Quarta nota #2 — quem tem medo da gramática portuguesa (o dia em que encontrei o professor Pasquale a tirar uma selfie com o Palácio do Planalto atrás de si)

§ Muitos sentem um horror inominável quando diante da gramática portuguesa porque tratam-na como se fosse um conjunto rígido de leis e sentir-se-iam verdadeiros criminosos se infringissem tais regras quando verdade seja dita as instruções gramaticais servem para nortear e não para decapitar são acordos tácitos e se você não está a escrever para alguma banca de concurso público banca formada por verdadeiros dinossauros semânticos com voz passiva se você está portanto a anotar literaturas então permita-se um bocadinho de erro um bocadinho de escrita contínua um bocadinho de ousadia e não deixe que nem uma vírgula sequer se intrometa no meio do caminho.

§ Dirigimo-nos para a terceira década de Internet e é preciso estar mesmo muito ocupado com o ecrã do telemóvel para não perceber que o imediatismo à velocidade da luz não é lá muito a praia do Homo sapiens com cérebro analógico (20 W / 200 Hz).

§ Robô que Max adquirira tinha um metro e sessenta e cinco de altura, busto: oitenta centímetros; quadril: noventa centímetros; pernas longas, pescoço alongado, pele macia, robô atraente — Max pagara a taxa extra e a Robotpartner™ comprometera-se a entregar robô no apartamento dele num prazo de quarenta e oito horas.

§ A mesma luz que cega a alguns ilumina as trevas de outros. E a física quântica nos ensinara que as grandes coisas não costumam concordar com as pequenas coisas. Impasses da realidade contemporânea.

§ «Quando nosso ódio é intenso de mais, põe-nos abaixo de aqueles a quem odiamos», um notável disse isso, no moderno século XVII.

§ Entregar-se ao small talk sobre os motivos de se fazer arte enquanto bebe café Colômbia com arábica de colheita tardia, intensidade seis, acompanhado de cocoa-70% e sentir-se vivo e útil e sem culpas.

— P. R. Cunha

As preocupações do funcionário serão discutidas no devido tempo (com prólogo à moda «fire walk with me»)

Hoje o bot do WordPress, muito gentil por sinal, deu-me os parabéns porque nos últimos oito dias eu publiquei sete textos, e agora está a me enviar mensagem de encorajamento que diz: ficas on fire se compartilhas qualquer coisa esta quarta-feira. Quem nunca cedeu aos caprichos de um bot aprazível que atire o primeiro processador.


O Haroldo, assim como toda a gente, passa por dias bons & dias ruins. Ontem foi um dia bom — alta atenção sem esforço, boa produtividade na firma, conseguira regular a intensidade das próprias emoções, deixara erros & frustrações de lado. Acontece que hoje talvez o Haroldo não consiga dizer o mesmo; isto é, hoje ele não está a ter um dia bom — correio eletrônico com palavras distorcidas, a garçonete do restaurante da firma que reparara sem pudores, durante um tempo prolongado de mais para ocasiões desta natureza, garçonete que reparara, portanto, na barriga protuberante do Haroldo, a tentativa frustrada de esconder essa protuberância atrás do cinto, a elasticidade do cinto, a culpa enquanto mastigava lentamente os seis donuts com recheio de doce de leite, a grande área desmatada no cocuruto do Haroldo, área que não para de crescer, a queda excessiva de cabelo, ativação de estresse que desencadeia sentimentos & pensamentos negativos, instabilidade, quebra da concentração, impotências (moral & sexual [o «negocinho» do Haroldo tende a não funcionar nessas condições, ele se culpa muitíssimo, geralmente recorre àqueles discursos comuns tais como: ora!, isto nunca me aconteceu antes/deve ter sido um remédio que tomei/estou a investir muitos dinheiros numa multinacional &tc.), certo nervosismo, Haroldo tenta agora direcionar a atenção para assuntos mundanos, respira-inspira-respira-inspira, posição de lótus, tenta eliminar a tensão muscular, inspira-respira, mas a tensão muscular continua ali, não foi para canto algum. O Thomas, que trabalha a poucos metros do Haroldo, no Setor de Vendas & Controle de Qualidade, a quatro metros & vinte centímetros da baia do Haroldo, para ser mais exato — & a exatidão aqui é de extrema importância, sempre foi —, o Thomas levanta os olhos da tela do próprio computador & não consegue (& talvez nem queira) imaginar o que se passa na cabeça do colega, os demônios, como se diz, que o sistema neurológico do Haroldo precisa de combater dia após dia & assim por diante.

— P. R. Cunha