Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho

Você nasce sozinho. Você morre sozinho. É basicamente isso. No meio há esse recheio agridoce a que rotulamos «vida», com tipologia gótica. Um estranho no mundo, um exilado na própria família, um inimigo de si mesmo: Escritor.

Há três irmãos, todos criados sob o mesmo teto, como se diz, mesma escola, mesmas viagens, mesma alimentação, mesmas oportunidades. Mas lá atrás, bem no início, se estivermos realmente atentos, perceberemos pequenas perturbações, ruídos ínfimos, comportamentos imprevisíveis; um mínimo distúrbio, o suficiente para gerar tempestades enquanto todos esperavam um belo dia soalheiro. Há três irmãos, os mesmos pais — e, no entanto, tão diferentes, tão incompatíveis, tão parecidos.

Comportamentos extremamente irregulares, às vezes ódio, às vezes amor, noutras um desprendimento glaciar. Não importava quão próximos e similares eram esses irmãos, uma mínima diferença, um pequeno acidente de percurso, e um deles (ou todos eles) a sair para um caminho distinto, totalmente inesperado. De aí, qualquer tipo de predição tornar-se-á impossível. A sorte, ao que parece, está lançada.

Dúvida de Poincaré: quais são os comportamentos possíveis de um sistema de três corpos que interagem entre si através de uma força gravitacional?

Acha-se o leitor diante de uma multiplicidade de acontecimentos individuais, microcosmos narrativos, se preferir, cenas que por vezes são ou desprovidas de ligações claras, ou vinculadas por relações imaginárias muito instáveis. Está a construir o edifício com o Escritor, sente que participa ativamente do processo da leitura, sente que está a ser desafiado, nunca lera nada parecido etcétera.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha

Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Este electro-sítio, enfim, transformara-se num confortável armazém para as «notas que não estou a utilizar nas minhas obras com fins de sobrevivência». Noutros termos: há um excesso de produção que desemboca nestas represas etc. É porque o engenheiro constrói prédios, o médico receita medicamentos, o confeiteiro faz doces, o piloto de fórmula um pilota o fórmula um, e o escritor… Bem, o escritor precisa de escrever.

Costumo almoçar sozinho, em silêncio. Não chega a ser um silêncio de morte, como se diz, silêncio absoluto (como o da câmara anecoica dos Laboratórios Orfield*) — nunca é. Pois consigo ouvir os passos dos vizinhos, a conversa do eletricista ao telemóvel, o barulho da motocicleta, o som da minha mastigação, o tique-taque do relógio. Os relógios sempre me fascinaram, e entre uma e outra garfada fico a pensar no tempo que eles me mostram. Procuro me lembrar o que almocei ontem, um almoço que não é mais. Amanhã, um novo almoço, que ainda não é. Olho então para o meu prato quase vazio — tique-taque-tique-taque —, este almoço também já passou. De todos os tempos, o que eu mais aprecio é o cosmológico. Aquele breve infinito que nos transporta até às partículas elementares, através do qual viajamos bilhões e trilhões de anos enquanto aqui na Terra a noite mal começara. Um tempo que se assemelha àquele em que vive o escritor: tempo que isola, que suspende. Tempo a levar tempo. Tique-taque. Tempo que passa, que está a nos consumir a cada voltinha do ponteiro vermelho. Tique-taque. Tempo que um dia também nos levará para sempre. Tique-…

— P. R. Cunha


*A câmara anecoica (sem eco) dos Laboratórios Orfield em Minnesota é considerada o lugar mais silencioso do mundo, com um ruído de fundo negativo de -9.4 dBA. Steven Orfield, responsável pelo projeto, costuma desafiar os visitantes a ficarem mais de 45 minutos dentro da sala, no escuro: «Quanto mais silencioso o local, mais a nossa audição tenta se adaptar. A pessoa então começa a ouvir o batimento cardíaco, a atividade pulmonar, o estômago trabalhando. Dentro da câmara anecoica, você se torna o som».

Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha

Hemisfério de Magdeburgo

Um relógio de parede já estava farto de estar na parede, desistiu de funcionar e deu consigo no chão da sala. Já não tinha mais de dizer as horas a ninguém.

(…)

O silêncio como forma de opressão/tortura; fazemos uma pergunta, esperamos resposta, que nunca chega, o receptor permanece calado, mudo, como se jamais tivéssemos feito pergunta alguma — a indiferença, portanto, desassossega.

(…)

Por entre as cadeiras
de um café
certa dama está a ler —
não lhe sei o nome
mas pouco demora
para chegar-me
um perfume
— a saudade.

— P. R. Cunha


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© Gravura de Gaspar Schott

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha