Sr. Anselmo – parte 14

Não há objetivo, diz o sr. Anselmo, nem propósito, tu não estás em jornada nenhuma. Há travesseiros, confortos artificiais, buscas pelo entretenimento sintético. Há fugas, explica o sr. Anselmo. E cada organização antropocêntrica criou/cria/criará para si ilusões de estabilidade, fantasias de permanência: Sócrates, Pedro I da Rússia, o Iluminismo, as bombas, Alexandre, Platão, o terremoto de Lisboa, o Muro de Berlim, Nero, as Torres Gêmeas, os incas, Sêneca, os maias, toda a filosofia grega, toda a filosofia romana, os sumérios, a astronomia grega, o Império Romano, a biblioteca de Alexandria, Napoleão, os Habsburgo, a queda de Constantinopla, os Romanov, o Império Austro-Húngaro, Schopenhauer, a Revolução Francesa, Sputnik, Hitler, os invernos, Newton, Homero, a Revolução Russa, o Albert Camus, Mussolini, Apollo 13, Lênin, Tutancâmon, os medievais, o Sebald, Gutenberg, Galileu Galilei, Thomas Bernhard, os babilônicos, Cioran, os outonos, Einstein, as grandes guerras mundiais, Montaigne, o Enuma Elish, o Gavrilo Princip, a Dinastia Sung, Nietzsche, o Canato Turco Ocidental, os verões, Gilgamesh, o Império Otomano, a Dinastia Yuan, o Califado Omíada, o Império do Grande Qing, a peste bubônica, a gripe espanhola, o Salazar, o Francisco Franco, o Hermann Göring, a Comuna de Paris, o arquiduque Francisco Ferdinando. Todos passaram, insiste o sr. Anselmo, tudo ruínas, miragens. Tudo desaparece.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 12

Apontamentos aleatórios enquanto o sr. Anselmo escuta Shida Shahabi (Futō), fumando um cigarro às escondidas, a ler Raymond Carver — a chuva tamborila sobre capa protetora da piscina, algumas gotas respingam na mesa à qual o sr. Anselmo está sentado.

Pastel de natas (industrializado [Confeitaria da Torre]), Bier Hoff — desde 2002 —, Red Ale, cerveja forte, cerveja escura, 500 ml, 8,5% vol. O sr. Anselmo está vestido com uma camisa a dizer I WOULD PREFER NOT TO (prefiro não fazê-lo [tipologia Helvetica Neue]), Bartleby, Herman Melville.

A bebida e o cigarro são suicídios à prestação.

De dia, os revolucionários detestam determinado canal televiso, mas, à noite, os revolucionários continuam a consumir os produtos desse mesmo canal televisivo. 

Melhor ir-se acostumando com os drones (inclusive aos domingos).

A contagiosa doença de literatura. Parasitismo. Escreve-se e lê-se imenso, bem mais do que precisaria.

O baiacu é um peixe mortalmente venenoso — e nem por isso deixam de comê-lo.

Nesta sociedade absurda, o fantasma do fim do mundo mostrar-se-á, enfim, num tweet censurado.

Os escritores franceses escrevem até morrer. Estão no leito de morte, mal conseguem respirar, mas escrevem, até morrer.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 11

Há por aí imensos manuais sobre como escrever livros, diz o sr. Anselmo. Eu mesmo poderia ter utilizado vários deles. São baratos. Mas não o fiz. No entanto, ele continua, no entanto, acho que posso compartilhar outra cartilha de igual importância, cartilha a que dei o didático nome de «Manual sobre como não escrever livros» (grifo do sr. Anselmo). É de fácil entendimento. Começa da seguinte maneira: primeiro, tu não podes escrever todos os dias. Aliás, se queres não escrever um livro, é de suma importância que não escrevas todos os dias. Nada de montares rotinas, nada de te encantares com o nascer do sol, nada de teres lá uma mesa para chamar de tua, nada de café matinal, nada de leituras inspecionais, nada de leres Montaigne, nada de ouvires o John Cage. Percebes: se não queres escrever livro, precisas de ser como um zombie alheado. Fecha os teus canais. Não viaja. Não sai de casa. Ignora tudo que possa inquietar a tua alma. Evita cair em tentações e não compres papel, caneta, lápis. Exclui do teu computador os editores de texto, quebra a tua impressora com uma machadinha… Acontece que o sr. Anselmo poderia passar horas e horas compartilhando pontos pertinentes do próprio «Manual sobre como não escrever livros», mas agora ele está com preguiças.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 10

Em situações saturadas de paranoia muitas pessoas sentem medo e não suportam perceber que outros não sentem medo nenhum. Os que têm medo exigem que todos sigam as mesmas regras, que compartilhem o mesmo pânico, a mesma paralisia, o mesmo pavor de morte, como se os espelhos quebrados justificassem o próprio sofrimento. Os que têm medo parecem não conseguir compreender que alguns simplesmente aceitam o absurdo da situação, que alguns não lutam contra a insignificância humana — «se for assim o futuro, prefiro nem lá chegar», etc. —, que alguns não dão a mínima, indiferentes, continuam a própria vida sem grandes expectativas. Sim, a verdade é que as pessoas que sentem um medo patológico nutrem ojeriza insuportável por aqueles que não se importam tanto assim, por aqueles que preferem abraçar o absurdo e de uma maneira libertadora compreendem que tudo é caos, mudança, vazio — escreve o sr. Anselmo enquanto tenta acender o charuto.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 8

O sr. Anselmo está esparramado na cama a ler, sem compromisso, um artigo na Real Sociedade de Química (Londres). A revista explica que o ser humano é basicamente formado por seis elementos — carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, cálcio e fósforo. Ele ajeita a cabeça no travesseiro: substâncias que poderiam ser encontradas em qualquer farmácia de esquina. A continuação da leitura do artigo publicado na Real Sociedade de Química reforça a ideia de que o animal humano é um conjunto temporário de átomos e memórias vagas. Todo o alvoroço pelo corpo, pensa o sr. Anselmo, adoração pelo corpo, manutenção do corpo, o corpo esbelto, o corpo santuário, o corpo rígido, o corpo flácido, as aparências brevemente mostrar-se-ão infrutíferas. Pois quando deixamos de ser, sobram-se os dejetos orgânicos. E as minhocas famintas esfregam a barriga à espera do banquete.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 7

Depois de certa idade, diz o sr. Anselmo, um velho como eu está autorizado a opinar sobre qualquer coisa. Temos carta branca, ele acrescenta. É claro que costumo oferecer o benefício da dúvida, continua o sr. Anselmo, mas a ideia de um deus a criar este universo assustadoramente gigantesco que não para de inflar parece-me algo indigesto. Entretanto, pensemos com contexto. Se esse deus existisse: ele seria tal e qual aquele pai desnaturado que numa tarde cinzenta de domingo diz aos filhos que só vai ali até ao posto de gasolina comprar cigarros e que nunca mais volta para casa.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 5

Alguns diriam que o sr. Anselmo pertence àquela classe de humanos azedos. O facto é que diversas comparações feitas por ele acabam por justificar esse tipo de rotulagem. Por exemplo, o sr. Anselmo diz que o amor lembra um disco de vinil. Disco de vinil do qual gostamos imenso, mas que há muito se mostra danificado. De início, ele explica, de início pode-se ter muita vontade de ouvir o disco danificado, a primeira faixa está perfeita, quase se esquece que o disco está danificado, a primeira faixa atinge-lhe com estupor. Mas lá para o meio a coisa acontece, a agulha da vitrola começa a soltar, arranha a superfície errática do vinil, e o que tinha um som agradável, agora é cacofonia ensurdecedora. Eis o amor, insiste o sr. Anselmo.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 4

São histéricas as pessoas preocupadas ou confusas de modo desnecessário ou desarrazoado, são mais infelizes, mais medrosas do que precisariam de ser, diz o sr. Anselmo. O histérico age de maneira ilógica, irracional, imprópria e, muitas vezes, infantil. É emocionalmente perturbado, vulnerável, presa fácil de manipulações impositivas, alimenta um pavor terrível de realizar até mesmo as simples tarefas. Diz sim quando deveria dizer não, diz não quando poderia dizer sim. Clássica a figura do histérico a se consumir de forma frenética numa infinidade de mazelas imaginárias. Por quase sempre acreditar-se em estado de vida-ou-morte, tende a aceitar qualquer sugestão de sobrevivência — mesmo que essa sugestão transforme a própria sobrevivência num paradoxo absolutamente insuportável.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 3

As roupas que o sr. Anselmo utiliza foram todas desenhadas e costuradas por ele mesmo. Necessário que se diga sem papas na língua e sem delongas: são roupas estranhas, desajustadas, um pouco cômicas. Acontece que certa vez o sr. Anselmo entrou numa loja de departamento para comprar roupas e nenhuma lhe agradara e ele pensou: a verdade é que eu, Anselmo, nunca escolho a roupa, são sempre os outros que, antes de mim, escolhem, montam, penduram, selecionam, descartam, dobram, decidem o estilo da roupa que estará nas prateleiras dos estabelecimentos, roupas que, somente então, eu poderei comprar. Numa ingenuidade risível, continua o sr. Anselmo, achamos que escolhemos alguma coisa neste mundo industrioso, mas nunca se passa dessa forma. Essa mesma ilusão de livre-arbítrio atormentara a frágil linha de pensamentos do sr. Anselmo quando ele foi à concessionária adquirir automóvel. Automóveis pré-fabricados, pré-desenhados, pré-pintados, pré-catalogados. Mas como o sr. Anselmo não tem a capacidade de montar o próprio automóvel como faz com as próprias roupas, ele simplesmente decidiu-se não dirigir, agora só anda de ônibus ou vai a pé.

— P. R. Cunha