Comida de micro-ondas

A época dos jantares populosos terminara (ou pelo menos começou a terminar) quando um novo membro juntou-se à família: a televisão.

O aparelho não sentava-se à mesa propriamente; mas ficava próximo o bastante para determinar as configurações do espetáculo. 

Queriam ficar perto do tubo iconoscópico.

Durante o noticiário o papai & a mamãe aumentavam o volume porque apetecia-lhes saber os detalhes do mundo. Se alguma criança ousava falar qualquer coisa, escutava-se logo um tirânico SHHHHH!

Aos poucos, o aparato luminoso tornou-se acessível e ocupara não somente a sala da família, mas todos os cômodos da casa.

Jovem Dênis não pretende descer para jantar na altura em que passa o programa desportivo. Milena se aborrece imenso ao escutar a voz da mãe: vem comer connosco, filha… (justo na hora do seriado favorito).

Comida congelada para uma pessoa. Prato ideal a ser consumido passivamente diante das telas de néon.

— P. R. Cunha

 

Contos revisitados (levemente alterados): geladeira vermelha estilo retrô

Elizabete está assistindo ao noticiário enquanto o marido Norberto frita uns ovos com bacon e orégano, pitadas de sal, sem excessos, porque o médico anda muito preocupado com o alto nível de sódio no sangue do Norberto, hipernatremia (no idioma medicinal), e o colesterol, precisa de se cuidar, diz o médico, não é mais uma criancinha, Norberto. A luz azulada da tela de TV reflete nas lentes grossas dos óculos da Elizabete, que também não é mais uma criancinha (5 graus de miopia / 4.5 de astigmatismo). Ela corta umas verduras que estão ficando já meio passadas, os pedaços desabam numa bacia circular cor de abacate, e a faca que perdera a afiação dos melhores dias. Pode-se dizer que Elizabete e Norberto são como as facas que pararam de cortar, mesmo que numa altura fossem afiadíssimas e deixassem toda a sorte de verduras (até as mais resistentes) em pedacinhos. Agora o noticiário fala de um empresário que, como se diz, se dera muito bem na vida. O nome dele é Carlos Bragança. Elizabete para de cortar as verduras, fica de pé na sala sob o olhar luminoso do televisor e diz: Norbe!, Norbe!, vê só!, o nosso amigo dos tempos de escola está no noticiário. Norberto esquece o ovo a fritar na frigideira e vai ver o que se passa: humn, ele era bem mais magro, não achas?, e não tinha lá essas entradas na testa… Elizabete, como que hipnotizada, pronuncia vagarosamente o nome: Braaaaa-gannnnn-ça, ainda o acho muito atraente, e tenho a certeza de que todas as meninas da turma concordariam comigo. Ela solta uma risada alta e descontrolada, parece louca. Norberto coça a têmpora, incomodado com aquele adversário de luz, um fantasma que se levantara de um sonho plasmático de televisão: péssimo aluno de geografia, péssimo, não te lembras disso? Elizabete limpa os óculos com a camisola para enxergar melhor, continua a sorrir para o noticiário. Carlos Bragança fala agora sobre uma venda importante, guinadas econômicas, mais dinheiro para o produto interno bruto. Que homem!, ela suspira. Norberto dá de ombros, volta para a cozinha e continua a fritar os ovos com bacon, orégano, pitadas de sal, etc.

— P. R. Cunha

Cérebro de LED (reboot)

O sr. Max finalmente sai de casa para um passeio. Ele se assusta imenso com o que vê e decide voltar ligeiro ao conforto do ecrã televisivo.

Se o futuro está cancelado (ou suspenso), talvez olhar para trás em busca de âncoras. A ficção científica dos anos 1990, o electrowave dos 1980, as calças dos anos 1970, o penteado dos 1960. Misturas esperadas, nostálgicas, confortáveis.

Observamos a bola da história bater na parede do século 21, ricochetear, seguir rumos difíceis de serem previstos.

Noticiários como representações desconexas do eterno presente, reportagens disparatadas, contraditórias, anuláveis, em busca de interesses ilícitos.

«As coisas só acontecem se elas chamam a atenção da mídia.» No ciberespaço este axioma ganha versão assustadoramente jocosa: se não está no Google, não existe. 

O sr. Max acostumara-se a essas previsibilidades, a essas certezas, de aí ele ter voltado ligeiro ao ecrã  — onde a realidade é filtrada, mastigada, menos aleatória, comentada e descartada.

Pode-se sempre recomeçar no dia seguinte, basta um clique de botão.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #24)

[ontem, meu pai completaria sessenta & seis anos anos. dedico estas palavras rabugentas a ele, que sempre me incentivou a buscar refúgio nos livros.]

não é tanto uma questão de inteligência, mas sim de experiência. quero dizer: continuidade. antes de mais nada, mostra-se necessário livrar-se das distrações, dos supérfluos. dedicar-se àquilo que realmente importa. (i.e.): o marceneiro reclama que não tem tempo para terminar as mesas que foram encomendadas; o marceneiro passa cerca de oito horas por dia assistindo à televisão; a televisão, percebe-se, é o supérfluo do marceneiro. oito horas desperdiçadas numa atividade passiva, morosa, unidirecional. não à toa as pessoas que passam muito tempo assistindo à televisão costumam reclamar de «um certo vazio». o cérebro distrai-se com aquelas imagens sedutoras, cria-se um falso vestígio de troca, de convivência (barra) conveniência (barra) pertencimento. até que se aperta o botão «off», surge o silêncio, a ressaca — o que estou a fazer da minha vida?, &tc. o certo vazio nada mais é do que isto, o atestado de óbito do tempo, a constatação de tudo o que poderia ter sido feito durante aquelas oito horas em que a pessoa passara esparramada diante da tv como se, sei lá, meio-morta-meio-viva. de forma que a frase «fui/estou a ser enganado» é quase inevitável.

— p. r. cunha

Quatro argumentos para filmes curtíssimos

1. Marcha-atrás

Manhãzinha. Um homem com indumentária completa está a sussurrar no telemóvel. Ajeita a gravata e caminha lentamente até ao carro, um esportivo da marca Porsche. A câmera o acompanha à moda close e aos poucos se afasta. Vemos, então, uma linda casa aos fundos da cena: jardim com flores coloridas, grama aparada, janelas com molduras brancas, tudo impecável, paradisíaco. O homem está a falar com a amante. Ele diz para ela não se preocupar, pois daria um jeito naquela questão matrimonial. A amante do outro lado da linha parece insistir, grita alguma coisa inaudível. O homem entra dentro do carro e dá a partida na ignição. Motor Porsche responde com vigor. Não precisa de se preocupar, amorzinho — ele diz. Marcha-atrás, o homem ainda a segurar o telemóvel aos ouvidos. Porsche acerta alguma coisa. Ouve-se um grito abafado, como se o John Bonham tocasse o bumbo preenchido com cobertores da bateria utilizada pelo Led Zeppelin no final dos anos 1960.


2. Bodas de prata

A câmera está a enquadrar um álbum de fotografias cuja capa mostra um casal e certa frase com tipologias enfeitadas a dizer: 25 ANOS DE CASAMENTO — BODAS DE PRATA. O álbum está sobre a mesa da sala, perto de um sofá verde com almofadas vermelhas. Escutamos barulhos de fritura e de louças diversas. A câmera vai até à cozinha do apartamento e fixa-se à porta. A mulher da capa do álbum está sentada numa cadeira a ler o jornal; enquanto o homem da capa do álbum ora mexe nas panelas para a comida não grudar, ora lava a louça acumulada na pia. A mulher de quando em vez abaixa o jornal e, enfurecida, reclama: você é mesmo um inútil, Jardel, imprestável. O homem chora.


3. Surpresa

Escritório de uma firma. Cinco funcionários preparam a festa surpresa de alguém. Um deles diz: não posso acreditar… Os outros balançam a cabeça afirmativamente. Ana é tão nova, diz um outro enquanto ajeita doces e salgados sobre a bandeja. Essas coisas são imprevisíveis, diz uma moça a assoprar balões. Ana é uma das nossas melhores funcionárias, que tragédia, diz aquele que é provavelmente o chefe. Alguém entra na sala e se assusta com a cena. Surpresa, Ana! — todos gritam em uníssono.


4. Tela plana

Estamos no quarto de uma casa mobiliada com esmero. Câmera aberta, lente de grande angular. Todas as cortinas estão fechadas, de modo que não sabemos se dia ou noite. Podemos ver a parte de trás da cabeça de uma senhora grisalha a assistir televisão sentada numa poltrona felpuda. Trata-se de um programa a preto e branco, apesar de a televisão ser moderna (tela plana, fina, etcétera). A cabeça da senhora nunca se mexe.

— P. R. Cunha