Partida de xadrez

Fim da tardinha. Luz amena. Um pequeno e simpático tabuleiro de madeira cuidadosamente polida por carpinteiros habilidosos, sessenta e quatro casinhas quadriculadas, trinta e duas peças esculpidas com esmero e capricho, dois jogadores civilizados, um vento brando a bater na testa desses gentis-homens, jogam sentados, ao silêncio, fazem apenas breves e indiferentes movimentos com os dedos — por que diabos, então, saímos de uma partida dessas transpirando, perturbados, decrépitos, como se tivéssemos lutado contra um exército invencível, ou atropelados por manadas de elefantes selvagens?

— P. R. Cunha

O boteco

Esta peça obscura foi escrita para ser apresentada a um público formado exclusivamente por enfermeiras aposentadas de Brasília, Distrito Federal.

PERSONAGENS:
Chico – funcionário, trinta e poucos anos.
Gonçalves – chefe, cinquenta e poucos anos.

Uma daquelas salas de empresas médias (à moda «The office», Rick Gervais) em que os funcionários estão ilhados dentro de caixas divididas por compartimentos destacáveis com superfície atapetada na qual, com a ajuda de tachinhas, podem ser grudadas miudezas da vida humana — retratos do bebê, da vovó, do Rivaldo (cão Yorkshire que, depois de um matrimônio malsucedido, passa uma semana na casa dele, e depois outra semana na casa dela). Etc.

Inverno.
Dia.

Chico jogado na cadeira, descanso de tela do computador a rodar num looping entediante, gravata desalinhada, camisa branca com uma enorme mancha de café, paletó sobre a mesa.

Gonçalves vestido a rigor, terno impecável, o sapato a refletir a luz fluorescente da sala, caminha com desenvoltura. Aproxima-se de Chico e mostra-lhe um frasco de plástico com substância amarelada.

GONÇALVES
Andou bebendo

CHICO
(Assusta-se com a presença do chefe, tenta se ajeitar na cadeira, sem sucesso)
Como é
o quê

GONÇALVES
Perguntei se
(Dá duas batidinhas no pote)
andou bebendo
Chico

CHICO
Tive sono agitado
só isso

GONÇALVES
O teste rotineiro
de urina detectou
álcool
ou melhor
uso abusivo de álcool
Pode me explicar isso

CHICO
(Boceja)
Posso

GONÇALVES
Pois não

CHICO
(Inclina a cadeira para trás, coloca os pés sobre a mesa)
Uma garota
sabe
uma garota daquelas
estou sentado e ela se aproxima
Quero um drinque
ela diz
O cavalheiro vai me oferecer
um drinque ou não vai
E então lhe ofereço um drinque
e toda a gente sabe que uma dama
não pode tomar um trago
assim
sozinha
De aí pedi um para mim também
(Pausa)

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Uma mulher estonteante
precisava de ver
modelo
já fez comercial da C&A
Riachuelo
Bebemos aproximadamente
vejamos
(Faz o cálculo de cabeça, conta nos dedos, faltam-lhe dedos para chegar à aritmética correta)
15 a 17 doses
ao longo de
(Faz novamente as contas, aluado)
ao longo de seis horas
Minto!
sete horas no bar
duas horas num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
Hotel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Ressaca leve
estou habituado
Duas três vezes por semana
sair
tomar um trago
conhecer damas
quem sabe dormir
com essas damas
num hotel

GONÇALVES
Motel?

CHICO
(Pausadamente)
Ho-tel

GONÇALVES
Prossiga

CHICO
Criamos um padrão
percebe
e depois
como você deve saber
«old habits die hard»

GONÇALVES
Como é
homem

CHICO
Velhos hábitos
companheiro
velhos hábitos
nos perseguem ao
túmulo

GONÇALVES
(Resignado)
Sei como é

CHICO
Meus colegas
(Aponta para os outros funcionários na sala, todos a trabalhar, compenetrados, olhos fixos no ecrã do computador)
meus colegas já me disseram
Chico Chico Chico
que estilo de vida é esse
que estilo de vida é esse
meu rapaz
está prejudicado

GONÇALVES
E não acha
que esteja

CHICO
O quê

GONÇALVES
(Puxa uma cadeira, senta-se)
Prejudicado, ora, essa

CHICO
De forma alguma
padrão de consumo alcóolico
de acordo com as minhas
necessidades
Trabalhar aqui
percebe
não é fácil

GONÇALVES
(Levanta o frasco, lê o que está escrito no rótulo)
Alcoolemia de 1,4 g/L
necessidade de intervenção psiquiátrica
consumo pesado de álcool
possível alcoolismo
quinto teste reprovado
em menos de um mês

CHICO
(Coça a cabeça)
A ciência não explica nada

GONÇALVES
Como é

CHICO
A ciência
testes
esse frasquinho
com o meu xixi dentro
isso não quer dizer nada
Bebo socialmente
garanto-lhe

GONÇALVES
Chama 15 doses
de beber socialmente

CHICO
(Gira a cadeira, tal criança)
Chamo
Estava a beber com
uma outra pessoa
não estava
ou seja
evento social
socialmente

GONÇALVES
Chico

CHICO
Gonçalves

GONÇALVES
Não me faça perder
a paciência

CHICO
Jamais

GONÇALVES
Agora
diga-me lá uma coisa

CHICO
O que quiser

GONÇALVES
Esse boteco aí

CHICO
Sim

GONÇALVES
Como se chama

Fecha-se o pano, a peça terminou.

— P. R. Cunha

Nenhum segredo a ser revelado – palavras de um fotógrafo amador

Recentemente fui convidado para conversar sobre fotografia com escolares. Moças e rapazes entre 12 e 15 anos que cresceram (e ainda estão a crescer) segurando telemóveis, tablets, e-readers, computadores portáteis quase tão finos quanto uma folha de papel. Enviam mensagens para pessoas do mundo inteiro, recebem respostas num átimo de segundo. Enquanto tomam o achocolatado, jogam o Minecraft, assistem séries Netflix, escrevem crítica a respeito da última temporada de Game of Thrones e brigam com os pais — que muitas vezes encontram-se bem ali, sentados à mesma mesa — através do WhatsApp. 

Estou ainda nos primórdios dos meus anos trinta mas senti-me como se andasse por volta dos oitenta quando tive de explicar para esses miúdos que minha primeira câmera fotográfica foi uma Kodak 35mm descartável com filme para vinte e sete poses. Comecei a tirar fotos em 1997 — época em que Bill Clinton ainda era o presidente dos Estados Unidos, e o Gustavo Kuerten, grande Guga, fazia corações nas quadras de saibro de Roland Garros. Não fugia muito do clichê opa!, vejo que me interesso por essa geringonça, agora vou registrar as conquistas de indivíduos tidos como membros da família. 

Nos dias nublados, fotografava natureza-morta, toda a sorte de objetos inanimados. Achava-me grande, um artista pós-moderno.

Desnecessário bancar o virtuose da fotografia, digo aos escolares. Apesar de minhas primeiras câmeras terem sido analógicas, só comecei a aprender a fotografar de fato quando já utilizava uma Sony Cyber-shot com cartão de memória para aproximadamente quinhentos arquivos JPG. E o processo de aprendizagem nada teve a ver com a mudança tecnológica, mas sim com os pormenores culturais que adquiri em viagens (geográficas, musicais, cinematográficas, literárias)*. 

Sou daqueles que acreditam que «ser-fotógrafo» depende de uma longa série de aptidões extracurriculares. Mas não imaginava que esse simples conceito — cujas bases podem ser encontradas na Poética de Aristóteles, um texto mais antigo do que o nosso próprio calendário —, não imaginava, portanto, que transmitir essa descomplicada ideia para jovens da chamada Gen Z** seria uma tarefa tão ardilosa***.

A verdade é que a internet e as tecnologias cada vez mais aprimoradas são sim excelentes formas de produção/divulgação imagética; mas elas também fomentam imediatismos e outras ansiedades que podem ser fatais para a saudável prática fotográfica.

Por exemplo. A primeira pergunta que recebi durante a conversa foi: 

— Tio, tenho um iPhone X com câmera TrueDepth, A11 Bionic, e mesmo assim as minhas fotos são horríveis, o que devo fazer?

Lembrei-me da primeira vez em que tentei desvendar os segredos do Photoshop. Ali estava um programa infinito, com recursos infinitos, possibilidades infinitas e eu não sabia sequer para onde apontar o cursor do rato. Numa palavra: podemos adquirir as melhores ferramentas de edição e captação disponíveis, mas se não possuímos uma ideia, tudo o que conseguiremos serão porcarias mais nítidas.

Compartilho com os escolares algumas fotos dos meus fotógrafos favoritos: Cartier-Bresson, Capa, Diane Arbus, Doisneau, Atget, Octavius Hill, Alfred Stieglitz, Vivian Maier, Dorothea Lange. São imagens magníficas, os escolares concordam. E nenhum desses artistas utilizava câmera digital, eu digo, e se alguém tentasse explicar-lhes o que era Photoshop talvez esse alguém fosse acusado de bruxaria-voodoo-satanismo. E, convenhamos, com razão

Certo: precisamos agora procurar tema interessante e digno de se fotografar, e depois manter-se fiel ao plano. Essa sugestão não é minha, mas justamente desses fotógrafos que citei acima. 

Hoje em dia toda a gente carrega consigo um telemóvel com surpreendentes captações de imagem. Ótimo. Mas a grande maioria continua a utilizar esse tipo de ferramenta apenas para confirmar experiências****. Fotografias como provas de que determinado evento se realizou, de que a tarefa foi cumprida, isto é: saí de casa, houve diversão, experimentei comidas diferentes, vejam a minha desenvoltura financeira, estou a viver e por aí adiante.

Existe, contudo, um lado positivo nas banalizações. Podemos tirar fotos sem nos preocuparmos (tanto) com o enquadramento, saturação, contraste, com o número de poses do filme. Afinal, se alguém fechou os olhos, ou não sorriu, ou ficou com cara de psicopata, ou um pássaro decidiu fazer caquinha nos ombros do vovô Fred, bom, podemos resolver isso com um dedinho. 

Assim como acontece na literatura, o papel da seleção se torna preponderante para a fotografia. Num texto literário escrevemos numa tacada só, como se diz, e depois nos vemos diante de um amontoado de palavras desnecessárias. O escritor respira fundo e corta, corta, corta, corta. Até chegar ao menor denominador comum, àquilo que alguns chamam de essencial*****. 

Acontece que esse exercício seletivo também depende da nossa cultura, da nossa formação, das nossas atividades extracurriculares. Esse aperfeiçoamento leva tempo. E, como sabemos, a Gen Z não tem tempo a perder. O círculo começa a se fechar.

Os aparatos tecnológicos prometem muitos «agoras». Tire a foto agora, publique a foto agora, edite a foto agora. E com isso talvez estejamos a modificar alguns aspectos do ato de fotografar em si (escrevo isto sem qualquer tipo de juízo de valor [nem melhor, nem pior: apenas diferente]). Tudo o que posso fazer é compartilhar as minhas experiências. Cada um, no fim de contas, percorre/constrói a própria estrada.

A mim a fotografia sempre foi uma grande compilação de fatores, de percepções, múltiplos canais, referências diversas. Por vezes, inclusive, gosto de sair com a minha câmera enquanto escuto algum artista específico******. A música se transforma na trilha sonora das imagens, é bonito de ver. Noutras tantas vezes leio determinado trecho de um livrinho agradável e aquelas palavras me servem de gatilho. Nem precisaria comentar que os enquadramentos cinematográficos mexem deveras com a minha imaginação — inclusive, ainda considero Dziga Viértov******* um dos melhores professores de fotografia do mundo.

Despeço-me deste apressado ensaio com as mesmas palavrinhas com as quais finalizei a conversa com os escolares: leiam muito, façam muitas viagens, copiem descaradamente outros fotógrafos talentosos, escutem canções inspiradoras, tirem muitas fotos, muitas mesmo, centenas de fotos, milhares de fotos, identifiquem as ruins (98% do total), procurem aperfeiçoar as que ficaram boas — e assim procedam, ad infinitum.

P. R. Cunha


*Tive vontades de acrescentar a famigerada «viagem ilícita» (i.e.: alucinógenos), mas preferi evitar reprimendas dos professores e do próprio diretor da escola — além de uma eventual visita à delegacia mais próxima.

**iGeneration, Homeland Generation, Plurais, Centennials, Post-Millennials, Smartphone Generation (o anglicismo despudorado sugere, naturalmente, a onisciência da língua inglesa no vocabulário da juventude contemporânea [quer queira quer não]).

***Talvez fosse o caso de esclarecer de uma vez por todas que estou a generalizar. E, como se diz, toda regra possui exceções. Clarisse, menina muito tímida, veio conversar comigo depois da apresentação e mostrou-me algumas fotografias que, segundo ela, foram tiradas despretensiosamente durante o velório de uma tia distante. Não creio que eu tenha exagerado quando lhe disse que tinha um potencial enorme para se tornar uma espécie de nova (e melhorada) Julia Margaret Cameron.

****As enxurradas de selfies (que, pelos vistos, parecem ter dado uma [breve?] trégua) confirmariam esses modi operandi.

*****Diz a lenda que certa vez perguntaram ao Michelangelo como ele havia feito a escultura de Davi. Michelangelo teria coçado a têmpora e respondido: fiquei a observar o mármore durante algum tempo; depois, simplesmente peguei o martelo e eliminei tudo o que não era o Davi.

******The Verve é ótimo para fotografias noturnas e/ou p&b.

*******Vide Um homem com uma câmera (1929).

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha

Esteroides anabólicos androgênicos (EAAs), fatores de liberação

Estratégias de jogo — sugestões de profissionais gabaritados, sérios, com muitos diplomas pregados na parede, talvez uma série de livros impressos por editoras universitárias com a nobre, porém pouco eficaz, finalidade de divulgar o conhecimento médico às pessoas comuns: divertir-se nas quadras, beber água durante os treinamentos, não levar as competições tão a sério, desenvolver um hobby agradável, sair com amigos, praticar o intercurso com parceiros confiáveis (deixar propositalmente o adjetivo confiável em aberto). Carlos Mourinha, um experiente jogador de badminton que perdera a capacidade de ser calmo e descontraído, abre a porta do apartamento e deita para o chão uma sacola com aquele tipo de papel com o qual fazem embalagens de pães (tipo francês); a sacola contém: 1) petecas; 2) três raquetes Yonex 85g, 67cm, empunhadura 9cm, etiquetas da loja de departamento ainda grudadas nos cabos das raquetes com colinha irritante que demora para sair; 3) cushion, grips e over-grips para maior firmeza e conforto às mãos, também dedos, ao segurar a raquete durante o jogo, aquilo a que costumam chamar de «pegada». Vê-se logo que é uma sacola sólida, firme, duradoura, de fato ideal para carregar toda a sorte de equipamentos badmintons. Experiente jogador, bandana UA (Under Armor) na cabeça, cabelos encaracolados, camisa polo azul com golas levemente desgastadas, um número maior do que aquilo que os inspetores de moda julgariam ideal, óculos com armações arredondadas, parece um bocadinho com o David Foster Wallace, e/ou com o James Joyce, uma espécie de acidente genético, como se DFW e o próprio Joyce decidissem de repente ter um filho juntos: Carlos Mourinha, que senta na cama e fala em voz alta, sinal de que as coisas não andam bem, falar consigo é mau presságio — tudo o que faço, ele diz, tudo o que faço é jogar badminton, preciso de um descanso. Boa classificação no ranking mas sem aquela desenvoltura de outrora. Quinze a vinte minutos em quadra, com a cabeça em outra dimensão (palavras do treinador), demora para entrar no ritmo, comete muitos erros etc. Carlos Mourinha, frustrado, já cogita seriamente a possibilidade de estimulantes ilegais.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha

Brasília-DF

Nasci em Brasília, um fim do mundo mais jovem do que meus pais cariocas. Hoje, às portas da trigésima terceira volta ao redor do Sol, consigo compreender melhor que faz parte da minha «essência ambivalente» (na falta de outros termos) ser um bocado ríspido quando falo/escrevo sobre esta quinta de concreto e árvores com troncos tortuosos. Esta cidade com um futuro que nunca chega, que sempre foi minha e que nunca será completamente minha. Mas se você estiver atento o bastante, Brasília pode até lhe transformar num poeta de seis andares, a modificar as cores do asfalto — cinza.

Dedico este poema à Thaysminy Marques Coelho, que melhor compreende a capital federal.

ASFALTO VOLTADO PARA O CÉU
(Inverno de 2018)

Penso em Brasília
o automóvel a chegar
sempre antes de toda a gente

Duas asas —
eixo monumental
asfalto voltado para o céu

Penso em Brasília
nas feridas
que já não saram

N’um dia nublado
sem saber se lá estão nuvens
ou lamentos triviais

Pois em Brasília
queria encontrar-me
E com mais ninguém.

— P. R. Cunha