Silent Nights

The first part of the project — remembering the effects of war on the soldier’s behavior. Trauma and memory, shell shock, neuroses, etc.

Despite the helmet and the savage countenance, the soldier is above all just a human being.

A soldier once told me
that every war has at least
two types of death —
the death of those
who fought on the battlefield
and the death of those who had
to survive it.

Music & edition by P. R. Cunha:

 

O telefone

Começa assim: você está em casa a resolver tarefas domésticas quando escuta o telefone tocar. Você raramente recebe telefonemas, e não estava de forma alguma a pensar em telefonemas, muito menos na morte, você apenas distraía-se com os afazeres domésticos. No entanto, eis que toca o telefone e alguém do outro lado da linha diz que sente muito, sente muitíssimo, que não queria lhe dar aquela notícia terrível, que nunca é fácil dar notícias desta natureza, mas, infelizmente, é preciso fazê-lo… Você então desaba a chorar e passa a desenvolver um trauma patológico. Você agora tem aversão incontornável ao telefone, e por vezes você escuta o barulho penetrante do toque do telefone às nove da noite, ou mesmo às duas horas da madrugada, e você não atende. O telefone toca durante dias inteiros, você escuta-o tocar, mas não se atreve a atendê-lo. Você sente medo.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha