Desafios literários diante das velocidades da comunicação eletrônica — «isto não é atual, portanto não me interessa»

Muito se fala sobre o avanço exponencial das tecnologias modernas. Algo que se mostrava imprescindível poucos anos atrás, hoje é descartado como uma bugiganga inútil e ultrapassada (pensem, por exemplo, nos aparelhos tipo telefax [telefacsimile/telecópia], ou nos pagers Bip que eram a última moda nos 1990…).

James Joyce demorou quase uma década para escrever Ulysses; Proust precisou de 14 anos para acertar as contas com o passado e mesmo assim não ficou completamente satisfeito com a série de Em busca do tempo perdido. Se os aparatos eletrônicos tornam-se descartáveis depois de alguns invernos, o que dizer das obras artísticas (livros, dramas, filmes, pinturas etc.)?

Os livros oitocentistas de Tolstói permaneceram mais ou menos modernos durante toda a vida do autor — numa altura em que os ponteiros dos relógios pareciam andar com menos pressa.

Temo que os livros escritos neste século digital estejam a ficar lentos demais para serem relevantes ou eficazes. O assunto tratado no romance pode se revelar desatualizado antes mesmo de a obra chegar às prateleiras das livrarias.

Levei cerca de três anos para escrever o meu segundo livro — 26 meses de árduas e edificantes pesquisas, mais quatro meses de escrita propriamente dita. Alguém abrirá meu livro e poderá dizer: estas coisa já aconteceram há tanto tempo (três anos é quase uma eternidade hoje em dia), por que hei-de me interessar por questões irrelevantes?

Romance continuum (cenário plausível) — um romance instantâneo, escrito por algoritmos, atualizado minuto-a-minuto; romance compartilhado, constantemente substituído por outras informações ainda mais novas/atuais; o estilo não será tão importante quanto o conteúdo; um romance que começa de um jeito, modifica-se de outro jeito, sem final específico, cenas abertas, cenas feitas justamente para serem alteradas de acordo com os caprichos dos avanços tecnológicos. Romance-Wikipédia.

(…)

Brasília, Livraria Cultura, início de maio. Um casal está a folhear livros e escuto o rapaz dizer: não conseguiria ler este aqui, é muito extenso. Olho indiscretamente para o livro que ele está segurando, um livrinho que não deve ter mais do que duzentas páginas.

— P. R. Cunha