiramo-nos de nós mesmos. Fazemos/falamos obscenidades, perdemos o controle. Observamos uma pessoa bêbada e dizemos: fulano(a) está fora de si. E se a lucidez não nos falhar por completo, podemos, inclusive, realizar uma auto-experiência. Bebemos e vamos ao banheiro para, suponhamos, urinar. Depois, enquanto lavamos as mãos, olhamo-nos no espelho. Há ali o reflexo de um outro alguém. O nosso «eu-artificial-ilusão-de-self» — chame-se como quiser — está longe. E o desespero é saber-se longe.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de dezembro de 2020


Transmissão

Fios
wi-fi
raios
feixes
rádios
órbitas
satélites
televisores
telemóveis
microfones
frequências
computadores
linhas de cabo
chips cerebrais
antenas de microondas
eletromagnetismo bruto

Parece que tudo começou no dia em que ativaram a torre de celular no terreno ao lado. Sr. Bianchi está no jardim, observa os homens de capacete laranja escalarem aquela horrorosa estrutura metálica. Outro funcionário da companhia de telecomunicações sai da camioneta branca estacionada perto da base da torre, ele espera um pouco, faz duas conchas com as mãos para proteger os olhos do sol e diz: pronto, é isso, podem ligar. Sr. Bianchi ajeita os auscultadores do iPhone, escuta o hip-hop-jazz em migalhas dos haircuts for men. Sr. Bianchi ainda não sabe, mas, a partir do momento em que a luzinha vermelha no cimo da torre piscar pela primeira vez, a vida dele não será mais a mesma. Tudo o que ele fizer e se desviar do chamado curso normal (segundo as regras estipuladas pelo próprio sr. Bianchi), será devido à torre. Ele vai ao supermercado e perde a carteira, a torre foi a responsável. Ele tropeça no quinto degrau da escada, foi a torre que fez isso. Ele fica muito irritado e joga os talheres no chão da cozinha, a torre que o incitou. Mão ruim durante o jogo de poker?; torre. Sr. Bianchi abre as cortinas da sala e vê três estranhos conversando no outro lado da rua, é a torre que conspira contra ele — ou os estranhos estão a modificar as frequências da torre para que ela produza novos infortúnios ao sr. Bianchi, ou talvez os estranhos sejam miragens causadas pela torre, nunca se sabe, nunca se sabe.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de dezembro de 2020


Lá fora

O temperamento de determinados escritores — Hölderlin, Poe, Kafka, Pavese, Bernhard… — que procuravam sair o menos possível, e quando saíam estavam sempre a fazer (ou achavam que estavam a fazer) algo indecoroso, que falavam asneiras, que de súbito perdiam o controle que minuciosamente cultivaram durante horas a fitar uma silenciosa folha de papel, invadia-lhes a culpa, o remorso, arrependiam-se imenso de terem saído, amaldiçoavam-se por tamanho descuido, como fui cair nessa de novo?, e, esgotados, arrastavam-se de volta ao esconderijo de sombras.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de dezembro de 2020


Florestas

Quando uma cena — imagem — tem pouca ou nenhuma estrutura aparente, é provável que o leitor fique confuso e frustrado: os olhos vagam inutilmente pelo texto, em busca de interesses, sentidos, âncoras, conexões. O leitor esforça-se para compreender, pula de uma fixação a outra, sem muito sucesso.

O parentesco apropriado seria este: escritores e caçadores. E não é necessário se atrelar apenas às obviedades: escritor-caça-palavras. Há algo além disso. O livro que o escritor está a escrever é o epicentro de uma vasta floresta de possibilidades. Quanto mais tu avanças, mais sentes como se o livro estivesse a engolir-te — como algo olhando para ti numa manhã de nevoeiro. E, de certa forma, tu te encantas. Entras nessa floresta com assuntos fixos na cabeça, bloco-notas e caneta. Estás com os canais abertos. As árvores e a trilha que segues servem-te de norte. A ti o desafio agora é saber a altura de abandonar as investigações, de voltar a casa.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de novembro de 2020


Fios metálicos

Num contexto mecânico-ciborgue (sic erat scriptum), as máquinas com defeito, ou a faltar uma ou outra peça — a cafeteira sem o compartimento de água, o automóvel com farol queimado, um aspirador de pó que não liga mais, etc. Olhamos para essas deformações tecnológicas e sentimos pena da máquina.

Nosso relacionamento com robôs: (1) interação/imersão; (2) que os robôs possam superar as barreias intransponíveis para o animal orgânico [exemplo: longas viagens cósmicas {psicologia ciborgue, endurance/estamina — capacidade de resistir a tarefas absurdas}]; (3) nanorobôs que curam o câncer; (4) certas dependências [não consigo viver mais sem o meu telemóvel {diz um}, estou sem internet, o que será de mim {diz um outro}]; (5) e assim por diante.

Esta é uma peça Bauhaus criada por Grete Reinhardt em 1928 — sie brauchen das bauhaus («vocês precisam de bauhaus»). 

A sra. Reinhardt, obviamente, não tinha computador, muito menos Adobe InDesign. Ela tinha ideias, tecidos, páginas, tesouras, lápis e um cérebro criativo.

O que a sra. Reinhardt está a querer dizer através de sie brauchen das bauhaus? Crítica aos modos industriais, à mesmice das fábricas. No topo, à esquerda, lemos a palavra de significado universal: tempo, tempo. Um senhor ranzinza aponta para os ponteiros do relógio. 

O tiquetaque constante, o fim da ociosidade criativa. Estamos a nos prender em frações temporais, frações determinadas ao sabor das máquinas.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de novembro de 2020


Linha tênue

Se tu és bipolar, esquizofrênico, e ficas prostrado a ver navios numa cama de hospital, então tu és louco. Mas se tu és bipolar, esquizofrênico, e metes a escrever uns livrinhos, a rabiscar uns desenhos, a compor umas canções — então és artista.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de novembro de 2020


Demonstração

Costuma acontecer enquanto estou a estudar idiomas estrangeiros (o russo, primordialmente), e as primeiras notas… ou melhor, os primeiros esboços de sons começam a surgir à cabeça. É também algo muito visual. Como que vejo os acordes a se arranjarem na minha frente, e sinto que, se levantasse as mãos, poderia encostá-los, trocá-los de sítio. O facto de já trabalhar com o software Logic Pro há algum tempo de certeza que influencia. Esses sons me vêm em camadas, e cada camada é um instrumento. Talvez não façam muito sentido se estiverem isolados, mas quando se juntam formam melodias. Tento não me agarrar muito aos juízos de valores. Quando começo a gravar essas, por assim dizer, miragens auditivas, pode ser que funcionem, pode ser que não. E acho que essas incertezas, essas possibilidades de música ou caos, deixam a empreitada um bocado fascinante.

Primeira versão instrumental de O fim é uma mistura de tudo isso, gravada ontem à noite ao Estúdio da Cris:

Publicado por P. R. Cunha / 25 de novembro de 2020


Pixels

Preciso antes de tudo de algum incidente, algo inesperado, caótico, algo que me sirva de estímulo, gatilhos. Porque quando se está bem é outra dinâmica, e apetece perder-se em atividades amenas, e com isso não posso por muito tempo, o barco sereno, as águas sem ondas, de aí que se estou em paz muitas vezes não escrevo nada, absolutamente nada, nenhuma linha, como se diz. Até me bater um qualquer desespero, uma ânsia, a tal da Náusea de Sartre, e logo estou a escrever em toda a parte, onde quer que seja, se antes não dava conta de escrever num café, agora consigo escrever direitinho num café, se antes o barulho dos automóveis me irritava imenso, agora soa-me como uma sinfonia atonal do Cage. E sempre foi assim. Uma barata está completamente estática no chão da cozinha, não faz nada, parece morta, agora experimenta jogar inseticida nela, apenas um bocadinho de inseticida, e verás que a coisa não era do jeito que imaginavas. A barata estava viva e agora corre para todos os lados. Há também a questão das negações, as tais verdades que não gostamos de admitir. Parece que numa altura toda a gente passa por algo assim, não estou a fazer-me de especial. Acontece que durante boa parte da minha vida escondi certas inclinações tecnológicas, menos por medo da opinião alheia do que do meu próprio escrutínio. Refugiava-me nos livros de papel, nas atividades analógicas por assim dizer, livrei-me da televisão como um ex-fumante que precisa de se livrar dos colegas que fumam se quiser manter-se longe dos cigarros. Lutei contra o facto de que os computadores estiveram tão presentes na minha «formação» (faço as aspas com os dedos na falta de melhor termo) quanto os meus pais médicos, que viviam algures, num hospital, a tratar de outras pessoas. Bastava a minha mãe vestir-se de branco que eu começava a chorar, ou melhor, a espernear, pois sabia que ela estava a ir-se embora. Sabemos que o tempo para uma criança não passa da mesma forma que para um adulto, só um alienado não percebe isso. As noites em que a minha mãe fazia plantão duravam-me séculos. Mas não tenho do que reclamar. Foi decerto uma infância boa, incrível, mas enquanto a gente a vive é com certeza uma tragédia. Na juventude, foram os computadores que de alguma maneira supriram ausências, paternas e não só. Ausências de sentido, de vontades, de objetivos, de perspectivas, de si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de novembro de 2020


Êxtase à Starobinski

O barulho do ventilador pela manhã enquanto tomo a primeira chávena de café, a dança das cortinas quando o vento passa pela janela entreaberta, o sintetizador dos Future Islands, o contraste da caneta azul com a folha de papel, o paninho para limpar as lentes dos meus óculos, os envelopes, a fotografia dos meus avós em juventude, a carta que papai me escreveu na altura em que publiquei o primeiro poema, a biblioteca, o livro do Raymond Carver fora do lugar… todas essas coisas sempre suscitaram em mim a ilusão de felicidade, uma felicidade fugidia, temporária, como que encharcada de tinta melancólica.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de novembro de 2020


Zoos

Passo perto do zoológico de Brasília, é domingo, está quente. Há uma fila quilométrica de carros que se amontoam antes de entrar para o zoo, pessoas dentro de jaulas de metal, à espera, porque querem ver outros animais enjaulados.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de novembro de 2020


O passado é muito tempo

Morte
de um buraco negro
supermaciço
no aglomerado Ophiuchus
a cerca de 390 milhões
de anos-luz da Terra
o gás pós-catástrofe
poderia abrigar quinze
galáxias do tamanho
da Via Láctea
jatos de radiação
material expelido da boca
desse monstro devorador de luz
— a maior explosão do universo
é um estrondo silencioso
que não se propaga
pelo vácuo cósmico.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de outubro de 2020


Antes de mais nada

Então chegamos a um impasse, disse Doloroes enquanto acendia o cigarro. Um impasse, ela fez questão de repetir, um impasse… Ou o universo sempre existiu, hipótese do infinito, ou ele teve um começo, big bang, há 14 bilhões de anos. Dolores assopra a fumaça do cigarro para o longe. Faz cara de quem está confusa: mas se houve mesmo um ponto de partida, «onde» (Dolores abre e fecha aspas com os dedos) exatamente isso se passou? Ela joga de forma atabalhoada o isqueiro sobre a mesinha de cabeceira: porque, veja bem, é extremamente ardiloso para o meu cérebro reptiliano assimilar que massa, átomos, matéria, tempo, energia, eu, você, esta casa, mudanças tenham surgido do nada. Dolores destrava o telemóvel e coloca Franz Liszt para tocar: a pergunta que fica martelando, tal e qual o insuportável tique-taque de um velho relógio de parede: o que diabos existia antes de nada existir?

Publicado por P. R. Cunha / 19 de outubro de 2020


Breve exercício de humildade cósmica

Atualmente, a maior estrela já detectada pelos telescópios chama-se Stephenson 2-18, localizada na constelação Scutum (Escudo). Trata-se de uma hipergigante com raio 2.150 vezes maior do que o do nosso Sol — e 10 bilhões de vezes mais volumosa. A título de escala, aeronave comercial demoraria cerca de 500 anos para completar uma volta ao redor de Stephenson 2-18.

Um monstro vermelho a habitar este universo igualmente colossal que não para de se expandir, as referências astronômicas, os espaços vazios, Boötes void (diâmetro de 330 milhões de anos-luz), ausência de propósitos (as estrelas nascem, crescem, consomem-se, explodem/implodem), tudo isso deveria ser o bastante para colocar o animal humano — que caminha neste pequenino planeta de pedra há meros 200 mil anos — no nosso devido lugar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de outubro de 2020


Malas

Viagens mostram-se sempre mais bonitas (e agradáveis) quando ainda estão nas etapas iniciais de idealizações. Seguramos a brochura de certa praia paradisíaca completamente vazia, o encarte de pousada ecológica isolada, a praça central da cidade com clima soalheiro, ou mesmo aquela pista de esqui ao cimo da montanha de neve que parece ter sido feita só-e-somente-só para o nosso regojizo. Esquecemos que há mais de sete bilhões de seres humanos no planeta a segurar as mesmas brochuras, os mesmos encartes, a ter os mesmos desejos, as mesmas vontades. De aí a decepção ao se deparar com a areia repleta de lixo, com a pousada lotada, com as nuvens cinzas que cobrem a praça central, ou com a montanha de neve sem neve porque o ano foi absurdamente quente.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de outubro de 2020


Ceifadoras

Max trabalhava num prédio de escritórios. De manhãzinha, quando ele passava pela portaria, estava lá sentado o mesmo porteiro de sempre. Até que um dia Max passou e subitamente deu-se conta de que o porteiro não estava mais — não se sabe ao certo o que aconteceu. A despeito de todos os esforços, Max não conseguia se lembrar nem do nome nem do rosto daquele discreto funcionário. E enquanto entrava no elevador, Max compreendeu o que também lhe aconteceria depois que a morte o ceifasse.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de outubro de 2020


Intervenções vespertinas

Simples tarde chuvosa, o tilintar moroso ao telhado, duche oferecida pelas nuvens do planeta, os raios, os trovões, a luz elétrica que acaba (sempre acaba), a capa envelhecida de certo livro que há muito aguarda ser lido, com aquela paciência livresca que só os amantes das palavras parecem compreender, a ideia de criar música, sons, sem que ninguém soubesse o que se estava a compor, o sol que começa a minguar no céu nublado, a luz elétrica que não volta — leitura interrompida pela escuridão.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Manter distâncias

Enquanto o perigo se encontra ao longe — o Drácula a hibernar no castelo de pedras, o frio ártico, as labaredas de uma selva longínqua, o demônio vulcânico nas profundezas de uma ilha —, enquanto as catástrofes e as mortes só aparecem no aparelho televisivo, enquanto a bala da pistola atinge as têmporas de um suicida anônimo, ou o desfiladeiro engole um automóvel propositadamente desgovernado; enquanto isso, tudo bem.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Escritores curiosos, com a caneta engatilhada

Num pretexto criativo, todo e qualquer encontro será para o escritor material de literatura. Não importa se a conversa seja sobre o tempo, as formigas, chapéus, as luas de Júpiter, ou mesmo a respeito dos desafios matrimoniais.

(Quantos sonhos não sonhamos em pensamento — com as melhores das intenções —, e no confortável quarto do nosso cérebro os devaneios fazem sentido, mas quando tentamos colocá-los em prática só lidamos com fiascos.

Porque o mundo lá fora, isto é certinho, nunca será o bastante para determinadas idealizações interiores.)

Publicado por P. R. Cunha / 14 de outubro de 2020


Dilatação temporária

Realidades que dependem do contexto de cada observador. A realidade coletiva, aquela em que realizam-se transações econômicas, votam-se em candidatos políticos, entram-se nos metropolitanos/autocarros/trens/aeronaves etc. Outra realidade, um bocadinho mais difícil de ser delimitada, para a qual muitos ainda preferem fugir, a realidade dos livros, do cinema, do teatro, a realidade das exposições fotográficas, a realidade, portanto, que é remodelada de acordo com os interesses de quem se relaciona com ela. Numa altura estamos na fila do banco para pagar contas, ou abaixamos a cabeça no escritório da firma diante de tanto tédio; depois, refugiamos nossos pensamentos em arquiteturas «fantasiosas», recriamos o nosso mundo para lidar com tantos absurdos, que — tal como o tecido espaço-tempo do universo — crescem exponencialmente.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de outubro de 2020


35

A cortina da escuridão
desce lentamente
enquanto me perco
ao manto retalhado
da memória.


Daqui a um par de dias completarei trinta e cinco anos, «trinta e cinco voltas ao redor do Sol» — como pedantemente gosto de dizer aos meus. Enquanto escrevo estas palavras, escuto a lista cósmica do Mortifer V. (Epic Space Music) e sinto-me como se desabasse num qualquer sonho estelar do Brian Eno. As notas profundas e reverberadas explicam imenso sobre as minhas perambulações neste planeta. A criança tensa, introspectiva, com cabelos amarelos, chorona, a criar as próprias regras; o adolescente a experimentar músicas, e letras, e alguma poesia, os esportes, o idioma russo, as primeiras expectativas: o menino faz tudo, e faz tudo muito bem. De aí o flertar com os sonhos impossíveis, o ser-dono-do-mundo, ambicioso, nada poderia pará-lo, a não ser, é claro, um acidente, um acidente automobilístico, a morte do pai, a reestruturação, o dizer adeus para tantos objetivos que nunca aconteceriam. Como se a mesa estivesse repleta de alimentos e não me apetecesse comer. Vai ser músico, baterista; escritor; jogador de futebol; pode se dedicar aos desenhos; vai ser tudo. Mas não se pode ser tudo. A caixa possui tamanho específico, tamanho finito, colocamos nela o que podemos, e depois enterram a caixa, connosco dentro. Há este dado inquietante que me chama a atenção: os homens da minha família, em média, morrem aos setenta anos — aliás, poucos conseguiram ultrapassar essa marca cronológica. Ao passo que, estatisticamente, estou já à meia-vida. Idade estranha, quando não se é ainda velho para começar a se aquietar num rancho distante, e nem tão jovem para permitir-se os riscos dos primeiros tempos. Idade do limbo, da espera, purgatório: a cabeça, como a plateia de um jogo de tênis, vira de um lado para o outro, indecisa, ora ao passado, ora ao futuro, ora ao nada.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de outubro de 2020


Excesso de condescendência

Sobre as coisas que, via de regra, displicentemente tomam-se como certas:

– Entramos numa máquina de raios X, o aparato faz o que tem de fazer, saímos com radiografias a mostrar os ossos embaixo da nossa pele. A indiferença de algumas pessoas depois desse procedimento me perturba;

– Viajamos dentro de aeronaves a 900 km/h, sobrevoamos as nuvens, e ainda reclamam quando o voo sai trinta minutos depois do previsto;

– Uma pessoa no Camboja conecta-se através do próprio telemóvel com uma pessoa que está a andar de bicicleta na Argentina (ou seja: a mais de 16 mil quilômetros de distância). A pessoa a andar de bicicleta fica furiosa porque «a imagem da pessoa no Camboja está a travar um bocadinho»;

– Colocamos comida congelada dentro de uma caixa a que chamamos de micro-ondas, dali a pouco tempo a comida sai quente — quantos não se sentam à mesa como se nada tivesse acontecido?

Publicado por P. R. Cunha / 9 de outubro de 2020


Hidráulico

Seu Fernando é o jardineiro da casa da minha mãe. Com a serenidade da praxe, ele acopla a mangueira num daqueles dispositivos giratórios que são fincados na grama e jorram água para todas as direções. Nestes dias de terra e fogo em Brasília, seu Fernando faz chuvas.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de outubro de 2020


Horror cósmico

O mundo como planeta, o universo como este espaço imensuravelmente gigantesco, os meteoros, as estrelas que explodem — não ligam a mínima para as insignificâncias do animal humano.*

*Uma qualquer necessidade de fugir, tornar-se inalcançável/inatingível, de viver a vida dos monges.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de outubro de 2020


Brasília arde

Amor contemporâneo
ódio ternura compaixão
raiva pena tudo ao mesmo
tempo ontem hoje
amanhã é outra coisa
outras pessoas

(Se leio teatro quero escrever teatro se leio poesia apetece-me escrever poesia se leio ficção faço ficção se folheio biografia recobro a minha autobiografia — e os dias aqui têm sido insuportavelmente quentes [Brasília arde])

«Quando respiramos / desagua a Morte»

As árvores com galhos
retorcidos
à distância enganam
porque se parecem
mas se observássemos
com a calma devida
nenhuma delas
é igual.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de outubro de 2020


Sossegado

Há muito que parei de ler
os noticiários
que se repetem
e o mundo continua
a girar
indiferente
persistente
displicente
avassalador —
não tenho televisão.

Com os mesmos
desejos de R. Carver:
de estar quieto
e de não pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de outubro de 2020


Sonham os escritores com pesadelos elétricos?

Este quase-prólogo: ler As flores do mal em formato EPUB num tablet da Apple dentro de uma aeronave a 11 mil metros da superfície — fico a imaginar o que Baudelaire teria achado destes absurdos.

* * *

Na semana passada assisti a uma série de palestras no YouTube com escritores latino-americanos a falar sobre o papel das redes sociais na carreira literária.

Como de costume, o tema dividiu opiniões e houve altura em que as palestras lembravam mais um debate político do que um encontro livresco propriamente dito.

Acontece que num contexto mercadológico em que os autores estão a publicar livros de forma independente, as mulheres e os homens das letras — amiúde seres menos inclinados às longas exposições — precisam também de se transformar em editores, diagramadores, revisores, e, na pior parte, vestem os trajes marqueteiros.

Se noutros tempos as divulgações literárias ficavam a cargo das editoras, agora não raro podemos ir a um qualquer lançamento de livro e nos depararmos com a figura abatida e irascível do escritor, que tivera de organizar tudo aquilo sozinho.

Depois de longas batalhas noturnas, de se debruçar sobre indispostas folhas em branco, de acumular material de pesquisa, de resistir aos imperativos sociais, de cultivar silêncios, linearidade, rotinas, depois de fazer, em suma, os sacrifícios da praxe, eis que o escritor se vê ainda apenas ao meio do caminho, olha para o horizonte embaçado, encolhe as pálpebras sem conseguir enxergar a tempestade de areia que se aproxima com desinteresse.

É evidente que, tal como ocorre em outros cenários evolutivos, há escritores que se adaptam direitinho ao digital, e outros que jamais o farão. Alguns trabalham com afinco na própria obra e se enchem de expectativa com a próxima etapa do processo: divulgar as entranhas para, como se diz, deus e o mundo. Muitos, no entanto, sentem-se absolutamente paralisados só de cogitar na possibilidade de digitar login e senha de rede social.

A verdade é que neste vertiginoso século vinte e um os escritores não estão mais blindados pelos muros editoriais. Precisam de se expor, de tirar selfies, de fazer as famigeradas leituras em público, de descer da confortável e amena torre de marfim para mostrar-se disponíveis diante de toda a gente — que, pelos vistos, parece mesmo ocupada demais com o ecrã azulado dos telemóveis para prestar atenção em qualquer outra coisa.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de outubro de 2020


Inebriações

A pessoa que se arrisca aos desfiladeiros criativos — e não estou aqui a falar de talento, mas de coragem — parece passar por uma espécie de epifania durante a qual acredita-se ter conquistado o mundo.

Período de indizível gratificação, altura em que a paisagem sem sentido desanuvia-se temporariamente e o sujeito pode até levar a chávena aos lábios enquanto pensa: até que isto não é assim tão mau.

Porém, como numa inebriação alcoólica, o efeito é passageiro. E se é mesmo verdade que apenas as semi-desgraças são fecundas: pode-se acordar ao cume e dormir-se ao rodapé.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de setembro de 2020


Enquanto corria

Já há alguns dias este tema invade meus pensamentos durante as caminhadas matinais, quando simplesmente saio de casa e sigo, como se diz, a direção do vento.

O conceito de casa — o lar, o refúgio, o sentir-se à vontade num determinado sítio. Isto de estar-se acolhido numa construção com teto e paredes.

É célebre a frase de Blaise Pascal: «Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho em uma sala». Mas e se não há quartos? Ou pior: se existe a sala mas é tudo tão alienígena que apetece estar algures?

É condição comum ao exilado nunca acreditar-se em casa. Exilado político, exilado emocional, exilado de tudo, de toda a gente. Tem ali uma cama sobre a qual dorme sonos intranquilos, e ao acordar encontra-se num asilo de alienados.

De aí viver existências errantes, trocar de idioma, livrar-se dos bens materiais, não constituir família. Como se o exterior precisasse refletir o provisório que se sente dentro.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de setembro de 2020


Retóricas

Uma senhora idosa está a esperar o ônibus enquanto eu pratico o running. Ela gira a cabeça lentamente para acompanhar o meu movimento e pergunta: por que corre? Durante o resto do percurso fico a me perguntar sozinho: por que corro?

Num contexto ainda mais introspectivo-filosófico: por que faço as coisas que faço, por que escrevo?, por que tiro as fotografias?, por que abraço a guitarra para dedilhar canções desassossegadas?

Tarefas rotineiras, sem as quais não saberia para onde me virar — como costuma acontecer com toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de setembro de 2020


Café em Walden

Atualmente voltei a ser hóspede da civilização.

Essa frase de Thoreau me persegue mais do que eu gostava de admitir.

Movimento pendular do recluso que de quando em vez precisa de beber da fonte social. Apenas o bastante para saciar-se. Depois, volta, para o esconderijo da praxe.

«Pois se viveram com sinceridade, só podem tê-lo feito numa terra distante.»

Publicado por P. R. Cunha / 23 de setembro de 2020


Para ele o mundo é mudo

A história giraria em torno do pai, um pai neurótico, diga-se, que depois de ler sobre o caso Kaspar Hauser, assistir à adaptação teatral de Peter Handke, e também ao filme Jeder für sich und Gott gegen alle (cada um por si e deus contra todos [O enigma de Kaspar Hauser]) do Werner Herzog, resolve prender o próprio filho numa espécie de caverna. À laia de dramaticidade, haveria contexto paralelo a explicar que a mãe morrera num «grave acidente», cujas consequências ainda dilaceravam o coração do pai. O menino, diferentemente de Kaspar Hauser, não sobreviveria ao cativeiro, muito menos teria a chance de relatar a própria experiência. Ao velório — vazio —, o pai faria um estranho discurso a reforçar a ideia de que pelo menos o filho não sofrera, não foi contaminado pela sociedade, morreu ileso. O pai chamar-se-ia Guattari (mas sem qualquer parentesco com o filósofo Pierre-Félix Guattari).

Publicado por P. R. Cunha / 20 de setembro de 2020


Loja de inconveniências

¶ No centro da cidade, estão a preparar (com andaimes, lonas, vigas etc.) a outrora belíssima estrutura de uma catedral gótica para ser transformada num grotesco shopping mall. Nada poderia ser mais nietzschiano.

¶ Seres humanos que não conseguem sequer cuidar de si mesmos e ainda assim escrevem manuais de «como viver bem», dão toda a sorte de pitacos esdrúxulos, fazem-se de gurus modernos enquanto se entopem com o creme de amendoim à frente do televisor.

¶ «Você está abandonando trinta e dois velhinhos, o senhor sabia disso?!, trinta e dois velhinhos» — de uma secretária de certo lar dos velhinhos que me ligara furiosa para dizer que eu havia esquecido de depositar a doação mensal.

¶ Quando o avião se aproxima do aeroporto, e levantamos a cortina de plástico para observar: vemos árvores, prédios, automóveis, antenas… Mas as pessoas são miudinhas de mais para serem notadas, como se nem existissem. 

¶ No sofá da casa da minha mãe há umas almofadas com capa verde repleta de terríveis pedrinhas pontiagudas que de tão desconfortáveis acabam por tirar todo o propósito da coisa. Para quê, então, ter almofadas?, eu pergunto. São enfeites, mamãe diz. Nunca compreendi.

¶ Vários desequilíbrios — se calhar todos os desequilíbrios — provêm de vontades reprimidas, vontades que adiamos durante demasiado tempo. O desespero, por outro lado, surge quando essas vontades são satisfeitas, e no entanto o abismo permanece.

¶ A história da literatura explica que boa parte dos escritores jamais será publicada. Ou coisa pior: escritores que só recebem o «devido» reconhecimento depois de terem há muito visitado a morgue.

¶ Escritores que escrevem, portanto, mesmo quando cientes da própria fatalidade. Como os coveiros que insistem em fazer filhos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de setembro de 2020


Ruminante

Escritor que gosta de tomar notas em público precisa de ter alguns cuidados. Numa palavra: ser discreto. Fita o rosto das pessoas — há alturas em que toda a gente parece vestir feições atordoadas, como se tivessem saído de algum livro do Orwell (estou a pensar em O caminho para Wigan Pier ou talvez em Como morrem os pobres). Sem contato ocular, sem alarde. A discrição vale também para os chamados «instrumentos de trabalho»: bloco-notas o mais miudinho possível, caneta barata tipo Bic edição econômica (azul e/ou preta [o vermelho chama atenção, carrega atmosfera corretiva na própria escrita]).

O corpo do escritor: momentos em que se quer cuidar do corpo, corpo-santuário, mantê-lo em ordem, deixá-lo saudável; também momentos de raiva/fúria/vontade de absoluto aniquilamento, desaparecer. Faz o exercício físico num dia, enche a cara e fuma charutos noutro dia &tc.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de setembro de 2020


Passeios eternos

Levo a minha avó para um passeio ao jardim. Minha avó tem 92 anos. Ela caminha com dificuldade, segura firme no meu braço. Ela já viu de tudo. Vovó observa as árvores, que nesta época do ano estão secas, retorcidas, com as folhas a cair. Vovó diz: estas árvores, as folhas, os pássaros, tudo tem o próprio tempo.

Acontece que alguns organismos são biologicamente imortais. Quer dizer: eles morrem, mas não por causa da idade.

A medusa Turritopsis dohrnii, que pertence à classe dos hidrozoários, «reinicia-se» a cada ciclo de vida. 

Pinus longaeva, uma espécie de pinheiro das White Mountains californianas, o ser vivo mais velho do mundo. Essas árvores podem ultrapassar os 4 mil anos.

Turritopsis dohrnii e Pinus longaeva não têm o próprio tempo. Mas não chego a comentar isto com vovó.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de setembro de 2020


Lançamentos

Já estão disponíveis à lojinha deste sítio web os livros Sinfonia do fracasso e Saturno embaçado, ambos editados pela Bandoleiro. Para acessá-los, aperte aqui.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de setembro de 2020