devaneios da própria máquina de escrever (episódio #8)

(espécie de epílogo aos devaneios anteriores [#7])

poucos ofícios se alimentam tanto da procrastinação quanto a escrita. a falta de ideia que se transforma em mote para o escritor, pois lá está ele metendo-se a anotar justamente sobre ausências. metalinguagem, o espelho do sujeito que se volta para a prática em si, aos verbos, à fazenda gramatical. alguém entra na sala do escritor & se depara com uma figura ligeiramente curvada à mesa. o escritor diz: «escrevo sobre a não-escrita, escrevo a respeito de não ter nada para escrever», & o certo alguém acha isso curioso, magnífico, edificante. mas se acompanhasse um ensaio de ballet & escutasse a bailarina dizer que está a praticar a não-dança/dança-negativa/ausência de ballet, de certeza que tomaria a moça por louca. ou um pintor que garanta: estou a pintar um não-quadro. ora, esse aí desafia as teorias de física, perdera as estribeiras.

(…)

mui breve anatomia da escrita: escrever é edificante, horripilante, traz paz, traz guerra, escrever é bonito, é feio, pode esclarecer, pode obscurecer, é poético, é sintético, ruídos, silêncios, verborrágico, antropofágico, bibliofágico, escrever destrói, escrever constrói, é céu, é noite, nuvens, tempestades, tardes soalheiras, escrever afina & desafina, amplia & reduz, micro/macro, é um pugilista em constante treinamento, escrever acalma para desassossegar, é fogo-&-neve, paradoxo contraditório: escrever é vício.

— p. r. cunha


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devaneios da própria máquina de escrever (episódio #7)

uma daquelas manhãs em que se acorda & não se sabe ao certo se haverá algo, algum tema, ou mesmo faísca de ideia. 

a escrita é um prato que se prepara aos poucos.

sentar-se para escrever durante algumas horinhas talvez não faça diferença nenhuma. mas depois de um ano, cinco anos, oito anos de prática — acordar, escrever, acordar, escrever — o cérebro meio que entende/apre(e)nde: «ah, sim, o senhor quer criar literaturas, pois não»…

a máquina de escrever beneficia-se do hábito. acomodar-se diante dela, faça-chuva-ou-faça-sol, & esperar. porque sempre surge qualquer coisa.

há uma janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol. à noite, gosto de abri-la e mirar as estrelas — aquelas que consigo ver & aquelas que só consigo imaginar (70 sextilhões delas: mais estrelas do que todos os grãos de areia das praias terrestres). pontos luminosos que preenchem o céu noturno, que oferecem falsas impressões, ou melhor, falsas esperanças, pois, a despeito da ilusão de óptica (parecem tão próximas), essas estrelas se mostram absurdamente longe umas das outras, longe de nós, tão longe que quase poderíamos considerá-las todas inatingíveis.

é possível que num futuro mais apropriado a raça humana desenvolva tecnologias que permitam percorrer essas distâncias irracionais. porém, com o que temos hoje, limitamo-nos a observar a vastidão de espaços vazios, cosmo insaciável que desafia os nossos sensos mundanos de percepção.

ainda somos crianças tentando compreender o que há lá fora.

(ou estamos sozinhos nesta imensa morada cósmica ou não estamos. e ambas as possibilidades, como diria um antigo [& muitos daqueles que tentam responder ao paradoxo de fermi {afinal, onde estariam os extraterrestres?!}] assustam.)

por enquanto, fecho a janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol, à noite, ao infinito.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #6)

imaginem um objeto de metal, retangular, vinte & oito centímetros de largura, trinta de profundidade. altura: oito centímetros. é verde, possui teclas com letras, números & outros símbolos próprios para a construção de textos. 

é a minha olivetti lettera.

conta a narrativa desta família que os pais do meu pai conheceram-se em niterói no início do século vinte, ocasionalmente, enquanto meu avô tentava manobrar a própria charrete & minha avó voltava de uma quitanda. já os pais da minha mãe apaixonaram-se na cidade do rio de janeiro depois de muitas investidas do meu avô, que trabalhava aos correios & anotava bilhetinhos secretos para a minha avó, na altura uma estudante de direito.

charrete, quitanda, carteiro, bilhetinhos românticos de papel: termos que de certeza denotam nostalgia. & o faço de propósito. 

obviamente que todas as odes ao passado possuem manchas estranhas: desigualdades sociais, despreparo para um escopo enorme de doenças, guerras, nepotismos, privações & não só.

gostava, no entanto, de focar no critério tecnológico.

as pessoas tinham essa vida desplugada, sem wi-fi, iam de charrete para todos os sítios, & ainda assim se apaixonavam, & trabalhavam, & sobreviviam. davam conta.

ontem observei com atenção um pai que tirava o telemóvel das mãos do miúdo, & quase tiveram de chamar o serviço social (ou o exército) para conter tamanho berreiro. exageros à parte: o choro do menino parecia uma sirene anunciando ataques nucleares. 

mas era só um telemóvel.

reflito aqui diante da minha olivetti se não estaríamos nos tornando o grupo de humanos mais mimado que já pisara neste planeta. 

sair de casa é para alguns um estorvo incontrolável. não se pode mais entrar numa cafeteria & pedir qualquer coisa sem os ruídos de fundo: «aqui tem wi-fi?; ei, moça/moço, a internet está lenta!; esta cadeira é tão desconfortável, a da minha casa é bem melhor, sabes». 

