Silêncio falado

Para a Irina M.

Londres, 18 de abril de 1930. 20h45. Boa parte dos britânicos prepara-se para escutar o boletim noturno da BBC. Famílias inteiras estão reunidas ao redor do rádio enquanto uma voz granulada, grave, porém amistosa, anuncia: «Boa noite. Hoje é uma ótima sexta-feira, não temos notícias». Então a BBC simplesmente preferiu tocar concertos de música clássica. O dia sem notícias. Parece que há 88 anos não era vergonhoso admitir isto, que o mundo por vezes não tem mesmo nada a dizer. E o vazio podia ser preenchido com o tilintar de um piano, com as cordas de um violoncelo, com o sopro de um oboé.

O vazio. Costumo guardar meus livros mais antigos dentro de um baú. Trata-se de uma lustrosa caixa de madeira com 32 centímetros de altura, 42 de comprimento e 50 de largura. Hoje de manhãzinha decidi remover todas essas relíquias a fim de averiguar se as traças alimentavam-se dos meus velhos companheiros de letras. Olhei para o baú e pensei: agora este baú está vazio. Mas, em verdade, o baú nunca esteve vazio — há sempre vestígios de poeira, vapor d’água, moléculas de ar, fótons, eléctrons, partículas elementares. Apenas não conseguimos enxergá-los. 

O vazio absoluto, portanto, não existe; assim como um dia em que nada acontece. Mas, ao fim e ao cabo, pode-se filtrar a poeira, eliminar o máximo de ruído externo. E talvez, quem sabe, consigamos qualquer coisa parecida com os «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage: aquele silêncio permeado pelos movimentos do próprio compositor, o discreto metrônomo de fundo, e um comedido aplauso, se estivermos em público. 

— P. R. Cunha

Questão de tempo / ou camadas do tempo segundo relatos de antigos relógios

Este electro-sítio, enfim, transformara-se num confortável armazém para as «notas que não estou a utilizar nas minhas obras com fins de sobrevivência». Noutros termos: há um excesso de produção que desemboca nestas represas etc. É porque o engenheiro constrói prédios, o médico receita medicamentos, o confeiteiro faz doces, o piloto de fórmula um pilota o fórmula um, e o escritor… Bem, o escritor precisa de escrever.

Costumo almoçar sozinho, em silêncio. Não chega a ser um silêncio de morte, como se diz, silêncio absoluto (como o da câmara anecoica dos Laboratórios Orfield*) — nunca é. Pois consigo ouvir os passos dos vizinhos, a conversa do eletricista ao telemóvel, o barulho da motocicleta, o som da minha mastigação, o tique-taque do relógio. Os relógios sempre me fascinaram, e entre uma e outra garfada fico a pensar no tempo que eles me mostram. Procuro me lembrar o que almocei ontem, um almoço que não é mais. Amanhã, um novo almoço, que ainda não é. Olho então para o meu prato quase vazio — tique-taque-tique-taque —, este almoço também já passou. De todos os tempos, o que eu mais aprecio é o cosmológico. Aquele breve infinito que nos transporta até às partículas elementares, através do qual viajamos bilhões e trilhões de anos enquanto aqui na Terra a noite mal começara. Um tempo que se assemelha àquele em que vive o escritor: tempo que isola, que suspende. Tempo a levar tempo. Tique-taque. Tempo que passa, que está a nos consumir a cada voltinha do ponteiro vermelho. Tique-taque. Tempo que um dia também nos levará para sempre. Tique-…

— P. R. Cunha


*A câmara anecoica (sem eco) dos Laboratórios Orfield em Minnesota é considerada o lugar mais silencioso do mundo, com um ruído de fundo negativo de -9.4 dBA. Steven Orfield, responsável pelo projeto, costuma desafiar os visitantes a ficarem mais de 45 minutos dentro da sala, no escuro: «Quanto mais silencioso o local, mais a nossa audição tenta se adaptar. A pessoa então começa a ouvir o batimento cardíaco, a atividade pulmonar, o estômago trabalhando. Dentro da câmara anecoica, você se torna o som».

Hemisfério de Magdeburgo

Um relógio de parede já estava farto de estar na parede, desistiu de funcionar e deu consigo no chão da sala. Já não tinha mais de dizer as horas a ninguém.

(…)

O silêncio como forma de opressão/tortura; fazemos uma pergunta, esperamos resposta, que nunca chega, o receptor permanece calado, mudo, como se jamais tivéssemos feito pergunta alguma — a indiferença, portanto, desassossega.

(…)

Por entre as cadeiras
de um café
certa dama está a ler —
não lhe sei o nome
mas pouco demora
para chegar-me
um perfume
— a saudade.

— P. R. Cunha


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© Gravura de Gaspar Schott