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Emboscadas

O que acaba por confundir imenso a cabeça da pessoa que escreve é quando o refúgio, o local da esperança (a possibilidade do exílio temporário, longe da balbúrdia de toda a gente) torna-se simplesmente uma cela fria e infeliz. Joga-se todas as fichas na literatura, e em tudo que orbita essa literatura (ler, escrever, acumular livros, meditar sobre esses livros, filosofar, romantizar, etc.), mas e se a literatura falha, e se ela vira-nos as costas, ignora os nossos suplícios?



Diz-se de Stendhal após uma crise: está solitário, com a melancolia na alma, qual um pedregulho musgoso, percorre os cantos do próprio escritório sem encontrar um único sentido sequer.



O gabinete da pessoa que escreve, lugar de conforto, das fugas espetaculares, mas também dos astronautas perdidos no espaço, dos náufragos, das lamentações, palco sem atores, peça sem enredo — passageiros com lágrimas nos olhos que dão adeuses para os que ficaram no cais e de súbito percebem que o navio zarpou para sempre.



Lidar com precipícios, tentar superá-los, desistir, voltar ao ponto de partida, mudar a rota, recomeçar: eis o percurso iniciático de quem se apaixona irremediavelmente pelas letras. A queda é sempre uma possibilidade, porém, a despeito das dores agudas nos joelhos, ainda levantamos.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de abril de 2026


Pedra, papel & tesoura

É comum apresentar a pessoa que escreve como uma alma enigmática por excelência, foco de representações mitológicas (i.e.: alguém com sensibilidade apurada, capaz de transformar o próprio sofrimento em versos líricos veneráveis, ou prosas da sabedoria, alguém que, em suma, enxerga segredos cuja essência será um eterno mistério para a maior parte dos mortais). Mas essa personagem teatral idealizada só se sustenta quando permanece atrás das cortinas, sem jamais «entrar em cena» — sob os holofotes e diante do escrutínio do público, ela gagueja, tropeça, fica aborrecida, emite opiniões disparatadas. E eis que ali jaz o encanto, humanamente quebrado.



A tentativa de preencher um vazio, uma lacuna, a tentativa de «conectar-se» a algo ou a alguém, de responder a uma pergunta crucial, a tentativa de anestesiar-se diante do silêncio, diante da «não-resposta», da indiferença.



Já a escrivaninha conserva o sonho da tão desejada fortaleza do escritor. Quando está algures, exausto, basta pensar na mesa de trabalho, nos livros da biblioteca, nos itens de papelaria, e logo sente a esperança do retorno invadir-lhe o coração angustiado.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de abril de 2026


Rebeldias

O que eu mais gosto é isto: este sentar diante da folha em branco e ver o que acontece. Tenho a minha chávena de café ao lado, a janela está aberta para uma manhã aprazível, o céu tem três diferentes tonalidades de azul, com nuvens que esqueceram-se de si mesmas — toca o jazz-vintage nos meus auriculares.



Parece mesmo plausível que, no fim de contas, tornamo-nos quem somos não por causa do que se desenvolve no nosso cérebro mas por causa do que é eliminado — como naquela anedota atribuída a Michelangelo, que ao ser perguntado como conseguia fazer esculturas com um único bloco de mármore respondera: muito simples, apenas observo o mármore, pego o martelo, e retiro tudo o que não é escultura.



Antes de sequer começarmos uma difícil empreitada, podemos lamuriar: a coisa é impraticável! De aí que nos dedicamos ao projeto, a despeito das imensas dificuldades, e aos bocadinhos as respostas aparecem. Não necessariamente respostas perfeitas, mas úteis o bastante para finalizarmos o que antes parecia impossível.



Chega-se à conclusão de que o talento não passa de mero adorno supérfluo se não estiver acompanhado de certa teimosia obsessiva (sem juízo de valor).

Publicado por P. R. Cunha / 5 de abril de 2026


Salinas

Caminhar na praia perto da zona de arrebentação, estirâncio: área transitória (água-e-terra), quando as ondas recuam e podemos perceber o caótico espetáculo de uma vida peculiar, microscópica — o fundo do oceano posto à vista pela maré baixa. Momentaneamente o escondido é revelado, e sentimos certa inquietação por estarmos a invadir a privacidade daqueles cautelosos seres marítimos.



A agressividade das ondas, uma questão subjetiva: se estamos com raiva, é sinônimo de fúria, grito de desespero; o apaixonado já a perceberia de outra maneira (talvez analogia dos batimentos do próprio coração, que pulsa feito louco ao simples toque da pessoa amada). Poder-se-ia também enxergar a cena como uma espécie de despertar — o choque, a ocasião de arrependimento, refletir-se, retornar ao caminho correto (embora muitas vezes não façamos a ideia do que seria realmente esse «caminho correto»).

Se sobrevivemos ao naufrágio, voltamos «um outro alguém». Através da catástrofe, do susto, do torpor, da perda iminente, quase-morte, como que recuperamos o fio da meada. Durante a tragédia, com a água salgada a nos bofetear, pensávamos: é isto, renuncio, não dou conta. E dali a pouco abrimos os olhos, estamos estirados numa ilha remota, estamos aos trapos, feridos, irreconhecíveis, mas estamos vivos.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de abril de 2026


À besta em si

O convite para o encontro dos escritores chegou-me pelos correios por volta das 17h. Lá fui. Tentei conversar, fazer-me o tipo «sociável», mas a verdade é que não consegui tirar de mim uma única palavra, nada. Falar simplesmente de literatura?, dos livros que estou a ler?, das infinitas dificuldades de permanecer escritor numa época absolutamente hostil aos escritores? — não dou conta.



Sair tem sido uma experiência cada vez mais perturbadora para o meu temperamento cavernoso; estar fora causa-me alergias.



Não ter medo do futuro, muito menos expectativas sobre este (pronome demonstrativo que antes indicasse distanciamento) futuro. Olhar a caneta sobre o bloco-notas, observá-la durante alguns minutos, perder-me aqui, num agora, numa certa previsibilidade. A caneta não se move, a caneta espera.



Uma pessoa decide escrever romance glacial, senta-se à mesa de um café. No dia seguinte, reparas que a pessoa continua no mesmo sítio, imóvel, congelada. O barista explica que isso acontece com certa frequência: permanecem assim, sentadas, três dias, uma semana, ou até ao próximo verão, quando há degelo.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de abril de 2026


Ausências

Há mesmo aquela frase de Blaise Pascal — ela disse enquanto nos acomodávamos nas poltronas do teatro —, uma frase certamente muito batida, eu mesma já a utilizei inúmeras vezes, mas ainda assim uma frase inquietantemente reveladora, Pascal comenta que toda a infelicidade do ser humano, todos os infortúnios, eu acrescentaria — ela disse —, todas as decepções, angústias, arrependimentos vêm de uma única e impiedosa situação: o fato de não conseguirmos ficar quietos em um quarto encarando os nossos pensamentos, enfrentar o próprio silêncio sem a necessidade de estímulos alheios. Queremos sempre sair desse quarto, ela disse, criamos as justificativas mais disparatadas, mentimos quando esperneamos que estamos apenas em busca de aventuras, de experiências reveladoras, sim, queremos sempre revelar, desnudar, desmembrar — ela disse —, queremos saber, queremos todas as explicações, todas as respostas, gritamos «é o nosso direito!» — ela fez as aspas com os dedos —, mesmo que isso custe a nossa sanidade, mesmo que, ironicamente, o corpo adoeça e acabe de forma involuntária deitado numa cama de hospital, num quarto frio, vazio, só nós, com os nossos pensamentos…, enfim.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de abril de 2026


Lei da inatividade

As ideias de determinados filósofos nos impressionam e acabam por influenciar nossas tentativas de descrever o que se passa em redor. Meu objetivo nunca foi (e nunca será) a doutrinação, o discurso moralizado. Pode-se apenas conduzir a algum «sítio incerto», ou melhor: aplicar uma força externa resultante não nula. Escrevemos e/ou lemos e assim despertamos, saímos do repouso. É sobre isso.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de abril de 2026


Times New Roman

E me perguntam: quando, como… Mas eu não consigo responder. Insistem: quando, como, por quê? Precisamos mesmo falar sobre isso?, eu digo. Sim, é importante sabê-lo, dizem. Eu me esforço — no dia 13 de agosto do ano 2000, publicaram no pequeno e irrelevante jornal da minha escola um conto estranho que escrevi durante uma noite de insônia, daí perdi a cabeça, foi a melhor sensação do mundo, uma descarga avassaladora de endorfina, glândula hipófise a todo o vapor, segurei o pedaço do jornal com a minha narrativa impressa, um verdadeiro milagre tipográfico: queria sentir aquilo para sempre.

Publicado por P. R. Cunha / 31 de março de 2026


ligeiro fatalismo

deixou de gostar de mim

conto-lhe sobre o dia

em que nos conhecemos

o café que pedimos

a música que ouvíamos

o livro que estávamos a ler

e percebo os seus olhos

frios

distanciados

vazios

deixou de gostar de mim



(…)



à noite

telefonema de mamãe

«o que te dói» ela pergunta

o coração

eu digo

Publicado por P. R. Cunha / 30 de março de 2026


Por vezes tropeçamos

Constrói-se determinado pensamento, quer-se compartilhar tal pensamento. Se tu és filósofo, podes falar ou escrever. Porém, ficas com a impressão de que isso nunca é o bastante, falta qualquer coisa: uma estrutura gramatical estabelecida (sujeito + predicado) não faz jus à grandeza das tuas representações, digamos, in natura. «Na minha cabeça, tudo mostrava-se melhor, mais bem resolvido», e tendo a concordar com a tua opinião. Porque nossos pensamentos não andam em linha reta — como as frases início-meio-e-fim parecem sugerir. Somos curvas, mudamos de direção, constantemente.

Publicado por P. R. Cunha / 29 de março de 2026


Antena

Interferências ocorrem quando há conflito de ideais — isto é, se meu ideal (político, cultural, amoroso, etc.) é de outra época que não dialoga com o agora, com a etiqueta e os costumes contemporâneos. Idealizo motivações de acordo com o que acredito ser o «correto», mas para que exista algum tipo de troca é preciso encontrar alguém que pelo menos reconheça essas minhas motivações. Trata-se de uma linha tênue: entre ser uma pessoa autêntica/excêntrica ou um grande e solitário icebergue que flutua sem rumo pelas águas polares.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de março de 2026


Chapelaria

Cenário: «acontecimento específico» e as testemunhas desse «acontecimento específico». Cada um terá certas opiniões a respeito — de acordo com a própria biografia, o próprio contexto, os próprios pensamentos instaurados. Há quem considere o «acontecimento específico» uma verdadeira tragédia, outros se mostram indiferentes, outros ainda encaram-no como possibilidade de crescimento pessoal. Isso se passa desde que o animal humano decidiu que caçar e procriar não eram mais atividades satisfatórias, é preciso também ruminar. Algo que causa profunda raiva, dores e ânsia de destruição em determinadas pessoas, pode ser o início de transformações admiráveis em almas com temperamentos distintos. É um pouco como aquela anedota: há um chapéu para cada cabeça, etc.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de março de 2026


Ausência(s)

Poder-se-ia dizer que a nostalgia é um elemento básico no estojo de ferramentas da pessoa que escreve. Vemos ali os itens de papelaria da praxe: lápis, canetas, pincel marca-texto, borracha — e, lá no fundo, as saudades, as recordações de épocas que se foram. O material concreto da escrito (i.e. aquilo que aconteceu [com todas as ressalvas implícitas {grifo meu}]) encontra-se no passado, o escritor debruça-se ao mesmo tempo sobre a página e sobre um mundo que, de muitas maneiras, já desapareceu.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de março de 2026


Tinta do Japão

Tenho diante de mim um ensaio de Geoff Dyer publicado numa revista de Kyoto. Sei que o texto é dele porque o nome, Geoff Dyer, é a única coisa que está impressa em alfabeto latino, e não em Hiragana (o silabário básico dos japoneses). Geoff Dyer é um escritor que me agrada, mas só consigo compreendê-lo se as palavras estiverem em português-inglês-russo-espanhol-e/ou-francês. Em japonês, não faço a ideia. De súbito, um artigo literário que poderia causar ignições no meu sistema neurológico, não passa de um amontoado de tinta ilegível. Torna-se mero objeto — com símbolos bonitos e atiçadores, porém, ainda assim, mero objeto.

Publicado por P. R. Cunha / 25 de março de 2026


Prova de corrida a pé

A letra fica cada vez mais miúda, como que para se adequar ao tamanho do bloco-notas comprado numa papelaria à esquerda do Cine Nacional, hoje desativado e em ruínas. Andar sozinho, sem rumo, tornou-se uma das minhas atividades favoritas. Enquanto me distancio da balbúrdia do centro da cidade, penso nas consequências de se dedicar às artes, a paciência limitada de estar com outras gentes: tudo o que não alimenta a fábrica de literatura que levo dentro da cabeça é descartado (ou, pelo menos, descartável). Comecei a escrever a sério aos dezoito anos — lá se vão duas décadas de um extremo egoísmo, de um «viver integralmente para mim, do meu modo», uma existência que repele, que limita, que ceifa, e ainda procuro demonstrar, ou melhor, justificar a mim mesmo o que significa se entregar de forma tão obcecada a uma ideia literária, a uma personalidade que encarcera-se com a própria escrita e desdenha do mundo em redor. Beira a crueldade.

Publicado por P. R. Cunha / 24 de março de 2026


Pequenas causas

Alguém escreve qualquer coisa e — talvez para proteger-se, evitar perguntas de curiosos, mantendo assim certo distanciamento, privacidade — diz que é tudo ficção, que não se coloca no texto, que é narrador de invenções, que está sempre alhures, que apenas observa o exterior, analisa os outros. Mas se fosse só isso, não haveria a necessidade de atrelar o próprio nome à narrativa, de mostrar-se, de atestar: vejam, escrevi isto, eis a minha assinatura que o comprova. A obra da pessoa que escreve é também uma revelação da pessoa que escreve, mesmo que zelada. Noutros termos: o escritor é uma espécie de criança arteira que faz travessuras às escondidas, mas que sente tanto orgulho dos pequenos delitos que cometeu que por vezes almeja ser descoberta, só para, enfim, receber os devidos créditos.

Publicado por P. R. Cunha / 23 de março de 2026


As sinfonias de Haydn jazem no aterro

Voltando para casa depois de uma irresponsável bebedeira, vi um quadro de Rembrandt no lixo e lembrei que as artes também não passam de objetos descartáveis.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de março de 2026


Andamos às voltas, toda a gente nota


Esboços, não obras prontas. Inacabamento (neologismo[?!]). Um estar a caminho, constante — «a meio da estrada». Alguém que cambaleasse no deserto e avistasse a torre de uma caixa d’água, que nunca chega. Areias densas, angustiantes, que podem evaporar sem levar propriamente a nada. Desespero contido, porque medo de fazer papel de bobo, gritando assim aos vazios.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de março de 2026


Peso/morto

Curiosa a imagem do filósofo que não consegue subir a montanha porque tem a mochila pesada, cheia de hipóteses e teorias inúteis.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de março de 2026


Devemos supor

Devemos supor que o pensar, o escrever, o pintar, o dançar, o filmar, devemos supor que acordar cedo, preparar o pequeno-almoço, refletir com a chávena suspensa, permanecer à escrivaninha até que se sinta o imperativo de criar/construir (em alemão, Handwerk, trabalho manual), devemos supor que enquanto o mundo se mutila, e bombas caem na cabeça de inocentes, e toda a sorte de vírus, doenças, síndrome do pânico, assassínios, devemos, portanto, supor, que a tarefa do filósofo, do escritor, do pintor, do dançarino, do cineasta, é um ofício relevante, do contrário, nem mesmo o dedo mindinho mexeria.

Publicado por P. R. Cunha / 19 de março de 2026


Ceifa

Antes de determinada viagem, imaginamos o que iremos encontrar no local em que estaremos dali a pouco. Uma praça rodeada por construções peculiares, gente comum sentada nos banquinhos perto da feira permanente, o céu convidativo, jardins com lavanda, tulipas, hortênsias, plantas aromáticas. Cena tão bonita que até ficamos com receio de estragá-la com a nossa presença física — tão real e aniquiladora.

Publicado por P. R. Cunha / 18 de março de 2026


Retornos

Preciso e irei me repetir tanto quanto for necessário. Os mesmos assuntos, por vezes com abordagem estrangeira, noutras com a mesma abordagem de sempre. A ideia é perceber se me contradigo, se chego a conclusões distintas, se a memória falha e acabo preso numa floresta de eucaliptos.

Publicado por P. R. Cunha / 17 de março de 2026


circunstância

certas dores quando 

devidamente domesticadas

podem ser de notável beleza

e profundidade

Publicado por P. R. Cunha / 16 de março de 2026


Santuário pessoal

À noite, o monge se recolhe ao mosteiro — está cansado, com calos nos pés. O monge senta-se à escrivaninha, estuda, medita, transcende-se, escreve para aliviar dúvidas, uma data de paradoxos que carrega dentro de si. Em determinados momentos, quando ele é invadido por inspiração flamejante, elucidações puras e reveladoras, o monge se debruça sobre a própria janela, acredita ser capaz de desvendar qualquer mistério, imagina que se apontasse para a Lua, ela também desceria das nuvens para igualmente acolhê-lo.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de março de 2026


Reações (in)voluntárias

O espelho pode ser um vidro grudado na parede do banheiro, um filme que nos causa imensa comoção, as atitudes delicadas de uma irmã que vem nos visitar aos domingos, o prólogo de um artista de variedades, o modo irascível de se conduzir o automóvel na hora de ponta, olhar triste e indiferente de um ser humano que um dia disse-nos «te amo» e agora dá-nos «adeus» — e em tantos espelhos, algo em comum: procuramos perceber o que é que os reflexos querem nos mostrar.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de março de 2026


Se…

Se estou a criar alguma coisa, mesmo que um simples rabisco às pressas numa folha de papel amassada, penso se tal criatura será um mero objeto descartável, inútil, ou se de alguma maneira me servirá de combustível (i.e. força motriz) para seguir adiante — mesmo que eu não saiba ao certo se esse adiante esconde uma ilha de tranquilidades provisórias ou um abismo de azedumes. Portanto, tentativa de superar desassossegos por meio da arte (sem juízo de valor, obviamente), fuga ao desamparo, à irrelevância, se poderei controlar/canalizar criatividades com minhas próprias forças e assim sentir-me útil por algumas horinhas: eis do que se trata.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de março de 2026


Antídotos contra um estéril abatimento

Calha de às vezes eu ficar obcecado por determinados temas, e quero mergulhar o mais fundo que posso, destrinçar, perder-me nas análises mais disparatadas. Nunca sei ao certo quanto tempo pode durar essa obsessão — três semanas, alguns meses, um ano? O meu empenho é sobretudo escrever a respeito das minhas curiosidades, ou melhor, a respeito do processo de sanar tais curiosidades (pensamentos, avanços, recuos, divagações, perguntas que geram novas perguntas [ad infinitum, de preferência]). Símbolos não lineares de uma busca solitária: embora eu tenha esta convicção de que, mesmo sozinho, vivo cá uma existência com a intensidade adequada aos caprichos do meu temperamento.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de março de 2026


Cérebro de Boltzmann

Foi-se o tempo em que eu me sentava à mesa de algum café e ficava carrancudo porque alguma algazarra contínua tirava-me o foco. Hoje em dia, antes de sair de casa (à moda do estoicismo romano [lembremos Epicteto {why not?}]) insisto a mim mesmo que o mundo faz barulho, não há muito o que se possa fazer a respeito. Talvez trancar-se numa câmara anecoica, mas dizem que depois de alguns minutos a pessoa começa a ouvir a própria respiração, os batimentos cardíacos, a circulação sanguínea e a experiência logo se torna tão perturbadora a ponto de levar o sujeito a um estado de pré-loucura. Acontece que ontem à noite busquei refúgio num café de livraria e ao meu lado sentou-se um casal que me pareceu de uma discrição aprazível. Enquanto eu tentava revisar o meu ensaio sobre Pasolini, a moça, que tinha uns olhos verdes e intensos, comentou com o rapaz que «se calhar, somos todos uns experimentos de Boltzmann, sim, porque estatisticamente é mais provável que o nosso cérebro tenha se formado de maneira espontânea, já com todas as memórias da nossa existência neste universo supostamente em expansão, do que tudo ter surgido da forma como os cientistas acreditam que aconteceu, Big-bang, inflação cósmica, etcétera, etcétera…». O rapaz, que tentava se ajeitar ao lado dela e claramente não sabia como reagir, levantou o indicador para pedir o cardápio.

Publicado por P. R. Cunha / 11 de março de 2026


Zunem as abelhas, os jardins florescem

Há quem considere a escrita uma atividade terapêutica — contamos à folha de papel segredos sobre os quais não nos arriscaríamos a compartilhar com outra criatura humana. Calha de o estopim (na falta de melhor termo) ser algum tipo de vulnerabilidade, fraqueza, desamparo, a pessoa que segura a caneta questiona-se, quer respostas, ou pelo menos algum tipo de explicação que amenize as próprias angústias. Narramos, direta e/ou indiretamente, certas inquietações, transformamos nossas dúvidas e incertezas em palavras. Às vezes compreendemos alguma coisa, noutras tantas continuamos a não entender bulhufas.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de março de 2026


Caiu-me a alma

Faz sol, casais sorridentes passeiam de mãos dadas à beira do lago, mas o amor acabou, senhora agacha-se para pegar uma fruta perdida, motocicleta acelera na avenida, mas o amor acabou, padeiro faz o pão, dono da banca de jornal estende o toldo, vai chover, mas o amor acabou.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de março de 2026


vagas, lembranças

corre o riacho

simplesmente corre

— o riacho


Publicado por P. R. Cunha / 8 de março de 2026


Ruminações rurais — refúgio brasiliense

Há tantas coisas que ainda quero ser, e dizer, e representar, e tão pouco tempo para fazê-lo. Aturdido, bem poderia prostrar-me diante do tiquetaque do relógio. Mas escolho continuar esta absurda mineração gramatical, lapidar verbos, predicados, adjetivos, substantivos, etc. Ao fim e ao cabo, escrever livra o animal humano do silêncio opressor, acalma ansiedades, dilata os ponteiros das horas contadas; escrever permite desabafo, um grito, mesmo que efêmero, mesmo que para um auditório praticamente vazio — pois às vezes calha de haver pessoa perdida nas últimas fileiras, ela entende, ela agradece, ela diz: isto também fala de mim.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de março de 2026


penas

quantas coisas magníficas e 

significativas deixamos

de criar por medo 

de dizer o óbvio.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de março de 2026


Processamentos

Este computador, no qual costumo digitalizar os meus textos analógicos, foi adquirido em 2011, é leve, feito de alumínio, teclado confortável às mãos, tela de retina, quinze polegadas, falta-lhe um pedaço considerável da quina superior direita (resultado de queda da mesa de um café em Niterói). Descrevo-o e tomamos conhecimento das características principais da máquina. Porém, o computador por si mesmo não cria, é apenas (ou deveria apenas ser) uma ferramenta, um auxílio, comodidade — como os calçados do maratonista, que não conseguem correr se não estiverem nos pés do maratonista.

Publicado por P. R. Cunha / 5 de março de 2026


Ninguém pode contar toda a verdade sobre si

Passei tantos anos escutando que os livros que eu escrevia eram «alucinações, lamúrias incompreensíveis, monstruosos», que ninguém queria lê-los — e livros que ninguém quer ler não servem mesmo para nada —, escutando (e acreditando) que jamais conseguiria escrever algo que prestasse, algo substancioso, «se calhar um louco, um desmiolado teria mais êxito literário», até que finalmente recebo respostas positivas, comentários lisonjeiros, como se diz, e isso me enche a alma de uma ingênua alegria, dá, de certa forma, sentido à minha atividade (absurda, reconheço), reforça um bocadinho a minha convicção — não de estar certo, mas de pelo menos não estar errado —, e de que o caminho que eu escolhera para trilhar meus dias contados neste planeta rochoso não tem sido de todo fortuito.

Publicado por P. R. Cunha / 21 de fevereiro de 2026


O mesmo vento, a mesma tempestade

Quando o autor está a escrever livro, e completamente absorto pelo livro, anestesiado pelo livro, devorado, abraçado, mastigado pelo livro, e tudo à volta o impressiona muitíssimo, vulnerável, o autor, encanta-se com tremenda facilidade, inclusive pelo sorriso leve e espontâneo da barista que lhe retribui um par de olhares e diz «volte sempre» depois que o autor paga a conta e vira as costas para, provavelmente, nunca mais voltar.

Publicado por P. R. Cunha / 20 de fevereiro de 2026


diário marítimo (18)

façamos outra paragem na

anatomia do meu coração



o meu coração esta ilha monstruosa cujas artérias coronárias circulam sangue triste como num rio condenado que escorresse os últimos desassossegos ao mar distante.

Publicado por P. R. Cunha / 28 de janeiro de 2026


diário marítimo (17)

cujos sentimentos
não passavam
de mais um punho cerrado


todos os livros que escrevi — inclusive aqueles que nunca terminarei — são frutos de coração despedaçado pelas lâminas afiadas de alguma mulher.

Publicado por P. R. Cunha / 27 de janeiro de 2026


diário marítimo (16)

nada
deveria
surpreender


que um barquinho saia do cais com três marítimos e volte com apenas dois ou que determinado navio desapareça nas profundezas do oceano e leve consigo toda a tripulação ou que um pescador desorientado termine numa ilha não muito longe dali a perder a própria sanidade — pois desaprendera a falar esta língua humana.

Publicado por P. R. Cunha / 26 de janeiro de 2026


diário marítimo (15)

sonhei que voava

numa bala de canhão
— toca despertador




se tu tomas café na mesa de trabalho e és distraído de aí que acidentes acontecem porque estavas a pensar na capacidade de ainda conseguir encontrar livros que te façam como se diz «perder o chão» e que imensa alegria!

Publicado por P. R. Cunha / 25 de janeiro de 2026


diário marítimo (14)

desta vez

será
diferente

— enganamo-nos




houve uma moça (explica protagonista) foram apenas cinco dias não voltamos mais a falar e a partir daí começou a projeção o descrever o que se passa quando as experiências desaparecem hora após hora e nesta tentativa de lutar contra o inevitável idealiza-se um amor que poderia ter sido mas nunca foi.

Publicado por P. R. Cunha / 22 de janeiro de 2026


diário marítimo (13)

a carga era demasiada

para a estrutura

do navio




é como se tu fizesses de tudo para atingir o fundo do poço para colocar o teu pequeno barquinho em tempestades irascíveis — e escrever romance fosse a tua rota de salvação a escada que te levaria de volta à superfície mas acontece que essa escada se mostra cada vez mais frágil faltam-lhe degraus e o bote salva-vidas esta furado entra água já não serve de auxílio em salvamentos como antigamente.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2026


diário marítimo (12)

ela

mureta

pedra

talhada

porta

trancada

ah! cadeado




leva tempo até que sintam a nossa falta diz protagonista a nossa ausência é um desvanecer contínuo e a ida para o mar precisa mesmo de ser feita sem alarde — discretamente levantamos as âncoras e partimos.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2026


diário marítimo (11)

sois-tu que je suis fée?

[sabes tu que eu sou fada?]




aquilo que cada trecho refere: ilusão de estar a ver coisas que existem quando na realidade não existem projeções preencher os vazios provocados pelo silêncio alheio (se não falas eu falo) as frases não ditas transformam-se noutras — malditas — mas afinal é apenas tinta de caneta despejada sobre a folha de papel.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2026


diário marítimo (10)

apaixonado

enlouquecido

— perdeu o juízo



o que faço com tudo isto que me está a acontecer é a pergunta que intriga protagonista numa manhã chuvosa de janeiro como tantas outras manhãs em que fica sentado numa almofada verde pensamentos se infiltram na própria cabeça como neblina dispersa e ficam lá a passear até que se aglomeram e formam este conjunto estranho de verbos adjetivos substantivos pronomes possessivos etc.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2026


diário marítimo (9)

íris coloridas

quando fitam as minhas

que espanto!




a experiência do amor mete medo: o apaixonar-se as emoções contraditórias um constante estar-à-deriva a outra pessoa venerada como ideal inatingível — o que será o mistério para que eu esteja nesta vulnerável condição em que admiro outra pessoa dessa forma como se ela fosse tudo — às vezes padecemos de um declínio irracional que não procede de doenças em nosso corpo senão de feridas abertas no próprio coração.


Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2026


diário marítimo (8)

rostos surreais

extraterrenos

impossíveis


protagonista percebe incômodo quer descobrir a origem desse incômodo as causas as consequências onde tudo começou como tudo começou mergulha então às fissuras de si mesmo este oceano revoltoso onde se depara com dois olhos profundos símbolos da beleza que encontramos numa pessoa por quem cultivamos sentimentos ambivalentes (o pré-amor [encantar atrair irritar potencializar]) e protagonista sabe que até a ternura desses olhos persuasivos pode esconder uma espécie de morte um estado de ausência absoluta.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2026


diário marítimo (7)

já não tem nada que ver

com literatura




a quantidade de corações que se avariam partem racham acidentam e nunca voltam a ser o que eram nesta espécie de viagem ou melhor de naufrágio em que protagonista diante de microcosmo estilhaçado tal como uma pessoa bêbada compreende que não se conhece de todo — outra punhalada.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de janeiro de 2026


diário marítimo (6)

descrevendo a fúria das chuvas

parecia ele próprio

atirado à tempestade




enquanto anoto neste diário os gritos dos trovões desabam do lado de fora parecem acrescentar mais força às palavras a narrativa é também projeção do interior do escritor que atravessa todos os gêneros sem se fixar em nenhum que escreve verdades e ficções e se ilude: protagonista-fugitivo mas de quê? de quem?

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2026


diário marítimo (5)

a partir daqui

é nenhures




protagonista percebe-se defeituoso gostava de compreender as próprias falhas se ainda conseguiria consertá-las esta insensibilidade esta falta de comoção esta rocha melancólica um olhar de relance ao espelho afinal o que a vida lhe fez — basta uma simples pergunta e cruzamos a fronteira estamos já do outro lado.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2026


diário marítimo (4)

porque os vivos

se esforçam imenso

para não mencionar

os mortos




pode-se dizer que a atmosfera do romance é incerta não necessariamente metafísica (embora o transcendental não incomode protagonista) antes uma suspeita um desconforto como quadro um bocadinho desalinhado na parede lisa de museu — alguém chega ao navio imprevisibilidades começam a acontecer e ali as referências cronológicas aos poucos se mostram inúteis poderia ser qualquer dia qualquer tempo protagonista volta-se para si mesmo coleciona notas junta tudo num álbum mental.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2026


diário marítimo (3)

e só se ouve o vento —

lacrimoso




romance sobre o mar que não faça infinitas reverências à obra de melville («piscadelas de cumplicidade») não é romance sobre o mar é outra coisa embora este não tenha nenhuma pretensão de caçar leviatãs cachalotes entre outros carnívoros oceânicos e não descreva as desventuras a bordo de baleeira porque a verdade é que não sabemos muito a respeito das motivações que instigam protagonista nunca é clara a ordem dos fatores o que importa é aquilo que ele se tornará a partir do momento em que decide ir para a água o relato de uma possível transformação ou mesmo de confirmações já que protagonista pode muito bem voltar o mesmo de sempre (se voltar).

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2026


diário marítimo (2)

eis o momento da grande decisão 

protagonista 

sozinho e em silêncio

adentra o navio 

para encontrar-se 

no mar


sujeito com aspectos não raro ambivalentes visto que possui personalidade festiva outra introspectiva outra ainda lamentadora pode-se adjetivá-lo de louco irresponsável inconsequente encarar o oceano em constante movimento águas complexas por vezes monstruosas narra a própria jornada com linguagem labiríntica feito correntezas paisagens tortuosas polifonias de relatos que permitem toda a sorte de interpretações porque de súbito descobriu em si uma perigosa facilidade para expressar palavras — é isto um romance sobre o mar sobre falhas sobre nadas sobre coisas partidas.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2026


diário marítimo (1)

tudo é impermanente — 

pessoas

emoções

momentos



sempre quis escrever romance sobre o mar ou antes: sobre alguém que estivesse exausto em terra firme melancólico desiludido decide que o oceano é a única direção capaz de amenizá-lo moro em brasília distrito federal (a mil quilômetros do atlântico e a mais de quatro mil do pacífico) um dos locais mais distantes da orla marítima em todo o planeta o clima é seco sufoca porém a maioria dos meus familiares nasceu no rio de janeiro onde costumo passar férias com os pés na areia vento de maresia água salgada no rosto este estranho arranjo que me enche de saudades sazonais provoca desejos irrefreáveis de estar algures perto das ondas longe do deserto.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2026


Além das limitações humanas

Há momentos na vida do fazedor de arte (para não cairmos nas armadilhas pretensiosas do substantivo «artista»), simplesmente a pessoa que gosta de utilizar o cérebro para construir coisas, momentos edificantes, profundos, iluminados, dir-se-ia, em que se sente invencível, nada pode atingir o fazedor de arte, figura imaginária que acredita imortalizar-se através da própria criatura, a despeito deste corpo orgânico — frágil, finito.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de janeiro de 2026


Morfologia e sintaxe

Basta analisar o meu próprio coração, você diz, para perceber sentimentos que recusam qualquer tipo de tradução formal. Determinadas decepções amorosas, a reciprocidade de um sorriso, a perda de um familiar imprescindível, a primeira neve, deparar-se com o vazio existencial, ausência de sentido fora do aglomerado temporário de propósitos que cada um cria para si à laia de continuidade. A pessoa entende que algo a comove, ela quer partilhar numa folha de papel — faltam-lhe, no entanto, os termos adequados.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de janeiro de 2026


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