Poucos esforços para não dar a perceber a vaga de sentimentos de saudade (série haiku com título relativamente longo)

1.
Homem-glaciar
ela disse
a porta ainda entreaberta

2.
Sozinho às traseiras
nota aguda de trompete —
desaba a tempestade

3.
Lembranças do meu pai
quente chávena de café
lá fora faz inverno

— P. R. Cunha


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Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha