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diário marítimo (13)

a carga era demasiada

para a estrutura

do navio




é como se tu fizesses de tudo para atingir o fundo do poço para colocar o teu pequeno barquinho em tempestades irascíveis — e escrever romance fosse a tua rota de salvação a escada que te levaria de volta à superfície mas acontece que essa escada se mostra cada vez mais frágil faltam-lhe degraus e o bote salva-vidas esta furado entra água já não serve de auxílio em salvamentos como antigamente.

Publicado por P. R. Cunha / 15 de janeiro de 2026


diário marítimo (12)

ela

mureta

pedra

talhada

porta

trancada

ah! cadeado




leva tempo até que sintam a nossa falta diz protagonista a nossa ausência é um desvanecer contínuo e a ida para o mar precisa mesmo de ser feita sem alarde — discretamente levantamos as âncoras e partimos.

Publicado por P. R. Cunha / 14 de janeiro de 2026


diário marítimo (11)

sois-tu que je suis fée?

[sabes tu que eu sou fada?]




aquilo que cada trecho refere: ilusão de estar a ver coisas que existem quando na realidade não existem projeções preencher os vazios provocados pelo silêncio alheio (se não falas eu falo) as frases não ditas transformam-se noutras — malditas — mas afinal é apenas tinta de caneta despejada sobre a folha de papel.

Publicado por P. R. Cunha / 13 de janeiro de 2026


diário marítimo (10)

apaixonado

enlouquecido

— perdeu o juízo



o que faço com tudo isto que me está a acontecer é a pergunta que intriga protagonista numa manhã chuvosa de janeiro como tantas outras manhãs em que fica sentado numa almofada verde pensamentos se infiltram na própria cabeça como neblina dispersa e ficam lá a passear até que se aglomeram e formam este conjunto estranho de verbos adjetivos substantivos pronomes possessivos etc.

Publicado por P. R. Cunha / 12 de janeiro de 2026


diário marítimo (9)

íris coloridas

quando fitam as minhas

que espanto!




a experiência do amor mete medo: o apaixonar-se as emoções contraditórias um constante estar-à-deriva a outra pessoa venerada como ideal inatingível — o que será o mistério para que eu esteja nesta vulnerável condição em que admiro outra pessoa dessa forma como se ela fosse tudo — às vezes padecemos de um declínio irracional que não procede de doenças em nosso corpo senão de feridas abertas no próprio coração.


Publicado por P. R. Cunha / 11 de janeiro de 2026


diário marítimo (8)

rostos surreais

extraterrenos

impossíveis


protagonista percebe incômodo quer descobrir a origem desse incômodo as causas as consequências onde tudo começou como tudo começou mergulha então às fissuras de si mesmo este oceano revoltoso onde se depara com dois olhos profundos símbolos da beleza que encontramos numa pessoa por quem cultivamos sentimentos ambivalentes (o pré-amor [encantar atrair irritar potencializar]) e protagonista sabe que até a ternura desses olhos persuasivos pode esconder uma espécie de morte um estado de ausência absoluta.

Publicado por P. R. Cunha / 10 de janeiro de 2026


diário marítimo (7)

já não tem nada que ver

com literatura




a quantidade de corações que se avariam partem racham acidentam e nunca voltam a ser o que eram nesta espécie de viagem ou melhor de naufrágio em que protagonista diante de microcosmo estilhaçado tal como uma pessoa bêbada compreende que não se conhece de todo — outra punhalada.

Publicado por P. R. Cunha / 9 de janeiro de 2026


diário marítimo (6)

descrevendo a fúria das chuvas

parecia ele próprio

atirado à tempestade




enquanto anoto neste diário os gritos dos trovões desabam do lado de fora parecem acrescentar mais força às palavras a narrativa é também projeção do interior do escritor que atravessa todos os gêneros sem se fixar em nenhum que escreve verdades e ficções e se ilude: protagonista-fugitivo mas de quê? de quem?

Publicado por P. R. Cunha / 8 de janeiro de 2026


diário marítimo (5)

a partir daqui

é nenhures




protagonista percebe-se defeituoso gostava de compreender as próprias falhas se ainda conseguiria consertá-las esta insensibilidade esta falta de comoção esta rocha melancólica um olhar de relance ao espelho afinal o que a vida lhe fez — basta uma simples pergunta e cruzamos a fronteira estamos já do outro lado.

Publicado por P. R. Cunha / 7 de janeiro de 2026


diário marítimo (4)

porque os vivos

se esforçam imenso

para não mencionar

os mortos




pode-se dizer que a atmosfera do romance é incerta não necessariamente metafísica (embora o transcendental não incomode protagonista) antes uma suspeita um desconforto como quadro um bocadinho desalinhado na parede lisa de museu — alguém chega ao navio imprevisibilidades começam a acontecer e ali as referências cronológicas aos poucos se mostram inúteis poderia ser qualquer dia qualquer tempo protagonista volta-se para si mesmo coleciona notas junta tudo num álbum mental.

Publicado por P. R. Cunha / 6 de janeiro de 2026


diário marítimo (3)

e só se ouve o vento —

lacrimoso




romance sobre o mar que não faça infinitas reverências à obra de melville («piscadelas de cumplicidade») não é romance sobre o mar é outra coisa embora este não tenha nenhuma pretensão de caçar leviatãs cachalotes entre outros carnívoros oceânicos e não descreva as desventuras a bordo de baleeira porque a verdade é que não sabemos muito a respeito das motivações que instigam protagonista nunca é clara a ordem dos fatores o que importa é aquilo que ele se tornará a partir do momento em que decide ir para a água o relato de uma possível transformação ou mesmo de confirmações já que protagonista pode muito bem voltar o mesmo de sempre (se voltar).

Publicado por P. R. Cunha / 5 de janeiro de 2026


diário marítimo (2)

eis o momento da grande decisão 

protagonista 

sozinho e em silêncio

adentra o navio 

para encontrar-se 

no mar


sujeito com aspectos não raro ambivalentes visto que possui personalidade festiva outra introspectiva outra ainda lamentadora pode-se adjetivá-lo de louco irresponsável inconsequente encarar o oceano em constante movimento águas complexas por vezes monstruosas narra a própria jornada com linguagem labiríntica feito correntezas paisagens tortuosas polifonias de relatos que permitem toda a sorte de interpretações porque de súbito descobriu em si uma perigosa facilidade para expressar palavras — é isto um romance sobre o mar sobre falhas sobre nadas sobre coisas partidas.

Publicado por P. R. Cunha / 4 de janeiro de 2026


diário marítimo (1)

tudo é impermanente — 

pessoas

emoções

momentos



sempre quis escrever romance sobre o mar ou antes: sobre alguém que estivesse exausto em terra firme melancólico desiludido decide que o oceano é a única direção capaz de amenizá-lo moro em brasília distrito federal (a mil quilômetros do atlântico e a mais de quatro mil do pacífico) um dos locais mais distantes da orla marítima em todo o planeta o clima é seco sufoca porém a maioria dos meus familiares nasceu no rio de janeiro onde costumo passar férias com os pés na areia vento de maresia água salgada no rosto este estranho arranjo que me enche de saudades sazonais provoca desejos irrefreáveis de estar algures perto das ondas longe do deserto.

Publicado por P. R. Cunha / 3 de janeiro de 2026


Além das limitações humanas

Há momentos na vida do fazedor de arte (para não cairmos nas armadilhas pretensiosas do substantivo «artista»), simplesmente a pessoa que gosta de utilizar o cérebro para construir coisas, momentos edificantes, profundos, iluminados, dir-se-ia, em que se sente invencível, nada pode atingir o fazedor de arte, figura imaginária que acredita imortalizar-se através da própria criatura, a despeito deste corpo orgânico — frágil, finito.

Publicado por P. R. Cunha / 2 de janeiro de 2026


Morfologia e sintaxe

Basta analisar o meu próprio coração, você diz, para perceber sentimentos que recusam qualquer tipo de tradução formal. Determinadas decepções amorosas, a reciprocidade de um sorriso, a perda de um familiar imprescindível, a primeira neve, deparar-se com o vazio existencial, ausência de sentido fora do aglomerado temporário de propósitos que cada um cria para si à laia de continuidade. A pessoa entende que algo a comove, ela quer partilhar numa folha de papel — faltam-lhe, no entanto, os termos adequados.

Publicado por P. R. Cunha / 1º de janeiro de 2026


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