Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.

Praia de Icaraí

«A evasão de P. R. Cunha para dedicar-se algures integralmente ao xadrez causou nesta família uma impressão profundamente desagradável.»
Notas de minha mãe

Foi preso ontem, às onze horas da noite, um enxadrista brasiliense que se achava embriagado, completamente fora de si e provocava desordem em um boteco na rua Mariz e Barros, Niterói. Na ocasião de ser conduzido para a delegacia, tentou surrar o rondante com um chapéu-de-chuva, que trazia consigo. Ninguém se feriu.

O que disse o delegado a respeito do enxadrista brasiliense: o que é certo é que muito raramente aparecem aqui meliantes deste gênero — intelectual, jogador de xadrez, e pelos vistos ainda escreve romances. Não deixa de ser uma pena, posto que são excelentes conversadores.

Como vais?, o delegado perguntou para o jogador de xadrez. Bem, respondeu o jogador de xadrez com uma resignada tristeza. Já não sofres?, perguntou o delegado. No físico, disse o jogador, no físico, passo às mil maravilhas.

O enxadrista brasiliense, que está na 467ª posição do ranking mundial, foi liberado hoje pela manhã. E isso tudo é confuso demais.


» Malas prontas para Niterói

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