Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha 

É com agrado que o leitor se deixa levar para uma certa atmosfera de tristeza

A verdade é que poucos viventes problematizam tanto o próprio ofício como os escritores o fazem.

Sabe-se que não é adequado
estar constantemente a declarar
que escrever é terrível.

As pessoas se aborrecem — mas o faço por desporto. Digo que o escritor anda sempre com a morte. A perversa está à espreita, não hesita em ceifar quando julga necessário. Escreva depressa. A lâmina é afiada.

Escritor-personagem que deixa atrás de si rastros de encontros com a Morte (colocar a maiúscula quando Morte). 

Tentativas de enganar a Morte: escolher as palavras é também escolher as realidades — e cada um tem lá a própria. Na minha biblioteca, A república de Platão está ao lado de Os contos completos de Raymond Carver. Mais de dois mil anos separam Platão de Carver: mas ambos deitam-se lado a lado nas minhas prateleiras. Viajo dois mil anos em poucas horas se leio Platão de dia e depois leio Carver à noite. Sinto-me eterno durante essas poucas horas. Engano a morte, por pouco tempo.

Tentar escrever
sobre enganar a Morte
é viver.

Perguntas impertinentes sobre a Morte: há tantas realidades à nossa volta — por que selecionamos umas e não outras?, por que seguimos por este e não por aquele caminho?, por que uns morrem numa cama de hospital, e outro se jogam para o Atlântico? Uma passagem, como se diz, do que era para o que ainda não é.

O beijo de Morte: duas pessoas que se beijam. Permitem o beijo de um outro ser humano. Abrem uma concessão; sim, você pode cá me beijar. Não podemos beijar todos os seres humanos, só alguns. Determinada senhora de Teresópolis diz que só beijou dois homens em toda a vida. Essa senhora de Teresópolis recebera poucas concessões para o beijo, por isso se mostra geralmente triste.

Morte, resignação: precisa-se aceitar a condição de escritor. Ou, pelo menos, acreditar que se aceitou a condição de escritor. Esquecer-se dos golpes do mundo, o tumulto na rua que não lhe deixa dormir, a música alta do vizinho, os gritos de dor do rapaz atropelado — «barulhos do tempo».

Concluir (precipitadamente): escrever é continuar náufrago.

— P. R. Cunha