Telescópio daltônico

O Sr. Block e a Suzanna conheceram-se num bate-papo virtual para solteiros. O Sr. Block escrevia umas coisas esquisitas sobre planetas, teoria das supercordas, liminal spaces, multiversos, e sobre observar Júpiter durante uma noite sem lua, e sobre a atmosfera escaldante de Vênus. Esse tipo de assunto não é nada comum entre os rapazes da idade da Suzanna, de modo que ela se intrigara e começou a conversar com o Sr. Block, sem saber nada do Sr. Block a não ser que ele tinha esse excêntrico interesse astronômico. A bem da verdade os dois passaram bons três/quatro meses a trocar mensagens sem saber muito da vida um do outro. Ela sempre entrava na sala de bate-papo às 17h como Suzanna; ele às 17h30, como Sr. Block. Ela escrevia de um jeito jovial, descontraído, leve; ele com certa afetação, como se fosse mesmo um astrônomo que saíra de perto do telescópio depois de uma temporada de observações e de repente precisasse conviver com outro ser humano. Marcaram um encontro, como se diz, «às cegas». Suzanna estaria com vestido verde, Sr. Block com flor de lapela (parecida com aquelas que os padrinhos utilizam durante o casamento do melhor amigo). O Sr. Block chegara cedinho ao café da Rua 15, vez ou outra ajeitava para o lado os cabelos grisalhos, alinhava o paletó, mexia na flor de lapela, fazia concha com os dedos e averiguava se o hálito ainda estava com o agradável cheiro da balinha de hortelã. Passaram-se trinta minutos, uma hora, duas horas, depois três e nada de Suzanna. Aquilo começava a beirar o constrangimento. A atendente perguntara mais uma vez ao Sr. Block se ele não queria ver o menu do almoço, o prato especial do dia (risoto de tomate seco + vinho do Porto). O Sr. Block disse que não, que não era preciso trazer o menu do almoço, que já estava de saída etc. A atendente trouxe-lhe a conta. Ele voltou para o apartamento, abriu o laptop, a tela iluminou o rosto do Sr. Block enquanto ele registrava-se à sala de bate-papo virtual.

— P. R. Cunha