A loucura necessária da arte (uma sinopse)

A arte por vezes se assemelha ao conteúdo do cesto daquele egípcio citado por Plutarco — e quando um curioso questionara o transeunte o que ele tanto escondia ali dentro, o egípcio respondera que o cesto estava encoberto justamente para que ninguém o soubesse.

Já pude observar damas e cavalheiros que seriam considerados «mui alta-classe» tapar os ouvidos enquanto tocava sinfonia de Beethoven, alguns bocejam durante as apresentações de balé ao Teatro Bolshoi, há quem chore ao assistir partidas de futebol, outros escutam funk a caminho do funeral do avô.

A arte talvez não seja muito diferente daquela definição de tempo proposta por Santo Agostinho: se não me perguntam, eu sei o que é, mas se me perguntam, daí não sei explicar.

Michel folheia um livro do Thomas Bernhard e sente que o autor está a escrever para ele; dialoga com o Bernhard, exalta-se com inúmeras passagens do Bernhard, toma notas de frases magníficas, que grande mestre. Juliana lê o mesmo livro e acha a narrativa boçal, afetada. 

A mesma obra de arte, reações diferentes.

Certo casal da Finlândia vai ao Louvre. A menina começa a chorar diante de «La Giaconda». O rapaz pergunta à namorada: por que choras? Ela diz que são os traços do Leonardo, está emocionada. O rapaz observa ao redor e com azedume insiste: e quem seria esse tal de Leonardo?

Nos reinos passados a arte era o espelho retorcido das elites. Reis e rainhas encomendavam pinturas que os destacassem como deuses eleitos, que reforçassem o tanto de terras, e joias, e escravos, e palácios, e farturas desnecessárias eles possuíam.

Dizem que o cavalo branco de Napoleão ilustrado por Jacques-Louis David era, em verdade, um burrico maltrapilho à beira do colapso.

A realidade não era pigmento essencial na palheta de cores dos antigos retratistas.

Até que Matisse, Brecheret, Mondrian, Gide, Klimt, Simone de Beauvoir, Munch, Chagall, Duchamp, Nash, Colette, Klee, Kadinsky — para citar alguns —, resolveram que arte definitivamente não era apenas molduras de castelo. As paisagens bucólicas, as mentiras pomposas, os gordos monarcas terrestres já não combinavam com as atrocidades das guerras totais.

Mostravam-se necessários novos meios, novas formas, outras linhas, outros verbos.

Soldados decapitados nos campos de batalha, bombas a cair das nuvens, e o salão do ilustre marquês repleto de cenários campestres das primaveras em que as torres industriais não cortavam o horizonte com lâminas de fogo.

Ainda hoje há quem garanta que os modernistas nunca foram artistas, mas crianças-adultas a espernear com lápis, pincéis, partituras, câmeras, etc.

Então não se sabe ao certo o que é arte — para que serve, quem é original, quem é farsa, quem merece o Nobel, quem valeria milhões na Sotheby’s, o que é grande, o que é pequeno, o que descartar, o que ouvir, o que é gênio, o que ler.

Subjetividades.

Gostava, no entanto, de retornar às tentativas de Santo Agostinho de definir o tempo.

Arte é coisa melindrosa que se depara com várias bifurcações. Também é difícil de explicar. Mas quando ela se retira (principalmente em períodos de exceção), sente-se um grande vazio, abrem-se cicatrizes no abismo. 

Ela pode não ser tão importante quanto um prato de comida, mas à medida que os meses se alastram, é a alma que acusa a fome.

Para muitos, uma vida sem arte é existência passageira, com propósitos vacilantes. Um mundo sem arte (e, insisto, não importa a definição que você prefira utilizar) é um deserto árido, inabitável. Arte como antídoto, a remediar as contradições da chamada civilização.

Nietzsche acrescentaria ainda que: temos as nossas artes para não morrermos de tanta verdade.

Ou aquele famoso trecho escrito por Henry James sobre os artistas: nós trabalhamos no escuro — fazemos o possível — damos o que temos; nossas dúvidas são nossas paixões e as paixões são nossas tarefas.

Enquanto nas artérias coronárias não circular o sangue de silício, enquanto os neurônios não são substituídos pela nanorrobótica, enquanto as cabeças não operam como antenas wifi, a arte ainda permanecerá relevante, confortando, mesmo que brevemente, o espírito humano em busca de refúgios.

— P. R. Cunha

Cristas temporárias (como um relógio de Dali)

Nos anos 1990 meus pais trouxeram de Portugal um daqueles galos do tempo — que a revista Ípsilon chamara de «objecto (quase) obsoleto». O nosso também ficava em cima da televisão. Papai gostava de deixar a janela aberta para que o bondoso galo avisasse possíveis tempestades. Muitas vezes mudava-se de cor, mas não acertava na meteorologia. Minha mãe, que aprendera a admirar as façanhas do galito del tiempo, metia a culpa nos filhos. Pelos vistos, os nossos dedinhos oleosos a tocar na escama sensível do meteorologista afetavam sobremaneira a capacidade do galo de prever se chuva ou sol.

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Quem passeia à tardinha pela Quadra Interna 28, mais especificamente ao conjunto 2, consegue observar monsieur Dimanche trabalhando em alguma pintura impressionista. O ateliê do belga naturalizado brasileiro fica ao rés da rua e uma enorme fachada de vidro oferece aos transeuntes um honesto espetáculo pictórico: Dimanche a mover cores com tanto à vontade e confiança. A claridade opaca do entardecer realça o cenário, além de emprestar um estilo descompromissado às pinturas. Dir-se-ia ainda que os pincéis fazem parte da companhia de dança do teatro Bolshoi, tamanha a leveza de toda a operação. Certa feita tomei coragem e aproximei-me da vidraça. O pintor descansara os óculos arredondados no compartimento do cavalete e ofereceu-me uma chávena de café. Madame Dimanche trouxe-nos também uns docinhos apetitosos. O pintor sorrira e tirara da estante empoeirada o meu Paraquedas – um ensaio filosófico: livro taciturno, mas um bom livro, ele disse. A biblioteca contava ainda com edições raras de Charles Dickens, Ovídio e Sêneca. Enquanto tomávamos silenciosamente o café, olhei em redor: uma data de telas com pontilhados milimetricamente dispostos, como se o ateliê fosse uma espécie de alucinação onírica. Sobre a escrivaninha de Dimanche, que (um pouco como Man Ray) escreve o que não deseja pintar e pinta o que não pode escrever, havia um desgastado galo do tempo português. Dimanche tocara nos meus ombros e num tom divertido dissera: às vezes funciona, outras tantas vezes não funciona.

— P. R. Cunha