Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Quarta nota #7 — vende-se

Caminhada na floresta
o cheiro da relva
sinistro presságio.

§ Se o propósito da vida humana for mesmo a tal busca da felicidade, acúmulos de experiências alhures, receber reconhecimento enquanto ainda se está vivo… então, dedicar-se à atividade literária a tempo inteiro é provavelmente a aposta mais absurda, mais incrível, mais gratificante, mais perturbadora e mais contraditória que tu poderias fazer.

§ Fulano escreveu um livro muito bonito, cujas linhas ninguém entendera. Só foram compreendê-las duzentos e cinquenta e cinco anos depois; quando Fulano há muito já servira de banquete às minhocas.

§ Ainda assim, Fulano permanece horas a devorar o Beckett, o Adorno, o Jünger, o Genet e outros. Depois, anota a respeito do Beckett, do Adorno, do Jünger, do Genet…

§ O perigo de se lidar com o absurdo diariamente: o absurdo se torna hábito, o absurdo cria moradas, o absurdo fica. Entra-se num ciclo em que sentes sempre um abismo.

§ Elefante na biblioteca: a literatura e todas as possibilidades criadas por ela não passam de commodities, mercadorias (Leandro compra livros, Marta os vende — livros custam dinheiros). Vamos às lojas adquirir esses trocinhos de papel, pagamos por eles. A dinâmica é bem esta: há um produto, as pessoas perdem o interesse pelo produto, o produto começa a desaparecer.

§ «As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. […] Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise» — trecho da carta aos leitores escrita por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

§ Livraria Saraiva pede recuperação judicial para reestruturar dívida de R$ 675 milhões. O pedido foi aceito. A empresa agora precisa de apresentar um plano econômico viável nos próximos sessenta dias.

— P. R. Cunha

E se a Mamã e o Papá reprovarem os meus escritos — café com Friedrich Nietzsche

No aforismo nº 192 de Humano, demasiado humano Nietzsche defende que o melhor autor é aquele que tem vergonha de se tornar escritor. Ou mesmo aquele que só o diz em última instância, quando não resta nada a dizer sobre si. Assim, bom narrador seria um indivíduo que transmite-se com segurança e coerência nos atos/pensamentos dos personagens. Longe de ser postura covarde, é bem um sinal de respeito aos leitores. O escritor está simplesmente a mostrar que o que ele escreve é muito mais importante do que aquilo que ele faz quando não está a escrever. 

Raramente se tem tanto interesse pela vida de um advogado, ou de um médico, ou de um engenheiro — apenas contamos com os seus serviços, pagamos, e seguimos adiante. Mas com os escritores parece haver fetiche incontrolável: perguntam como, por que, quando, onde. E alguns voyeurs estão sempre a confundir ficção com opinião. 

Um escritor com medo não cria bons antagonistas, pois, como se diz, pisa sempre em ovos. Teme a opinião pública, não confia no discernimento dos leitores — o que vão achar de mim?, etc. De aí lermos os melhores vilões através das penas de escritores que nunca (ou quase nunca) deram a mínima para o que os outros achavam das próprias narrativas (estou a pensar majoritariamente em Melville, Stendhal, Beckett, Pynchon, Ionesco, Pirandello, Sciascia, Krúdy, Pinter, Bernhard). 

Em suma, escritor que se senta à escrivaninha e começa a matutar «será que mamã aprovaria o que estou a escrever» já se perdera antes mesmo da primeira palavrinha. Ler um escritor como se ele mesmo fosse um material de ficção. Ou, como também defendia o Nietzsche, tratar o escritor como um mero porta-voz de acontecimentos, sejam eles verdadeiros ou imaginativos.

— P. R. Cunha