Blogue — 2020 (arquivo)

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Dunas

Há esta pergunta que me faço constantemente: pode um escritor ser feliz? Noutros termos: o escritor pode se permitir ser feliz? Um amigo meu, poeta, diz que não consegue escrever «nada que preste» quando está satisfeito. E dizem que a filosofia mais contundente — pelo menos se levarmos em consideração os últimos trezentos anos — foi escrita em momentos de A) leve desespero; B) melancolia; C) desassossego com as incoerências existenciais; D) raiva e/ou ira. Se estou esparramado na areia da praia, a sentir a brisa atlântica, e observo o horizonte ondulado, o sol a refletir nos telhados reluzentes dos quiosques à beira-mar, e alguém me traz mojito com uma travessa de peixe ao molho, é certinho que não me apetece escrever: estou onde eu deveria estar. Mas se me tranco no meu pequeno escritório, e observo as rachaduras nas paredes, e penso no absurdo que é viver, que dentro do meu corpo órgãos filtram, bobeiam sangue, recebem nutrientes, expelem o que precisa de ser expelido, sem qualquer interferência direta de minha parte, pois que não preciso pedir para o meu coração bater, ou para que meus rins produzam urina, tudo simplesmente funciona, se estou, portanto, neste estado contemplativo, e meus pensamentos vão ao longe, de aí que tenho a necessidade (o substantivo não seria outro: necessidade) de sentar-me à mesinha e tomar as devidas anotações a respeito. 

Publicado por P. R. Cunha / 29 de dezembro de 2020


Calculista

Em criança eu corria muito. Corria atrás da bola de futebol, corria do meu irmão mais velho que por algum motivo (por vezes justificável, noutras vezes nem tanto) queria me bater, corria atrás do transporte escolar porque como da praxe eu estava atrasado, corria para me arrumar às festinhas de aniversário dos colegas, corria para terminar as tarefas de matemática, corria para acabar de ler as pequenas narrativas do livro Machado de Assis aos miúdos, corria para chegar em casa. Hoje, eu ainda corro. E quando alguém me vê correndo, a pessoa geralmente diz: tens um bom preparo físico, devias ir para as maratonas, se calhar. Mas cá dentro percebo que a vontade/capacidade de correr desvanece. Não é mais o mesmo fôlego, e nem poderia de ser. Destravo o ecrã do meu telemóvel e abro a app da calculadora. Uma conta simples demonstra que estou neste planeta atmosférico há aproximadamente 10.950 dias. 10.950 dias a correr, e, como se diz, uma hora o boleto chega.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de dezembro de 2020


O professor de Habermas

Edgard está sentado no vaso sanitário. Ele vai tentar, pela vigésima quinta vez no dia, abrir o livro Minima moralia, de Theodor W. Adorno. Curiosamente, a latrina, a casa de banho, o azulejo frio, a luz fluorescente que compete com os últimos raios solares, o odor de desinfetante parecem servir direitinho aos propósitos de Edgard, que agora avança as páginas com muita desenvoltura.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de dezembro de 2020


Circunstancial

Quando eu escrevo, escrevo; quando eu sonho, sonho; quando eu ando, ando; quando eu fujo, fujo.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de dezembro de 2020


Rotinas de sempre

Eu costumava achar exagero quando lia a respeito de escritores que ficavam doentes se não conseguissem escrever. Philip Roth era assim, Gay Talese e Vila-Matas são assim, Mamet, Joyce Carol Oates, ao que se diz, têm piripaques quando longe da escrita. Hoje, no entanto, numa altura em que eu mesmo padeço se fico muito tempo sem trabalhar nas minhas narrativas, acho que consigo compreender um bocadinho o que se passa. Apesar de por vezes surgirem incômodos físicos, ânsias de vômito, tonteiras, falta de ar, parece que se trata de uma enfermidade primordialmente psicológica. Um tio-avô por parte de mãe que durante décadas praticara as caminhadas vespertinas e tivera de parar depois que a osteoporose o impedia de dar dois passos sem que ele gritasse de dores, perdeu completamente as estribeiras pois estava proibido de fazer a única atividade que, segundo o próprio tio-avô, o livrava de cair nos abismos da insanidade. Observamos com o coração apertado a fisionomia de algum amigo que nos é caro a batalhar contra a dependência química, a ter crises de abstinência, alucinações, recaídas. Ou mesmo o caso daquele funcionário de uma fábrica de automóveis que de súbito viu-se substituído por máquinas robóticas e agora perambula pelo apartamento tal fantasma desnorteado. Criaturas de hábitos que de repente perdem o rumo, o conforto do previsível, o castelo que construíram justamente para lidar com as complexidades da existência moderna, eis do que estou a tratar aqui. E os escritores, por mais que não pareçam, são também seres humanos, e estão suscetíveis a essas mesmas derrocadas. Acordam todos os dias num determinado horário, escrevem durante (vamos supor) quatro horas, depois dedicam-se outras duas horas às leituras dos clássicos, depois almoçam, depois vão ao café para espairecer, depois resolvem pendências domésticas, depois se preparam para dormir, esperando que na manhã seguinte o moinho de vento continue a girar da mesma maneira. Portanto, experimentes impedir que o escritor desfrute dessa rotina produtiva e verás, sim, um animal doente, irascível, perdido, a cabeça suspensa, os olhos fora da órbita, como um inseto que acabara de mordiscar bolinhas de naftalina e sabe-se condenado.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de dezembro de 2020


Posfácio de lugar nenhum

Então você se torna um poço de contradições. Você odeia a cidade, a sujeira da cidade, o barulho, a algazarra da cidade, os seres artificiais da cidade, a correria desenfreada da cidade, os prédios, as ruas, os estabelecimentos da cidade, a indiferença disfarçada de anonimato da cidade — todo o citadino parece repetir aquela mesma ladainha, que a cidade oferece anonimato, quando, se pensássemos com a devida seriedade, veríamos que esse anonimato não passa mesmo de indiferença, asco, repulsa, mas nunca pensamos com a devida seriedade, e, além disso, quando pensamos, tentamos imediatamente e da forma mais megalomaníaca transmitir esse pensamento, verbalizá-lo, como se diz, e assim que tentamos traduzir nossos pensamentos, assim que abrimos a boca percebemos toda a tragédia da empreitada, a tragédia que é a nossa tradução, a parvoíce dessa tentativa, já que todo o pensamento traduzido, até o pensamento mais canhestro e insignificante, sim, todo o pensamento traduzido, nunca é demais repetir, todo o pensamento traduzido é já outra coisa, outro pensamento, outra ideia, outro absurdo. De aí ocorre que você tampouco é um sujeito do campo, definitivamente não é uma pessoa que gosta da natureza, só a ideia de acampar lhe causa coceiras, a vida vazia do campo, as horas intermináveis do campo, o tédio do campo, os animais do campo, a lentidão do campo, os quadros bucólicos do campo, nada disso nunca lhe apeteceu.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de dezembro de 2020


Perecer

E se for verdade
realmente verdade
que a morte é a mãe
de todas as artes

Publicado por P. R. Cunha / 23 de dezembro de 2020


Passeios noturnos

Menino acorda de madrugada para ir ao banheiro. Quando está a voltar para o quarto, ele escuta os pais murmurando qualquer coisa sobre os estudos da irmã, a universidade da irmã, o futuro promissor da irmã. Menino começa a se sentir culpado pela indiscrição, sabe que não é correto ouvir a conversa alheia. Numa altura o pai diz baixinho: mas e o Menino? A mãe fica calada por alguns segundos e depois diz: Menino é muito sombrio, pesado. E aqui Menino se mete dentro do cobertor, tenta voltar a dormir.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de dezembro de 2020


Gigantes desalinhados

A primeira claridade matinal
que bate à janela é cinza
nuvens adiposas
que insistem em chover
no dia em que
Júpiter e Saturno alinham-se
conjunção de planetas
ameaçada pelas condições
metereológicas
provas evidentes de que
nem Cirrocumulus
nem Cirrostratus
nem Nimbus se importam
com os caprichos visuais
do animal humano
apontando freneticamente o telescópio
aos céus à espera
do espetáculo luminoso
aproximação de dois astros
gigantescos
enquanto fico a observar o
horizonte encoberto
penso o que estou
a fazer da minha vida.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de dezembro de 2020


Pestilência

Minhas anotações (estudos superficiais [e despretensiosos]) sobre ervas daninhas, que parecem sempre germinar com maior fertilidade e mais abundância do que as plantas vizinhas. Espalham-se pelos canteiros e asfixiam outras espécies, como diria um antigo, que nasce espontaneamente em local indesejado, que interfere negativamente nas plantações dos seres humanos. O velho adágio: separar o joio do trigo: o joio como erva daninha do trigo. Rápido crescimento, absorção otimizada de água, adaptabilidade, longevidade, produções contínuas, o fazendeiro olha para a própria agricultura devastada por esse mato impositivo, grita uma série de improbidades e considera-se assolado pela peste gramínea. Há um conjunto de pessoas e uma delas está a interferir na harmonia do grupo: chamem-la de «erva daninha» — a planta no sítio errado, planta a crescer nos lugares mais improváveis (nas brechas do concreto/betão, entre as rachaduras do asfalto etc.) planta do diabo, àqueles com inclinações supersticiosas. O que será do mundo, canta-nos o poema, uma vez dominado pela umidade selvagem? Pois que tudo será entregue às intempéries da natureza: longa vida ao deserto, à manta de ervas daninhas que cobre os rastros da humanidade.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de dezembro de 2020


Desconsolos

Assim que meu pai morreu, desenvolvi manias. Isso para um ser humano que, desde miúdo, já cultivava para si transtornos obsessivos compulsivos os mais diversos. Policial do Sul liga para lhe dizer que o motorista do automóvel não sobrevivera, que não é fácil, nunca é fácil dar uma notícia dessas etc. Então é assim: basta um telefonema para que tudo desmorone. O facto é que depois do enterro do meu pai passei a ser um indivíduo ainda mais cauteloso, procurei preservar os meus pertences — principalmente os objetos de literatura — com um zelo, dir-se-ia, neurótico: empacotei os livros para evitar o envelhecimento precoce, jamais anotei nada nas páginas, muito menos utilizei marca-texto, nem fiz «orelhinhas» no canto das folhas, passei a fechar as cortinas antes que a luz do sol batesse nas estantes… e essa diligência se alastrara para todas as direções, como o vinho que jorra de uma garrafa que acabou de se espatifar no chão: o mesmo carro, o mesmo computador, a mesma cadeira, o mesmo ventilador, a mesma luminária, as mesmas canetas. Dizem que quando perdemos alguém que nos é muito caro, ou melhor, que nos é vital, imprescindível, dizem que passamos a encarar a entropia de uma forma ainda mais agressiva, desafiadora, lutamos com unhas e dentes contra os infortúnios do tempo, contra a total ausência de sentido, até ficarmos um bocadinho sem fôlego, e aos poucos renunciamos, conformados diante do adversário imbatível.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de dezembro de 2020


Reprografias

Catarina e Bernardo eram felizes. Procuravam comer as refeições juntos, adequaram os próprios horários para que acordassem mais ou menos na mesma altura, ela ía ao Centro de Yoga dar aulas de meditação, ele ía ao setor de reprografia de uma pequena gráfica há cerca de duzentos metros do estádio de futebol. Certa tarde, uma das alunas de meditação convidou, ou melhor, insistiu que Catarina fosse com Bernardo lanchar no apartamento dela, que o marido iria preparar uns tira-gostos, e que ele já tinha até comprado vinhos portugueses. A fachada do prédio da aluna de meditação era discretamente luxuosa, como se os moradores quisessem demonstrar status social, sem, no entanto, cair para o kitsch. Catarina tocou o interfone. Uma voz metálica disse qualquer coisa incompreensível e o portão abriu. Dentro do elevador, Catarina e Bernardo seguraram as mãos. Fazia imenso tempo que não se encontravam com pessoas fora do ambiente de trabalho. Depois da primeira euforia do casamento, a vida dos dois se estabilizara, e, como costuma acontecer, fechara-se como uma bolha ao redor do casal. Quando saíram do elevador, a aluna de meditação os esperava à porta do apartamento. Sorriram, deram os beijinhos da praxe e entraram. Catarina e Bernardo eram felizes. Ou pelo menos acreditavam que fossem.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de dezembro de 2020


O escritor não está

De início você (pronome de tratamento formal) tenta/experimenta todas aquelas ladainhas da praxe aqueles subterfúgios inescrupulosos falar sobre não ter o que falar escrever sobre a falta do que escrever estar sentado à mesa e não ter nenhum assunto então tratar disso minuciosamente não ter assunto e meio que se desesperar por não ter assunto ser um completo falhado ou um completo imbecil por estar a fazer o mesmo que tantos antes de si fizeram isso de nunca é demais repetir «vasculhar os motivos de não conseguir escrever justo você que é escritor a tempo inteiro e gaba-se com toda a gente por ser escritor a tempo inteiro e toda a gente deslumbra-se por você conseguir ser um escritor a tempo inteiro numa altura em que é quase impossível ser qualquer outra coisa senão um autômato de carne e osso com um trabalho avassalador com um horário fixo de entrada-e-saída bater ponto essas cosias ganhar o pão de cada dia essas coisas e depois deitar no sofá para assistir séries essas coisas» ao passo que você tenta tudo isso todas essas artimanhas e estratagemas e agora se sente péssimo numa ressaca moral indizível vergonhoso o ponto ao qual chegara dedicar-se horas e horas e horas à escrita aos livros à literatura e não ter uma linha sequer para anotar enquanto médicos estão nos hospitais a salvar vidas enquanto engenheiros estão a construir prédios enquanto advogados defendem esta e aquela causa enquanto motoristas de autocarros levam passageiros do ponto A para o ponto B em suma enquanto o mundo é mundo enquanto a sociedade produz compra vende comercializa cresce funciona enquanto isso você que tem tudo ou melhor toda a estrutura tem uma mesa de madeira branca que comprou na Tok&Stok porque era a mesma mesa que um colega ilustrador tinha e você pensara que ter a mesma mesa desse amigo ilustrador iria lhe dar as mesmas ideias desse amigo ilustrador você começa a perceber o total disparate desse raciocínio o absurdo de pensar dessa maneira que ter a mesma mesa que alguém é garantia de ter as mesmas ideias que esse alguém mas você tem a mesa a mesma mesa do amigo ilustrador e agora não tem ideia não tem assunto não tem como se diz inspiração frase esclarecedora nenhuma linha de raciocínio promissora nenhuma você tem a mesa você tem o computador o editor de texto com mais de 5 mil tipologias que você instalara no decorrer dos últimos cinco anos 5 mil tipologias e você sempre utiliza a mesma tipologia isto é 4.999 tipologias sem qualquer utilidade para si apenas uma tipologia e há também toda a estrutura da sua biblioteca essas paredes de conhecimento e possibilidade que você cultiva desde tempos imemoriais e um relógio vermelho de corda e um mini-globo terrestre com países coloridos e oceano negro estranhamente fora de escala a miniatura de um automóvel Lada Niva 1991 lembranças de quando você era/é obcecado pela União Soviética/Rússia a chávena de café com selos internacionais demonstrando não só erudição mas experiência de vida um sujeito viajado que fala vários idiomas tem conteúdo passara de certeza por diversas situações tem tempo para escrever para ser escritor em período integral tem insisto tudo tem tudo e agora não consegue colocar nada disso em prática nem sequer uma vírgula e fica a olhar para as hélices do ventilador como se fosse um alheado como se fosse — sem papas na língua — um doente mental a poltrona cinza que fica no canto do quarto na qual você raramente senta você conseguiria contar nos dedos de uma única mão todas as vezes em que se sentara nessa poltrona cinza que tem ainda uma almofada (também!) cinza sobre o assento a dar a impressão de que a poltrona é sim um objeto muito utilizado quando em verdade é apenas um objeto de adorno de decoração e essas constatações chegam-lhe nos momentos mais inusitados quando está a comer o pequeno-almoço ou durante uma caminhada ou quando está deitado na cama depois de fazer sexo e pensa que tem uma mesa de madeira branca igual à mesa do seu colega ilustrador e que tem muitos livros e que tem uma poltrona cinza que nunca utiliza e que é mesmo uma vergonha ter tudo isso e mesmo assim não conseguir escrever uma única palavra uma única frase que preste não conseguir sair do ponto de partida não conseguir aguentar esses privilégios que sempre tivera e agora começa a lhe assombrar os fantasmas da culpa do remorso e que uma outra pessoa com as mesmas condições já teria de certeza escrito uma dezena não! uma centena se calhar milhares de livros enquanto você se queixa de tudo enquanto você fica a esperar pelo «momento certo intervenção divina mesmo que não acredite em nenhuma intervenção divina esse tipo de assunto é-lhe absolutamente indiferente esse assunto místico opaco enganador mas você continua a esperar essa mãozinha amiga de um além qualquer essa sementinha de um jardim qualquer sempre arando a terra sempre preparando o terreno sempre colocando areia e nunca construindo nada» você cobre os olhos com as mãos numa atitude patética dramática de quem está desesperado quando verdade seja dita você não está desesperado coisa nenhuma você está envergonhado sente o remorso sente o sabor amargo da incapacidade de escrever qualquer coisa mesmo quando você tem tudo para poder escrever toda a estrutura dir-se-ia ainda toda a disponibilidade todas as ferramentas todos os privilégios e mesmo assim e mesmo assim e mesmo assim a página permanece vazia.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de dezembro de 2020


Objetivar-se

Nenhuma atividade humana está verdadeiramente imune ao escrutínio desta pergunta em duas partes: por que cargas estou a fazer isto, qual o propósito?

Publicado por P. R. Cunha / 15 de dezembro de 2020


Danças

Um dia tu és um rapaz muito bonito, sedutor, interessante, até o jeito que tu seguras o copo de café é charmoso, sabes conversar, ser o centro das atenções, sabes ir às festas — e não te sentes um verdadeiro imbecil quando voltas para o teu apartamento com mobília minimalista —, tens muitos talentos, chamam-te artista, sabes fazer música, arriscas o lápis na prosa, na poesia, nos ensaios, peças teatrais, sabes desenhar, tens o cabelo volumoso, bom fôlego para as práticas desportivas: então um dia tu tens tudo isso, sem dares conta, sem qualquer desconfiança de que essas ilusões também desvanecem, para nunca mais se repetirem da mesma maneira.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de dezembro de 2020


Poesia de um domingo à tarde

Dentro de casa
todas as tempestades 
são belas

Publicado por P. R. Cunha / 13 de dezembro de 2020


Verdade(s)

Num outro contexto social em que uma imagem vale mais do que mil palavras, existe a necessidade de ver/analisar figuras antes de atestar se algo é verdadeiro ou falso. Mas por vezes acontece de a própria realidade mostrar-se insatisfatória, não conseguir suprir determinadas exigências representativas. A imagem real de um vírus captada pelas lentes de um microscópio

pode não ser, como se diz, instigante-apelativa-interessante-chamativa o suficiente para apreender as atenções do público consumidor de informação. De forma que precisam de utilizar «recursos gráficos» ao sabor dos caprichos especulativos. A isso Baudrillard chamara de hiper-realidade, um mundo-cópia programado para gerar estímulos. O vírus é estilizado, ganha cores improváveis, aumenta e diminui de tamanho, recebe texturas, causa fortes impressões no receptor. Essa manipulação imagética pode ser vista também quando astrônomos descobrem algum planeta longínquo cuja decepcionante luz chega-nos deveras embaçada.

Acontece que esse tipo de registro um bocadinho amorfo, baixa qualidade, ambíguo é enfadonho para o sujeito hiper-realista. Ao que ilustradores competentes são convidados a fazer concepções artísticas do exoplaneta. E como as ferramentas digitais conseguem reconstruir o mundo exterior com adornos cada vez mais complexos, ninguém percebe — ou escolhem não perceber — que tudo não passara de uma mera (dis)simulação.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de dezembro de 2020


Espectros

Ir-se ao concerto, ao jogo de futebol, ao teatro, à ópera, ao apartamento de uma amiga, ao café, ir-se fisicamente a qualquer parte: é de se perguntar se numa possível sociedade em que os membros gratificam-se (satisfazem-se) com ecrãs de pixels, com os televisores, com as relações mediadas por tecnologias, é de se perguntar, portanto, se o evento «real» é ainda absolutamente necessário, ou se a mera ideia de espetáculo — aparência —, por mais artificial que seja, já não seria o bastante para saciar vontades de entretenimento/pertencimento.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de dezembro de 2020


Os melhores amigos do homem

Vamos dizer apenas que tu tens aí um cão. Trata-se de um cão muito amistoso. Ele fica embaixo da tua mesa enquanto tu escreves. Ele se comporta direitinho. Mas numa altura o cão se entedia, e começa a balançar o rabo, e fica com a língua de fora, e circula a tua cadeira, e tenta pular no teu colo. O cão quer sair para brincar. Calha, porém, de estares a escrever uma parte realmente importante do teu livro. Ou seja: tu preferes ficar à escrivaninha escrevendo, enquanto o cão quer brincar. Das duas uma: ou tu sais com o cão para brincar, ou tu ficas sentadinho à escrivaninha escrevendo. Se sais com o cão para brincar, pensas que devias estar sentadinho à escrivaninha escrevendo, mas se ficas à escrivaninha escrevendo, pensas que devias levar em conta as vontades do cão, que sempre te foi um companheiro fiel, etc. E isso meio que acontece em todas as ocasiões. Tu vives nesses dilemas existenciais: ou escreves o livro que precisas escrever, ou atendes às demandas externas que surgem nos momentos mais inconvenientes. 

Publicado por P. R. Cunha / 9 de dezembro de 2020


O assistente do Durval

O Durval limpa piscinas há mais de vinte anos. Mas ele mesmo nunca pulou numa piscina. Jamais pulei numa piscina, ele diz, nem por acidente, limpo as piscinas mas nunca estive dentro de uma piscina. Eu digo que isso é lá mesmo um absurdo, disparate, como pode limpar piscinas há mais de vinte anos e nunca ter entrado numa? Combino qualquer coisa com o assistente do Durval e dali a pouco o assistente empurra, com trejeitos amistosos, o Durval na piscina. Nós dois, eu e o assistente, estamos satisfeitos com o rebuliço. Durval, nem tanto.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de dezembro de 2020


Ausências

Algumas bebedeiras são mais parecidas com a morte do que os sonhos — lembremos que determinadas culturas chegam mesmo a chamar os sonhos de primos da morte. Dizem que quando estamos dormindo, simulamos a nossa finitude. Não nos mexemos, tão vulneráveis, podemos ou não acordar. Já com as bebedeiras… Se houvesse uma analogia, esta seria a de um sonho lúcido, mas nem toda a gente sentir-se-ia confortável com esse tipo de comparação. Bebemos muito e retiramo-nos de nós mesmos. Fazemos/falamos obscenidades, perdemos o controle. Observamos uma pessoa bêbada e dizemos: fulano(a) está fora de si. E se a lucidez não nos falhar por completo, podemos, inclusive, realizar uma auto-experiência. Bebemos e vamos ao banheiro para, suponhamos, urinar. Depois, enquanto lavamos as mãos, olhamo-nos no espelho. Há ali o reflexo de um outro alguém. O nosso «eu-artificial-ilusão-de-self» — chame-se como quiser — está longe. E o desespero é saber-se longe.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de dezembro de 2020


Transmissão

Fios
wi-fi
raios
feixes
rádios
órbitas
satélites
televisores
telemóveis
microfones
frequências
computadores
linhas de cabo
chips cerebrais
antenas de microondas
eletromagnetismo bruto

Parece que tudo começou no dia em que ativaram a torre de celular no terreno ao lado. Sr. Bianchi está no jardim, observa os homens de capacete laranja escalarem aquela horrorosa estrutura metálica. Outro funcionário da companhia de telecomunicações sai da camioneta branca estacionada perto da base da torre, ele espera um pouco, faz duas conchas com as mãos para proteger os olhos do sol e diz: pronto, é isso, podem ligar. Sr. Bianchi ajeita os auscultadores do iPhone, escuta o hip-hop-jazz em migalhas dos haircuts for men. Sr. Bianchi ainda não sabe, mas, a partir do momento em que a luzinha vermelha no cimo da torre piscar pela primeira vez, a vida dele não será mais a mesma. Tudo o que ele fizer e se desviar do chamado curso normal (segundo as regras estipuladas pelo próprio sr. Bianchi), será devido à torre. Ele vai ao supermercado e perde a carteira, a torre foi a responsável. Ele tropeça no quinto degrau da escada, foi a torre que fez isso. Ele fica muito irritado e joga os talheres no chão da cozinha, a torre que o incitou. Mão ruim durante o jogo de poker?; torre. Sr. Bianchi abre as cortinas da sala e vê três estranhos conversando no outro lado da rua, é a torre que conspira contra ele — ou os estranhos estão a modificar as frequências da torre para que ela produza novos infortúnios ao sr. Bianchi, ou talvez os estranhos sejam miragens causadas pela torre, nunca se sabe, nunca se sabe.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de dezembro de 2020


Lá fora

O temperamento de determinados escritores — Hölderlin, Poe, Kafka, Pavese, Bernhard… — que procuravam sair o menos possível, e quando saíam estavam sempre a fazer (ou achavam que estavam a fazer) algo indecoroso, que falavam asneiras, que de súbito perdiam o controle que minuciosamente cultivaram durante horas a fitar uma silenciosa folha de papel, invadia-lhes a culpa, o remorso, arrependiam-se imenso de terem saído, amaldiçoavam-se por tamanho descuido, como fui cair nessa de novo?, e, esgotados, arrastavam-se de volta ao esconderijo de sombras.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de dezembro de 2020


Florestas

Quando uma cena — imagem — tem pouca ou nenhuma estrutura aparente, é provável que o leitor fique confuso e frustrado: os olhos vagam inutilmente pelo texto, em busca de interesses, sentidos, âncoras, conexões. O leitor esforça-se para compreender, pula de uma fixação a outra, sem muito sucesso.

O parentesco apropriado seria este: escritores e caçadores. E não é necessário se atrelar apenas às obviedades: escritor-caça-palavras. Há algo além disso. O livro que o escritor está a escrever é o epicentro de uma vasta floresta de possibilidades. Quanto mais tu avanças, mais sentes como se o livro estivesse a engolir-te — como algo olhando para ti numa manhã de nevoeiro. E, de certa forma, tu te encantas. Entras nessa floresta com assuntos fixos na cabeça, bloco-notas e caneta. Estás com os canais abertos. As árvores e a trilha que segues servem-te de norte. A ti o desafio agora é saber a altura de abandonar as investigações, de voltar a casa.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de novembro de 2020


Fios metálicos

Num contexto mecânico-ciborgue (sic erat scriptum), as máquinas com defeito, ou a faltar uma ou outra peça — a cafeteira sem o compartimento de água, o automóvel com farol queimado, um aspirador de pó que não liga mais, etc. Olhamos para essas deformações tecnológicas e sentimos pena da máquina.

Nosso relacionamento com robôs: (1) interação/imersão; (2) que os robôs possam superar as barreias intransponíveis para o animal orgânico [exemplo: longas viagens cósmicas {psicologia ciborgue, endurance/estamina — capacidade de resistir a tarefas absurdas}]; (3) nanorobôs que curam o câncer; (4) certas dependências [não consigo viver mais sem o meu telemóvel {diz um}, estou sem internet, o que será de mim {diz um outro}]; (5) e assim por diante.

Esta é uma peça Bauhaus criada por Grete Reinhardt em 1928 — sie brauchen das bauhaus («vocês precisam de bauhaus»). 

A sra. Reinhardt, obviamente, não tinha computador, muito menos Adobe InDesign. Ela tinha ideias, tecidos, páginas, tesouras, lápis e um cérebro criativo.

O que a sra. Reinhardt está a querer dizer através de sie brauchen das bauhaus? Crítica aos modos industriais, à mesmice das fábricas. No topo, à esquerda, lemos a palavra de significado universal: tempo, tempo. Um senhor ranzinza aponta para os ponteiros do relógio. 

O tiquetaque constante, o fim da ociosidade criativa. Estamos a nos prender em frações temporais, frações determinadas ao sabor das máquinas.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de novembro de 2020


Linha tênue

Se tu és bipolar, esquizofrênico, e ficas prostrado a ver navios numa cama de hospital, então tu és louco. Mas se tu és bipolar, esquizofrênico, e metes a escrever uns livrinhos, a rabiscar uns desenhos, a compor umas canções — então és artista.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de novembro de 2020


Demonstração

Costuma acontecer enquanto estou a estudar idiomas estrangeiros (o russo, primordialmente), e as primeiras notas… ou melhor, os primeiros esboços de sons começam a surgir à cabeça. É também algo muito visual. Como que vejo os acordes a se arranjarem na minha frente, e sinto que, se levantasse as mãos, poderia encostá-los, trocá-los de sítio. O facto de já trabalhar com o software Logic Pro há algum tempo de certeza que influencia. Esses sons me vêm em camadas, e cada camada é um instrumento. Talvez não façam muito sentido se estiverem isolados, mas quando se juntam formam melodias. Tento não me agarrar muito aos juízos de valores. Quando começo a gravar essas, por assim dizer, miragens auditivas, pode ser que funcionem, pode ser que não. E acho que essas incertezas, essas possibilidades de música ou caos, deixam a empreitada um bocado fascinante.

Primeira versão instrumental de O fim é uma mistura de tudo isso, gravada ontem à noite ao Estúdio da Cris:

Publicado por P. R. Cunha / 25 de novembro de 2020


Pixels

Preciso antes de tudo de algum incidente, algo inesperado, caótico, algo que me sirva de estímulo, gatilhos. Porque quando se está bem é outra dinâmica, e apetece perder-se em atividades amenas, e com isso não posso por muito tempo, o barco sereno, as águas sem ondas, de aí que se estou em paz muitas vezes não escrevo nada, absolutamente nada, nenhuma linha, como se diz. Até me bater um qualquer desespero, uma ânsia, a tal da Náusea de Sartre, e logo estou a escrever em toda a parte, onde quer que seja, se antes não dava conta de escrever num café, agora consigo escrever direitinho num café, se antes o barulho dos automóveis me irritava imenso, agora soa-me como uma sinfonia atonal do Cage. E sempre foi assim. Uma barata está completamente estática no chão da cozinha, não faz nada, parece morta, agora experimenta jogar inseticida nela, apenas um bocadinho de inseticida, e verás que a coisa não era do jeito que imaginavas. A barata estava viva e agora corre para todos os lados. Há também a questão das negações, as tais verdades que não gostamos de admitir. Parece que numa altura toda a gente passa por algo assim, não estou a fazer-me de especial. Acontece que durante boa parte da minha vida escondi certas inclinações tecnológicas, menos por medo da opinião alheia do que do meu próprio escrutínio. Refugiava-me nos livros de papel, nas atividades analógicas por assim dizer, livrei-me da televisão como um ex-fumante que precisa de se livrar dos colegas que fumam se quiser manter-se longe dos cigarros. Lutei contra o facto de que os computadores estiveram tão presentes na minha «formação» (faço as aspas com os dedos na falta de melhor termo) quanto os meus pais médicos, que viviam algures, num hospital, a tratar de outras pessoas. Bastava a minha mãe vestir-se de branco que eu começava a chorar, ou melhor, a espernear, pois sabia que ela estava a ir-se embora. Sabemos que o tempo para uma criança não passa da mesma forma que para um adulto, só um alienado não percebe isso. As noites em que a minha mãe fazia plantão duravam-me séculos. Mas não tenho do que reclamar. Foi decerto uma infância boa, incrível, mas enquanto a gente a vive é com certeza uma tragédia. Na juventude, foram os computadores que de alguma maneira supriram ausências, paternas e não só. Ausências de sentido, de vontades, de objetivos, de perspectivas, de si mesmo.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de novembro de 2020


Êxtase à Starobinski

O barulho do ventilador pela manhã enquanto tomo a primeira chávena de café, a dança das cortinas quando o vento passa pela janela entreaberta, o sintetizador dos Future Islands, o contraste da caneta azul com a folha de papel, o paninho para limpar as lentes dos meus óculos, os envelopes, a fotografia dos meus avós em juventude, a carta que papai me escreveu na altura em que publiquei o primeiro poema, a biblioteca, o livro do Raymond Carver fora do lugar… todas essas coisas sempre suscitaram em mim a ilusão de felicidade, uma felicidade fugidia, temporária, como que encharcada de tinta melancólica.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de novembro de 2020


Zoos

Passo perto do zoológico de Brasília, é domingo, está quente. Há uma fila quilométrica de carros que se amontoam antes de entrar para o zoo, pessoas dentro de jaulas de metal, à espera, porque querem ver outros animais enjaulados.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de novembro de 2020


O passado é muito tempo

Morte
de um buraco negro
supermaciço
no aglomerado Ophiuchus
a cerca de 390 milhões
de anos-luz da Terra
o gás pós-catástrofe
poderia abrigar quinze
galáxias do tamanho
da Via Láctea
jatos de radiação
material expelido da boca
desse monstro devorador de luz
— a maior explosão do universo
é um estrondo silencioso
que não se propaga
pelo vácuo cósmico.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de outubro de 2020


Antes de mais nada

Então chegamos a um impasse, disse Doloroes enquanto acendia o cigarro. Um impasse, ela fez questão de repetir, um impasse… Ou o universo sempre existiu, hipótese do infinito, ou ele teve um começo, big bang, há 14 bilhões de anos. Dolores assopra a fumaça do cigarro para o longe. Faz cara de quem está confusa: mas se houve mesmo um ponto de partida, «onde» (Dolores abre e fecha aspas com os dedos) exatamente isso se passou? Ela joga de forma atabalhoada o isqueiro sobre a mesinha de cabeceira: porque, veja bem, é extremamente ardiloso para o meu cérebro reptiliano assimilar que massa, átomos, matéria, tempo, energia, eu, você, esta casa, mudanças tenham surgido do nada. Dolores destrava o telemóvel e coloca Franz Liszt para tocar: a pergunta que fica martelando, tal e qual o insuportável tique-taque de um velho relógio de parede: o que diabos existia antes de nada existir?

Publicado por P. R. Cunha / 19 de outubro de 2020


Breve exercício de humildade cósmica

Atualmente, a maior estrela já detectada pelos telescópios chama-se Stephenson 2-18, localizada na constelação Scutum (Escudo). Trata-se de uma hipergigante com raio 2.150 vezes maior do que o do nosso Sol — e 10 bilhões de vezes mais volumosa. A título de escala, aeronave comercial demoraria cerca de 500 anos para completar uma volta ao redor de Stephenson 2-18.

Um monstro vermelho a habitar este universo igualmente colossal que não para de se expandir, as referências astronômicas, os espaços vazios, Boötes void (diâmetro de 330 milhões de anos-luz), ausência de propósitos (as estrelas nascem, crescem, consomem-se, explodem/implodem), tudo isso deveria ser o bastante para colocar o animal humano — que caminha neste pequenino planeta de pedra há meros 200 mil anos — no nosso devido lugar.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de outubro de 2020


Malas

Viagens mostram-se sempre mais bonitas (e agradáveis) quando ainda estão nas etapas iniciais de idealizações. Seguramos a brochura de certa praia paradisíaca completamente vazia, o encarte de pousada ecológica isolada, a praça central da cidade com clima soalheiro, ou mesmo aquela pista de esqui ao cimo da montanha de neve que parece ter sido feita só-e-somente-só para o nosso regojizo. Esquecemos que há mais de sete bilhões de seres humanos no planeta a segurar as mesmas brochuras, os mesmos encartes, a ter os mesmos desejos, as mesmas vontades. De aí a decepção ao se deparar com a areia repleta de lixo, com a pousada lotada, com as nuvens cinzas que cobrem a praça central, ou com a montanha de neve sem neve porque o ano foi absurdamente quente.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de outubro de 2020


Ceifadoras

Max trabalhava num prédio de escritórios. De manhãzinha, quando ele passava pela portaria, estava lá sentado o mesmo porteiro de sempre. Até que um dia Max passou e subitamente deu-se conta de que o porteiro não estava mais — não se sabe ao certo o que aconteceu. A despeito de todos os esforços, Max não conseguia se lembrar nem do nome nem do rosto daquele discreto funcionário. E enquanto entrava no elevador, Max compreendeu o que também lhe aconteceria depois que a morte o ceifasse.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de outubro de 2020


Intervenções vespertinas

Simples tarde chuvosa, o tilintar moroso ao telhado, duche oferecida pelas nuvens do planeta, os raios, os trovões, a luz elétrica que acaba (sempre acaba), a capa envelhecida de certo livro que há muito aguarda ser lido, com aquela paciência livresca que só os amantes das palavras parecem compreender, a ideia de criar música, sons, sem que ninguém soubesse o que se estava a compor, o sol que começa a minguar no céu nublado, a luz elétrica que não volta — leitura interrompida pela escuridão.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Manter distâncias

Enquanto o perigo se encontra ao longe — o Drácula a hibernar no castelo de pedras, o frio ártico, as labaredas de uma selva longínqua, o demônio vulcânico nas profundezas de uma ilha —, enquanto as catástrofes e as mortes só aparecem no aparelho televisivo, enquanto a bala da pistola atinge as têmporas de um suicida anônimo, ou o desfiladeiro engole um automóvel propositadamente desgovernado; enquanto isso, tudo bem.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de outubro de 2020


Escritores curiosos, com a caneta engatilhada

Num pretexto criativo, todo e qualquer encontro será para o escritor material de literatura. Não importa se a conversa seja sobre o tempo, as formigas, chapéus, as luas de Júpiter, ou mesmo a respeito dos desafios matrimoniais.

(Quantos sonhos não sonhamos em pensamento — com as melhores das intenções —, e no confortável quarto do nosso cérebro os devaneios fazem sentido, mas quando tentamos colocá-los em prática só lidamos com fiascos.

Porque o mundo lá fora, isto é certinho, nunca será o bastante para determinadas idealizações interiores.)

Publicado por P. R. Cunha / 14 de outubro de 2020


Dilatação temporária

Realidades que dependem do contexto de cada observador. A realidade coletiva, aquela em que realizam-se transações econômicas, votam-se em candidatos políticos, entram-se nos metropolitanos/autocarros/trens/aeronaves etc. Outra realidade, um bocadinho mais difícil de ser delimitada, para a qual muitos ainda preferem fugir, a realidade dos livros, do cinema, do teatro, a realidade das exposições fotográficas, a realidade, portanto, que é remodelada de acordo com os interesses de quem se relaciona com ela. Numa altura estamos na fila do banco para pagar contas, ou abaixamos a cabeça no escritório da firma diante de tanto tédio; depois, refugiamos nossos pensamentos em arquiteturas «fantasiosas», recriamos o nosso mundo para lidar com tantos absurdos, que — tal como o tecido espaço-tempo do universo — crescem exponencialmente.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de outubro de 2020


35

A cortina da escuridão
desce lentamente
enquanto me perco
ao manto retalhado
da memória.


Daqui a um par de dias completarei trinta e cinco anos, «trinta e cinco voltas ao redor do Sol» — como pedantemente gosto de dizer aos meus. Enquanto escrevo estas palavras, escuto a lista cósmica do Mortifer V. (Epic Space Music) e sinto-me como se desabasse num qualquer sonho estelar do Brian Eno. As notas profundas e reverberadas explicam imenso sobre as minhas perambulações neste planeta. A criança tensa, introspectiva, com cabelos amarelos, chorona, a criar as próprias regras; o adolescente a experimentar músicas, e letras, e alguma poesia, os esportes, o idioma russo, as primeiras expectativas: o menino faz tudo, e faz tudo muito bem. De aí o flertar com os sonhos impossíveis, o ser-dono-do-mundo, ambicioso, nada poderia pará-lo, a não ser, é claro, um acidente, um acidente automobilístico, a morte do pai, a reestruturação, o dizer adeus para tantos objetivos que nunca aconteceriam. Como se a mesa estivesse repleta de alimentos e não me apetecesse comer. Vai ser músico, baterista; escritor; jogador de futebol; pode se dedicar aos desenhos; vai ser tudo. Mas não se pode ser tudo. A caixa possui tamanho específico, tamanho finito, colocamos nela o que podemos, e depois enterram a caixa, connosco dentro. Há este dado inquietante que me chama a atenção: os homens da minha família, em média, morrem aos setenta anos — aliás, poucos conseguiram ultrapassar essa marca cronológica. Ao passo que, estatisticamente, estou já à meia-vida. Idade estranha, quando não se é ainda velho para começar a se aquietar num rancho distante, e nem tão jovem para permitir-se os riscos dos primeiros tempos. Idade do limbo, da espera, purgatório: a cabeça, como a plateia de um jogo de tênis, vira de um lado para o outro, indecisa, ora ao passado, ora ao futuro, ora ao nada.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de outubro de 2020


Excesso de condescendência

Sobre as coisas que, via de regra, displicentemente tomam-se como certas:

– Entramos numa máquina de raios X, o aparato faz o que tem de fazer, saímos com radiografias a mostrar os ossos embaixo da nossa pele. A indiferença de algumas pessoas depois desse procedimento me perturba;

– Viajamos dentro de aeronaves a 900 km/h, sobrevoamos as nuvens, e ainda reclamam quando o voo sai trinta minutos depois do previsto;

– Uma pessoa no Camboja conecta-se através do próprio telemóvel com uma pessoa que está a andar de bicicleta na Argentina (ou seja: a mais de 16 mil quilômetros de distância). A pessoa a andar de bicicleta fica furiosa porque «a imagem da pessoa no Camboja está a travar um bocadinho»;

– Colocamos comida congelada dentro de uma caixa a que chamamos de micro-ondas, dali a pouco tempo a comida sai quente — quantos não se sentam à mesa como se nada tivesse acontecido?

Publicado por P. R. Cunha / 9 de outubro de 2020


Hidráulico

Seu Fernando é o jardineiro da casa da minha mãe. Com a serenidade da praxe, ele acopla a mangueira num daqueles dispositivos giratórios que são fincados na grama e jorram água para todas as direções. Nestes dias de terra e fogo em Brasília, seu Fernando faz chuvas.

Publicado por P. R. Cunha / 8 de outubro de 2020


Horror cósmico

O mundo como planeta, o universo como este espaço imensuravelmente gigantesco, os meteoros, as estrelas que explodem — não ligam a mínima para as insignificâncias do animal humano.*

*Uma qualquer necessidade de fugir, tornar-se inalcançável/inatingível, de viver a vida dos monges.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de outubro de 2020


Brasília arde

Amor contemporâneo
ódio ternura compaixão
raiva pena tudo ao mesmo
tempo ontem hoje
amanhã é outra coisa
outras pessoas

(Se leio teatro quero escrever teatro se leio poesia apetece-me escrever poesia se leio ficção faço ficção se folheio biografia recobro a minha autobiografia — e os dias aqui têm sido insuportavelmente quentes [Brasília arde])

«Quando respiramos / desagua a Morte»

As árvores com galhos
retorcidos
à distância enganam
porque se parecem
mas se observássemos
com a calma devida
nenhuma delas
é igual.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de outubro de 2020


Sossegado

Há muito que parei de ler
os noticiários
que se repetem
e o mundo continua
a girar
indiferente
persistente
displicente
avassalador —
não tenho televisão.

Com os mesmos
desejos de R. Carver:
de estar quieto
e de não pensar.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de outubro de 2020


Sonham os escritores com pesadelos elétricos?

Este quase-prólogo: ler As flores do mal em formato EPUB num tablet da Apple dentro de uma aeronave a 11 mil metros da superfície — fico a imaginar o que Baudelaire teria achado destes absurdos.

* * *

Na semana passada assisti a uma série de palestras no YouTube com escritores latino-americanos a falar sobre o papel das redes sociais na carreira literária.

Como de costume, o tema dividiu opiniões e houve altura em que as palestras lembravam mais um debate político do que um encontro livresco propriamente dito.

Acontece que num contexto mercadológico em que os autores estão a publicar livros de forma independente, as mulheres e os homens das letras — amiúde seres menos inclinados às longas exposições — precisam também de se transformar em editores, diagramadores, revisores, e, na pior parte, vestem os trajes marqueteiros.

Se noutros tempos as divulgações literárias ficavam a cargo das editoras, agora não raro podemos ir a um qualquer lançamento de livro e nos depararmos com a figura abatida e irascível do escritor, que tivera de organizar tudo aquilo sozinho.

Depois de longas batalhas noturnas, de se debruçar sobre indispostas folhas em branco, de acumular material de pesquisa, de resistir aos imperativos sociais, de cultivar silêncios, linearidade, rotinas, depois de fazer, em suma, os sacrifícios da praxe, eis que o escritor se vê ainda apenas ao meio do caminho, olha para o horizonte embaçado, encolhe as pálpebras sem conseguir enxergar a tempestade de areia que se aproxima com desinteresse.

É evidente que, tal como ocorre em outros cenários evolutivos, há escritores que se adaptam direitinho ao digital, e outros que jamais o farão. Alguns trabalham com afinco na própria obra e se enchem de expectativa com a próxima etapa do processo: divulgar as entranhas para, como se diz, deus e o mundo. Muitos, no entanto, sentem-se absolutamente paralisados só de cogitar na possibilidade de digitar login e senha de rede social.

A verdade é que neste vertiginoso século vinte e um os escritores não estão mais blindados pelos muros editoriais. Precisam de se expor, de tirar selfies, de fazer as famigeradas leituras em público, de descer da confortável e amena torre de marfim para mostrar-se disponíveis diante de toda a gente — que, pelos vistos, parece mesmo ocupada demais com o ecrã azulado dos telemóveis para prestar atenção em qualquer outra coisa.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de outubro de 2020


Inebriações

A pessoa que se arrisca aos desfiladeiros criativos — e não estou aqui a falar de talento, mas de coragem — parece passar por uma espécie de epifania durante a qual acredita-se ter conquistado o mundo.

Período de indizível gratificação, altura em que a paisagem sem sentido desanuvia-se temporariamente e o sujeito pode até levar a chávena aos lábios enquanto pensa: até que isto não é assim tão mau.

Porém, como numa inebriação alcoólica, o efeito é passageiro. E se é mesmo verdade que apenas as semi-desgraças são fecundas: pode-se acordar ao cume e dormir-se ao rodapé.

Publicado por P. R. Cunha / 30 de setembro de 2020


Enquanto corria

Já há alguns dias este tema invade meus pensamentos durante as caminhadas matinais, quando simplesmente saio de casa e sigo, como se diz, a direção do vento.

O conceito de casa — o lar, o refúgio, o sentir-se à vontade num determinado sítio. Isto de estar-se acolhido numa construção com teto e paredes.

É célebre a frase de Blaise Pascal: «Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho em uma sala». Mas e se não há quartos? Ou pior: se existe a sala mas é tudo tão alienígena que apetece estar algures?

É condição comum ao exilado nunca acreditar-se em casa. Exilado político, exilado emocional, exilado de tudo, de toda a gente. Tem ali uma cama sobre a qual dorme sonos intranquilos, e ao acordar encontra-se num asilo de alienados.

De aí viver existências errantes, trocar de idioma, livrar-se dos bens materiais, não constituir família. Como se o exterior precisasse refletir o provisório que se sente dentro.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de setembro de 2020


Retóricas

Uma senhora idosa está a esperar o ônibus enquanto eu pratico o running. Ela gira a cabeça lentamente para acompanhar o meu movimento e pergunta: por que corre? Durante o resto do percurso fico a me perguntar sozinho: por que corro?

Num contexto ainda mais introspectivo-filosófico: por que faço as coisas que faço, por que escrevo?, por que tiro as fotografias?, por que abraço a guitarra para dedilhar canções desassossegadas?

Tarefas rotineiras, sem as quais não saberia para onde me virar — como costuma acontecer com toda a gente.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de setembro de 2020


Café em Walden

Atualmente voltei a ser hóspede da civilização.

Essa frase de Thoreau me persegue mais do que eu gostava de admitir.

Movimento pendular do recluso que de quando em vez precisa de beber da fonte social. Apenas o bastante para saciar-se. Depois, volta, para o esconderijo da praxe.

«Pois se viveram com sinceridade, só podem tê-lo feito numa terra distante.»

Publicado por P. R. Cunha / 23 de setembro de 2020


Para ele o mundo é mudo

A história giraria em torno do pai, um pai neurótico, diga-se, que depois de ler sobre o caso Kaspar Hauser, assistir à adaptação teatral de Peter Handke, e também ao filme Jeder für sich und Gott gegen alle (cada um por si e deus contra todos [O enigma de Kaspar Hauser]) do Werner Herzog, resolve prender o próprio filho numa espécie de caverna. À laia de dramaticidade, haveria contexto paralelo a explicar que a mãe morrera num «grave acidente», cujas consequências ainda dilaceravam o coração do pai. O menino, diferentemente de Kaspar Hauser, não sobreviveria ao cativeiro, muito menos teria a chance de relatar a própria experiência. Ao velório — vazio —, o pai faria um estranho discurso a reforçar a ideia de que pelo menos o filho não sofrera, não foi contaminado pela sociedade, morreu ileso. O pai chamar-se-ia Guattari (mas sem qualquer parentesco com o filósofo Pierre-Félix Guattari).

Publicado por P. R. Cunha / 20 de setembro de 2020


Loja de inconveniências

¶ No centro da cidade, estão a preparar (com andaimes, lonas, vigas etc.) a outrora belíssima estrutura de uma catedral gótica para ser transformada num grotesco shopping mall. Nada poderia ser mais nietzschiano.

¶ Seres humanos que não conseguem sequer cuidar de si mesmos e ainda assim escrevem manuais de «como viver bem», dão toda a sorte de pitacos esdrúxulos, fazem-se de gurus modernos enquanto se entopem com o creme de amendoim à frente do televisor.

¶ «Você está abandonando trinta e dois velhinhos, o senhor sabia disso?!, trinta e dois velhinhos» — de uma secretária de certo lar dos velhinhos que me ligara furiosa para dizer que eu havia esquecido de depositar a doação mensal.

¶ Quando o avião se aproxima do aeroporto, e levantamos a cortina de plástico para observar: vemos árvores, prédios, automóveis, antenas… Mas as pessoas são miudinhas de mais para serem notadas, como se nem existissem. 

¶ No sofá da casa da minha mãe há umas almofadas com capa verde repleta de terríveis pedrinhas pontiagudas que de tão desconfortáveis acabam por tirar todo o propósito da coisa. Para quê, então, ter almofadas?, eu pergunto. São enfeites, mamãe diz. Nunca compreendi.

¶ Vários desequilíbrios — se calhar todos os desequilíbrios — provêm de vontades reprimidas, vontades que adiamos durante demasiado tempo. O desespero, por outro lado, surge quando essas vontades são satisfeitas, e no entanto o abismo permanece.

¶ A história da literatura explica que boa parte dos escritores jamais será publicada. Ou coisa pior: escritores que só recebem o «devido» reconhecimento depois de terem há muito visitado a morgue.

¶ Escritores que escrevem, portanto, mesmo quando cientes da própria fatalidade. Como os coveiros que insistem em fazer filhos.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de setembro de 2020


Ruminante

Escritor que gosta de tomar notas em público precisa de ter alguns cuidados. Numa palavra: ser discreto. Fita o rosto das pessoas — há alturas em que toda a gente parece vestir feições atordoadas, como se tivessem saído de algum livro do Orwell (estou a pensar em O caminho para Wigan Pier ou talvez em Como morrem os pobres). Sem contato ocular, sem alarde. A discrição vale também para os chamados «instrumentos de trabalho»: bloco-notas o mais miudinho possível, caneta barata tipo Bic edição econômica (azul e/ou preta [o vermelho chama atenção, carrega atmosfera corretiva na própria escrita]).

O corpo do escritor: momentos em que se quer cuidar do corpo, corpo-santuário, mantê-lo em ordem, deixá-lo saudável; também momentos de raiva/fúria/vontade de absoluto aniquilamento, desaparecer. Faz o exercício físico num dia, enche a cara e fuma charutos noutro dia &tc.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de setembro de 2020


Passeios eternos

Levo a minha avó para um passeio ao jardim. Minha avó tem 92 anos. Ela caminha com dificuldade, segura firme no meu braço. Ela já viu de tudo. Vovó observa as árvores, que nesta época do ano estão secas, retorcidas, com as folhas a cair. Vovó diz: estas árvores, as folhas, os pássaros, tudo tem o próprio tempo.

Acontece que alguns organismos são biologicamente imortais. Quer dizer: eles morrem, mas não por causa da idade.

A medusa Turritopsis dohrnii, que pertence à classe dos hidrozoários, «reinicia-se» a cada ciclo de vida. 

Pinus longaeva, uma espécie de pinheiro das White Mountains californianas, o ser vivo mais velho do mundo. Essas árvores podem ultrapassar os 4 mil anos.

Turritopsis dohrnii e Pinus longaeva não têm o próprio tempo. Mas não chego a comentar isto com vovó.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de setembro de 2020


Lançamentos

Já estão disponíveis à lojinha deste sítio web os livros Sinfonia do fracasso e Saturno embaçado, ambos editados pela Bandoleiro. Para acessá-los, aperte aqui.

Publicado por P. R. Cunha / 16 de setembro de 2020


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