Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Este electro-sítio, enfim, transformara-se num confortável armazém para as «notas que não estou a utilizar nas minhas obras com fins de sobrevivência». Noutros termos: há um excesso de produção que desemboca nestas represas etc. É porque o engenheiro constrói prédios, o médico receita medicamentos, o confeiteiro faz doces, o piloto de fórmula um pilota o fórmula um, e o escritor… Bem, o escritor precisa de escrever.

Costumo almoçar sozinho, em silêncio. Não chega a ser um silêncio de morte, como se diz, silêncio absoluto (como o da câmara anecoica dos Laboratórios Orfield*) — nunca é. Pois consigo ouvir os passos dos vizinhos, a conversa do eletricista ao telemóvel, o barulho da motocicleta, o som da minha mastigação, o tique-taque do relógio. Os relógios sempre me fascinaram, e entre uma e outra garfada fico a pensar no tempo que eles me mostram. Procuro me lembrar o que almocei ontem, um almoço que não é mais. Amanhã, um novo almoço, que ainda não é. Olho então para o meu prato quase vazio — tique-taque-tique-taque —, este almoço também já passou. De todos os tempos, o que eu mais aprecio é o cosmológico. Aquele breve infinito que nos transporta até às partículas elementares, através do qual viajamos bilhões e trilhões de anos enquanto aqui na Terra a noite mal começara. Um tempo que se assemelha àquele em que vive o escritor: tempo que isola, que suspende. Tempo a levar tempo. Tique-taque. Tempo que passa, que está a nos consumir a cada voltinha do ponteiro vermelho. Tique-taque. Tempo que um dia também nos levará para sempre. Tique-…

— P. R. Cunha


*A câmara anecoica (sem eco) dos Laboratórios Orfield em Minnesota é considerada o lugar mais silencioso do mundo, com um ruído de fundo negativo de -9.4 dBA. Steven Orfield, responsável pelo projeto, costuma desafiar os visitantes a ficarem mais de 45 minutos dentro da sala, no escuro: «Quanto mais silencioso o local, mais a nossa audição tenta se adaptar. A pessoa então começa a ouvir o batimento cardíaco, a atividade pulmonar, o estômago trabalhando. Dentro da câmara anecoica, você se torna o som».

Há alturas em que temos tudo à nossa disposição

Uma teoria é feita de repetições. Estudamos determinados fenômenos, dizemos: não estou a compreendê-los; tornamos a estudá-los até, quem sabe, chegarmos a um nível aceitável de incerteza(s). E pode ser que no meio do caminho o investigador descubra sítios onde nunca ninguém esteve — descobertas acidentais, portanto.

O Sol brilha porque fusões nucleares estão a acontecer dentro de si. Quanto mais luminosa uma estrela, mais reações ocorrem no próprio núcleo. Estrelas supermassivas têm vida mais curta do que as estrelas comuns pois a sua taxa de consumo de energia é muito maior. Imagem terrestre à guisa de ilustração: enorme camioneta que gasta grande quantidade de benzina, enquanto um pequenino Prius é econômico e silencioso. Vida de uma estrela = quantidade de combustível / taxa de consumo*. Massa do Sol (em massa estrelar): 1. Tempo (em anos): 10 bilhões. Tipo espectral: G2.

Casa de mamã, fechado em mim mesmo como um microcosmos que quer ser mundo por conta própria. Neste quarto de mocidade sob cujo teto li pela primeira vez o Bernhard — Árvores abatidas. Quando nos mudamos para cá, meu pai fizera questão de que a minha janela estivesse voltada para o poente. Meu menino é contemplativo, dissera. E eu tinha acabado de completar cinco anos.

O narrador deste electro-sítio pode agora permitir-se dizer, com Sebald e Jean Paul, que está contente com a sua pessoa por ter passado a juventude a lidar com o pôr-do-sol todos os dias, com o desaparecimento da luz, por ter passado a juventude num lar com muitas janelas, casa cuja recordação sempre lhe deu uma ajuda.

*Vida útil de uma estrela com massa 5 (Nick Strobel’s calculation) = 1/(5/1) elevado a (4-1) x 10 elevado a 10 anos = (1/125) x 10 elevado a 10 anos = 8 x 10 elevado a 7 anos.

— P. R. Cunha

Hemisfério de Magdeburgo

Um relógio de parede já estava farto de estar na parede, desistiu de funcionar e deu consigo no chão da sala. Já não tinha mais de dizer as horas a ninguém.

(…)

O silêncio como forma de opressão/tortura; fazemos uma pergunta, esperamos resposta, que nunca chega, o receptor permanece calado, mudo, como se jamais tivéssemos feito pergunta alguma — a indiferença, portanto, desassossega.

(…)

Por entre as cadeiras
de um café
certa dama está a ler —
não lhe sei o nome
mas pouco demora
para chegar-me
um perfume
— a saudade.

— P. R. Cunha


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© Gravura de Gaspar Schott

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha

O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha

Luto & melancolia

Perdi algumas namoradas porque numa altura reclamaram que eu dava mais atenção aos livros do que a elas. Não me orgulho de nada disso — afinal, as namoradas são seres humanos, os livros não o são. Mas acontece que fui diagnosticado com doença bibliófila. De acordo com os parâmetros estabelecidos pelo «Exame Umberto Eco Ex-Líbris» (vide La memoria vegetale e altri scritti di bibliofilia), estou no segmento intermediário-avançado do espectro dessa mania livresca. Isso quer dizer basicamente que perco o sono, e as estribeiras, caso alguma obra pela qual eu tenha considerável apreço demonstre uma qualquer deformidade. É terrível. Trata-se sem dúvida de uma tentativa obsessiva de enganar e/ou congelar as peripécias do tempo — não à toa sugerem que os livros sejam armazenados em locais refrigerados. Manter os livros em boas condições e assim criar para si a ilusão de que o corpo de carne também resistirá à passagem dos dias. Ledo engano. Estou a perceber que não importa o tanto que se cuide bem desses objetos retangulares, o relógio sempre apronta uma das suas. Para o bibliófilo, entrar em contato com a decadência do livro é entrar em contato com a própria decadência. A brochura está esfarelando nas dobras, e o mesmo está a ocorrer com a pele e com a memória do obcecado. Quero dizer, juntamente com o próprio objeto de adoração está a desintegrar-se, o pobre bibliófilo. Alguns chegam mesmo a empacotar todos os livros, ou colocá-los dentro de mausoléus de vidro. Não abram estas portas, eles dizem, expressamente proibido abri-las. No entanto, anos depois eles sentem vontade de manusear Luto e melancolia do Sigmund Freud e qual não é a surpresa quando deparam-se com as imperfeições causadas pela luz do sol, ou pelas traças que de alguma forma invadiram o caixão-biblioteca. O dano ao livro é um pecado que o bibliófilo nunca esquece — insisto nisso. Ele logo se torna má companhia, irascível, inescrupuloso, perturbado, ao passo que todos aqueles que o conhecem e até gostam tacitamente dele não têm outra opção a não ser afastar-se. A capinha de Luto e melancolia não vai resistir, e a maldita da Cosac Naify já não existe mais para reeditar a coisa toda. Às bondosas senhoritas com as quais tive o prazer de me relacionar, a maneira como eu me degrado por conta dessas lombadas imperfeitas é patética. E, pensando bem, talvez elas tenham razão.

— P. R. Cunha