Arquiteto literário: modos de usar

Vê o caso dos contos. Como nasce uma narrativa breve, curta? (Penso nos contos porque embriões de [quase] todas as formas literárias [como diziam os antigos: o romance é lá um conto cujo final fora constantemente adiado pelo autor].) Então, repito, como nasce um conto? Estás a caminhar num país estrangeiro e escutas qualquer coisa exótica. De aí vêm cenas inusitadas à tua cabeça; trechos, recortes. Se colocas esses fragmentos numa folha de papel terás quem sabe uma promissora antologia de contos. Obviamente, quererás adicionar um ou outro adereço com viés fantasioso — o «gostava que tivesse sido assim». És também um arquiteto quando escreves o conto, percebes? Os parágrafos são as paredes da tua morada. Ainda dentro da analogia arquitetônica: o teu estilo tornar-se-á o paisagismo, a decoração interior. Há casas mais bonitas, outras mais feias. O leitor olha e reconhece. Isto é certinho.

— P. R. Cunha

Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.

Já posso ouvir os versos cantados pelo fantasma de Pessoa — ou uma jornada tragicômica com turbulências (Lisboa)

Chegar duas horas antes da descolagem, despachar as malas, fila do embarque (a contar atrasos eventuais causados por miúdos que jogam-se para o chão e esperneiam diante da mamã brasileira, que não liga patavina para aquelas tretas), entrar no aeroplano, colocar as malinhas nas bagageiras, nove horas dentro do transatlântico celeste, aterrar, entrar na fila dos possuidores de passaporte estrangeiro, ficar duas horas em pé, entrevista com a alfândega (motivo da visita?…, prêmio?, em Aveiro?, és jovem, ora!, quantos anos tens?, o quê?!, não, não posso acreditar, a sério?, e o livro vale a pena? [solta o prolongado «uhmmmnnn…»], gostava de ler exemplar com a tua assinatura, assim, quando fores famoso, claro, é isto, faz boa viagem, menino, parabéns pelo prêmio — diz o homem da alfândega), esperar o funcionário da transportadora que me leva ao hotel para o merecido descanso. O caminho até Lisboa dura quase uma vida inteira.

Anexo: ou trecho do livrinho de notas

Estamos a sobrevoar o Atlântico ao meio de uma turbulenta tempestade de relâmpagos; não acho que vamos morrer, mas é um bocado assustador chacoalhar-se dentro de um comboio alado a 11 mil metros da superfície. Enquanto isto, há uma coisa que está a mexer com os meus brios: a passividade forçada de determinados passageiros (via de regra: homens caucasianos que andam por volta dos 40 e têm as têmporas grisalhas) que fazem cara de desdém diante do desespero alheio, aquela odiosa cara de nada está a acontecer, estou calmo, um eremita, estressas-te à toa, a aviação moderna é segura, devias estar siente disto há muito, como se estivessem sentadinhos para a salita de televisão assistindo à novela vespertina, erguem os jornais, dão bocejos com ar de desprezo; se a lei ainda permitisse provavelmente acenderiam o cigarro aromatizado, dariam uma tragada e o segurariam com aquela pose tipo Oscar Wilde. O que vou escrever agora soará macabro pacas… Acontece que uma parte de mim (aquela com inclinações diabólicas) bem gostaria de que este avião caísse, só para ver essa gente irritante a gritar um bocadinho.

— P. R. Cunha

 

90 centavos e o valor da dignidade humana

A coisa é até bem simples, disse Miranda, você veste esta fantasia, faz lá umas dancinhas engraçadas durante quatro horas, volta e recebe o cheque de 120 dinheiros.

Agora estou vestido com uma fantasia com formato de número zero e tento fazer dancinhas engraçadas para os automóveis que param ao semáforo. Minha colega de trabalho, digamos assim, está vestida de número nove — o nome dela é Diana. Nossa tarefa é chamar a atenção dos motoristas para determinada oferta de determinado supermercado de Brasília: parece que o quilo de alguma coisa está a custar 90 centavos.

A nossa fantasia é felpuda, grossa, lembra a pele de um urso com excesso de peso. O termômetro urbano indica temperatura de 32ºC, mas aqui dentro — e Diana concorda — parece mais uma fornalha industrial em ebulição.

Noutros termos: sinto-me como um chocolate esquecido dentro do porta-luvas de um Fusca num dia assustadoramente quente em Copacabana.

Diana está suando e diz que nunca fizera nada tão indigno, vergonhoso, subalterno na vida. Um automóvel passa raspando e o motorista me chama de «cuzão», sem mais nem menos.

Tento me sentar na grama à espera do próximo sinal vermelho e logo percebo que isso não foi boa ideia. O peso da fantasia me joga para trás e fico deitado balançando as perninhas. Então é assim que as baratas de cabeça para baixo se sentem. Diana me ajuda a levantar.

Nossas fantasias numéricas exalam um cheiro asfixiante de autocarros velhos cujo óleo nunca fora trocado. 

As quatro horas se passaram. Vou com Diana até ao escritório da Miranda, e ficamos a saber que Miranda não está, Miranda saiu para lanchar com o dono do supermercado, Miranda só volta amanhã, Miranda levara consigo os nossos cheques etc.

Sinto pena da Diana… e a Diana, de certeza, sente pena de mim também.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VI) – saudades

Ler este romance fragmentado é na verdade aumentá-lo e não estar a caminho de algum fim. Romance cujo ponto final não é o ponto gráfico, tipológico, mas sim a própria vida do leitor. Romance, portanto, que nunca acaba. Romance para ser [re]lido — quando (e se) quiseres.

2 (dois) de janeiro de 2015 (dois mil e quinze) / trechos

Um olhar atentivo para essas supostas confusões narrativas permite observar grande contigente de significados. Tais como promessas a cumprir:

» Dirigir o automóvel com mais prudência;
» Diminuir o consumo de sal;
» Passar menos tempo aos websítios pornográficos;
» Assumir que odeia os livros do Tolstói;
» Evitar masturbação antes de dormir;
» Parar de cortar o próprio cabelo (há profissionais para isso);
» Ter relacionamentos saudáveis com seres humanos reais;
» Atentar-se a banhos, higiene íntima (forma geral);
» Exercícios de movimentação;
» Pedalar a bicicleta (fins-de-semana);
» Observações de condições da pele (protetor solar);
» Verificar circulação sanguínea (necessários exames);
» Ir ao hospital, se assim se pode dizer.

Outros trechos (aleatoriamente ordenados [isto não é um diário íntimo {que fique bem claro}])

Escreva depressa antes que alguém morra no meio do caminho. Imediatismo. Amanhã não se sabe etcétera.

Familiares do Escritor simplesmente não estavam preparados para ler/ouvir o que ele tinha a dizer: que o esconderijo deles (familiares), que a fortaleza artificial deles (familiares) não era lá tão ordenada/limpinha como sempre acreditaram que fosse.

De início o efeito é mesmo imperceptível, você não percebe nada, não sente nada, e depois de algum tempo começamos a colher as primeiras mudanças — uma atitude imprevisível, um colapso nervoso, palavras rancorosas, um dos irmãos não desce mais para o jantar. Tudo depende do tempo que dispomos. Se tivermos paciência, encontraremos o ponto de viragem (ponto estequiométrico). O que era calmo e previsível, transforma-se num motor de instabilidades e incertezas. Espera e vê. 

Desqualificarão os livros dele como obra de um louco, produtos de uma mente esquizoide. Escritor indefinido. Sempre insatisfeito consigo mesmo. O coração batendo de pavor, de saudades.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho

Você nasce sozinho. Você morre sozinho. É basicamente isso. No meio há esse recheio agridoce a que rotulamos «vida», com tipologia gótica. Um estranho no mundo, um exilado na própria família, um inimigo de si mesmo: Escritor.

Há três irmãos, todos criados sob o mesmo teto, como se diz, mesma escola, mesmas viagens, mesma alimentação, mesmas oportunidades. Mas lá atrás, bem no início, se estivermos realmente atentos, perceberemos pequenas perturbações, ruídos ínfimos, comportamentos imprevisíveis; um mínimo distúrbio, o suficiente para gerar tempestades enquanto todos esperavam um belo dia soalheiro. Há três irmãos, os mesmos pais — e, no entanto, tão diferentes, tão incompatíveis, tão parecidos.

Comportamentos extremamente irregulares, às vezes ódio, às vezes amor, noutras um desprendimento glaciar. Não importava quão próximos e similares eram esses irmãos, uma mínima diferença, um pequeno acidente de percurso, e um deles (ou todos eles) a sair para um caminho distinto, totalmente inesperado. De aí, qualquer tipo de predição tornar-se-á impossível. A sorte, ao que parece, está lançada.

Dúvida de Poincaré: quais são os comportamentos possíveis de um sistema de três corpos que interagem entre si através de uma força gravitacional?

Acha-se o leitor diante de uma multiplicidade de acontecimentos individuais, microcosmos narrativos, se preferir, cenas que por vezes são ou desprovidas de ligações claras, ou vinculadas por relações imaginárias muito instáveis. Está a construir o edifício com o Escritor, sente que participa ativamente do processo da leitura, sente que está a ser desafiado, nunca lera nada parecido etcétera.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha