O resto é xadrez

São cinco horas & vinte minutos da tarde de um desses dias de inverno tão comuns em Brasília. Estive a jogar xadrez até agora.

O xadrez sempre tirou o melhor & o pior de minhas capacidades. O xadrez me proporciona certa paz; a beleza de uma jogada bem executada pode ser a diferença entre uma semana aprazível & serena e uma terrivelmente irritadiça, sem vontades etcétera. Entusiasmo & apatia. O xadrez me deu a concentração plena, foco, a disciplina, excelente desenvoltura na hora de lidar com os embaraços da vida, tornou-me um ser humano mais inteligente, adaptável — realista.

Mas o xadrez também me trouxe ansiedades, frustrações, birras infantis diante de adversários muito mais fortes do que eu, fúria nas derrotas, vício, noites de pesadelo, o xadrez já roeu todas as minhas unhas, já me fez chutar paredes de concreto/madeira/ferro, espatifar bonitas jarras de vidro no chão, xingar a pobre da minha tataravó, cujas rugas jamais vi.

O xadrez acalma. O xadrez acirra os ânimos. 

O xadrez quer me matar do coração.

— P. R. Cunha

Partida de xadrez

Fim da tardinha. Luz amena. Um pequeno e simpático tabuleiro de madeira cuidadosamente polida por carpinteiros habilidosos, sessenta e quatro casinhas quadriculadas, trinta e duas peças esculpidas com esmero e capricho, dois jogadores civilizados, um vento brando a bater na testa desses gentis-homens, jogam sentados, ao silêncio, fazem apenas breves e indiferentes movimentos com os dedos — por que diabos, então, saímos de uma partida dessas transpirando, perturbados, decrépitos, como se tivéssemos lutado contra um exército invencível, ou atropelados por manadas de elefantes selvagens?

— P. R. Cunha

Tu — esperas & notas antes de viajar

» Camus equivocara-se 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: quais livros levaremos para a viagem. Julgar se colocamos para a bolsa de mão o Sebald ou o Handke ou o Carrión, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto — se vai chover, se escolheremos as camisas vermelhas, se levaremos as bermudas que a tia Rita nos deu — vem depois. Camus, portanto, equivocara-se. O suicídio não é tão absurdo quanto essas seleções literárias. Poucos escolhidos, muitos deixados para trás. Vive-se com esse barulho.

» Discretamente, D. Delgado escreve sobre P. R. Cunha

O pensamento deste narrador, que se diz desventuroso, é um autêntico jogo de xadrez. De um lado do «tabuleiro», o pensamento-ficção; do outro, a realidade. Acho que a ficção podem ser as peças brancas e a realidade as pretas. Ou talvez não. As «peças»… num dos lados são os personagens reais da vida, e no outro, filósofos, autores e pensadores fruto de muitas leituras. Por vezes dão-se todos bem, noutras nem tanto. A estratégia deste «jogo» é o «desventuroso narrador», como se intitula aos trinta e poucos anos de vida, estratégia que entre avanços, recuos, dúvidas e certezas, tem jogadas/pensamentos de mestre. Penso que será um jogo eterno, sem xeque-mate, nem vencedor. Porque cada um sabe que precisa do outro para se sentir vivo e produtivo.


IMG_1532Há muitos livros; e não podemos levá-los todos numa mala


» Gostava de ter o cabelo à Scott Fitzgerald — haikus tropicais

1.

vendedor de pipoca
não aproveita o parque —
um automóvel passou

2.

Para a amiga M. L. F.

jogadores de xadrez
à berma da praia
o rei está louco

3. 

Sturm und drang

sonhador solitário
perseguido pela culpa
poeta sem remorso

— P. R. Cunha

Praia de Icaraí

«A evasão de P. R. Cunha para dedicar-se algures integralmente ao xadrez causou nesta família uma impressão profundamente desagradável.»
Notas de minha mãe

Foi preso ontem, às onze horas da noite, um enxadrista brasiliense que se achava embriagado, completamente fora de si e provocava desordem em um boteco na rua Mariz e Barros, Niterói. Na ocasião de ser conduzido para a delegacia, tentou surrar o rondante com um chapéu-de-chuva, que trazia consigo. Ninguém se feriu.

O que disse o delegado a respeito do enxadrista brasiliense: o que é certo é que muito raramente aparecem aqui meliantes deste gênero — intelectual, jogador de xadrez, e pelos vistos ainda escreve romances. Não deixa de ser uma pena, posto que são excelentes conversadores.

Como vais?, o delegado perguntou para o jogador de xadrez. Bem, respondeu o jogador de xadrez com uma resignada tristeza. Já não sofres?, perguntou o delegado. No físico, disse o jogador, no físico, passo às mil maravilhas.

O enxadrista brasiliense, que está na 467ª posição do ranking mundial, foi liberado hoje pela manhã. E isso tudo é confuso demais.


» Malas prontas para Niterói

prcunhaniteroiriodejaneiro

Sob o título de «O enxadrista extravagante»

A verdade é que precisamos estar um bocadinho insatisfeitos para escrever, sabes? Se não estamos um bocadinho insatisfeitos, um bocadinho furiosos, de aí que escrever não faz muito sentido: largas este trabalho antes que ele dê cabo de ti.

(Dum livro a sair.)


Um jogador de xadrez de Copacabana suicidou-se pelo simples fato de ter perdido cinquenta partidas. Consta-se que dizia repetidas vezes: — No dia em que perder a quinquagésima partida enforco-me.

Certa vez, chegou-se ao porteiro do prédio em que morava e disse-lhe:

— Senhor porteiro, não vivo nove dias.
— Ora!, que ideia, tens saúde, vais viver ainda um monte.
— Para a quinquagésima derrota, faltam apenas duas. Em lá chegando, enforco-me.

E, como lá chegasse, — enforcou-se. Quem descobriu o cadáver do infeliz jogador foi o próprio porteiro. Ao ver o maníaco pendurado n’um candelabro, fez-se pálido como uma estátua de mármore de Itália e deitou a correr pelo prédio gritando:

— Ai!, que desgraça!, perdeu a quinquagésima partida.

Ao funeral do enxadrista muitos moradores notáveis de Copacabana, inclusive dois famosos diplomatas, se lhe referiram com palavras de justo louvor.

— P. R. Cunha

Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha