Tédio, esta forma incerta

 *Publicado originalmente em iapetus-zine.

Pode-se imaginar Paulo Mendes Campos limpando com a manga da própria camiseta o resto de cerveja da boca depois de dizer, um tanto grogue, que o tédio é bem um dos fenômenos de maior importância na era tecnotrônica; pois se errarmos a mão na dosagem, causa sofrimento, violência, destrutividade — vide pessoa mais sensível a pôr termo à vida durante longa e morosa tarde de domingo: ou porque dissera palavras amargas a um certo familiar, magoando-o (magoando-se) sobremaneira, ou talvez por causa da derrota do time de futebol, ou quem sabe ainda um colega não ligara para dizer-lhe «feliz aniversário» —, este é o tédio que anestesia corpo & consciência, fica-se sem vontades de nada, de ninguém, o tédio que mata, deveras diferente daquele associado ao ócio (substantivo masculino: folga, repouso, preguiça, mandriice, quietação), ócio-criativo, tão necessário àqueles que se sentem mui à vontade com a solitude; há, portanto, tipos distintos de tédio, & há quem não consiga fitar o abismo, não dá conta de transformá-lo, metamorfoseá-lo em algo próprio (Matsuo Bashô observa a passagem do tempo que tudo arrasta e destrói, mas não se abala, escreve haikus &tc.), ser humano que se perde numa rua sem saída para a qual os caminhos da existência por vezes levam, & não sabe o que fazer, apenas fita o desfiladeiro, aterrorizado, procura de todas as formas olvidar-se, precisa de preencher a vacuidade com toda a sorte de artifícios/artificialidades («tudo o que é sólido se desmancha no ar», BERMAN, Marshall), abre as apps do telemóvel, redes sociais, pornografias, séries online, noticiários, porque não consegue aturar uns minutinhos de nada, & mete-se a entulhar o cérebro com as mesquinharias do chamado mundo moderno, até perceber a futilidade desses dispositivos, do ambíguo & passageiro entretenimento oferecido pelas apps, o conteúdo embrutecido das redes sociais, o gozo culpado das pornografias, o excesso de séries com narrativas repetidas, loopings, os jornais repletos de notícias inúteis, ao que não é de se admirar que a despeito da abundância oferecida pela sociedade do século vinte & um, o século do futuro, dos contêineres que atolam os portos com mercadorias diversas, milhares & milhares de opções em shopping mall, rede web, lojas físicas, lojas virtuais, que a despeito de tudo isso, como estava eu a dizer, exista tanta alma penada & vazia vagando a nenhures.

— P. R. Cunha


prcunhazinetexto

Robô

Para o amigo olivarui

O robô não sente dor
não faz greve
não se rebela
não precisa do horário de almoço
não engravida
não sofre acidente de trabalho
não exige indenização
não tem problema cardíaco
não bebe demasiadamente
não escreve poesia
não sangra
não chora
não mente
não sente —
o robô há muito
já nos roubou.

— P. R. Cunha