Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – primeira parte

Na Grécia Antiga filósofos com inclinações astronômicas dedicavam-se com afinco às miudezas celestes. Não demoraram a notar que enquanto alguns pontos luminosos permaneciam estáticos, outros mostravam-se inquietos e como que passeavam na vasta malha escura estendida sobre as suas cabeças. Deram a esses corpos rebeldes o nome de πλανήτης (planētēs), palavra grega que significa «viajante, andarilho».

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Em outubro de 2013 as lentes do telescópio Pan-STARRS da Universidade do Havaí detectaram excêntrico mundo de massa planetária a perambular uma remota região da Via Láctea. O objeto, que fora batizado de PSO J318.5-22, não orbitava nenhuma estrela, estava completamente isolado. Michael Liu, astrônomo que liderava a equipe responsável pelo telescópio havaiano, constatou que we have never before seen an object free-floating in space that looks like this. A descoberta possuía todas as características dos corpos que fazem parte de um sistema solar, but it is drifting out there all alone.

PSJ318522

PSO J318.5-22 é um planeta órfão, nômada, que numa altura foi ejetado da vizinhança estelar da qual fazia parte por perturbações gravitacionais. É possível que tenha sido expelido do sistema por um enorme objeto que passara demasiado próximo, ou mesmo rejeitado pela estrela que lhe oferecera abrigo nos primeiros milhares de anos. Agora, porém, mostra-se um gigante gasoso livre de obrigações. A figura de um viajante cósmico independente vagando solitário nas profundezas escuras do universo em expansão, dando jus à nomenclatura grega que remonta longe no passado.

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Em meados do inverno de 2019, logo depois de finalizar os devidos arranjos instrumentais para o meu próximo álbum, parti para os Andes a ver se superava um estágio particularmente perturbador da minha doença saturnina, sem saber ao certo o que esperar dessa repentina fuga às montanhas chilenas. Acontece de tentarmos escapar dos nossos fantasmas apenas para lidarmos com eles numa outra geografia. Assim como os anéis constituídos por cristais de gelo e partículas de meteoritos não abandonam facilmente a zona gravitacional do planeta, a sombra obscura também orbita em faixas circulares ao nível dos nossos pensamentos; quer no Brasil, quer no Chile.

No volumoso ensaio sobre as chamadas mazelas da alma, Robert Burton confessara que escrevia sobre a melancolia por estar ocupado a evitar a melancolia. A ver se tal procedimento também surtiria efeito nos meus ânimos, comprei uma caderneta azul ultramarino da Papertalk e rabisquei quaisquer coisas sobre a nação em que estava prestes a aterrar. Segundo as minhas primeiras anotações, o Chile possui cerca de seis mil quilômetros de faixa litorânea e apenas 174 quilômetros (em média) de largura — medidas que o tornam o país mais vertical do mundo.

Enquanto escutava o hipnotizante ruído das turbinas Rolls-Royce, lembrei-me da epígrafe escolhida por Enrique Vila-Matas ao livro A viagem vertical. É o trecho de um poema de Vicente Huidobro: Caia/ Caia eternamente/ Caia no fundo do infinito/ Caia no fundo de si mesmo/ Caia o mais baixo que possa cair.

FokkerAnde1972

Olhei pela janela arredondada do avião. Sobrevoávamos as cordilheiras e senti um estranho calafrio, pois julgava estarmos no local exato em que o voo 571 de la Fuerza Aérea Uruguaya caíra sobre as montanhas pontiagudas dos Andes. A aeronave Fairchild Hiller que levava a equipe de râguebi Old Christians para Santiago perdera o controle na tarde de 13 de outubro de 1972 e despencara no Glaciar de las Lágrimas. Das quarenta e cinco pessoas que estavam a bordo, apenas 16 conseguiram sobreviver à tragédia, cujos detalhes foram retratados em ¡Viven!, obra de Piers Paul Read adaptada aos ecrãs cinematográficos pelo realizador Frank Marshall.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: escrever e viajar — ofícios da mesma prática*

Juan Carlos Onetti dizia que o criador/artista precisa de ter a força para viver solitário. Um tipo específico de animal humano que tem a coragem de olhar para dentro de si mesmo, que compreende que não há trilhas para seguir — constrói o caminho à medida que o percorre (como já tivemos oportunidade de ver neste caderno [vide figura do comboio]).

Escrever e viajar: duas viagens.

As odisseias de Homero, as andanças de Ulisses, as raízes da própria literatura vêm dessa vontade, desse desejo… ou melhor, dessa necessidade (sublinhar necessidade) de estar noutro sítio.

O viajante então torna-se filósofo à maneira Nigel Warburton: não se limita a expressar as suas crenças, ele raciocina, define, classifica; uma tentativa constante de ir além das aparências, quer ser desafiado, criticado, sabe que a maioria dos trajetos aparentemente simples não tem uma direção simples.

Quantos romances sobre o mar, sobre as chegadas e partidas em docas atingidas por ondas irascíveis, sobre o faroleiro que avista no horizonte marujos completamente fatigados, mas que a despeito do sopro da morte nunca param. Ahab encontra o cachalote — símbolo marítimo das obsessões do homem. Moby Dick, Herman Melville, acerto de contas com os próprios demônios. 

O oceano: destino dos aventureiros, dos rebeldes, dos insatisfeitos, daqueles que buscavam outra coisa, noutras costas.

A própria jornada narrativa (arco narrativo [para os catedráticos]) — apresentação do protagonista no mundo dos comuns, o chamado para a resolução de alguma dificuldade (desafio), aventura, lidar com algum impasse (algo ou alguém que está a impedir o protagonista de realizar o que pretende), ter de resolver o impasse, buscar a ajuda de algo (porção mágica/armamento/poderes/etc.) ou de alguém (ajudante/tutor[a]/companheiro[a]/justiceiro[a]/sábio[a]/etc.) para resolver o impasse, os objetivos que precisam ser alcançados, o sucesso, o fracasso, as transformações do protagonista no desenrolar da missão, o retorno à casa.

Se lemos, vemos, ouvimos, escrevemos uma história… estamos a viajar.

— P. R. Cunha


*Ironicamente, o autor tem de interromper temporariamente a publicação do Caderno de viagem por motivo de viagem. Feliz 2019!