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Um fazendeiro que se ajoelhasse diante da colheita devastada, e aquele infortúnio fizesse-o lembrar tudo o que perdera — tudo

Hoje de manhã passou um veículo pesado a levar árvores na carroceria. Fiquei a observar aquelas mudas que cresceram em algum terreno fértil e agora estavam a ser transportadas alhures — para um jardim residencial?, área verde de um shopping mall?, praça arborizada? Sabe-se que as plantas têm essa invejável capacidade de se adaptar a vários tipos de terra, mas algumas podem não se sentir em casa em determinados solos: definham, tornam-se infrutíferas. Nesses casos, como diria um amigo meu que é biólogo e entende do assunto, «nesses casos, é preciso de ter paciência, ou lamentar a morte da árvore».

Publicado por P. R. Cunha / 30 de janeiro de 2023


Remorsos

Algumas (poucas) pessoas estarão ao teu lado — mas terás de tomar as decisões por ti mesmo. E quase de certeza tomarás decisões equivocadas, ou «pouco adequadas», porque quando escolhes uma trilha, deixas de escolher infinitas outras trilhas, infinitas possibilidades que não foram, e acabas invariavelmente a analisar esses caminhos alheios com uma consciência idealizadora, seletiva: com olhos mágicos, digamos assim.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de janeiro de 2023


Aproximar-se das labaredas com destreza

Esta sensação de estar levemente embriagado, incapaz de me aprofundar no trabalho literário, falésias insondáveis por todos os lados — um cão que farejasse e tentasse reconhecer uma rua na qual nunca esteve.

Diz-se que o sol nasce e morre no horizonte. O dia: microvida.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de janeiro de 2023


Itinerário

Apenas esquecimento
um cansaço passageiro
quarto arrumado
nova mesa de trabalho
busca de outros objetos
— a escrita consoladora
fica para amanhã.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2023


Obsoleto

Se olhares retrospectivamente, tudo parecerá inevitável. Era óbvio que morreria num desastre de automóvel, sempre afoito no trânsito; não à toa Ximena fracassara, vivia distraída; aquele ali perdeu os botões porque se aventurou ao abismo. Passado simplificado, quando na época havia dúvidas, incertezas, complexidades, havia caos, corações arrependidos, pensamentos sombrios.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2023


Semicírculos

O cérebro — este órgão gelatinoso responsável por 20% do consumo total de oxigênio do corpo humano, máquina de reconhecer padrões, sempre a buscar significados, casa de neurotransmissores que tentam construir a narrativa mais completa possível mesmo diante de uma perturbadora escassez de informação.

Por vezes, bate-se a cabeça e o cérebro chacoalha no líquido cefalorraquidiano.

Dói.

Para cada escritor bem-sucedido, há milhares de outros que sequer conseguiram ser publicados, pessoas munidas de bloquinhos e caneta que perambulam no meio de nenhures, como fantasmas invisíveis à procura de luz.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de janeiro de 2023


Interromper-se

O sujeito está numa rodovia escura a dirigir o próprio Nissan Tiida. O relógio digital do painel mostra que são 2:25 da madrugada. Ele decide encostar o automóvel na berma. Os pneus passam por cima de pedras, areia, galhos partidos, folhas secas e param. O sujeito abre a porta e olha para o céu com infinitos pontos luminosos: tudo o que ele vê é ausência, silêncio.

Bebê também estava em silêncio dentro da barriga da mãe. Médico o arranca do conforto do ventre e, compreensivelmente, é homenageado com berros altos e lágrimas. Bebê não pediu para sair.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de janeiro de 2023


Não se contrói prédio (decente) em dois dias ou terreno de areia à beira-rio

Quando chegava de uma viagem dessas, sentava sozinho no quarto, lia qualquer coisa, tomava um café, ficava satisfeito.

Tens sempre um caderninho e uma caneta no bolso. Aprendeste a andar com esses pequenos utensílios independentemente de ocasião/circunstância/destino/&tc. Alguém que olhasse para o teu bolso e perguntasse: o que levas aí dentro? Tu respondes: meu material de trabalho.

Ora, caderninho e caneta deitam-se em qualquer superfície (até mesmo na palma da tua mão), de forma que podes escrever em toda a parte — não há desculpa, ainda mais depois que adquiriste uns protetores auriculares eficazes.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2023


Sapo canta sobre a pedra do jardim

Por vezes chegamos a determinados sítios, olhamos para os lados, há montanhas tomadas pela floresta, um céu azul preenchido por nuvens rechonchudas, pássaros que sobrevoam os rios, o vento balança os cabelos e o sujeito se pergunta: estou a sonhar, isto é real?

Nenhum ser humano num raio de quê?, cinco, dez, vinte quilômetros… E numa altura escutamos as cigarras, ou o barulho do nosso coração.

Na cidade: todos os disfarces possíveis e imagináveis. Aqui: nenhum disfarce — máscaras caem.

As árvores dançam todas juntas, e os galhos cantam hinos de indignação.

Na floresta, obedece-se.

Silêncio, horizonte desimpedido, tudo como deve ter sido há séculos. Um filme passa pela minha cabeça: alguns livros publicados, um par de reconhecimentos literários, cada passo até ao, como se diz, «descanso derradeiro». Depois, desaparecem os livros, os prêmios, os jantares artísticos…, eu.

Este sítio não será assim tão tranquilo daqui a alguns anos. A balbúrdia sempre arruma um jeito.

Parte significativa da minha consciência diz que escrever não leva mesmo a nada, certa inutilidade neste ato de colocar pensamentos no papel; enquanto outra parte da minha consciência (igualmente significativa) diz que isto é a única coisa que sei fazer, que se não fosse pela escrita eu não teria motivo para me levantar de manhã, etc.

O andarilho com o próprio cajado, mais três cães (Chicotó, Luva e Leônidas), desbravam a mata fechada como um Fitzcarraldo sem norte, o barulho do rio, a cachoeira, a queda d’água, e toda a insignificância, o disparate, o efêmero — experiência reveladora em tantos níveis.

À noite, o canto arrastado dos insetos. Incontáveis pontos luminosos no céu, manta cósmica. As estrelas também não dão a mínima.

Uns fragmentos de paisagens que têm interesse para quem esteve lá, mas talvez algo minúsculo e monótono para quem apenas lê tais fragmentos.

Nem toda a gente partilha o mesmo entusiasmo.

De manhãzinha, pingos de chuva tamborilam o telhado da casa. Um sapo canta sobre a pedra do jardim, como se dissesse: já é hora de regressar.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de janeiro de 2023


Privações voluntárias

Meio a brincar e meio a sério, o escritor disse que só cortaria o cabelo depois que terminasse o manuscrito no qual estava trabalhando. Como o cabelo dele não parava de crescer — chegara, inclusive, a um «comprimento inaceitável» (segundo os parâmetros da própria noiva) —, muitos passaram a acreditar que ele nunca terminaria a obra, enquanto outros, mais maliciosos, alimentavam rumores sobre uma possível desistência do escritor: não só do livro, mas também de toda a sorte de literaturas.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de janeiro de 2023


Panorama

Perto da casa da minha infância — na qual mamãe ainda mora — há um parque com longa trilha que leva até ao lago. Durante o trajeto, o andarilho não precisa de pensar em nada, e as pernas como que se movimentam sozinhas. Dentro do parque há também um mirante, de onde avistam-se os prédios do centro da cidade, a ponte, a torre de televisão e, se virarmos para o sul, a varanda do quarto da minha mãe (por vezes com a diminuta figura dela à balaustrada, contemplando). A sensação que se tem é de que tudo ficará melhor: não perfeito, nem ideal, simplesmente melhor.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2023


Uma nuvem relacionada a outras nuvens (nefologia amadora [ou pequenas alterações podem levar a grandes consequências])

Sentar-me à mesa para refletir sobre os sofrimentos do mundo, ler Nietzsche, Cioran, o próprio Schopenhauer, mas também olhar pela janela e perceber um dia agradável e soalheiro. Se muito do mundo é representação elaborada pelo sistema cognitivo, faz-se necessário tomar os devidos cuidados na hora de abastecer esse sistema. Noutros termos: preocuparmo-nos não apenas com a dieta alimentar, mas também com os pratos de informação que consumimos diariamente.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2023


Monólogos interiores

A primeira palavra desenhada no papel, a frase que se segue, pensamentos abstratos que se tornam legíveis — processo que produz estado de êxtase de enorme intensidade —, a caneta avança depressa, como os dedos de um adolescente necromante sobre o tabuleiro ouija, cada átomo do teu corpo está envolvido nesta inextricável e enigmática atividade: é isto o que estás a ver acontecer.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2023


Panorama

Quão maravilhosa deve ser a vida de escritor — ele diz —, pelo menos se tirarmos as neuroses, as ansiedades, os distúrbios, as perturbações, os abandonos, as fobias, os envenenamentos, as vulnerabilidades…

Quando o próprio local de trabalho passa a ser classificado como um sítio inseguro:

«A minha escrivaninha está a afundar-se.»

Mas estou aqui pelo silêncio (o que sobrou dele).

Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2023


Ocasiões

Na minha juventude, eu jogava futebol praticamente todos os dias, depois voltava para casa e tocava bateria. Era esse o ciclo. Até que aos 16/17 anos descobri a escrita. Eu já havia lido algumas coisas de Poe, Lovecraft, Kafka, Púchkin, mas nada se comparava com aquilo, com o ato de preencher folhas em branco, exorcizar as próprias ideias. Eu pensei: isto aqui é mágico, alienígena, por que cargas demorei tanto, etc. etc. Mais tarde, já nos meus anos 20, tive a mesma sensação ao experimentar cogumelos. Lembro-me de ter olhado para uma amiga e dizer: «É como escrever literatura, parecidíssimo».

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2023


Submerso

Não se sabe a verdadeira profundidade das águas escuras sobre as quais o mundo sorridente flutua — mundo de pedras e desertos, mísero átomo diante de um cosmos que está a expandir-se muito depressa.

Sebastián passa boa parte do dia sentado em uma poltrona estilo Kubrick-A-Clockwork-Orange-1972 no centro de um apartamento praticamente vazio. Fuma o cachimbo, serenamente desapegado, medita, não raro tira do bolso um pequeno caderno e toma notas:

A construção e a desconstrução de um outro ser humano depende daquele que está a observá-lo. Amamos ou odiamos de acordo com um conjunto arbitrário de regras que fabricamos, que estabelecemos.

Sebastián hesita, leva a mão esquerda à têmpora: de aí ser tão «agressivo» para o observador quando a outra pessoa resolve participar da equação caleidoscópica, e se mostra alguém completamente diferente de quem acreditávamos que fosse.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de janeiro de 2023


Contradições elétricas

A chuva
o frio —
solidão


Escrever à máquina: mais que um método anacrônico, uma resistência.

Alguém diz: livro de papel, livro eletrônico, qual a diferença?, são palavras, o conteúdo é o mesmo.

Uma pessoa que se levanta cedo, está a se preparar para o dia, toma café na caneca favorita (presente, digamos, da filha, ou do cônjuge, ou talvez herança de um ente querido), experiência significativa. Agora, estás deitado no leito de um hospital, uma enfermeira injeta café na tua veia, ou talvez diretamente na boca, o tubo plástico encosta nos teus lábios, a luz branca do quarto causa-te náuseas.

Café.

O conteúdo é o mesmo, certo?

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2023


Valsa à eternidade

O propósito, a razão, o significado de escrever é continuar escrevendo.

Como uma memória que nunca existiu, um fantasma que te envolve, e não te assusta, nunca fala alto — está sempre lá.

ESCRITOR (es-cri-tor [três sílabas, oito letras]):

Alguém que passa anos isolado, a praticar em segredo exercícios mentais de autotransformação e, por meio dessas técnicas, desenvolve extraordinário controle sobre a caneta.

Formas de vida baseadas em carbono / monólito.

Em outros termos: a escrita é algo que não desaparece, mesmo quando deixamos de pensar nela.

Scott Fitzgerald, Virginia Woolf, Hemingway, Philip K. Dick, Kerouac, Sylvia Plath, Lovecraft, Poe…

Às vezes, enlouquecer é resposta apropriada à literatura.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2023


Na meninice: viagens ao Rio de Janeiro; na velhice: tempestades em Brasília; no meio: todo o resto

Onde estão os limites da minha ilusão?

Um escritor que almejasse curar corpos e «almas» doentes.

As ondas
o cair da neve —
vento paralisado


Sonhei que estava dentro de um automóvel e caíamos de uma ribanceira. A queda parecia durar uma pequena eternidade. Vestígios da morte do meu pai? Possivelmente.

Todos os corações parecem felizes. Ao longe, um cachorro late (mas não me incomoda).

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2023


Núpcias

Escrever como se fosse a primeira vez — grande desafio.

A rotina subtrai supérfluos, mas também embrutece, negligencia.

Um miúdo a quem ainda não ensinaram nada, e tudo o que ele sabe é aquilo que sente, sem conceitos estabelecidos, sem nomenclaturas, sem rótulos.

Criar coisas e deixá-las desaparecer. Depois, lamentar-se por não ter sido mais amável com elas.

Ir embora enquanto o mundo todo ainda se mostra aberto para as fugas.

A cadeira é a mesma, os livros em redor são os mesmos, a escrivaninha é a mesma, o escritor não é o mesmo.

Como é fácil uma rotina dessas desmantelar-se. Mas aqui não é proibido brincar nas ruínas.

De longe um clarão
como uma biblioteca ardendo

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2023


Geometria euclidiana

Sabe-se que o comportamento de um escritor sobre a folha em branco sugere possibilidades sem fim. Cada escolha, cada vírgula, cada ponto…, tudo acarretará em outras escolhas, outras vírgulas, outros pontos, ad infinitum. E isto é verdadeiro — construir mundos não é assim tão simples quanto parece. No entanto, o que a atividade exige não é necessariamente uma escrita total, mas antes um tipo específico de síntese, uma redução aos elementos mais importantes daquilo que se quer contar. Assim, a caneta que se expande, e se retrai, e se bifurca em todas as direções, pode ser reduzida a um plano finito.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2023


Ouvidos internos — depois da tempestade, vêm outras tempestades

Início de ano. Digo a mim mesmo para tirar umas férias: trabalhaste demais, descansa. Vinte e quatro horas depois, lá estou eu angustiado atrás de papel e caneta para conter as vozes que transbordam a minha cabeça.

Coruja: símbolo de sabedoria, guardiã da Acrópole. Mito provavelmente inspirado pelos olhos grandes e pela aparência solene dessas rapinas nocturnas.

Sobre a minha mesa de trabalho há uma corujinha de pedra — chama-se Orwell. Está sentada perto dos livros do Kempowski com uma expressão severa, olhar fixo, inquisidora.

Uns olhos vidrados do tipo que encontramos, segundo Sebald, em determinados pintores e filósofos que, com recurso apenas à pura observação e ao puro pensamento, procuram penetrar nas trevas que nos cercam.

As corujas de verdade são feitas de penas, farta plumagem, asas longas, ossos adaptados ao voo, átomos, moléculas, e, assim com os seres humanos, espaços vazios.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2023


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