Quarta nota #7 — vende-se

Caminhada na floresta
o cheiro da relva
sinistro presságio.

§ Se o propósito da vida humana for mesmo a tal busca da felicidade, acúmulos de experiências alhures, receber reconhecimento enquanto ainda se está vivo… então, dedicar-se à atividade literária a tempo inteiro é provavelmente a aposta mais absurda, mais incrível, mais gratificante, mais perturbadora e mais contraditória que tu poderias fazer.

§ Fulano escreveu um livro muito bonito, cujas linhas ninguém entendera. Só foram compreendê-las duzentos e cinquenta e cinco anos depois; quando Fulano há muito já servira de banquete às minhocas.

§ Ainda assim, Fulano permanece horas a devorar o Beckett, o Adorno, o Jünger, o Genet e outros. Depois, anota a respeito do Beckett, do Adorno, do Jünger, do Genet…

§ O perigo de se lidar com o absurdo diariamente: o absurdo se torna hábito, o absurdo cria moradas, o absurdo fica. Entra-se num ciclo em que sentes sempre um abismo.

§ Elefante na biblioteca: a literatura e todos as possibilidades criadas por ela não passam de commodities, mercadorias (Leandro compra livros, Marta os vende — livros custam dinheiros). Vamos às lojas adquirir esses trocinhos de papel, pagamos por eles. A dinâmica é bem esta: há um produto, as pessoas perdem o interesse pelo produto, o produto começa a desaparecer.

§ «As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. […] Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise» — trecho da carta aos leitores escrita por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

§ Livraria Saraiva pede recuperação judicial para reestruturar dívida de R$ 675 milhões. O pedido foi aceito. A empresa agora precisa de apresentar um plano econômico viável nos próximos sessenta dias.

— P. R. Cunha

E se a Mamã e o Papá reprovarem os meus escritos — café com Friedrich Nietzsche

No aforismo nº 192 de Humano, demasiado humano Nietzsche defende que o melhor autor é aquele que tem vergonha de se tornar escritor. Ou mesmo aquele que só o diz em última instância, quando não resta nada a dizer sobre si. Assim, bom narrador seria um indivíduo que transmite-se com segurança e coerência nos atos/pensamentos dos personagens. Longe de ser postura covarde, é bem um sinal de respeito aos leitores. O escritor está simplesmente a mostrar que o que ele escreve é muito mais importante do que aquilo que ele faz quando não está a escrever. 

Raramente se tem tanto interesse pela vida de um advogado, ou de um médico, ou de um engenheiro — apenas contamos com os seus serviços, pagamos, e seguimos adiante. Mas com os escritores parece haver fetiche incontrolável: perguntam como, por que, quando, onde. E alguns voyeurs estão sempre a confundir ficção com opinião. 

Um escritor com medo não cria bons antagonistas, pois, como se diz, pisa sempre em ovos. Teme a opinião pública, não confia no discernimento dos leitores — o que vão achar de mim?, etc. De aí lermos os melhores vilões através das penas de escritores que nunca (ou quase nunca) deram a mínima para o que os outros achavam das próprias narrativas (estou a pensar majoritariamente em Melville, Stendhal, Beckett, Pynchon, Ionesco, Pirandello, Sciascia, Krúdy, Pinter, Bernhard). 

Em suma, escritor que se senta à escrivaninha e começa a matutar «será que mamã aprovaria o que estou a escrever» já se perdera antes mesmo da primeira palavrinha. Ler um escritor como se ele mesmo fosse um material de ficção. Ou, como também defendia o Nietzsche, tratar o escritor como um mero porta-voz de acontecimentos, sejam eles verdadeiros ou imaginativos.

— P. R. Cunha