Curriculum vitae / résumé (outro trecho autobiográfico com apêndice)

Eu queria ser jogador de futebol, mas os treinadores me diziam: o teu pai tem dinheiro, tu não precisas disto. Fui um péssimo aluno à escola, mediano à universidade. Sofro de transtorno de déficit de atenção & hiperatividade (TDAH, de acordo com as siglas psiquiátricas) — calcula mal os perigos, agitado, levanta da cadeira frequentemente, distraído, esquecido, desconforto, inquietude, não para de mexer os pés, impaciência, toma decisões prematuras &tc. À noite, coloco na ponta da língua um medicamento chamado Valdoxan®, tarja vermelha. Quando em entrevista de emprego, o(a) entrevistador(a) sempre acha que sou «jovem de mais para o trabalho», ou «sonhador de mais para o trabalho», ou «despreparado de mais para o trabalho», ou «velho de mais para o trabalho», ou «ligamos assim que surgir alguma coisa». Quando me chamam para fotografar determinado evento, pensam que tenho cá todos os equipamentos necessários para fotografar o evento; porém, nunca tenho cá todos os equipamentos necessários para fotografar o evento. Por vezes escrevo muito & fico iludido & falo disparates como: ora!, até que não sou tão ruim com as palavras. Mas de aí quase não toco na caneta por vários dias & me acho um estorvo, inútil, verdadeiro idiota. Sinto um bocado de calor & moro num país tropical. O Brasil não é a Islândia. Decepcionei meus pais (porque queriam que eu fizesse medicina); decepcionei meus irmãos (porque queriam que eu fosse menos iracundo); decepcionei continuamente minhas namoradas (porque queriam que eu fosse melhor do que nunca fui); decepcionei meus amigos (porque só queriam que eu estivesse por perto). Mas o Universo segue para diante, expandindo-se, indiferente. O Universo não liga.

APÊNDICE

Gosto de: pão com queijo e geleia, bicicleta, livros taciturnos, observar os planetas com o meu telescópio, corrida de automóveis, mojito, «Twin Peaks» (David Lynch), uva, hino da Hungria, Leonardo Sciascia, palavras russas no infinitivo, dizer que fui ao teatro sem ter ido ao teatro propriamente, Thomas Bernard, futebol americano, ventiladores à moda 1970, caneta Bic com quatro cores, Gonçalo M. Tavares, Brasília em tempos de chuva, beijinhos da Jessy pela manhã, o mar Atlântico, instrumentos musicais, regar a minha horta, ficar sozinho, Haydn, Kubrick, Wittgenstein, DFW, ler na rede, o cheiro do apartamento da minha avó em Niterói ao entardecer.

Não gosto de: música de elevador, beterraba, Paulo Coelho, astrologia, lugares com muitos seres humanos, Augusto Curry, bolos de aniversário, festa de aniversário, dirigir automóveis, poltrona de avião, pessoas que arrotam e se orgulham disso, televisão, telemóveis, Microsoft Windows, livros de auto-ajuda, o político-troglodita, grupos sociais, jiló, atendentes de telemarketing, refrigerante, ficar doente no verão, churros, cinema brasileiro da época da ditadura, Facebook, Hermann Hesse, camisa de candidato, fotografia de candidato, receber notícias à noite.

— P. R. Cunha

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha