Zoologia

Psiquiatra sugere poesia-totem para os momentos intranquilos — senta e escreve sobre os animais. Os princípios terapêuticos da escrita. Como nos velhos tempos:

[Letras A, B, C, D, E, F, G, H…]

A aranha
faz cócegas
na pele humana

O beija-flor
bate as asas —
incontáveis 

A coruja
dos olhos sábios
ou anjo noturno 

O dromedário
sente sede
prefere não reclamar

O escorpião
envenena o sapo
à travessia

A formiga
trabalha dia-e-noite
para a rainha-formiga

O galo
canta de manhã
a quinta acorda

A hiena
tem má reputação
entre os leões

— P. R. Cunha

Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha