A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha