Entropia

A pedra sente a água do rio passar-lhe pelo corpo. A pedra percebe que o momento, o breve instante em que o rio lhe acaricia é único, pois a correnteza possui uma só direção: ida. As águas jamais se repetem.

— P. R. Cunha

Sonhador

Para a Jéssica Fernandes Cunha

I
A rede branca
com tranças de algodão
oferece o átimo de repouso
linha do horizonte
percebem-se
aléns-fabulosos
onde todos os conflitos
estão resolvidos
mesmo que
momentaneamente

II
Um longe feito
de iras e acalmias
o brilho de uma borboleta
fugidio —
cimos de árvores
retorcidas pelas
estações imperfeitas

III
Acolhimentos futuros
a luz d’outro mundo
outra dimensão
fito o meu reflexo
na superfície ondular
da piscina
rosto estranho
como um cometa que
acabara de cair da lua
não é poeta
é ser humano.

— P. R. Cunha


Sala de espera

Os períodos de transição causam tormentas imprevisíveis. Pode-se falar de sociologia, filosofia, política, economia, mas não é preciso de ir tão ao longe. O próprio ser humano guarda dentro de si o microcosmo da transitoriedade. A passagem da meninice para a adolescência, da juventude à vida adulta, de aí vêm a velhice e a morte. Etapas. Não é imprópria a imagem do limbo. O sujeito que se encontra na sala de espera leva dentro do coração duas feridas abertas: a nostalgia do que costumava ser e já não é mais, e a incerteza daquilo que será, mas ainda não o é.

— P. R. Cunha

Volante ligeiro entre os dedos da mãe

6h47. A mãe está dentro do automóvel, ela tenta manobrar para sair da garagem da casa. O pai ao jardim segura a filha no colo, observa. Os vidros fechados e embaçados do automóvel. A mãe passa um pano laranja para desembaçá-los. A cena do pai a segurar a filha no colo parece comovê-la. O pai levanta os bracinhos da filha enquanto diz com voz de desenho animado: tchau, mamãe!, tchau, mamãe! A menina sorri e balbucia: mã-mã. A mãe respira fundo, pisa levemente no pedal do acelerador. O automóvel desaparece depois de virar à esquerda.

— P. R. Cunha

Poetisas loucas

Yorick vai para férias e me convida para uma partida de xadrez.

Sei que tu andas a jogar todos os dias, ele me diz, portanto, pega leve, estou enferrujado.

Jogo contra o telemóvel, eu digo, o cérebro humano é outra coisa.

Sentamos ao tabuleiro que Yorick montara na varanda da própria chácara. Faz um frio aprazível e o céu se mostra tão azul quanto as nuvens do planeta Netuno.

Gosto de estar cá fora, ele diz, traz-me sempre boas recordações.

Acendemos os nossos respectivos cachimbos e ficamos a observar as peças de madeira dispostas sobre a superfície quadriculada.

Uma espessa fumaça sai da extremidade do cachimbo do Yorick: acho que tenho um fraco por poetisas loucas, ele diz, fico alucinado.

Eu faço que sim com a cabeça: compreendo.

Yorick desloca o cavalo branco [Nf3].

— P. R. Cunha

Baileys Irish Cream

Um gole de Baileys
apazigua os pensamentos
em total sossego
escrevo este poema
com caneta do espírito
negra como as sombras
abre-se diante de mim
a infinitude universal
luas prateadas
o vazio entre as estrelas
que há muito já se foram
e enquanto nesta fuga imaginada
eu fixo o olhar no líquido
percebo que não é à toa
Baileys e espaço sideral
possuírem a mesma média de cor
leite cósmico
cosmic latte.

— P. R. Cunha

À janela

As janelas abafam
contradições ao longo
da autoestrada
o efeito Doppler
da motocicleta —
nuvens passageiras
levam consigo
promessas inibidas
e é o fim de
um devaneio.

— P. R. Cunha