António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha / edição especial «Paraquedas – um ensaio filosófico»

António Guimarães cruzara o Atlântico para fazer coisas que editores costumam fazer enquanto longe de casa e dissera-me que «mais uma entrevista com perguntas-e-respostas-à-pingue-pongue poderia ajudar na divulgação do teu Paraquedas – um ensaio filosófico*». Sentamo-nos à mesa do restaurante Boneco, estrategicamente localizado a poucos metros do local onde pratico atividades físicas, e esmiuçamos temas diversos. António tomava o suco de acerola.


[António Guimarães] Podemos começar com as obviedades, não há problemas. Um livro preferido.

[P. R. Cunha] A morte do pai (Minha luta 1), do Knausgård. Mas há também O náufrago, do Bernhard, um livro muito bom, muito bom mesmo. Os calhamaços de A anatomia da melancolia, do Burton, céus!, são uma beleza.


[A. G.] Escritor favorito.

[P. R.] Há quatro estações, sabemos. Na primavera, o Sebald; no verão, o Handke; no outono, o Carver; no inverno… o Bernhard. É uma vida de leituras, percebes? Difícil de escolher um único biscoito.


[A. G.] Time de futebol, o famigerado soccer.

[P. R.] Botafogo de Futebol e Regatas, apesar de ultimamente não ter tempo (i.e. perseverança) para acompanhar as partidas. Assisto aos gols, acho legal assistir aos gols quando o Botafogo vence — o que não ocorre com muita frequência.


[A. G.] Time de futebol americano.

[P. R.] Dizem que aderi à modinha, mas gostava que ficasse claro: torço para o New England Patriots desde as temporadas mais ardilosas em que o Bledsoe era o quarterback e os patriotas jogavam no terrível Sullivan Stadium.


[A. G.] A literatura serviu-te para quê?

[P. R.] O Bolaño odiava aquelas respostas pré-fabricadas, falsamente poéticas: ah, a literatura serviu-me para não morrer, etc. Não é verdade. Ele teria sobrevivido sem a literatura, com melhor saúde inclusive. Eu também teria. Eu me interesso muito por trabalhos manuais. Jardinagem, mexer com madeiras, gosto imenso dessas coisas. Meu sonho era construir uma mesa grande, de aí uma família compraria essa mesa, e depois os membros desta família (tios, avós, primos, netos…) jantariam à mesa que construí com tanto afinco, e seria fixe se me mandassem um telegrama: olá, adoramos a mesa, preparamos um banquete e jantamos à mesa que tu construíste, é uma mesa incrível, obrigado. Eu teria sobrevivido. De forma que a literatura serviu-me, e ainda serve-me, para adiar o momento em que, finalmente, poderei me dedicar às hortas, ou à carpintaria.


[A. G.] O que ela te dá?

[P. R.] A ilusão de que posso viver várias vidas. De que posso errar, e errar, e errar, e sempre poderei recomeçar. Com outros personagens, se preciso, novos cenários. E me dá muito prazer também. Ler é terrivelmente agradável. Apetece fugir, sabes? Apetece fugir para um canto isoladinho e ler.


[A. G.] E o que a literatura te tira?

[P. R.] Já tirou-me algumas amizades. É importante ter-se muito cuidado quando alguém diz: compreendo o teu trabalho literário, não vou fazer birras. Porque quando os escritores estão, digamos, em férias podem ser companhias agradabilíssimas. Conversam. Estão disponíveis. Não se isolam. Bebem. Divertem-se. Mas é lá um período passageiro. Logo precisam de começar um novo trabalho e de aí transformam-se num outro animal. «É estranho, antes divertias-te tanto e agora és pior do que um cavalo dopado.» É esta a imagem.


[A. G.] Achas difícil conciliar o trabalho literário com a sociabilidade?

[P. R.] Pensam que é fácil. A fórmula ingênua é: sentar, usar os miolos, escrever parágrafos durante uns meses e, pronto!, o livro está finalizado. Os escritores — e posso dizê-lo por experiência própria — são os tipos mais dedicados que conheço. Alguns chegam a trabalhar dezoito horas por dia. Precisam de linearidade, rotinas. Cada dia um bocadinho mais. E se estão já num ritmo adequado, não têm tempo para putear algures, percebes? Eles irão fazê-lo depois, com a obra devidamente revisada, à guisa de recompensa. É isto muito curioso: quando um médico, ou um advogado, ou um engenheiro precisam de trabalhar até tarde, ou fazem plantão aos fins-de-semana, ninguém acha estranho. Chegam a dizer: que exemplo de funcionário, trabalha muito, aplicado que só. Mas quando o mesmo acontece com os escritores, a abordagem é completamente distinta. Ficas aí feito um vadio até às tantas, dizem, a ler, a pesquisar, precisa de sair, viver, não me dás atenção.


[A. G.] Achas que não levam mais a literatura a sério?

[P. R.] Pois não. Antes era chique mexer com essas coisas. Toda a gente queria ter um literato na família. Os gajos e as raparigas podiam dizer na escola: meu tio escreve ficção; e logo os professores e as professoras iriam adotá-los. É a tal morte dos intelectuais também. A sociologia a perder as referências, a filosofia a sofrer das mesmas mazelas. E com tantas opções de entretenimento oferecidas por Netflix e irmãs correlatas, quem quer desacelerar um bocadinho e ler folhas de papel? Bom, pelos vistos, há ainda uns doidos que se propõem a isso.


[A. G.] O que os teus trinta e três anos de planeta te ensinaram?

[P. R.] Que muitos fazem promessas e muitos não irão cumprir tais promessas. Hoje alguém diz: te prometo isto e aquilo. Amanhã, não cumpre, nem depois de amanhã, nem no próximo mês, nem nunca mais. São raros os que mantêm a palavra. Se por um acaso possuis um ser humano assim por perto, ser humano com iniciativa, ser humano que faz, que coloca as coisas em prática, ora, meus muitos parabéns — tiraste a sorte grande.


[A. G.] O que dizes quando alguém te acusa de pessimista?

[P. R.] Digo: tens lá razão, sou mesmo pessimista.


[A. G.] Não te incomoda?

[P. R.] De forma alguma. Vê, por exemplo, estes dados. Citá-los-ei de cabeça, certo? Sem nenhum rigor científico. Fiquei a saber que em 2018 o atacante Fred do Cruzeiro ganhava cerca de R$ 600 mil por mês. Isto para chutar umas bolas à meta adversária. Fiquei curioso e pesquisei a média salarial de um médico brasileiro: 12 mil dinheiros. Não precisaria de lembrar que médicos salvam vidas. E o salário dos professores no Brasil? Menos de dois mil reais. Recapitulo: o Fred ganha R$ 600 mil por mês para ser futebolista. Um professor brasileiro ganha menos de dois mil mangos para guiar o futuro educacional de um país.


*O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha encontra-se disponível à Lojinha deste electro-sítio. Para mais informações, aperta aqui.

P. R. Cunha reflete brevemente a respeito do P. R. Cunha / palavra de honra

Sou o louco da família, segundo a minha própria família; sou o estranho, o absurdo, o distante, o engraçado, temperamental, bipolar, tênue, carinhoso, explosivo. Quando não escrevo, pratico o cycling (moderado) e a vipassana meditation (em sânscrito: विपश्यन). Não creio muito nos deuses, já vi fantasma(s), acho que o meu falecido pai está a me observar — não sempre, às vezes, à noite, ou quando a casa mostra-se «vazia». Gosto de me fingir de escritor perturbado, escrevo todos os dias das oito e trinta às onze e trinta da manhã. Gosto de, como se diz, meter o bedelho nas coisas para as quais não dou a mínima. Não sou muito bom em descrever cenários, prefiro mostrar aquilo que se passa dentro da cabeça das personagens. Só no escrito é que me sinto seguro (refugiado! [imagem do exílio]), utilizo as prateleiras da minha biblioteca como muralha para o mundo. Meu escritor favorito é o W. G. Sebald. Sim, W. G. Sebald — para sugerir a imagem do intelectual outsider e pouco compreendido que também pretendo encarnar. Etcétera.

— P. R. Cunha

Ação/reação: sentidos opostos (fugir algures)

Para o Daniel Jatobá

Antes de sair para umas merecidas férias (cerca de dez dias [porque mais do que isso enlouqueço]), achei coerente publicar texto que me fizesse refletir um bocadinho enquanto longe desta atividade literária que, de muitas formas, me legitima quando estou à sociedade. Uma recente conversa com o grande amigo e professor existencial Daniel Jatobá* instigara-me como da praxe a questionar o papel do escritor num contexto cada vez mais mutável, imprevisível; como a pessoa que se dedica aos livros** precisaria — ou não — se posicionar diante de determinados contextos contemporâneos etc. Estas foram as intenções, como se diz. Em que medida as consegui pôr na prática não me compete a mim julgar.

*Intrigante escritor-personagem sobre quem os leitores brasileiros, em breve, terão o prazer de ler no conforto dos respectivos lares.

**A confissão arrepiante, sussurrada, de um homem que dedicou a vida à obra e que agora precisa de se controlar para não se arrepender; construir para si narrativas que justifiquem as fugas para cantos fechados enquanto o tempo passa, enquanto a vida passa.


Estamos em 2018 e está a acontecer todo o tipo de porcaria, coisas realmente doidas, isso para dizer o mínimo.

O escritor maduro — ou seja: aquele que não sofre mais antes de escrever, aquele que encontrara a própria voz, aquele que tem já na memória um sem-número de referências que lhe auxiliam a qualquer momento, aquele que se esquecera do jargão «bloqueio criativo» pois tem sempre algo engatilhado a respeito do qual deseja discorrer com afinco —, o escritor maduro, como eu estava a dizer, que depois de tanto estudar/pensar/matutar/problematizar está agora a ouvir no rádio as últimas notícias do mundo e se vê invadido por uma estranha sensação de culpa, como se fosse um dos maiores responsáveis pelas anomalias sociais: escuta passivamente, acredita que não se envolvera o bastante até ao ponto de fazer a diferença, de influenciar de maneira positiva a escolha das outras pessoas, de compartilhar o conhecimento que adquirira nesses anos em que a boa fortuna lhe dera todas as condições possíveis e inimagináveis para exercer literaturas.

Depois do setembro mais quente de sempre, estou farto de tanto calor.

Qual seria, portanto, a missão do escritor (por vezes a confundir-se com a figura do intelectual), a prioridade, o que deve exigir a atenção e a engenhosidade do escritor, escritor que, como já foi dito, passara anos a estudar, a adquirir toda a sorte de conhecimentos, qual o propósito disso tudo?

Deve ou não ter empenho político, ser alienado, ter engajamentos, convicções, que postura adotar diante dos acontecimentos tenebrosos, da possibilidade cada vez mais plausível de o Brasil eleger um protótipo de fascista com cérebro de Homo neanderthalensis (sem querer desrespeitar os Neandertais), um fascista falsificado, e toda a gente que já se deparara com mercadoria falsificada sabe do risco que estamos a correr.

Fica-se muito confuso, diz que «puxa vida!, a verdade é que odeio política, mas as pessoas sabem que eu escrevo, e pensam que tenho muito a dizer sobre política, economia, taxas, ideologias, mas acontece que se alguém me perguntasse qualquer coisa sobre o Sebald eu saberia responder, sobre o Paul Auster, também saberia imenso, sobre o Winston Groom, sobre o Tchekhov, mas sobre política […]».

Escritor politizado: ou bem se faz de ridículo ou muito raramente se torna um guia digno de se seguir — como um George Orwell ou um Jonathan Swift.

Compreende que a casa está prestes a desmoronar mas não imagina como uma massa encefálica repleta de referências literárias conseguiria melhorar a conjuntura; sente dores, sente medo, sente-se impotente, fraco, vaidoso, suscetível, vingativo, perdido — não quer se responsabilizar por nada nem por ninguém, não quer adotar posturas pedantes à moda eu avisei. Estão todos no mesmo barco.

Minha avó chega de Niterói, daqui a pouco. A que ponto habituei-me às pequenas ocasiões desta existência em ebulição. Passear com vovó enquanto tudo está a ruir, pensar que não sou babá de vivalma, que não só os escritores têm responsabilidades, todos os brasileiros têm responsabilidades, e cada um pode e deve decidir por si quais são essas responsabilidades, sempre com a terceira lei de Newton à cabeça = as ações possuem reações, consequências. 

Que os demônios eleitorais tenham piedade de nós…

— P. R. Cunha

Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha

Pergunta #19 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Criou para si rituais específicos à escrita, ou mesmo um bunker-esconderijo?

[P. R.] Eu escrevo numa cadernetinha cinza. A cor, em verdade, não me importa. As páginas, no entanto, precisam ser pautadas. Trata-se de uma cadernetinha barata, porque se crio qualquer vínculo daí já não escrevo nada. Olha que Moleskine incrível, com capa de couro, celulose creme, que beleza. Quem é que pode danificar uma preciosidade dessas? Tomo o café antes de me sentar à mesa, café sem nada, precisa ser amargo como um cão acometido de sarna — estranho eu gostar do café desse jeito, mas assim são as coisas. Depois, permito-me un regalo, como se diz, caso consiga preencher vinte ou trinta pautas (eis o porquê das pautas, aliás). Un regalo é basicamente: outra chávena de café. Acontece de às vezes a mesa estar uma verdadeira bagunça, e há folhas para todos os cantos com anotações sobre uma suposta tese a respeito das narrativas do senhor W. G. Sebald que dura já cinco anos, e começo a ter cá sérias dúvidas se um dia vou mesmo terminar essa tese. Imagino a cara do António quando receber essas duas-três-mil laudas sobre o Sebald, e você de certeza vai achar aquilo um disparate. P. R., nós não podemos publicar isto aqui. Eu percebo. Há uma janela que dá para os meus vizinhos, e como não sou de lidar com vizinhos nunca me distraio para a janela. Mantenho um violão por perto e dedilho o violão quando angústias. Escrever usurpa. Não é lá sempre muito bonito como imaginam. Pó de almas destroçadas. Mas não me lembro mais da pergunta.

p. r. cunha

Pergunta #13 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] No ano passado, neste mesmo café, você comentou por alto a respeito dos escritores que assustam. Estava a querer dizer o quê?

[P. R.] Que é tudo de certo modo inexplicável, ilógico. Thomas Bernhard me assusta, Sebald me assusta muitíssimo, daí temos o Peter Handke, a Dulce Maria Cardoso, o Raymond Carver, a Danuza Leão, a Elizabeth Bishop, o Junichiro Tanizaki, que assustam um bocado, as peças do David Mamet, a poesia do Ernst Herbeck — assustam. A imagem do leitor/observador que nunca dorme porque as reflexões excêntricas o mantêm em constante desassossego, está a perceber? E por vezes é preciso tomar muito cuidado quando nos aproximamos desses autores. Podem levar-nos a um cume onde a vista é absolutamente linda, conseguimos ver tudo lá de cima, e depois, à guisa de diversão, empurram-nos para o abismo, ou esmagam-nos com uma pedra de mármore. Tudo de certo modo ilógico, perturbador mesmo.

Águas do rio

Em maio de dois mil e dezesseis, depois de um período particularmente confuso, parti para Niterói a ver se conseguia recolher alguns documentos sobre a infância do meu pai. Passei toda a viagem com a poltrona inclinada a olhar para o botão de chamar a aeromoça, com vontade de pressioná-lo, mas sem de fato fazê-lo. O plano inicial era ficar quatro dias no apartamento da minha avó e talvez sair com ela para caminharmos pelas ruas em que papai costumava brincar em menino. Mas que vovó já estivesse a me esperar à portaria do edifício com uma vestimenta, de pronto notei, completamente adequada para uma longa caminhada foi algo que me pegou de surpresa — de modo que só tive tempo de sair do táxi amarelo e deixar minha mochila aos cuidados do porteiro. Durante alguns minutos caminhamos em silêncio e de vez em quando vovó permitia-se uma careta quando passávamos por algum dos canais terrivelmente fedorentos que cortam o bairro de Icaraí e que em tempos melhores, dizem, brilhavam com o azul do céu. Hoje está tudo mudado, minha avó disse, tudo mudado. Antigamente, ela continuou, era uma cidade bonita, sabe, de cuja beleza a memória aos poucos se esquece. Paramos em frente a uma casa abandonada e vovó apontou para uma janela de madeira no segundo andar: quarto do seu pai. Sempre senti uma espécie de inquietação quando diante de uma estrutura arruinada, pensei. Como se o declínio arquitetônico me perturbasse da mesma maneira que os acidentes automobilísticos, o desemprego, a perda de tudo, do conforto, da dignidade, porque receio poder vir a ter um final parecido. Seu pai tinha muitos amigos, disse a minha avó, de início queremos lá ter muitos amigos, estar rodeados de amigos, mas isso mudo à medida que envelhecemos, pois começamos a perceber que quanto mais amigos nós temos, mais ao cemitério precisamos ir. E a cada ano, ela continua, a cada ano é um monte de gente que morre. Nós cá ficamos, e para quem fica é sempre pior. Um pouco mais adiante, sentamos num banco de cimento a partir do qual podia-se ver a praia de Icaraí, com o Pão de Açúcar a ilustrar o horizonte acinzentado. A cidade, o mar, as pessoas, todos viram costas à desgraça de uma mãe que perdera o filho, vovó disse. Seguiu-se uma breve pausa até que ela de súbito me perguntou: já leu Adalbert Stifter? Respondi que nunca havia lido nada de Stifter, apenas um ensaio sobre Stifter escrito pelo Sebald. Vovó então fitou um ponto de fuga invisível: curioso destino, este de as pessoas que têm de aprender a conhecer-se e reconhecer-se, a compreender-se e a estimar-se para a seguir e para todo o sempre — se separarem. É Jenny Lind, ela disse.

— P. R. Cunha