Poema para Tomas

Acordo de manhã cedo
e estou a fazer o pequeno-almoço
quando uma figura felina misteriosa
surge nos limites da moldura da porta
de vidro da cozinha onde fico
a beliscar o pão com geleia de frutas vermelhas
bebericando o café sem açúcar.
Quem olha para este gato
enquanto compreende-se ao sabor
da cafeína
não deixa de se maravilhar com o aspecto
do animal que tem as cores de
uma montanha de neve
a derreter sob a luz
do sol brando
geleira com faixas de pedra marrom
a surgir após um longo e melancólico inverno.
O gato visita-me vez sim vez não
vez não vez sim vez não
o bastante para eu —
com aquele distanciamento protocolar
de quem teme envolver-se de mais —
ter-lhe dado nome:
Tomas
O dócil felino fica a miar
até que a porta esteja aberta
e vem fazer carinhos nos meus pés
como forma de profundo agradecimento
pela tigela de leite que coloco lá fora.
Quando Tomas não aparece
por motivos felinos
sempre difíceis de compreender
a tigela de leite fica cheia
e vem até mim um pensamento
pensamento formado
pensamento resolvido
de que o bicho pode não voltar mais.
E é assim que vejo o Tomas
microcosmos das irregularidades
da vida.

— P. R. Cunha