Camus para crianças

Para o Danillo Fernandes

O pequeno Herbert me disse que só há dois problemas filosóficos verdadeiramente sérios: 1) se um dia ele conseguirá alcançar — e ultrapassar — a idade do melhor amigo dele que tem oito anos (Herbert tem sete); e 2) demonstrar por que cargas um balão vazio dentro da piscina enche-se de água enquanto a cabeça humana não se enche de água (apesar de todos os buraquinhos [olhos, ouvidos, nariz, boca]). Perguntei ao Herbert se por um acaso não estaria a ler Albert Camus numa daquelas versões simplificadas para crianças e ele me garantiu que nunca tinha ouvido falar nesse tal de «Alberto Kamú», se era algum jogador de futebol ou coisa assim. Camus, eu disse, O mito de Sísifo, o absurdo, a condição humana… Herbert continuou a balançar a cabeça de um lado para o outro: não fazia mesmo a ideia.

— P. R. Cunha

Vigas enferrujadas

O bom engenheiro construirá casas e apartamentos que não caem, o médico competente cura doenças, o motorista que não causa avarias nem infringe as leis do trânsito é considerado um ótimo motorista. Atividades objetivas com resultados objetivos. Ótimo. Mas a mesma linha de raciocínio parece não funcionar com as chamadas criações artísticas — que muitas vezes precisam de ser analisadas com lentes individuais. 

O imbróglio torna-se ainda mais problemático quando se coloca dinheiro público sobre a mesa.

Determinado artista é contratado pela prefeitura de certa cidade para montar escultura na orla marítima. Tudo é feito às surdinas. Um dia transeunte está a praticar o cooper à beira do oceano e ali não há nada, no outro dia o mesmo transeunte se depara com vigas de aço cor de barro, uma placa que homenageia artista cujo nome ele nunca ouvira falar. A placa também está assinada pelo senhor prefeito da cidade, ao passo que transeunte pensa: esta coisa aqui foi construída com o meu dinheiro.

Paga-se bem caro para se viver em estruturas que não caem, para ser submetido a cirurgias que salvam vidas, ou mesmo para se viajar de avião sem a angústia da queda. São investimentos com efeitos óbvios. Mas não se quer engolir «obra de arte» sem ser consultado. E se pararmos para pensar, isso até que faz sentido.

Gostava que o leitor pensasse num filme ruim. Então eu lhe digo: abri um cinema onde só passa esse filme ruim, em todas as salas, todas as sessões. Quase duas horas de imagens aborrecidas, enredos que não lhe apetecem, atuações grotescas. Você provavelmente não iria querer frequentar o meu cinema. Direito seu. Agora imagine que você seja obrigado a assistir ao filme ruim, que não tenha mesmo outra escolha — e ainda precisa de pagar pelo bilhete…

Transeunte que praticava o cooper matinal com o oceano ao fundo terá de lidar com as estranhas vigas de aço, com a placa da prefeitura, com o orçamento de 300 mil dinheiros que saíra do bolso de toda a gente. Porque, como se sabe, quando a arte se retira do âmbito privado para flertar com grandezas públicas ela se torna outra coisa: um prédio que cai.

— P. R. Cunha

O sábio implicante

Lembro-me de ler entrevista em que o Philip Roth reclamava que quando não estava a escrever, quando não estava a trabalhar nos próprios livros ele caía em depressão, ficava doente da cabeça, nada lhe fazia muito sentido. E enquanto eu lia (na biblioteca da Universidade de Brasília, se a memória não me atraiçoa) não pude deixar de achar certa graça: o Philip Roth está ranzinza pacas, onde já se viu. Acontece que, como se diz, o tempo é a melhor escola. Hoje, dez anos depois, se fico longe das minhas narrativas, se começo a perceber que não conseguirei me dedicar à escrita e à leitura, nenhuma perspectiva de poder sentar-me sozinho num canto — mesmo que por apenas algumas horinhas — caio em depressão, fico doente da cabeça, nada me faz muito sentido. Trata-se de uma balança deveras delicada: sair em busca de novos motes, viajar, divertir-se; depois, ter a ocasião para o respiro, para editar-se, pôr-se ao papel. E quando as galáxias se alinham adequadamente, céus!, tudo se mostra muito bem, obrigado.

— P. R. Cunha

Comboios

Estou à estação e escuto o apito do comboio. Preciso de pegar o comboio, porque do contrário chegar-me-ei atrasado. E quando chego atrasado toda a gente fica com as raivas: ora!, chegaste novamente atrasado, é bem típico de tua parte etc. Acontece que começo a aperceber que o comboio não vai parar. Ele apita, mas não desacelera. Eu tenho então de correr. Eu corro, canso-me à beça, estou completamente encharcado de suor quando pulo no comboio e tento me segurar nas ferragens do último vagão. Às vezes não consigo agarrar-me direitinho e caio. E o comboio vai-se embora.

— P. R. Cunha

 

Manhãs em Sobradinho (casa dos meus avós)

Diz-se primeiro Brasil: de aí pode-se imaginar: país do futuro, país do passado, terra sem terramoto, ditadura(s), corrupção, Jorge Ben: e neste imenso Portugal (Evaldo Cabral de Mello), uma cidade: e nessa cidade uma pequena região administrativa: e nessa região administrativa uma casa construída à volta de jardim, campo de futebol, área de entretenimento aquático: e dessa casa um quartinho com mesa, cama, varanda, rádio de pilha que pertencera ao meu avô: e nesse rádio João Gilberto canta Zingaro (Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto / A maltratar meu coração): à mesa, ouvindo João Gilberto, está uma pessoa com uma caneta: eu.

— P. R. Cunha


berenice&edyl

Intercâmbios (II) e outro relato fugaz

Nossa relação pai-e-filho sempre foi um pouco conturbada. Ele se dava muito bem com a mãe. Eu trabalhava como piloto de aeronaves comerciais, de forma que quase nunca podia dar a atenção que a minha família merecia, pois vivia sobre as nuvens. E quando eu voltava para casa era tudo estranho. Bom, pelo menos para mim era estranho. Ali estavam a minha esposa e o meu filho a ter uma existência de cumplicidade enquanto eu me sentia um completo estrangeiro. A gente se abraçava, conversava, mas não era a mesma coisa. Até que cheguei ao ponto fulminante, regredi às fases primitivas do comportamento humano, passei a sentir um ciúmes do cão daquela intimidade, comecei a ter toda a sorte de neuroses, a querer marcar território, a impor as minhas regras, a mostrar quem estava no comando daquela aeronave residencial. A situação tornara-se insuportavelmente ridícula.

(…)

Na escola eu me apaixonei por uma menina chamada Jéssica. Ela era muito bonita e agradável, gostava dos rapazes que jogavam futebol. Acontece que nunca fui de jogar futebol. Eu me refugiava dentro da biblioteca, e tinha lá meus livros, e às vezes a Jéssica entrava sozinha ou com alguma amiga, e numa dessas vezes ela ficou a procurar uma mesa vazia, e nenhuma mesa estava vazia, e daí ela sentou-se à minha mesa, e sorriu o sorriso mais encantador que algum dia eu tinha visto, e depois a Jéssica voltou as atenções para o dever de matemática. Eu tentava observá-la discretamente, de soslaio, como se diz. Ela terminou os exercícios em menos de dez minutos, levantou-se e disse com delicadeza: tchau, obrigada pela mesa. Durante anos após o ocorrido — o qual passei a chamar de «o evento da biblioteca» — não conseguia parar de pensar em todas as frases que deveria ter dito para a Jéssica.

— P. R. Cunha

Intercâmbios

Depois que a minha esposa morreu, fiquei sozinho com o Leandro, nosso único filho. Talvez eu estivesse a desenvolver certos mecanismos de defesa contra o luto, sei lá, contra as dores da saudade, negação, mas a verdade é que sempre soube que fui um pai intransigente pacas. Ou seria melhor escrever «restrito»? Pai restrito, pai intransigente, pai rigoroso. O que eu quero dizer é que pegava muito no pé dele. Leandro, abaixa a música; Leandro, por que cargas tu não levantas a droga da tampa antes de fazer o xixi; Leandro, fecha a sacola do pão; Leandro, para de tocar bateria até tarde. Ele nunca reclamou. Sempre me obedeceu, jamais fez cara feia ou algo do tipo, apenas dizia: «Tá bom, papai, vou abaixar o volume; tá bom, papai, da próxima vez prometo levantar a tampa; tá bom, papai, estou a fechar a sacola do pão…» para uma semana depois voltar a repetir o mesmo roteiro de traquinagens. E eu cá pensava com os meus botões: o menino precisa urgentemente de ir morar longe a ver se aprende algo sobre a vida etc. Agora o Leandro está lá em cima a fazer as malas porque vai passar uns tempos na Nova Zelândia com a namorada. E nem preciso dizer que sentirei uma falta absurdas de todas essas coisas das quais eu reclamava, das picuinhas, das peculiaridades que tornam o meu filho quem ele é.

— P. R. Cunha