Quarta nota #9 — há um bezerrinho chamado Pê Erre (e ele passa bem)

Porque amnésia — e certo descaso involuntário — escrevo estas notas de quarta-feira numa manhã de quinta-feira parcialmente nublada, vista cinzenta, glacial, sol modorrento a aquecer coisa alguma. À tarde, sorvete com a Jéssica.


§ Certa leitora que mora num rancho, na paz dos campos, como se diz, não muito longe da cidade de Pirenópolis, enviara-me agradável electro-carta a dizer que gosta das coisas que escrevo. A leitora acrescenta ainda que o rancho acabara de ganhar um novo bezerrinho e que o animal já tem nome: Pê Erre — singela homenagem a este que vos fala.

§ Aqueles que mexem com robôs sabem que os robôs vieram para ficar, que os robôs não estão para brincadeiras. E aqueles que mexem com robôs estão a dizer também que se queres competir com estas criaturas metálicas é melhor desenvolveres qualificações como o pensamento crítico, a resolução de problemas ardilosos, a criatividade, a comunicação, o espírito colaborativo.

§ Em suma, se queres competir com robôs, não ajas como um robô.

§ Na primária, Miranda divertia-se no parquinho da escola. Era uma pequenina realmente graciosa. Na adolescência, engordara um bocado porque tomava sorvete e comia quantidade absurda de bacon ao pequeno-almoço. Em mulher, entregara-se à cocaína e nunca saía de casa. Numa altura, namoriscou a ideia de se tornar comissária de bordo da TAP Air Portugal.

§ Excelente método para se ver livre da procrastinação (em fazendas artísticas e não só) é ter em mente que o amanhã pode não existir. «E se eu morrer?» Pergunte-se isso várias vezes ao dia, principalmente quando a ociosidade construir moradas. «E se eu morrer?» Preciso de começar um livro, são muitas páginas, mas vou escrevê-lo depois — postura clássica de aqueles que não percebem a imprevisibilidade da ceifa. O desconforto da nossa finitude, como já se disse, ajuda a produzir coisas intensas.

§ Animal humano que vive cheio de ruminações, que passa um tempo considerável a ser vítima de pensamentos insuportáveis, problemas invisíveis, vítima da ansiedade, e da raiva, e da inquietude, atormenta-se por angústias desnecessárias, esperanças vãs, temores absurdos, muitas vezes torna-se vulnerável ao extremo, frágil, prisioneiro de memórias equivocadas, tenta responder a uma realidade que já há muito não tolera — e coisas do gênero.

§ 8/4/2017: o juiz Sérgio Moro diz que crime de caixa dois é pior do que corrupção, um crime contra a democracia, é trapaça, pior do que enriquecimento ilícito. 19/2/2019: o superministro (sic) Sérgio Moro diz que crime de caixa dois não tem gravidade de corrupção, não precisa de estar no projeto anticrime, não há necessidade de incomodar os políticos com temas sensíveis.

§ As pessoas mudam, quer dizer…

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: escrever e viajar — ofícios da mesma prática*

Juan Carlos Onetti dizia que o criador/artista precisa de ter a força para viver solitário. Um tipo específico de animal humano que tem a coragem de olhar para dentro de si mesmo, que compreende que não há trilhas para seguir — constrói o caminho à medida que o percorre (como já tivemos oportunidade de ver neste caderno [vide figura do comboio]).

Escrever e viajar: duas viagens.

As odisseias de Homero, as andanças de Ulisses, as raízes da própria literatura vêm dessa vontade, desse desejo… ou melhor, dessa necessidade (sublinhar necessidade) de estar noutro sítio.

O viajante então torna-se filósofo à maneira Nigel Warburton: não se limita a expressar as suas crenças, ele raciocina, define, classifica; uma tentativa constante de ir além das aparências, quer ser desafiado, criticado, sabe que a maioria dos trajetos aparentemente simples não tem uma direção simples.

Quantos romances sobre o mar, sobre as chegadas e partidas em docas atingidas por ondas irascíveis, sobre o faroleiro que avista no horizonte marujos completamente fatigados, mas que a despeito do sopro da morte nunca param. Ahab encontra o cachalote — símbolo marítimo das obsessões do homem. Moby Dick, Herman Melville, acerto de contas com os próprios demônios. 

O oceano: destino dos aventureiros, dos rebeldes, dos insatisfeitos, daqueles que buscavam outra coisa, noutras costas.

A própria jornada narrativa (arco narrativo [para os catedráticos]) — apresentação do protagonista no mundo dos comuns, o chamado para a resolução de alguma dificuldade (desafio), aventura, lidar com algum impasse (algo ou alguém que está a impedir o protagonista de realizar o que pretende), ter de resolver o impasse, buscar a ajuda de algo (porção mágica/armamento/poderes/etc.) ou de alguém (ajudante/tutor[a]/companheiro[a]/justiceiro[a]/sábio[a]/etc.) para resolver o impasse, os objetivos que precisam ser alcançados, o sucesso, o fracasso, as transformações do protagonista no desenrolar da missão, o retorno à casa.

Se lemos, vemos, ouvimos, escrevemos uma história… estamos a viajar.

— P. R. Cunha


*Ironicamente, o autor tem de interromper temporariamente a publicação do Caderno de viagem por motivo de viagem. Feliz 2019!

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha