devaneios da própria máquina de escrever (episódio #32)

assolado pela dúvida & pela inconstância do próprio trabalho, otto rank confessa numa digressão epistolar que em diversas ocasiões pensara em desistir da escrita, pois já existe um excesso de verdade no mundo, ele diz, uma superprodução que aparentemente não pode ser consumida. qualquer pessoa que tenha publicado livro & cometa a insensatez de entrar numa livraria para analisar (i.e. contar) estantes abarrotadas de obras, milhares-&-milhares de obras, corre o risco de perder-se na vala dos verbos. filas infinitas de brochuras alheias & a tua está ali também, intrusa, deslocada. que alguém abra o teu livro & decida levá-lo para casa não deixa de ser um capricho do acaso. conta-se com a sorte. &, como se sabe, a sorte não é necessariamente a deusa mais aprazível do panteão.

«se não sabemos para que porto ir
nenhum vento é favorável.» (sêneca)

ler sêneca me faz lembrar que as ondas por vezes se agitam, que quando elas batem furiosas no casco é justamente a altura em que o barco mais necessita de um capitão firme & seguro de si. o mesmo acontece com a embarcação do escritor. não se deve fugir da escrita quando a realidade sacoleja a cabeça literária, quando a vida se mostra irascível. porque se as coisas não andam lá muito bem, a boa & velha dupla caneta/papel ameniza angústias. tu sentas à mesa, anotas frases, o relógio como que desaparece, o tempo deixa de existir, estás de repente suspenso, a quarta dimensão (ou a hipótese das cordas quânticas, multiversos, teoria unificada [do pequeno para o cósmico]) agora faz todo o sentido para ti. foster wallace, henry james, tchekhov (et al.) diriam que esse alheamento quase místico é o mais próximo da imortalidade que se pode chegar.

P.S.: NEURASTENIA (ALGUMAS COISAS DEPENDEM DE NÓS, OUTRAS NÃO)

os exercícios do crossfit da semana passada deram-me calos nas mãos, que se transformaram em bolhas, que abriram & revelaram bolhas dentro das bolhas numa sucessão que deixaria a alice de lewis carrol um bocado irrequieta. não demorou nada &, noite após noite, banho após banho, meu organismo começou a fechar essas bolhas, os calos também desapareceram. & ao invés de me admirar diante dessa eficiência genética, desse conveniente processo regenerativo, senti foi pavor. medo de habitar este corpo autônomo que cura bolhas por si só, sem qualquer intervenção de «minha parte» (o que quer que «minha parte» signifique nesse todo que se desloca pelo espaço-tempo & que se vira quando alguém na rua grita o meu nome).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #24)

[ontem, meu pai completaria sessenta & seis anos anos. dedico estas palavras rabugentas a ele, que sempre me incentivou a buscar refúgio nos livros.]

não é tanto uma questão de inteligência, mas sim de experiência. quero dizer: continuidade. antes de mais nada, mostra-se necessário livrar-se das distrações, dos supérfluos. dedicar-se àquilo que realmente importa. (i.e.): o marceneiro reclama que não tem tempo para terminar as mesas que foram encomendadas; o marceneiro passa cerca de oito horas por dia assistindo à televisão; a televisão, percebe-se, é o supérfluo do marceneiro. oito horas desperdiçadas numa atividade passiva, morosa, unidirecional. não à toa as pessoas que passam muito tempo assistindo à televisão costumam reclamar de «um certo vazio». o cérebro distrai-se com aquelas imagens sedutoras, cria-se um falso vestígio de troca, de convivência (barra) conveniência (barra) pertencimento. até que se aperta o botão «off», surge o silêncio, a ressaca — o que estou a fazer da minha vida?, &tc. o certo vazio nada mais é do que isto, o atestado de óbito do tempo, a constatação de tudo o que poderia ter sido feito durante aquelas oito horas em que a pessoa passara esparramada diante da tv como se, sei lá, meio-morta-meio-viva. de forma que a frase «fui/estou a ser enganado» é quase inevitável.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #23)

A CENA DO BAR

a cena do bar envolve sons/barulhos de bar (copos de cerveja, música com guitarra acústica aos altifalantes, o cozinheiro a fazer as mãos de megafone tentando confirmar algum pedido, a cacofonia de homens & mulheres rindo-se, o bêbado solitário que tira um pigarro invisível da garganta antes de recolher o próprio boné & sair a nenhures). a fumaça dos cigarros suspende-se na baixa atmosfera do estabelecimento. as pessoas sentadas ao balcão estão vestidas como se fossem figurantes de um filme mudo da década de 1920. certa dama flerta com um sujeito vestido de cowboy — jaqueta esfarrapada feita com pelúcia de ovelha, jeans azul, botas. a dama usa vestido preto, longo, pernas insinuantes que se mostram apenas ligeiramente entre os cortes da roupa quando ela se move no banco giratório. o cowboy levanta o copinho de uísque & sorri para a dama. sabe-se que uma das funcionárias de mesa (madalena em solteiro) começou a fazer o curso para ser hospedeira de bordo (aeronaves comerciais). ela é alta & jovem. dentro do bar está escuro, mas é um escuro que diz pouca coisa. não se tem a certeza se lá fora cai a noite ou se são apenas as nuvens carregadas de tempestade a cobrir a luz do sol. a verdade é que o tempo dentro dos bares nunca passa da mesma maneira, nunca passa.

— p. r. cunha

Tendência à introspecção

O sr. Jaspers está sentado no banco da Praça Central enquanto miúdos escolares jogam-lhe pedras. Não são pedras grandes e há também o sobretudo surrado do sr. Jaspers — a servir de escudo. As pedras batem no sobretudo, sobretudo amortece o impacto. O sobretudo, portanto, está para o sr. Jaspers assim como a atmosfera está para o planeta Terra. As crianças agem dessa forma porque ainda não têm discernimento, não sabem que jogar pedras no sr. Jaspers é errado. E o sr. Jaspers, que já foi criança numa altura, compreende, não se aborrece — apenas levanta a cabeça, observa o estado do céu. Cai a primeira neve, como se diz, neve fina, sonolenta. O sr. Jaspers não pode mais falar disto com a sra. Jaspers. Desta vez terá de guardar a primeira neve somente para si.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho

Você nasce sozinho. Você morre sozinho. É basicamente isso. No meio há esse recheio agridoce a que rotulamos «vida», com tipologia gótica. Um estranho no mundo, um exilado na própria família, um inimigo de si mesmo: Escritor.

Há três irmãos, todos criados sob o mesmo teto, como se diz, mesma escola, mesmas viagens, mesma alimentação, mesmas oportunidades. Mas lá atrás, bem no início, se estivermos realmente atentos, perceberemos pequenas perturbações, ruídos ínfimos, comportamentos imprevisíveis; um mínimo distúrbio, o suficiente para gerar tempestades enquanto todos esperavam um belo dia soalheiro. Há três irmãos, os mesmos pais — e, no entanto, tão diferentes, tão incompatíveis, tão parecidos.

Comportamentos extremamente irregulares, às vezes ódio, às vezes amor, noutras um desprendimento glaciar. Não importava quão próximos e similares eram esses irmãos, uma mínima diferença, um pequeno acidente de percurso, e um deles (ou todos eles) a sair para um caminho distinto, totalmente inesperado. De aí, qualquer tipo de predição tornar-se-á impossível. A sorte, ao que parece, está lançada.

Dúvida de Poincaré: quais são os comportamentos possíveis de um sistema de três corpos que interagem entre si através de uma força gravitacional?

Acha-se o leitor diante de uma multiplicidade de acontecimentos individuais, microcosmos narrativos, se preferir, cenas que por vezes são ou desprovidas de ligações claras, ou vinculadas por relações imaginárias muito instáveis. Está a construir o edifício com o Escritor, sente que participa ativamente do processo da leitura, sente que está a ser desafiado, nunca lera nada parecido etcétera.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha