devaneios da própria máquina de escrever (episódio #11)

algumas pessoas descobrem que eu escrevo, & pensam que eu devo ler imenso, & de aí me pedem sugestões de leitura. acanhado, mas de boa vontade, dou-lhes sugestões de leitura. passa um tempo & não escuto mais nada dessas pessoas. até que a gente meio que se esbarra ocasionalmente num restaurante, num bar, ou na festa da prima-de-algum-conhecido-em-comum, & então eu pergunto: fulano/fulana, o que achara das minhas sugestões?, leu?, & fulano/fulana diz que leu, & que não achou grande coisa. é de partir o coração.

— p. r. cunha

Mãos à celulose: parte II

Repertório

Sejamos sinceros: bloqueio criativo é apenas um eufemismo utilizado por escritores que não querem reconhecer o fracasso temporário, isto é: admitir que não têm nada a dizer. Aquela terrível situação de olhar para a folha em branco, ou para a tela do computador com a barrinha vertical torturante que pisca a cada segundo. Sem nenhum assunto, nenhuma ideia. Acontece que ninguém prepara um bolo sem os produtos necessários. A imagem é bem esta: colocar uma fôrma vazia dentro do forno e esperar que dali saia um bolo saboroso, com cobertura de chocolate e granulados. O mesmo ocorre com a narrativa; ela precisa de ingredientes para se desenvolver e adquiri-los é tarefa do escritor. Infelizmente ainda somos bombardeados por mitos que descrevem grandes figuras literárias a construir romances num par de semanas, sem esforço, como que iluminadas por forças sobrenaturais. Mas a verdade é que os escritores prolíficos demoram para armazenar os próprios arsenais de ideias antes de, como se diz, colocar o bumbum na cadeira e escrever. Essas ideias estão em toda a parte: na infância, na família, nos amigos, nas verdades, nas mentiras, nos livros, nos filmes, na fila do banco, no metropolitano, no autocarro… Os personagens e as cenas do seu romance serão diretamente influenciados por essas ideias. Trocando em miúdos, os personagens também precisam de frequentar a escola, de estudar, de viver, de sair, de sentir, de formar-se. Suponhamos, por exemplo, que você queira escrever um conto sobre a imensidão do Cosmos, porque a astronomia sempre lhe causou enorme fascínio. Você ainda está confuso, não sabe ao certo como irá desenvolver o conto. Chega à conclusão de que, em criança, o protagonista queria ser astronauta, mas crescera numa família difícil, algumas tragédias, a vida o levara para outros sítios, e ser astronauta fora apenas isto: um sonho que não poderia ser concretizado, como tantos sonhos que sonhamos e não dão em nada. Esta é a base do conto, o esboço de um personagem que pode (e deve) desvendar um bocado sobre si, sobre as pessoas que você ama, sobre as pessoas que você despreza, sobre as decepções, sobre resignar-se etc. etc. É o momento de adquirir repertório, conhecimentos, dar verossimilhança, pesquisar com afinco sobre a vida de um astronauta, ler Endurance – um ano no espaço, de Scott Kelly, ler Neil deGrasse Tyson, Michio Kaku, divertir-se com as aulas do professor Brian Cox, com a voz robótica dos documentários sobre Stephen Hawking, ler Carl Sagan. Tais pesquisas vão lhe dar as devidas ideias/ferramentas/conteúdos para construir os personagens do conto, as cenas, as situações desafiadores — o enredo. E como o tema lhe agrada muitíssimo, pode ter a certeza de que serão tarefas prazerosas, engrandecedoras. Certo… agora que você possui folhas e folhas de anotações sobre os mais diversos detalhes cosmológicos, agora que você sabe como é a experiência de um astronauta dentro de uma espaçonave, agora que você sabe a respeito do processo de se tornar um astronauta, das dificuldades, dos dissabores, das glórias, das derrotas, dos riscos, agora que você sabe o que é matéria escura, o que é a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, como funcionam os buracos negros, em suma: agora que você possui os ingredientes do bolo, experimente sentar-se à escrivaninha para começar o conto. Garanto-lhe que a página não permanecerá em branco por muito tempo.

— P. R. Cunha

Mãos à celulose: parte I

Passo a publicar neste blogue dicas, ou melhor, sugestões literárias que preparei inicialmente para um único e exclusivo escritor — no caso, eu mesmo. Agora, fazem parte de um curso que ofereço a três alunos de escrita criativa: foram eles (Sílvia, Guilherme e Jean) que me encorajaram a compartilhar estas ideias sem grandes rigores acadêmicos.


Motivação

Tenho a certeza de que não existe uma ordem específica para se começar um livro. Cada escritor cria as próprias rotinas, os próprios mandamentos, as próprias manias, tudo de acordo com as complexidades com as quais precisa de lidar em vida. À guisa de exemplo: um escritor solteiro, 25 anos, terá muito provavelmente uma agenda bem distinta da agenda de um escritor com quatro filhos, 35 anos. Há quem prefira trabalhar de dia, outros preferem a tranquilidade noturna. Uns acordam bem cedinho, outros não tão cedinho assim. Mas é preciso desenvolver e colocar em prática certas disciplinas. E aqui quebro o primeiro mito sobre os escritores: à primeira vista, podem parecer desleixados, preguiçosos, alguém pode querer se aproximar deles e sugerir «ei, vamos lá, procurem um emprego», ou de repente querer levá-los a um hospital, a um psiquiatra — porque, segundo a análise mundana (i.e.: trabalho significa suor, estresse, mãos e uniformes sujos, calvice, divórcios, tormentas, vontades de meter uma bala na têmpora [especificamente na têmpora direita] etc.), segundo a análise mundana, como estava eu a dizer, os escritores não fazem nada, vagabundeiam, a putear com o tempo. No entanto, a verdade é que escrever um livro, mesmo uma novela de aproximadamente 40 mil palavras, é tarefa que exigirá imenso de quem pretende colocá-la em prática. Pesquisas, cenas inúteis, personagens inúteis, o começo não está muito bom, o miolo está horrível, o protagonista parece um zumbi de tão vazio, as primeiras 50 páginas mostram-se péssimas, e centenas de outras decepções. Para enfrentá-las, o escritor precisará de motivação. Novamente, entro aqui num banco de areia movediça bem pessoal, pois as motivações também dependem de inúmeros fatores. De repente você escreve para conquistar o coração de alguém, ou para mostrar a um professor incrédulo que você consegue sim escrever o melhor romance de sempre, escreve porque sente raiva, escreve porque busca serenidades, escreve porque a escrita tornou-se um refúgio para si, escreve porque as palavras fazem-lhe esquecer-se, escreve porque quer ganhar dinheiro, porque quer deixar uma obra literária para os filhos lerem, escreve porque quer contar na próxima entrevista de emprego «faço isto, e aquilo, e isto, e ainda escrevi um livro»… Não importa. A ideia é cultivar motivações que possam ajudá-lo a seguir em frente quando a corda apertar-lhe no pescoço, motivações que impeçam-no de desistir.

— P. R. Cunha