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Impassível

A bebida alcoólica, mesmo qualquer outro tipo de entorpecente, que anestesia, induz profundo estado de suspensão, e faz o embriagado esquecer de tudo, como se — pelo menos por algumas horas — o inaceitável se tornasse aceitável, o insuportável, suportável, e as paranóias, as neuroses, as manias desaparecem, pois são todas construções da mente em alerta, mente racional, policialesca, e não têm lugar… ou melhor: não têm influência, nem importância, quando o cérebro se desconecta do mundo.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de maio de 2022


Ecos

Com o tempo (e com certa prática), aprende-se a não ter vergonha/receio de escrever — é uma questão mais de pudor do que de talento, esta voz que se expressa melhor no auditório da indiferença.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de maio de 2022


Cerimônia

O primeiro gole de café, as leituras inspecionais, as possibilidades, as pesquisas sistemáticas, a hesitação, a imprevisibilidade, os avanços-e-recuos, a trégua, o atabacado, as eliminações, os recomeços, as permanências, o destaque, os esconderijos, a catarse, as expectativas, o desconhecido — idealizar a escrita (como nas paixões sexuais) parece sempre mais prazeroso do que o resultado em si.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de maio de 2022


O que há de vir

gelo —
a dor do vento
folhas se despedem


Escritor ajeita os óculos, senta e escreve: Quinteros estava a tomar chávena de café durante o intervalo na fábrica, demasiado perto das máquinas trituradoras de pedra, quando a parte de trás do casaco dele (presente da ex-esposa) prendeu-se na engrenagem, que arrastou Quinteros para dentro, esmagando-o na frente de uma dúzia de funcionários atônitos; Guimard trabalhava nas docas quando numa manhã gelada de inverno as cordas do guindaste romperam-se e um contêiner de 24 toneladas caiu em cima dele e o achatara como uma panqueca; a senhora Hirsch, que morava sozinha e adorava gatos, estava a preparar o almoço e de início sentira leve desconforto no coração, uma alfinetada, até que a dor se tornara tão insuportável que ela apenas deixou-se cair, e quando o corpo foi descoberto por um vizinho, ficou claro que estavam a faltar certas partes, que, segundo a polícia, foram consumidas pelos animais de estimação da senhora Hirsch, gatos famintos devoram os restos mortais da dona à laia de sobrevivência; mas o que de facto o escritor quer dizer é que os livros lhe deram tudo — e, um dia, ele tornará a perder tudo, talvez de uma maneira igualmente trágica.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de maio de 2022


Variações

Fazer silêncio em um momento ou outro, prolongados períodos sem dizer palavra (fugas cada vez mais demoradas, caminhadas distantes a nenhures) — escrever também é falar, não escrever, portanto: forma de silêncio —, saber não escrever nada quando a ocasião exige, o escritor calado guarda a caneta no bolso, esquece a folha em branco sobre a mesa, e o dia a seguir, normalmente.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de maio de 2022


Explorar vastidões interiores em vez das que o rodeavam

Mudança gradual, do infinito cósmico ao epicentro de si mesmo. O que é que há que atraia o escritor para um determinado tema em vez de o atrair para outro qualquer? Ele se dá conta de que nunca conseguiu escrever enquanto satisfeito. Nem mesmo as coisas mais banais, nem as frases mais simples, mais estúpidas. O escritor precisa de estar deprimido, ou irascível, furioso, ou deslocado. O que o faz continuar é a insatisfação, um vestígio de sofrimento, certas dores. As temporadas felizes, embora desejáveis, não são bom tema para as pretensões do escritor. Alguma coisa tem de estar fora do lugar. Escrever, para ele, é isto: um constante acerto de contas.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de maio de 2022


Errância necessária

O escritor olha para a capa amarela do caderno e diz: quando eu terminar de preencher este caderno, começo a, de facto, escrever o livro.

Pensa-se normalmente no livro como uma continuidade: o escritor escreve o início, depois o meio, até ao fim. Receita de bolo. Ou como se fosse uma mera atividade mediúnica, cartas psicografadas. Essa é uma imagem enganosa. O livro — tal e qual a vida — faz-se desconexo, arbitrário, imprevisível.

As etapas raramente acontecem como planejadas. O escritor decide fugir para o litoral, dedicar-se integralmente ao livro, e não escreve uma palavra sequer. Enquanto no caos da cidade, em meio a balbúrdias e incontáveis desassossegos, ele vai e escreve noventa/cem páginas numa (como se diz) sentada só.

O estímulo, a matéria-prima, o combustível…, tudo isso pode estar escondido em situações inusitadas, fruto do acaso. Permanecer estático é talvez o maior risco à saúde do escritor, que, a cada dia que passa, fica menos surpreendido do que confessa.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de maio de 2022


Sigilo, as falésias de boca aberta, um coração vazio e seco

Períodos de imersão, isolamento — máquina de colagens, caçador de detalhes fugidios. Em larga escala: a falta de propósito/sentido de todas as coisas, e, mesmo assim, levar adiante especulações, e, mesmo assim, acordar, levantar, tomar banho gelado, o café, o pequeno-almoço. Numa palavra, história da loucura. Escritor anda tenso, perturbado, num estado febril, sempre prestes a explodir (não à toa Nietzsche dizia-se dinamite), escritor furioso, a discutir com toda a gente, a discordar de toda a gente, ninguém o compreendia, e a velha sensação de não-pertencimento, não-presença, ausências cada vez mais constantes, «inadequação», ele escreve, «invisibilidade», a vida-comédia, a vida-tragédia, teatro de marionetes (de novo esta imagem: manequins, bonecos manipulados por cordas ocultas atrás de uma tela), futuro absurdo, presente igualmente absurdo, respirar é absurdo, almejar é absurdo, ele escreve, preguiça de engajamentos, preguiça profunda de pessoas engajadas, doutrinas, imposições, e assim vai tudo, até desaparecer o brilho (o breve facho de luz entre duas eternidades de escuridão [como o próprio Nabokov verificaria por si mesmo]).

Publicado por P. R. Cunha / 16 de maio de 2022


Limitado pelo horizonte

De manhã —
tom leitoso do céu
fumaça de tabaco
confunde-se com a nuvem
solitária.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de maio de 2022


Perda momentânea do autocontrole

Aproximar-se do abismo. Sentir vertigem. Dançar à beira do abismo. Fitá-lo. Quase cair. O medo. Afastar-se do abismo.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de maio de 2022


Rotas de fuga

Não é comum, mas pode acontecer de o escritor aceitar convite para, digamos, festa na casa de alguém. Ao chegar lá, a primeira coisa que ele faz é aprender a maneira mais rápida de fugir sem ser notado — portas laterais, área de serviço com acesso à rua, atalhos no jardim, etc. Após minuciosa vistoria, o escritor finamente permite-se um qualquer relaxamento: agora já sabe direitinho como se vir embora.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de maio de 2022


Componentes elementares

Não raro o escritor se perde em ruminações a respeito da expansão cósmica, energia escura, o aumento exponencial do tecido espaço-tempo. Os planetas, as estrelas, as galáxias, o próprio escritor, os leitores são feitos de átomos finitos, com arranjos limitados pela física de partículas. E numa hipótese de o universo se expandir infinitamente, ele se pergunta, ou mesmo a probabilidade de lidarmos com multiversos, bolhas separadas por horizontes de eventos? Coisas esquisitas ocorreriam. Os arranjos atômicos começariam a se repetir, a gerar galáxias idênticas, com sóis idênticos, planetas idênticos — e aqui o escritor hesita —, com pessoas idênticas. Um outro escritor absolutamente igual a ele, a bilhões e bilhões e bilhões e bilhões de anos-luz de distância, estaria também a escrever sobre a expansão cósmica, sobre a possibilidade de existir um doppelgänger numa longínqua região do espaço. Condições assustadoras!, pensa consigo mesmo o escritor, que de súbito lembra do que dissera Arthur C. Clarke: ou estamos sozinhos no universo, ou não estamos — ambas as possibilidades aterrorizam.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de maio de 2022


Qualquer marca confiável de quem foi o escritor (e do que ele realizara [blogues, livros, medalhas, fracassos, decepções]) se perderá no ruído quântico — ou o teorema da poeira

Átrio de um centro comercial envidraçado o escritor anota no próprio bloquinho de apontamentos que «escrever fortalece o corpo, prepara a constituição para a fadiga, aclara a vista, ameniza o coração, aumenta a capacidade cognitiva, e, principalmente, alivia os efeitos nocivos da súbita mudança de humor».

Existe apenas uma quantidade finita de histórias que podem ser contadas. A linha do tempo das pessoas — ainda mais numa época em que se fetichiza a padronização — acentua determinadas limitações: nascimento, maternal, crescimento, escola, maturidade, universidade, mercado de trabalho, envelhecimento, decrepitude, solidão e morte. O ser humano como matéria-prima do escritor. Não à toa, alguém lê trecho num livro e diz: mas isto aqui foi escrito para mim!, este sou eu!, etc. É certo, portanto, que as narrativas se repetirão, várias vezes. A realidade, os desafios que toda a gente experimenta, as dores, as alegrias, as desilusões, as conquistas, as perdas, tudo está a ser registrado em livros, na cabeça de incontáveis escritores.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de maio de 2022


Fantoche

Logo depois do almoço o escritor entorna um copinho de bebida destilada com menta e permite-se um atabacado, agindo com moderação, sem se entregar à destemperança. Brinca com a fumaça a sair da boca enquanto lê qualquer literatura na confortável poltrona cinza — um dos poucos móveis que permitiu entrar no escritório —, desfrutando de bom grado dessas simples gratificações pessoais. À medida que a tarde consome o céu, a luz do sol atinge brandamente a capa do livro que o escritor está a segurar, num interessante teatro cromático.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de maio de 2022


Sonho dentro de sonho dentro de um sonho

Campo largo, sem prédios, sem qualquer construção humana, solo arenoso, como o leito de um rio moribundo, neblina forte e densa, difícil de distinguir o que se passa em redor, há uma árvore contorcida, sem folhas, o escritor enxerga tudo a preto e branco, por vezes em tons de sépia, vento gelado, tristeza indefinível que invade o escritor, nebulosidade, sensação de profundo desamparo, como se em queda livre, terra arruinada, quer desistir, mesmo sem saber ao certo de quê, a melancolia, aos poucos, transforma-se em alívio, esconderijo entre as nuvens, não ser visto, não ser alcançado, por ninguém, enfim.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de maio de 2022


À mesma ordem

Parece estar tudo bem com o escritor. Até que, de repente, ele tem um ataque de nervos, atitude intempestiva, tosca, absolutamente infantil. Como se arruinasse tudo o que estava a construir nos últimos tempos (i.e.: ser uma pessoa menos irascível, controlar-se, agir conforme a própria idade, etc.). Desnecessário dizer que essas oscilações perturbam imenso a alma do pobre homem, que passa dias ruminando o lapso de razão.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de maio de 2022


Periodicidade do movimento pendular

Absorver informações (estímulos diversos [livros, filmes, músicas, teatros, passeios ao parque, etc.]), digerir, triturar, misturar, exercício de remodelagem — a argila é a mesma, o pote é outro —, contemplar o que foi criado, mesmo que se mostre um fracasso, com rachaduras, um pote que não servisse para nada, que vazasse pelos cantos, dou-me por satisfeito, diz o escritor, afasto-me novamente à guisa de descanso, o cérebro também deve se alimentar de silêncios, de inércia, não pensar em nada, não pensar em livros, filmes, músicas, teatros, passeios ao parque, nenhum processamento, nenhuma estrutura narrativa, deixo minha mente sozinha, explica o escritor, paro de procurar sentido, adormeço, até que o inverno acabe.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de maio de 2022


Você interage com as pessoas e você está sozinho, você se explica e está igualmente sozinho

Livre-se das distrações. O escritor só acordará por um certo número de manhãs (não dá para ler tudo o que se quer, escrever tudo o que se quer, ouvir, nem ver tudo o que se quer). Num determinado dia — que pode muito bem ser amanhã — o escritor não acorda. Eis o enredo: escritor nasce, toma algumas notas, cria, destrói e morre. No fim das contas, como já disseram tantas vezes, tudo acaba desmoronando. Tomar cuidado com procrastinações dilatadas. Escrever é prática e concentração e repetição. Repetir. Repetir. Repetir. Quando está a escrever o escritor entra numa espécie de «zona» (à moda Tarkovsky): bloqueia o ruído externo, os pensamentos infelizes, dores, frustrações, é viciante, porque focado na geografia da narrativa, na vida interior de personagens imprevisíveis, nos detalhes de um jardim italiano que não recebe água há meses e onde uma flor de cravo (Dianthus caryophyllus) insiste em sobreviver. Escritor em transe, portanto. Imerso no mundo subjetivo e abstrato dos próprios pensamentos.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de maio de 2022


Desfiladeiro

O escritor finalmente encontra um lugar tranquilo para escrever. O silêncio, a caneca de café, a disposição acumulada para trabalhar fazem com que ele consiga impor certa aparência de ordem ao caos que o rodeava. É disso que ele vive, o escritor: sensível aos padrões, busca sempre conectá-los. Quer montar narrativas. Enquanto escreve, a mente como que flutua, livre, sem pressa. O escritor está-e-não-está. O corpo segura a caneta preta. A cabeça, alhures, lembra de coincidências, regularidades, atribuindo relevância ao irrelevante. É tudo muito prazeroso, mas temporário. A atividade criativa cessa e o escritor, em desintegração, torna a fitar o gélido abismo, o imenso nada, a própria insignificância.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de maio de 2022


Ênfase

A verdade é que pouco adianta ler milhares de livros se a cabeça não está preparada para receber esses milhares de livros. Vai tudo, como se diz, por água abaixo.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de abril de 2022


Não-linear

O matemático Edward Lorenz à escrivaninha do próprio laboratório anota que uma borboleta a bater asas no Brasil poderia, através de efeito dominó, gerar tornado no Texas. Sensibilidade às condições iniciais, continua Lorenz: um pequeno acréscimo, uma minúscula mudança, o aparentemente insignificante movimento de um inseto alado e o sistema tornar-se-ia imprevisível.

Refletir, portanto, sobre as consequências de determinadas escolhas, as possibilidades que elas geram (ou deixam de gerar), por mais desprezíveis que pareçam. Abrir um livro em vez de sair com os amigos, tomar café em casa em vez de ir ao shopping mall, furar ou não o sinal vermelho, imaginar universos em que se desenrolam realidades alternativas — escritor se prepara melhor e não fala bobagem durante a entrega do prêmio literário, escritor se controla e não magoa o sentimento da mulher que ele tanto ama, ou mesmo o pai do escritor consegue desviar o automóvel e não morre no trágico acidente.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de abril de 2022


Fluidez

Escrever a esmo — despretensiosamente, de forma aleatória, sem focar em buscar explicações, livre de dogmas, apenas deixar-se levar pela maré das palavras — pode gerar resultados raros e fortuitos. 

Publicado por P. R. Cunha / 28 de abril de 2022


Em outra estação

O escritor gosta de escrever,
fotografar, ler,
de fazer música,
e o escritor também gosta
de não escrever,
não fotografar, não ler
de não fazer música.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de abril de 2022


Supostas medições e observações e cálculos de um estado comatoso

Não sei ao certo o que aconteceu. Cabeça dói. Corpo dói. Não consigo me mexer. Falam sobre acidente, acidente terrível, autocarro, tem até foto na internet, cruzamento, colisão, poucas chances, muito poucas chances. Estou deitado. Leito de hospital. Olhos fechados. Estou em coma. Alguém segura minha mão. Mão da pessoa que segura minha mão é enrugada. Pode ser mão de avó. Pessoa que segura minha mão não diz nada, apenas segura minha mão, por vezes aperta minha mão, aperta com força, como se esperasse que eu reagisse, mas não reajo, sinto minha mão sendo pressionada, não reajo. Depois pessoa que segurava minha mão deixa de fazê-lo. Silêncio. Torno a escutar vozes, vozes de enfermeiras, vozes de médicos, de transeuntes aleatórios, de pacientes, vozes de hospital. Reconheço enfermeiras pelo perfume. Enfermeiras com perfumes cítricos, enfermeiras com perfumes adocicados, enfermeiras que não têm cheiro, aroma de alvejante dos uniformes. Devem achar que estou morto. Quero dizer, tecnicamente morto. Instrumentos ainda mostram que funciono. Coração funciona, cérebro funciona. E apitam. Instrumentos. Bip (dois segundos), bip (dois segundos), bip (dois segundos). Só não acorda. Está ali. Mas não acorda. Coração bate, mas não acorda. Metrônomo que não acorda. Bip (dois segundos), bip (dois segundos). Espetaram alfinete nos meus braços. Não acorda. Já devia estar morto. Instrumentos dizem que está vivo. Verificar sondas. Soro. Manter hidratação. Que é isto de se estar em coma? Levam foguetes para Saturno, montam computadores, olham para os confins do universo, erguem cidades, e não sabem o que é isto de se estar em coma. Família raramente visita. Triste quando essas coisas acontecem, diz alguém. Eu preferiria morrer, diz outro alguém. Às vezes lembro da minha primeira casa. Casa de infância. Da minha mãe. Às vezes lembro do futebol. Da escola. Do meu pai. Da música do Frank Sinatra. Dos meus livros. Memórias fugidias. Lembranças de pensamentos não garantem que eles tenham acontecido. E se fossem miragens? Ilusões. Impossível de confiar. Estou em coma. Sofri acidente. Não lembro do acidente. Cruzamento. Autocarro. Não lembro. Médico disse que é sério. Muito sério, salientou o médico. Praticamente irreversível, disse também o médico. Escuto tudo. Tento abrir os olhos. Não consigo. Tento mexer as pernas. Não consigo. Escuto tudo. Bip (dois segundos), bip (dois segundos), bip… Talvez o coma seja apenas isto: corpo que escuta, corpo que insiste, corpo com memórias duvidosas, corpo que expira.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de abril de 2022


Horizonte literário: o nada impresso

Há muitos livros e pouco entusiamo para lê-los. Apatia profunda acomete o escritor. Angústia sufocante, insuportável. Não é um lugar feliz de se estar. Joga-se na poltrona iluminada pela luz fraca do abajur. Um corpo disperso, configuração de partículas, células aglutinadas de modo aleatório. A expansão acelerada do espaço em redor, o isolamento, a fronteira além da qual todos se afastam sem qualquer possibilidade de contato e/ou influência — a solidão do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de abril de 2022


Extinção

Você está sentado diante de um livro do Thomas Bernhard. Você folheia o livro, gosta do livro, sente um estranho apreço pelo livro. Você não tem passado. Você se distrai com os barulhos que vêm de fora — motocicletas, ambulâncias, obras no bairro, uma criança chora enquanto chama pelo pai. Você teve um pesadelo: locomotiva em câmera lenta, você amarrado nos trilhos, a locomotiva se aproxima, mas nunca chega. Você pensa nas compras do mês, frutas, verduras, arroz, etc., você precisa de ir ao mercado comprar todas essas coisas, mas agora não dá, agora você está a ler Thomas Bernhard. Você acabou de surgir. Você deixou tarefas se acumularem. Você se mostra abatido, até um bocadinho melancólico. Você jura que existe há uns 35/36 anos. Você possui pensamentos e lembranças de coisas que jamais aconteceram. Você é um produto de ficção.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de abril de 2022


Termos probabilísticos

Um grande dilema para o escritor é ter de lidar com situações que, a depender das circunstâncias, podem gerar regojizo ou pavor. Assim como a solidão, a melancolia e o caráter introspectivo possibilitam a criação de obras literárias, tais características podem também significar a ruína da alma escritora. Armadilhas pendulares, dir-se-iam. A título de manter essa balança minimamente equilibrada, o escritor por vezes tem de sair da própria zona hermética e colocar-se em cenários improváveis, ao que muitos não conseguem compreender quando — a despeito de toda a ojeriza — ele decide ir à reunião de ex-alunos da universidade, ou ao chá-de-fralda de certa prima insuportável.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de abril de 2022


Covil

A imprevisibilidade também é um ideal para o escritor, que não gosta de se mostrar facilmente. O escritor prefere a dúvida, a inconstância, o oculto, a névoa, a conjectura. Calcular a probabilidade de ele ser encontrado neste ou naquele sítio, dentro ou fora, insatisfeito ou receptivo — eis aqui umas equações difíceis de serem resolvidas. As variáveis contraditórias, então, ajudam a construir o mito do escritor fugidio: este curioso sujeito rodeado de mistérios.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de abril de 2022


À deriva e em silêncio (através do vazio)

Um livro que é lido em segredo, quase como se fosse um crime, uma transgressão, livro sobre o qual não podemos ouvir o bastante — do contrário, perde-se o encanto da rara descoberta (tais palavras foram escritas [só!] para mim). Alguém que viesse falar connosco e perguntasse: estás a ler o quê?, e guardássemos ligeiro o livro na mochila antes que respondêssemos: nada, na altura não estou a ler nada.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de abril de 2022


Zero: número simétrico cujo valor é firmemente mantido quando multiplicado ou dividido por qualquer outro número

O número zero — um ideal.

Insensibilidade à mudança. O que acontece quando o escritor passa imenso tempo sem ter que lidar com tragédia/catástrofe? Ele baixa a guarda, acostuma-se com o sossego, chega a pensar que a vida não é assim tão terrível, o escritor abre as portas para toda a sorte de ilusões, miragens, até ser pego de surpresa, completamente desprevenido — uma morte, um relacionamento amoroso que de súbito chega ao fim, uma doença incurável, o caos.

O espaço repleto de substâncias invisíveis. Não seria exagero dizer que o escritor se enclausura num sítio solitário justamente a ver se consegue, através da própria literatura, prolongar um bocadinho que seja esse hiato de tranquilidades.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de abril de 2022


Antiquário

Escritor na loja de livros usados abre o livro do Raymond Carver e percebe que a folha de rosto foi arrancada. O escritor se pergunta o motivo: por que teriam arrancado — a julgar pelas inúmeras imperfeições no corte — com tanta fúria a folha de rosto do livro do Raymond Carver? Dizem que este crime livresco é cometido por aqueles que querem evitar o constrangimento de a obra ser encontrada pela pessoa que presenteara o livro. Justo. Mas o escritor não está satisfeito. Ele acredita que a folha de rosto foi arrancada por alguém muito ferido, ferido no peito, como se diz, que a dedicatória foi escrita por um emissor que era próximo, mas que se tornou hostil, e o livro do Raymond Carver passou a causar pavores, perturbações, náuseas, e por isso foi parar ali, na loja de livros usados, perdido, esquecido, com a folha de rosto dilacerada. Sim, é bem esta a hipótese do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de abril de 2022


Partilha de bens

A história da literatura, ou melhor, inventário da literatura, uma lista enorme de misérias, o escritor miserável, com relacionamentos miseráveis, condições miseráveis, abandonos miseráveis, livros igualmente miseráveis, escritores que terminam numa casa de loucos, sozinhos, ou se jogam pela janela, tomam arsênico, abandonam o automóvel no estacionamento, negligenciados, os filhos não se importam, os amigos há muito desapareceram — é esta a sorte do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de abril de 2022


Passeios esporádicos — breve ensaio sobre o desconforto

A batalha constante do escritor, diz o escritor, é sair e sempre tentar se mostrar menos inquieto, doido, inadequado, desajustado, aluado do que realmente é. Abandonar a previsibilidade da própria rotina literária, eis o desafio. Alguém pode observá-lo caminhando distraidamente pela calçada — o escritor como que a conversar com interlocutores invisíveis —, analisa os trajes amarrotados do escritor e pensa consigo mesmo: estranha figura, deve estar com a cabeça algures.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de abril de 2022


Grande penalidade

Para o colega de letras Adam Ehrlich Sachs

O atacante coloca a bola na marca do penalty. É ele, a bola, 60 mil torcedores no estádio, outros milhões a assistir em casa, nos bares, muita gente a olhar o atacante ajeitando a bola na marca do penalty, ele fita o guarda-redes, o guarda-redes como que dança dentro do gol, desengonçado, de um lado para o outro, sem se decidir se há de atirar-se para a esquerda, ou para a direita, ou ficar parado, os braços abertos do guarda-redes, que depois bate as luvas com força, grita, faz caretas, o atacante ajeita a bola, sente vontade de rir das atitudes grotescas do guarda-redes, mas obviamente não ri, o atacante apenas ajeita a bola com as mãos, girando a bola, bonita bola, ele diz, tornando a colocá-la na marca do penalty, os jogadores adversários posicionados fora da grande área, bem como os companheiros de time do atacante, também posicionados fora da grande área, todos a esperar, o atacante agachado, toca na bola com a ponta dos dedos, levanta a bola mais uma vez, aperta a bola com as duas mãos, acha que a bola está um bocadinho murcha, pressiona de novo a bola, sim, definitivamente, murcha, o atacante precisa de avisar ao árbitro, levar a bola até ao árbitro, dizer: senhor árbitro principal, com esta bola não dá, com esta bola eu não bato o penalty, gostava de outra bola, uma que, de preferência, não esteja murcha, mas o atacante só pensa nessa possibilidade, já está a tomar imenso tempo de toda a gente, ao que ele decide ficar com aquela bola mesmo, ou seja, não vai trocar de bola, ele então ajeita as meias, averigua as chuteiras, desamarra os cadarços, e amarra os cadarços, desta vez com demasiada força, tanta força que o atacante sente a circulação sanguínea ser bloqueada pelos cadarços da chuteira, ele levanta, visivelmente incomodado, dá dois chutes na relva, dói, acha que vai desmaiar, dói muito, ele enxuga o suor com o dorso da mão direita, vou desmaiar, ele pensa, não consegue mais distinguir a silhueta do guarda-redes, imagina o pé dentro da chuteira a ficar roxo, o guarda-redes agora é uma mancha amorfa, uma mancha que dança para-lá-e-para-cá, o atacante respira fundo, conta três passos para trás, pé roxo, dor insuportável, coloca as mãos na cintura, o atacante fecha os olhos, o árbitro assopra o apito, autoriza a cobrança do penalty, o atacante corre para chutar a bola.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de abril de 2022


Geografia literária

A título de sobrevivência, o escritor teve de aprender a escrever em, como se diz, «tudo quanto é buraco». Há esta imagem romantizada de certos escritores que cultivaram para si enormes escritórios com toda a sorte de livros, quadros clássicos na parede, clima ameno, e uma confortável poltrona para os momentos de descompressão, mas isso está longe de ser a regra — o escritor ocioso que se debruça sobre a balaustrada para observar o oceano, a luz da escrivaninha (quente e convidativa) que aguarda o devaneio apropriado: quer dizer, poucos conseguem usufruir de tais confortos. Via de regra, existe o barulho do tráfego lá fora, a balbúrdia da feira, as crianças gritam no parquinho do prédio, o vizinho do andar de cima faz reformas, contas a pagar, o almoço que ainda não está pronto, uma qualquer demanda aflige os nervos do escritor. Com o tempo, ele simplesmente deixa de se rebelar contra os incômodos do mundo e, ciente de que sempre sairá derrotado, acaba por abraçá-los. Porém, influenciado pelo meio ambiente, o escritor pode/deve escrever de acordo com o sítio em que está situado. Silêncio, algazarras, mar, campo, mesa de café, coworking, é certinho que os pormenores externos serão (direta ou indiretamente) traduzidos no papel do escritor.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de abril de 2022


Maturidade

À medida que o escritor envelhece, e percebe um cansaço, percebe que as possibilidades começam a se fechar, os caminhos cada vez mais limitados, pequena margem para erro, um passo em falso e tudo desmorona, à medida que envelhece, portanto, o escritor desenvolve uma certa frieza, um distanciamento, constrói para si miragens que proporcionam fundo para incontáveis paixões/idealizações, sem com elas se relacionar diretamente — o escritor, enfim, é engolido pelo teatro de marionetes.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de abril de 2022


Nono andar

Escritor acorda de madrugada. Fica a se mexer na cama, perdido, insone. Ele desiste e vai até à varanda para respirar. Olha para a cidade, que dorme. O escritor não sabe o que está a fazer da vida.

Pergunta qual a importância da privacidade nos dias de hoje, a importância de se ter segredo, de se ter o próprio espaço — físico e mental —, qual a importância de manter determinadas informações somente para si, sem a necessidade (obrigatoriedade[?]) de compartilhá-las com os outros, a importância de se contradizer, mudar de opinião de acordo com as circunstâncias, de se isolar, qual a importância de se manter discreto, invisível, à parte, qual, afinal, a importância do silêncio, do não dizer nada, da fuga voluntária…

Publicado por P. R. Cunha / 8 de abril de 2022


Café latte ou nostalgias de papel

O escritor termina uma obra que demandara tempo (vamos supor: quatro anos), uma força descomunal, obra em gestação que sugara as energias, como se diz, vitais do escritor, consumindo as vontades do escritor, a sanidade do escritor, e agora que a obra está finalizada, agora que o escritor deu à luz um manuscrito que de início se mostrava tão desengonçado quanto um baiacu fora d’água, agora que não há mais sentido meter-se em infinitas pesquisas, acordar cedo para escrever a obra, viajar algures para alimentar a obra, reler os clássicos para estilizar a obra, agora o escritor sente um enorme e impreenchível vazio no coração, e algumas pessoas dizem que isso é bobagem, exagero, capricho de escritor, onde já se viu, mas o escritor acredita neste sofrimento idealizado, neste luto literário, e para ele é isto o que realmente importa.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de abril de 2022


Tempo bom e quente / frustrar expectativas: nenhuma explicação

Céu da livraria —
o lamento
dos escritores mortos


A pergunta é esta: o que faz o escritor? Poder-se-ia poupar o valioso tempo dos leitores, dizer simplesmente que o escritor escreve. Mas não é só isso. O escritor prepara o pequeno-almoço, limpa a casa, leva o enteado ao treino de futebol, o escritor se aborrece no trânsito, levanta as mãos para algum deus invisível quando se depara com o preço da gasolina, o escritor sente tédio, sono, o escritor lê, faz exercício físico (não tanto quanto deveria), o escritor tropeça, pisa num pedaço de chiclete na calçada, o escritor esfrega os óculos, grita gol do Botafogo, depois xinga o zagueiro lento e senil do Botafogo — o escritor bebe água, álcool, suco, café, faz desenhos estranhos nas margens da cadernetinha na qual toma estas notas —, o escritor às vezes está de bom humor, noutras de mau humor. O escritor faz uma infinidade de coisas.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de abril de 2022


Casa-fantasma

Dizem que o escritor morre três vezes. A primeira é quando o corpo deixa de funcionar (cérebro para, coração para, etc.), a segunda é o funeral, o enterro, a cremação, e a terceira é quando o livro do escritor é lido pela última vez. A longa sombra de palavras que ele deixara de herança, agora engolida pelo abismo irreversível do esquecimento. O escritor abandonado e dilapidado, coberto de vegetação, como aquelas casas arruinadas a que os japoneses chamam de akiya. Não restam legados, nem prestígio, nem os prêmios, as noites de gala, não sobra memória, não sobra pedra sobre pedra. Não sobra nada.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de abril de 2022


À deriva (recônditos)

O escritor costuma sonhar que está afundando num enorme oceano, e à medida que ele desce a luz fica cada vez mais difusa, até desaparecer completamente, e o escritor é rodeado pela escuridão marítima. O escritor debate-se como pode e de alguma forma — sonho estranho! — consegue tirar do bolso um lápis e um pedaço de papel. Com imensa dificuldade, tenta escrever, e a cada linha que o escritor escreve ele sente o corpo subir um bocadinho do mar subterrâneo. Ele percebe o mecanismo de salvamento e assim que termina uma frase o escritor logo escreve outra, e outra, e outra, e outra, está a subir, sem, no entanto, jamais alcançar a superfície do oceano.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de abril de 2022


Variações de humor

Solitário, diante de uma folha de papel, o escritor pode escrever incontáveis mentiras numa possível autobiografia, e contar verdades obscenas num texto de ficção. O leitor coça as têmporas. Fica a pergunta: qual das duas versões é o escritor? A resposta enigmática gera ainda mais dúvidas — o escritor é as duas e nenhuma das versões. Ele é ruína em eterna construção, manequim das metamorfoses, troca, muda, mantém. Sabe que não é confiável, e prefere não sê-lo. 

Publicado por P. R. Cunha / 3 de abril de 2022


O caçador de borboletas

O caçador de borboletas está em trajes de domingo. Depois do almoço, ele beija a testa da esposa e diz: bom, é hora de ir caçar as borboletas. No vestíbulo, o caçador pega a própria rede entomológica — aro de arame que sustenta saco de pano, o conjunto preso a um longo cabo de madeira. O caçador bate o cabo no chão, duas-três-vezes, averiguando a resistência do instrumento. Satisfeito com o que vê, ele sai e caminha para o bosque, não fica longe. Algumas gotas de chuva atingem os braços do caçador. Dali a pouco, um homem de fisionomia séria que vem na outra direção (isto é: está a sair do bosque) segura a aba do chapéu com a devida vênia e diz para o caçador: dia ruim, não há borboletas. O caçador inclina a cabeça em forma de agradecimento e continua a entrar no bosque mesmo assim. Ele encontra uma clareira que julga ser adequada, respira fundo, limpa o rosto com a manga da camisa, posiciona a rede de pegar borboletas, e espera.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de abril de 2022


Baile de máscaras

Sou um tipo muito solitário, escreve Brambilla. Preciso de aproximadamente oito horas de sono. Acordo cedo. Durante as 16 horas em que estou acordado, se calhar passo 14 em absoluta solitude. Por vezes tomo notas, por vezes preparo um café, por vezes elaboro hipóteses filosóficas impossíveis de serem confirmadas (i.e.: os buracos negros têm sentimentos?, se sim, quais?). Agora estou a olhar pela janela — as pessoas na rua de certeza devem achar que sou uma espécie de maluco, ou um mero suicida. Não vou pular, eu digo aqui de cima, escreve Brambilla, não se agitem, não vou pular, e por aí adiante. No decorrer dos anos, manufaturei as minhas próprias máscaras, camada após camada após camada. Hoje as máscaras se mostram pesadíssimas. Em certa ocasião, garanti que essas máscaras representavam quem eu era, o Brambilla de sempre, o que não é absolutamente verdade. Nas últimas férias, isso foi em fevereiro, aluguei cinco chalés, só para mim. Num deles, instalei-me com conforto e apreço, já os chalés restantes ficaram desocupados. Dessa forma, evitei imensa dor de cabeça com eventuais vizinhos barulhentos, escreve Brambilla. Monsieur Proust, vim a saber com grande surpresa, fazia o mesmo. Alugava um andar inteiro do hotel no qual se hospedaria: um quarto só para si, os outros conteriam o nada, o silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de março de 2022


Sistema respiratório

A pessoa que lê muito, que escreve muito, que fantasia muito, e numa altura percebe-se saturada diante dos excessos da cidade — sons, imagens, gostos, fumaças —, o cérebro nunca conseguiria processar tanta informação, e não resta outra alternativa para a pessoa a não ser buscar algum tipo de refúgio, geralmente uma vila pequena (Drummond em Itabira, Conrad em Kent, Dinesen em Rungsted), onde não há grotescos painéis publicitários, onde os habitantes andam devagarzinho, as bicicletas substituem os carros ruidosos, onde ainda se pode ver o céu e as praças arborizadas oferecem espaço o suficiente para o descanso imaginativo.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de março de 2022


Inclinações às rotinas

Procuro levar uma vida tranquila e sossegada, pelo menos até onde isso é possível, porque há sempre qualquer coisa — uma doença, o automóvel que precisa de ser consertado, contas a pagar, reformas domésticas, etc. etc. Trabalho melhor no período da manhã, preferencialmente a partir das 8h. Se me atraso, a escrita perde o fôlego. À tarde: caminhadas, responder ao correio eletrônico, pedalar a bicicleta, comer, beber, leituras descompromissadas (cada vez mais difíceis, pois estou sempre em busca de motivos para [d]escrever). Raramente vou a festas, confraternizações, reunião de ex-alunos, pois as multidões (inclusive as pequenas) me aborrecem. Gosto, portanto, de ficar em casa, repetir sempre as mesmas tarefas, e, além da minha esposa e do meu enteado, devo ter, se muito, uns quatro ou cinco amigos.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de março de 2022


Camadas

Gosto de estar longe, de ficar várias horas sem pronunciar palavra, gosto de água gaseificada, janelas rústicas, vistas para as montanhas, gosto do Botafogo de Futebol e Regatas, do primeiro gole de café antes de começar a escrever, gosto da minha solidão crônica, dos livros de papel, tipologias asiáticas, gosto do Chet Baker, dos absurdos, das imprevisibilidades, gosto do Cioran, do Schopenhauer, do Baruch Spinoza, gosto de aparecer & desaparecer.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de março de 2022


Lar, solitário

Uma fuga ligada a um sentimento de culpa, quando aquele que deseja estar alhures escreve bilhetes explicativos numa vã tentativa de poupar/livrar os que ficam para trás (não leva para o pessoal, ou não és culpada de nada, ou cheguei ao fundo do poço, etc. etc.) — este é o tipo de desaparecimento que costuma dar mau resultado. Ir-se embora num lapso imprevisível, experimentar o agridoce abandono, a liberdade, não dar satisfações, ler Pascal à sombra de uma jabuticabeira, perceber que, sim, boa parte dos problemas humanos decorre da incapacidade de ficarmos quietos num quarto vazio.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de março de 2022


Pressentir

Talvez eu já sentisse isso em criança, enquanto esperava meu pai depois do treino de futebol, sozinho, a atmosfera azulada do fim de tarde, ou durante a reprimenda de algum professor na escola, a dizer que eu não daria conta, que eu não tinha jeito, caso perdido, ou nas missas dominicais, as senhoras vestidas de preto, com os rostos manchados, a tristeza naquelas vozes que entoavam hinos religiosos em ré menor, enquanto o ponteiro do relógio parecia perdido num abismo eterno, ou mesmo no início da adolescência, quando a menina por quem eu me apaixonara dissera «não quero mais estar contigo», nós dois prostrados perto da entrada do cinema, eu com os bilhetes no bolso, e de um momento para o outro, a vontade, ou melhor, a necessidade irreversível de estar nenhures.

Em 1810, Heinrich von Kleist escreveu o ensaio «Sobre o teatro de marionetes». A calma e a destreza desse trabalho, diz Idris Parry — estudioso da obra de Kleist —, sugerem um homem confiante, engajado, firmemente no controle.

No ano seguinte, Kleist deu-se um tiro na têmpora.

David Foster Wallace, durante discurso aos alunos finalistas do Kenyon College (algumas ideias, expressas numa ocasião importante, sobre como viver uma vida compassiva), David Foster ajeita o microfone diante de si, faz que vai beber um gole d’água mas não bebe, comenta que não há a mínima coincidência no facto de os adultos que cometem suicídio com armas de fogo darem quase sempre um tiro na… cabeça.

O escritor que realmente deseja o desaparecimento dos seus livros (e de si mesmo, eu acrescentaria) não encarrega outro dessa tarefa. Esse é o argumento de Jorge Luis Borges, que acreditava que Kafka e Virgílio não queriam a destruição dos próprios manuscritos, ansiavam apenas por se desligarem da responsabilidade que uma obra sempre nos impõe.

Wittgenstein relembra a história de um amigo que, em casa, ao remexer numa gaveta cheia de textos inacabados, estes lhe pareciam tão excelentes que ele (o amigo de Wittgenstein) pensava que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. Mas bastava cogitar na possibilidade de publicar uma seleção desses escritos para, de súbito, as coisas perderem o encanto e o valor. O projeto tornava-se impossível.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de março de 2022


Partidas falsas (dois esboços que [ainda] não foram a parte alguma)

Escrevo isto no escuro, com a minha mão esquerda, pois a outra está a segurar uma pistola. Tudo o que eu queria era chegar em casa como toda a gente — protegido, despreocupado. A verdade é que ninguém em sã consciência espera abrir a porta do próprio apartamento e se deparar com aquilo que vi…

*

Depois de quase quatro anos de casamento, eles finalmente conseguiram sincronizar o período das férias e alugaram uma cabana algures. À noite, ele abriu a porta da varanda, encostou-se na balaustrada de madeira e ficou a observar as estrelas. Ela também se aproximou. Ele apontou para a constelação do Cisne e disse: enxergamos padrões nas coisas mais exdrúxulas. Ela permaneceu em silêncio, sem olhar para ele. Ele continuou: não parece com um cisne, não mesmo. Ela hesitou, algumas lágrimas discretas começaram a cair, e disse:

Publicado por P. R. Cunha / 24 de março de 2022


Sítios afastados

Para sentir nostalgia, vontades de ir morar para o campo, é necessário antes ter tido alguma experiência, como se diz, campestre. Certa manhã a pessoa acorda e percebe a janela de madeira aberta: lá fora cantam os pássaros, o sol baixo e preguiçoso abraça a relva ainda molhada, vento agradável, o aroma do café a preencher o quarto, em silêncio. Quanto mais passageira e efêmera, mais a experiência parece causar saudades indeléveis. Esses fragmentos de paisagem, portanto, teriam interesse para quem os presenciara — porque lá estava e sentiu algo. Mas qualquer pessoa que não compartilhe das mesmas idealizações olhará para elas com fria indiferença. Sempre foi assim.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de março de 2022


Samuel Beckett e outras tentativas absurdas

À espera de Godot (que hoje não virá, talvez amanhã), Pozzo — suposto aristocrata que garante possuir piano Steinway e cuja vestimenta mostra-se em péssimas condições — reflete a respeito da jornada humana neste estranho planeta: «Dão à luz já à beira do túmulo, o dia ilumina por um instantinho, depois, mais uma vez, volta a cair a noite».

Pozzo (poço, em italiano) é Beckett, ou melhor, um boneco de Beckett, marionete. Autor ciente da brevidade existencial, ainda mais se comparada às escalas vertiginosas de um cosmo guloso e indiferente que não para de se esticar.

Numa palavra: acordamos, espirramos, e de súbito deixamos de existir. De aí certo sentimento de urgência, de não querer perder tempo, pois o ponteiro do relógio, a despeito das ilusões relativas, continua girando.

Tic-tac-tic-tac-tic-tac, como uma bomba guardada na mochila. Tentamos nos livrar da mochila, mas ela está colada às costas.

Acumulamos informações e filtramos tudo de acordo com a nossa, como se diz, personalidade. Conjecturamos sobre o tipo de pessoa que queremos ser: como nos comportar, como agir, quais palavras devemos utilizar, se é melhor permanecermos em silêncio, mostrar-nos calmos, sensatos, equilibrados — uma obra, portanto, em constante transformação.

Levantamos e/ou derrubamos muros enquanto dançamos a música de tentativas e erros. Moldamos a estrutura à medida que nos deparamos com os materiais de uma vida que pode ser tudo, menos previsível.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de março de 2022


Intimidades

Goethe não me intimida, Machado de Assis não me intimida, Clarice Lispector me intimida, Beckett me intimida, Faulkner não me intimida, Susan Sontag me intimida, Philip Roth não me intimida, Thomas Bernhard e Sterne e Kafka me intimidam muitíssimo, Novalis me intimida, DeLillo não me intimida, Claudio Magris me intimida, Jonathan Franzen não me intimida, Ivan Turguêniev me intimida, Montaigne me intimida, Raymond Carver me intimida, DFW também me intimida, Sylvia Plath me-intimida-e-não-me-intimida, Dostoiévski de certeza que me intimida, H. P. Lovecraft me intimida, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin me intimidam, Mario Vargas Llosa não me intimida, Agustina Bessa-Luís me intimida, Walser sempre me intimidou, Wittgenstein me intimida, Fitzgerald me intimida brandamente, Virginia Woolf não me intimida, Borges me intimida, W. G. Sebald me intimida mais do que toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de março de 2022


Premonições (ou as múltiplas faces do abandono)

Ingênuo mecanismo de defesa, imaginar o que ainda está por vir utilizando as ferramentas disponíveis no presente — alternativa àqueles que buscam tranquilidade/continuidade neste mundo em que os pormenores humanos são, com frequência, representados de maneira caótica, destrutiva, efêmera. O sujeito que se arrisca às margens dessas falésias temporais utiliza um mapa ardiloso cujas diretrizes mostram-se borradas pelas tintas do agora e do passado. Dir-se-ia que à medida que o sujeito investigasse as coisas do mapa, não há dúvida de que entenderia muitas delas de um jeito completamente equivocado. A metáfora marítima funciona igual: o navio move-se de determinada maneira quando o oceano está calmo, boas condições meteorológicas, mas não sabemos ao certo o que pode acontecer se durante uma tempestade ondas irascíveis atingirem-lhe o casco. O futuro não é simples equação matemática, há infinitas variáveis, diversos fatores que influenciam os resultados. Trata-se de uma marcha sinuosa, rotas que se bifurcam exponencialmente, que se alteram a cada mínimo movimento do navio. Qualquer exercício de previsibilidade — por mais intuitivo que pareça — será, portanto, mera especulação. Acrescente-se ainda a certeza de que as regras sociais estão sempre a mudar, a depender de interesses (alguns mais obscuros e discutíveis do que outros). O que é correto e digno de louvor hoje, pode muito bem ser inadmissível e reprovável amanhã. Bastaria uma rápida análise das imensas contradições que permearam os últimos séculos para perceber essa maleabilidade. Num determinado momento, glorificamos certas atitudes, enaltecemos este ou aquele indivíduo, construímos estátuas e monumentos aos heróis circunstanciais, para dali a pouco atacarmos essas mesmas atitudes, repreendermos os mesmos indivíduos, derrubarmos as mesmas estátuas, os mesmos monumentos. Os heróis são demonizados, enquanto os antigos demônios agora recebem os novos elogios, sorriem friamente com a possibilidade de retornarem ao trono do império. Mudanças bruscas de valores, ideologias, princípios, símbolos. O que a história da civilização também insiste em demonstrar é que essas transformações estão longe de serem colocadas em prática de acordo com os interesses da maioria, são antes impostas por pequenos grupos dominantes, que explicam, deturpam, confundem, alteram, inventam toda a sorte de narrativas para justificar as próprias atrocidades. E, pelo menos aparentemente, não há indícios de que isso vá mudar tão cedo.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de março de 2022


Parecer

O artista às vezes só está à procura de um receptor compreensível no meio da multidão — porém, cansado de buscá-lo, cansado das recusas, das ilusões, dos desentendimentos, cansado (acima de tudo) da indiferença, recolhe-se ao isolamento silencioso. Pode até continuar a criar, mas de uma forma que ninguém consiga ver. Artista invisível, um ideal.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de março de 2022


Experiências enterradas

Franz ainda faz planos para o futuro. Diz que numa altura vai terminar de escrever o livro que esquecera na gaveta, que retomará a rotina de exercícios físicos, que irá se alimentar melhor, que se dedicará aos amigos, que arrumará o sótão, que cortará a grama do jardim. Numa altura, mas não hoje, não agora, talvez amanhã. Imensas vezes Franz é assolado pela angústia, pois sabe que por mais previsível que essa existência possa se mostrar, tudo nela é mutável, precário, transitório. Como naquela noite de primavera em que Franz se preparava para dormir, e o telefone tocou, e o policial dera a notícia que todos os pais temem receber.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de março de 2022


Descrição dos traços (metáfora equilibrista [de novo])

Como condená-lo
se ao sair precisa
de enfrentar

terríveis intempéries —
e quando retorna
encontra refúgio
nas cabanas de papel?


Poder-se-ia insistir no seguinte retrato: alguém inclina-se à escrivaninha, ar alheado, cabelos avulsos, como se não dormisse há dias, um reflexo distorcido de ansiedades, isolamento, persistência, reclusão, certa paranoia…, «a história de uma existência no buraco».

Alguém que estivesse sempre a andar, ou melhor, a engatilhar na corda bamba, atormentado pelas vertigens.

Alguém que causasse fascínio e estranhamento, que condenasse tudo, que se contradissesse (hoje pensa assim, amanhã de outra forma, depois torna a pensar como pensava ontem, e por aí adiante) — rupturas, descontinuidade, refluxos, insensatez.

Quanto mais turbulento e atroz o mundo exterior se mostra, quanto mais caótico, excessivo, fabricado, censurável, instantâneo, mais ele procura impor uma narrativa previsível para si mesmo. O clássico embate: matéria orgânica a lidar com entropia (i.e. indiferença) inorgânica.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de março de 2022


Complexos habitacionais

Se o escritor tem um dia de trabalho ruim, quer dizer, se escreve pouco, ou mal, ou nada, não consegue se concentrar, a cabeça orbita nenhures, os olhos ardem, perambula de um lado para o outro, ataques neuróticos, presta imensa atenção nas paredes, nos padrões dos tijolos, curiosos fractais, na poeira que se acumula perto das estantes de livros, na árvore que chacoalha lá fora, transe hipnótico, um quase-morto estendido na cama: esse simulacro de sepultura, como dissera Jerome K., «em que esticamos nossos membros cansados e imergimos no silêncio e no repouso».

*

O prédio residencial era uma gigantesca estrutura brutalista. Retangular, cinza. Diziam que indestrutível. O próprio engenheiro responsável pelas obras repetira imensas vezes essa palavra: indestrutível. Inclusive, ao finalizar o projeto, sugeriu à imobiliária que destacasse o adjetivo na capa da brochura promocional, sugestão devidamente acatada pela equipe publicitária. «GOSTAVA DE MORAR NUM APARTAMENTO INDESTRUTÍVEL?», perguntava a brochura em letras garrafais. À noite, quando acendiam os postes de luz fluorescente, o edifício parecia um cárcere. Os moradores não se incomodavam com aquela aparência lúgubre. Ou melhor: talvez alguns se incomodassem, mas não chegavam a, como se diz, verbalizar o incômodo. O síndico era um homem carrancudo que andava na casa dos quarenta anos mas aparentava ter quase setenta. Ossos do ofício, ele se lamentava. Certo dia o síndico estava a fazer a vistoria da praxe e percebeu umas rachaduras no concreto do prédio. Pequenas rachaduras, ele repetiu para si mesmo, nada com o que se preocupar. Tão insignificantes que o síndico sequer tocou no assunto durante a reunião do condomínio. Apenas garantiu que estava tudo, absolutamente tudo sob controle. Os moradores assentiram com a cabeça e retornaram aos respectivos apartamentos. Dias depois, as rachaduras já não estavam assim tão pequenas. O síndico, porém, insistia consigo que não era nada, não havia necessidade de pânico. Algumas semanas se passaram e desta vez foram os próprios moradores que começaram a notar a curiosa teia que cortava as paredes do prédio, alastrando-se aos andares mais altos. Chamaram o síndico. O síndico coçou as têmporas, observava surpreso, perplexo, atônito, como se as rachaduras fossem a gestação de um alienígena hostil. O síndico passou a mão na parede, olhou para cima, fez ar de quem entende do assunto, deu batidinhas de leve, sorriu e disse: dilatação natural do concreto, nada com o que se preocupar. Cerca de três meses depois, as rachaduras tatuavam toda a fachada do prédio, que agora parecia o poroso leito de um rio em extinção. Muitos moradores decidiram que a situação havia passado dos limites aceitáveis, fizeram as malas, contrataram as carrinhas de mudança e foram-se embora. Outros preferiram dar um voto de confiança ao síndico, que insistia no discurso de «está tudo bem, não é nada, rachaduras normais, qualquer um que entenda minimamente de engenharia saberá o que estou a dizer», etc. Até que numa soalheira tarde de domingo em que o céu azul e sem nuvens ofuscava a vista de toda a gente, ouviu-se o estrondoso barulho do primeiro bloco de concreto a cair, e logo depois outro pedaço de concreto, e logo mais outro pedaço. Desesperados, os moradores evacuavam o prédio às pressas, enquanto o síndico permanecia imóvel na guarita da portaria, mastigando o pão com mortadela, bebericando o café com leite que começava a esfriar.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de março de 2022


Encosta abaixo (ou alguns aspectos da alma humana)

Amiúde, buscam o céu com tanta voracidade que sequer percebem o precipício ao lado — só quando tropeçam.

*

Escrever é um pouco como conduzir automóvel: alguns dirigem melhor do que outros, mas isso não tem muita importância se o destino (objetivo) final é alcançado. Motorista habilidoso que adotasse um estilo inovador ao volante mas que nunca conseguisse chegar ao ponto que realmente almeja: se é isto um motorista útil?

*

Na luta constante contra a total falta de sentido/propósito das coisas, qualquer pedaço de madeira é âncora para o náufrago.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de março de 2022


Interesses

Homem da cidade se perde e vai parar numa remota aldeia. Todos o recebem de braços abertos, tratam-no com muita reverência, como se ele fosse um corajoso aventureiro, um ser humano excepcional, oferecem-lhe cervejas, abundantes refeições, as moças da aldeia suspiram, fitam-no com vontades ilícitas, o melhor quarto da estalagem é oferecido ao homem da cidade — que fica envaidecido com aquele caloroso acolhimento e decide, como se diz, mudar-se de vez para a aldeia. Acontece que em pouquíssimo tempo o homem da cidade se mostra tão monótono, fútil, rude, vazio, tão estúpido quanto toda a gente que os aldeões — arrependidos e, com certa razão, sentindo-se enganados — perdem o interesse.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de março de 2022


Acúmulo de conhecimento

Luzes artificiais, piscina que imita as ondas do oceano, neve fabricada por gasóleo, ar viciado, telas de silício, coração feito por impressora 3D, robô-recepcionista, bitcoins, cansaço constante, lagos no deserto, bombas, superpopulação, colônia penal em Marte, gás lacrimogêneo, falta de vontade, neurolinks, sala de espera, propagandas, centros comerciais, pornografia virtual, espaço aéreo, hegemonias, esgotamento, narrativas convenientes, fábricas bélicas, símbolos, escritórios, construção de valores, tentativa de suicídio, laboratório químico, complexo viário, delírios, campeonato mundial de futebol, manifestações, preço da soja, síndrome de perseguição, jornada de trabalho, bebida alcoólica, tecidos sintéticos, vulcanismo, transplante facial.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de março de 2022


Perturbação potencial

Dali a pouco, abre-se a janela para ver se condições adequadas. Uma neblina se dissipa, mas o tormento da incerteza não tem fim. Hesitar — porque ainda não é tempo de sair. As fugas nem sempre são repentinas/irrefletidas (como nos filmes), por vezes elas se constroem às prestações.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de março de 2022


Cerâmica

Empreitada contraintuitiva tentar se livrar do barro trazido pela chuva enquanto a tempestade insiste em cair. Tão logo passamos o rodo, e o átrio se inunda novamente. 

Publicado por P. R. Cunha / 8 de março de 2022


Limiares

O metódico repete-se porque encontrara refúgio de calma e previsibilidade no meio do oceano irascível com ondas contraditórias. Sente-se seguro nesta fortaleza, aproveita-se do caráter contínuo, disciplinado, das ferramentas que o protegem das inquietações externas. Pragmático, não quer conquistar nada nem ninguém, não alimenta ilusões desnecessárias a respeito dos pormenores mundanos: muitas vezes, o metódico sequer consegue abraçar a si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de março de 2022


Descarga elétrica entre nuvens

Num desses rompantes criativos que surgem quando menos se espera, e nenhum lápis, nenhuma caneta no bolso para tomar as devidas notas — apenas o bom, e velho, e gelatinoso, e imprevisível cérebro, dispersas associações de conceitos, repetir imensas vezes as mesmas frases, até que algo se fossilize na memória, um qualquer vestígio da tal grande ideia.

Pequena habitação perdida no meio do nada, quarenta minutos de distância (se automóvel) da próxima localidade humana. Longe de tudo e de todos, como se diz, das exigências cívicas, do torturante contato social, sentado numa cadeira improvisada, rodeado de árvores, morros, um vasto campo que se extende ao infinito. De manhã, enquanto a água do café está a ferver, escuta-se o cacarejo das galinhas.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de março de 2022


Imperativo categórico

Paralisia, marasmo, dormência, torpor, abatimento quando se enaltece de forma desacerbada um passado com modificações voluntárias e/ou involuntárias — o rio decrépito converte-se num cristalino curso d’água, tarde de fortes tempestades ganha ares de manhã soalheira, o gosto amargo dos medicamentos é substituído pelo doce sumo de uma fruta tropical, sim vira não, dores viram êxtases, traumas substituídos por miragens, fantasias. Passado idealizado que não existe mais (se é que alguma vez existiu), passado refém dos imperativos da entropia, a flecha do tempo numa única direção, sem retorno. Nostalgia: mecanismo de defesa, refúgio, esconderijo. Como uma remota ilha que será atingida por tsunami, onde tudo parece calmo e estável, enquanto os animais se inquietam, olham para os lados, buscam lugares mais altos bem antes da chegada das ondas, reagem, portanto, a um instinto que lhes anuncia um cataclismo, compreendem que algo terrível está prestes a acontecer.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de março de 2022


Saltos

Cada empreitada criativa aproxima o criador de um abismo imprevisível. Alguns hesitam, sentem vertigem, tonturas, outros pulam, podem até fechar os olhos, sem saber ao certo se será uma queda eufórica ou sinistra. A mesma ideia pode ser utilizada na analogia criador-alpinista, que antes de escalar a montanha criativa não percebe o que se esconde no cume nebuloso: desespero, tranquilidade, alucinações, catarse… loucura?

Publicado por P. R. Cunha / 4 de março de 2022


Precipício infinito (Café Wittgenstein)

Cordilheiras de livros acumulados sobre a escrivaninha, nas paredes, ao redor da cama, dentro dos armários, livros no chão, na despensa, livros na cozinha, atrás das portas, no pequeno sofá de dois lugares — e de súbito uma inquietação, ou melhor, uma necessidade de se estar algures, necessidade de fugir dos cárceres: físicos e mentais.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de março de 2022


Megalofobia

Como as coisas funcionam, exposições narrativas, quantos casais se divorciaram, teorias econômicas, história da arte assimétrica, as fornalhas que se apagam, as pessoas fingem entusiasmos, muito telemóvel, contrastes lógicos, questões polêmicas carregadas de sentimentos ambíguos, práticas culturais, o mais próximo possível de um não-discurso, idade das trevas, vertigem, carvalhos envelhecidos no México, existir não faz sentido, síndrome do impostor, construir edifícios, máscaras, caminhadas solitárias, filosofias africanas, livros bons, a luta para salvar a vinícola, retratos químicos, algumas pessoas estão sempre atrasadas, nada possui qualquer significado intrínseco no universo, falésias, livros ruins, destruir lentamente a memória do que passou, Belfast, as pessoas também perdem o entusiasmo, imagens poderosas, criar propósitos artificiais, causa e efeito, positivo e negativo, fugas, culpas, descrições, alguém que senta no canto de um quarto vazio e confessa, série de eventos não relacionados, esconderijos, arranjos de aproximações, a impermanência de tudo, sequências temporais, elucidar, confundir, empurrar, conter, como prevenir a morte súbita do coração, revisionismos, o passado, o futuro, o comboio que vai à frente, o comboio que não funciona mais — a despeito de todo o testemunho documental, Paul, na realidade, nunca existiu: apenas esta figura fantasmagórica diante de espelhos distorcidos. 

Publicado por P. R. Cunha / 27 de fevereiro de 2022


Imortalidades

Paul está a ler Miguel de Unamuno, folheia o livro, sublinha isto: a vida humana é trágica porque temos a consciência de que vamos morrer. Gasta-se muito tempo, anota Paul na margem da folha, em vãs tentativas de se sobreviver à morte, seja num sentido simbólico, místico-religioso, ou mesmo numa inútil elevação de status social — regalias que, como sabemos, o morto não poderá usufruir. Deixa-se um legado póstumo, heranças, diário de memórias, empresa bem-sucedida, automóveis, apartamentos, uma quantidade absurda de quinquilharias, deixa-se uma «ideologia», um exemplo, uma carta de amor, a ingenuidade do combatente que se joga sobre a granada, pois de certeza (será mesmo?) que irão organizar eventos com toda a pompa para que todos (menos o combatente) possam rememorar esse ato heroico e destemido. A empreitada absurda, insiste Paul já quase preenchendo toda a página do livro de Unamuno, alastra-se também ao campo científico, à cosmologia, por exemplo, astrônomos que viverão, o quê, até aos 80/90 anos conjecturando dia-e-noite sobre o fim do universo, um evento para daqui a bilhões de séculos, quando nem a estrela mais persistente poderá contar como realmente foi.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de fevereiro de 2022


Mecanismos de reconhecimento

A mente de Paul também é ávida pela busca de padrões. Ele olha para as sombras da Lua e percebe um coelho. Ou quando Paul deita na relva numa manhã particularmente amena e observa as nuvens que formam variedade de objetos, rostos, bestiário, sequências ocultas. Se distraído, é certinho que Paul será ludibriado por essas miragens a que a literatura científica chama de pareidolia — «tendência do cérebro de impor interpretações a um estímulo vago e nebuloso, significado onde não há nenhum». Com esses pensamentos na cabeça, Paul debruça-se sobre o papel e logo se distrai com as manchas na madeira da mesa: ondas claras e escuras, alguns desgastes que se assemelham a penhascos, variações da cor cremosa, rios que correm para todos os lados, ou, quem saberia, uma fotografia do planeta Júpiter tirada muito de perto. Prestes a inventar algum pormenor filosófico, Paul enxerga nessas paisagens de madeira um número infinito de possibilidades. E por mais bem polidas e bem selecionadas, ele compreende que as palavras que utiliza não passam de aproximações insuficientes dos próprios pensamentos. No entanto, isso não impede que Paul continue a tentar.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de fevereiro de 2022


Trajetória orbital

Dizem que a melhor qualidade de Paul é a persistência: não importa o que esteja acontecendo em redor, na cidade, no país, no mundo, enorme asteroide pode estar em rota de colisão com o planeta, Paul doente ou saudável, chuva ou sol, barulho ou silêncio, na praia ou na montanha, no papel ou no computador, ele está sempre a escrever, a filosofar, a fazer perguntas. Aprendera a construir refúgios mentais. Mesmo quando rodeado por multidões, Paul se isola em si mesmo, como que hipnotizado, em transe. Entende que a tarefa de aliviar a angústia das transitoriedades (amanhã posso não existir, conflitos bélicos, crises econômicas, mortes, desastres [como já foi dito noutra ocasião]) requer paliativos rigorosos — algo difícil de se alcançar se estamos constantemente presos às correntes, às normas, às construções culturais: leis, entretenimentos diversos, costumes, identidades nacionais, religiões, mitos, etc., que mitigam, ou melhor, anestesiam os efeitos debilitantes que acompanham a consciência da nossa insignificância. Válvulas de escape, repete Paul, frágeis técnicas de adestramento coletivo. Um movimento em falso, e o castelo de cartas vai abaixo, desabam as vigas e o animal humano se vê exposto as intempéries. Basta apenas uma mudança ínfima, uma pequena alteração nas regras, e nada mais é como era antes, escreve Paul. Saber que as coisas mudam, por mais que busquemos rotinas, estabilidades, saber, portanto, que nada permanece da mesma forma.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de fevereiro de 2022


Valhala

Por vezes as memórias se dissipam quando Paul tenta recordar, mas criam casas na mente quando ele quer esquecer. Como pode a mesma sensação que há pouco oferecia-me os maiores regozijos, pensa Paul, agora me causar tremenda repulsa, e me destruir sem qualquer cerimônia? Tal e qual aqueles casais que passam décadas juntos, e dividem a cama, e tomam o pequeno-almoço, e têm filhos, e compartilham segredos atrozes, até que, de súbito, um não consegue mais olhar na cara do outro, sentem antipatia, raiva infinita, desgosto, agonias, como se fossem dois estranhos que precisam de sentar juntos durante uma longa e tediosa viagem de avião. Paul lembra dos traços aéreos de A vigília da valquíria, quadro pintado por Edward Robert Hughes — a dama melancólica iluminada pela luz etérea da Lua, o vestido translúcido, sentada na balaustrada de um castelo, segurando espada que de certeza pertencera a algum soldado abatido em batalha. Sabe-se que na mitologia nórdica as valquírias eram divindades que escolhiam os mortos mais corajosos, serviam hidromel e cerveja às almas belicosas antes de levá-las a Odin, que recrutava guerreiros para a batalha do fim do mundo. Pode-se dizer que os neurônios de Paul são como valquírias escondidas dentro da cabeça, ressuscitando memórias moribundas, a criar um estranho arsenal consciente prestes a lutar contra um inimigo desconhecido. E Paul acha graça nessa analogia.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de fevereiro de 2022


Paul abre janelas para realidades invisíveis

Quando chove, o barulho dos trovões repercute pela casa, como se simulasse um pequeno tremor de terra, alguns móveis chacoalham e Paul se aproxima do parapeito da janela para não só admirar a fúria da tempestade como também para entregar-se à toda a sorte de questionamentos sobre sentidos e propósitos. Rajada de vento acerta-lhe o rosto enquanto Paul se perde em devaneios hipnóticos, pontes para diferentes estágios da realidade — como ele gosta de acreditar. Sabe-se que a natureza é fonte inesgotável de acontecimentos imprevisíveis. Um planeta indiferente que pode até oferecer alguns prazeres aos habitantes, mas também deixa-os desprevenidos, atônitos, desabrigados, frustra tentativas convencionais de gerar sentido, um planeta produtor de cataclismos que colocam o animal humano diante do precipício: Paul olha para o despenhadeiro refletindo sobre os limites da própria razão, essas fronteiras imaginárias sempre prestes a sucumbir. Nuvens cor de pólvora mancham o céu, escondem a linha do horizonte. Paul se esforça para encontrar padrões neste cenário desolador, e numa altura em que a melancolia se faz implacável ele escreve que filosofar é transcender, mesmo que temporariamente, o caráter definitivo da minha morte.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de fevereiro de 2022


Romênia

Paul faz a toalete. Quer evitar o cliché «pensador-que-se-observa-no-espelho» entregando-se a longas e imprevisíveis ruminações. Não vou fazê-lo, ele diz para a própria imagem refletida — a palidez da face, os olhos castanhos de criança, o cabelo claro. Paul faz a barba e recorda de uma amiga romena que estava a passear num parque em Bucareste. Era outono e as folhas das árvores caíam sobre a trilha que levava o caminhante a uma espécie de praça central, onde a filha e o marido dessa amiga de Paul a aguardavam para o piquenique. A verdade é que caminhamos num parque em Bucareste e jamais imaginamos que o pior pode acontecer, ainda mais numa manhã soalheira de outono em que o ar puro e a temperatura aprazível sugerem, sem dúvida, uma qualquer boa-vontade de existir, pensa Paul. Minha amiga a caminhar nesse parque em Bucareste, ele continua, e há um bueiro destampado escondido pelas folhas que caíam, acumulavam-se e criavam travesseiros vegetais em pontos aleatórios da trilha. Minha amiga olha para frente, a encher-se de expectativa, em breve encontrará marido e filha que a esperam embaixo do gazebo da praça central, minha amiga de cabeça erguida, continua Paul, talvez sorrisse, e, de repente, um barulho seco, grave, e outros frequentadores do parque se aproximam para ver o que aconteceu, diz Paul enquanto desliza a navalha perto do queixo, e os paramédicos do parque correm na direção do corpo estendido da minha amiga romena, temendo pelo pior. Paul limpa a navalha na água corrente da pia: podemos estar aqui um momento, e um instante depois, desaparecemos.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de fevereiro de 2022


Inclinações obsessivas

Esta contínua e repetitiva atração de Paul pelos fantasmas: representações conscientes e inconscientes daquilo a que chamam de «mundo real» — as cores que enxergamos, as formas, os sons que escutamos, as texturas, os aromas que sentimos, elementos processados pelo cérebro, que, para criar algum padrão, mastiga e descarta quantidade absurda de informações, infinitos detalhes que se perdem durante o procedimento, e Paul fica apenas com o mínimo, com a matéria bruta, umas miragens simplificadas. Quando ele reflete demasiadamente a respeito desses simulacros, das ilusões imaginadas, daquilo que enxerga mas não armazena, quando ele tenta se concentrar em outras tarefas e não consegue porque imerso num looping simbólico, Paul pensa na possibilidade de ele mesmo ser uma figura espectral dentro deste universo de espelhos retorcidos, uma mera mancha redundante no horizonte de outras criaturas diáfanas.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de fevereiro de 2022


Falésias (ou o que realmente atrai Paul está sempre em outro sítio, e ele nunca faz a ideia de onde fica esse outro sítio)

De manhãzinha, alguém convida Paul para um evento noturno, e às vezes calha de ele estar, como se diz, predisposto e receptivo, ao que, guiado por arranjos canhestros de dopamina — via de regra causados pela imprevisibilidade de uma chávena de café —, Paul diz «sim» sem saber ao certo no que está a meter-se. Num primeiro momento, Paul sente branda expectativa para o evento noturno, percebe as movimentações incomuns no sistema neurológico, diz consigo: até que não é assim tão mau, isto de ter a possibilidade de sair. Mas à medida que as horas passam, e o organismo de Paul reequilibra-se, e os neurotransmissores reequilibram-se, e a euforia também reequilibra-se, ele começa a sentir uma estranha ansiedade durante a qual confusão e pavor glaciar se alternam. Durante o impasse (ligar para dizer que não vai mais ao evento vs. ir ao evento na mesma), Paul se pergunta se é possível que uma alma tão inquieta quanto a dele sinta-se feliz, genuinamente feliz, e não aquela alegria efêmera e fugidia que sentimos quando ingerimos imensas doses de açúcar, ou quando somos brevemente correspondidos por uma pessoa que nos atrai: sou convidado para um evento noturno, reflete Paul, e digo sim ao convite, e compareço ao evento noturno, mesmo que na altura já não queira mais ir ao evento noturno, continua Paul, mesmo que só de escutar os termos «evento noturno» eu seja invadido por uma ojeriza inominável, e nada, absolutamente nada me agrada no evento noturno, diz Paul, nem o tosco local que escolheram, nem aquela petiscaria insalubre, nem a música estúpida, nem os seres humanos (muito menos os seres humanos, destaca Paul), e embriagado por aquela atmosfera sufocante questiono-me se não teria sido melhor ter ficado em casa com meus livros, diz Paul, com meu Bernhard, meu Jünger, meu Beckett, minha Virginia Woolf, minha Lispector, minha Zadie Smith, a velha certeza do não-pertencimento, de futilidade, onde quer que eu vá, continua Paul, e finjo interesse pelo que não me interessa, finjo ouvir o que não estou ouvindo, balanço a cabeça mecanicamente, sorrio mecanicamente, ingiro bebidas mecanicamente, diz Paul, sem nunca ser pego no flagra, sem nunca perceberem que «não estou ali de facto».

Publicado por P. R. Cunha / 19 de fevereiro de 2022


As luzes dos postes de eletricidade se apagam automaticamente com a chegada da primeira radiação solar

Paul não faz ideia de quanto tempo está deitado na cama, o ventilador gira e produz ruído branco, densidade espectral de potência constante, os lençóis cobrem a metade do corpo, não lhe apetece levantar. Desapegar-se discretamente do mundo, sem alardes, sem bilhete, sem preparativos, dar contornos claros às inquietações, um passeio sem volta, sem vestígios — quantas vezes Paul não cogitou nessas possibilidades. A vida não passa de um desaparecimento constante, disse Arthur Schopenhauer, com quem Paul costuma concordar. Uma perpétua máquina de misérias desprovida de significado ou propósito além de um autoconsumo cego e estúpido. Às vezes Paul nem sequer abre as cortinas, fica ali deitado na cama, ruminando na escuridão, enquanto lá fora cai a chuva persistente. O maquinário de Paul rejeita a retórica do «faz sentido» com a qual muitos seres humanos buscam impor uma qualquer ordem nesta natureza fundamentalmente desordenada, caótica, natureza indiferente — nunca é demais repetir. Paul tateia a mesinha de cabeceira. Deixa cair duas caixinhas de remédio. Pega o bloco-notas e escreve sem se preocupar com a tipologia: depois de uma temporada amena em Florença, Michelstaedter, já a nutrir má vontade generalizada e irreversível por tudo e por todos, termina os apêndices críticos da própria obra, enviando o manuscrito final em 16 de outubro de 1910. No frontispício da tese, desenha uma lamparina com o enigmático termo grego — apesbésthen («eu me apaguei»). 17 de outubro: Michelstaedter mete uma bala de pistola na cabeça. Tinha 23 anos na altura. Há quem prefira acreditar em coisas como progressões lineares, estabilidade de significados, compreensão dos elementos materiais, propósitos, céu, inferno, deuses aborrecidos com o comportamento de criaturas minúsculas, missões, objetivos, legado, nada seria em vão, escreve Paul e recoloca o bloco-notas sobre a mesinha de cabeceira.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de fevereiro de 2022


Reverso

Paul, que nunca foi de escrever poemas, escreveu:

Brasília. Cidade
vulnerável. Para se

proteger esconde-se
atrás do concreto armado.

E, outra vez, faz perante si próprio a mesma pergunta com a qual se vê às voltas sempre que as oscilações de humor reivindicam território: o que estou fazendo aqui?

Publicado por P. R. Cunha / 17 de fevereiro de 2022


Apegos (ou sinais de um futuro incerto)

Paul se acha sentado à mesa sombreada pelo toldo do café-restaurante, cercado por pessoas que falam alto, riem alto, comem alto, arrastam cadeiras, levantam as mãos enquanto gritam para chamar a atenção de algum funcionário: garçons e garçonetes que a esta hora da manhã tropeçam/giram/deslizam/correm/param, ora dando respostas curtas e mordazes à clientela, ora em absoluto silêncio, ora se esforçando para simplesmente não terem um ataque de nervos (burnout). Não raro, ao observar a movimentação dos cafés Paul é surpreendido pela familiar melancolia, por um sentimento de culpa e inferioridade. Inquietação mental, dir-se-ia, atormentado por aborrecimentos infinitos, o cappuccino esfriando sobre a madeira da mesa, Paul agarra-se a qualquer ideia obsessiva que não consegue erradicar: recordações desagradáveis, bombardeado com algum desejo impossível, a culpa por alguma das inúmeras falhas — tudo o que dissera, e que machucara, e que destruíra o interior de alguém —, os receios da praxe. Paul, em suma, é surpreendido pela própria insuficiência, esta pesarosa sensação de derrota que o consome sem que ele se dê conta.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de fevereiro de 2022


Égide/covil/remédio/resguardo

O gigantismo da estrutura inquieta — teto que se estende por metros, e metros, e metros, sem fim: elevadores panorâmicos sobem e descem, sincronizados, dança mecânica, ensaiada, quase erótica, a luz cremosa atravessa o teto com vidro jateado, nunca se sabe ao certo se luz do Sol, da Lua, se holofotes artificiais a simular claridades, a música reverberizada ecoa nas enormes paredes da estrutura, glaciares de concreto, sensação de abandono, solitude, esquecimento: Paul limpa os óculos com um paninho cor de abóbora, pano especial, presente da funcionária da ótica, o paninho executa bem o trabalho, isto é: desanuvia os óculos de Paul, que agora se pergunta «por que escrevo, por que me entrego às reflexões filosóficas, por que utilizo palavras, qual, ou melhor, quais seriam as finalidades destas empreitadas?», leva a caneta à boca, mordiscando a tampinha azul: escrevo para remodelar a realidade, anota Paul, escrevo para vingar-me, para contar, compartilhar, para me defender, escrevo para conquistar, agredir, entreter, contemporizar, distrair, mentir, justificar, inventar, escrevo para lamentar, instigar, evadir, provocar, esquecer, curar insanidades, escrevo para fazer sentido, confundir, escapar, questionar; Paul respira fundo, um ar adocicado invade os pulmões, deita a caneta sobre o caderno, olha em redor, não consegue entender como foi parar dentro daquele edifício brutalista, refúgio moderno, talvez esteja sonhando: talvez.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de fevereiro de 2022


A caminho do intangível

Paul preza pela liberdade filosófica: ele sabe que vai errar, acertar, contradizer-se, recuar, repetir-se, avançar, destruir, fracassar, construir, e, principalmente: Paul arcará com as consequências desta liberdade, com os resultados dos próprios pensamentos, sem juízo de valor. Paul não busca fama, poder, benefícios financeiros, sabe que a filosofia preenche a cabeça, mas nunca o bolso. Livrou-se gradativamente das amarras, dos impedimentos, das inibições, das pessoas que o aborreciam, queimou pontes, como se diz, isolou-se, mostrou-se, escondeu-se. No entanto, é necessário insistir que a despeito das análises minuciosas Paul ainda não sabe exatamente quem é, por que está vivo, o que precisa de ser feito, Paul apenas acompanha a si mesmo, um espectador a tomar notas, o decaimento do corpo, a aproximação da morte, a memória que começa a falhar, os músculos que não respondem com a prontidão dos melhores anos, um ser efêmero, Paul, preso neste planeta d’água que gira em torno de uma bola de fogo, preso em um dos bilhões de sistemas solares, bilhões de galáxias, bilhões e bilhões e bilhões de partículas que rodopiam neste universo absurdo que não para de se expandir, cosmos indiferente aos propósitos de Paul, às vontades de Paul, aos desejos, às perdas, aos sofrimentos, às batalhas de Paul, aos pensamentos, às anotações, à literatura, à filosofia de Paul, um espaço repleto de vazios que se afastam, que se repelem — preso na barriga deste monstro astronômico cego, frio, devorador, apático e insaciável. 

Publicado por P. R. Cunha / 14 de fevereiro de 2022


Sem prometer recompensas ou redenções em vida futura

O que mais chamou a atenção de Paul na época do suicídio do tio foi a rapidez, a forma apressada — dir-se-ia atabalhoada — com que os familiares trataram de maquiar os factos, modificá-los, escondê-los, adequar a narrativa para atender aos próprios interesses. Não queriam ter o nome da família, ou melhor, o prestígio da família prejudicado pela insensatez de uma automorte, ao que a palavra «suicídio» de súbito se tornara expressamente proibida, um tabu, ninguém podia falar no suicídio do tio de Paul, apenas no acidente, no infortúnio, na ocorrência, no acaso do tio de Paul, na infelicidade do destino, etc. Um revisionismo histórico comum àqueles que têm vergonha, mas mesmo assim sentem a necessidade de se explicar. Nos anúncios fúnebres, no obituário, no velório, nos discursos antes de soterrarem o caixão do tio de Paul, em nenhum momento citaram a palavra suicídio, lembra Paul enquanto caminha por entre as lápides à procura do nome do tio. As palavras do padre ao observar os dois funcionários uniformizados do cemitério que aguardavam o sinal para despejar o caixão do tio de Paul na cova, o padre a dizer: eis aqui uma alma que se vai cedo demais, quando, verdade seja dita, o tio de Paul suicidara-se justamente porque já era tarde demais. Um desconhecido que porventura passasse pela lápide do tio de Paul leria alguns detalhes insignificantes sobre a vida dele (homem carinhoso, coração puro), quando nasceu, quando morreu, que não deixara filhos, nem esposa, que a família estará em luto eterno, membros dessa família que há muito também morreram, pessoas com vontades, sofrimentos, objetivos, dores, medos, pessoas que acreditaram, que falharam, que obtiveram algum sucesso, que andaram, que foram igualmente enterradas, esquecidas: mas nenhuma, nenhuma menção ao suicídio do tio de Paul, nem sequer uma discreta insinuação, nada. Para todos os efeitos, o desconhecido bem podia imaginar que o tio de Paul morrera tranquilamente numa tarde amena de primavera, reflete Paul enquanto percebe os próprios pensamentos retornando ao presente, enquanto reconhece que, com o tempo, todos somos esquartejados, nossa biografia esquartejada, nossas narrativas esquartejadas, nossas vontades esquartejadas, nossos propósitos esquartejados, nossa memória esquartejada, nosso corpo esquartejado, todos seguem a comitiva fúnebre destes que agora estão deitados na pousada dos mortos, todos, incluindo Paul.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de fevereiro de 2022


A persistência das miragens

Paul aprendeu a caçar fantasmas. Ele sabe que determinadas coisas não desaparecem completamente, insistem em assombrar, deixam vestígios, um rasto espectral: a morte de alguém querido, o término de um relacionamento amoroso, um fracasso, decepções, um acidente automobilístico, a frustração de uma longa amizade que de súbito chega ao fim, situações que abrem feridas, comprometem o padrão de processamento neurológico, constroem ciladas, armadilhas, afetam as partículas cerebrais, causam rebuliço, caos, fazendo com que o organismo humano busque anestesias, falsos sentimentos de conforto. Paul aprendeu, portanto, a caçar esses fantasmas, a exorcizá-los, sabe que a memória é traiçoeira, que ela pode reprisar filmes tão perturbadores quanto o que de facto aconteceu — reconstituições fidedignas capazes de reabrir cicatrizes, resgatar as mesmas dores, o mesmo sofrimento, a mesma apunhalada nas costas —, Paul compreende que para ludibriar essas criaturas espectrais é preciso jogar fora, eliminar tudo que remeta aos vultos agonizantes (roupas, perfumes, acessórios, detalhes, quadros, filmes, fotografias, livros, cartas, todo e qualquer objeto que ressuscite lembranças, que atraia a presença opaca daquilo que não deveria mais existir): tudo deve desaparecer. E, assim, com esse mecanismo tosco, imperfeito, frágil, pode-se, quem sabe, criar ilusão temporária de esquecimento.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de fevereiro de 2022


Previsão meteorológica no rádio e as sirenes industriais

Acontece que estou sempre atento aos mínimos detalhes, com as antenas sintonizadas — escreve Paul. Pensemos, a título de curiosidade, nos andamentos do cotidiano. A degradação das nossas relações naturais (observar o céu noturno, as fases da Lua, as estações do ano, utilizar de forma sustentável os recursos finitos do planeta, as transformações do solo, cooperar com outras espécies, etc.) talvez tenha mesmo um marco significativo: a invenção do relógio, escreve Paul. Com os instrumentos de medições temporais, surgiram expressões como «estou a perder tempo» — leia-se: estou a perder a oportunidade de ganhar alguma coisa (via de regra, dinheiro). Olhar para as estrelas, cuidar das hortaliças, acompanhar o fluxo das estações, admirar a Lua são, para os interesses industriais, atividades absurdas que não geram benefícios financeiros. De aí a contabilidade/rentabilidade dos cronômetros, jornadas de trabalho, sirenes nas fábricas, despertadores barulhentos, escreve Paul, o banho matinal, as vestimentas sufocantes, o pequeno-almoço às pressas, ir para a firma, realizar tarefas disparatadas, o sacrifício de longas-e-longas-e-longas horas dentro de um cubículo, a lidar com pessoas enfurnadas dentro de outros cubículos, a tela do computador que faz doer as vistas, o horário de almoço, a comida insalubre, a continuidade no período vespertino, quando a cabeça já não funciona, os dedos já não funcionam, as pernas já não funcionam, o fim do expediente, a torturante volta para casa, os últimos movimentos do ponteiro, a televisão ligada, o noticiário estúpido, o banho noturno, a cama, o desmaio, o barulho do despertador na manhã seguinte, o mesmo dia, escreve Paul, o mesmo automatismo, a mesma ausência, a mesma loucura, a mesma obsessão pelo relógio, pela engrenagem, pelo suicídio a prestações.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de fevereiro de 2022


Outros comportamentos de Paul enquanto eventos sociais (o teatro da morte)

Muitos dos nossos desejos nunca serão realizados, escreve Paul, e alguns desejos realizados mostrar-se-ão bem menos satisfatórios do que imaginávamos. Durante muito tempo o sujeito se esforça, se dedica, se entrega, se organiza, se compromete para conquistar determinado objetivo, até conquistá-lo e perceber que se sente tão vazio quanto antes. Numa era de GPS, Google Earth, Wikipédia, Waze, abundância de conectividade, redes sociais, não deixa de ser irônico que tantos ainda se percam pelo caminho — escreve isso de forma literal e figurativa. Nesta altura, está mais do que claro que Paul é um problematizador. Ele observa as pessoas, toma notas, analisa o movimento das pessoas, as palavras que as pessoas utilizam, o modo como as pessoas se vestem, esmiuça, como se diz, a «alma» das pessoas: um modo de agir que pode ser um bocado inquietante. Paul cria representações esquemáticas, tenta avaliar o que se passa dentro dos outros seres humanos. Imaginamos ele conversando com certa moça à bancada de um bar, Paul determina as intenções da interlocutora: se ela representa perigo, se está em busca de oportunidades mútuas, se quer apenas afogar as mágoas de um relacionamento indecoroso, se ela boceja, se ela olha para o relógio, que tipo de bebida ela pede, com ou sem gelo, se fala alto, se sorri, se ela mexe no próprio cabelo enquanto Paul comenta sobre o teatro da morte de Tadeusz Kantor, se ela tem marca de aliança nos dedos, até que a moça se sente desconfortável com aquele escrutínio, toda aquela análise esmiuçada, atribuições de Paul (expectativas/intenções/cálculos probabilísticos [64% interessada?, 23% entediada?, quem saberia…]), até que a moça simplesmente pede licença, enxuga os lábios com o guardanapo, levanta e não volta mais. Paul então manuseia o telemóvel, sem saber ao certo como voltará para casa.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de fevereiro de 2022


Vários Pauls

A mente de Paul está constantemente a funcionar. Mesmo quando ele prepara o café, e não precisa de se preocupar com mais nada além do café, beber o café, degustar o café, uma enxurrada de sensações internas — lembranças, imagens aleatórias, sons, sabores, um ensaio que ainda não foi finalizado: Paul tem de processar tudo isso —, minuto após minuto, hora após hora, dia após dia, ano após ano, Paul anda, fala, escreve, o coração dele bate, o sangue flui, os pulmões respiram, o estômago digere, os músculos se contraem, uma sinfonia sem maestro, numa espécie de modo automático, sem que Paul necessite prestar atenção ao que se passa, como uma ferida que se fecha e não percebemos, ou uma doença curada pelo sistema imunológico durante a qual somos meros passageiros a observar o comboio orgânico tentando manter-se nos trilhos, inúmeras ocasiões em que o inconsciente de Paul resolve problemas, fornece soluções de forma quase espontânea, sugere uma palavra ao livro suspenso, um prodígio de atividades, conflitos, fobias, desejos que chegam, permanecem e vão-se embora, comportamentos coordenados pelo cérebro — órgão gelatinoso que pesa menos de um quilo e meio — e um conjunto de Pauls (vários Pauls) a surgir nesta estranha teia neural.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de fevereiro de 2022


Confraria

No inverno de 2001, Paul — um jovem com tempo a perder — estava a perambular pela livraria quando o momento de conversão (num sentido místico, revelador/transformador), quando o momento de iluminação, ponto de virada, quando o Paul adolescente que nada sabe, errante, perdido, desinteressado, quando Paul encontra aquele que lhe servirá de tutor, de norte, de âncora, de mestre, de exemplo, de oráculo, quando Paul agacha-se para pegar o último exemplar de Os anéis de Saturno disponível, quando Paul folheia, lê as primeiras frases do livro que o transformará num sujeito introspectivo, em busca de ideias, sujeito com caneta e bloco-notas sempre em mãos, quando Paul inicia a jornada do discípulo ignorante que quer deixar de sê-lo, quando Paul, enfim, conhece W. G. Sebald.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de fevereiro de 2022


Entre um nada e outro

Essencial para o trabalho de Paul é que as modificações na chamada rotina sejam mínimas, uma estabilidade (previsibilidade) a proteger, ou melhor, a fomentar os aperfeiçoamentos literários e/ou filosóficos do sujeito que escreve, assegurando que ele não perca a linha de raciocínio, garantindo, portanto, um processo com poucas distrações. Quando Paul se vê longe dessa terra preparada para os próprios estudos da natureza das coisas, ele sente a boca seca, os braços queimam, as pernas enveredadas pelo caminho do inferno — um náufrago sem boia de salvação, um piloto abatido sem paraquedas, um alpinista sem cordas, motorista de autocarro que pisasse forte no pedal do freio e o freio nunca funcionasse.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de fevereiro de 2022


Observações: a abóbada estrelada das noites amenas

Paul não consegue esquecer que deu imensas chances para a «sociedade civilizada», tentou se adaptar às diretrizes da maioria, fazer parte dos rituais estabelecidos insistentemente: pelo vício, pela repetição, pela conveniência —  vida correta aos olhos dessa sociedade (i.e.: casa, matrimônio, procriar, aborrecer-se com as contas a pagar, com os problemas do condomínio, entregar-se aos entorpecentes etílicos para esquecer, as fugas da praxe, reinícios, fingir que está tudo bem, que está a cumprir determinado papel no grande esquema das coisas, que está contribuindo para o avanço do grupo), até chegar à conclusão (Paul) de que nunca se adequaria às normas, nunca seria um «bom cidadão», um exemplo para as próximas gerações, um caso de sucesso, nunca conseguiria construir carreira, subir os degraus rumo ao cimo, ter filhos, e Paul odeia a velocidade dos automóveis, das mensagens, as aparências artificiais, as roupas das pessoas, os sapatos das pessoas, as marcas, os cosméticos, os rostos marcados pelo aborrecimento, a insatisfação generalizada, o imediatismo, Paul odeia o instantâneo, a pressa, o desprezo, o desespero, o descartável, a loucura da metrópole, o calor insuportável que irradia do asfalto, dos edifícios, das placas de metal, odeia as buzinas, as sirenes, as britadeiras que abrem espaço para um túnel que cortará o centro da cidade. Dir-se-ia com certa segurança que Paul é uma espécie de árvore deslocada num jardim de concreto, árvore lenta, descompromissada, um bocadinho inútil, o balançar sem pretensões dos galhos que não resistem aos sabores do vento, um eremita que cansara de sair, e sempre se aborrecia, e se condenava ao retornar, e sentava-se à mesa para reconstruir tudo não como era, mas como ele achava que deveria ter sido, e o cérebro não se incomoda com essa ardil, o cérebro se satisfaz na mesma, o cérebro de Paul aceita, ou melhor, abraça a falácia, recebe as recompensas, sente-se satisfeito com as reconstruções, com o fantástico, e ao agir dessa forma Paul como que coloca umas lentes de aumento nas feridas da sociedade, nas ficções criadas para manter essa sociedade funcionando, uma sociedade sempre a um ou dois passos do desfiladeiro, uma sociedade que prefere ignorar, que sempre preferiu fechar os olhos, que sempre preferiu se esquivar, refugiar-se nas inúmeras negações disponíveis, sociedade que não quer saber o que um pária, um lunático, um desajustado como Paul tem a dizer sobre feridas, falhas, defeitos, equívocos, sobre os analgésicos postiços, sobre as doses cada vez mais desproporcionais, sobre o castelo de cartas que uma simples brisa de verdade indecorosa seria o bastante para colocar tudo ao chão. 

Publicado por P. R. Cunha / 6 de fevereiro de 2022


Longas caminhadas (sem pressa)

As reflexões de Paul são exercícios que se formam por tentativas e erros, longe de serem pensamentos fixos, bem-formados, assemelham-se mais a combinações aleatórias, mutações que se juntam a outras mutações, ideias que se fundem e geram novas possibilidades, novos testes, novos caminhos, até que, cedo ou tarde, Paul consegue encontrar um clarão na floresta, olha por entre as árvores, analisa as condições meteorológicas: se chuva, se sol, se dia, se noite, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de fevereiro de 2022


Tire a literatura ou a filosofia de Paul e não sobra nada

Paul escolheu ser um tipo que escreve, que observa, que problematiza, que tenta filosofar sobre os mínimos detalhes deste mundo alheado. Esse sentimento sintético de «importância pessoal», de ser útil, de fazer parte de algo maior do que si mesmo, ajuda a manter certa coerência (âncora) numa realidade em que, se pararmos para pensar, impera o caos, a intranquilidade, o despropósito. Construções artificiais à laia de anestesias: um médico sente-se seguro se a equipe do hospital lhe tem em alta conta, um empresário respeitado pelos pares tem a impressão de estar contribuindo para a sociedade em que ele acredita, um engenheiro contempla a obra que ajudara a terminar e volta para casa com a certeza de dever cumprido. O sistema de recompensa cerebral é ativado e após cada tarefa finalizada o indivíduo sai em busca de outros desafios, pois quer sentir novamente o fluxo inebriante dos hormônios superestimulados. Mesmo que Paul não tenha leitores, ele faz de conta que tem, ou que terá — depois de morto. O cérebro não se importa com a veracidade das fontes (leitor real/leitor imaginário), ele está interessado no fim, na consequência, no prêmio. Elogie uma pessoa e ela se sentirá bem: mesmo que o elogio seja uma farsa.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de fevereiro de 2022


As cinzas dos mortos

Há noites que de tão pesadas deixam Paul com a impressão de que as horas cessaram, como se o planeta tivesse caído às margens de uma galáxia inoperante, e nada se mexe, nem os átomos, nem a luz, um silêncio afiado que parece durar séculos, milênios, um silêncio eterno, silêncio dos mortos, o silêncio do tio de Paul, enterrado no Campo Santo depois de apertar o gatilho, a mira da pistola virada para a própria têmpora, e os eufemismos na lápide desse tio que, quando vivo, não dera, como se diz, trabalho para ninguém, nunca pedira para que o defendessem, para que o justificassem, mas depois de um suicídio há sempre a necessidade de se justificar, e cabe aos familiares escolher as justificativas «adequadas», essa postura canhestra de redimir os suicidas, que não querem redenções, não buscam perdão, apenas almejavam o vazio, o abismo, o não-estar, e Paul bem se recorda da última visita que fizera ao túmulo do tio, a data de nascimento do tio, a data da morte do tio, e os dizeres mais inautênticos, mais hipócritas, sim, mais desajuizados que alguém poderia imaginar, um modo de escrita religioso que caberia a um padre, a um seminarista, mas não a um indivíduo livre e desimpedido como o tio de Paul, umas frases toscas, vulgares, que nada tinham que ver com o temperamento do tio de Paul, além das figuras de santos, os pequenos crucifixos ao lado da lápide, tudo completamente alheio ao gosto do meu tio, pensa Paul deitado na cama sem se mexer, meu tio jamais usaria um crucifixo, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi enchê-lo de crucifixos, meu tio jamais acreditara em santo, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi cobri-lo com toda a sorte de santos, meu tio, é necessário que eu insista neste ponto, insiste Paul na cama, meu tio jamais se esquivara das próprias responsabilidades, e a primeira coisa que fizeram depois do suicídio foi eximi-lo da culpa encomendando uma placa de péssimo gosto estético, para dizer delicadamente, uma placa de bronze com citações bíblicas, e pedidos de perdão, e súplicas para que aquela pobre alma (a do tio de Paul) pudesse entrar no paraíso celeste, a despeito da falha terrível, a despeito, portanto, do suicídio, da pistola na têmpora, do gatilho, pensa Paul, paralisado no quarto escuro.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de fevereiro de 2022


