Temporários

A obsessão dos maias pelo tempo levou-os a construir sofisticados observatórios para determinar estruturas de continuidade — padrões que hoje em dia, não sem um automatismo distraído, podem ser artificialmente especificados pelas entranhas de um qualquer relógio de pulso. Esses nativos americanos observavam com destreza o ambiente que os rodeava e assim procuravam estabelecer marcos que permitiriam análises importantes do tempo, ao qual sentiam-se submetidos. O império que olha para o céu e pergunta-se o que há para além, o que está a preencher os espaços vazios entre as estrelas, qual o propósito da vida.

Eles não apenas registravam com minuciosidade os intricados ciclos de corpos celestes, como também acreditavam que tinham por obrigação auxiliar o Sol, criador do mundo, a manter a fábrica do tempo funcionando. De facto, as origens dos sacrifícios humanos realizados por essa antiga civilização, sobre os quais a historiografia muito já discutiu, vêm justamente da vital necessidade de alimentar com sangue o insaciável apetite dessa entidade cronológica, que, como sabemos, antes de desaparecer ao abismo do horizonte veste-se de vermelho. Dia e noite, luz e trevas, um presente que a qualquer momento poderia deixar de ser. Os maias encaravam constantemente a possível morte de tudo e um dos maiores símbolos dessa reverência é a Pirâmide de Kukulkán (El Castillo), construída em alguma altura entre os séculos VIII e XII na antiga cidade de Chichén Itzá. Tudo ali remete aos caprichos do tempo: 91 degraus, quatro lados (4 x 91 = 364), mais um último degrau que leva ao cimo — 365. Eficiente calendário arquitetônico a representar as passagens, as jornadas tirânicas que ao fim e ao cabo arrastam tudo pelo caminho.

Incertezas sobre a continuidade ou não do mundo modificaram-se à medida que a humanidade desenvolveu para si equipamentos mais precisos que auxiliaram astrônomos na tarefa de desvendar alguns dos mais estranhos mistérios do cosmos. No entanto, a era do controle absoluto, do total entendimento desse rio que corre adiante e é feito de acontecimentos, como dissera Marco Aurélio, parece longe de se concretizar. A ciência moderna orgulha-se de possuir relógios que funcionam baseados nas propriedades do átomo, e mesmo esses quase infalíveis mecanismos não são capazes de explicar o que está a acontecer quando dizemos o tempo passa. 

O tempo, coisa estranha que não se deixa apanhar facilmente nas malhas do nosso intelecto — o foi e não é mais, o será e ainda não é — continua a intrigar deveras. Essa abstração que atravessa os séculos, que desafia o bom senso daqueles que tentam elaborar discurso coerentes a respeito dos chamados deslocamentos para o futuro desconhecido.

De acordo com a mitologia grega, Cronos seria o deus primordial do tempo, que rege todos os destinos e a tudo devora. Nascido de Gaia (Terra) e de Urano (Céu) — a quem, ainda segundo a lenda, Cronos destronaria com um certeiro golpe de foice. O caráter destrutivo dessa perturbadora divindade que casara-se com a irmã Reia é intensificado depois de os progenitores terem-lhe garantido que o seu destino era mesmo ser superado por um dos filhos.

O poeta Hesíodo conta em La Théogonie que o poderoso Cronos devorava sem piedade as próprias crianças mal elas saíam do ventre da mãe, com o único propósito de impedir que qualquer outro brilhante descendente do Céu obtivesse o privilégio de reinar sobre os Imortais. Conta-se que conseguira engolir todos, exceto Zeus, «substituído por uma pedra enrolada num pano, amparado pela enorme Terra e mantido em segurança na vasta Creta», bem longe da voraz ira paterna. Hesíodo explica ainda que, mais tarde, Zeus, seguindo os conselhos de Prudência, levara a Cronos uma certa substância laxante que o fizera primeiro vomitar a pedra que tinha engolido e, depois, uma a uma, todos os filhos que jaziam dentro daquela gulosa barriga. Com a ajuda dos irmãos libertados, Zeus — figura invencível e a quem as preocupações jamais o atormentavam — supera Cronos e despoja o furioso pai de todos os privilégios divinos.

Parece significativo que nas antigas narrativas gregas pais e filhos se relacionem amiúde de forma tão tempestuosa, vingativa, cada um a querer destronar o outro, sem nem ao menos importar-se com a possibilidade de jogar o adversário familiar às profundezas do mundo subterrâneo, cujo símbolo mitológico é representado por Érebo, descendente direto do Caos. A crer no mito, Caos — personificação do vazio, do abismo insondável — gerara sozinho as trevas: Érebo e Nix (Noite), que juntos se opõem à luz. O primeiro, especificamente, designa as trevas infernais, o crepúsculo. A descendência desse deus das obscuridades é imprecisa, mas especula-se que da união entre Érebo e Nix tenham surgido os elementos que, não por acaso, a literatura da psicologia moderna costuma associar às condições melancólicas: Phobos (medo), Mors (morte), Invidentia (inveja), Keres (miséria), Deimos (terror), e por aí adiante.

Olhar para o céu e questionar-se, portanto, sobre esse fluir dentro da eternidade, o surgir e o desvanecer das estrelas, do Sol, o amanhecer e o anoitecer — movimentos que trazem vida, levam à morte. Quando a espécie humana compreende que, em matéria de tempo, temos apenas um bilhete de ida, e que esse tempo raramente passa como gostaríamos, volta então as atenções para o longe, foge para o infinito repleto de matéria escura. 

Em agosto de 1877, o astrônomo Asaph Hall apontou para Marte o telescópio de vinte e seis polegadas do Observatório Naval dos Estados Unidos e ao cabo de grande esforço encontrara os objetos que há muito procurava. Os satélites naturais do Planeta Vermelho não eram luas grandes como a da Terra; na verdade, nem ao menos chegavam a ser arredondados — tinham um formato exótico, achatado, pareciam batatas descascadas por algum cozinheiro distraído.

É possível, no entanto, imaginar a euforia desse obstinado explorador cósmico ao descrever os últimos detalhes da própria descoberta, ruminando a respeito de como deveria batizar as luas marcianas. No topo de um diagrama caprichosamente elaborado numa folha amarelada está a palavra «Marte» seguida por esta lacônica descrição com letras cursivas: deus romano da guerra, da carnificina, da impulsividade. Embaixo, dois objetos amorfos representam as luas recém-descobertas, e, em destaque, pode-se finalmente ler os nomes escolhidos pelo astrônomo norte-americano: FOBOS e DEIMOS  irmãos gêmeos, anota Hall, que instigavam em campos de batalha a covardia e o pavor no coração dos inimigos.

O planeta da guerra com os seus pequenos guardiões da perturbação — e o inevitável destino desta excêntrica família de astros. Estudos posteriores constatariam que Deimos, a lua menor, está a se afastar do campo gravitacional de Marte, enquanto Fobos se aproxima cada vez mais da superfície. Deimos fugirá para uma longa e solitária jornada pelo cosmos; Fobos em rota de colisão com o planeta que lhe deu abrigo durante milhares de anos. Terror do abandono. Medo de se desintegrar. 

Marte agora é o patriarca autoritário que observa, espera, indiferente, o fardo agonizante dos seus súditos condenados há tempos.

— P. R. Cunha


Moons – from Mars

Quarta nota #3 — a casa está a ruir

§ É preciso tocar na ferida de uma vez por todas. O começo do fim foi em 2015, quando Charles Cosac decidiu encerrar as atividades da editora Cosac Naify por conta das graves recessões econômicas que assolavam o país. A Livraria Cultura — que comprou e fechou todas as lojas Fnac no Brasil — há pouco entrara com um pedido de recuperação judicial porque não consegue pagar fornecedores. No início desta semana a rede de livrarias Saraiva decidiu encerrar 20 das suas 104 unidades. Motivo? — dinâmica do varejo. Ontem foi a vez de outra gigante se entregar à pior crise vivida pelo mercado editorial brasileiro desde sempre: a Companhia das Letras, fundada por Luiz Schwarcz em 1986, acaba de ser majoritariamente assumida pela norteamericana Penguin Random House. Apesar de o sr. Schwarcz ter tentado colocar os paninhos quentes e dizer que «do ponto de vista editorial não muda nada» e que só espera alterações nas áreas administrativas e tecnológicas, o fedor já está forte de mais para continuarmos a ignorar o defunto na relva. E diante de um novo governo federal mais preocupado com bombas e metralhadoras do que com as letras, essa marcha fúnebre não deve se alastrar por muito tempo.

§ Cientistas acreditam que o período glacial na Terra costuma ocorrer com frequência de 40 a 100 mil anos. No Brasil, porém, a era do gelo ocorre a cada quatro anos.

§ Chávenas de café, uns livros clássicos, outros livros que ninguém lê, rádio, cinzeiros sujos, duas toalhas azuis, armários divididos, copos de cerveja, chuveiro elétrico que por vezes dá choque quando o banhista gira a torneira sem que os próprios pés estejam sobre o tapetinho de borracha Made in China.

§ NFL aos fins de semana e a vida é basicamente aquilo que acontece entre um jogo e outro, preenchimentos, domingos com uma dúzia de futebol americano e o resto dos dias a seguir trajetórias circunstanciais.

— P. R. Cunha

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.