Quarta nota #4 — há um enorme pedaço do universo onde pouca coisa acontece

§ Curta passagem pela Terra (68,76 anos se fores mulher e 64,52 anos se fores homem [em média, naturalmente]) e, depois, durante quanto tempo ainda lembrarão do teu nome? Malabarismos diários para construir o chamado «legado à posteridade», enquanto, ainda em vida, milhares de pessoas são relegadas ao esquecimento.

§ Em 1845, um jovem e irascível Charles Baudelaire — o poeta suicida que não se suicidara — escreveu carta de despedida a explicar que não aguentava mais o cansaço de adormecer e o cansaço de acordar, a rotina das mesmices. Logo depois, esfaqueou-se, mas não morreu. A nota com os pormenores desse plano macabro foi leiloada no domingo último por € 234 mil (≅ R$ 988 mil).

§ Se gostas de Roland Barthes e de, como costumam dizer os críticos, thriller cult com referências filosóficas de pensadores dos 1980, então La septième fonction du langage, do Laurent Binet, é um livro que vai te agradar imenso.

§ Tu és o motorista, não há mão livre para escrever. Passeia de autocarro, ou de metrô, ou de táxi; ali anota ao sabor das trepidações.

§ Os leitores portugueses têm agora um novo sítio de verificação de fatos: Polígrafo, fundado pelo jornalista Fernando Esteves, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado. Os fact-checks são primordialmente voltados para o contexto lusitano, mas Polígrafo também averigua eventuais lorotas brasileiras.

§ Em toda a parte deveria existir um escritor a trabalhar. O escritor dá forma a contos, crônicas, artigos, romances, poemas etc. A palavra é a tua matéria-prima; inspiração nada mais é do que a leitura e a releitura daqueles livros e daquelas ideias que mais te agradam. Utiliza de um clichê bobo e gentil: a inspiração é também transpiração. Os gênios têm os dedos calejados. 

§ Dentro de casa — a melodia das canetas a riscar a folha em branco continua.

§ O mundo é um lugar estranho. Muitas nuvens, cães solitários a vagar nenhures, árvores com folhas verdes, e vermelhas, e amarelas, os telhados, os asfaltos vestidos de sombra, automóveis de aço, aeronaves de aço, convites para escrever no jornal alheio; jornal de celulose. As longas tardes cinzentas em que pegaste no sono ao escutar documentários sobre o Cosmos — Boötes void (o vazio de Boötes), diâmetro de quase 250 milhões de anos-luz, monstruosa região repleta de coisa nenhuma, onde o inverno dura para sempre. Estás a escrever a respeito disso tudo e sentes também um Boötes void no coração. És supervazio. 

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Homens fragmentados

No terceiro dia do ano de dois mil e dezesseis, Julia e o marido estavam sentados num café que fica a duas quadras de onde eu moro, cerca de quatro minutos de caminhada. O marido de Julia acabara de perder o emprego, razão pela qual mostrava-se macambúzio. Julia estava bem, tinha emprego e cortara o cabelo pouco antes do Réveillon com o mesmo cabeleireiro da esposa do ministro da Cultura. Enquanto o marido tomava o cafezinho curto com as costas inclinadas, Julia observava sobre os ombros dele um homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso, do Roland Barthes. Julia sempre gostou do Roland Barthes, já o marido dela não fazia ideia, nunca lera Roland Barthes. O homem que estava a folhear Fragmentos de um discurso amoroso flertava com Julia e o marido de Julia deixou cair café na própria camisa azul e arrastara a cadeira para trás e fez cara de criança aborrecida e disse para si qualquer coisa como: mil diabos, café dos diabos, vá para os diabos etc. O homem que lia Roland Barthes piscou para Julia, sorriu, levantou-se e foi embora. Tanto bastou para impressioná-la imenso, ao que ela o identificou como representante de uma classe em vias de extinção, a classe dos intelectuais — com a qual o marido que estava a secar a camisa azul com um guardanapo não podia competir. Mas o que Julia não sabia, e também não tinha mesmo como sabê-lo, é que pouco depois o homem que folheava Roland Barthes chegou em casa, sacou da maleta um revólver destravado — a mesma maleta dentro da qual carregava o exemplar de Fragmentos de um discurso amoroso (Martins Fontes Editora Ltda. [tradução de Márcia Valéria Martines de Aguiar {2003}]) — sacou, portanto, dessa maleta um revólver destravado, colocou-o dentro da boca e disparou. Naturalmente, não sobreviveu.

— P. R. Cunha