Nossa fugaz existência biológica

Um fazendeiro mexicano ajoelha-se na vegetação seca, levanta as mãos ao céu e implora para que Tláloc, o deus da chuva, jogue água àquele campo devastado. Subo ao Templo Mayor, diz o fazendeiro, se fecundarem a minha terra moribunda. Como que por milagre, escuta-se um trovão ao longe, num acaso comum ao culto agrário. Paul escreve esse esboço de mitologia asteca enquanto observa a chuva cair na varanda da própria casa. Recorremos às divindades porque não damos conta da sufocante indiferença das coisas naturais, ele anota no canto da página, ainda sem saber ao certo o que fazer com a frase. Hoje é quarta-feira e nosso cérebro conforta-se com o facto de que haverá uma outra quarta-feira na próxima semana, e depois mais outra, e outra, como se as quartas-feiras se estendessem ao infinito. Mas e se não houvesse outra quarta-feira?, reflete Paul estendendo a palma da mão para capturar os respingos de chuva. Noutros termos: e se passássemos boa parte da nossa existência a questionar as quartas-feiras… Se retirássemos toda a maquiagem cultural, todas as narrativas atrás das quais nos escondemos, os mitos, as leis, as convicções, os costumes, todas as armadilhas que criamos artificialmente, o que sobra são corpos em decomposição, corpos que sentem um fluxo transitório de sensações, corpos fustigados pelo pavor, corpos efêmeros que nascem, existem um bocadinho, e deixam de respirar abruptamente. Consolar-se com as quartas-feiras eternas, escreve Paul, é mais um mecanismo de defesa, modo de negar a ceifa da finitude. Relaxo, tomo o gin, não preciso de me preocupar, haverá sempre a próxima quarta-feira, etc., escreve Paul, mesmo que essa certeza seja tão imprevisível quanto o humor de Tláloc — que pode ou não trazer chuva ao campo das folhas mortas.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de fevereiro de 2022


Baía protegida contra os rigores da força do mar

A verdade é que Paul levou décadas para estabelecer rotina adequada, modus operandi que permitisse ao próprio cérebro um automatismo quase instantâneo, sem perda desnecessária de energia: a chávena de café, a mesa com os materiais convenientes, os livros, o caderno, a escrita — décadas para construir essa espécie de pré-conforto, um abrigo, estrutura aprazível para a prática de atividades literárias e/ou filosóficas, a depender do humor de Paul na altura. Mas com que facilidade tudo isso vai, como se diz, «por água abaixo», com que facilidade Paul se distrai, com que facilidade uma doença pode tirá-lo dos trilhos, com que facilidade um simples evento social consegue perturbá-lo por dias a fio. Não é o bastante criar para si uma fundação bem planejada, é preciso também reforçá-la constantemente, manter-se atento às rachaduras, pois nunca se sabe o tipo de cataclisma que pode atingir as paredes do castelo amanhã.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de fevereiro de 2022


Analgésicos

Paul está sentado à mesa. Segunda-feira. 10h34 de uma manhã cinza com nuvens modorrentas. Paul neste momento se mostra imerso dentro de si mesmo, está, como se diz, filosofando. Mas quem passasse pela rua e observasse Paul pela janela, o que veria? — um ser humano inclinado sobre papéis e livros, com caneta Bic na mão direita, a tomar notas avulsas, um corpo que agora pode estar quente e funcionando, mas que a qualquer altura também sucumbirá: descobre-se um cancro, é-se atropelado, leva-se um tiro. Paul está a filosofar exatamente sobre tais imprevisibilidades, sobre as estruturas ilusórias da cultura que vêm para nos proteger (?) da certeza de morte, narrativas repletas de mentiras, ordens, hinos, etiquetas, valores, símbolos, mitos, heróis, vilões. Um verdadeiro castelo de areia, reflete Paul, uma estrutura sempre prestes a desabar, ruínas que exporiam toda a sorte de cicatrizes, caos indomável, o nosso fim irremediável. A verdade é que Paul não está alheio a essas armadilhas narrativas. Tenta evitá-las, olha para o lado, mas volta, retorna aos vícios indecentes, ao conforto narcótico desses ópios filosóficos.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de janeiro de 2022


Enfermidade

Uma doença bastante rigorosa que nos colocasse na cama durante vários dias, e as dores múltiplas dessa doença, o desconforto, a sensação de estarmos à deriva, ou num treinamento de morte, simulação de morte, presságio de morte, e nossa consciência delirante nos apresenta uma série de cenários, despedidas, febres, e vemos nestas alucinações como seria o mundo sem a nossa presença, e temos de lidar com a futilidade do nosso passado, com a nossa procrastinação, com os momentos em que deixamos de fazer isto ou aquilo, e bem podíamos estar tomando banho numa cachoeira, ou com os pés no oceano, todas as vezes em que deixamos de olhar para o céu, ou nos olhos de quem sempre esteve ao nosso lado, pensa Paul enquanto levanta a chávena de café contra o Sol percebendo uma curiosa criatura cromática, uma doença, portanto, que nos impelisse para fora, que nos despertasse, como o providencial tapa no rosto de um pugilista após o nocaute, doença cujas perturbações machucassem, incomodassem, mas que também deixassem uma herança de aprendizagens, doença que nos desse esta nova chance, um recomeço, novas possibilidades.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de janeiro de 2022


Leito de morte

No nosso pensamento as frases são bonitas, fazem sentido, conseguimos nos expressar, imaginamos um receptor a nos compreender, até falarmos essas frases, isto é, até verbalizarmos o que antes eram apenas figuras simbólicas enclausuradas dentro da consciência, de aí notamos que as frases não eram assim tão bonitas, nem faziam tanto sentido, e muito menos conseguimos expressá-las da maneira que gostaríamos, reflete Paul enquanto rola para cima as fotografias que publicaram no Instagram. Diante de toda aquela enxurrada de narrativas alheias — selfies, beijos supostamente apaixonados, cenários aventureiros, sorrisos, restaurantes, florestas a preto e branco, quartos de hotel com vista para o mar, estações de neve, exames médicos, dançarinos caseiros, engajamento partidário —, Paul também se pergunta se a humanidade não teria atingido um grau tão avançado de auto-exposição que deixamos de ter segredos, ou pior: deixamos de ser segredo para nós mesmos, um ponto em que nada (nem ninguém) nos surpreende. Olhamos as fotografias das pessoas no Instagram e as pessoas olham as nossas fotografias no Instagram, compartilhamos os nossos momentos, as pessoas compartilham os momentos delas, mas jamais nos tocamos, apenas deslizamos o indicador no ecrã do telemóvel, e nos acostumamos com essa forma silenciosa de interagir. Mas chega o dia em que queremos contar para alguém o que sentimos por esse alguém, chega o dia em que estamos sentados com a nossa esposa, ou com a nossa mãe, ou com a vovó deitada no leito de morte, queremos comunicar o que se passa dentro de nós, e nos sentimos miseravelmente incapazes de fazê-lo, não encontramos as palavras adequadas, permanecemos ali, corpos falhados, impotentes, inúteis, como se numa outra dimensão.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de janeiro de 2022


Efeito dominó

De acordo com as convicções de Paul, a maior prova de que o sofrimento é mais resiliente do que o contentamento está no facto de que para revivermos sensação agradável por vezes é necessário um enorme esforço de concentração, enquanto a simples referência à palavra «sofrimento» já é mais do que o suficiente para desencadear uma série de passados terríveis na nossa cabeça. Baumeister disse, escreve Paul com letras minúsculas numa pequena caderneta sem pautas, Baumeister disse que o poder dos eventos ruins pode ser encontrado em cada esquina do nosso quotidiano. E aqui Paul cria uma breve lista com o título Traumas: relacionamentos dilacerados, interações interpessoais à beira do colapso, guerras, emoções perturbadoras, pais severos, uma palavra hostil, tudo isso tem muito mais impacto (i.e.: permanece por mais tempo) do que as situações ditas aprazíveis. E observamos os rostos das pessoas na rua, continua Paul, toda aquela gente mais preocupada em evitar/amenizar desastres do que correr atrás de algo «bom». É provável que incontáveis passantes tenham acabado de perder a mãe, ou o filho está demasiado doente, ou tiveram de vender a casa para pagar dívidas, ou cogitam o suicídio. Impressões ruins formam-se com imensa rapidez, criam raízes, assombram, enquanto as boas são curtas, efêmeras, fugidias — escreve Paul, ciente de que talvez tenha que voltar a este tema para explicar-se melhor.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2022


Corridas

Não importa a dor que estejas sentindo, o desespero, a angústia, não importa, reflete Paul ao praticar o running matinal, não importa o teu desassossego, não importa a tua vontade, ou melhor, a tua falta de vontade, a tua melancolia, enquanto estás escondido num buraco negro de desilusões, enquanto com imensa dificuldade levantas a mão para te protegeres da luz solar que entra por uma brecha minúscula da cortina fechada, alguém está lá fora sorrindo, pássaros despreocupados cantam, mamã girafa cuida dos filhotes, casal entrelaçado admira as cores de um arco-íris, poeta escreve sobre as ondas do Pacífico, jovens comemoram conquistas acadêmicas: tudo e todos completamente indiferentes ao teu pequeno inferno particular, pensa Paul — correndo.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2022


Fundações, estrutura e paredes

É tudo um processo, pensa Paul enquanto toma o pequeno-almoço. Pode-se ter uma infância agradável, juventude amena, até que algo terrível acontece, e talvez a pessoa esteja ainda tão anestesiada, tão alheia dentro das bolhas de proteção que não consiga de imediato perceber o que está se passando. De início, um brando e quase imperceptível desconforto, pensa Paul ao morder a torrada, de aí o desconforto se transforma numa série de inquietações, que se acumulam, e se multiplicam, dia após dia, como aquelas células que se dividem vertiginosamente, perturbações insuportáveis, angústias, dores físicas e emocionais, falta de vontade, paralisias sufocantes — implosões silenciosas. A verdade é que dificilmente um edifício se transforma em ruína de uma hora para a outra. Sentimos algo diferente nas paredes, insiste Paul, notamos as rachaduras do fracasso, por vezes tarde demais: a construção estava há muito condenada, só não queríamos enxergar. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de janeiro de 2022


As colunas que sustentam o céu acima da terra

Hoje em dia, se alguém diz: não estou preocupado, não estou ansioso, nem à beira de um burnout — muito provavelmente esse alguém tem outro ser humano a lhe servir de para-raios, pensa Paul enquanto caminha pelas ruas como que perdido num transe. O marido diz: minha vida está ótima, não tenho com o que me preocupar, e logo analisamos a fisionomia da esposa, completamente exausta, esgotada, pois precisa de resolver todas as pendências do marido. E o contrário também pode acontecer, não se trata de questão machista e/ou feminista, as pessoas são falhadas, esposas, maridos, homens, mulheres, médicos, jogadoras de futebol, advogados, executivas, independentemente do rótulo, justifica-se Paul a um interlocutor invisível. Um filho que dissesse: que vida boa estou a levar, que maravilha, nenhuma preocupação, nenhum sofrimento, e lá estão os pais a pagar as contas do filho, o aluguel do filho, o plano de saúde do filho, os pais perdem os cabelos, engordam, tomam toda a sorte de remédios, dão entrada em hospitais psiquiátricos, mas o filho está a levar uma boa vida, e é isso que importa.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de janeiro de 2022


Incêndios

Depois de uma série de acontecimentos grotescos, Paul agora tenta não se aproximar das pessoas. Gosta de ficar sentado na poltrona felpuda, a luz leitosa do fim de tarde ilumina as páginas de algum filósofo pessimista. O caráter introspectivo de Paul busca resignação, o quietismo, enquanto uma necessidade demoníaca o arremessa com força na direção da escrita, dos gritos, do choque elétrico. Esta dicotomia, avanços-&-recuos: tensões contraditórias que representam o interior de um homem estilhaçado.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2022


E o universo irá se esquecer de si mesmo

À guisa de distrações, Paul tenta recriar significados através dos fantasmas da própria consciência. Ele sabe que é um jogo inútil, um exercício que leva ao penhasco, mas lá está Paul a fazê-lo. Fantasmas do passado, uma terra que não é mais, o pai de Paul, o avô de Paul, a irmã que ele nunca conhecera, e também fantasmas do futuro, estes simulacros amorfos do que ainda está por vir. Em ambos os cenários: miragens. Paul observa uma dália amarela que, pela inclinação, dá indícios de um desabamento iminente. Mesmo a imagem daquela flor moribunda já é um passado, pois a luz que ela emite leva tempo até atingir os olhos de Paul. Noutros termos, o que Paul chama de presente torna-se pretérito antes que ele consiga processar a informação que recebera. Fantasmas que insistem em desaparecer, imagina Paul enquanto se agacha para avaliar melhor a dália que morre, fantasmas travessos cuja dúbia e fugidia presença é presságio de abatimento.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de janeiro de 2022


Arquitetura da desilusão

A verdade é que com o tempo Paul foi desistindo das pessoas, e as pessoas também foram desistindo de Paul, foi algo gradativo, quase imperceptível, Paul simplesmente refletia: será que chamo as pessoas?, e cada vez mais decidia não chamá-las, o mesmo se passava com as pessoas: será que chamamos Paul?, e cada vez mais decidiam não chamar Paul, e se antes havia uma certa dependência, ou seja, Paul precisava das pessoas e as pessoas precisavam de Paul, aos poucos todas as partes perceberam a parvoíce desse modo de agir, Paul não precisava das pessoas, as pessoas tampouco precisavam de Paul, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de janeiro de 2022


Naufrágios previsíveis

Quando acontece de Paul acordar no meio da noite, e ele percebe que é inútil tentar voltar a dormir, ele cobre o rosto com os lençóis, imagina-se dentro de um barco, à deriva no oceano, e o barco tem o tamanho exato da cama de Paul, que agora tenta adivinhar o que a escuridão marítima estaria a esconder lá fora. Às vezes Paul sente a embarcação afundando, lentamente, e ele se entrega ao naufrágio de bom grado, nem balança as pernas, apenas aguarda. A cena toda é bastante solitária e instila tristeza.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de janeiro de 2022


Ciclo do gelo

Por vezes é difícil prever os movimentos de Paul — ele anda, vira a cabeça, contrai os olhos, senta, levanta, inclina-se. Como um coelho que se locomovesse na floresta, essas ações de Paul também fazem parecer que ele tem vontade própria, que sabe com o que está lidando. Enquanto toma o café matinal e abre a porta da varanda para sentir os primeiros ventos do dia que lhe atingem o rosto como ceifas afiadas, Paul lembra que à medida que o ser humano permanece no planeta, dá voltas e voltas ao redor do Sol nesta nave de pedra sem condutor, à medida que acumula anos, ele está a colecionar memórias, e certas memórias podem ser avassaladores. Paul segura a chávena quente que libera vapores na atmosfera gelada da manhã, pensa ainda que alguns humanos nunca aprendem: passam por momentos terríveis, grandes dificuldades, contorcem-se, desesperam-se, prometem que vão mudar, que não vai mais acontecer, juram, choram, imploram, e quando a tempestade passa, quando tudo é calmaria novamente, lá estão eles a cometer os mesmos erros, os mesmos vícios, os mesmos maus hábitos. Paul até acha graça, mas não consegue rir, talvez porque tenha se identificado imenso com o que acabara de pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de janeiro de 2022


Cenotáfio

Paul gosta de automóveis antigos
vulcões neve café teatro do
Thomas Bernhard
arquitetura prosa finlandesa Paul
já escreveu poemas
com reações emocionais
depois de ver eclipse solar
e cometa Paul
está sempre a ir para algum sítio
ou a voltar
de algum sítio Paul
entrega-se às trevas
não gosta de ser
incomodado quando
comprometido com alguma
tarefa criativa
temeroso facilmente confuso Paul
inflexível longas ausências longas
viagens impossíveis obras
criadas na solidão refletem
inquietações diante do
presente que logo se torna
ruína do passado como se Paul
procedesse à fundição
afundado nas lavas do
trabalho Paul
parece um objeto projetado
sombra sob luz
pálida e difusa da
luminária.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de janeiro de 2022


Guerra indefinida — polaridades e tensões (temperamentos de Paul)

Há muito que Paul decidira viver numa realidade paralela, ou melhor: criar cenários imunes à interferência externa, pois bem cedo percebera que não conseguiria se adequar aos chamados costumes comuns. Pode-se dizer que o isolamento de Paul é uma dupla tentativa de defesa (para si e para os outros). Passa os dias debruçado sobre livros, a vontade de compreender aqueles mundos internos, de abranger razões, inventar sentidos, a tomar notas de frases que lhe agradam para depois construir qualquer coisa com esse material: pintura, microtexto, música, fotografia — Paul nunca sabe ao certo. E esse modo de existir, como se pode imaginar, acarreta uma série de desafios, principalmente quando as circunstâncias sociais exigem que Paul se afaste do próprio universo controlável para ter com os seres humanos algures. Choque de realidade, dir-se-ia, o presságio do fracasso. Os amigos de Paul não conseguem compreender: de início ele se mostra o mais charmoso do grupo, conversa, cita Tranströmer de cabeça, discorre sobre Jünger, Beckett, McEwan, até ao imprevisível momento em que Paul simplesmente para de falar, rosto sombrio, olhares vagos, postura de tristeza. A demanda do conhecimento, escrevera um antigo, parece mesmo estar destinada a causar um certo estado de melancolia. Paul então se despede dos amigos, um homem que agora se afasta, em silêncio, confrontado com mil demônios invisíveis.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de janeiro de 2022


Energia produtiva / calor inútil

Ao sair para tomar café com torradas amanteigadas, Paul esquecera a janela do escritório aberta. Ele mastiga as torradas, leva a chávena aos lábios e pergunta se teria fechado bem a janela. Os dentes trituram as torradas, Paul gosta do ruído. Ele bebe o restinho de café, paga a conta, e caminha de volta para o escritório. Paul acende a luz, uma mixórdia de papéis, e canetas, e lápis, e borrachas, e livros de bolso, e toda a sorte de miudezas cobria o chão do escritório. Isso em meros trinta minutos, ele pensa, o planeta a me dar lições de entropia. Paul senta-se à escrivaninha e com mão trêmula anota — tudo no universo tem a avassaladora tendência de se degradar, uma deterioração contínua, imperceptível, violenta, agressiva. Fica-se, Paul escreve ainda, fica-se sempre com esta sensação de perda, de vulnerabilidade: de impotência.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2022


Radiação cósmica de fundo (Café Wittgenstein)

Nietzsche pede ao leitor que se imagine sozinho, talvez à noite, quando se desperta de sonhos intranquilos. O leitor abre os olhos e se depara com uma espécie de demônio-filosófico que anuncia isto: a vida que estás a viver irá se repetir, para sempre, e para sempre, e para sempre.

Eterno retorno. A supor que teremos de passar por esta mesma existência ao infinito, com os mesmos eventos, bons e/ou ruins — os mesmos beijos, as mesmas decepções, os mesmos pavores, as mesmos alegrias —, tudo de novo.

Acontece que em determinados momentos da vida humana essas recorrências nem sequer precisam de mortes para se reciclarem. É quando os dias se tornam iguais, os noticiários (re)publicam as mesmas desgraças, sequências previsíveis, o Sol pela manhã, a Lua na escuridão, a cama, o vento, o café — como se o tal demônio-filosófico estivesse ansioso, com imensa pressa de mostrar o que nos aguarda mais ao longe.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2022


Sublimação

Estás a fazer isto há tanto tempo que não consegues mais separar a tua parcela escritora da tua parcela pessoal: elas se dissolvem, transformam-se numa substância homogênea. Dir-se-ia, portanto, que se falhasses como escritor, estarias a falhar igual como pessoa.

Encontraste um conjunto de vozes (com as quais procuras comunicar teus pensamentos — angústias, euforias, verdades, ficções, o caos). Rabiscas no caderno, inventas, exageras, confundes de acordo com o teu humor na altura. Tentas, de alguma forma, obedecer à demanda dos instintos.

Hoje, estás seguro e confortável no casulo. Aproveita…

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2022


É inútil bancar o hipócrita

As pessoas te observam e não fazem a ideia do que se passa dentro de ti. Elas podem até achar que sabem, que compreendem, mas elas não sabem, tampouco compreendem. Em verdade, imensas vezes tu também não compreendes, não sabes descrever teus próprios pensamentos, não consegues, como se diz, verbalizá-los. Um grande mal-entendido. Tu entras em pane, percebes as rachaduras, e todas aquelas coisas que supostamente deveriam te proteger durante o colapso — livros, filosofias, artes, etcétera, etcétera — não servem para nada. Tu pensas: estou preparado, tenho cá meu Montaigne, meu Burton, meu Novalis, minha escrivaninha, meu bloco-notas, meu Jünger, meu Wittgenstein, meu Nietzsche, mas quando a tragédia de facto acontece, quando tens de encarar a perturbação, a catástrofe, quando, em suma, tens de colocar esses mecanismos de defesa à prova, constatas que não funcionam, que não te defendem, que a ideia de estares preparado não passava de uma parvoíce, ilusão, não estavas preparado, e, obviamente, é sempre mais fácil falar que estamos preparados para a guerra, que saberemos lidar com os desastres, e falamos isso nos momentos de paz, de tranquilidade, falamos: a guerra não me assusta, pode vir a guerra, meu exército está de prontidão, mas assim que ouvimos o barulho da primeira bomba a explodir, ou perdemos alguém que nos era crucial, ou partem o nosso coração, ou melhor, estraçalham o nosso coração da forma mais ultrajante que se possa imaginar, percebemos (tarde demais, é claro) que estávamos apenas nos ludibriando, que andávamos perdidos em miragens reconfortantes, alienados. Apesar dos nossos esforços, das nossas fortalezas, dos nossos arsenais filosóficos, nunca estaremos 100% preparados para o pior — essa é a desmascaradora e deprimente verdade.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2022


Formiga

Uma pessoa que estivesse a andar na calçada e se deparasse com uma formiga morta e porventura se agachasse para perguntar às outras formigas qual era o sentido da vida daquela formiga morta — o propósito, a motivação, as querelas, o legado, ou mesmo se ela estaria agora num céu (ou inferno) de formigas — de certeza que seria considerada louca.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2022


Nevoeiros

Tudo o que querias era uma tarde nublada para te dedicares à leitura e à escrita. Mas, por vezes, são justamente essas tardes — chuvosas, opacas, lentas, lacrimosas — que te assolam o coração, que te enchem de angústias. Círculo vicioso: se não consegues ler, raramente consegues escrever, e se não consegues escrever ficas melancólico, que é bem a maior causa da tua não-vontade-de-ler. Queres aprender imensas coisas para que tenhas, como se diz, as ferramentas necessárias na hora de descreveres o que se passa dentro de ti. Os momentos de vulnerabilidade são aqueles que colocam tais ferramentas numa prateleira alta, longe do teu alcance, e não tens escada (nem força) para chegares lá.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2022


Rotas de fuga

Sentamos para escrever e temos o alfabeto inteiro à disposição: com essas letras (moléculas gramaticais) formamos palavras, e com essas palavras podemos declarar guerras, refletir sobre a indiferença cósmica, criar personagens, decretar leis, mentir, exprimir, rebater, podemos demonstrar amor, ódio, cortejar, emocionar, fazer rir, afogar-nos em lágrimas, podemos nos aproximar, ou nos distanciar, ser entendidos, incompreendidos, destruir muros, podemos, inclusive, quando nem a combinação infinita se mostra o bastante, permanecer em silêncio — um mergulho no abismo, vazio.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2022


Presságios

Tenho diante de mim o computador aberto. Estou prestes a fazer o teste «Saiba se você é um psicopata» enviado — não sei se a sério ou se a brincar — por um amigo de juventude.

Parte significativa da minha, como se diz, consciência está temerosa.

Algumas pessoas já disseram que sou indiferente, outras que não tenho coração, um monolítico sem sentimentos, perverso, melancólico, problematizador, ranzinza, tosco, megalômano… Confesso que não gostava de adicionar outro adjetivo perturbador ao meu extenso portfólio emocional.

A capa do teste (formato PDF) tem o rosto de Norman Bates, personagem interpretado por Anthony Perkins no filme Psycho, do Hitchcock. Escolha apropriada, se pararmos para pensar. Um rosto que olha diretamente nos nossos olhos, como quem diz: compartilhamos um segredo macabro, e tu bem sabes disso.

Há não muito tempo, minha irmã me enviou uma foto nossa durante certa bebedeira e comentou, por alto, que eu estava com a cara do ator Malcolm McDowell — o Alex, em Laranja mecânica. É o mesmo olhar de Norman Bates.

Coincidências à parte, abro o teste e leio a primeira frase: traços de um psicopata, saiba identificá-los. Posso (e quero) desistir de fazê-lo, mas sigo adiante mesmo assim.

* * *

Postscript a título de curiosidade: depois de responder a um questionário genérico e ambíguo (quinze perguntas elaboradas por sabe o diabo quem [nenhuma fonte, nem citações]), meu resultado foi: «Parabéns!, você não é psicopata».

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2022


Tudo isto acaba de repente

Em julho de 1989, o pequeno P. R. Cunha está sentado às margens da laguna de Araruama, com chapeuzinho de pescador, faz castelo de areia com ferramentas de plástico. Talvez fosse mais um daqueles dias na Região dos Lagos, dias morosos em que o tédio como que paralisava o mundo do pequeno P. R. Cunha, que por vezes escutava a voz do papai e da mamãe e sentia-se invencível.

Um outro tipo de relógio: infantil, despretensioso, seguro, relativo.

O pequeno P. R. Cunha tem apenas três anos de planeta, está ainda, portanto, mais próximo do vazio que precede ao nascimento, do que aquele que engolirá a todos quando retornarmos às entranhas da terra. O bom senso de Nabokov, a dizer que nossa existência é apenas uma fina fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Refletir sobre o passado, principalmente sobre o tempo de tranquilidades infinitas da infância, tentativas simbólicas de dilatar essa fenda — o P. R. Cunha adulto compreende, sem, todavia, negar à morte a capacidade de apagá-lo.

Planetas, estrelas, cometas, sistemas solares, galáxias, buracos negros, são transitórios: surgem, permanecem, desaparecem. Tartaruga gigante de Galápagos, rinoceronte negro do oeste africano, golfinho-do-rio-chinês, tigre-de-Java, tubarão-lagarto, cabra montesa, mamute, dinossauros… todos extintos. Por que seria diferente com os seres humanos (e nossos acúmulos desesperados [livros, músicas, filmes, internet, luzes elétricas, câmeras de vigilância, selos comemorativos, armas, etcétera, etcétera])?

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2022


Circunstâncias exteriores

É sempre um prodígio. Antes de dormir, inquieto-me com a possibilidade de, na manhã seguinte, não ter nada sobre o que escrever. Parece que Hemingway era assolado pelos mesmos fantasmas. Terminamos o nosso trabalho literário antes de o Sol se pôr, ele diz, e torcemos para que tenhamos alguma coisa na cabeça quando a estrela voltar ao horizonte. A tragédia, ainda no caso do sr. Hemingway, foi acordar e ver-se vazio por dentro.

Recentemente, recebi visita inesperada e a pessoa ficou observando a disposição do meu quarto: pois!, não sabia que eras minimalista. Respondi que o estilo espartano não fora adotado de maneira intencional, que não sigo nenhuma doutrina, nenhum guia, nenhum manual de instruções, apenas aprendi, com o tempo, a identificar as coisas que se mostravam essenciais para a minha escrita e livrei-me dos supérfluos, isto é: de tudo aquilo que não me ajudava a escrever.

Nunca me propus criar manifesto minimalista. O que é pouco para alguns, pode ser muito para outros — e vice-versa. Um músico de certeza não poderia viver sem o instrumento musical; da mesma forma, pedir ao fotógrafo que se livre da própria câmera fotográfica seria um disparate.

Utilizo este exemplo tosco e caricato à guisa de ilustração: antropólogo que morasse na floresta com alguma tribo aborígene não precisaria de ter um relógio Gaff Diamonds Hallucination (que custa mais de 55 milhões de dólares). Um valor absurdo para um objeto igualmente absurdo.

Eis, portanto, um relato simples e sincero das minhas, como se diz, «posses».

– Duas estantes*;
– Uma escrivaninha;
– Um computador;
– Uma luminária de mesa;
– Poltrona para descanso;
– Estojo com canetas diversas;
– Caderno de anotações (140mm x 202mm);
– Tapete**;
– Minha cama.

*Apenas com os livros essenciais para a minha atividade literária — depois de algumas décadas de leituras, toda a gente consegue identificar (até com certa facilidade) quais livros prestam, e quais não valem a pena.

**Bom para a acústica.

Tão logo percebi que não precisava de mais nada além desses itens supracitados, tratei de jogar fora o material excedente. Como naquela frase de Michelangelo, possivelmente apócrifa: não foi difícil criar a escultura de David, apenas peguei um bloco de mármore e me livrei de tudo aquilo que não era David.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2022


Gravidades

Quando nos perguntam algo, como se diz, de supetão, raramente respondemos o que queríamos, da forma que queríamos, com as palavras que queríamos, saem umas coisas estranhas, desconexas, difíceis de entender, termos dos quais sentimos vergonha, e a inquietação permanece, prolonga-se, começamos a pensar: e se eu tivesse dito isto, ou aquilo, e se eu não tivesse hesitado, gaguejado, por que sou tão pedante, ou tolo, vazio, etcétera. Toda a gangorra humana poderia ser justificada por esses constrangimentos sociais — movimento de marés (sair/esconder-se, aparecer/desaparecer). Por um lado, a exposição, a caça, a busca; por outro, a proteção, o refúgio, o silêncio.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2022


Naturezas finitas

Boas, leitores! — como sempre, muito desejoso de estar a serviço de vossa graça. É dois mil e vinte e dois e ainda não faço a ideia o que isso significa. Os anos mudam e eu cá não sinto tanta diferença. Ontem era domingo, hoje se faz segunda, amanhã: terça-feira. Nada de especial. Mantenho a mesma rotina, tomo o café forte para despertar, leio Michaux, Leopardi, Novalis, sinto um conforto momentâneo, volto a ter as angústias da praxe. Imensas nuvens chuvosas cobrem o céu. O cenário cinza me apetece. As flores do mal de Baudelaire estão deitadas no meu colo, e os espinhos não incomodam. Pássaro confuso corta o jardim em busca de abrigo. Minhas resoluções também permanecem as mesmas: ler mais, escrever mais, ser menos irascível com aqueles que me querem bem, compor músicas, etc.

Eletricidade
jazigos de concreto
prédios & asfaltos
motores sujos
soltam fumaças
poluentes —
ondas de ruídos.


Um professor de química do meu colégio certa vez me dissera: «Entenderás quando passares dos 30». Pois bem. Há muito que passei dos trinta e ainda não entendo. Entra ano e sai ano, continuo a tatear no escuro, a ver se lido com a inevitabilidade do meu próprio fim sem perder as estribeiras.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2022


Nervos filosóficos

Um comboio para na estação. Das duas uma: ou entramos, ou ficamos ali parados, observando o comboio partir.

A humanidade inventou de forma arbitrária os costumes culturais para não ter de lidar com o obsceno facto de que só precisamos mesmo de dormir, comer, defecar e gerar filhos — eis as únicas funções realmente importantes para a propagação desta estranha espécie bípede.

Morremos enquanto combinação
mas sobrevivemos enquanto átomos…

…é Lucrécio.

Em primeiro de janeiro, à meia-noite e um, já me invadiam umas vontades maníacas de escrever.

A vida, na verdade, não é nada do que parece: num dia soltamos fogos-de-artifício, no outro queremos nos esconder de toda a gente, depois há sol, há tardes de chuva, nevoeiro, calor, por vezes não conseguimos enxergar os fogos-de-artifício.

O homem de nervos filosóficos que passa imenso tempo longe a refletir sobre toda a sorte de assuntos precisará de pôr à prova essas reflexões quando as querelas da realidade exigirem, como se diz, «ação concreta». Do contrário, será sempre rotulado de imbecil.

Pensar demasiadamente a respeito de determinados problemas não faz com que o desastre se resolva.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de janeiro de 2022


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