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Aquele que viveu através das palavras

De todas as personas que me propus a ser, a de escritor sempre me foi a mais prazerosa. A começar pela natureza da empreitada: inventiva, predominantemente solitária, reflectiva. É verdade que por vezes me sinto um bocadinho exausto e me retiro a uma, como se diz, inação monumental…, mas isso tem menos a ver com a escrita do que com as minhas instabilidades criativas/psiquiátricas. Dentro de um texto literário, pode-se agir como quiser, vestir máscaras, retirá-las quando necessário. E sentir-se demasiado poderoso ao perceber o demônio da literatura mergulhando no tinteiro: abraçá-lo, se calhar.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de junho de 2021


Reconhecimento de padrões

5h20 da manhã;
inverno em Brasília —
tosta-mista
com café peruano.
Talvez a hora mais
misteriosa do mundo.

Há uma certa inclinação ao esquecimento — e um dos sedativos mais utilizados para este tipo de fuga é a própria bebida alcoólica. Basta uma despretensiosa dose num período, como costuma dizer-se, conturbado, o álcool anestesia enquanto o bicho da angústia (uma mistura de Kierkegaard, Heidegger e Sartre) dissolve-se dentro da substância etílica. Na noite seguinte, impelido por velhos e novos tédios, por outras faltas de rumo, enchemos o copo novamente até sentirmos o momentâneo efeito do analgésico. É como se, agora, somente a bebida fosse capaz de oferecer o brevíssimo átimo de alívio. Porém, permanece a certeza de que, cedo ou tarde, a avalanche de negações que se acumula dentro de si derrubará os frágeis muros do castelo, carregando tudo consigo, inclusive as árvores.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de junho de 2021


A pedido do síndico, as escadas de incêndio foram recentemente pintadas de vermelho

Silas estava mergulhado na banheira quando ouviu as primeiras batidas na porta. Ele afundou a cabeça na água morna para se livrar da espuma que se agarrara às orelhas e levantou-se num só movimento para buscar a toalha. Mais duas ou três batidas na porta, desta vez eram batidas impacientes e o barulho ecoara pelo apartamento com pouca mobília. Silas amarrou a toalha na cintura, conferiu a barba no espelho embaçado e com voz calma, quase aos sussurros, disse que estava a caminho. De certa forma, já esperava por aquelas batidas, achava até que tinham demorado mais do que previra. Porém, quando finalmente girou a chave na fechadura e abriu a porta, Silas arregalara os olhos castanhos, incrédulo diante do que acabara de ver.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de junho de 2021


Às vezes o poço é mais fundo do que parece

Achamos que conhecemos as pessoas, insiste Silas na sacada do apartamento, achamos que conhecemos nossos pais, nossos irmãos, aqueles com quem nos relacionamos, nossos melhores amigos, esposas, alimentamos ilusões a respeito dessas pessoas, dizemos que sabemos do que gostam, do que odeiam, a quais programas de TV preferem assistir, sentimo-nos à vontade perto delas, baixamos a guarda, despreocupados, até chegar o dia em que abrimos o jornal, ou lemos algo a respeito na internet, talvez num grupo de WhatsApp, até chegar o dia, portanto, em que descobrimos alguma atrocidade cometida por alguém que achávamos que conhecíamos, ou melhor, que tínhamos a certeza de que conhecíamos, um irmão criminoso, um grande amigo psicopata, uma ex-namorada que torturava animais domésticos, e todas essas coisas estavam a acontecer bem debaixo do nosso nariz, nunca havíamos suspeitado de nada, reflete Silas enquanto joga o paninho ensanguentado na lixeira coletiva do condomínio.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de junho de 2021


Os elevadores que demoram a chegar causam angústias indizíveis

Olhamos para os outros moradores do condomínio e o que vemos? Que têm olhos, boca, que alguns começam a ficar calvos, mulheres com trajes desportivos, homens com meias que vão até aos joelhos. Mas nunca sabemos exatamente o que se passa dentro dessas pessoas — os segredos que guardam, as perversões, neuroses, raivas domesticadas ou mesmo uma sede de vingança que não fôra devidamente reprimida. Cada um procura manter vida sexual ativa, dedica-se a certas ocupações, divide os dias com pequenos hábitos excêntricos. Seres humanos com lacunas, rostos perplexos e vazios, poder-se-ia dizer, como se tivessem sido infectados pela atmosfera glaciar do prédio de apartamentos. Os moradores frequentam as áreas comuns do condomínio tentando manter as aparências. Desconfiados, por vezes na defensiva, como se a qualquer momento pudesse surgir um animal irascível para atacá-los. Nada é o que parece ser, reflete Silas enquanto limpa com um paninho molhado as manchas de sangue no parapeito da sacada do próprio apartamento. Os moradores voltam para o saguão de entrada, e enquanto esperam pelo elevador percebem que a existência deles não tem propósito algum, que o tédio, o abatimento, a ausência de realizações prevalecem. Procuram manter a calma, evitam transparecer qualquer angústia diante dessas constatações, fingem que está tudo bem, apertam o botão e sobem para os respectivos andares. Em suma, para o visitante distraído, este condomínio pode até sugerir um habitat pacato e convidativo. Porém, diz Silas para consigo mesmo enquanto torce o paninho ensanguentado perto do ralo, por trás dessa fachada de boa-vizinhança há sempre algo de muito sórdido acontecendo.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de junho de 2021


Muitas glórias à estátua do fundador, boneco de bronze enferrujado

Agora que podaram a árvore, Silas consegue ver melhor a estátua do fundador do condomínio, uma escultura absolutamente grotesca. Silas sentado no sofá mastigando o pão com mortadela, a parte de trás da estátua roliça virada para o apartamento dele. Sorveu o café e foi até à sacada espreguiçar-se. Notou que, lá embaixo, dois homens de moletom apontavam os próprios telemóveis para as janelas do prédio. Silas levantou os braços, indignado, como quem dissesse: que porra vocês pensam que estão fazendo? O homem da direita abaixou o capuz, colocou o dedo do meio em riste e com cara de cavalo ergueu-o várias vezes para Silas. Continuaram filmando. Silas se esticou no parapeito para olhar os andares de cima, a ver se algum apartamento estava pegando fogo, ou mesmo se alguém não estaria prestes a pular. Os suicídios no condomínio, por mais que evitassem falar a respeito disso, eram incomodamente corriqueiros. Uma pomba modorrenta pousou na estátua do fundador e sem demonstrar qualquer constrangimento fizera as chamadas necessidades fisiológicas no ombro do grande boneco de bronze. A pomba fugiu depressa assim que ouviu os três tiros de espingarda.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de junho de 2021


Crimes menores (VI)

Diante de absurdos,
dores intraduzíveis,
aprendemos a
ficar calados.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de junho de 2021


Com o tempo, o barulho da fábrica se transforma num ruído branco e os moradores do condomínio conseguem dormir sem grandes aborrecimentos

O que Silas acha ou deixa de achar, o que ele pensa — mesmo que da forma mais discreta, sutil —, em suma: o que Silas tem a dizer sobre as regras do jogo, um jogo do qual ele decidira não participar (pelo menos não diretamente), em que os competidores documentam a si mesmos, cada passo dado, cada pedacinho de torta mastigada, o pôr-do-sol-mais-laranja, imagens com filtro sépia à guisa de maior dramaticidade. Três dias sem escrever, ele pensa, 72 horas sem tocar no papel etc., três dias que deveriam ter dado fôlego a Silas, um novo ânimo, mas o que se vê, ou melhor, o que se sente é uma profunda inquietação, uma espécie de deslocamento, como se alguma borracha gigantesca o apagasse aos poucos. Podaram a árvore que estava a obstruir a fachada do prédio. Os participantes do jogo, portanto, como diretores de filmes particulares, sempre a segurar uma câmera miúda, que cabe dentro do bolso, constantemente conectada à internet. Inclusive, uma das regras mais importantes é o estar-se acessível a tempo inteiro. Quando um participante não está apontando a câmera para este ou àquele lugar, ele deixa o aparelho muito perto de si, mesmo que seja o casamento do melhor amigo, ou o enterro da vovó Miranda, ou se alguma pessoa está a conversar com o participante num, digamos, jantar, a pessoa tenta manter contato visual com o participante, sem sucesso, pois o participante manuseia despudoradamente o próprio device em busca de estímulos mais gratificadores do que um jantar com outro ser humano. Cada participante é, como estávamos a dizer, um diretor de microfilmes particulares, cada um a achar que está a produzir o melhor microfilme, que interpreta o papel do melhor protagonista. Um microfilme mudo, para todos os efeitos, nenhum participante a prestar muita atenção no microfilme do outro — a não ser que seja conveniente, a não ser que exista algum interesse (implícito e/ou explícito). Interação parasitária. E, como era de se esperar, reflete Silas à janela com vista desobstruída, como era de se esperar, aquele que decide não fazer parte do jogo, não seguir as regras, não carregar consigo uma câmera de registros contínuos acaba por se meter numa quixotesca busca por realidade, qualquer que seja, uma simples, e crua, e espontânea realidade. Difícil encontrar o real, diz Silas enquanto diminui o volume da televisão, quando tudo ao redor não passa de re-construções manipuladas, uma cacofonia de idioletos. Silas a viver numa ilha, uma ilha vertical de quinze andares, com varandas voltadas para uma montadora de automóveis.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de junho de 2021


A fumaça alongada da aeronave confunde-se com as nuvens numa manhã de céu azul

Aconteceram coisas: foram morar juntos, fizeram planos, acumularam lentas feridas, e, depois, como se tudo tivesse sido apenas uma farsa, nunca mais se viram. O de sempre. Televisão ligada à meia-altura. Silas segura a chávena de café perto da janela aberta. É a quinta aeronave que passa em menos de dois minutos. Se calhar, alteraram a rota dos voos, ele pensa, bebe um bocadinho do café. Aterragens, descolagens, sumir ao horizonte — os jatos e as pessoas operam de maneiras mais parecidas do que imaginamos. A cama desarrumada atrás de Silas, antigamente ele se importaria. Agora não faz sentido se importar. É só uma cama, com cobertores, travesseiros. Parece a cena de um crime. O barulho das turbinas a competir com a fuselagem do avião, corrida entre som e luz, efeito Doppler. No noticiário, repórter comenta sobre o fechamento de outro shopping mall nos Estados Unidos. Silas tateia em busca dos óculos. A repórter tem os cabelos amarelos. Uma crise sem precedentes, diz a repórter. J. G. Ballard escrevia que os shoppings eram a meca da modernidade. Também falara sobre hotéis abandonados, piscinas vazias, estacionamentos gigantescos, acidentes automobilísticos, corpos mutilados, sem propósitos. Ballard não viveu para contemplar as ruínas das igrejas do consumo, que estão a ser substituídas pelas megalojas virtuais, vitrines eletrônicas a um clique de distância. Silas tira os óculos, pressiona os olhos com o indicador e o polegar da mão direita. 

Publicado por P. R. Cunha / 11 de junho de 2021


Crimes menores (V)

Produtos
feitos de imagens
— fragmentos
e o tempo,
sem exceção,
desbota-nos todos. 

Publicado por P. R. Cunha / 10 de junho de 2021


Crimes menores (IV)

Um simples encontro ao café
nunca será somente um
simples encontro ao café
se observarmos com a devida atenção.
Eis aqui quatro figuras
estáticas, unidimensionais.
O cinzeiro Ricard mostra-se
repleto de guimbas,
a dizer que, no momento da fotografia,
a conversa já havia se adiantado.
As poças de licor sobre a mesa,
os copos preenchidos recentemente,
uma conversa calorosa, sem dúvida,
a garrafa que vai para o último terço,
os olhos baixos e assustados
dos dois rapazes ao meio,
a figura filosófica da moça
em primeiro plano.
O homem à direita, de óculos,
é Guy Debord.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de junho de 2021


Crimes menores (III)

Ele diz: sai depressa do meu coração!

Ela diz: eu não…

Publicado por P. R. Cunha / 8 de junho de 2021


Crimes menores (II)

A mulher com luneta
no alto do farol desativado
aponta para o barco.

Um fantasma
que se afasta.

Talvez não passasse de um sonho.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de junho de 2021


Crimes menores (I)

No parquinho das crianças —
sapo verde.

Apesar de não se mexer,
o sapo parece feliz.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de junho de 2021


Crimes menores (introdução)

Algumas palavras geram
ideias que nos levam
sempre mais longe
do que esperamos —
nenhum escritor
consegue permanecer
estático por muito tempo
ou escreve
ou desaparece aos poucos
de forma que
a cada projeto finalizado
não demora muito e
lá está ele novamente
a começar algo novo
a meter-se em
como se diz
novas empreitadas.

Solitude:
condição necessária
para as fazendas criativas
mesmo que seja solitude
interna um isolamento
de dentro para fora.

Sozinho rodeado de pessoas.

Escrever & descrever &
reescrever o caráter efêmero
da vida
e não só.

Crimes menores.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de junho de 2021


schopenhauer por um sonho (parte final)

terminemos este schopenhauer por um sonho com mais uma metáfora aquática pois como um judicioso antigo certa vez dissera só é boa aventura aquela em que nos abandonamos completamente sem a necessidade de formar vínculos nem de competir com os outros imaginemos portanto um homem ele escutou o barulho da campainha e pulou da cama alguém está na porta ele sussurrou para si mesmo e com olhos esbugalhados entreabriu as cortinas para ver quem estava lá fora o homem então fugiu pelas traseiras da casa e chegou às docas e você está sentado na balaustrada do cais lendo ricardo piglia enquanto observa o homem de pijamas correndo decididamente para a oceano havia barulho o rosto do homem se tornou turvo como quem teme se arrepender mas não era mesmo preciso tornar as coisas tão complicadas o homem saltou no mar e algumas bolhas vieram à superfície

Publicado por P. R. Cunha / 4 de junho de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima oitava)

à medida que você envelhece você nota um padrão uma tendência se assim se pode dizer você percebe que os mortos são desprezados muito rapidamente numa manhã ao cemitério familiares & amigos choram sobre o caixão fazem discursos sentimentais cantam homílias para dali a algumas semanas já nada se falar a respeito do defunto tudo volta ao normal como se o morto não tivesse existido será um teatro você se pergunta uma encenação uma convenção social e por que esquecemos os mortos tão depressa você também se pergunta talvez porque os mortos não sejam mais parte da engrenagem não trocam não movimentam a economia não cooperam não influenciam não acrescentam em suma não deixam marcas são como aqueles retratos que costumamos guardar no baú e que se desmantelam com as intempéries com o passar dos anos fotografias negligenciadas os mortos e o que fica é esta consciência de que ao fim e ao cabo somos todos esquecíveis numa altura achamos que somos imprescindíveis essenciais para logo depois nos depararmos com a indiferença com o menosprezo nunca fomos realmente imprescindíveis nunca fomos realmente essenciais e você se apercebeu disso depois de comparecer a incontáveis enterros a mesma ladainha de sempre as mesmas lágrimas a mesma indiferença e aqui não deixa de ser sintomática a constatação de que cada vez mais tratamos os vivos da forma como tratamos os mortos isto é abandonamos os vivos como abandonamos os mortos e não raro tratamos melhor as máquinas tecnológicas do que os próprios humanos basta analisar o que acontece quando alguém esquece o telemóvel em casa e a vida desse alguém como que perde o sentido e esse alguém quer voltar ou melhor precisa de voltar para casa antes que tenha um colapso nervoso ou quando vamos almoçar com alguém e esse alguém tira o telemóvel do bolso e nos sentimos sozinhos inúteis como se o alguém estivesse em outra dimensão e não é nenhuma coincidência que estejamos a falar das máquinas com termos cada vez mais humanizados como quando o computador não quer ligar e dizem que ele morreu os automóveis também se cansam e precisam de cuidados de um check-up ou quando levam os aparelhos ao hospital dos celulares porque o telemóvel está doente necessita de remédios precisa de ser ressuscitado caiu e se machucou pode até soar cômico mas é o que vemos acontecer por aí todos os dias e certamente você acha melhor enfrentar esses factos por mais perturbadores que sejam do que viver num estado de negação

Publicado por P. R. Cunha / 3 de junho de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima sétima)

o filósofo não deixa de ser também uma espécie de mergulhador um freediver então suponhamos que você esteja mesmo a bordo do navio e para ilustrar as suas ponderações você se joga ao mar sente o brando abraço inicial das ondas percebe o próprio corpo descer sem notar ainda o que essa queda significa visto que este mergulho como o mergulho filosófico que você costuma praticar este mergulho aquático lhe proporciona igualmente descobertas fascinantes ao mesmo tempo que lhe empurra para baixo o mergulho filosófico e o mergulho aquático portanto são formas perigosas de se comportar você pensa a respeito enquanto avança ao escuro abismal e toma consciência das ameaças e apesar do desassossego você se permite ir cada vez mais ao fundo sem nenhum localizador nenhum ponto de referência nenhuma corda para segurar e a sua cabeça se dilata tal e qual acontece quando você mergulha nas ruminações existenciais e seus pulmões se contorcem com a pressão claros indicadores dos riscos que esses mergulhos oferecem levando-no aos limites da sua resistência e agora uma modesta diferença de profundidade bastaria para marcar a separação irremediável entre vida & morte ao passo que você solta bolhas pelo nariz sacode os braços para manter o equilíbrio impulsiona violentamente o corpo para cima e retorna ao navio ofegante pensa que subir à superfície é tão arriscado quanto descer às profundezas pois cá em cima as coisas podem ser tão capciosas quanto lá no fundo pois uma simples confraternização ou um almoço em família um encontro de amigos são sempre ocasiões em que você não se faz entender completamente em que você joga para o alto toda aquela construção pessoal/artificial que desenvolvera no conforto da sua solidão todo o mito que montara para si mesmo e ao sair você perde o controle como já lhe falei diversas vezes mas você é teimoso você não me escuta você perde a autonomia fica à mercê da interpretação de cada um através da lente de cada um do contexto de cada um dos preconceitos de cada um e a imagem que você transmite não é bem aquela que você gostava de transmitir é antes uma simulação um produto do que as outras pessoas esperam ver em si e você não pode com esse caleidoscópio e a vontade que você tem é de voltar correndo ao esconderijo já falamos sobre isso também antes que cometa alguma bobagem você sabe que tem pavio curto que não é como aqueles sujeitos ponderados que conseguem manter a compostura você é uma granada prestes a explodir você leu schopenhauer de mais você leu nietzsche de mais você leu cioran de mais e teme aquele derradeiro limiar quando o filósofo cambaleia pela calçada abraça o cavalo que está sendo chicoteado pelo cocheiro chora abraçado ao cavalo diz para consigo coitadinho do cavalo pobre cavalinho um evento que marca enfim a transposição de fronteiras o filósofo que antes era tido apenas como um excêntrico ruminante agora será perseguido como um louco

Publicado por P. R. Cunha / 2 de junho de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima sexta)

a maior prova da confiabilidade de um navio é o modo como ele suporta águas irascíveis e da mesma maneira ao que parece só confiamos realmente em determinadas relações depois que ela sobrevive às tempestades esse é um pensamento interessante você diz para consigo e uma simples inspeção nos arquivos das suas travessias bem-sucedidas ou fracassadas algo minimamente consciente seria o bastante para você perceber que o universo jamais conspirara contra ou a seu favor que a bem da verdade o universo nunca lhe deu a mínima conquistas e derrotas marcadas apenas pelo cajado indiferente da aleatoriedade tudo não passara de meras circunstâncias de pura sorte e/ou azar e a partir do momento em que você acertara as contas com essas conjunturas em que você se rendera ao vai-e-vem imprevisível da sua embarcação você renunciara também às ambições à competitividade desacerbada à velocidade aos holofotes você se retirara ao porão do navio e foi quando até as pequenas coisas os pequenos detalhes ganharam características gigantescas e lhe proporcionam imenso regojizo este não exigir nada de ninguém nenhuma expectativa nenhuma decepção apenas uma liberdade um alívio dir-se-ia de estar deitado no assoalho náutico ser mais um observador do que um agente ser um substantivo e não um verbo uma elipse neutra extraindo detalhes das miudezas habitualmente esquecidas e você se pergunta se isso não é a própria felicidade então o que seria

Publicado por P. R. Cunha / 31 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima quinta)

há alguns assuntos ou melhor algumas pendências com as quais você ainda não se resolveu completamente se é que estas coisas podem ser resolvidas completamente ou apenas mitigadas abrandadas como à guisa de exemplo a morte do seu pai você está longe de se resolver com a morte do seu pai a despeito da quantidade absurda de vezes em que você tentara e se esforçara e se esgotara para falar-escrever-gritar-desabafar a respeito disso do acidente da ausência do vazio impenetrável da vertigem dos pesadelos das negações das justificativas toscas & artificiais que você tivera de inventar para seguir em frente dos inúmeros mecanismos de defesa alguns mais eficientes outros menos eficientes não à toa você passara a transmitir uma figura retraída de animal silvestre em constante ameaça e já que estamos a tratar sobre estes temas você também não se resolvera com as decepções amorosas está tudo interligado uma complexa rede de pequenas e grandes tragédias acumuladas seus relacionamentos falhados a extensa trilha de abandonos o receio quero dizer a certeza sim a certeza de que cedo ou tarde tudo se repetirá as mesmas cenas os mesmos enredos os mesmos pores-do-sol carregados de melancolia e tédio porque essa parece ser a ordem dos fatores o curto-circuito de equívocos de promessas quebradas vãs tentativas de se desculpar um labirinto de ruas sem saída isso eis a síntese da sua existência um labirinto que ao mesmo tempo não para de se expandir e até você o suposto criador do labirinto se perde dentro dele

Publicado por P. R. Cunha / 30 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima quarta)

costuma acontecer depois de um prolongado período de isolamento quando você passa imenso tempo inserido na sua obra dentro do espaço geográfico do livro um universo à parte sempre essa imagem de um lugar em construção alheado de tudo-e-de-todos com limites e regras que você estabeleceu com leis & consequências próprias você se acostuma a essas previsibilidades com o poder de decisão sabe que se determinadas personagens fizerem x ou y algo f ou j acontecerá você está no controle confortavelmente no controle até que algum imprevisto lhe puxa de volta à realidade humana e você como que acorda de um sono profundo já falamos inúmeras vezes sobre essa sensação você desperta e de súbito precisa de lidar com alguma complexidade que não lhe diz respeito e seu cérebro acostumado a ditar as regras tenta agir da mesma maneira mas lá fora é outra coisa outra dinâmica outros protagonistas você não tem autonomia nenhuma você também é apenas mais um mero passageiro deslocado um equilibrista sem rede de proteção um corpo em queda e você é invadido por aquele desespero a mesma necessidade de retornar ao seu reino do faz de conta você ainda é uma criança apesar das suas possibilidades intelectuais sim você ainda é apenas uma criança impotente cobarde assustada desiludida instável encerrada numa cápsula e enquanto tenta reabrir os portões do castelo diz para consigo que podem até tirar o escritor da literatura mas não podem tirar a literatura do escritor

Publicado por P. R. Cunha / 29 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima terceira)

o plano desde o início era adotar a equação literária sugerida por raymond carver ou seja 1/4 de autobiografia + 3/4 de invenções = schopenhauer por um sonho porque você é um sujeito que preza pela discrição tem horror de ser fotografado evita o escrutínio público já não tem lá muitas ambições a não ser este fraquinho por sossego por uma vida pacata longe do ruído humano um esconderijo sereno eis o que você gostaria vida sem complexidades partida de xadrez perto do córrego enquanto responde à pergunta quem sou eu despretensiosamente sem preocupações teóricas sem exigências acadêmicas autobiografia ficcional é o que você está tentando explicar com essa fórmula raymond carver pois um automóvel para ser econômico é preciso de ser guiado com certas habilidades não se pode pisar fundo no pedal do acelerador para não gastar todo o gasóleo é contraintuitivo conduzir dessa maneira de forma que você não espera mais nada do mundo não alimenta para si esperanças artificiais narrativas consoladoras de pertencimento você não é especial você não tem direito a nada o mundo não lhe deve nada esta é que é a verdade uma verdade com a qual você já se acostumara ou diz que já se acostumou porque você percebe também que criara para si uma série de antídotos contra as arbitrariedades uma série de analgésicos a que você chama de trabalho literário você escreve para esquecer-se como disseram para isolar-se ter o seu refúgio repito um bunker homem do subterrâneo e há aqueles dias em que você não dá conta não consegue escrever precisamos falar sobre isso sobre você travar sobre a sua paralisia tornando-se aos poucos refém ou náufrago chame-o como preferir dias em que você simplesmente toma uma aguda consciência do facto de que numa altura você não conseguirá mais escrever não contará mais com esta válvula de escape a única anestesia que faz com que você continue para diante que o coloca num estupor aprazível mesmo sabendo que ao longe o farol do fracasso do medo de estagnar-se completamente continua iluminando a sua embarcação à deriva cujo único tripulante agita-se até à costa onde as ondas irascíveis batem com força contra a falésia um muro de pedras de raiva e acima de tudo muro de cansaço você pensa em parar de escrever antes que as circunstâncias o obriguem a parar de escrever um exercício de antecipação portanto antes que alguém tente trancá-lo numa instituição psiquiátrica rotulando-lhe de louco neurótico péssima influência com esses discursos fatalistas sobre o sofrimento ser o padrão sobre o sofrimento durar mais que os prazeres que tudo é insuportável essas ruminações cinzas então você pensa mesmo em parar de escrever como se esse derradeiro sacrifício estivesse ali o tempo todo à espreita uma ideia corroendo o seu cérebro como um parasita às custas da sua sanidade onde já se viu um disparate desses um parasita invisível que altera os seus modos o seu humor a forma como você se enxerga ou como a sua identidade se manifesta para as outras pessoas e de repente você não sabe mais ao certo quem é no que você se tornou um estranho para si próprio quero dizer em constante mutação a viver num ofício de ilusões num planeta paralelo em que a realidade é distorcida sem verdades absolutas um arquipélago fantástico cuja língua oficial é o seu idioleto incompreensível a imagem que me vem à cabeça é você perdido numa ilhota desse arquipélago olhando para o nada um alucinado sob o efeito de algum entorpecente psicodélico e a única forma de lidar com esse destino inevitável é paradoxalmente continuar escrevendo faça chuva ou faça sol como se diz tornar-se personagem inseparável daquilo que se escreve imergir agarrar essa única boia de salvação porque quando você não escreve você se transforma numa semi-pessoa ausente protótipo de humano poderiam mesmo pensar que estivesse morto a julgar pela sua aparência pálida um icebergue humanoide ao passo que você contra todas as probabilidades apenas acorda abre a janela inclina-se sobre a mesa e escreve sentindo um fugaz regojizo por ainda conseguir fazer a caneta dançar

Publicado por P. R. Cunha / 28 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima segunda)

entardeceres perpétuos lua gigante a idêntica neutralidade do abismo um combate de esgrima disperso sem arquitetura você se questiona quais seriam os limites de um sistema aberto de um sistema que permite toda a sorte de substituições como papel estojo controle do ar condicionado chávena pequeno globo terrestre com oceanos negros relógio analógico vermelho ponteiros luminosos livros sobre astronomia ferramentas diversas pedaços de pedras de dois vulcões chilenos tênis para praticar o running ventilador de chão relógio de pulso da marca casio f-91w abajur adaptadores de tomada fitas k7 com sinfonias de john cage coletânea de entrevistas da paris review em quatro volumes cadernetas moleskine uma nota avulsa de 100 dinheiros você sabe que a coerência ou pelo menos algo que se aproxima de certa coerência vem do facto de você sempre falar sobre as mesmas coisas então de início alguém pode se sentir perdido com as vertigens como se no meio de um labirinto sem saída até que esse mesmo alguém começa a perceber um padrão e esse padrão é justamente o repetir-se o tratar dos mesmos assuntos e numa tarde de terça-feira depois do chá depois do pão com manteiga você sai e vê a sua esposa com um outro cara num café com decoração francesa ao que toda a gente coça a têmpora franze as sobrancelhas e se pergunta por mil demônios e agora em que sítio isto vai dar

Publicado por P. R. Cunha / 27 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima primeira)

nestas práticas de recordações você se reinventa à medida que o texto se desenrola porque necessário registrar tudo na cabeça inclusive o rasto trágico que temos de seguir quando recebemos a notícia do suicídio de alguém que durante anos lutou contra a verve a sombra da aniquilação contra uma vontade intrínseca para o desaparecimento homens e mulheres que um dia acordam um pouco mais indispostos do que o comum e levantam-se da cama sem qualquer tolerância e aqui talvez fosse o caso de lembrarmos o que albert camus dissera a respeito do suicídio este único assunto filosófico que realmente importa e camus escrevera que o culpado talvez fosse um amigo que o tratara com algum azedume ou palavras ríspidas de certo familiar em suma gatilhos emocionais insiste camus a gota que faltava para inundar o lago de dores do sujeito que sofre o ingrediente que sana a dúvida do ruminante que volta para casa desolado e decide finalmente matar-se mas esses seriam os agentes externos a influenciar uma decisão interna um ato que se calhar andava em banho-maria há umas duas/três décadas e quando você pensa nesse conjunto de influências nesses repito gatilhos vem logo à sua cabeça o suicídio de mark fisher que enquanto duelava com o anjo melancólico da depressão escrevia extensamente sobre o mal-estar contemporâneo sobre a indústria de consumo em que se faz necessário caso queiramos manter a nossa sanidade criar/construir/fabricar sentidos além do mero ir-se ao shopping mall comprar utensílios dos quais não precisamos fisher que percebera em primeira pessoa como se diz que sentira na pele os efeitos colaterais de uma sociedade indiferente confessa que falhara que não conseguira criar/construir/fabricar sentidos num contexto cada vez menos propenso ao engajamento num contexto descartável como já se falou aqui até que numa altura cansado de ser o pugilista que está sempre na lona cansado dos golpes e das rasteiras da vida até que numa altura um irreversível sentimento de indiferença invade os pensamentos de fisher para quem respirar ou não-respirar tornaram-se meros detalhes que dariam no mesmo precipício na mesma lata de lixo dentro da qual tudo se despeja inclusive almas humanas

Publicado por P. R. Cunha / 26 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte décima)

pelo conjunto da obra os melhores escritores que já pisaram na terra são thomas bernhard e w. g. sebald essa é a sua opinião e no quesito obra exemplar livro para se ter numa ilha deserta estaria na mochila il mestiere di vivere do pavese ou la speculazione edilizia do calvino dois italianos que como já se disse noutras ocasiões influenciam diretamente estes devaneios a que você chama de schopenhauer por um sonho uma empreitada só sua um segredo sobre o qual não comentou com ninguém inclusive faz pouco tempo que a ideia de escrever de começar estes monólogos egotistas se configurara como uma necessidade urgente ao ponto de você se ver enfermo perder a cabeça se não conseguir dar continuidade ao projeto criando para si esta estrutura paralela com leis estabelecidas diante das quais você se sente cada vez mais confortável principalmente quando se dá conta de que a realidade lá fora é bem mais complicada & perversa & hostil & incompreensível do que você supunha que fosse um mundo faminto e por mais que você tentasse compreender essa realidade exterior por mais que você tentasse aceitar e participar desse enorme circo social você jamais conseguiria pois o seu modo de estar no mundo é justamente o não-estar-no-mundo recolher-se a uma distância segura do picadeiro onde você filosofa com indiferença onde você reforça esta pessoa-alheada que desenvolvera no decorrer dos anos uma máscara que você não pode mais substituir sem correr o risco de perder a própria personalidade por mais artificial que essa máscara se mostre somos construções dentro de construções mascarados dentro de mascarados lembramos portanto aquelas bonecas russas caixa dentro de caixa dentro de outra caixa um bocadinho menor até ao ponto da indivisibilidade e acreditamos que talvez esteja aí na última bonequinha russa a nossa essência o ponto derradeiro em que estão guardados os elementos que nos definem os elementos que explicam o nosso ser e qual não é a sua supresa ou melhor o seu desapontamento a sua angústia quando você se dá conta de que a última bonequinha russa está completamente vazia oca por dentro

Publicado por P. R. Cunha / 25 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte nona)

não importa quantas dores você eventualmente cure seja através da escrita ou de uma tarde soalheira ao jardim com um céu azul e o ruído sereno do aquecedor da piscina cujas hélices levantam as folhas secas das árvores em redor folhas que flutuam e caem brandamente na grama não importa como estava eu a dizer não importa o tanto que você se estimule o tanto que você consiga amenizar os incômodos a verdade é que mesmo assim há sempre uma ferida aberta um buraco que não cicatriza e você tem de aprender a aceitar essas ruínas fatigantes como dissera cesare pavese que nada será do jeito que você gostaria que fosse sempre uma decepção um constante embate com essas inquietações a estudar processos mais eficientes de pôr termo a elas e a total impotência a angústia de não conseguir localizar a origem dessas dores não são por exemplo como um desconforto nas costas e você sabe que são as costas que doem sabe como se mobilizar comprar remédio ir ao consultório do ortopedista sabe como tratar das costas mas essas outras dores são de outra natureza uma dor sem origem sem vestígio sem motivo sem lugar geográfico então você meio que se rende você deita na poltrona cinza que fica no canto do seu quarto poltrona tão confortável como uma poltrona pode ser poltrona reclinável excelente acabamento e uma culpa persistente invade-lhe os pensamentos uma culpa inicialmente branda que se acentua à medida que você tenta relaxar na poltrona reclinável uma culpa que insiste em martelar a sua cabeça e você vira para olhar os livros da sua biblioteca livros finalizados outros folheados outros que serão consumidos no devido momento e aqueles que jamais serão lidos porque simplesmente não dá tempo não há tempo para lê-los todos a vida humana passa num átimo como se diz a vida humana tem um número limitado de horas e junte-se a isso as suas inclinações procrastinadoras o facto de você não estar sempre com disposição para a leitura aliás há épocas em que você sequer consegue ouvir/pronunciar a palavra literatura sem que uma espécie de ânsia de vômito embrulhe o seu estômago meses e meses sem pegar num livro meses e meses sem ler nada você rumina a respeito disso deitado na poltrona cinza do seu quarto reflete sobre o facto de nunca ter tido um ofício nunca ter trabalhado verdadeiramente reflete se teria sido um bom jornalista caso não tivesse abandonado tudo para ser escritor de ficção caso não tivesse apostado todas as fichas na literatura e numa vida sem responsabilidades porque é esta a vida que você tem uma vida sem responsabilidades nunca é de mais repetir a sua necessidade de evitar responsabilidades comprometimentos um chefe um emprego fixo na firma a carga horária o almoço com os colegas de firma nada disso passava/passa pela sua cabeça e você teria mesmo preferido a morte sim ter-se-ia suicidado para não lidar com chefes empregos fixos cargas horárias almoços com colegas de firma incapaz de lidar com coisas práticas você optara por outro tipo de vida você também cultivou o hábito de existir sem desenvolvimentos sem princípios sem ideologias sem partidos e aprendera com pavese de novo pavese sempre pavese aprendera que o único modo de fugir ao abismo é encará-lo medi-lo sondá-lo aceitá-lo e finalmente pular nele

Publicado por P. R. Cunha / 24 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte oitava)

aquilo que você escuta enquanto escreve influencia o seu estilo isto é certinho como se a canção fosse uma espécie de presságio trilha sonora para um filme por vir o substantivo anemoia segundo o dicionário das lamentações obscuras significa nostalgia por um tempo que você nunca conheceu uma tentativa de resgatar momentos que você nunca viveu nunca experienciou diretamente tal como acontece quando você folheia fotografias antigas da rússia ou assiste aos espetáculos soviéticos ou lê thomas bernhard e gostava de caminhar com bernhard em gmunden naquela áustria que não existe mais ou nostalgia de pessoas da sua juventude pessoas que numa época conviviam consigo diariamente e depois sumiram e nem adianta ir atrás delas porque jamais será a mesma coisa produtos descartáveis seres humanos descartáveis não é mera coincidência ou ao escutar o vaporwave com montagens tipo liminal spaces você ingere calorias o corpo absorve quebra distribui gera energia você se sente momentaneamente disposto deseja criar construir deseja ir atrás da sua dose diária de schopenhauer por um sonho este vício em forma de devaneio que lhe atormenta no bom sentido da palavra que invade o seu sono sem pedir licença e você se mexe na cama para lá & para cá coloca o travesseiro entre os joelhos e começa a refletir sobre os azedumes que escreverá no dia seguinte e não se incomoda em soar repetitivo muito pelo contrário você segue com o plano com as suas convicções como aqueles escritores que sempre tratam dos mesmos assuntos contemplação inquieta dos mesmos temas e você sente um prazer indizível ao navegar nessas águas tumultuosas

Publicado por P. R. Cunha / 21 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte sétima)

você começa a perceber que há um ciclo estabelecido circuito previsível como se fossem estações do ano um microcosmo de angústia euforia tristeza entusiasmo fase maníaca fase depressiva apatia isolamento fala compulsiva agitação ideias descoordenadas delírios & alucinações microcosmo que costuma se apresentar no decorrer de um único dia ritmos e frequências em que tudo se repete numa manhã você se mostra produtivo noutra manhã você reluta em sair da cama e a esta altura deveria estar mais do que claro que a sua própria finitude isto é que num determinado momento você também desaparecerá para sempre deveria estar mais do que claro que a ansiedade gerada por essa finitude mais do que claro que essas inquietações existenciais se quisermos nos manter na linha heidegger de pensamento que esses pormenores são temas centrais dos seus monólogos e você tem as certezas de que não os escreveria aliás não escreveria coisa alguma se não tivesse que lidar justamente com essa possibilidade de morte que se você não fosse esse sujeito múltiplo neurótico transtornado problematizador você nem sequer anotaria uma única palavra não falaria daqueles que mergulham em personagens para não lidar com o próprio fim com o fim das coisas não falaria dos alienados como se costuma dizer alienados que fecham os olhos literal e figurativamente diante da devastadora realidade ou seja que um dia todos nós vamos morrer e que cedo ou tarde teremos de lidar com a perda de alguém que amamos e nós ficaremos aqui num sofrimento infinito com saudades sem consolo tentando em suma compreender que diabos é isto a que chamam de existência-vida-jornada uma mera coleção de memórias algumas aprazíveis memórias reconfortantes sem dúvida mas a grande maioria digamos por baixo de 80% a 92,6% das memórias são absolutamente devastadoras aniquiladoras e provocam os sentimentos mais cruéis dores confusão memórias megeras peculiares e absurdas com trejeitos de pesadelo memórias que não fornecem nenhuma resposta nenhuma pista e você continua perdido e você observa a caneta azul movendo-se a escrever este texto a criar schopenhauer por um sonho refém de um fluxo incontrolável de cenas e ruminações desconexas imagens distorcidas que apagam o mundo em redor agora é você a caneta o caderno pautado mais nada a cidade lá fora é como se não existisse você chega mesmo a abrir as cortinas para ver se o exterior ainda está lá é como se você estivesse num sonho ruim e você se torna mais um observador um voyeur do que um participante propriamente dito é a caneta que faz o trabalho sujo você diz para si mesmo e a pessoa a ler isto podemos chamá-la de leitora então a leitora observa a sua intimidade os seus traumas os medos um amontoado de emoções que são despejadas no papel emoções não processadas leitora percebe um discurso contraditório sem cabimento sem linearidade e você poderia se defender dizendo que a culpa é da caneta uma defesa não só tosca infantil como desnecessária o que no entanto não deixa de transmitir um sentido desolado de inutilidade de tentativas fracassadas de se fazer entender ao menos um bocadinho que seja

Publicado por P. R. Cunha / 20 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte sexta)

a partir do momento em que você declara que está neste mundo a despeito de todos os absurdos que assolam que por vezes tornam a nossa existência uma espécie de charuto intragável a partir do momento em que você se dá conta de que está aqui mesmo sem ter pedido para estar aqui você passa a se dedicar com certo afinco à tarefa de descrever as várias formas de interagir com este mundo você aprende muitas coisas e também palavras novas passa imenso tempo debruçado sobre livros montaigne benjamin adorno stendhal adquire portanto as ferramentas adequadas para justamente explicar este mundo incompreensível para exorcizar o que está sentindo dentro de si utilizando as possibilidades da linguagem pois é desta maneira que descrevemos as nossas experiências digo através das limitações da linguagem porque a verdade é que não escolhemos os nossos pais nem a casa onde passamos a nossa mocidade em última instância nem sequer escolhemos o nosso nome essa nomenclatura que nos define para o resto da vida nós nascemos numa época particular digamos em 1985 pré-colapso-da-união-soviética pouco antes da queda do muro de berlim nós nascemos com determinadas estruturas genéticas e são cargas que precisamos de carregar uma responsabilidade que você não pediu para si você foi jogado/projetado/expelido em um mundo arbitrário um constante lançar de dados de aleatoriedades são factos inescapáveis o seu nascimento o seu parentesco movendo-se para um futuro incerto criando-se ou melhor inventando-se no decorrer do caminho um caminho sempre para frente uma criatura em contínua gestação um eterno adolescente a perseguir uma maturidade inalcançável um contínuo exame de (in)consciência enquanto sofremos as angústias da solidão como se diz e da incapacidade de estabelecer relacionamentos amorosos e/ou não amorosos uma eterna criança brincando de ser escritor e que não para de se questionar qual o propósito desta vida o significado dela você basicamente nasce e quando começamos a nos acostumar com a bagunça com o desespero com o caos com aquilo que nos tornamos de aí que tudo cessa novamente voltamos ao sítio escuro em que estávamos antes da farsa começar

Publicado por P. R. Cunha / 19 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte quinta)

os existencialistas ensinaram que o absurdo começa com a pergunta por quê de forma que você sai da natação e uma pessoa fala no telemóvel a pessoa está relativamente distante você não consegue escutar o que ela diz apenas observa os gestos exagerados da pessoa a expressão dos olhos dela o andar compenetrado e de repente você odeia essa pessoa não só pelo facto de não conseguir compreendê-la mas por ela e o telemóvel dela e os gestos dela e o caminhar dela a preocupação desacerbada dela por tudo isso representar aquilo que você sempre repreendeu/recriminou nos outros a falta de noção social dessas pessoas que acham que o mundo pertence a elas que acham que o mundo é a sala de estar delas e que podem gesticular gritar perder as estribeiras segurar o telemóvel dizer poucas e boas através do telemóvel e os outros que aceitem essas atitudes indecorosas os outros que precisam de lidar com essa cena estúpida os outros não importam mas acontece que você leu sartre e lá estavam as perguntas por que estou sentado neste banco neste parque por que as minhas mãos têm este aspecto estranho por que são tão macias parecem de borracha e você também leu camus e lá estavam as perguntas por que continuo vivo por que não cometi suicídio por que alguns dão conta por que tantos não dão conta e você mesmo começa a se perguntar se será feliz se é feliz se algum dia já foi feliz sem futuro sem ambições sem objetivos concretos e se chegar a altura em que as ideias simplesmente não aparecem você acorda e não há mais ideia nada sobre o que escrever sem mais schopenhauer por um sonho &tc

Publicado por P. R. Cunha / 18 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte quarta)

toma um longo gole de café preto café forte café sem açúcar como que para entrar numa espécie de zona realidade paralela daydream à moda andrei tarkovsky сталкер enquanto escuta chopin nocturne nº 20 in c-sharp minor versão de mikhail pletnev seguido pelo cortante piano de alena cherny a tocar gnossienne nº 1 composta por erik satie então estas seriam divagações de um escritor à beira da loucura ou ele estaria no caminho certo ou um pouco de cada loucura & caminho certo determinadas perspectivas que só a experiência literária pode trazer uma simples espiada pela janela e vê-se a vizinhança a mudar casas à venda outras abandonadas as pessoas que você conhecia indo-se embora e o seu corpo tornando-se cada vez mais frágil vulnerável quando não são as dores no joelho são as dores nas costas ou no pé ou na pontinha dos dedos do pé alguma parte lhe sara e logo vêm outras doenças e você percebe decaimentos vulnerabilidades perturbações mas não são necessariamente o decaimento nem a vulnerabilidade nem a perturbação é antes um acúmulo de coisas que você via acontecer com os outros à medida que envelheciam e agora essas coisas começam a acontecer consigo antes eram ruínas longínquas agora é você quem está em ruínas você no alto da sua juventude analisava as pessoas que envelheciam algumas até ficavam loucas insanas elas se tornavam cada vez mais isoladas à medida que perdiam os amigos e os familiares que insistiam em morrer numa progressão geométrica e essas pessoas precisavam/precisam de criar casulos artificiais para lidarem com a decomposição com a morte com a solitude com as sombras então de repente você percebe esses sinais em si mesmo você fita as suas mãos e assusta-se com a pele esticada e agora você bem sabe a direção para a qual a sua locomotiva desgovernada está se dirigindo e isso lhe deixa um gosto metálico na boca é como diria um antigo o sabor ferruginoso da ceifa a causar-lhe toda a sorte de enjoos de forma que você descreve para si uma nova identidade sem necessariamente abandonar o seu eu-antigo um mecanismo de defesa sem dúvida um doppelgänger e você declara que o objetivo da escrita não é manifestar nem exaltar nem glorificar o ato de escrever é na verdade uma questão de criar um espaço um esconderijo no qual o sujeito que escreve desaparece completamente

Publicado por P. R. Cunha / 17 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte terceira)

abertura e/ou exposição de uma literatura pretensiosamente denominada experimental definir/estabelecer as bases filosóficas como quem pisa em ovos lembrando que o animal humano nunca sabe ao certo quem ele-ela é constantemente modificando-se um processo hoje um livro lhe agrada muitíssimo uma atividade desportiva um filme ou mesmo uma refeição são coisas que lhe representam para amanhã ou depois de amanhã o mesmo livro lhe parecer odioso a mesma atividade desportiva lhe perturba o mesmo filme entedia e a mesma refeição causa náuseas os seus interesses portanto tomam determinadas formas num dia e outras formas dali a pouco o que só reforça no fim das contas a transitoriedade de tudo e de todos como por exemplo há pessoas otimistas que conseguem enxergar beleza nos mínimos detalhes nas cores de um arco-íris no cantar descompromissado de um pássaro matinal mas você definitivamente não é esse tipo de pessoa você também chegara à conclusão de que de modo geral não se está à procura de felicidade nem de prazeres mas antes quer-se mitigar o sofrimento inerente desta existência absurda e você chegara a essa conclusão muito cedo ao que os seus pais mostraram-se imensamente preocupados com a possibilidade de você nunca conseguir ser feliz ou gozar das alegrias mundanas isolar-se não ver outras gentes escondidinho lá no seu espaço hermético esterilizado muito cedo compreendera que estamos limitados pelas paredes do tempo um tempo que se fecha a cada hora que nos empurrar para a morte e é de se entender a preocupação do papá-&-da-mamã quando escutaram essas palavras de um jovem que há não muito tempo eles (papá-&-mamã) chamavam de o nosso bebezito mas não se pode ser bebezito para sempre você disse para si mesmo e dentro do seu confinamento ruminara cada vez mais e com cada vez mais profundidade sim a cavar cada vez mais fundo a respeito das limitações das suas experiências uma torrente de tragédias e misérias e os breves e solúveis momentos de prazer que você sentira nunca eram tão prazenteiros quanto você havia imaginado/fantasiado a expectativa que via de regra ia por água abaixo jamais suprida sempre frustrada enquanto as dores essas sim chegavam com toda a força pressagiada justificando a sua atitude diante da vida que ganhava sofrimentos complexos à medida que os anos passavam novas dores à medida que se envelhece tragédias após tragédias enquanto o próprio corpo mostra-se suscetível a doenças a lesões e você se deparava com inseguranças e acidentes terríveis suicídios traições pobreza outros tantos incômodos físicos e possivelmente uma perda momentânea de razão perda que só se acentua à medida que todas essas dores/tragédias & incômodos se acumulam então você bebe você gasta fortunas com etílicos com remédios com ansiolíticos tranquilizantes drogas sedativos para esquecer o sofrimento o pesar a mágoa a aflição para não ser consumido pelo apetite das preocupações anestesiando-se como pode antes que a próxima correnteza de desgraça chegue para devastá-lo novamente

Publicado por P. R. Cunha / 14 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte segunda)

agora que você percebeu o padrão crackeou o sistema i.e. fazer-se de artista adotar postura de artista roupa de artista falar/ler/agir como artista ter um aspecto ausente meditativo como se estivesse muito ocupado a pensar na sua própria obra você diz peço imensa desculpa senhorita não lhe dei ouvidos porque estava cá ruminando entretido com os meus pensamentos sou artista e trabalho na minha obra a tempo inteiro e não saberia explicar se isso é uma dádiva ou um fardo outro dia inclusive eu quase fui atropelado por um autocarro por conta disso artista que se cansa e prepara-se para uma monumental inatividade o que naturalmente gera expectativas naqueles que acompanham a carreira do artista pois o público fica a se perguntar o que diabos artista estaria tramando que tipo de criatura ele estaria a desenvolver e se você não é duchamp cage rauschenberg jasper johns roy lichtenstein se você não é sollers merleau-ponty ou robert smithson dalton trevisan escondendo-se de toda a gente cultivando alcunhas disparatadas/curiosas/um-tanto-ou-quanto-jocosas como o vampiro de curitiba &tc. se você ainda quer se dedicar à arte um artista que decidira continuar artista se você pretende levar a sua obra misteriosa às últimas consequências então você meio que espera espera espera até que numa tarde de outono tarde de nuvens e quase chuva algo estranho acontece

Publicado por P. R. Cunha / 13 de maio de 2021


schopenhauer por um sonho (parte primeira)

ao olhar para uma outra pessoa o que se vê é um organismo biológico a se comportar desta ou daquela maneira um aglomerado de moléculas que anda fala come bebe defeca e calha de amiúde esse organismo ser você digamos a olhar-se no espelho depois de uma noite relativamente tranquila a escovar os dentes na casa de banho e é sempre curioso utilizar essas palavras casa-de-banho porque seus pais são do brasil e eles costumam chamar de banheiro mas você insiste em utilizar as palavras que lhe ensinaram na escola portuguesa em trás-os-montes e alto douro e lá os alunos levantavam a mão e pediam professor(a) preciso de ir à casa de banho e professor(a) dizia que tudo bem ao que o aluno(a) levantava-se e ia-se até à casa de banho e não ao banheiro porque banheiro é como se fala no brasil e não em trás-os-montes e alto douro mas não é disso que se trata até porque você percebe que fala esquisito às vezes do modo brasileiro às vezes do modo português e algumas garotas já lhe disseram que isto tem um charme peculiar isto de falar misturado de utilizar termos lusitanos e termos brasileiros mas o que importa agora é que calhou de você estar a escovar os dentes na frente do espelho numa daquelas atitudes à schopenhauer técnica schopenhauer se preferir método schopenhauer focando nas partes amareladas da sua arcada dentária matinal a livrar-se do bafo noturno e repete para si mesmo que tudo vai dar errado sim que as piores coisas irão lhe acontecer durante o resto do dia/tarde/noite schopenhaurismo no mais puro sentido do termo alguma tragédia talvez alguma tragédia irremediável repete o mantra que tudo vai dar para o torto alguém vai lhe fechar no trânsito o elevador estará quebrado a luz vai acabar na firma você vai atrasar o relatório a impressora não vai funcionar e esse tipo de tretas não importa o tanto que você se esforce a iminência do desastre estará sempre ali espreitando suas ações e você encolhe os ombros escova os dentes inclina a cabeça e cabeça para cima e cabeça para baixo escova os dentes e procura fazer os alongamentos adequados pois daqui a um bocadinho tem aula de natação e quando você chega à academia desportiva você precisa de dar ou melhor de gritar o número da matrícula para a moça que fica atrás da bancadinha e a moça digita o número no computador a catraca faz um barulhinho eletrônico como se fosse a trilha-sonora de um telejogo dos anos 1980 e você está liberado para usufruir da estrutura da academia de forma que você se dirige ao vestiário e lá coloca os trajes apropriados os óculos a touca de tecido para não marcar a testa com a pressão da costura como costuma acontecer quando a touca é de e.g. látex ou outro material plástico você separa também os pés de pato e caminha lentamente ao portão de metal com a placa a indicar que você está prestes a entrar no parque aquático da academia mas só pode fazê-lo com a autorização do instrutor de forma que o jeito é se sentar na arquibancada de concreto que a esta hora da manhã está fria como um icebergue e de mãos fincadas no peito tremendo gesto fervoroso dir-se-ia dramático teatral como lhe convém amaldiçoa o instrutor por se atrasar obrigando os alunos pobres alunos pontuais a se sentarem num glaciar de betão e você tenta não pensar tanto no frio observa a aluna da turma anterior cujo instrutor de certeza chegara no horário estipulado e a aluna está ligeiramente acima do peso você pensa e ela utiliza uma indumentária de malha escorregadia um pouco menor do que o tamanho que seria adequado ao peso/tamanho dela e ela não se importa e você passa a nutrir uma admiração cega por ela não se importar gostava de ser como a aluna da turma anterior não ligar para o que os outros pensam e a aluna faz uma flecha com as duas mãos e pula na piscina com graça e postura impecáveis e dá braçadas na água quentinha tão quentinha que você pode notar o vapor a sair da superfície ondulada e tudo o que você queria era estar lá dentro e não com a bunda congelada na geleira de pedra do parque aquático da academia não é mesmo

Publicado por P. R. Cunha / 12 de maio de 2021


Por vezes prefiro lembrar das coisas do meu jeito (não do jeito que elas de facto [?] aconteceram [espetáculo de balé])

A bailarina calça umas sapatilhas apertadas. As sapatilhas são vermelhas e têm um laço meramente ilustrativo. Os dedos da bailarina estão espremidos dentro da sapatilha. Ao se dirigir até ao palco, a bailarina sente dores. Mas quando pisa no tablado de madeira e a intensa luz do holofote faz arder as vistas da bailarina, ela como que flutua. As sapatilhas, então, dançam a bailarina.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de maio de 2021


O pai foi declarado louco no mesmo dia em que o escritor nasceu desde então o pai escondera-se num quartinho no andar de cima o escritor tivera uma infância doente e intimidadora e dedicou-se à literatura a passar por períodos de extrema convulsão uma vida adulta marcada por turbulências gritos de dor do pai casa incendiada pelo pai pactos seitas religiosas obscuras flerte com a morte até que também assolado por doenças mentais o escritor comete suicídio overdose de barbitúricos caindo num sono sem sonho enquanto lia os contos de Raymond Carver

Então, ao que parece, o escritor não precisa de sossego/silêncio/vistas para o mar. Hemmingway escrevia em pé enquanto os tiros de pistolas ecoavam nas calles de Espanha, Orwell descreveu distopias sob o bombardeio da Luftwaffe, Pavese escondeu-se do fascismo e manteve laborioso diário a respeito de uma Itália que nunca mais seria. A urgência, a disciplina, a continuidade: eis do que realmente precisamos. O resto não passa de supérfluo.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de maio de 2021


Comportamentos repetitivos (XXIV)

Ele estava na cama, encostado na parede, com os cotovelos sobre o travesseiro em fronha de seda azul-marinho, enquanto ela tirava as próprias roupas do armário e jogava tudo dentro de uma mala Samsonite grande. Ele observava os movimentos rápidos e decididos dela: abre a gaveta, segura a roupa com força, joga a roupa dentro da mala. Ele ajeitou o travesseiro e disse: o problema de vocês é que vocês são mesmo muito orgulhosas, fingem uma força que não têm, cheias de coragem e determinação, que pretendem se dedicar ao trabalho, sim, construir uma carreira, esse tipo de coisa. Ela pegou a caixa de joias e também jogou na mala. Ele prosseguiu: acham que o trabalho é tudo, horas e horas trabalhando, com a cabeça nas reuniões, nos relatórios, nos objetivos, nas metas anuais, e falam que não têm tempo para mais nada, que são mulheres modernas, e ficam viciadas nesse circuito fechado. Ela foi ao banheiro, juntou os produtos de higiene pessoal, estojo de maquiagem, pente, chinelos, jogou na mala. Ele disse: e essa estratégia funciona durante um tempinho, obviamente que funciona, o emprego na firma, o salário no fim do mês, a autonomia, as horas extras, claro que funciona, mas, de repente, sem aviso, vocês estão sozinhas num quarto de hotel, vocês olham para o lado e não há ninguém, vocês ligam a televisão, a tela azulada ilumina o quarto escuro, ninguém além do corpo estirado na king size do hotel, e vocês começam a sentir um brando desespero, e o desespero cresce aos poucos, e sentem também um gosto amargo na boca. Ela pressionou o pé esquerdo sobre a mala, fechou o zíper. Ele continuou: até que vocês se dão conta de que o trabalho não era tudo, que a carreira nunca foi tudo, que as metas, os desafios, o salário, não serviram para nada, até que vocês se dão conta de que, muito provavelmente, irão morrer sozinhas, sem filhos, sem namorados, sem nenhuma companhia para os anos de velhice, sozinhas. Ela arrastou a mala para a porta do apartamento, saiu e pressionou o botão do elevador.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de maio de 2021


Síndrome de burnout

As condições exigidas pelo século vinte e um o preço que se paga o distanciamento o desapego o não-se-comprometer-com-nada ter cinco seis sete trabalhos em menos de dez anos autopromoção descontinuidade telemóveis apontados para o próprio umbigo as dinâmicas financeiras youtubers milionários a reprodutividade médicos professores filósofos negligenciados o político que venera o desenvolvedor de softwares os copos descartáveis os amores descartáveis as pessoas descartáveis e eu produto de 1985 com a cabeça de 1985 uma contradição ambulante amarrado à eterna transitoriedade do foi/ainda/não/é e eu que só sei escrever e nada mais.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de maio de 2021


Todas essas formas dependem do tipo de coisa que se está a escrever e do tipo de efeito que se pretende produzir

[Ele toma o sorvete muito depressa e experimenta um brain freeze terrível. Faz careta, contorce-se na cadeira da lanchonete, bate a colher na pontinha do pote de porcelana]: taí uma dor com a qual eu me acostumaria. […] Não que meu pai fosse um ser humano ruim [ele continua enquanto leva outro tanto de sorvete à boca], não estou aqui a insinuar que fosse um sujeito ruim, um monstro, porque os pais…, os pais fazem o que podem com as ferramentas que têm na mesa, certo? Apenas chegava em casa cansado, sempre muito cansado, papai, e via-se que só queria ficar em silêncio, não pronunciar mais nenhuma palavra, pois passava o dia inteiro esforçando-se para ser um bom homem, um bom funcionário, passava, portanto, o dia inteiro fingindo ser alguém que não era. E quando chegava em casa, exausto, sim, insisto nisto, completamente esgotado, a máscara caía, e ali estava quem ele era de verdade: um palhaço sem maquiagem, triste, angustiado, nervoso, desiludido, frustrado. [Toma mais sorvete, brain freeze: intensidade branda desta vez.] Até que ele pura e simplesmente decidiu não voltar, o meu pai. […] Saiu para o trabalho como da praxe, deve ter tido um dia muito difícil, e não voltou. Já me disseram que foi parar nas Caraíbas com a amante, e que se casaram, que tiveram dois filhos, mas a veracidade desses rumores, tenho de confessar, me parece um bocado duvidosa, inverossímil.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de maio de 2021


Alívios temporários

Uma pessoa num estado crítico de psicose, ao cimo de uma crise nervosa, sem filtros, sem nada a perder, balbucia palavras avulsas, mas também é capaz de gritar verdades inconvenientes àqueles que estão em redor. Por isso que muitos preferem dopar/sedar o «louco», ou então (quando as sinceridades verbais se tornam estorvos absolutamente insuportáveis) trancam-no numa cela de manicômio — a que o decoro moderno prefere chamar de casa de alívio mental.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de maio de 2021


Teoria geral do esquecimento (terceira parte)

No inverno de 1902, Ignacio P. saiu para comprar batatas e cigarros. Não se demorou: comprara o que tinha de comprar, depois voltou para casa no bairro de San Telmo, Buenos Aires. Ignacio P. era um desses anônimos sem rosto que vemos andar pelas calçadas como que desnorteados. Pessoas que nunca serão lembradas por ninguém — mais gente do que se pode contar sem perder as contas.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de maio de 2021


Fim de semana alhures

O pai leva as duas filhas pequenas para um piquenique no parque. O pai: 46 anos, divorciado, ligeiramente acima do peso, bermuda Adidas tamanho XL, o tênis desportivo a indicar — pelo menos — certa intenção de manter rotinas regulares de atividade física. Ele se ajoelha para ajeitar a toalha, olhando para o céu em busca de sombra. As duas filhas observam o moderado excesso de gordura que se projeta nas laterais do pai (1,73 m, 79 kg). Ele levanta e chacoalha as mãos para se livrar da grama que grudara entre os dedos. As duas filhas sentam sobre a toalha. Uma delas diz que tem um tantinho de fome, a outra está com sede, e o pai se dá conta de que esquecera a lancheira térmica no banco de trás do Ford Fusion, pintura azul-metálica, ano 2018. Algumas jovens praticam o running na pista de atletismo. O pai coloca os óculos escuros, faz pose de disponível. As jovens passam sem dar muita atenção. O pai suspira, pede para as filhas esperarem e sem muita pressa vai buscar a lancheira térmica no banco de trás do automóvel.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de maio de 2021


A realidade é sempre outra

Estou cada vez mais convencido da impossibilidade de se estabelecerem certezas absolutas diante de eventos particulares. Numa avenida movimentada os automóveis passam com imensa pressa. Mas será que realmente passam? Ou quando conversamos com alguém: o quanto da identidade dessa pessoa não seria produto da nossa imaginação?, e quanto da nossa própria personalidade não seria também, em grande medida, fragmentos artificiais daquilo que essa pessoa pensa de nós? Muitas vezes achamos, ou melhor, acreditamos piamente que somos de um jeito X, que agimos de um jeito X, que falamos de um jeito X, até nos depararmos com a opinião alheia, e, de repente, não somos mais X, agora somos Y, agimos de um jeito Y, falamos de um jeito Y. Deixamos de ser a caricatura fácil e despretensiosa que havíamos desenhado para nós mesmos, tornamo-nos difíceis, atormentadores, estranhos. Agachamo-nos para recolher as peças desse quebra-cabeça, sem saber ao certo o que pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de abril de 2021


Relativismos & a descoberta da lentidão

Depois de ler quase duzentas definições de «tempo» (de Einstein a Octavio Paz, de Burdick a Montaigne), cheguei à conclusão-sinopse de que tempo é aquilo que passa rápido quando queremos que demore, e aquilo que demora quando queremos que passe rápido.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de abril de 2021


Bibliotecário como uma espécie de deus

A Biblioteca de Babel é composta de um número indefinido (e talvez infinito, acrescenta Jorge Luis Borges) de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação ao centro, cercado por balaustradas. Uma estrutura colossal. De qualquer hexágono, explica ainda o escritor argentino, podemos ver os andares inferiores e superiores — interminavelmente.

Uma biblioteca que abrigasse todos os livros do mundo, a totalidade do conhecimento humano.

Eu costumava cultivar aquela tenra ingenuidade — em parte demonstrada também pelos irmãos Grimm no século XIX [Kassel, outubro de 1810] — de que, afinal, são as pessoas que morrem e não os livros. Se ao menos cuidássemos bem das brochuras e pudéssemos abrigá-las na utópica biblioteca de Borges.

Mas a verdade é que, a despeito das tentativas digitais de «aglomerar cada átomo do universo», ainda perdemos livros. Editoras que deixam de publicar determinadas obras, o servidor de alguma gigante-hi-tech que depois de pane generalizada perde centenas de textos armazenados, as traças que consomem as páginas despedaçadas de um único exemplar medieval, aquelas senhoras e aqueles senhores que numa altura sentaram-se para expor os próprios sentimentos nas pautas de um diário, cujo paradeiro jamais saberemos…

Parece correto, portanto, o axioma a dizer que os escritores sofrem mesmo duas mortes: a primeira quando deixam de respirar; a segunda, quando não podem mais ser lidos.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de abril de 2021


E lá se escreve em passinhos miúdos

Há uma torteria. Minha mesa está perto da rua inclinada. Corre um regato produzido pela chuva, que se mostra branda, persistente. Uma das paredes da torteria é forrada a papel cinza, como se imitasse a textura do concreto. Curiosos motivos de ladrilhos e madeiras com tons escuros cobrem o chão. É algo birrento e até um bocado infantil, mas, às vezes, tudo o que o escritor precisa é que alguém diga: tu não vais conseguir, não dás conta. E, então, de ânimo renovado, furioso, ele se debruça sobre as anotações e dá continuidade à empreitada livresca.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de abril de 2021


Para silenciar algumas de minhas fraquezas

O amor é uma arte, disse certa vez Erich Fromm — filósofo da chamada Escola de Frankfurt, cujos participantes tinham um fraco pelo vazio, pela vacuidade, pelo absurdo de existir. Para Fromm, a condição humana primordial seria a separação, isto é: estamos sozinhos, só temos a nós mesmos. Aqueles que andam à beira desse abismo e o sabem acabam por se dedicar a algo (ou alguém) que lhes dê algum tipo de raison d’être, um norte, uma bússola, um motivo. Daí o amor. O amor faria com que olhássemos com menos rejeição ao niilismo inerente a este universo — um espaço infinitamente gigantesco, em constante expansão, dentro do qual nada somos além de um pixel descartável. Por não existir cura definitiva para esse isolamento (apenas analgésicos manipulados), deveríamos aceitar as circunstâncias, abraçá-las, adaptar-se, jamais lutar contra elas. E aqui, vale ressaltar ainda, não haveria distinção alguma entre as diversas âncoras que lançamos às profundezas: o amor do artista pela obra e o amor do artista por um outro ser humano, por exemplo, equiparam-se. O sujeito literário que ameniza angústias dedicando-se aos caprichos das palavras, que se entrega ao próprio livro sem esperar nada em troca, deveria agir da mesma forma diante da pessoa amada. Ambas as empreitadas mostrar-se-iam processos: dia após dia, erro após erro, avanços, recuos, equívocos, acertos, consertos, metamorfoses. O livro e a pessoa amada fazem parte do escritor, assim como o escritor faz parte deles. É famosa a condição de determinados autores que se afogam nas ondas da melancolia depois de terminar trabalho ao qual se dedicaram durante anos. Eles de súbito se dão conta de que o caminho era o que lhes dava algum propósito. Assim, insistiria Fromm, sucede-se também com o amor entre humanos: um projeto a longo prazo, a tempo inteiro, sem nenhuma pressa de atingir um ilusório destino final. 

Publicado por P. R. Cunha / 26 de abril de 2021


Porém, e isto é incômodo, as coisas não são tão simples — ou uma mente ativa capaz de construir simulacros

Televisão, telemóveis, computadores de bordo, braços robóticos, automóveis que dirigem sozinhos, smart homes, drones entregadores de pizza, drones assassinos, corações artificiais, exércitos de silício, smart watch, touch screen, flat screens, Netflix, Megaflix, realidade amplificada, sexo virtual, home office, A.I., ebooks, GDrive, pagamento por aproximação, bitcoins, PayPal, conta corrente, juros, análise de créditos, óculos 3D, videojogo, Tinder, Badoo, POF, Bumble, Instagram, brain in a vat, teletransportador, Sci-Fi, Lo-Fi, High-Fi, Wi-Fi, identidade pessoal, continuidade, conectividade, senha eletrônica, QR code, TOTP, JAB code, HCC2D, Model 1, código de barras, detector de metais, correção de erros, ISO/IEC, alfanuméricos, reconhecimento de caracteres, células fotoelétricas, rastreabilidade, GPS, GS1-128, transdutor, dispositivo optoeletrônico, células solares noturnas, módulos fotovoltaicos, 1367 W/m2, tecnologias emergentes, Black Dye, startup, crowdfunding, enterprise, freelancer, venture capital, business incubator, ONG, dicionário online, e aquilo que uma pessoa não consegue lembrar nunca existiu… pelo menos não para ela.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de abril de 2021


A vida dentro de certas estruturas assume o caráter de um jogo

A primeira coisa que pergunto quando acordo de manhã: a realidade existe? Minhas pernas são reais?, meus braços, meus dedos, e esta dor aguda que sinto nos meus joelhos? Como posso obter alguma certeza de que isso tudo, de facto, existe? Um filósofo alemão, perspicaz nestes assuntos, escrevera que, muito provavelmente, aquilo a que chamamos de realidade não passa de construção mental imposta pela estrutura do nosso cérebro. Abrimos os olhos, reconhecemos dados, o sistema neurológico cria (importante verbo: cri-ar [transitivo] / dar existência a; gerar; produzir; inventar; fomentar; estabelecer; interpretar) padrões, surge um sentido. Acontece, também, de o conjunto de sentidos não ser fixo. À medida que meu reconhecimento de realidade muda — através de maturidade, traumas, conquistas, fracassos etc. — abandono algumas convenções, adiciono outras, e assim continua a ser encenado o teatro grotesco. Em poucas palavras, não sou realista, sou cético. E o relato a seguir não é uma transcrição, mas uma reconstrução.

[…]

Toda a última quinta-feira do mês vou ao médico, é o que tenho feito há seis anos. Na semana passada, passou-se o mesmo. Levantei-me, vesti meu cardigã e disse para a minha esposa: Matilda, vou ao médico. Ela não respondeu, continuou sentada na poltrona a tricotar. Anda meio surda. A título de sinceridade, meus ouvidos também andam um bocadinho avariados. Gostamos de menosprezar a falta deste ou daquele sentido de alguém, sem muitas vezes reconhecermos que os nossos próprios sentidos não são, nem de longe, mais os mesmos. Matilda anda surda, faço troça da surdez da minha esposa, mas, repito, preciso de reconhecer que a minha própria audição já está a ir, como se diz, para o brejo. De forma que Matilda bem pode ter respondido qualquer coisa à minha afirmação («vou ao médico») e eu nem com isso. Vai, vai logo, Eustácio, anda, apressa-te — era o que ela costumava me dizer numa época em que ambos escutávamos perfeitamente. Onde já se viu!, pensei enquanto abria a porta da rua, digo que vou ao médico e a velhota nem se dá ao trabalho de me responder, fica a tricotar aquele suéter terrível, como se o marido (eu) nem existisse. Casamos com alguém, achamos que seremos parceiros inseparáveis, que envelheceremos juntos, queremos acreditar que aquela mulher será a nossa melhor amiga até ao fim dos tempos, porém, como é tão comum entre nós, essas parvoíces não passam de vã esperança, miragens. Às vezes me vêm esses pensamentos insensíveis, essas atitudes disparatadas, não sei por quê. Mais tarde, naquele mesmo dia, muitíssimo abalado pela notícia que receberia do médico, descobri que o suéter terrível era na verdade um presente que Matilda estava a preparar para mim, para o meu aniversário de 68 anos, cuja data eu me esqueci completamente, e nem preciso dizer que desabei a chorar diante dessa conjunção de catástrofes. Mas não será este o momento para nos demorarmos sobre isso, adianto-me sem necessidade. Na semana passada, portanto, última quinta-feira do mês, fui ao médico, como tenho feito há seis anos. Exames da praxe. Assim que cheguei ao consultório, a recepcionista deu-me as boas-vindas, perguntou com voz de criança se eu queria guardar meu cardigã, se eu queria um cafezinho com bolachas, se a televisão estava num volume adequado. Devo ter feito um daqueles sons que os velhos fazem, e falei que estava tudo bem, que só queria sentar, esticar as pernas, meus joelhos doem. A recepcionista disse: compreendo, senhor Eustácio, compreendo bem. Não compreende!, mocinha, não compreende!… Isso obviamente eu não disse, só pensei com meus botões: não compreende. E não era despropósito algum pensar assim. Os mais jovens acham que compreendem os mais velhos, mas não compreendem, porque não precisam de passar pelas coisas que os mais velhos passam, as humilhações, as torturas, as dores nas articulações. A recepcionista voltou para atender ao telefone, notei que mancava. De minha parte, deixei meu corpo deslizar na cadeira de estofado verde, e a brisa morna do ventilador atingia meu rosto como um mau presságio. Sala de espera. Jornal matutino na televisão. Ansiedade e tédio. Fechei os olhos. Podemos não conseguir dar sentido à realidade como um todo, mas isso não nos impede de dar sentido às coisas «dentro» dessa realidade; quero dizer, em determinados contextos, a razão da minha existência, de eu estar aqui de olhos fechados na sala de espera do consultório médico, o mesmo consultório, há seis anos, toda a última quinta-feira do mês, a razão de eu respirar, de eu sentir dores, dos meus pensamentos egotistas, a razão de tudo isso continua sendo que, numa altura, meus pais, que também tinham uma longa cauda de bifurcações e acasos, se conheceram na maldita daquela lanchonete; eu não pedi para nascer, ninguém pediu, isso é coisa que nunca aguentei, e me disseram que chegaria a idade em que eu simplesmente aguentaria, mas nunca aguentei; e meus pais terem se conhecido, minha presença neste consultório médico, meu antigo emprego, a Matilda, minhas dores, minha coleção de selos… fazem parte de uma existência artificial, de uma narrativa, de uma vida, de uma realidade que carece de razão; não estou aqui por algum motivo, não nasci para ser grande, poeta, arquiteto, malabarista, de forma alguma, apenas nasci, um acidente biológico, estou à mercê de tudo isso, desses propósitos limitados, dessas regras limitadas, desses objetivos limitados, dessas explicações limitadas, e daí resulta o caos total; jogamos xadrez, sabemos os movimentos das peças, o que cada peça pode ou não fazer, pensei ainda de olhos fechados na sala de espera do consultório médico, o tabuleiro de xadrez claramente delimitado; no entanto, como estamos fartos de saber, se continuarmos a cavar, se nos livrarmos do tabuleiro, das peças, mais cedo ou mais tarde chegaremos à temível conclusão, à certeza bruta: que era só um jogo, que as regras só fazem sentido se não avançarmos muito nas investigações. De repente, senti uma mão gelada no meu braço esquerdo, abri os olhos como se tivesse acordado de um transe. Senhor Eustácio, disse o médico com severidade, receio não ter boas notícias para lhe dar.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de abril de 2021


A Pessoa Pequena

Pessoa Pequena tenta engatinhar para o colo da mamã. 
A mamã, vestida com roupa de médica,
agacha-se para abraçar Pessoa Pequena.
A mamã diz:
— sinto muito, meu bebê, sinto muito mesmo,
mas hoje estarei de plantão no hospital, comporta-te.
Pessoa Pequena ri, e aperta as bochechas da mamã,
e puxa, e brinca com os óculos arredondados da mamã.
A mamã então entrega Pessoa Pequena para a cuidadora.
Cuidadora tenta ninar Pessoa Pequena.
Balança o bebê de um lado para o outro.
Como se Pessoa Pequena fosse uma jangada bem miudinha.
Embrulhada no macacão felpudo, bem que
Pessoa Pequena se parece mesmo com uma jangadinha.
A mamã diz tchau, abana os braços,
fecha a porta do apartamento.
Finalmente Pessoa Pequena começa a entender
o que se passa: mamã não vai dormir aqui esta noite,
mamã não volta.
Pessoa Pequena chora, ou melhor, esperneia,
consegue se desvencilhar da cuidadora.
Dali a pouco, Pessoa Pequena está deitada no chão
da varanda.
Pessoa Pequena contorce a cabeça.
Tem ainda lágrimas nos olhinhos.
Observa pela pequena abertura no concreto
o Chevrolet da mamã se distanciando cada vez mais,
cada vez mais,
cada vez mais.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de abril de 2021


Antes de partir

Em 2015, sofri acidente grave no pé — uma mesa de vidro espatifara-se nele, abriram-se cortes profundos e levei ao todo vinte pontos. Precisei de ficar em repouso, prostrado na cama, sem poder mexer a perna direita. Recebi visitas de amigos e familiares, que vinham me desejar rápida recuperação, traziam-me chocolates, algum instrumento musical para que eu me distraísse, etc. Uma dessas visitas, aliás, ficara marcada na memória: minha avó e meu tio-avô foram me ver numa tarde particularmente dolorosa em que tive de tomar remédios à guisa de lidar com tudo, e, enquanto a enfermeira drenava o sangue acumulado no meu calcanhar, eles me observavam com olhos vazios, em silêncio, como se velassem um moribundo condenado. Os efeitos dos medicamentos deram à cena contornos ainda mais taciturnos. Visita estranha, pensei comigo.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de abril de 2021


Modus operandi

O escritor que escreve todos os dias, de maneira metódica, compenetrada, a tratar dos temas que lhe são caros, acaba criando um trabalho digno de nota, uma obra literária, digamos assim, e essa obra será comercializada, guardada e esquecida. O escritor, eventualmente, também será esquecido.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de abril de 2021


Para emitir digressões inoportunas

Todas as vezes em que entro nesta sala de aula, com estes alunos vestidos com uniformes escolares, com este ventilador de teto a fazer ruídos de ventilador de teto, com estas mesinhas organizadas em fileiras, quatro fileiras, cada uma com cinco mesinhas, com a minha própria mesa de professor retangular, com este quadro negro asqueroso, com estas paredes cuidadosamente pintadas de amarelo, e janelas com hortaliças da estação, enfim, todas as vezes em que entro nesta sala de aula tenho as vontades de, conforme se costuma dizer, pôr termo à vida. Trabalho nesta escola há quase quinze anos, e não houve uma única vez, uma única ocasião sequer em que eu tenha entrado nesta sala de aula sem que o pensamento de suicídio me acometesse. Tiro de pistola, afogamento, pular da sacada de um prédio, asfixia por monóxido de carbono, overdose de morfina, e tantos outros métodos, desnecessário enumerá-los aqui. Entro na sala de aula, e os alunos estão sentados, e penso comigo: de hoje não passa, mato-me. Quinze anos com esse mesmo pensamento, com essa mesma, digamos, fixação, um esforço intelectual absolutamente psicótico, não posso deixar de admitir, doentio. Sento-me à mesa, abro a pasta azul com a lista de chamada, e começo a ler os nomes dos alunos em ordem alfabética — Ana, Armando, Bruna, Carla, Dênis, Diego, Fernanda… e eles respondem: presente, professor. E eles vestem uniformes impecáveis, sem nenhuma mancha, sem nenhuma costura exposta, uniformes escolares limpos, brancos como a neve, se calhar ainda mais brancos do que a própria neve. Presente, professor. E eles sorriem, querem aprender com o professor, querem absorver o conhecimento do professor, querem tirar o máximo de proveito daquela experiência aluno-professor, mas o professor pensa na pistola, no afogamento, na sacada do prédio, na asfixia por monóxido de carbono, e esse gênero de coisa. Os alunos saem de casa com toda a vida pela frente, com planos, expectativas, com sede de conhecimento, enquanto o professor sai de casa já farto de tudo, com pensamentos suicidas, com a cabeça à roda, mórbido, desacreditado, e tais abordagens são de tremer, mas não busco aplausos. Os alunos sentam-se às mesinhas e inclinam o corpo para a frente; o professor senta-se à mesa do professor e reclina o corpo para trás. Os alunos na ofensiva, o professor na defensiva. Os alunos atacam, o professor se protege como pode. No final do semestre passado, numa quarta ou quinta-feira, passei os exercícios da praxe para os alunos, e fiquei a observar a estrutura da janela. Enquanto eu fazia os cálculos, a pensar no que me aconteceria se por um mero «acaso» eu «escorregasse» e «caísse» lá embaixo, a diretora da escola bateu no vidro da porta chamando-me para ter com ela. Saí da sala, a diretora sorriu, pude ver as obturações nos dentes traseiros. A diretora disse: hoje é o teu dia de sorte! Não tive nenhuma reação. Ela continuou: foste nomeado para o cargo de coordenador pedagogo. Eu falei que isso não me interessava, aliás, tive mesmo de insistir, implorar, dizer que não queria nada com aquilo, que, verdade seja dita, sempre odiei esse tipo de função, só o nome coordenador pedagogo já me causava repulsa, asco, ao que a diretora sorriu ainda mais, e lá estavam novamente as obturações, e disse para que eu deixasse de tanta modéstia, que eu tinha sido escolhido por unanimidade, e aqui ela colocou a mão no meu ombro direito, unanimidade, todos querem que tu sejas o novo coordenador pedagogo, e tu começas na próxima semana etc. etc. A gente esfrega os olhos e não acredita. De forma que, desde o final do semestre passado, sou também o coordenador pedagogo desta escola, mesmo que eu nunca tenha participado das reuniões, nunca me apresentei como tal, nunca nem assinei contrato, e meu salário continua o de sempre. Às vezes estou a andar pelos corredores da escola e algum funcionário passa e diz: bons dias, sr. coordenador pedagogo. E dizem isso com uma solenidade até um pouco patética: sr. coordenador pedagogo. É terrível. No refeitório, agora preciso de me sentar na área dos coordenadores, e todos falam de coisas que os coordenadores costumam falar, ou seja, dos assuntos mais insuportáveis, ridículos, sem cabimento, e isto sou obrigado a notar por questão de honestidade. Os coordenadores não são melhores nem piores do que ninguém, mas agem como se fossem diferentes, como se fizessem parte de um grupo seleto, são os escolhidos, podem ditar as regras, e há sempre algum idiota que abaixa a cabeça e acata essas regras, mesmo que sejam as regras mais estapafúrdias que alguém já ouviu. Escutam as regras, entendem que são regras idiotas, abaixam a cabeça e seguem as regras idiotas. A despeito das afirmações em contrário, sempre foi assim: sabemos que as regras impostas pelos coordenadores são idiotas, mas lá estamos nós, seguindo as regras impostas pelos coordenadores. De uma forma absolutamente inqualificável, aceitamos e seguimos em frente como se nada tivesse acontecido. Voltamos para casa, beijamos a nossa família, comemos, dormimos, acordamos, e nos submetemos às regras dos coordenadoras. Tudo o mais é retórica, pose, farsa.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de abril de 2021


Escritos mantidos a título de lembrança

John de Salisbury — escriba do arcebispo de Canterbury no século XII — comentara numa certa altura que «as palavras escritas dizem sem voz as falas dos ausentes». Símbolos indicando vozes: com frequência, vozes de fantasmas.

(CAFÉ: bebida considerada muito boa e completa; há quem diga que tem o efeito de afastar a melancolia.)

Percebo que meus escritores favoritos estão todos mortos. E quando conversamos, isto é, quando os leio, há sempre qualquer coisa de Krapp’s last tape [A última fita de Krapp], peça do Samuel Beckett. Discursos imóveis em fitas K7, palavras que sempre permanecem como estão, que se repetem. Ecos registrados no papel e na faixa magnética.

Montaigne, Bernhard, Sebald, Burton, Foster Wallace, Ballard, Poe, Borges, Kafka… todos mortos.

Dizem, também, que o trabalho do escritor nunca chega realmente ao fim, pois os seres humanos e as outras coisas do planeta mudam de hábitos a cada dia. Talvez seja por isso que raramente nos deparamos com escritores aposentados: podem até se afastar da vida pública, mas escrevem sempre, até que chegue o derradeiro golpe da ceifa, e tudo se faz escuridão.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de abril de 2021


Herbert

Meus pais faziam vestuário por medida e eles tinham o odioso costume de pendurar retratos das pessoas famosas que já tinham ido lá pedir esta ou aquela roupa específica. Eu mesmo não dava a mínima para essas coisas — nem para o vestuário, nem para a fazenda de roupas, nem para os supostos famosos cujos rostos me eram absolutamente irreconhecíveis. Minha mãe tinha particular predileção por uma mulher com cabelo encaracolado, nariz de boneca, e segurava o retrato dessa mulher, revirava os olhos, abraçava o retrato com força, dava uns beijinhos, e dizia que ela tinha sido uma atriz de cinema muito, ou melhor, muitíssimo premiada. Até hoje não faço a ideia de quem teria sido a mulher, mas, pelos vistos, contratou os serviços de mamã e isso bastava. Então que a nossa casa era também o ambiente de trabalho dos meus pais, que montaram uma «oficina» — se é esta a palavra adequada — num quartinho ao lado da cozinha. Eu ficava assistindo televisão na sala enquanto os dois costuravam, cortavam, batiam na máquina e por aí adiante. De vez em quando meu pai colocava a cabeça do lado de fora e gritava para que eu comprasse uma qualquer miudeza na padaria. Contrariado, eu me levantava, resmungava, e ia até à padaria comprar o que quer que fosse. Certa tarde, voltei da padaria e percebi que meus pais tinham saído. Joguei os pães e a manteiga sobre a mesa e fui logo me esparramar novamente no sofá. Estava quase pegando no sono quando ouvi o barulho da campainha. Esfreguei as pálpebras com o dorso das mãos e me arrastei até à porta amaldiçoando os demônios, perguntando o que fiz para merecer aquele desassossego. Um homem na calçada que não parava de olhar para os lados disse abruptamente: quero ajustar este terno! Bocejei e disse que não seria possível ajustar o terno, que não havia ninguém para ajustar o terno, que voltasse outro dia. O homem insistiu: ora, você está aqui, você ajusta o terno. Eu disse: não sei mexer nessas coisas, meus pais sabem, e meus pais… Antes mesmo que eu terminasse, o homem adotou atitude ameaçadora, levantou o dedo em riste, entrou na casa sem pedir licença. Vestiu o paletó, levantou os braços e disse: anda, ajusta isto. Sem saber o que fazer, peguei uma fita métrica na oficina, olhei para o paletó, depois olhei para o homem, que olhava para um ponto de fuga invisível: anda, ajusta. Medi os bolsos, as lapelas, os ombros, as mangas, e fingia que tomava notas no caderno com folhas amarelas. O homem se deu por satisfeito, entregou-me o paletó, disse que voltaria mais tarde para buscá-lo, e que também pretendia ajustar a calça do terno, mas que agora estava sem tempo, precisava de ir sem demora. Mais por preguiça do que por receio, resolvi esconder o paletó no meu armário e não contar nada para ninguém sobre o ocorrido. Passaram-se duas semanas, dois meses, seis meses e o homem misterioso não aparecia. Até que, numa dessas morosas manhãs de outono, estávamos papai e eu a assistir ao noticiário quando, para a minha supresa, vi imagens do homem do terno e um compenetrado repórter a explicar que «enfim, a policia conseguiu pôr atrás das grades um dos criminosos mais perigosos do país». Ofegante, fui buscar o paletó no armário e mostrei-o para o meu pai. Apontei e disse: era o paletó desse criminoso!, ele veio aqui ajustar e nunca voltou. Meu pai me fitara com aqueles olhos de condolência, balançou a cabeça para os lados, e, visivelmente desapontado, falou que era para eu parar de ladainha, que eu arranjasse emprego de uma vez por todas, alguma ocupação, qualquer coisa que fosse, do contrário, eu também apareceria no noticiário algemado, ou, pior ainda, dentro de um saco preto do Instituto Médico Legal.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de abril de 2021


Sinuosidades

Estou a observar uma minúscula formiguinha que escala a minha caneca de café. A caneca tem o rosto do David Lynch estampado e a formiga está agora no nariz do David Lynch. Ela não se demora e continua a subir na direção do líquido açucarado. Quando chega à borda da circunferência, a formiguinha como que olha lá para baixo e hesita. De súbito, dou-me conta de que meu pensamento não está mais na formiguinha, nem na caneca, nem no rosto do David Lynch: estou a pensar na radiação cósmica de fundo em micro-ondas — o fóssil de luz que, tanto quanto a ciência pode dizer com segurança, vem de uma época cerca de 380 mil anos após o Big Bang. A formiguinha dá algumas voltas e decide pular no café.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de abril de 2021


Construções (apêndice)

O escritor é uma ideia, uma representação que precisa de ser constantemente abastecida para que a máquina continue, como se diz, funcionando. A partir da altura em que ele vacila e começa a duvidar dessa ideia, eis que surge o niilismo inerente da empreitada (i.e.: dedicar-se horas e horas, dia após dia, a uma tarefa contrária à sensatez e ao bom senso). Se antes ele, dotado daquela quixotesca confiança, levantava a caneta como se fosse uma espada medieval, agora ele se mostra distraído, faz pequenas dobras nos cantos da folha em branco — fita os livros entreabertos que jazem sobre a escrivaninha, obras que em ocasiões mais amenas demonstrariam o tipo de pessoa que o escritor gostava de ser.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de março de 2021


Construções

Um doutrinador num espaço vazio, sem vivalma para doutrinar, de certeza que consideraria a própria tarefa absurda. Mas essa condição é recorrente para os escritores, que falam sozinhos, ruminam em voz alta para um público invisível. Calha de, às vezes, a acústica da sala reverberar esses monólogos, alguém lá fora escuta fragmentos do discurso megalómano e entende que ali dentro há um escritor trabalhando.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de março de 2021


Gelo

Durante o verão de 2015, completamente exausto das obrigações acadêmicas, dos encontros com os outros professores, da voz do reitor, e, principalmente, dos intermináveis almoços no refeitório do campus, escreve Paul, decidi alugar uma casa de praia para enfim dar prosseguimento aos meus estudos sobre Cioran que andavam, como se diz, negligenciados. Ao escutar o endereço da casa de praia, cujas coordenadas fiz questão de pronunciar com muita calma e clareza, o taxista do aeroporto, mais para evitar um silencio que lhe pareceria constrangedor do que para puxar conversa, perguntara se por um acaso eu tomara conhecimento do mais novo personagem da cidade. Respondi que não fazia a ideia, ao que ele me fitou pelo espelho retrovisor com uma seriedade, assim julguei na altura, desproporcional. Contou-me que o velho Buzinsky decidira montar ateliê na região, e que o russo já estava a trabalhar numa gigantesca escultura de gelo, justamente na praia onde eu me hospedaria. Após uma breve pausa, durante a qual pude apreciar a dispersa vegetação litorânea que tanto me agrada, escreve Paul, o taxista ajustou os óculos no nariz de coruja e disse em tom trocista que não compreendia o motivo de alguém querer construir escultura de gelo num país tropical, muito menos na praia, em pleno verão, quando os termômetros chegam a atingir 40, 43ºC, uma empreitada completamente absurda, disse o taxista, o que me faz pensar, ou melhor, ter a certeza de que, à medida que nos aproximamos da nossa própria finitude, passamos a nos dedicar a toda a sorte de futilidades, como construir esculturas de gelo, ou castelo de cartas, sem contar o esforço, as horas, os dias, as semanas que desperdiçamos para montar esses objetos tão transitórios. Na casa de praia, coloquei o extenso material sobre Cioran na escrivaninha que com antecedência havia pedido à proprietária que instalasse no canto do quarto, longe do sol poente. Quatro pastas repletas de anotações avulsas, seis livros de Cioran, duas biografias a respeito do filósofo — inclusive uma em romeno, cuja finalidade me escapava, pois não compreendo o idioma —, um HD externo com o arquivo PROVÁVEL MANUSCRITO SOBRE E. M. CIORAN. Ao abrir a porta da varanda que dava para a praia, notei que alguns curiosos observavam um senhor curvado a martelar um enorme bloco de gelo vertical. Enquanto o velho Buzinsky lutava sem sucesso contra o derretimento da escultura, lembrei-me do taxista e das palavras de Gilgámesh, aquele que viu o abismo: quanto ao homem, seus dias estão contados; não importa o que construa, é apenas brisa passageira.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de março de 2021


Circunstâncias

Na minha juventude fui baterista de uma banda de rock, rock introspectivo, dir-se-ia, rock para relaxar a cabeça e não para sacudi-la, e gostava imenso de tocar ao vivo, de estar sentado à bateria, de observar outras pessoas que tinham se deslocado até ali para assistir ao nosso show, e, depois da apresentação, confraternizar, receber os elogios da praxe, ser, de certa forma, um bocadinho o centro das atenções, e bebíamos, e fumávamos, e éramos invencíveis, e voltávamos para casa à espera do próximo espetáculo, quando tudo se repetiria mais ou menos da mesma maneira. Até que, um pouco sem perceber, a energia começara a se dissipar, a vontade de estar fora, de socializar, não era nem de longe nem de perto a mesma, e me vi cansado, exausto, afastei-me (tal como fizera Fitzgerald numa altura da própria vida), e passou a haver menos gente, muito menos gente, e notei, ainda sem saber ao certo o que fazer com isto, que não precisava mais fingir que gostava dos outros seres humanos, nem sorrir à toa, forçar abraços, não precisava mais fazer-me de interessante, de baterista intelectual, de «músico-poeta-escritor», nada disso era realmente necessário. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de março de 2021


Ímãs

Como me retirar adequadamente do microcosmo da obra que estou a escrever, eis uma inquietação recorrente quando me dedico a um longo trabalho literário. A confortável previsibilidade das rotinas, a antecipação, a chávena de café sempre no mesmo canto da mesa, a cadeira, as canetas, os papéis, a continuidade do processo,

não lidar com as turbulências da sociedade civilizada, não acompanhar os noticiários, construir este casulo, abrigar-se neste casulo, ou melhor, proteger-se dentro do casulo, e encher-se de ansiedade quando obrigações externas puxam-lhe para fora do casulo como se fossem um gigantesco campo magnético. Dois dias longe do meu universo artificial e já me afogo em toda a sorte de angústia, melancolia, desespero, coceiras, iras, sensabores — tudo isso, só como exemplo.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de março de 2021


Infrequências

Há ocasiões em que saio tão satisfeito da minha escrivaninha que tenho as vontades de paralisar o espaço-tempo, para, pelo menos, prolongar um bocadinho mais esse fugidio sentimento de plenitude.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de março de 2021


O outono nos mostra que as folhas caem; e o inverno — que elas não se levantam mais

Há quantidade vertiginosa de obras lá fora, e nós não temos, como se diz, todo o tempo do mundo. Se reservamos um certo número de horas para determinado autor, deixamos de nos dedicar a milhares de outros. É por isso que, quando nos tornamos leitores ávidos, precisamos de criar algum tipo de filtro — do contrário, enlouquecemos. Muitos começam a ler somente as obras lançadas por uma editora específica, alguns só leem romancistas mexicanos, um primo meu passou a ler apenas os escritores cujos sobrenomes começassem com as letras B, D ou F (Balzac, Barreto, Bernhard, Descartes, Dostoiévski, Faulkner, Flaubert, e assim por diante). Ou, quem sabe, faríamos como Jorge Luis Borges, que nunca lia, mas relia sempre os mesmos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de março de 2021


Invenções pantanosas

Um rei muito poderoso decidiu mandar os dois melhores narradores do castelo para uma expedição algures. A ideia era que eles fossem ao país estrangeiro, observassem, tomassem nota, e voltassem para contar o que viram. Porém, antes mesmo de chegarem ao longíquo território, um dos narradores fora acometido pela disenteria, e o outro, cansado de ter que carregar o colega às costas, não acreditara nos próprios olhos quando percebeu que o país estrangeiro nada mais era do que uma grande área pantanosa, sem nenhum sinal de civilização. Com medo da represália do rei, que odiava relatos enfadonhos, os narradores — os melhores narradores do castelo, nunca é demais lembrar — decidiram em comum acordo inventar narrativas mirabolantes sobre aquela que, para todos os efeitos, teria sido «a expedição mais fantástica da história da humanidade». Porque, afinal, a verdade não é necessariamente o que aconteceu, mas o que contamos que aconteceu.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de março de 2021


Tramas

O frasco do colírio
lágrimas artificiais.

Quando a escrita se torna um hábito, uma necessidade — como beber água, ingerir alimentos, movimentar-se etc. —, afundado neste contínuo processo de consumir e ser consumido. Um vício, poder-se-ia dizer.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de março de 2021


Como algo extra

Não negligenciar o blogue. Escreva algo, nem que sejam uns pensamentos avulsos.

O escritor que precisa de manter um trabalho assalariado — porque, afinal, é necessário pagar as contas etc. — sempre colocará a culpa do próprio infortúnio literário nesse trabalho. Se ao menos eu pudesse ser escritor a tempo inteiro, ele diz.

A ideia seria basicamente não iluminar, não comunicar conhecimento novo, não criar insights, não transmitir nenhuma mensagem edificante. Focar-se em si mesmo, andar em círculos, entregar-se a um fanatismo unilateral; escrever, se possível, em idioleto.

Cultivar leitores = consequência.

Tenho a certeza de que estou a escrever o melhor livro que jamais escreverei. (Talvez seja por isso que me mostro tão moroso nos últimos tempos, porque antevejo o vazio [an enormous void, the great nothing] que a obra deixará ao se despedir de mim — como aqueles pais que, depois de anos de criação, dizem adeus ao filho no aeroporto.)

Muito improvável que uma onda de criatividade como essa venha a se formar novamente. É sempre outra coisa.

Há também um encanto particular quando deixo «a grande obra» de lado e me dedico a miudezas diversas. A estes trechos despretensiosos, que sempre terminam em nostalgia.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de março de 2021


Eletromagnetismo — ou como ser um caça-fantasma na era da visibilidade

Meus bisavós paternos tiveram um namoro majoritariamente epistolar. 

Esta famosa anedota da família relata que meu bisavô escreveu para a minha bisavó pedindo-a em casamento. Por conta de uma greve geral dos correios, a carta com o «sim» demorou tanto para chegar às mãos dele que, nesse prolongado intervalo, meu bisavô, um bocado desiludido, quase se apaixonara por outra mulher.

Hoje em dia, com mensagens eletrônicas que atravessam o planeta à velocidade da luz, as trocas lentas e imprevisíveis de envelopes são quase inimagináveis. No entanto, inquietou muitas gentes dos séculos passados.

Pensemos em Kafka.

Para ele, escrever cartas significava expor-se aos fantasmas, que esperam precisamente por esses intercâmbios de longa duração. Kafka ressalta a inconstância dos interesses humanos. Agora agimos e sentimos de uma determinada maneira; amanhã, não sabemos.

Beijos escritos no papel nunca alcançariam o destino da mesma forma que foram enviados. Os fantasmas os bebem ao longo do caminho.

(Um pedido de casamento cuja resposta chegasse seis/sete meses depois possuiria a mesma força?, o mesmo significado?, meu bisavô pode ter ruminado a respeito.)

Escrever cartas: comunicação fantasmagórica — não apenas com o fantasma do destinatário, mas principalmente com o nosso próprio fantasma, que parece se desenvolver dentro daquilo que estamos escrevendo, e cresce à medida que escrevemos novas cartas, e nos tornamos um outro alguém, fantasmas que se acumulam, corroboram-se, contradizem-se, como se fossem testemunhas num tribunal.

Poderíamos de bom grado modernizar essas inquietações de Kafka se substituíssemos a angústia epistolar por qualquer outra tentativa de se fazer entender através da linguagem — um tema, aliás, caríssimo à filosofia de Wittgenstein.

Nossas mensagens digitalizadas podem até se mostrar instantâneas, mas isso não significa que tenhamos nos livrado dos espectros que as acompanham.

Os fantasmas também se adaptam, aprendem a flutuar mais rapidamente.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de março de 2021


Em pedaços

A criança aborrece os adultos quando age de determinadas maneiras, a fazer traquinagens. Mas ela possui um álibi: é ainda muito miudinha para entender as regras do jogo.

Quando o pequeno ser humano cresce, precisa de atender às exigências, às expectativas da sociedade. Ser calmo, seguro, ter paciência, comedido, comportar-se adequadamente à mesa, racional, impressionar. Mesmo que em inúmeras ocasiões preferisse agir como uma criança, sabe que não possui mais essa liberdade, essa concessão. É necessário adaptar-se ao contexto adulto etc.

Ao que o agora grande ser humano também começa a esperar coisas dos seus semelhantes, determinadas posturas, modos, aparências, trocas, contratos. A bola de neve se dilata, até transformar-se em avalanche, pois a criança louca que um dia fomos nunca deixa de existir, apenas hiberna embaixo das camadas de gelo — as quais, de improviso, empilhamos para conter o monstro birrento da nossa personalidade.

O grande ser humano em estado de esgotamento (i.e: quando a criança irascível que o habita consegue subir à superfície) rende-se, chora, treme, esperneia. Desprovido de todas as mordaças artificiais que tivera de produzir à guisa de evitar transtornos, agora começa a questionar se esta existência é real, se faz sentido, se a opinião que os grandes seres humanos têm sobre ela é válida, ou absolutamente inútil.

Entra em colapso, procurando por algo em que se agarrar, uma âncora, uma corda, um corpo, uma viga. Deitado diante do espelho em migalhas: meros reflexos daquela imagem que, talvez ingenuamente, acreditava conhecer.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de março de 2021


Lembranças vagas — ou incompletas 

Homem grisalho sentado num banco à beira-mar. Passo por ele e escuto-o perguntando para um ouvinte invisível: ela me amou?

Por vezes acontece de voltarmos de determinadas viagens e acharmos que tudo terminara. Até que, alguns dias depois, cenas dispersas começam a surgir aleatoriamente à cabeça.

Nunca se sabe ao certo quando (e como) uma jornada acaba.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de março de 2021


Escritor ciente das frustrações e excentricidades diárias de uma vida literária (o sol negro)

A tristeza que nos oprime, os sentimentos que nos paralisam são também uma espécie de escudo — por vezes o derradeiro escudo — contra a loucura. Como aqueles insetos que fingem a própria morte tentando ludibriar o predador.

Costumo sentar-me à mesa para escrever sobre assuntos aleatórios. Não tenho nenhum plano, nenhum propósito. Apenas sento, fico quieto. E então algumas imagens começam a surgir. Eu bebo um pouco de café. Na maioria das vezes, acho que estou trapaceando, que essas imagens não são minhas, porque elas simplesmente aparecem, e tudo o que preciso fazer é descrevê-las, traduzi-las num pedaço de papel. É um processo muito agradável. Sinto que estou longe, embora nunca saiba ao certo de onde ou de quê.


Se me vejo incapaz de metaforizar ou de traduzir essas imagens, calo-me, desvaneço aos bocadinhos.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de março de 2021


Rotina

6h — acordar, refletir se vou ou não para o crossfit;

6h15 — levantar (se eu for ao crossfit [do contrário, permanecer deitado, meditações aleatórias]);

6h30 — pequeno-almoço;

7hcrossfit (ou leitura inspecional de livros diversos);

8h34 — escrever, escrever, escrever, revisar…;

12h10 — almoço;

13h12 — xadrez;

16h — lanche vespertino;

17h — a partir daqui, fico ligeiramente alheado, como que à deriva, insuportável, magoo quem estiver por perto, inseguro, insatisfeito, por vezes desconto na minha família, na mulher que tanto amo, e me pergunto: por que diabos fazes isso contigo mesmo?, tento colar os pedaços, e tenho a certeza de que acabou, sim, acabou, amanhã estarei destruído, em ruínas, sem forças para recomeçar, sem ideias, sem caráter, mas não precisamos falar sobre isso.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de março de 2021


Apertura: onde o escritor justifica-se, a mostrar que uma entrevista é, na melhor das hipóteses, algo a ser suportado

Nunca gostei muito de dar entrevistas — ou melhor, nunca me senti à vontade para respondê-las. Talvez eu seja um daqueles escritores que, quando diante de uma pessoa que faz perguntas, não têm nada a dizer, ou acreditam que já disseram tudo nos textos que publicaram, ou que preferem se dedicar às ficções em vez de se arriscarem nas armadilhas da realidade, ou que têm medo de revelarem os próprios segredos, medo de serem desmascarados de uma vez por todas, e, no momento em que a máscara cai, das duas uma: ou precisam de tatear o chão escuro para recolocá-la, ou, num cenário ainda mais inquietador, construir novas máscaras, o que leva imenso tempo.



Publicado por P. R. Cunha / 7 de março de 2021


Florianópolis, Santa Catarina

Em menino, a palavra aeroporto enchia-me de grandes expectativas. Hoje, nesta fase má da biografia terrestre, causa-me toda a sorte de ansiedades.

O Atlântico azul-esverdeado, as ondas brancas — espumas de barbear salgadas. Holofotes iluminam a praia durante o fim de tarde enquanto a linha cinza do horizonte confunde-se com um céu desbotado. Florianópolis como cenário de alguma canção dos Frightened Rabbit (Keep yourself warm, ou talvez Swim until you can’t see land).


Há um grande tabuleiro de xadrez atrás de mim. Os quadradinhos pintados num terraço de concreto. As peças batem no meu joelho. O rei tem um crucifixo na cabeça.

Vento com gosto de maresia.

No meu funeral, gostava que colocassem para tocar o som das ondas. E na minha lápide haveria um botão que, ao ser pressionado, também tocaria sinfonias marítimas. Mas esses detalhes nunca se mostram ao nosso alcance.

Nada mais solitário do que um resort paradisíaco às cinco horas da manhã.

Quando a maré recua, surgem pequenos orifícios na superfície da areia, e alguns bichos desengonçados saem desses orifícios, e lembramos como a vida aquática pode ser curiosamente estranha.

Lagarta verde, gosmenta, estica e retrai o corpo sanfonado — o caminhante fica a se perguntar como ela conseguiu sobreviver no fundo no oceano.


Observo o barquinho pesqueiro a seguir linha reta até quase desaparecer atrás das marolas, que parecem balões inflados por uma criança. O barquinho então faz um desvio brusco. Fico a imaginar o motivo do desvio.

Todos os seres humanos — não importa o quão especial/único tu te sintas agora — são descartáveis.

Sabemos do sucesso (ou insucesso) da pescaria a julgar pela quantidade de aves marinhas que circulam o barco quando ele retorna ao cais.

Ter um refúgio, sair, divertir-se, magoar-se, consertar-se, recompor-se, voltar ao refúgio.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de março de 2021

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