Tipos que descrevem

No início de cada curso de escrita criativa costumo instigar os participantes a responderem à famigerada pergunta: o que é um escritor? Não se trata de uma retórica socrática, eu realmente não sei a resposta correta — se é que há resposta correta.

Na escala mais primária, escritor seria aquela pessoa que escreve. Certo? Trata-se, porém, de uma definição deveras abrangente que só faz germinar novas indagações: os jornalistas são escritores?, e os escribas?, qual seria a diferença entre o autor Herman Melville e Bartleby, o jovem escrivão pálido?

Alguém, de certeza, sairá ofendido.

Muitos sugerem distinguir o escritor-artista daqueles que utilizam a linguagem e as palavras para fazer textos sem fins literários. Interessante segregação. É claro que haveria ainda a ardilosa tarefa de se definir o que é artístico, o que é literário. 

Gay Talese e Tom Wolfe sem dúvida não se incomodavam quando eram chamados de jornalistas, e as reportagens que escreveram superaram inúmeros romances pretensiosos que foram lançados na altura em que os dois publicavam artigos em jornais e revistas. Talese, inclusive, reuniu diversos desses textos numa coletânea chamada Writer’s life (Vida de escritor [lançado no Brasil pela Companhia das Letras]).

Os alunos do curso então começam a se perguntar se escrever é realmente um trabalho — no sentido industrial do termo. Surge a figura do flâneur, o ocioso, o dândi comum ao século XIX que fora retratado por Baudelaire como «errante solitário que perscruta, persegue, percorre o inferno urbano, vive de rendas, tem todo o tempo disponível para si».

Marcel Proust talvez seja um dos arquétipos mais emblemáticos dessa belle époque da vadiagem, e muito provavelmente porque representava a transição do antigo modus operandi (nostalgia) para as incertezas que assolavam o mundo depois da Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar que Proust escrevera boa parte de Em busca do tempo perdido deitado na cama.

Outra figura recorrente é a do jogador. Os amadores jogam, apostam, competem, enviam os manuscritos às editoras, aos prêmios. E somente quando são publicados (e recebem pela própria criatura [ainda no contexto mercantilista]) é que podem se considerar «escritores de verdade». A analogia com o concurseiro mostra-se quase inevitável. Aquele que estuda para concursos, por mais embasamento teórico que possua, não pode ser chamado de funcionário público até que seja aprovado nos exames.

São respostas livres, despretensiosas, aleatórias, um bocadinho polêmicas. O próximo curso de escrita criativa começa esta semana — e não vejo a hora de poder apreciar novas hipóteses sobre o que é, afinal, um escritor.

— P. R. Cunha