Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha

Quarta nota #4 — há um enorme pedaço do universo onde pouca coisa acontece

§ Curta passagem pela Terra (68,76 anos se fores mulher e 64,52 anos se fores homem [em média, naturalmente]) e, depois, durante quanto tempo ainda lembrarão do teu nome? Malabarismos diários para construir o chamado «legado à posteridade», enquanto, ainda em vida, milhares de pessoas são relegadas ao esquecimento.

§ Em 1845, um jovem e irascível Charles Baudelaire — o poeta suicida que não se suicidara — escreveu carta de despedida a explicar que não aguentava mais o cansaço de adormecer e o cansaço de acordar, a rotina das mesmices. Logo depois, esfaqueou-se, mas não morreu. A nota com os pormenores desse plano macabro foi leiloada no domingo último por € 234 mil (≅ R$ 988 mil).

§ Se gostas de Roland Barthes e de, como costumam dizer os críticos, thriller cult com referências filosóficas de pensadores dos 1980, então La septième fonction du langage, do Laurent Binet, é um livro que vai te agradar imenso.

§ Tu és o motorista, não há mão livre para escrever. Passeia de autocarro, ou de metrô, ou de táxi; ali anota ao sabor das trepidações.

§ Os leitores portugueses têm agora um novo sítio de verificação de fatos: Polígrafo, fundado pelo jornalista Fernando Esteves, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado. Os fact-checks são primordialmente voltados para o contexto lusitano, mas Polígrafo também averigua eventuais lorotas brasileiras.

§ Em toda a parte deveria existir um escritor a trabalhar. O escritor dá forma a contos, crônicas, artigos, romances, poemas etc. A palavra é a tua matéria-prima; inspiração nada mais é do que a leitura e a releitura daqueles livros e daquelas ideias que mais te agradam. Utiliza de um clichê bobo e gentil: a inspiração é também transpiração. Os gênios têm os dedos calejados. 

§ Dentro de casa — a melodia das canetas a riscar a folha em branco continua.

§ O mundo é um lugar estranho. Muitas nuvens, cães solitários a vagar nenhures, árvores com folhas verdes, e vermelhas, e amarelas, os telhados, os asfaltos vestidos de sombra, automóveis de aço, aeronaves de aço, convites para escrever no jornal alheio; jornal de celulose. As longas tardes cinzentas em que pegaste no sono ao escutar documentários sobre o Cosmos — Boötes void (o vazio de Boötes), diâmetro de quase 250 milhões de anos-luz, monstruosa região repleta de coisa nenhuma, onde o inverno dura para sempre. Estás a escrever a respeito disso tudo e sentes também um Boötes void no coração. És supervazio. 

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Homens fragmentados

No terceiro dia do ano de dois mil e dezesseis, Julia e o marido estavam sentados num café que fica a duas quadras de onde eu moro, cerca de quatro minutos de caminhada. O marido de Julia acabara de perder o emprego, razão pela qual mostrava-se macambúzio. Julia estava bem, tinha emprego e cortara o cabelo pouco antes do Réveillon com o mesmo cabeleireiro da esposa do ministro da Cultura. Enquanto o marido tomava o cafezinho curto com as costas inclinadas, Julia observava sobre os ombros dele um homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso, do Roland Barthes. Julia sempre gostou do Roland Barthes, já o marido dela não fazia ideia, nunca lera Roland Barthes. O homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso flertava com Julia e o marido de Julia deixou cair café na própria camisa azul e arrastara a cadeira para trás e fez cara de criança aborrecida e disse para si qualquer coisa como: mil diabos, café dos diabos, vá para os diabos etc. O homem que lia Roland Barthes piscou para Julia, sorriu, levantou-se e foi embora. Tanto bastou para impressioná-la imenso, ao que ela o identificou como representante de uma classe em vias de extinção, a classe dos intelectuais — com a qual o marido que estava a secar a camisa azul com um guardanapo não podia competir. Mas o que Julia não sabia, e também não tinha mesmo como sabê-lo, é que pouco depois o homem que folheava Roland Barthes chegou em casa, sacou da maleta um revólver destravado — a mesma maleta dentro da qual carregava o exemplar de Fragmentos de um discurso amoroso (Martins Fontes Editora Ltda. [tradução de Márcia Valéria Martines de Aguiar {2003}]) — sacou, portanto, dessa maleta um revólver destravado, colocou-o dentro da boca e disparou. Naturalmente, não sobreviveu.

— P. R. Cunha