devaneios da própria máquina de escrever (episódio #2)

então é isto: você decide adotar a máquina de escrever como fonte primária de escrita. sim, continuará a fazer determinados apontamentos com caneta esferográfica, rabiscos com a própria lapiseira; mas o grosso, a base, o fluxo, agora vêm dos mecanismos de uma olivetti lettera 82, cor verde (tipo limão azedo). o papel, felizmente, ainda permanece — confidente inseparável. como se sabe, o escritor precisa de um sítio para escrever. & quando o dia se mostra agradável & apetece trabalhar noutros cantos, você decide levar a olivetti para um passeio. há uma livraria por perto. nesta livraria, um refeitório. você ainda não sabe, mas está prestes a lidar com a perversa guerra dos tempos: o novo contra o velho, o contemporâneo a devorar a antiguidade, o cellphone touchscreenwideremote humilhando as curvas disparatadas da sua «ultrapassada» máquina de escrever. funcionário da livraria aproxima-se de si & diz um tanto envergonhado: senhor, não se pode utilizar uma geringonça dessas aqui no nosso estabelecimento. você insiste, mostra que as teclas da olivetti foram devidamente lubrificadas — sim, ainda fazem barulho, mas não chega a ser um barulho absurdo, pois os sinais de alerta que saem dos telemóveis (& praticamente toda a clientela do refeitório manuseia um telemóvel) são não só mais irritantes do que as teclas da olivetti, como também mais altos do que qualquer ruído que a sua máquina um dia emitira (mesmo antes da lubrificação &tc.). o funcionário bate o pé, diz que chamará o gerente, o gerente aparece, repete o discurso do funcionário, ri-se, ri-se da situação, diz que nunca vira uma máquina de escrever tão de perto, ele tira o telemóvel do bolso & começa a sacar fotografias da sua olivetti, & você, justificadamente, acha aquilo um abuso (isto é: não poder usar a olivetti no refeitório da livraria, mas os responsáveis pelo refeitório da livraria aproveitarem-se da sua boa vontade e sacarem fotografias da sua máquina), então que você coloca a olivetti de volta na caixinha dela, com a capa de acrílico destacável, & sai da livraria bufando, meio que se sentindo um tremendo otário — um otário medieval, pelo menos.

— p. r. cunha

Mobilidades (modelos transitórios)*

Pelos vistos, toda a gente tem um amigo ou uma amiga que já dissera: o telemóvel está a arruinar-nos. 

Camila e Martin estão sentados nalgum café, conversam a respeito de miudezas e comem o croissant misto; não têm telemóvel. À mesa ao lado estão Lúcia e James que nunca se olham, porque atentos ao ecrã luminoso do próprio mobile. Camila e Martin mostram-se agora incomodados, porque perceberam que praticamente todos os frequentadores do café utilizam o telemóvel da forma mais natural e despreocupada possível, como se em universos paralelos. 

Paradoxalmente, Camila e Martin ao cultivar um encontro humano sentem-se desumanos, inadequados, desconectados, deslocados — assim por diante.

Elon Musk há muito defende a ideia de que os telemóveis se tornaram uma espécie de prótese essencial para o Homo sapiens. Fulano esquece o aparelho em casa e o cérebro entra em parafuso como se estivesse a ter abstinência de cocaína. Aliás, uma ressonância magnética mostraria que a estrutura cerebral de um viciado em drogas e a de um viciado em telemóvel possuem mais semelhanças do que gostaríamos de acreditar.

Certa senhora de noventa e um anos observa os netos a brincar com os respectivos telemóveis durante o almoço e lembra que com o rádio e com a televisão acontecera a mesma coisa. Os meios de comunicação a invadir a privacidade da família, diz a vovó, não se pode mais fazer as refeições em paz.

Uma simpática analogia compara os telemóveis às enciclopédias de outrora. Como aquela propaganda de telefonia que diz: estás a carregar um mundo de possibilidades nas mãos, nunca foste tão inteligente, aproveita. 

Mas há quem ainda prefira comparar o telemóvel com o urânio. A saber: se pouco enriquecido (2% a 4%), o urânio proporciona excelente alternativa energética; mas se altamente enriquecido (90% a 99%), então teremos de lidar com bombas atômicas capazes de destruir rapidamente a humanidade.

— P. R. Cunha


*Como publicado na imprensa em julho de 2018.