O marido

O teu marido é um neurótico. Ou melhor: vamos «supor» que ele seja um neurótico. Ele se mantém confinado em casa a verificar se todas as janelas estão devidamente fechadas, se as portas estão trancadas à chave (duas voltas completas de chave), se há alguma teia de aranha a se formar nas quinas do teto. O teu marido pouco faz além dessa rotina que, convenhamos, já começa a te perturbar imenso: não brinca com a criança, não te leva aos espetáculos, não discute contigo os pormenores do teu dia-a-dia. Qualquer plano fora as janelas fechadas, portas trancadas e teias de aranha fica completamente alheio ao comportamento do teu marido. Tu começas a perceber também que ele está a ponto de se tornar psicótico, que ele mal consegue manter-se dentro daquilo a que chamamos — não sem um certo escárnio — de «realidade». Tem comportamentos estranhos, o marido. Um tipo excepcionalmente medroso, inseguro, infeliz, dir-se-ia. Então, a fim de salvaguardar a tua própria sanidade mental, tu começas a refletir com afinco sobre o buraco em que estás atolada. À tarde, antes da tua aula de yoga, o telemóvel vibra, o ecrã ilumina-se — é o Harold, do departamento de finanças da empresa para a qual tu trabalhas; ele está a convidar-te para tomar um café.

— P. R. Cunha