O alienígena

Pensem na quantidade de insetos que vocês já mataram, consciente ou inconscientemente — disse o professor, que a muito custo procurava manter a vista num ponto invisível, a dois palmos da tomada do ar condicionado. Nos últimos anos a universidade teve de lidar com uma série de casos de assédio envolvendo docentes e alunas; todo cuidado, como se diz, era pouco. O fio do ar condicionado, notara o professor, estava desencapado. Então, pensem na quantidade de insetos mortos, ele continuara, esses seres estúpidos e insignificantes. Os olhos do professor fizeram uma breve varredura na sala: os alunos pareciam apreensivos, uns confusos, outros com sono, se calhar até um pouco ansiosos para saberem a que conclusão o professor chegaria com essa ladainha de insetos estúpidos e insignificantes. Agora pensemos o seguinte, ele prosseguira, pensemos na possibilidade de vida alienígena inteligente, e todos nós sabemos que estamos à procura disso, oh!, sim, não medimos esforços para alertar ao Cosmos a nossa localização, não somos nada, nada discretos. Aqui o professor encosta-se na própria mesa, cruza os braços: as formigas também não são nada discretas quando saem do formigueiro. O que nos faz pensar, ele continua, o que nos faz pensar, em sã consciência, que nós não seríamos insetos inconvenientes para essas criaturas extraterrestres?

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #10)

entre lá & seja você mesmo, disseram-lhe. mais dois tapinhas nas costas, «tap-taps», não tão leves ao ponto de serem considerados protocolares nem tão pesados ao ponto de darem a impressão de arrogância/indiferença. tapinhas nas costas na medida certa, ele pensou antes de ultrapassar as cortinas do auditório da universidade, «tap-taps» realmente encorajadores, eficientes. o auditório era formado por plateia dispersa: alunos, professores, alguns coordenadores, visitantes temporários. como da praxe, todos faziam cara de que gostariam de estar algures. mas estão ali sentados. plateia. ele se aproxima do púlpito. o púlpito/tribuna possui o brasão da universidade. um brasão ostentador, ele pensa, agora que está próximo o suficiente do brasão para ter a certeza de que se trata mesmo de um brasão ostentador. há poucos meses ele também estava sentado numa daquelas cadeiras apenas aparentemente confortáveis do auditório da universidade. também com uma fisionomia distante, aluada (dir-se-ia). agora, porém, estava ao púlpito. atrás do brasão ostentador. e não queria fazer feio. de forma alguma. fazer feio estava fora de cogitação. um fracasso seria terrível, irreparável, justo agora que as coisas pareciam ter se ajeitado. tira pigarro invisível da garganta, dá algumas cutucadas no microfone, percebe que está funcionando perfeitamente. é um ótimo microfone, ele pensa. uma garota com cabelo colorido acaba de bocejar. ela está sentada sozinha na primeira fileira. seria impossível não perceber o bocejo. a garota emite sons ao bocejar, sons prolongados: ahhhhhhm/uhhhhhhmmm/arrrrrrrgmmm, sons do tipo que o tio bob fazia quando a tia mércia dava-lhe um sermão. mas não é altura para distrações. ele está sobre o palco, ao púlpito, atrás do brasão ostentador com as iniciais da universidade gravadas em, ao que parece, ouro. o mais provável, no entanto, é que não seja ouro, seja algum material cor-de-ouro, mas que não seja ouro propriamente dito: uma imitação, portanto. ele posiciona o fino & flexível mastro do microfone para que a sua voz saia límpida, inteligível. depois ajeita os óculos ao nariz. óculos arredondados à moda professor universitário anos 1960, ou daqueles que os vocalistas das bandas indie costumavam usar (weezer, ric ocasek, telekinesis, death cab for cutie &tc. &tc.). sente vergonha do próprio aspecto. livresco demais, (pseudo)intelectual demais, ele pensa. a camisa de flanela com motivos quadriculados-preto-&-vermelho parece querer estrangulá-lo. olha para trás, para a brecha da cortina pela qual entrara ao palco. pensa se ainda daria tempo de desistir. de voltar ao conforto daquela brecha. de ir-se embora. mas não pode. tem de continuar. chegara a vez dele.

— p. r. cunha

Cem jardas para o livro

Por questões justificáveis, a escrita costuma ser associada ao academicismo — ou pelo menos à erudição. Talvez porque o «colocar ideias num determinado contexto» seja, amiúde, a continuidade de uma jornada cuja travessia mostrara-se repleta de leituras. E o erudito (eis a lógica duvidosa) lê mesmo um bocado.

Distorções parecidas parecem também assombrar esta outra atividade considerada por muita gente como um jogo intelectual: o xadrez. Ainda no panorama acadêmico, poucas reações costumam ser mais cômicas do que a do professor que precisa de confessar que não sabe jogá-lo. Consideram o xadrez um desafio ao cérebro; de forma que manusear as peças sobre o tabuleiro seria uma constatação da própria inteligência, amostra de sagacidade.

Curiosa insegurança.

Quando perguntaram para o Grande Mestre Bobby Fischer — provavelmente o maior de todos os tempos — o que achava dessa glorificação intelectual do xadrez, ele respondera com a frieza da praxe: é apenas uma superfície lisa com casinhas quadriculadas, só isso. Boris Spassky, ao que parece, pensa da mesma forma.

Não surpreende, portanto, que muitos ainda se sintam deveras incomodados quando essas práticas santificadas são deslocadas do pedestal para alturas mais, digamos, mundanas.

Há uma mesa cheia de docentes universitários. Estou sentado para a ponta direita, visivelmente desconfortável (spoiler alert: não sou docente universitário). Um dos professores me pede para discorrer a respeito do meu processo de escrita. Eu me arrumo na cadeira, bebo um gole de café e explico:

«Futebol americano, NFL. O escritor em muitas ocasiões faz as vezes do quarterback, precisa de saber lançar a bola direitinho, sim, mas sem ser afobado. Se percebes a aproximação da defesa, guarda a bola, tem calma, espera. Quinze jardas para a frente, quatro jardas para trás, mais doze adiante. Se há buracos na linha adversária, ótimo!, não hesites em acionar o running back. Deixa-o correr. Corre, running back, tu dizes. A secundária agora se mostra povoada? Então joga a bola para o alto, vê se o tight end está em forma. O fim do livro depende disto, da quantidade de touchdowns que a tua equipe consegue emplacar. E estejas preparadinho para deixares o campo completamente arruinado, com toda a sorte de escoriações. Pode ser um jogo brutal…»

Pela fisionomia assustada do professor, deduzi que aquilo não era bem o que ele estava esperando. E quando, irrequieto, voltou-se rapidamente aos outros colegas para discutir «pormenores universitários», daí tive a certeza de que não era mesmo o que ele estava esperando.

— P. R. Cunha


nfloldtimes

 Quarterback é atacado pela defesa adversária: tal escritor a escrever livros. (Imagem: NFL Archives)

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha