A literatura é uma ceifa, uma danada

Hoje é sábado e eu não costumo escrever aos sábados — porque sábado é dia de estar algures, alhures e (se calhar) nenhures. Mas aconteceu de a Livraria Bertrand, sim, a mais antiga do mundo, da qual sou cliente ad honores, apesar de ninguém ali saber disto, mas irão, porque gasto muitos dinheiros a importar os livros deles, todos os meses, cifras exorbitantes em literatura, ao passo que de certeza alguém, um dia, brevemente, talvez um funcionário Bertrand dedicado perceberá que certo brasileiro maluco está a gastar fortunas com livros de Portugal, e mandar-me-ão mensagens enaltecedoras, quem sabe até uma medalha… Mas, como estava eu a dizer, aconteceu de a Livraria Bertrand através do Leitor Bertrand enviar-me um boletim de notícias cuja abertura do primeiro parágrafo era esta citação do saudoso Umberto Eco: o mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê. Os italianos têm essa terrível habilidade de persuasão, de nos pôr a pensar a respeito das coisas — mesmo aos sábados. Fico a refletir sobre os livros antigos que ainda são admirados, mesmo depois de tantos invernos políticos e culturais: Ilíada e Odisseia, de Homero; Epopeia de Gilgamesh, o poema épico da Mesopotâmia; Romance de Genji, de Murasaki Shikibu; os contos de As mil e uma noites; Dom Quixote, de Cervantes… Se entrarmos na sala de qualquer curso de literatura é provável que uma dessas obras fundamentais esteja a ser dissecada por universitários compenetrados a mostrar os slides com informações pertinentes a respeito do escritor, da época, do contexto, do mundo, das transformações e não só. Séculos e séculos de produções literárias e o que temos hoje são pequenos grupos de autores cujos títulos poderíamos contar nos dedos. Não é difícil chegar-se à conclusão de que a história da literatura é uma ceifa de esquecimentos, de fantasmas que desaparecem sem deixar vestígios. Quantos Cervantes, Sherezades, Homeros, Shikibus, Sternes, Dickens, Ovídios, Cranes não se perderam no meio do caminho? E bastaria pensar também na nossa própria capacidade seletiva, na nossa memória: pois a quantidade de informação que esquecemos é infinitamente maior do que aquilo que efetivamente lembramos. Fica, portanto, o gosto agridoce nas penas de qualquer indivíduo que se senta à secretária com o intuito de anotar à posteridade — uma posteridade fantástica, mas que pode nunca existir.

— P. R. Cunha

Seu destino também seria o de tombar cedo no combate

Hemingway dizia que fazer literatura era fácil: bastava estar à maquina de escrever e sangrar. A ironia do autor de Adeus às armas — que dera adeus ao mundo com um tiro de fuzil na própria cabeça — incrementa-se com o fato de ele sempre ter trabalhado em pé, postura que, como se sabe, proporciona melhor circulação sanguínea. Literatura autodestrutiva, a do Hemingway. E não raro observa-se nos chamados novos escritores um terrível asco por essas gentes de outros tempos que entregavam-se à boemia, ao sofrimento, às batalhas, ao suicídio. Porque hoje se escreve à base de vitaminas e minerais, água potável no cantil. Há mesmo diversos sítios web que contam lá como/quando/onde deve comer o literato contemporâneo — vestido com o pulôver costurado pela bisavô (que já vive cá um bocado de tempo). Joseph Conrad escreve sobre o livro O emblema vermelho da coragem, do amigo Stephen Crane, edição Penguin: obra espontânea que parece jorrar e fluir como uma nascente das profundezas da alma do autor. Jorrar, fluir, emblema vermelho — eufemismos de sangue. E este grande período de pseudo-paz pelo qual a humanidade está a passar desde o colapso da União Soviética, período obscuro, de indiferenças. Literatura que por vezes se torna o reflexo do status quo; escritores alheados que vestem as máscaras jubilosas e preferem esquecer que o animal humano sobrevive num esforço nascido de dor e morte. Que a arte, e aqui cito o Crane: é filha do padecimento.

— P. R. Cunha