& mesmo quando tudo funciona direitinho, quando as mensagens do whatsapp percorrem distâncias inimagináveis quase à velocidade da luz, mesmo assim ainda conseguem encontrar defeitos — ou a operadora é gananciosa demais, ou a bateria do telemóvel descarregou (um absurdo ela durar apenas 12h!, sem fio, sem nada), ou é porque o aparelho esquenta demais, ou a tela touchscreen está engordurada demais, ou a companhia humana é enfadonha demais…

termino esta reflexão com uma imagem. ou melhor, com uma espécie de máquina do tempo. ressuscito o meu avô paterno, trago-o (de charrete!) para este brilhante século das comodidades; deixo que ele passe uma tarde aprazível dentro de um shopping mall — mas antes revisto todos os bolsos do vovô, à procura de objetos que, num momento de total desespero/angústia, possam tentá-lo a colocar termo à própria vida.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #5)

O CASO PETER HANDKE

ontem um dos meus alunos de escrita criativa perguntou-me o que eu achava desta balbúrdia toda a respeito da atribuição do nobel da literatura a peter handke. tentei organizar mentalmente uma breve amostra de escritores que se envolveram com política & as tempestades que se seguiram a esse tipo de relacionamento (knut hamsun/terceiro reich; louis-ferdinand céline/anti-semitismo; emir kusturica/ganância desenfreada &tc.). comentei também que não gosto do peter handke analista político — ou seja, o verdadeiro motivo da confusão: crítica aos posicionamentos controversos do peter handke civil, que apoiara slobodan milošević durante a guerra juguslava —, mas que gosto muitíssimo do peter handke escritor de literatura, peter handke dramaturgo, peter hankde autor de «a angústia do guarda-redes antes do penalty», assim como tanta gente admirava a ficção de céline & discordava dos posicionamentos dele em vida real. reforcei ainda que a discussão ética é absolutamente válida (inclusive, dá novo fôlego às tentativas de resolver os imbróglios que continuam a assolar a região dos balcãs), mas é preciso lembrar que o handke que costuma ganhar prêmios é o handke escritor, & que, felizmente, ele recebera o nobel da literatura, não o da paz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #4)

depois de aceitar a dura realidade, isto é: que a minha máquina de escrever não é benquista em parte alguma (tentei restaurantes, bibliotecas, toda a sorte de cafeterias, até um bar etílico & só recebi reprimendas): «muito elegante a máquina, companheiro, mas não podemos deixá-lo entrar aqui com esse aparato bélico» &tc. &tc. &tc.

olivetti, metralhadora verbal.

então que estou agora sentado ao jardim da casa de mamã, perto da minha horta. leio os jornais, toc-tac-tac-toc na olivetti & lembro-me cá do george orwell — acho que quando lemos toda a obra de determinado escritor meio que ganhamos o direito de tratá-lo, como se diz, sem papas na língua (de aí justifica-se o uso do artigo definido masculino singular): o george, que numa altura escrevera que qualquer pessoa com mais de trinta anos que analisasse o próprio passado acharia ali imensos defeitos dos quais não se orgulharia.

estava a criticar aqueles que apontavam o dedo para os «outros defeituosos», a desmascarar aqueles que se viam como juízes sociais, que garantiam ter vivido sem percalços, incólumes, que se davam o direito de decidir além do bem & do mal.

essa beatitude tão almejada pelas narrativas religiosas, dizia o george, mas tão antagônica aos modos do ser humano. não à toa, o george foi um dos mais ativos críticos do revisionismo histórico que se alastrava pelo século passado & cujas consequências mais devastadoras ele não pôde perceber, pois morreu aos quarenta & seis anos em janeiro de 1950.

enaltecer as conquistas, as medalhas adquiridas, os diplomas pregados na parede do escritório, o relógio de ouro, o automóvel importado, o telemóvel com seis câmeras, o bilhete de primeira classe; desconsiderar os fracassos, as dores, as perdas, o coração partido, as falhas de caráter, a ira, a fúria, os termos inapropriados, as mentiras, os abusos, a finitude…

biografias paradoxais editadas de acordo com as circunstâncias. o george aconselhava-nos a pensar nisso ao sermos julgados — & principalmente antes de julgarmos vivalma.

— p. r. cunha


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devaneios da própria máquina de escrever (episódio #3)

há duas máquinas de escrever; o meu cérebro & a máquina de escrever propriamente dita: olivetti. a primeira funciona com neurônios, a segunda com teclas do abecedário. duas máquinas de escrever.

o texto — mesmo aquele escondido atrás da máscara de subjetividade científica — parece, como diria nietzsche, a confissão pessoal de seu autor. memórias involuntárias, inadvertidas, defesa daquilo que se acredita.

nos anos 1930, doutores receitavam chocolate com cocaína às mamãs com dificuldade para cair no sono. sim: cocaína. rápida pesquisa aos arquivos da ciência daquela época & depara-se com uma infinidade de artigos médicos a corroborar esse método disparatado, estudos que indicavam tamanha eficácia.

(artistas de hollywood [bette davis, paul henreid, audrey hepburn, só para citar alguns] que fumavam em cenas específicas para influenciar a opinião pública [vejam como um cigarrinho pode ser charmoso].) 

então o que é verdade/certo agora pode não sê-lo daqui a dez, vinte anos. existe uma cartilha de factos. hoje, acreditamos nisto & naquilo, fazemos pesquisas para isto & àquilo outro. fumamos, cheiramos, bebemos, injetamos remédios que brevemente tornar-se-ão mortíferos.

eis outro exagero a título de reforço: geocentrismo, o planeta terra fixo ao centro do cosmos (& os hereges que arderam na fogueira por discordarem dessa visão). 

«ora, quem é você para julgar o meu abuso de cocaína antes da minha sonequinha?!»

a tecnologia avança, os telescópios ganham lentes maiores & mais nítidas, podemos estudar os confins da cosmologia (cosmic microwave background, big bang [&tc. &tc.]), construímos teorias através dessas observações, descartamos velhas ideias que faziam parte do «cânone irreversível (sic!) do conhecimento universal», newtons aparecem & são parcialmente descartados, einstein surge & mantém-se ao centro do palco desde o início do século vinte — até a(s) próxima(s) verdade(s) absoluta(s) surgir(em).

os períodos de transição, já se sabe, costumam ser os mais conturbados, para não dizer: estranhos, perturbadores. basta olharmos pela janela. esta inovadora sociedade contemporânea constituída de indivíduos que almejam colônias em marte, que operam aceleradores de partículas subatômicas, constroem veículos autônomos, & também de humanos que acreditam que a terra é plana, que o destino de toda a gente é controlado por ventríloquos com poderes sobrenaturais (ventríloquos malévolos, vingativos, que jogam aqueles que não obedecem as regras [?] nas caldeiras [sempre o fogo como método de punição] de um inferno infinito).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #2)

então é isto: você decide adotar a máquina de escrever como fonte primária de escrita. sim, continuará a fazer determinados apontamentos com caneta esferográfica, rabiscos com a própria lapiseira; mas o grosso, a base, o fluxo, agora vêm dos mecanismos de uma olivetti lettera 82, cor verde (tipo limão azedo). o papel, felizmente, ainda permanece — confidente inseparável. como se sabe, o escritor precisa de um sítio para escrever. & quando o dia se mostra agradável & apetece trabalhar noutros cantos, você decide levar a olivetti para um passeio. há uma livraria por perto. nesta livraria, um refeitório. você ainda não sabe, mas está prestes a lidar com a perversa guerra dos tempos: o novo contra o velho, o contemporâneo a devorar a antiguidade, o cellphone touchscreenwideremote humilhando as curvas disparatadas da sua «ultrapassada» máquina de escrever. funcionário da livraria aproxima-se de si & diz um tanto envergonhado: senhor, não se pode utilizar uma geringonça dessas aqui no nosso estabelecimento. você insiste, mostra que as teclas da olivetti foram devidamente lubrificadas — sim, ainda fazem barulho, mas não chega a ser um barulho absurdo, pois os sinais de alerta que saem dos telemóveis (& praticamente toda a clientela do refeitório manuseia um telemóvel) são não só mais irritantes do que as teclas da olivetti, como também mais altos do que qualquer ruído que a sua máquina um dia emitira (mesmo antes da lubrificação &tc.). o funcionário bate o pé, diz que chamará o gerente, o gerente aparece, repete o discurso do funcionário, ri-se, ri-se da situação, diz que nunca vira uma máquina de escrever tão de perto, ele tira o telemóvel do bolso & começa a sacar fotografias da sua olivetti, & você, justificadamente, acha aquilo um abuso (isto é: não poder usar a olivetti no refeitório da livraria, mas os responsáveis pelo refeitório da livraria aproveitarem-se da sua boa vontade e sacarem fotografias da sua máquina), então que você coloca a olivetti de volta na caixinha dela, com a capa de acrílico destacável, & sai da livraria bufando, meio que se sentindo um tremendo otário — um otário medieval, pelo menos.

— p. r. cunha


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