a rotina de jeffrey joseph bernard (1932-1997), jornalista: tenho dormido pouco nos últimos dois anos e acordo muito cedo, normalmente por volta das seis, com uma inexplicável sensação de otimismo. fico deitado na cama a fumar durante meia hora, o que é bastante nojento, a contemplar o horror de ter de criar uma crónica e a questionar-me sobre o que raio escrever. depois, deparo-me com um certo desespero.
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outras dúvidas, mesmas vozes: terei escolhido o caminho errado? ver carrère no retiro de ioga: digo a mim mesmo que minha vida está excelente, está cada vez melhor. ou seria tudo uma mera ilusão?
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quantas vezes não tive estes mesmos receios (penso em hervé e carrère), ou o medo de me retirar e ser invadido por inquietações parecidas: estou distraído, agitado, não acredito mais no que estou fazendo. a minha pressa em finalizar tudo o mais rápido possível funciona como medida protetiva, antes que algum obstáculo tenebroso paralise as minhas mãos e transforme um simpático passeio nos bosques da literatura em uma errância inútil [no fundo, sei que é disso que se trata, inutilidade, embora {felizmente} ainda consiga elaborar razões que justifiquem empreitadas absurdas]. no meu último manuscrito escrevi que a depressão é a criatura que nos assola quando perdemos a capacidade de enxergar relevância nas tarefas às quais nos submetemos.
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e agora todas as fissuras começam a aparecer [james graham]. as brechas entre: dizer, ser, compreender, comover. um trapezista que tentasse explicar que é justamente a vertigem que o encoraja a subir às alturas. estaríamos condenados a cambalear à beira de um abismo de desentendimentos? o consenso é não existir consenso algum? porque há algo «outro» e sempre haverá, diz-nos ainda adorno, para além do âmbito da respectiva determinação de realidade.
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felix mandelssohn, die hebriden in b minor: hebrides overture op. 26, calm sea and prosperous voyage, a midsummer night’s dream / maxim emelyanychev & scottish chamber orchestra.
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herança de kant no pensamento estilhaçado de adorno ¶ pós-segunda guerra mundial ¶ feridas abertas. fala-se em «aclaração» no sentido de «capacidade de se explicar». terapia contínua contra uma confiança exagerada no papel gramatical em possíveis atos de esclarecimento. ambiguidades. a busca de validação própria é não só pretensiosa, como devastadora. em meio ao tumulto filosófico, as rupturas, a coragem para reconhecer que nossos mecanismos de interpretação (da realidade, dos seres humanos, das abstrações) estão longe de serem infalíveis, antes reféns de uma dinâmica perturbadora e fatal. não é forçoso compreender todo o kant e todo o adorno para apreciá-los.
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acontece de às vezes ocorrer um alinhamento de fatores e de súbito nos encontramos numa situação em que precisamos de agir rápido para, como se diz, aproveitar a oportunidade. mas nem sempre conseguimos reagir de maneira apropriada e o instante passa (imagem ilustrativa: um comboio que se despede da estação sem nós, porque chegamos atrasados). esses pequenos fracassos assombram-nos depois, numa altura em que estamos distraídos, como fantasmas maliciosos à espera de um deslize qualquer.
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tornamo-nos aquilo a que damos atenção.
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o meu desafio na hora de elaborar cenários fictícios é que na chamada vida real acabo frequentando sempre os mesmos lugares. de forma que os livros que escrevo estão saturados de encontros em cafés, clubes de xadrez, museus, galerias de arte, cabanas na floresta, estalagens obscuras à beira da estrada.
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curiosa fase da vida em que dedico imenso tempo a analisar «a origem dos meus interesses». depois de determinada idade, filtramos (ou melhor: precisamos de filtrar se não queremos enlouquecer [afogar-nos!] diante da enxurrada de estímulos que nos intimida de todos os lados, uma espécie de fetiche moderno). há um certo cuidado, um pragmatismo específico com os alvos em que investimos. selecionamos pessoas, livros, atividades, restaurantes, viagens, dieta, travesseiros do tamanho adequado ao conforto da nossa cabeça, escolhemos a música que queremos ouvir, as palavras que nos afetam e aquelas que preferimos descartar. interesses adaptáveis, que ora ameaçam tornar-se excessivos, ora insuficientes, a depender do grau de reciprocidade que acabam por nos oferecer.
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a minha irmã esteve recentemente em praia, capital cabo-verdiana, e trouxe-me pulseira feita com vestígios vulcânicos da região. o mimo veio numa simpática embalagem [cabo verde seascape duty free] que lembra aquelas utilizadas em padarias. dentro, guardo os cartões de índice pautados cujas notas (muitas delas escritas num agradável estado de suspensão) acabam por deitar-se neste diário.
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resistência de acordo com alberto manguel: fazer literatura num mundo ferido.
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poder-se-ia exprimir, sem prejuízo semântico, que as fugas interiores (o silêncio como forma de refúgio [estás sozinho num casebre / lá fora / floresta]) demonstram como o afastamento de círculos sociais e de tensões metropolitanas exaustivas te permite confrontar a ti mesmo e o teu estado de ânimo.
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digamos para fins ilustrativos que tu tenhas três olhos. és um tipo de «ciclope privilegiado». o olho direito olha para o futuro, o olho do meio analisa o presente, enquanto o esquerdo fita o passado, reminiscências (boas & ruins) que permanecem contigo e com as quais tens de acertar contas. este também é o teu diário, registros de inquietações: aos acontecimentos do ambiente em redor, às viagens, aos azedumes do cotidiano, às meditações fomentadas por leituras diversas, às palavras que te causam insônia, à poesia que acalenta o teu pobre coração.
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lembra-te sempre que a sanidade pode ser apenas um capricho temporário do teu cérebro.
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a influência das nossas escritoras e dos nossos escritores favoritos precisa de ser constantemente equalizada. do contrário somos atraídos por forças gravitacionais irreversíveis, tal e qual acontece com a lua adrasteia — que devido às interações com júpiter, está a ser desintegrada pelo arrasto de maré exercido pela proximidade fatal com o planeta gigante.
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nota avulsa de um introspectivo. tentamos viver com outras pessoas, falhamos. tentamos agradá-las, aceitá-las, abraçá-las — falhamos. tentamos lhes comunicar o que se passa dentro de nós e falhamos igual. as informações que compartilhamos mostram-se incapazes de transmitir aquilo que pretendíamos esclarecer (ruídos e/ou interferências). de aí por vezes nos assustarmos com a fúria dos seres humanos que, a despeito das melhores intenções, não conseguem nos decifrar.
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quando alguém te elogia, ficas sempre receoso, porque compreendes que a outra pessoa está a enxergar apenas uma pequena brecha da tua personalidade. já a tua consciência percebe tudo e ela acaba por ser a última juíza quando te diz: sabes direitinho que as coisas não são bem assim, abaixa o teu entusiasmo, etc.
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se é verdade que algumas memórias não podem ser curadas (kierkegaard fala em «lembranças que machucam mais do que outras»), o que se pode fazer para pelo menos conter a imensa melancolia que as habita? hipótese: o neurótico seria uma espécie de funes el memorioso que gostava imenso de esquecer-se.
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o caso de pasternak é provavelmente o mais emblemático: músico sufocado que se volta às pressas para a poesia, alma individualista que reage às imposições alheias. dostoiévski se expressa com maior destreza, no entanto as introspecções do doutor jivago parecem ter se adaptado (adequado?) melhor aos nossos dias de fiscalização do que as análises metafísicas dos karamázov.
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as horas de desconforto, a lentidão que se assemelha ao processo de uma grande cobra predadora que pacientemente se agarra à presa, e tu és a própria presa, refém das forças que te rodeiam, mas a cobra predadora é apenas a última etapa de uma longa linhagem de dissabores. meter-se, portanto, em atividades criativas, antídotos contra ciladas selvagens.
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origens da literatura russa: cyril & methodius criam alfabeto para a língua eslava à guisa de traduzir textos bizantinos, isto no ano de 863. traduções agradáveis, com estilo poderoso, típico dos habitantes daquela região. história concisa — forças externas que diziam aos russos: é assim que têm de pensar, é assim que têm de sentir, é assim que têm de acreditar. a luta pela fé perante o mal. antes eram deuses que personificavam forças da natureza [o sol, a lua, a tenacidade dos animais, etc.].
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o escritor adquiri um vício durante a vida: ele quer publicar. pouco lhe importa se o lerão ou se será sumariamente ignorado. ele se apega ao processo 1) ter ideia; 2) registrar ideia no papel; 3) jogar ideia para os ventos — mesmo que sejam elétricos. o que virá depois disso está além do seu controle. é um pouco como querer resgatar a sonda espacial voyager 1, a mais de vinte bilhões de quilômetros do planeta terra. boa sorte, astronauta!
