devaneios da própria máquina de escrever (episódio #37)

em um dos eventos mais (quiçá o mais) emblemático da poesia romântica, coleridge & keats apertam as mãos em sinal de reverência mútua. meses depois, ainda sob os efeitos inebriantes do encontro, coleridge confessaria: «senti a morte naquela mão».

trecho do poema A BOLA (inédito & [propositadamente] incompleto)

o escritor segura a caneta
tal jogador domina a bola
apenas o instrumento de trabalho
nada quer dizer
se dentro de si o ar se perde
pressão atmosférica
há pelés, ronaldos,
maradonas, zidanes, baggios,
a mesma bola, mas quanta diferença
no tratar, no jogar, no drible, no gol
a pena literária, igual:
paveses, sebalds, machados,
barretos, styrons —
como pode
é a mesma caneta
a mesma bola
mas outras mãos
outros pés
& o abismo interior
a dividir os meios.

— p. r. cunha

Ilhéus

O apego de certos escritores pelo mar, admiração que por vezes raia o doentio, incontrolável desejo de perder-se na vasta superfície oceânica em busca de um sítio onde consigam acertar as contas com as próprias desilusões, querem se sentir em paz. 

Escritores que numa altura dedicaram esta ou aquela obra a determinados marinheiros de longo curso — tipos maioritariamente insondáveis — cujos corpos jazem algures no fundo do oceano. 

Escritores em busca de uma ilha.*

Virginia Woolf, Jorge Amado, Stevenson, Melville, Kipling, Camões, Conrad, Vinícius de Moraes, Joyce, Walcott…

Novalis, depois de caminhar pelos territórios britânicos em meados do século dezoito, escrevera: não só a Inglaterra, mas também o inglês é uma ilha. E também os poetas, os românticos, os solitários que dão-se bem com a solitude: todos ilhas.

Quando estou a passar por apuros, como se diz, quando percebo-me a lidar com situações irreversíveis, e vejo-me assombrado pela realidade, e simplesmente não dou conta, e a chuva cai em finas gotas que espetam a pele como agulhas, e uma sensação de esmagadora asfixia invade as minhas entranhas, procuro da mesma forma o conforto do exilado náutico.

Como se meus pensamentos fossem amparados pelas ondas, de súbito visualizo-me sentado à escrivaninha — o meu refúgio, ilha de madeira com livros a fazer as vezes de árvores, árvores que possuem literaturas em suas folhas, dezenas, centenas, milhares de folhas retangulares oferecendo sombra para a minha cabeça, a refrescar o incêndio interno que me arde e devora sem moderação.

Fujo para a minha zona de areia cercada de água por todos os lados, talvez o último fragmento de sanidade que consigo avistar antes de perder-me em devaneios paralelos. E espero. Vem a ressaca. A maré recua. O marujo coloca-se novamente a caminho de terra. Volta um outro, momentaneamente curado.

— P. R. Cunha


*Não confundir com a anestésica busca por um porto seguro, não é disso que se trata.