Manhãs em Sobradinho (casa dos meus avós)

Diz-se primeiro Brasil: de aí pode-se imaginar: país do futuro, país do passado, terra sem terramoto, ditadura(s), corrupção, Jorge Ben: e neste imenso Portugal (Evaldo Cabral de Mello), uma cidade: e nessa cidade uma pequena região administrativa: e nessa região administrativa uma casa construída à volta de jardim, campo de futebol, área de entretenimento aquático: e dessa casa um quartinho com mesa, cama, varanda, rádio de pilha que pertencera ao meu avô: e nesse rádio João Gilberto canta Zingaro (Vou colecionar mais um soneto / Outro retrato em branco e preto / A maltratar meu coração): à mesa, ouvindo João Gilberto, está uma pessoa com uma caneta: eu.

— P. R. Cunha


berenice&edyl

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #50)

aqui terminam-se os devaneios da própria máquina de escrever. ao quinquagésimo ato, o ponto final, o recomeço, as repartidas. os «adeuses».

[…]

a casa onde os teus pais moravam
em niterói não existe mais
é apenas um terreno com entulhos
& restos & sobras & bichos rasteiros &
quem passa pelo terreno não consegue perceber
que numa altura
ali existira um lar
ao passo que hoje tu estás sentadinho à mesa
n’outra construção
no teu escritório
tu observas as paredes
as prateleiras
os teus livros em pé
sim as tuas coisas
a tua morada
estão ainda em pé
quando a memória te escapa
& não consegues mais imaginar como era a casa
de niterói
dos teus pais
a fachada é nebulosa
não te lembras dos quartos
da cozinha
se às traseiras havia jardim
começas então a dar pancadas na cabeça
a ver se a geringonça
recupera a estabilidade
porque às vezes só há mesmo ruínas
do passado
do futuro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #28)

[máquina de escrever / laboratório de ficção / barulho metálico das hélices do ventilador — {rrrriiiiiimmm} ruído branco / coisas mundanas &tc. {para p. p., uma certa homenagem em língua portuguesa}]

você se sente ameaçado? você gosta de assistir ao nascer do sol? você já passou férias nas caraíbas? o seu pai já lhe perguntou se você prefere o papai ou a mamãe? você oferece trocados para um mendigo por pena ou por culpa? ao pequeno-almoço você toma café puro? você por um acaso tem intolerância à lactose? qual a sua opinião a respeito do novo gerente da techmotors? a função telefone do seu aparelho celular funciona de maneira apropriada? você controla as suas emoções? você dirige o automóvel com destreza? quantas garrafas de cerveja você tomou nas últimas vinte & quatro horas? o sexo para si ainda é prazeroso? você conseguiria dormir numa caverna australiana? os farelos de biscoito lhe irritam? você declarou o imposto de renda este ano? você já disse eu te amo sem amar a pessoa a quem você disse eu te amo? você tem medo da morte? você gostaria que o rio de janeiro voltasse a ser a capital federal? você come animais mortos ou consome produtos orgânicos das companhias que são contra as pessoas que comem animais mortos? o suposto fim dos livros de papel lhe incomoda? flamengo ou botafogo? você também acredita que ter ensino superior é apenas um detalhe supervalorizado? uma dama solitária a andar numa rua solitária corre algum tipo de perigo? você se considera «carbonfree»? numa competição de quem come mais hambúrgueres, quantos hambúrgueres você conseguiria comer? a quantidade de estrelas no céu lhe tira o sono? você cita autores que nunca leu? você, hipoteticamente falando, mataria o seu professor de sociologia? você sabe que velocidade o foguete precisa de alcançar para livrar-se da força gravitacional da terra? você está satisfeito com a sua renda mensal/anual? você saberia diferenciar uma mentira-branca de uma mentira-de-outra-cor-qualquer? você cria um patológico complexo de inferioridade quando perto de pessoas muito altas? os cachorros & os lobos têm a mesma raiz evolutiva? messi ou cristiano ronaldo? pelé ou diego armando maradona? você voaria de asa delta sem instrutor de asa delta? se você desmontasse o seu telemóvel, você conseguiria montá-lo novamente? o rádio é uma mídia antiquada? a atual configuração jurídica lhe parece justa? a morte de membros do povo assurinis do xingu (brasil) lhe incomoda? se lhe incomoda, você saberia dizer o nome de algum membro do povo assurinis do xingu que morreu, sei lá, nos últimos cinco anos? se não lhe incomoda, você saberia dizer por quê? numa luta de boxe com regras devidamente adaptadas, quem venceria: james joyce ou oswald de andrade? você é contra toda a forma de corrupção mas imprime o projeto de ciências do filho utilizando as folhas da empresa onde trabalha? numa escala de um a dez, que nota você daria para a carreira de rubens barrichello? na argentina tudo termina em tango? eu deveria lhe deixar em paz? as minhas perguntas lhe incomodam? se você possuísse uma arma de fogo, você atiraria na minha cabeça ou no meu coração? você é feliz?

— p. r. cunha

Tédio, esta forma incerta

 *Publicado originalmente em iapetus-zine.

Pode-se imaginar Paulo Mendes Campos limpando com a manga da própria camiseta o resto de cerveja da boca depois de dizer, um tanto grogue, que o tédio é bem um dos fenômenos de maior importância na era tecnotrônica; pois se errarmos a mão na dosagem, causa sofrimento, violência, destrutividade — vide pessoa mais sensível a pôr termo à vida durante longa e morosa tarde de domingo: ou porque dissera palavras amargas a um certo familiar, magoando-o (magoando-se) sobremaneira, ou talvez por causa da derrota do time de futebol, ou quem sabe ainda um colega não ligara para dizer-lhe «feliz aniversário» —, este é o tédio que anestesia corpo & consciência, fica-se sem vontades de nada, de ninguém, o tédio que mata, deveras diferente daquele associado ao ócio (substantivo masculino: folga, repouso, preguiça, mandriice, quietação), ócio-criativo, tão necessário àqueles que se sentem mui à vontade com a solitude; há, portanto, tipos distintos de tédio, & há quem não consiga fitar o abismo, não dá conta de transformá-lo, metamorfoseá-lo em algo próprio (Matsuo Bashô observa a passagem do tempo que tudo arrasta e destrói, mas não se abala, escreve haikus &tc.), ser humano que se perde numa rua sem saída para a qual os caminhos da existência por vezes levam, & não sabe o que fazer, apenas fita o desfiladeiro, aterrorizado, procura de todas as formas olvidar-se, precisa de preencher a vacuidade com toda a sorte de artifícios/artificialidades («tudo o que é sólido se desmancha no ar», BERMAN, Marshall), abre as apps do telemóvel, redes sociais, pornografias, séries online, noticiários, porque não consegue aturar uns minutinhos de nada, & mete-se a entulhar o cérebro com as mesquinharias do chamado mundo moderno, até perceber a futilidade desses dispositivos, do ambíguo & passageiro entretenimento oferecido pelas apps, o conteúdo embrutecido das redes sociais, o gozo culpado das pornografias, o excesso de séries com narrativas repetidas, loopings, os jornais repletos de notícias inúteis, ao que não é de se admirar que a despeito da abundância oferecida pela sociedade do século vinte & um, o século do futuro, dos contêineres que atolam os portos com mercadorias diversas, milhares & milhares de opções em shopping mall, rede web, lojas físicas, lojas virtuais, que a despeito de tudo isso, como estava eu a dizer, exista tanta alma penada & vazia vagando a nenhures.

— P. R. Cunha


prcunhazinetexto

Se é tarde, me perdoa

Deixou-nos João Gilberto, que há anos estava a ser suicidado pela própria família. Se almas existem, que a do criador da bossa nova possa, enfim, descansar certinho.

A dor é minha
em mim doeu
a culpa é sua
o samba é meu

Papai era um daqueles malucos que não se importavam de meter três filhos + esposa dentro de um automóvel popular e percorrer os intermináveis 1169 km de distância entre Brasília e Rio de Janeiro (BR-040). Para que a eternidade andasse mais depressa, papá e mamã elaboravam pertinentes trilhas sonoras — as antigas mixtapes: Sinatra, Crosby, Jobim, Ray Charles, João Gilbeto. Sim, tinha que ter João Gilberto, do contrário nem sequer partiríamos. 

O amor encontrará
ouvindo esta canção
alguém compreenderá
seu coração

João Gilberto cantou-me a forma mais canalha de procrastinação, isto é: falar sem pudores sobre o processo criativo. Como nesta interpretação da letra «Samba de uma nota só», de Newton Ferreira de Mendonça. Eis aqui este sambinha feito numa nota só, outras notas vão entrar, mas a base é uma só. Metamúsica, metapoesia, metatudo, metanada. Manhã banal, o céu encoberto, as ondas de um mar preguiçoso, faz um bocadinho de frio, o artista em busca de inspirações, momento difícil, o medo de não encontrar a força de dizer aquilo que mais se desejaria dizer, a moça que dorme no quarto, e para não se sentir ainda mais inútil, João Gilberto dedilha as cordas do violão e continua a cantarolar justificativas: quanta gente existe por aí, que fala tanto e não diz nada (ou quase nada), sem dúvida corroborando o estilo minimalista que viria a ser a assinatura deste romântico repleto de saudades. Porque quem toca todas as notas, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, fica sempre sem nenhuma… então, fique numa nota só.

Sou, de muitas formas, a consequência inevitável de se escutar João Gilberto. Não foi (tudo) inventado. Foi negócio bem bolado.

— P. R. Cunha


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Em vez de amor, uma saudade vai dizer quem tem razão: o pai da bossa está livre para desafinar (Crédito da imagem: © Tom Copi)

Tintas biográficas

Inverno, Rio de Janeiro, clínica psiquiátrica (sanatório) / Não estou a gostar do meu estado de espírito — escreve García Aspe para a irmã —, sinto um vazio, algo assim. Há dias que não come, apenas trancado, ou melhor, enclausurado dentro de um quarto sombrio, com pequena janela que não dá para sítio algum. Tomar notas todas as manhãs, continua García Aspe, tornou-se de certeza uma obsessão difícil de controlar. Um dos funcionários da clínica percebera a genialidade do paciente e arranjara para o sr. Aspe uma pequena mesa à qual o filósofo dedica os escassos momentos de lucidez para pôr no papel, como se diz, o doloroso processo do próprio pensamento. García Aspe gosta de citar Albert Camus sem, no entanto, cair nas armadilhas da erudição. Pensa que o excesso de leitura, em mãos erradas, só faz alimentar o egotismo do sujeito, que sai por aí afora a contar vantagem só porque leu um ou outro livrinho existencialista. O suicídio, diz García Aspe, um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Ele pede para a irmã que lhe envie mais livros, para, segundo ele mesmo, distrair-se desses pensamentos autodestrutivos. O suicídio à base de metonímias, porque ainda tabu. A irmã responde que alguma coisa está para chegar. O irmão enche-se das melhores expectativas. Camus questionava, anota García Aspe, sobre os motivos que provocariam uma crise incontrolável e que levariam à chamada morte com as próprias mãos. Há imensas causas para o suicídio. Mas era preciso saber se, nesse próprio dia, um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente — é ele o culpado. Alguém bate à porta e diz que segura uma encomenda importante para o sr. García Aspe. Ele abre o pacote e se depara com a obra do finlandês Arto Paasilinna: Um aprazível suicídio em grupo. O paciente não sairá do quarto nos próximos três meses porque muitíssimo compenetrado, não lhe apetece largar a prosa de Paasilinna. O tom irônico e por vezes bonachão do romance de facto arrefece as tragédias internas de García Aspe, que não encerra a própria vida de maneira precoce; muito pelo contrário.

— P. R. Cunha

Tudo se modifica / eventualmente

Agosto de 1997, Paris. Ao tentar fugir do assédio de paparazzi, o motorista que conduzia Lady Di e Dodi Fayed perdeu o controle do automóvel e bateu num dos muros do túnel Pont de l’Alma. O único sobrevivente da tragédia foi Trevor Rees-Jones, segurança pessoal de Fayed.

Junho de 2019, Paris/Rio de Janeiro. O futebolista Neymar Jr. é acusado por Najila Trindade de a ter violado. Para se defender, o atleta utiliza-se das redes sociais e publica vídeos com imagens íntimas, mensagens privadas, e outros esclarecimentos relacionados.

Há vinte anos, uma princesa que só queria ser deixada em paz fugia de bisbilhoteiros e morreu por defender o próprio direito de privacidade. Hoje, muitas celebridades que não admitem ser deixadas em paz sobrevivem num contexto de superexposição, mostram e contam tudo, tin-tin-por-tin-tin, para os voyeurs cibernéticos.

Como diria um sábio estóico: a impermanência das coisas que nos rodeiam, dos valores que nos regem, dos homens; imprevisíveis.

— P. R. Cunha