devaneios da própria máquina de escrever (episódio #18)

de longe, parecia apenas um hidrante de rua como outro qualquer: vermelho, rechonchudo, cerca de um metro de altura, bujão, tampa, coluna. tudo dentro dos conformes. mas um estranho senhor com têmporas grisalhas insistia em analisar o hidrante bem de perto. ele havia tirado o chapéu da cabeça, colocara-o ao peito & agora observava o hidrante como se velasse o corpo de uma mulher. muitas pessoas passavam por aquela movimentada esquina do centro da cidade. eram 14h50. alguns começaram a notar que o homem com o chapéu colado ao peito nunca saía de perto do hidrante. às vezes ele esticava a mão, tentava tirar uma lasca de tinta vermelha, ou averiguava se alguma outra coisa estava, como se diz, «fora do lugar». uma moça chamada joana — cirurgiã dentista — cutucara a amiga que não parava de mexer no telemóvel: olha ali aquele cara perto do hidrante. a amiga inclinou o telemóvel: que troço esquisito. as duas se aproximaram: ei, o senhor está bem, precisa de ajuda? outros transeuntes também se aproximaram. dali a pouco a multidão crescia a cada minuto, queriam saber o que estava acontecendo, qual o motivo daquela algazarra toda. de repente, já não dava mais para ver o estranho sujeito, muito menos o hidrante. centenas de pessoas se juntaram em redor, polícias apareceram, jornalistas apareceram, helicópteros, o prefeito ficou de aparecer. ninguém entendia o que estava acontecendo. apenas viam o aglomerado de curiosos &, como ímãs, eram atraídos, queriam se juntar ao grupo, fazer parte de algo maior. as horas se alastraram. nada acontecia — afinal, era apenas um tipo grisalho observando um hidrante de rua vermelho. &, como tinha de ser, as pessoas se aborreceram, dispersaram-se, as viaturas dos polícias voltaram às respectivas garagens, as câmeras de televisão foram guardadas dentro das furgonetas. o prefeito não precisou de aparecer. a noite chegou, os postes da rua estavam acesos. o hidrante continuava onde sempre esteve. o corpo daquele misterioso senhor deitado ao lado, perpendicular, o chapéu ainda colado ao peito. talvez dormisse. não sei.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #6)

imaginem um objeto de metal, retangular, vinte & oito centímetros de largura, trinta de profundidade. altura: oito centímetros. é verde, possui teclas com letras, números & outros símbolos próprios para a construção de textos. 

é a minha olivetti lettera.

conta a narrativa desta família que os pais do meu pai conheceram-se em niterói no início do século vinte, ocasionalmente, enquanto meu avô tentava manobrar a própria charrete & minha avó voltava de uma quitanda. já os pais da minha mãe apaixonaram-se na cidade do rio de janeiro depois de muitas investidas do meu avô, que trabalhava aos correios & anotava bilhetinhos secretos para a minha avó, na altura uma estudante de direito.

charrete, quitanda, carteiro, bilhetinhos românticos de papel: termos que de certeza denotam nostalgia. & o faço de propósito. 

obviamente que todas as odes ao passado possuem manchas estranhas: desigualdades sociais, despreparo para um escopo enorme de doenças, guerras, nepotismos, privações & não só.

gostava, no entanto, de focar no critério tecnológico.

as pessoas tinham essa vida desplugada, sem wi-fi, iam de charrete para todos os sítios, & ainda assim se apaixonavam, & trabalhavam, & sobreviviam. davam conta.

ontem observei com atenção um pai que tirava o telemóvel das mãos do miúdo, & quase tiveram de chamar o serviço social (ou o exército) para conter tamanho berreiro. exageros à parte: o choro do menino parecia uma sirene anunciando ataques nucleares. 

mas era só um telemóvel.

reflito aqui diante da minha olivetti se não estaríamos nos tornando o grupo de humanos mais mimado que já pisara neste planeta. 

sair de casa é para alguns um estorvo incontrolável. não se pode mais entrar numa cafeteria & pedir qualquer coisa sem os ruídos de fundo: «aqui tem wi-fi?; ei, moça/moço, a internet está lenta!; esta cadeira é tão desconfortável, a da minha casa é bem melhor, sabes». 

& mesmo quando tudo funciona direitinho, quando as mensagens do whatsapp percorrem distâncias inimagináveis quase à velocidade da luz, mesmo assim ainda conseguem encontrar defeitos — ou a operadora é gananciosa demais, ou a bateria do telemóvel descarregou (um absurdo ela durar apenas 12h!, sem fio, sem nada), ou é porque o aparelho esquenta demais, ou a tela touchscreen está engordurada demais, ou a companhia humana é enfadonha demais…

termino esta reflexão com uma imagem. ou melhor, com uma espécie de máquina do tempo. ressuscito o meu avô paterno, trago-o (de charrete!) para este brilhante século das comodidades; deixo que ele passe uma tarde aprazível dentro de um shopping mall — mas antes revisto todos os bolsos do vovô, à procura de objetos que, num momento de total desespero/angústia, possam tentá-lo a colocar termo à própria vida.

— p. r. cunha