O jantar

Os dois estavam dentro do automóvel, ainda muito impressionados com o que acabara de acontecer durante o jantar. Ela talvez um pouco mais do que ele. Ele já tinha visto qualquer coisa parecida na internet, num sítio web pornográfico, relacionamentos ciborgues, ou algo assim. É claro que nunca é a mesma coisa quando acontece com alguém próximo, um amigo de juventude, por exemplo, um tipo que sempre fora admirado — e invejado — por muitos, e que era considerado uma espécie de sedutor congênito, sedutor de moças finas, elegantes, não de bonecas, bonecas com aquela aparência assustadoramente humana, com aquele jeito estranho de mexer o «corpo», um amontoado mecânico com pele sintética. Como diz a música dos Smiths: it’s too close to home. Situações bizarras costumam acontecer longe, nos programas de televisão, naquelas séries extravagantes da National Geographic, Discovery Channel. Mas daí que acontece com um amigo de juventude, um sujeito sério, sem nenhum vestígio de insanidade, um homem saudável, portanto, que resolve casar-se com uma robô sexual e fica-se sem saber ao certo como agir. O dedo indicador dela tocava os lábios, ela olhava pela janela, incrédula, balançava a cabeça de forma irônica, um lado para o outro. Ele às vezes tentava passar a marcha, esquecendo-se de que o automóvel dela tinha câmbio automático. E quando ele fazia isso, não conseguia deixar de perceber brevemente o decote da saia dela. Ele ria-se por dentro. Mesmo depois dos maiores absurdos, a libido humana ainda dava lá um jeito de se intrometer. Que coisa mais esquisita, ela disse para o nada. Ele fez um leve movimento com os braços, rendendo-se, como se quisesse concordar mas sem encontrar palavras para fazê-lo. Eu bem podia esperar isso do Harry, ou do Kevin, mas do George!, ela disse enquanto as luzes dos postes apareciam e desapareciam, justo o George…

— P. R. Cunha