Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha

Pergunta #13 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] No ano passado, neste mesmo café, você comentou por alto a respeito dos escritores que assustam. Estava a querer dizer o quê?

[P. R.] Que é tudo de certo modo inexplicável, ilógico. Thomas Bernhard me assusta, Sebald me assusta muitíssimo, daí temos o Peter Handke, a Dulce Maria Cardoso, o Raymond Carver, a Danuza Leão, a Elizabeth Bishop, o Junichiro Tanizaki, que assustam um bocado, as peças do David Mamet, a poesia do Ernst Herbeck — assustam. A imagem do leitor/observador que nunca dorme porque as reflexões excêntricas o mantêm em constante desassossego, está a perceber? E por vezes é preciso tomar muito cuidado quando nos aproximamos desses autores. Podem levar-nos a um cume onde a vista é absolutamente linda, conseguimos ver tudo lá de cima, e depois, à guisa de diversão, empurram-nos para o abismo, ou esmagam-nos com uma pedra de mármore. Tudo de certo modo ilógico, perturbador mesmo.

Além da escrita #3

PR – Kelton Gomes (Superquadra 202 Norte)
— Kelton Gomes, Superquadra 202 N / Fotografia: P. R. Cunha

[…] Insisto — escrever é um trabalho solitário, mas o escritor não precisa ser de todo sozinho. Escritor que se isola para a torre de marfim, parte indissociável da lenda; porque romântico. Montaigne o fez, de fato, fugiu das gentes do castelo e anotara para si os ensaios, longe. Mas depois percebeu que não aguentaria escrever somente para as paredes de pedra lascada e publicara os próprios pensamentos em edições caprichadas (pelo menos se levarmos em conta o conceito de caprichado para os convivas do século dezesseis). Sai do bunker, ou levanta submarino de vez em quando, e tudo se torna fonte de inspiração. Quando se tem a sorte de lidar com amigos talentosos, tanto melhor. A música do Kelton Gomes, por exemplo, sempre me foi crucial. Thomas Bernhard dizia que o escritor deve alimentar-se de todas as formas de arte. Se por um acaso a escrita lhe cansava, refugiava-se na ópera, na música clássica, no violino, nas pinturas. E o Kelton é bem isso. Um refúgio. Artista que ainda tem o cuidado de pensar na narrativa musical, e muitos já não se importam mais com esses detalhes. Quer dizer, a ordem das músicas para o Kelton é imprescindível. Trata-se de um álbum, ele diz, e se uma determinada canção destoa das demais, preciso colocá-la de lado, é outra coisa. Isto, repito, numa época em que o shuffle e os dez mil temas armazenados no aparelho do ouvinte é meio que regra. Por vezes essas afinidades se transformam em parceria. O Kelton pediu para utilizar uma foto que tirei em Frankfurt para ser capa do disco Distraído concentrado. Ou mesmo quando a escrita me aborrece. Tiro da mochila a câmera fotográfica, o Kelton está ao estúdio produzindo belezas e me coloco a retratá-lo. Depois, no conforto do lar, como se diz, edito tudo numa sessão «metakelton» — Kelton fotografado, Kelton nos fones de ouvido.

— P. R. Cunha

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