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Comportamentos repetitivos (XXIV)

Ele estava na cama, encostado na parede, com os cotovelos sobre o travesseiro em fronha de seda azul-marinho, enquanto ela tirava as próprias roupas do armário e jogava tudo dentro de uma mala Samsonite grande. Ele observava os movimentos rápidos e decididos dela: abre a gaveta, segura a roupa com força, joga a roupa dentro da mala. Ele ajeitou o travesseiro e disse: o problema de vocês é que vocês são mesmo muito orgulhosas, fingem uma força que não têm, cheias de coragem e determinação, que pretendem se dedicar ao trabalho, sim, construir uma carreira, esse tipo de coisa. Ela pegou a caixa de joias e também jogou na mala. Ele prosseguiu: acham que o trabalho é tudo, horas e horas trabalhando, com a cabeça nas reuniões, nos relatórios, nos objetivos, nas metas anuais, e falam que não têm tempo para mais nada, que são mulheres modernas, e ficam viciadas nesse circuito fechado. Ela foi ao banheiro, juntou os produtos de higiene pessoal, estojo de maquiagem, pente, chinelos, jogou na mala. Ele disse: e essa estratégia funciona durante um tempinho, obviamente que funciona, o emprego na firma, o salário no fim do mês, a autonomia, as horas extras, claro que funciona, mas, de repente, sem aviso, vocês estão sozinhas num quarto de hotel, vocês olham para o lado e não há ninguém, vocês ligam a televisão, a tela azulada ilumina o quarto escuro, ninguém além do corpo estirado na king size do hotel, e vocês começam a sentir um brando desespero, e o desespero cresce aos poucos, e sentem também um gosto amargo na boca. Ela pressionou o pé esquerdo sobre a mala, fechou o zíper. Ele continuou: até que vocês se dão conta de que o trabalho não era tudo, que a carreira nunca foi tudo, que as metas, os desafios, o salário, não serviram para nada, até que vocês se dão conta de que, muito provavelmente, irão morrer sozinhas, sem filhos, sem namorados, sem nenhuma companhia para os anos de velhice, sozinhas. Ela arrastou a mala para a porta do apartamento, saiu e pressionou o botão do elevador.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de maio de 2021


Síndrome de burnout

As condições exigidas pelo século vinte e um o preço que se paga o distanciamento o desapego o não-se-comprometer-com-nada ter cinco seis sete trabalhos em menos de dez anos autopromoção descontinuidade telemóveis apontados para o próprio umbigo as dinâmicas financeiras youtubers milionários a reprodutividade médicos professores filósofos negligenciados o político que venera o desenvolvedor de softwares os copos descartáveis os amores descartáveis as pessoas descartáveis e eu produto de 1985 com a cabeça de 1985 uma contradição ambulante amarrado à eterna transitoriedade do foi/ainda/não/é e eu que só sei escrever e nada mais.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de maio de 2021


Todas essas formas dependem do tipo de coisa que se está a escrever e do tipo de efeito que se pretende produzir

[Ele toma o sorvete muito depressa e experimenta um brain freeze terrível. Faz careta, contorce-se na cadeira da lanchonete, bate a colher na pontinha do pote de porcelana]: taí uma dor com a qual eu me acostumaria. […] Não que meu pai fosse um ser humano ruim [ele continua enquanto leva outro tanto de sorvete à boca], não estou aqui a insinuar que fosse um sujeito ruim, um monstro, porque os pais…, os pais fazem o que podem com as ferramentas que têm na mesa, certo? Apenas chegava em casa cansado, sempre muito cansado, papai, e via-se que só queria ficar em silêncio, não pronunciar mais nenhuma palavra, pois passava o dia inteiro esforçando-se para ser um bom homem, um bom funcionário, passava, portanto, o dia inteiro fingindo ser alguém que não era. E quando chegava em casa, exausto, sim, insisto nisto, completamente esgotado, a máscara caía, e ali estava quem ele era de verdade: um palhaço sem maquiagem, triste, angustiado, nervoso, desiludido, frustrado. [Toma mais sorvete, brain freeze: intensidade branda desta vez.] Até que ele pura e simplesmente decidiu não voltar, o meu pai. […] Saiu para o trabalho como da praxe, deve ter tido um dia muito difícil, e não voltou. Já me disseram que foi parar nas Caraíbas com a amante, e que se casaram, que tiveram dois filhos, mas a veracidade desses rumores, tenho de confessar, me parece um bocado duvidosa, inverossímil.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de maio de 2021


Alívios temporários

Uma pessoa num estado crítico de psicose, ao cimo de uma crise nervosa, sem filtros, sem nada a perder, balbucia palavras avulsas, mas também é capaz de gritar verdades inconvenientes àqueles que estão em redor. Por isso que muitos preferem dopar/sedar o «louco», ou então (quando as sinceridades verbais se tornam estorvos absolutamente insuportáveis) trancam-no numa cela de manicômio — a que o decoro moderno prefere chamar de casa de alívio mental.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de maio de 2021


Teoria geral do esquecimento (terceira parte)

No inverno de 1902, Ignacio P. saiu para comprar batatas e cigarros. Não se demorou: comprara o que tinha de comprar, depois voltou para casa no bairro de San Telmo, Buenos Aires. Ignacio P. era um desses anônimos sem rosto que vemos andar pelas calçadas como que desnorteados. Pessoas que nunca serão lembradas por ninguém — mais gente do que se pode contar sem perder as contas.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de maio de 2021


Fim de semana alhures

O pai leva as duas filhas pequenas para um piquenique no parque. O pai: 46 anos, divorciado, ligeiramente acima do peso, bermuda Adidas tamanho XL, o tênis desportivo a indicar — pelo menos — certa intenção de manter rotinas regulares de atividade física. Ele se ajoelha para ajeitar a toalha, olhando para o céu em busca de sombra. As duas filhas observam o moderado excesso de gordura que se projeta nas laterais do pai (1,73 m, 79 kg). Ele levanta e chacoalha as mãos para se livrar da grama que grudara entre os dedos. As duas filhas sentam sobre a toalha. Uma delas diz que tem um tantinho de fome, a outra está com sede, e o pai se dá conta de que esquecera a lancheira térmica no banco de trás do Ford Fusion, pintura azul-metálica, ano 2018. Algumas jovens praticam o running na pista de atletismo. O pai coloca os óculos escuros, faz pose de disponível. As jovens passam sem dar muita atenção. O pai suspira, pede para as filhas esperarem e sem muita pressa vai buscar a lancheira térmica no banco de trás do automóvel.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de maio de 2021


A realidade é sempre outra

Estou cada vez mais convencido da impossibilidade de se estabelecerem certezas absolutas diante de eventos particulares. Numa avenida movimentada os automóveis passam com imensa pressa. Mas será que realmente passam? Ou quando conversamos com alguém: o quanto da identidade dessa pessoa não seria produto da nossa imaginação?, e quanto da nossa própria personalidade não seria também, em grande medida, fragmentos artificiais daquilo que essa pessoa pensa de nós? Muitas vezes achamos, ou melhor, acreditamos piamente que somos de um jeito X, que agimos de um jeito X, que falamos de um jeito X, até nos depararmos com a opinião alheia, e, de repente, não somos mais X, agora somos Y, agimos de um jeito Y, falamos de um jeito Y. Deixamos de ser a caricatura fácil e despretensiosa que havíamos desenhado para nós mesmos, tornamo-nos difíceis, atormentadores, estranhos. Agachamo-nos para recolher as peças desse quebra-cabeça, sem saber ao certo o que pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de abril de 2021


Relativismos & a descoberta da lentidão

Depois de ler quase duzentas definições de «tempo» (de Einstein a Octavio Paz, de Burdick a Montaigne), cheguei à conclusão-sinopse de que tempo é aquilo que passa rápido quando queremos que demore, e aquilo que demora quando queremos que passe rápido.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de abril de 2021


Bibliotecário como uma espécie de deus

A Biblioteca de Babel é composta de um número indefinido (e talvez infinito, acrescenta Jorge Luis Borges) de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação ao centro, cercado por balaustradas. Uma estrutura colossal. De qualquer hexágono, explica ainda o escritor argentino, podemos ver os andares inferiores e superiores — interminavelmente.

Uma biblioteca que abrigasse todos os livros do mundo, a totalidade do conhecimento humano.

Eu costumava cultivar aquela tenra ingenuidade — em parte demonstrada também pelos irmãos Grimm no século XIX [Kassel, outubro de 1810] — de que, afinal, são as pessoas que morrem e não os livros. Se ao menos cuidássemos bem das brochuras e pudéssemos abrigá-las na utópica biblioteca de Borges.

Mas a verdade é que, a despeito das tentativas digitais de «aglomerar cada átomo do universo», ainda perdemos livros. Editoras que deixam de publicar determinadas obras, o servidor de alguma gigante-hi-tech que depois de pane generalizada perde centenas de textos armazenados, as traças que consomem as páginas despedaçadas de um único exemplar medieval, aquelas senhoras e aqueles senhores que numa altura sentaram-se para expor os próprios sentimentos nas pautas de um diário, cujo paradeiro jamais saberemos…

Parece correto, portanto, o axioma a dizer que os escritores sofrem mesmo duas mortes: a primeira quando deixam de respirar; a segunda, quando não podem mais ser lidos.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de abril de 2021


E lá se escreve em passinhos miúdos

Há uma torteria. Minha mesa está perto da rua inclinada. Corre um regato produzido pela chuva, que se mostra branda, persistente. Uma das paredes da torteria é forrada a papel cinza, como se imitasse a textura do concreto. Curiosos motivos de ladrilhos e madeiras com tons escuros cobrem o chão. É algo birrento e até um bocado infantil, mas, às vezes, tudo o que o escritor precisa é que alguém diga: tu não vais conseguir, não dás conta. E, então, de ânimo renovado, furioso, ele se debruça sobre as anotações e dá continuidade à empreitada livresca.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de abril de 2021


Para silenciar algumas de minhas fraquezas

O amor é uma arte, disse certa vez Erich Fromm — filósofo da chamada Escola de Frankfurt, cujos participantes tinham um fraco pelo vazio, pela vacuidade, pelo absurdo de existir. Para Fromm, a condição humana primordial seria a separação, isto é: estamos sozinhos, só temos a nós mesmos. Aqueles que andam à beira desse abismo e o sabem acabam por se dedicar a algo (ou alguém) que lhes dê algum tipo de raison d’être, um norte, uma bússola, um motivo. Daí o amor. O amor faria com que olhássemos com menos rejeição ao niilismo inerente a este universo — um espaço infinitamente gigantesco, em constante expansão, dentro do qual nada somos além de um pixel descartável. Por não existir cura definitiva para esse isolamento (apenas analgésicos manipulados), deveríamos aceitar as circunstâncias, abraçá-las, adaptar-se, jamais lutar contra elas. E aqui, vale ressaltar ainda, não haveria distinção alguma entre as diversas âncoras que lançamos às profundezas: o amor do artista pela obra e o amor do artista por um outro ser humano, por exemplo, equiparam-se. O sujeito literário que ameniza angústias dedicando-se aos caprichos das palavras, que se entrega ao próprio livro sem esperar nada em troca, deveria agir da mesma forma diante da pessoa amada. Ambas as empreitadas mostrar-se-iam processos: dia após dia, erro após erro, avanços, recuos, equívocos, acertos, consertos, metamorfoses. O livro e a pessoa amada fazem parte do escritor, assim como o escritor faz parte deles. É famosa a condição de determinados autores que se afogam nas ondas da melancolia depois de terminar trabalho ao qual se dedicaram durante anos. Eles de súbito se dão conta de que o caminho era o que lhes dava algum propósito. Assim, insistiria Fromm, sucede-se também com o amor entre humanos: um projeto a longo prazo, a tempo inteiro, sem nenhuma pressa de atingir um ilusório destino final. 

Publicado por P. R. Cunha / 26 de abril de 2021


Porém, e isto é incômodo, as coisas não são tão simples — ou uma mente ativa capaz de construir simulacros

Televisão, telemóveis, computadores de bordo, braços robóticos, automóveis que dirigem sozinhos, smart homes, drones entregadores de pizza, drones assassinos, corações artificiais, exércitos de silício, smart watch, touch screen, flat screens, Netflix, Megaflix, realidade amplificada, sexo virtual, home office, A.I., ebooks, GDrive, pagamento por aproximação, bitcoins, PayPal, conta corrente, juros, análise de créditos, óculos 3D, videojogo, Tinder, Badoo, POF, Bumble, Instagram, brain in a vat, teletransportador, Sci-Fi, Lo-Fi, High-Fi, Wi-Fi, identidade pessoal, continuidade, conectividade, senha eletrônica, QR code, TOTP, JAB code, HCC2D, Model 1, código de barras, detector de metais, correção de erros, ISO/IEC, alfanuméricos, reconhecimento de caracteres, células fotoelétricas, rastreabilidade, GPS, GS1-128, transdutor, dispositivo optoeletrônico, células solares noturnas, módulos fotovoltaicos, 1367 W/m2, tecnologias emergentes, Black Dye, startup, crowdfunding, enterprise, freelancer, venture capital, business incubator, ONG, dicionário online, e aquilo que uma pessoa não consegue lembrar nunca existiu… pelo menos não para ela.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de abril de 2021


A vida dentro de certas estruturas assume o caráter de um jogo

A primeira coisa que pergunto quando acordo de manhã: a realidade existe? Minhas pernas são reais?, meus braços, meus dedos, e esta dor aguda que sinto nos meus joelhos? Como posso obter alguma certeza de que isso tudo, de facto, existe? Um filósofo alemão, perspicaz nestes assuntos, escrevera que, muito provavelmente, aquilo a que chamamos de realidade não passa de construção mental imposta pela estrutura do nosso cérebro. Abrimos os olhos, reconhecemos dados, o sistema neurológico cria (importante verbo: cri-ar [transitivo] / dar existência a; gerar; produzir; inventar; fomentar; estabelecer; interpretar) padrões, surge um sentido. Acontece, também, de o conjunto de sentidos não ser fixo. À medida que meu reconhecimento de realidade muda — através de maturidade, traumas, conquistas, fracassos etc. — abandono algumas convenções, adiciono outras, e assim continua a ser encenado o teatro grotesco. Em poucas palavras, não sou realista, sou cético. E o relato a seguir não é uma transcrição, mas uma reconstrução.

[…]

Toda a última quinta-feira do mês vou ao médico, é o que tenho feito há seis anos. Na semana passada, passou-se o mesmo. Levantei-me, vesti meu cardigã e disse para a minha esposa: Matilda, vou ao médico. Ela não respondeu, continuou sentada na poltrona a tricotar. Anda meio surda. A título de sinceridade, meus ouvidos também andam um bocadinho avariados. Gostamos de menosprezar a falta deste ou daquele sentido de alguém, sem muitas vezes reconhecermos que os nossos próprios sentidos não são, nem de longe, mais os mesmos. Matilda anda surda, faço troça da surdez da minha esposa, mas, repito, preciso de reconhecer que a minha própria audição já está a ir, como se diz, para o brejo. De forma que Matilda bem pode ter respondido qualquer coisa à minha afirmação («vou ao médico») e eu nem com isso. Vai, vai logo, Eustácio, anda, apressa-te — era o que ela costumava me dizer numa época em que ambos escutávamos perfeitamente. Onde já se viu!, pensei enquanto abria a porta da rua, digo que vou ao médico e a velhota nem se dá ao trabalho de me responder, fica a tricotar aquele suéter terrível, como se o marido (eu) nem existisse. Casamos com alguém, achamos que seremos parceiros inseparáveis, que envelheceremos juntos, queremos acreditar que aquela mulher será a nossa melhor amiga até ao fim dos tempos, porém, como é tão comum entre nós, essas parvoíces não passam de vã esperança, miragens. Às vezes me vêm esses pensamentos insensíveis, essas atitudes disparatadas, não sei por quê. Mais tarde, naquele mesmo dia, muitíssimo abalado pela notícia que receberia do médico, descobri que o suéter terrível era na verdade um presente que Matilda estava a preparar para mim, para o meu aniversário de 68 anos, cuja data eu me esqueci completamente, e nem preciso dizer que desabei a chorar diante dessa conjunção de catástrofes. Mas não será este o momento para nos demorarmos sobre isso, adianto-me sem necessidade. Na semana passada, portanto, última quinta-feira do mês, fui ao médico, como tenho feito há seis anos. Exames da praxe. Assim que cheguei ao consultório, a recepcionista deu-me as boas-vindas, perguntou com voz de criança se eu queria guardar meu cardigã, se eu queria um cafezinho com bolachas, se a televisão estava num volume adequado. Devo ter feito um daqueles sons que os velhos fazem, e falei que estava tudo bem, que só queria sentar, esticar as pernas, meus joelhos doem. A recepcionista disse: compreendo, senhor Eustácio, compreendo bem. Não compreende!, mocinha, não compreende!… Isso obviamente eu não disse, só pensei com meus botões: não compreende. E não era despropósito algum pensar assim. Os mais jovens acham que compreendem os mais velhos, mas não compreendem, porque não precisam de passar pelas coisas que os mais velhos passam, as humilhações, as torturas, as dores nas articulações. A recepcionista voltou para atender ao telefone, notei que mancava. De minha parte, deixei meu corpo deslizar na cadeira de estofado verde, e a brisa morna do ventilador atingia meu rosto como um mau presságio. Sala de espera. Jornal matutino na televisão. Ansiedade e tédio. Fechei os olhos. Podemos não conseguir dar sentido à realidade como um todo, mas isso não nos impede de dar sentido às coisas «dentro» dessa realidade; quero dizer, em determinados contextos, a razão da minha existência, de eu estar aqui de olhos fechados na sala de espera do consultório médico, o mesmo consultório, há seis anos, toda a última quinta-feira do mês, a razão de eu respirar, de eu sentir dores, dos meus pensamentos egotistas, a razão de tudo isso continua sendo que, numa altura, meus pais, que também tinham uma longa cauda de bifurcações e acasos, se conheceram na maldita daquela lanchonete; eu não pedi para nascer, ninguém pediu, isso é coisa que nunca aguentei, e me disseram que chegaria a idade em que eu simplesmente aguentaria, mas nunca aguentei; e meus pais terem se conhecido, minha presença neste consultório médico, meu antigo emprego, a Matilda, minhas dores, minha coleção de selos… fazem parte de uma existência artificial, de uma narrativa, de uma vida, de uma realidade que carece de razão; não estou aqui por algum motivo, não nasci para ser grande, poeta, arquiteto, malabarista, de forma alguma, apenas nasci, um acidente biológico, estou à mercê de tudo isso, desses propósitos limitados, dessas regras limitadas, desses objetivos limitados, dessas explicações limitadas, e daí resulta o caos total; jogamos xadrez, sabemos os movimentos das peças, o que cada peça pode ou não fazer, pensei ainda de olhos fechados na sala de espera do consultório médico, o tabuleiro de xadrez claramente delimitado; no entanto, como estamos fartos de saber, se continuarmos a cavar, se nos livrarmos do tabuleiro, das peças, mais cedo ou mais tarde chegaremos à temível conclusão, à certeza bruta: que era só um jogo, que as regras só fazem sentido se não avançarmos muito nas investigações. De repente, senti uma mão gelada no meu braço esquerdo, abri os olhos como se tivesse acordado de um transe. Senhor Eustácio, disse o médico com severidade, receio não ter boas notícias para lhe dar.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de abril de 2021


A Pessoa Pequena

Pessoa Pequena tenta engatinhar para o colo da mamã. 
A mamã, vestida com roupa de médica,
agacha-se para abraçar Pessoa Pequena.
A mamã diz:
— sinto muito, meu bebê, sinto muito mesmo,
mas hoje estarei de plantão no hospital, comporta-te.
Pessoa Pequena ri, e aperta as bochechas da mamã,
e puxa, e brinca com os óculos arredondados da mamã.
A mamã então entrega Pessoa Pequena para a cuidadora.
Cuidadora tenta ninar Pessoa Pequena.
Balança o bebê de um lado para o outro.
Como se Pessoa Pequena fosse uma jangada bem miudinha.
Embrulhada no macacão felpudo, bem que
Pessoa Pequena se parece mesmo com uma jangadinha.
A mamã diz tchau, abana os braços,
fecha a porta do apartamento.
Finalmente Pessoa Pequena começa a entender
o que se passa: mamã não vai dormir aqui esta noite,
mamã não volta.
Pessoa Pequena chora, ou melhor, esperneia,
consegue se desvencilhar da cuidadora.
Dali a pouco, Pessoa Pequena está deitada no chão
da varanda.
Pessoa Pequena contorce a cabeça.
Tem ainda lágrimas nos olhinhos.
Observa pela pequena abertura no concreto
o Chevrolet da mamã se distanciando cada vez mais,
cada vez mais,
cada vez mais.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de abril de 2021


Antes de partir

Em 2015, sofri acidente grave no pé — uma mesa de vidro espatifara-se nele, abriram-se cortes profundos e levei ao todo vinte pontos. Precisei de ficar em repouso, prostrado na cama, sem poder mexer a perna direita. Recebi visitas de amigos e familiares, que vinham me desejar rápida recuperação, traziam-me chocolates, algum instrumento musical para que eu me distraísse, etc. Uma dessas visitas, aliás, ficara marcada na memória: minha avó e meu tio-avô foram me ver numa tarde particularmente dolorosa em que tive de tomar remédios à guisa de lidar com tudo, e, enquanto a enfermeira drenava o sangue acumulado no meu calcanhar, eles me observavam com olhos vazios, em silêncio, como se velassem um moribundo condenado. Os efeitos dos medicamentos deram à cena contornos ainda mais taciturnos. Visita estranha, pensei comigo.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de abril de 2021


Modus operandi

O escritor que escreve todos os dias, de maneira metódica, compenetrada, a tratar dos temas que lhe são caros, acaba criando um trabalho digno de nota, uma obra literária, digamos assim, e essa obra será comercializada, guardada e esquecida. O escritor, eventualmente, também será esquecido.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de abril de 2021


Para emitir digressões inoportunas

Todas as vezes em que entro nesta sala de aula, com estes alunos vestidos com uniformes escolares, com este ventilador de teto a fazer ruídos de ventilador de teto, com estas mesinhas organizadas em fileiras, quatro fileiras, cada uma com cinco mesinhas, com a minha própria mesa de professor retangular, com este quadro negro asqueroso, com estas paredes cuidadosamente pintadas de amarelo, e janelas com hortaliças da estação, enfim, todas as vezes em que entro nesta sala de aula tenho as vontades de, conforme se costuma dizer, pôr termo à vida. Trabalho nesta escola há quase quinze anos, e não houve uma única vez, uma única ocasião sequer em que eu tenha entrado nesta sala de aula sem que o pensamento de suicídio me acometesse. Tiro de pistola, afogamento, pular da sacada de um prédio, asfixia por monóxido de carbono, overdose de morfina, e tantos outros métodos, desnecessário enumerá-los aqui. Entro na sala de aula, e os alunos estão sentados, e penso comigo: de hoje não passa, mato-me. Quinze anos com esse mesmo pensamento, com essa mesma, digamos, fixação, um esforço intelectual absolutamente psicótico, não posso deixar de admitir, doentio. Sento-me à mesa, abro a pasta azul com a lista de chamada, e começo a ler os nomes dos alunos em ordem alfabética — Ana, Armando, Bruna, Carla, Dênis, Diego, Fernanda… e eles respondem: presente, professor. E eles vestem uniformes impecáveis, sem nenhuma mancha, sem nenhuma costura exposta, uniformes escolares limpos, brancos como a neve, se calhar ainda mais brancos do que a própria neve. Presente, professor. E eles sorriem, querem aprender com o professor, querem absorver o conhecimento do professor, querem tirar o máximo de proveito daquela experiência aluno-professor, mas o professor pensa na pistola, no afogamento, na sacada do prédio, na asfixia por monóxido de carbono, e esse gênero de coisa. Os alunos saem de casa com toda a vida pela frente, com planos, expectativas, com sede de conhecimento, enquanto o professor sai de casa já farto de tudo, com pensamentos suicidas, com a cabeça à roda, mórbido, desacreditado, e tais abordagens são de tremer, mas não busco aplausos. Os alunos sentam-se às mesinhas e inclinam o corpo para a frente; o professor senta-se à mesa do professor e reclina o corpo para trás. Os alunos na ofensiva, o professor na defensiva. Os alunos atacam, o professor se protege como pode. No final do semestre passado, numa quarta ou quinta-feira, passei os exercícios da praxe para os alunos, e fiquei a observar a estrutura da janela. Enquanto eu fazia os cálculos, a pensar no que me aconteceria se por um mero «acaso» eu «escorregasse» e «caísse» lá embaixo, a diretora da escola bateu no vidro da porta chamando-me para ter com ela. Saí da sala, a diretora sorriu, pude ver as obturações nos dentes traseiros. A diretora disse: hoje é o teu dia de sorte! Não tive nenhuma reação. Ela continuou: foste nomeado para o cargo de coordenador pedagogo. Eu falei que isso não me interessava, aliás, tive mesmo de insistir, implorar, dizer que não queria nada com aquilo, que, verdade seja dita, sempre odiei esse tipo de função, só o nome coordenador pedagogo já me causava repulsa, asco, ao que a diretora sorriu ainda mais, e lá estavam novamente as obturações, e disse para que eu deixasse de tanta modéstia, que eu tinha sido escolhido por unanimidade, e aqui ela colocou a mão no meu ombro direito, unanimidade, todos querem que tu sejas o novo coordenador pedagogo, e tu começas na próxima semana etc. etc. A gente esfrega os olhos e não acredita. De forma que, desde o final do semestre passado, sou também o coordenador pedagogo desta escola, mesmo que eu nunca tenha participado das reuniões, nunca me apresentei como tal, nunca nem assinei contrato, e meu salário continua o de sempre. Às vezes estou a andar pelos corredores da escola e algum funcionário passa e diz: bons dias, sr. coordenador pedagogo. E dizem isso com uma solenidade até um pouco patética: sr. coordenador pedagogo. É terrível. No refeitório, agora preciso de me sentar na área dos coordenadores, e todos falam de coisas que os coordenadores costumam falar, ou seja, dos assuntos mais insuportáveis, ridículos, sem cabimento, e isto sou obrigado a notar por questão de honestidade. Os coordenadores não são melhores nem piores do que ninguém, mas agem como se fossem diferentes, como se fizessem parte de um grupo seleto, são os escolhidos, podem ditar as regras, e há sempre algum idiota que abaixa a cabeça e acata essas regras, mesmo que sejam as regras mais estapafúrdias que alguém já ouviu. Escutam as regras, entendem que são regras idiotas, abaixam a cabeça e seguem as regras idiotas. A despeito das afirmações em contrário, sempre foi assim: sabemos que as regras impostas pelos coordenadores são idiotas, mas lá estamos nós, seguindo as regras impostas pelos coordenadores. De uma forma absolutamente inqualificável, aceitamos e seguimos em frente como se nada tivesse acontecido. Voltamos para casa, beijamos a nossa família, comemos, dormimos, acordamos, e nos submetemos às regras dos coordenadoras. Tudo o mais é retórica, pose, farsa.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de abril de 2021


Escritos mantidos a título de lembrança

John de Salisbury — escriba do arcebispo de Canterbury no século XII — comentara numa certa altura que «as palavras escritas dizem sem voz as falas dos ausentes». Símbolos indicando vozes: com frequência, vozes de fantasmas.

(CAFÉ: bebida considerada muito boa e completa; há quem diga que tem o efeito de afastar a melancolia.)

Percebo que meus escritores favoritos estão todos mortos. E quando conversamos, isto é, quando os leio, há sempre qualquer coisa de Krapp’s last tape [A última fita de Krapp], peça do Samuel Beckett. Discursos imóveis em fitas K7, palavras que sempre permanecem como estão, que se repetem. Ecos registrados no papel e na faixa magnética.

Montaigne, Bernhard, Sebald, Burton, Foster Wallace, Ballard, Poe, Borges, Kafka… todos mortos.

Dizem, também, que o trabalho do escritor nunca chega realmente ao fim, pois os seres humanos e as outras coisas do planeta mudam de hábitos a cada dia. Talvez seja por isso que raramente nos deparamos com escritores aposentados: podem até se afastar da vida pública, mas escrevem sempre, até que chegue o derradeiro golpe da ceifa, e tudo se faz escuridão.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de abril de 2021


Herbert

Meus pais faziam vestuário por medida e eles tinham o odioso costume de pendurar retratos das pessoas famosas que já tinham ido lá pedir esta ou aquela roupa específica. Eu mesmo não dava a mínima para essas coisas — nem para o vestuário, nem para a fazenda de roupas, nem para os supostos famosos cujos rostos me eram absolutamente irreconhecíveis. Minha mãe tinha particular predileção por uma mulher com cabelo encaracolado, nariz de boneca, e segurava o retrato dessa mulher, revirava os olhos, abraçava o retrato com força, dava uns beijinhos, e dizia que ela tinha sido uma atriz de cinema muito, ou melhor, muitíssimo premiada. Até hoje não faço a ideia de quem teria sido a mulher, mas, pelos vistos, contratou os serviços de mamã e isso bastava. Então que a nossa casa era também o ambiente de trabalho dos meus pais, que montaram uma «oficina» — se é esta a palavra adequada — num quartinho ao lado da cozinha. Eu ficava assistindo televisão na sala enquanto os dois costuravam, cortavam, batiam na máquina e por aí adiante. De vez em quando meu pai colocava a cabeça do lado de fora e gritava para que eu comprasse uma qualquer miudeza na padaria. Contrariado, eu me levantava, resmungava, e ia até à padaria comprar o que quer que fosse. Certa tarde, voltei da padaria e percebi que meus pais tinham saído. Joguei os pães e a manteiga sobre a mesa e fui logo me esparramar novamente no sofá. Estava quase pegando no sono quando ouvi o barulho da campainha. Esfreguei as pálpebras com o dorso das mãos e me arrastei até à porta amaldiçoando os demônios, perguntando o que fiz para merecer aquele desassossego. Um homem na calçada que não parava de olhar para os lados disse abruptamente: quero ajustar este terno! Bocejei e disse que não seria possível ajustar o terno, que não havia ninguém para ajustar o terno, que voltasse outro dia. O homem insistiu: ora, você está aqui, você ajusta o terno. Eu disse: não sei mexer nessas coisas, meus pais sabem, e meus pais… Antes mesmo que eu terminasse, o homem adotou atitude ameaçadora, levantou o dedo em riste, entrou na casa sem pedir licença. Vestiu o paletó, levantou os braços e disse: anda, ajusta isto. Sem saber o que fazer, peguei uma fita métrica na oficina, olhei para o paletó, depois olhei para o homem, que olhava para um ponto de fuga invisível: anda, ajusta. Medi os bolsos, as lapelas, os ombros, as mangas, e fingia que tomava notas no caderno com folhas amarelas. O homem se deu por satisfeito, entregou-me o paletó, disse que voltaria mais tarde para buscá-lo, e que também pretendia ajustar a calça do terno, mas que agora estava sem tempo, precisava de ir sem demora. Mais por preguiça do que por receio, resolvi esconder o paletó no meu armário e não contar nada para ninguém sobre o ocorrido. Passaram-se duas semanas, dois meses, seis meses e o homem misterioso não aparecia. Até que, numa dessas morosas manhãs de outono, estávamos papai e eu a assistir ao noticiário quando, para a minha supresa, vi imagens do homem do terno e um compenetrado repórter a explicar que «enfim, a policia conseguiu pôr atrás das grades um dos criminosos mais perigosos do país». Ofegante, fui buscar o paletó no armário e mostrei-o para o meu pai. Apontei e disse: era o paletó desse criminoso!, ele veio aqui ajustar e nunca voltou. Meu pai me fitara com aqueles olhos de condolência, balançou a cabeça para os lados, e, visivelmente desapontado, falou que era para eu parar de ladainha, que eu arranjasse emprego de uma vez por todas, alguma ocupação, qualquer coisa que fosse, do contrário, eu também apareceria no noticiário algemado, ou, pior ainda, dentro de um saco preto do Instituto Médico Legal.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de abril de 2021


Sinuosidades

Estou a observar uma minúscula formiguinha que escala a minha caneca de café. A caneca tem o rosto do David Lynch estampado e a formiga está agora no nariz do David Lynch. Ela não se demora e continua a subir na direção do líquido açucarado. Quando chega à borda da circunferência, a formiguinha como que olha lá para baixo e hesita. De súbito, dou-me conta de que meu pensamento não está mais na formiguinha, nem na caneca, nem no rosto do David Lynch: estou a pensar na radiação cósmica de fundo em micro-ondas — o fóssil de luz que, tanto quanto a ciência pode dizer com segurança, vem de uma época cerca de 380 mil anos após o Big Bang. A formiguinha dá algumas voltas e decide pular no café.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de abril de 2021


Construções (apêndice)

O escritor é uma ideia, uma representação que precisa de ser constantemente abastecida para que a máquina continue, como se diz, funcionando. A partir da altura em que ele vacila e começa a duvidar dessa ideia, eis que surge o niilismo inerente da empreitada (i.e.: dedicar-se horas e horas, dia após dia, a uma tarefa contrária à sensatez e ao bom senso). Se antes ele, dotado daquela quixotesca confiança, levantava a caneta como se fosse uma espada medieval, agora ele se mostra distraído, faz pequenas dobras nos cantos da folha em branco — fita os livros entreabertos que jazem sobre a escrivaninha, obras que em ocasiões mais amenas demonstrariam o tipo de pessoa que o escritor gostava de ser.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de março de 2021


Construções

Um doutrinador num espaço vazio, sem vivalma para doutrinar, de certeza que consideraria a própria tarefa absurda. Mas essa condição é recorrente para os escritores, que falam sozinhos, ruminam em voz alta para um público invisível. Calha de, às vezes, a acústica da sala reverberar esses monólogos, alguém lá fora escuta fragmentos do discurso megalómano e entende que ali dentro há um escritor trabalhando.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de março de 2021


Gelo

Durante o verão de 2015, completamente exausto das obrigações acadêmicas, dos encontros com os outros professores, da voz do reitor, e, principalmente, dos intermináveis almoços no refeitório do campus, escreve Paul, decidi alugar uma casa de praia para enfim dar prosseguimento aos meus estudos sobre Cioran que andavam, como se diz, negligenciados. Ao escutar o endereço da casa de praia, cujas coordenadas fiz questão de pronunciar com muita calma e clareza, o taxista do aeroporto, mais para evitar um silencio que lhe pareceria constrangedor do que para puxar conversa, perguntara se por um acaso eu tomara conhecimento do mais novo personagem da cidade. Respondi que não fazia a ideia, ao que ele me fitou pelo espelho retrovisor com uma seriedade, assim julguei na altura, desproporcional. Contou-me que o velho Buzinsky decidira montar ateliê na região, e que o russo já estava a trabalhar numa gigantesca escultura de gelo, justamente na praia onde eu me hospedaria. Após uma breve pausa, durante a qual pude apreciar a dispersa vegetação litorânea que tanto me agrada, escreve Paul, o taxista ajustou os óculos no nariz de coruja e disse em tom trocista que não compreendia o motivo de alguém querer construir escultura de gelo num país tropical, muito menos na praia, em pleno verão, quando os termômetros chegam a atingir 40, 43ºC, uma empreitada completamente absurda, disse o taxista, o que me faz pensar, ou melhor, ter a certeza de que, à medida que nos aproximamos da nossa própria finitude, passamos a nos dedicar a toda a sorte de futilidades, como construir esculturas de gelo, ou castelo de cartas, sem contar o esforço, as horas, os dias, as semanas que desperdiçamos para montar esses objetos tão transitórios. Na casa de praia, coloquei o extenso material sobre Cioran na escrivaninha que com antecedência havia pedido à proprietária que instalasse no canto do quarto, longe do sol poente. Quatro pastas repletas de anotações avulsas, seis livros de Cioran, duas biografias a respeito do filósofo — inclusive uma em romeno, cuja finalidade me escapava, pois não compreendo o idioma —, um HD externo com o arquivo PROVÁVEL MANUSCRITO SOBRE E. M. CIORAN. Ao abrir a porta da varanda que dava para a praia, notei que alguns curiosos observavam um senhor curvado a martelar um enorme bloco de gelo vertical. Enquanto o velho Buzinsky lutava sem sucesso contra o derretimento da escultura, lembrei-me do taxista e das palavras de Gilgámesh, aquele que viu o abismo: quanto ao homem, seus dias estão contados; não importa o que construa, é apenas brisa passageira.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de março de 2021


Circunstâncias

Na minha juventude fui baterista de uma banda de rock, rock introspectivo, dir-se-ia, rock para relaxar a cabeça e não para sacudi-la, e gostava imenso de tocar ao vivo, de estar sentado à bateria, de observar outras pessoas que tinham se deslocado até ali para assistir ao nosso show, e, depois da apresentação, confraternizar, receber os elogios da praxe, ser, de certa forma, um bocadinho o centro das atenções, e bebíamos, e fumávamos, e éramos invencíveis, e voltávamos para casa à espera do próximo espetáculo, quando tudo se repetiria mais ou menos da mesma maneira. Até que, um pouco sem perceber, a energia começara a se dissipar, a vontade de estar fora, de socializar, não era nem de longe nem de perto a mesma, e me vi cansado, exausto, afastei-me (tal como fizera Fitzgerald numa altura da própria vida), e passou a haver menos gente, muito menos gente, e notei, ainda sem saber ao certo o que fazer com isto, que não precisava mais fingir que gostava dos outros seres humanos, nem sorrir à toa, forçar abraços, não precisava mais fazer-me de interessante, de baterista intelectual, de «músico-poeta-escritor», nada disso era realmente necessário. 

Publicado por P. R. Cunha / 24 de março de 2021


Ímãs

Como me retirar adequadamente do microcosmo da obra que estou a escrever, eis uma inquietação recorrente quando me dedico a um longo trabalho literário. A confortável previsibilidade das rotinas, a antecipação, a chávena de café sempre no mesmo canto da mesa, a cadeira, as canetas, os papéis, a continuidade do processo,

não lidar com as turbulências da sociedade civilizada, não acompanhar os noticiários, construir este casulo, abrigar-se neste casulo, ou melhor, proteger-se dentro do casulo, e encher-se de ansiedade quando obrigações externas puxam-lhe para fora do casulo como se fossem um gigantesco campo magnético. Dois dias longe do meu universo artificial e já me afogo em toda a sorte de angústia, melancolia, desespero, coceiras, iras, sensabores — tudo isso, só como exemplo.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de março de 2021


Infrequências

Há ocasiões em que saio tão satisfeito da minha escrivaninha que tenho as vontades de paralisar o espaço-tempo, para, pelo menos, prolongar um bocadinho mais esse fugidio sentimento de plenitude.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de março de 2021


O outono nos mostra que as folhas caem; e o inverno — que elas não se levantam mais

Há quantidade vertiginosa de obras lá fora, e nós não temos, como se diz, todo o tempo do mundo. Se reservamos um certo número de horas para determinado autor, deixamos de nos dedicar a milhares de outros. É por isso que, quando nos tornamos leitores ávidos, precisamos de criar algum tipo de filtro — do contrário, enlouquecemos. Muitos começam a ler somente as obras lançadas por uma editora específica, alguns só leem romancistas mexicanos, um primo meu passou a ler apenas os escritores cujos sobrenomes começassem com as letras B, D ou F (Balzac, Barreto, Bernhard, Descartes, Dostoiévski, Faulkner, Flaubert, e assim por diante). Ou, quem sabe, faríamos como Jorge Luis Borges, que nunca lia, mas relia sempre os mesmos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de março de 2021


Invenções pantanosas

Um rei muito poderoso decidiu mandar os dois melhores narradores do castelo para uma expedição algures. A ideia era que eles fossem ao país estrangeiro, observassem, tomassem nota, e voltassem para contar o que viram. Porém, antes mesmo de chegarem ao longíquo território, um dos narradores fora acometido pela disenteria, e o outro, cansado de ter que carregar o colega às costas, não acreditara nos próprios olhos quando percebeu que o país estrangeiro nada mais era do que uma grande área pantanosa, sem nenhum sinal de civilização. Com medo da represália do rei, que odiava relatos enfadonhos, os narradores — os melhores narradores do castelo, nunca é demais lembrar — decidiram em comum acordo inventar narrativas mirabolantes sobre aquela que, para todos os efeitos, teria sido «a expedição mais fantástica da história da humanidade». Porque, afinal, a verdade não é necessariamente o que aconteceu, mas o que contamos que aconteceu.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de março de 2021


Tramas

O frasco do colírio
lágrimas artificiais.

Quando a escrita se torna um hábito, uma necessidade — como beber água, ingerir alimentos, movimentar-se etc. —, afundado neste contínuo processo de consumir e ser consumido. Um vício, poder-se-ia dizer.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de março de 2021


Como algo extra

Não negligenciar o blogue. Escreva algo, nem que sejam uns pensamentos avulsos.

O escritor que precisa de manter um trabalho assalariado — porque, afinal, é necessário pagar as contas etc. — sempre colocará a culpa do próprio infortúnio literário nesse trabalho. Se ao menos eu pudesse ser escritor a tempo inteiro, ele diz.

A ideia seria basicamente não iluminar, não comunicar conhecimento novo, não criar insights, não transmitir nenhuma mensagem edificante. Focar-se em si mesmo, andar em círculos, entregar-se a um fanatismo unilateral; escrever, se possível, em idioleto.

Cultivar leitores = consequência.

Tenho a certeza de que estou a escrever o melhor livro que jamais escreverei. (Talvez seja por isso que me mostro tão moroso nos últimos tempos, porque antevejo o vazio [an enormous void, the great nothing] que a obra deixará ao se despedir de mim — como aqueles pais que, depois de anos de criação, dizem adeus ao filho no aeroporto.)

Muito improvável que uma onda de criatividade como essa venha a se formar novamente. É sempre outra coisa.

Há também um encanto particular quando deixo «a grande obra» de lado e me dedico a miudezas diversas. A estes trechos despretensiosos, que sempre terminam em nostalgia.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de março de 2021


Eletromagnetismo — ou como ser um caça-fantasma na era da visibilidade

Meus bisavós paternos tiveram um namoro majoritariamente epistolar. 

Esta famosa anedota da família relata que meu bisavô escreveu para a minha bisavó pedindo-a em casamento. Por conta de uma greve geral dos correios, a carta com o «sim» demorou tanto para chegar às mãos dele que, nesse prolongado intervalo, meu bisavô, um bocado desiludido, quase se apaixonara por outra mulher.

Hoje em dia, com mensagens eletrônicas que atravessam o planeta à velocidade da luz, as trocas lentas e imprevisíveis de envelopes são quase inimagináveis. No entanto, inquietou muitas gentes dos séculos passados.

Pensemos em Kafka.

Para ele, escrever cartas significava expor-se aos fantasmas, que esperam precisamente por esses intercâmbios de longa duração. Kafka ressalta a inconstância dos interesses humanos. Agora agimos e sentimos de uma determinada maneira; amanhã, não sabemos.

Beijos escritos no papel nunca alcançariam o destino da mesma forma que foram enviados. Os fantasmas os bebem ao longo do caminho.

(Um pedido de casamento cuja resposta chegasse seis/sete meses depois possuiria a mesma força?, o mesmo significado?, meu bisavô pode ter ruminado a respeito.)

Escrever cartas: comunicação fantasmagórica — não apenas com o fantasma do destinatário, mas principalmente com o nosso próprio fantasma, que parece se desenvolver dentro daquilo que estamos escrevendo, e cresce à medida que escrevemos novas cartas, e nos tornamos um outro alguém, fantasmas que se acumulam, corroboram-se, contradizem-se, como se fossem testemunhas num tribunal.

Poderíamos de bom grado modernizar essas inquietações de Kafka se substituíssemos a angústia epistolar por qualquer outra tentativa de se fazer entender através da linguagem — um tema, aliás, caríssimo à filosofia de Wittgenstein.

Nossas mensagens digitalizadas podem até se mostrar instantâneas, mas isso não significa que tenhamos nos livrado dos espectros que as acompanham.

Os fantasmas também se adaptam, aprendem a flutuar mais rapidamente.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de março de 2021


Em pedaços

A criança aborrece os adultos quando age de determinadas maneiras, a fazer traquinagens. Mas ela possui um álibi: é ainda muito miudinha para entender as regras do jogo.

Quando o pequeno ser humano cresce, precisa de atender às exigências, às expectativas da sociedade. Ser calmo, seguro, ter paciência, comedido, comportar-se adequadamente à mesa, racional, impressionar. Mesmo que em inúmeras ocasiões preferisse agir como uma criança, sabe que não possui mais essa liberdade, essa concessão. É necessário adaptar-se ao contexto adulto etc.

Ao que o agora grande ser humano também começa a esperar coisas dos seus semelhantes, determinadas posturas, modos, aparências, trocas, contratos. A bola de neve se dilata, até transformar-se em avalanche, pois a criança louca que um dia fomos nunca deixa de existir, apenas hiberna embaixo das camadas de gelo — as quais, de improviso, empilhamos para conter o monstro birrento da nossa personalidade.

O grande ser humano em estado de esgotamento (i.e: quando a criança irascível que o habita consegue subir à superfície) rende-se, chora, treme, esperneia. Desprovido de todas as mordaças artificiais que tivera de produzir à guisa de evitar transtornos, agora começa a questionar se esta existência é real, se faz sentido, se a opinião que os grandes seres humanos têm sobre ela é válida, ou absolutamente inútil.

Entra em colapso, procurando por algo em que se agarrar, uma âncora, uma corda, um corpo, uma viga. Deitado diante do espelho em migalhas: meros reflexos daquela imagem que, talvez ingenuamente, acreditava conhecer.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de março de 2021


Lembranças vagas — ou incompletas 

Homem grisalho sentado num banco à beira-mar. Passo por ele e escuto-o perguntando para um ouvinte invisível: ela me amou?

Por vezes acontece de voltarmos de determinadas viagens e acharmos que tudo terminara. Até que, alguns dias depois, cenas dispersas começam a surgir aleatoriamente à cabeça.

Nunca se sabe ao certo quando (e como) uma jornada acaba.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de março de 2021


Escritor ciente das frustrações e excentricidades diárias de uma vida literária (o sol negro)

A tristeza que nos oprime, os sentimentos que nos paralisam são também uma espécie de escudo — por vezes o derradeiro escudo — contra a loucura. Como aqueles insetos que fingem a própria morte tentando ludibriar o predador.

Costumo sentar-me à mesa para escrever sobre assuntos aleatórios. Não tenho nenhum plano, nenhum propósito. Apenas sento, fico quieto. E então algumas imagens começam a surgir. Eu bebo um pouco de café. Na maioria das vezes, acho que estou trapaceando, que essas imagens não são minhas, porque elas simplesmente aparecem, e tudo o que preciso fazer é descrevê-las, traduzi-las num pedaço de papel. É um processo muito agradável. Sinto que estou longe, embora nunca saiba ao certo de onde ou de quê.


Se me vejo incapaz de metaforizar ou de traduzir essas imagens, calo-me, desvaneço aos bocadinhos.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de março de 2021


Rotina

6h — acordar, refletir se vou ou não para o crossfit;

6h15 — levantar (se eu for ao crossfit [do contrário, permanecer deitado, meditações aleatórias]);

6h30 — pequeno-almoço;

7hcrossfit (ou leitura inspecional de livros diversos);

8h34 — escrever, escrever, escrever, revisar…;

12h10 — almoço;

13h12 — xadrez;

16h — lanche vespertino;

17h — a partir daqui, fico ligeiramente alheado, como que à deriva, insuportável, magoo quem estiver por perto, inseguro, insatisfeito, por vezes desconto na minha família, na mulher que tanto amo, e me pergunto: por que diabos fazes isso contigo mesmo?, tento colar os pedaços, e tenho a certeza de que acabou, sim, acabou, amanhã estarei destruído, em ruínas, sem forças para recomeçar, sem ideias, sem caráter, mas não precisamos falar sobre isso.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de março de 2021


Apertura: onde o escritor justifica-se, a mostrar que uma entrevista é, na melhor das hipóteses, algo a ser suportado

Nunca gostei muito de dar entrevistas — ou melhor, nunca me senti à vontade para respondê-las. Talvez eu seja um daqueles escritores que, quando diante de uma pessoa que faz perguntas, não têm nada a dizer, ou acreditam que já disseram tudo nos textos que publicaram, ou que preferem se dedicar às ficções em vez de se arriscarem nas armadilhas da realidade, ou que têm medo de revelarem os próprios segredos, medo de serem desmascarados de uma vez por todas, e, no momento em que a máscara cai, das duas uma: ou precisam de tatear o chão escuro para recolocá-la, ou, num cenário ainda mais inquietador, construir novas máscaras, o que leva imenso tempo.



Publicado por P. R. Cunha / 7 de março de 2021


Florianópolis, Santa Catarina

Em menino, a palavra aeroporto enchia-me de grandes expectativas. Hoje, nesta fase má da biografia terrestre, causa-me toda a sorte de ansiedades.

O Atlântico azul-esverdeado, as ondas brancas — espumas de barbear salgadas. Holofotes iluminam a praia durante o fim de tarde enquanto a linha cinza do horizonte confunde-se com um céu desbotado. Florianópolis como cenário de alguma canção dos Frightened Rabbit (Keep yourself warm, ou talvez Swim until you can’t see land).


Há um grande tabuleiro de xadrez atrás de mim. Os quadradinhos pintados num terraço de concreto. As peças batem no meu joelho. O rei tem um crucifixo na cabeça.

Vento com gosto de maresia.

No meu funeral, gostava que colocassem para tocar o som das ondas. E na minha lápide haveria um botão que, ao ser pressionado, também tocaria sinfonias marítimas. Mas esses detalhes nunca se mostram ao nosso alcance.

Nada mais solitário do que um resort paradisíaco às cinco horas da manhã.

Quando a maré recua, surgem pequenos orifícios na superfície da areia, e alguns bichos desengonçados saem desses orifícios, e lembramos como a vida aquática pode ser curiosamente estranha.

Lagarta verde, gosmenta, estica e retrai o corpo sanfonado — o caminhante fica a se perguntar como ela conseguiu sobreviver no fundo no oceano.


Observo o barquinho pesqueiro a seguir linha reta até quase desaparecer atrás das marolas, que parecem balões inflados por uma criança. O barquinho então faz um desvio brusco. Fico a imaginar o motivo do desvio.

Todos os seres humanos — não importa o quão especial/único tu te sintas agora — são descartáveis.

Sabemos do sucesso (ou insucesso) da pescaria a julgar pela quantidade de aves marinhas que circulam o barco quando ele retorna ao cais.

Ter um refúgio, sair, divertir-se, magoar-se, consertar-se, recompor-se, voltar ao refúgio.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de março de 2021

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