Perambular com paciência

No Natal de 1956, o escritor suíço Robert Walser sai para dar um passeio e horas depois é encontrado sobre a neve: morreu como vivera — a caminhar para nenhures.

A história do mundo demonstra que a caminhada é mesmo uma das atividades prediletas dos literatos. O flâneur, como certa vez escrevera João do Rio, cujos apontamentos são guardados na placa sensível do cérebro; as cenas vibram-lhe no cortical. É ter lá o vírus da observação.

Gostar de caminhar, ir por aí, de manhã, de dia, à noite, durante um nevão, ou sob um sol escaldante, porque a arte de flanar remete ao passeio aleatório da vida. Há alegria também nestas imprecisões.

— P. R. Cunha


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Tábuas de salvação, mesmo com desespero

Seguem-se ainda alguns períodos melindrosos em que o jovem escritor se põe a imitar o estilo dos autores favoritos (como Kafka fizera com Walser, como tantos fizeram com Kafka, e como quase todos têm feito [direta ou indiretamente] com Sterne desde A vida e opiniões de Tristram Shandy). Até que o jovem escritor reconhece que precisa de uma outra forma de expressão para tudo o que tem a dizer. Daí descreve-se com as próprias penas — e condena-se, finalmente, a uma vida errante, repleta de azedumes.

— P. R. Cunha