Falar às paredes (mal silencioso)

Depois de passar pelas absurdidades do campo de concentração nazi e diante do revisionismo histórico de algumas lideranças no período pós-guerra, Primo Levi pergunta se é isto um homem: animal capcioso, que esquece, que aponta a flecha do progresso para um futuro ambíguo em que mercadorias inorgânicas substituirão cada vez mais a empatia orgânica. Um alerta que se mostrou perturbadoramente correto.

Primo Levi tinha aquela consciência filosófica de que tudo o que fazemos nesta vida pode ser o mesmo que nada quando visto à luz da ação sem sentido do tempo — principalmente quando as narrativas dos acontecimentos estão a ser controladas por interesses fantasmagóricos. Que a vida é uma sucessão de hábitos, e um dos mais terríveis, ainda segundo Levi, seria o de seguir as massas, a corrente, acreditar em tudo o que as autoridades dizem sem questioná-las. 

Como exemplo poder-se-ia citar o próprio caso de Levi, que esteve em Auschwitz, foi testemunha ocular dos fornos que carbonizavam humanos, que sentira o cheiro dos corpos putrificados, que observara prisioneiros entrarem em caixas retangulares de concreto para nunca mais serem vistos, e mesmo assim ainda teve de se justificar diante de determinados céticos.

O desespero de Levi e de tantas outras vítimas que precisaram de reviver constantemente as atrocidades dos crimes perpetrados durante a Segunda Guerra (crimes que vinham de todas as direções, inclusive dos chamados vencedores), que tiveram de confrontar aqueles que, a despeito de todas as provas documentadas, ainda preferiam virar o rosto: «Ora, talvez os senhores estejam exagerando, talvez não tenha sido tão terrível como estão a sugerir, não podemos crer que o Homo sapiens seja realmente capaz de tantas barbaridades», etc.

Então, assim como Walter Benjamin — que temia a omnipotência (e a longevidade) do Estado policial nazi, que decidiu não fazer parte de nada disso e finalmente matou-se num hotel espanhol enquanto fugia da Gestapo —, Primo Levi também perdeu as esperanças. Abandonou o papel de sobrevivente que não podia deixar ninguém esquecer. Em abril de 1987, angustiado, cansado e assolado pela depressão, Levi joga-se da escada de um edifício em Turim.

— P. R. Cunha

Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])

A história do pensamento moderno mostra que para compreender filosoficamente o mundo em que se vive é preciso antes retirar-se dele, ir alhures.

Wittgenstein isolado num fiorde norueguês a filosofar a respeito dos primórdios do século vinte, aquele que se tornaria o Século da Morte. O próprio Heidegger a sobreviver longe, numa cabana dentro da Floresta Negra (adequada nomenclatura), porque a tarefa de se refletir sobre a vida humana é mesmo qualquer coisa extenuante. Walter Benjamin sem casa, sem pátria, sem quase ninguém, perde a própria sanidade em nome da filosofia.

Esse movimento de ir-se para fora, da busca pela solidão, e assim — espera-se — os pensamentos poderiam ser traduzidos com palavras inteligíveis àqueles que ficaram, que não podem ou não têm coragem de encarar o retiro indecoroso. 

Amiúde, os filósofos-eremitas encontram mesmo respostas significativas, aproximam-se, ou melhor, creem se aproximar das «verdades», e é tudo tão luminoso que a claridade acaba por deixá-los um bocado desassossegados. Quando precisam de voltar à convivência com toda a gente (penso ainda em Wittgenstein, lastimavelmente solitário), carregam na bagagem reflexões tão perturbadoras, tão inquietantes que já não dão conta.

A empreitada, diga-se, precisa de ser feita de livre e espontânea vontade. Ir até ao fundo do poço dos próprios pensamentos, para as camadas mais sombrias, até às águas repletas de lodo, inadequadas ao consumo humano.

Sim, voltam como um soldado que retorna do campo de batalha: alucinados e traumatizados; sem nenhuma paz interior, nenhuma alegria de existir. Não necessariamente arrependidos, porém (repito) com um grave sentimento de inadequação. Enxergam agora o mundo de uma maneira muito singular, abriram as cortinas, têm muito o que dizer. Mas quase ninguém para ouvi-los, compreendê-los.

O exílio transformara-os numa espécie alienígena. E o fardo, pelos vistos, é ter ainda de continuar a viver entre terráqueos.

— P. R. Cunha


35._Portrait_of_Wittgenstein

Retrato de Wittgenstein em 1929 — sobre as dificuldades de se retornar de nenhures.

Gênese crítica

Walter Benjamin costumava dizer que para alguém analisar as coisas em redor de forma adequada bastava-lhe saber que dentro da própria cabeça há pensamentos próprios. É quase um trabalho de tradução. O sujeito de repente observa uma árvore que lhe agrada imenso, ele pensa na árvore, está a sentir aprazíveis sensações e gostava de comentar a respeito da árvore. Organiza as ideias, senta-se à mesa, começa a tomar notas dos acontecimentos, transcreve.

Troquemos a árvore por um artista, ou mesmo por alguma criatura deste artista, e veremos o surgimento da crítica moderna, atividade caríssima a Benjamin. Os produtos da mente humana — romances, filmes, pinturas, danças, teatros etc. — estariam em constante formação, cada um à espera de certo olhar externo que subverte, recria, acrescenta. O crítico, segundo Benjamin, seria aquele que produz também uma espécie de obra de arte ao mergulhar na arte alheia. É mais uma travessia de dois náufragos do que um duelo à Alexander Pushkin.

Neste aspecto, aquele que critica precisa de saber que tem também responsabilidades. Para exercer o ofício com moderação e elegância, terá de adquirir aquilo a que costumam chamar de bagagem cultural. São as ferramentas do crítico, pelo menos daquele que pretende levar a empreitada a sério: ir aos museus, aos concertos, assistir aos filmes, ler os romances, rechear o próprio cérebro para que ele não se mostre errante no momento de dialogar com o contexto do objeto criticado.

Tudo pode começar, à laia de exemplo, com uma despretensiosa observação acerca dos acordes fúnebres de Danse macabre do compositor Charles-Camille Saint-Saëns. Notas que soam como um melancólico presságio, como o destino sempre incerto deste gênero musical que hoje é mais admirado do que escutado propriamente — e aqui evito escrever música clássica, pois, como bem explicou Alex Ross: o clássico é um termo que aprisiona a arte viva num zoológico do passado. Mas Saint-Saëns compreendia a inconstância do cenário em que estava inserido, que à tarde uma determinada sinfonia podia ser considerada a maior de todos os tempos, para, à noite, tudo cair em trevas novamente. O que lhe restava, então? Dançar com a morte do próprio gênero, aceitar a mutabilidade das coisas: Danse macabre.

— P. R. Cunha


Yevgeny_Onegin_by_Repin

Os gentlemen Eugene Onegin e Vladimir Lensky resolvem pendências num duelo. A cena foi pintada por Ilya Repin.

O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Damas & cavalheiros,

A partir de hoje começo a publicar trechos de uma narrativa que escrevi especialmente para este electro-sítio — Fragmentos de um romance inacabável. Despeço-me com aquela curiosa sensação de que tudo o que se passou ficará lá para sempre. E isto, como se diz, é confuso demais.

Mil saudações do teu,

P.


Aquele que busca se aproximar do próprio passado enterrado deve comportar-se como um homem que escava. Acima de tudo, não deve ter medo de retornar mais de uma vez à mesma questão, espraiá-la como se espraia a terra, revirá-la como se revira o solo.
Walter Benjamin

O Escritor que se senta à escrivaninha a cada manhã e discorre sobre todos os tipos de temas, de todos os ângulos possíveis, de todas as maneiras etcétera. Diz coisas que precisam ser ditas. Não espera por uma grande inspiração, frases corretas — sabe que isso raramente acontece. Durante um tempo indeterminado, o Escritor acumula pequenas situações, breves cenas, enunciados, um diálogo na livraria, o choro de um bebezinho. Acumula palavras. Até que o baú transborda e é tempo de esvaziá-lo.

Escrivaninha, canetas, papéis, estantes, livros, chávenas de café, desenho de um cão (raça desconhecida), desenho de uma sereia a se afogar nas profundezas de um oceano roxo, coleção de postais soviéticos grudados nas paredes.

Na meninice nada parece acontecer sem causa, nada é inexplicável. O menino sabe que existe um mundo à parte, mundo regido por adultos — e compreende aos poucos que alguns adultos são felizes, outros são tristes. Ali tudo se mostra previsível. O pai garante a segurança e o progresso do menino: vais estudar nas melhores escolas, viver para o estrangeiro, vais aprender o russo, serás um sujeito diferente; este é o pai dizendo. O menino tem a certeza de que o pai é eterno, que o pai é capaz de explicar-lhe o Universo. Até que certo dia paira sobre a cabeça do menino uma nuvem cinza, carregada, e de súbito o otimismo dá lugar a uma lúgubre atmosfera; sombras a dizer-lhe que talvez a realidade não seja tão calma e segura quanto ele desejava acreditar. O menino sente-se vulnerável, enganado. O menino sente medo.

Um Escritor à Van Gogh, ardoroso e irrequieto, mas também cheio de brincadeiras animadas, uma enorme afinidade e uma infinita capacidade de admiração. Guia aventureiro, que transmite inspirações e passa reprimendas, um entusiasta enciclopédico, crítico engraçado, companheiro divertido, um olhar que atravessa tudo. Vítima do próprio coração, um coração de literatura. Tem algo na maneira como ele escreve que leva as pessoas a amá-lo ou odiá-lo. Não poupa nada nem ninguém.

Tudo começa por algum lugar. O Escritor leva consigo uma chávena de café, acomoda-se à frente do próprio computador portátil, cujos avisos de «a memória está para o fim» começam a lhe dar nos nervos. Acomoda-se no gélido apartamento que fica relativamente perto daquilo a que chamam de centro da cidade. Ele então entrelaça os dedos e inicia o processo de manipulação de realidades.

— P. R. Cunha