Adjetivos literários

Como todas as atividades que nutrem certo apreço pelas ahm-hamn (limpa-se pigarro invisível da garganta) faculdades encefálicas, a de escritor mostra-se envolvida em brumas de fetichismo e — désolé pour mon français — glamour.

O poeta está a ser retratado pelo fotógrafo. O fotógrafo pede: faça qualquer pose de poeta. O poeta levanta levemente a cabeça, olhos ao infinito, como um marujo que há muito não via terra firme. 

A vestimenta do poeta é alinhada, tons mais escuros à guisa de harmonizar com certas inclinações do espírito.

Já o prosador (romancista, se preferir) geralmente leva um cigarro na boca, faz cara de poucos amigos, finge datilografar uma máquina de escrever, mesmo que nunca se utilize dessa máquina de escrever — trabalha no próprio computador, com o próprio editor de texto etc.

Se for uma fotografia de plano aberto, é capaz de vermos ao fundo uma chávena de café, ou uma caneca de cerveja que vai ao meio, ou, se calhar, ambos.

Noir

A ilustração é análoga quando se trata de uma dama das letras.

A senhorita geralmente possui semblante assustado, de quem entende — e aceita — os azedumes da vida reclusa. O sorriso parece sugerir qualquer desculpa por estar ocupada demais com as exigências literárias.

A dama das letras, não importa a idade, será sempre charmosa, sedutora, inteligente, perspicaz, venenosa, manipuladora, descontraída, de um talento ímpar.

Atributos repletos de nostalgia; peculiaridades que outrora eram levadas em alta conta. Mas, como sabemos, tudo se modifica vertiginosamente.

— P. R. Cunha

Miniperfil da persistência

Paul só queria ser artista.

Mas os professores da escola diziam que ele não tinha talento; e os pais costumam acreditar nos professores da escola. Os de Paul proibiram-no de mexer nos pincéis. Artista? Artista coisa nenhuma, trabalharia no banco, com transações monetárias, tal e qual o papá.

A título de sinceridade, os primeiros desenhos de Paul eram mesmo bastante ruins. Pouca emoção, estabanados, toscos, nem faziam sentido. Isso, contudo, não o desanimava. Às escondidas, Paul pintava. Quadros-atrás-de-quadros, dia-após-dia.

Numa altura, algumas telas pareciam se formar, as paisagens não eram apenas borrões desalinhados. Começava a surgir qualquer coisa. Porém, aos olhos dos críticos, Paul continuava a ser insuficiente. Quadros terríveis, disseram, Paul medíocre — falta-lhe talento, falta-lhe tudo.

A morte, como se sabe, sempre chega. Então veio a foice e jogou o papá de Paul à cova. O filho herdara muito dinheiro.

De repente, não precisava dar satisfações, nem lidar com o autoritarismo paterno. Aliviado, livre, Paul pintava cada vez mais, todos os dias, sem parar, a pintura tornara-se definitivamente a sua vida.

Até que aconteceu.

Após centenas, ou melhor, milhares de obras inconstantes, de quadros rejeitados, Paul enfim encontrara a própria voz, o próprio estilo — aprendera a pintar. E como se isso não bastasse, ele decidira ir além, superar-se, ultrapassar toda uma época, transformar-se em história, referência, construir novas formas de expressão. Paul nunca mais seria o tipo tímido e irascível que rabiscava às sombras.

Dali em diante, todos o conheceriam como Paul Cézanne, o pai da Arte Moderna.

— P. R. Cunha