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Linha tênue

Se tu és bipolar, esquizofrênico, e ficas prostrado a ver navios numa cama de hospital, então tu és louco. Mas se tu és bipolar, esquizofrênico, e metes a escrever uns livrinhos, a rabiscar uns desenhos, a compor umas canções — então és artista.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de novembro de 2020


Demonstração

Costuma acontecer enquanto estou a estudar idiomas estrangeiros (o russo, primordialmente), e as primeiras notas… ou melhor, os primeiros esboços de sons começam a surgir à cabeça. É também algo muito visual. Como que vejo os acordes a se arranjarem na minha frente, e sinto que, se levantasse as mãos, poderia encostá-los, trocá-los de sítio. O facto de já trabalhar com o software Logic Pro há algum tempo de certeza que influencia. Esses sons me vêm em camadas, e cada camada é um instrumento. Talvez não façam muito sentido se estiverem isolados, mas quando se juntam formam melodias. Tento não me agarrar muito aos juízos de valores. Quando começo a gravar essas, por assim dizer, miragens auditivas, pode ser que funcionem, pode ser que não. E acho que essas incertezas, essas possibilidades de música ou caos, deixam a empreitada um bocado fascinante.

Primeira versão instrumental de O fim é uma mistura de tudo isso, gravada ontem à noite ao Estúdio da Cris:

Publicado por P. R. Cunha / 25 de novembro de 2020


Pixels

Preciso antes de tudo de algum incidente, algo inesperado, caótico, algo que me sirva de estímulo, gatilhos. Porque quando se está bem é outra dinâmica, e apetece perder-se em atividades amenas, e com isso não posso por muito tempo, o barco sereno, as águas sem ondas, de aí que se estou em paz muitas vezes não escrevo nada, absolutamente nada, nenhuma linha, como se diz. Até me bater um qualquer desespero, uma ânsia, a tal da Náusea de Sartre, e logo estou a escrever em toda a parte, onde quer que seja, se antes não dava conta de escrever num café, agora consigo escrever direitinho num café, se antes o barulho dos automóveis me irritava imenso, agora soa-me como uma sinfonia atonal do Cage. E sempre foi assim. Uma barata está completamente estática no chão da cozinha, não faz nada, parece morta, agora experimenta jogar inseticida nela, apenas um bocadinho de inseticida, e verás que a coisa não era do jeito que imaginavas. A barata estava viva e agora corre para todos os lados. Há também a questão das negações, as tais verdades que não gostamos de admitir. Parece que numa altura toda a gente passa por algo assim, não estou a fazer-me de especial. Acontece que durante boa parte da minha vida escondi certas inclinações tecnológicas, menos por medo da opinião alheia do que do meu próprio escrutínio. Refugiava-me nos livros de papel, nas atividades analógicas por assim dizer, livrei-me da televisão como um ex-fumante que precisa de se livrar dos colegas que fumam se quiser manter-se longe dos cigarros. Lutei contra o facto de que os computadores estiveram tão presentes na minha «formação» (faço as aspas com os dedos na falta de melhor termo) quanto os meus pais médicos, que viviam algures, num hospital, a tratar de outras pessoas. Bastava a minha mãe vestir-se de branco que eu começava a chorar, ou melhor, a espernear, pois sabia que ela estava a ir-se embora. Sabemos que o tempo para uma criança não passa da mesma forma que para um adulto, só um alienado não percebe isso. As noites em que a minha mãe fazia plantão duravam-me séculos. Mas não tenho do que reclamar. Foi decerto uma infância boa, incrível, mas enquanto a gente a vive é com certeza uma tragédia. Na juventude, foram os computadores que de alguma maneira supriram ausências, paternas e não só. Ausências de sentido, de vontades, de objetivos, de perspectivas, de si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de novembro de 2020


Êxtase à Starobinski

O barulho do ventilador pela manhã enquanto tomo a primeira chávena de café, a dança das cortinas quando o vento passa pela janela entreaberta, o sintetizador dos Future Islands, o contraste da caneta azul com a folha de papel, o paninho para limpar as lentes dos meus óculos, os envelopes, a fotografia dos meus avós em juventude, a carta que papai me escreveu na altura em que publiquei o primeiro poema, a biblioteca, o livro do Raymond Carver fora do lugar… todas essas coisas sempre suscitaram em mim a ilusão de felicidade, uma felicidade fugidia, temporária, como que encharcada de tinta melancólica.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de novembro de 2020


Zoos

Passo perto do zoológico de Brasília, é domingo, está quente. Há uma fila quilométrica de carros que se amontoam antes de entrar para o zoo, pessoas dentro de jaulas de metal, à espera, porque querem ver outros animas enjaulados.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de novembro de 2020


O passado é muito tempo

Morte
de um buraco negro
supermaciço
no aglomerado Ophiuchus
a cerca de 390 milhões
de anos-luz da Terra
o gás pós-catástrofe
poderia abrigar quinze
galáxias do tamanho
da Via Láctea
jatos de radiação
material expelido da boca
desse monstro devorador de luz
— a maior explosão do universo
é um estrondo silencioso
que não se propaga
pelo vácuo cósmico.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de outubro de 2020


Antes de mais nada

Então chegamos a um impasse, disse Doloroes enquanto acendia o cigarro. Um impasse, ela fez questão de repetir, um impasse… Ou o universo sempre existiu, hipótese do infinito, ou ele teve um começo, big bang, há 14 bilhões de anos. Dolores assopra a fumaça do cigarro para o longe. Faz cara de quem está confusa: mas se houve mesmo um ponto de partida, «onde» (Dolores abre e fecha aspas com os dedos) exatamente isso se passou? Ela joga de forma atabalhoada o isqueiro sobre a mesinha de cabeceira: porque, veja bem, é extremamente ardiloso para o meu cérebro reptiliano assimilar que massa, átomos, matéria, tempo, energia, eu, você, esta casa, mudanças tenham surgido do nada. Dolores destrava o telemóvel e coloca Franz Liszt para tocar: a pergunta que fica martelando, tal e qual o insuportável tique-taque de um velho relógio de parede: o que diabos existia antes de nada existir?

Publicado por P. R. Cunha / 19 de outubro de 2020


Breve exercício de humildade cósmica

Atualmente, a maior estrela já detectada pelos telescópios chama-se Stephenson 2-18, localizada na constelação Scutum (Escudo). Trata-se de uma hipergigante com raio 2.150 vezes maior do que o do nosso Sol — e 10 bilhões de vezes mais volumosa. A título de escala, aeronave comercial demoraria cerca de 500 anos para completar uma volta ao redor de Stephenson 2-18.

Um monstro vermelho a habitar este universo igualmente colossal que não para de se expandir, as referências astronômicas, os espaços vazios, Boötes void (diâmetro de 330 milhões de anos-luz), ausência de propósitos (as estrelas nascem, crescem, consomem-se, explodem/implodem), tudo isso deveria ser o bastante para colocar o animal humano — que caminha neste pequenino planeta de pedra há meros 200 mil anos — no nosso devido lugar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de outubro de 2020


Malas

Viagens mostram-se sempre mais bonitas (e agradáveis) quando ainda estão nas etapas iniciais de idealizações. Seguramos a brochura de certa praia paradisíaca completamente vazia, o encarte de pousada ecológica isolada, a praça central da cidade com clima soalheiro, ou mesmo aquela pista de esqui ao cimo da montanha de neve que parece ter sido feita só-e-somente-só para o nosso regojizo. Esquecemos que há mais de sete bilhões de seres humanos no planeta a segurar as mesmas brochuras, os mesmos encartes, a ter os mesmos desejos, as mesmas vontades. De aí a decepção ao se deparar com a areia repleta de lixo, com a pousada lotada, com as nuvens cinzas que cobrem a praça central, ou com a montanha de neve sem neve porque o ano foi absurdamente quente.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de outubro de 2020


Ceifadoras

Max trabalhava num prédio de escritórios. De manhãzinha, quando ele passava pela portaria, estava lá sentado o mesmo porteiro de sempre. Até que um dia Max passou e subitamente deu-se conta de que o porteiro não estava mais — não se sabe ao certo o que aconteceu. A despeito de todos os esforços, Max não conseguia se lembrar nem do nome nem do rosto daquele discreto funcionário. E enquanto entrava no elevador, Max compreendeu o que também lhe aconteceria depois que a morte o ceifasse.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de outubro de 2020


Intervenções vespertinas

Simples tarde chuvosa, o tilintar moroso ao telhado, duche oferecida pelas nuvens do planeta, os raios, os trovões, a luz elétrica que acaba (sempre acaba), a capa envelhecida de certo livro que há muito aguarda ser lido, com aquela paciência livresca que só os amantes das palavras parecem compreender, a ideia de criar música, sons, sem que ninguém soubesse o que se estava a compor, o sol que começa a minguar no céu nublado, a luz elétrica que não volta — leitura interrompida pela escuridão.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Manter distâncias

Enquanto o perigo se encontra ao longe — o Drácula a hibernar no castelo de pedras, o frio ártico, as labaredas de uma selva longínqua, o demônio vulcânico nas profundezas de uma ilha —, enquanto as catástrofes e as mortes só aparecem no aparelho televisivo, enquanto a bala da pistola atinge as têmporas de um suicida anônimo, ou o desfiladeiro engole um automóvel propositadamente desgovernado; enquanto isso, tudo bem.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Escritores curiosos, com a caneta engatilhada

Num pretexto criativo, todo e qualquer encontro será para o escritor material de literatura. Não importa se a conversa seja sobre o tempo, as formigas, chapéus, as luas de Júpiter, ou mesmo a respeito dos desafios matrimoniais.

(Quantos sonhos não sonhamos em pensamento — com as melhores das intenções —, e no confortável quarto do nosso cérebro os devaneios fazem sentido, mas quando tentamos colocá-los em prática só lidamos com fiascos.

Porque o mundo lá fora, isto é certinho, nunca será o bastante para determinadas idealizações interiores.)

Publicado por P. R. Cunha / 14 de outubro de 2020


Dilatação temporária

Realidades que dependem do contexto de cada observador. A realidade coletiva, aquela em que realizam-se transações econômicas, votam-se em candidatos políticos, entram-se nos metropolitanos/autocarros/trens/aeronaves etc. Outra realidade, um bocadinho mais difícil de ser delimitada, para a qual muitos ainda preferem fugir, a realidade dos livros, do cinema, do teatro, a realidade das exposições fotográficas, a realidade, portanto, que é remodelada de acordo com os interesses de quem se relaciona com ela. Numa altura estamos na fila do banco para pagar contas, ou abaixamos a cabeça no escritório da firma diante de tanto tédio; depois, refugiamos nossos pensamentos em arquiteturas «fantasiosas», recriamos o nosso mundo para lidar com tantos absurdos, que — tal como o tecido espaço-tempo do universo — crescem exponencialmente.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de outubro de 2020


35

A cortina da escuridão
desce lentamente
enquanto me perco
ao manto retalhado
da memória.


Daqui a um par de dias completarei trinta e cinco anos, «trinta e cinco voltas ao redor do Sol» — como pedantemente gosto de dizer aos meus. Enquanto escrevo estas palavras, escuto a lista cósmica do Mortifer V. (Epic Space Music) e sinto-me como se desabasse num qualquer sonho estelar do Brian Eno. As notas profundas e reverberadas explicam imenso sobre as minhas perambulações neste planeta. A criança tensa, introspectiva, com cabelos amarelos, chorona, a criar as próprias regras; o adolescente a experimentar músicas, e letras, e alguma poesia, os esportes, o idioma russo, as primeiras expectativas: o menino faz tudo, e faz tudo muito bem. De aí o flertar com os sonhos impossíveis, o ser-dono-do-mundo, ambicioso, nada poderia pará-lo, a não ser, é claro, um acidente, um acidente automobilístico, a morte do pai, a reestruturação, o dizer adeus para tantos objetivos que nunca aconteceriam. Como se a mesa estivesse repleta de alimentos e não me apetecesse comer. Vai ser músico, baterista; escritor; jogador de futebol; pode se dedicar aos desenhos; vai ser tudo. Mas não se pode ser tudo. A caixa possui tamanho específico, tamanho finito, colocamos nela o que podemos, e depois enterram a caixa, connosco dentro. Há este dado inquietante que me chama a atenção: os homens da minha família, em média, morrem aos setenta anos — aliás, poucos conseguiram ultrapassar essa marca cronológica. Ao passo que, estatisticamente, estou já à meia-vida. Idade estranha, quando não se é ainda velho para começar a se aquietar num rancho distante, e nem tão jovem para permitir-se os riscos dos primeiros tempos. Idade do limbo, da espera, purgatório: a cabeça, como a plateia de um jogo de tênis, vira de um lado para o outro, indecisa, ora ao passado, ora ao futuro, ora ao nada.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de outubro de 2020


Excesso de condescendência

Sobre as coisas que, via de regra, displicentemente tomam-se como certas:

– Entramos numa máquina de raios X, o aparato faz o que tem de fazer, saímos com radiografias a mostrar os ossos embaixo da nossa pele. A indiferença de algumas pessoas depois desse procedimento me perturba;

– Viajamos dentro de aeronaves a 900 km/h, sobrevoamos as nuvens, e ainda reclamam quando o voo sai trinta minutos depois do previsto;

– Uma pessoa no Camboja conecta-se através do próprio telemóvel com uma pessoa que está a andar de bicicleta na Argentina (ou seja: a mais de 16 mil quilômetros de distância). A pessoa a andar de bicicleta fica furiosa porque «a imagem da pessoa no Camboja está a travar um bocadinho»;

– Colocamos comida congelada dentro de uma caixa a que chamamos de micro-ondas, dali a pouco tempo a comida sai quente — quantos não se sentam à mesa como se nada tivesse acontecido?

Publicado por P. R. Cunha / 9 de outubro de 2020


Hidráulico

Seu Fernando é o jardineiro da casa da minha mãe. Com a serenidade da praxe, ele acopla a mangueira num daqueles dispositivos giratórios que são fincados na gramam e jorram água para todas as direções. Nestes dias de terra e fogo em Brasília, seu Fernando faz chuvas.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de outubro de 2020


Horror cósmico

O mundo como planeta, o universo como este espaço imensuravelmente gigantesco, os meteoros, as estrelas que explodem — não ligam a mínima para as insignificâncias do animal humano.*

*Uma qualquer necessidade de fugir, tornar-se inalcançável/inatingível, de viver a vida dos monges.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de outubro de 2020


Brasília arde

Amor contemporâneo
ódio ternura compaixão
raiva pena tudo ao mesmo
tempo ontem hoje
amanhã é outra coisa
outras pessoas

(Se leio teatro quero escrever teatro se leio poesia apetece-me escrever poesia se leio ficção faço ficção se folheio biografia recobro a minha autobiografia — e os dias aqui têm sido insuportavelmente quentes [Brasília arde])

«Quando respiramos / desagua a Morte»

As árvores com galhos
retorcidos
à distância enganam
porque se parecem
mas se observássemos
com a calma devida
nenhuma delas
é igual.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de outubro de 2020


Sossegado

Há muito que parei de ler
os noticiários
que se repetem
e o mundo continua
a girar
indiferente
persistente
displicente
avassalador —
não tenho televisão.

Com os mesmos
desejos de R. Carver:
de estar quieto
e de não pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de outubro de 2020


Sonham os escritores com pesadelos elétricos?

Este quase-prólogo: ler As flores do mal em formato EPUB num tablet da Apple dentro de uma aeronave a 11 mil metros da superfície — fico a imaginar o que Baudelaire teria achado destes absurdos.

* * *

Na semana passada assisti a uma série de palestras no YouTube com escritores latino-americanos a falar sobre o papel das redes sociais na carreira literária.

Como de costume, o tema dividiu opiniões e houve altura em que as palestras lembravam mais um debate político do que um encontro livresco propriamente dito.

Acontece que num contexto mercadológico em que os autores estão a publicar livros de forma independente, as mulheres e os homens das letras — amiúde seres menos inclinados às longas exposições — precisam também de se transformar em editores, diagramadores, revisores, e, na pior parte, vestem os trajes marqueteiros.

Se noutros tempos as divulgações literárias ficavam a cargo das editoras, agora não raro podemos ir a um qualquer lançamento de livro e nos depararmos com a figura abatida e irascível do escritor, que tivera de organizar tudo aquilo sozinho.

Depois de longas batalhas noturnas, de se debruçar sobre indispostas folhas em branco, de acumular material de pesquisa, de resistir aos imperativos sociais, de cultivar silêncios, linearidade, rotinas, depois de fazer, em suma, os sacrifícios da praxe, eis que o escritor se vê ainda apenas ao meio do caminho, olha para o horizonte embaçado, encolhe as pálpebras sem conseguir enxergar a tempestade de areia que se aproxima com desinteresse.

É evidente que, tal como ocorre em outros cenários evolutivos, há escritores que se adaptam direitinho ao digital, e outros que jamais o farão. Alguns trabalham com afinco na própria obra e se enchem de expectativa com a próxima etapa do processo: divulgar as entranhas para, como se diz, deus e o mundo. Muitos, no entanto, sentem-se absolutamente paralisados só de cogitar na possibilidade de digitar login e senha de rede social.

A verdade é que neste vertiginoso século vinte e um os escritores não estão mais blindados pelos muros editoriais. Precisam de se expor, de tirar selfies, de fazer as famigeradas leituras em público, de descer da confortável e amena torre de marfim para mostrar-se disponíveis diante de toda a gente — que, pelos vistos, parece mesmo ocupada demais com o ecrã azulado dos telemóveis para prestar atenção em qualquer outra coisa.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de outubro de 2020


Inebriações

A pessoa que se arrisca aos desfiladeiros criativos — e não estou aqui a falar de talento, mas de coragem — parece passar por uma espécie de epifania durante a qual acredita-se ter conquistado o mundo.

Período de indizível gratificação, altura em que a paisagem sem sentido desanuvia-se temporariamente e o sujeito pode até levar a chávena aos lábios enquanto pensa: até que isto não é assim tão mau.

Porém, como numa inebriação alcoólica, o efeito é passageiro. E se é mesmo verdade que apenas as semi-desgraças são fecundas: pode-se acordar ao cume e dormir-se ao rodapé.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de setembro de 2020


Enquanto corria

Já há alguns dias este tema invade meus pensamentos durante as caminhadas matinais, quando simplesmente saio de casa e sigo, como se diz, a direção do vento.

O conceito de casa — o lar, o refúgio, o sentir-se à vontade num determinado sítio. Isto de estar-se acolhido numa construção com teto e paredes.

É célebre a frase de Blaise Pascal: «Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho em uma sala». Mas e se não há quartos? Ou pior: se existe a sala mas é tudo tão alienígena que apetece estar algures?

É condição comum ao exilado nunca acreditar-se em casa. Exilado político, exilado emocional, exilado de tudo, de toda a gente. Tem ali uma cama sobre a qual dorme sonos intranquilos, e ao acordar encontra-se num asilo de alienados.

De aí viver existências errantes, trocar de idioma, livrar-se dos bens materiais, não constituir família. Como se o exterior precisasse refletir o provisório que se sente dentro.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de setembro de 2020


Retóricas

Uma senhora idosa está a esperar o ônibus enquanto eu pratico o running. Ela gira a cabeça lentamente para acompanhar o meu movimento e pergunta: por que corre? Durante o resto do percurso fico a me perguntar sozinho: por que corro?

Num contexto ainda mais introspectivo-filosófico: por que faço as coisas que faço, por que escrevo?, por que tiro as fotografias?, por que abraço a guitarra para dedilhar canções desassossegadas?

Tarefas rotineiras, sem as quais não saberia para onde me virar — como costuma acontecer com toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de setembro de 2020


Café em Walden

Atualmente voltei a ser hóspede da civilização.

Essa frase de Thoreau me persegue mais do que eu gostava de admitir.

Movimento pendular do recluso que de quando em vez precisa de beber da fonte social. Apenas o bastante para saciar-se. Depois, volta, para o esconderijo da praxe.

«Pois se viveram com sinceridade, só podem tê-lo feito numa terra distante.»

Publicado por P. R. Cunha / 23 de setembro de 2020


Para ele o mundo é mudo

A história giraria em torno do pai, um pai neurótico, diga-se, que depois de ler sobre o caso Kaspar Hauser, assistir à adaptação teatral de Peter Handke, e também ao filme Jeder für sich und Gott gegen alle (cada um por si e deus contra todos [O enigma de Kaspar Hauser]) do Werner Herzog, resolve prender o próprio filho numa espécie de caverna. À laia de dramaticidade, haveria contexto paralelo a explicar que a mãe morrera num «grave acidente», cujas consequências ainda dilaceravam o coração do pai. O menino, diferentemente de Kaspar Hauser, não sobreviveria ao cativeiro, muito menos teria a chance de relatar a própria experiência. Ao velório — vazio —, o pai faria um estranho discurso a reforçar a ideia de que pelo menos o filho não sofrera, não foi contaminado pela sociedade, morreu ileso. O pai chamar-se-ia Guattari (mas sem qualquer parentesco com o filósofo Pierre-Félix Guattari).

Publicado por P. R. Cunha / 20 de setembro de 2020


Loja de inconveniências

¶ No centro da cidade, estão a preparar (com andaimes, lonas, vigas etc.) a outrora belíssima estrutura de uma catedral gótica para ser transformada num grotesco shopping mall. Nada poderia ser mais nietzschiano.

¶ Seres humanos que não conseguem sequer cuidar de si mesmos e ainda assim escrevem manuais de «como viver bem», dão toda a sorte de pitacos esdrúxulos, fazem-se de gurus modernos enquanto se entopem com o creme de amendoim à frente do televisor.

¶ «Você está abandonando trinta e dois velhinhos, o senhor sabia disso?!, trinta e dois velhinhos» — de uma secretária de certo lar dos velhinhos que me ligara furiosa para dizer que eu havia esquecido de depositar a doação mensal.

¶ Quando o avião se aproxima do aeroporto, e levantamos a cortina de plástico para observar: vemos árvores, prédios, automóveis, antenas… Mas as pessoas são miudinhas de mais para serem notadas, como se nem existissem. 

¶ No sofá da casa da minha mãe há umas almofadas com capa verde repleta de terríveis pedrinhas pontiagudas que de tão desconfortáveis acabam por tirar todo o propósito da coisa. Para quê, então, ter almofadas?, eu pergunto. São enfeites, mamãe diz. Nunca compreendi.

¶ Vários desequilíbrios — se calhar todos os desequilíbrios — provêm de vontades reprimidas, vontades que adiamos durante demasiado tempo. O desespero, por outro lado, surge quando essas vontades são satisfeitas, e no entanto o abismo permanece.

¶ A história da literatura explica que boa parte dos escritores jamais será publicada. Ou coisa pior: escritores que só recebem o «devido» reconhecimento depois de terem há muito visitado a morgue.

¶ Escritores que escrevem, portanto, mesmo quando cientes da própria fatalidade. Como os coveiros que insistem em fazer filhos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de setembro de 2020


Ruminante

Escritor que gosta de tomar notas em público precisa de ter alguns cuidados. Numa palavra: ser discreto. Fita o rosto das pessoas — há alturas em que toda a gente parece vestir feições atordoadas, como se tivessem saído de algum livro do Orwell (estou a pensar em O caminho para Wigan Pier ou talvez em Como morrem os pobres). Sem contato ocular, sem alarde. A discrição vale também para os chamados «instrumentos de trabalho»: bloco-notas o mais miudinho possível, caneta barata tipo Bic edição econômica (azul e/ou preta [o vermelho chama atenção, carrega atmosfera corretiva na própria escrita]).

O corpo do escritor: momentos em que se quer cuidar do corpo, corpo-santuário, mantê-lo em ordem, deixá-lo saudável; também momentos de raiva/fúria/vontade de absoluto aniquilamento, desaparecer. Faz o exercício físico num dia, enche a cara e fuma charutos noutro dia &tc.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de setembro de 2020


Passeios eternos

Levo a minha avó para um passeio ao jardim. Minha avó tem 92 anos. Ela caminha com dificuldade, segura firme no meu braço. Ela já viu de tudo. Vovó observa as árvores, que nesta época do ano estão secas, retorcidas, com as folhas a cair. Vovó diz: estas árvores, as folhas, os pássaros, tudo tem o próprio tempo.

Acontece que alguns organismos são biologicamente imortais. Quer dizer: eles morrem, mas não por causa da idade.

A medusa Turritopsis dohrnii, que pertence à classe dos hidrozoários, «reinicia-se» a cada ciclo de vida. 

Pinus longaeva, uma espécie de pinheiro das White Mountains californianas, o ser vivo mais velho do mundo. Essas árvores podem ultrapassar os 4 mil anos.

Turritopsis dohrnii e Pinus longaeva não têm o próprio tempo. Mas não chego a comentar isto com vovó.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de setembro de 2020


Lançamentos

Já estão disponíveis à lojinha deste sítio web os livros Sinfonia do fracasso e Saturno embaçado, ambos editados pela Bandoleiro. Para acessá-los, aperte aqui.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de setembro de 2020