Excerto provisório

Volto em particular ao leitor deste electro-sítio e compartilho um muito breve trecho de certo romance em que estou trabalhando a tempo inteiro. Agradeço in advance que empregues teus lazeres nestes assuntos de tão mínima importância.


[…] Eis que dias mais tarde vem a morrer o seu pai, ao que não pôde resistir. Geralmente um glaciar introspectivo, sua resolução de súbito o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações. Chora, é criança novamente. A medida, na verdade, já estava a derramar deveras, e uma coisa de nonada bastaria para abater-lhe o otimismo, provocar-lhe um transbordamento de tristeza. Mas a dor sofrida quando se perde um pai está além de qualquer expressão, como se nenhum substantivo pudesse ilustrar adequadamente semelhante desespero — sente raiva por isso, os verbos não lhe servem mais de auxílio, sente-se traído, petrificado. De qualquer forma, insiste, batalha, luta, põe-se a golpear a cabeça qual louco a demonstrar extrema aflição, pois pretende transmitir esse embrutecimento sombrio, como tinha lido algures, embrutecimento que corrói a nossa «alma», embrutecimento surdo, mudo, embrutecimento que se apodera de nós quando as ocorrências (estou citando de memória), quando as ocorrências nos esmagam e por vezes ultrapassam o que nos é dado suportar. Esta dor excessiva. Morte do pai.

— P. R. Cunha

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Trecho de romance

Teoremas do fracasso
(P. R. Cunha – Inédito)

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler. Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O fato de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza. O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler. Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências. Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória. Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até mesmo para si), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam. Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro. Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler