Se é tarde, me perdoa

Deixou-nos João Gilberto, que há anos estava a ser suicidado pela própria família. Se almas existem, que a do criador da bossa nova possa, enfim, descansar certinho.

A dor é minha
em mim doeu
a culpa é sua
o samba é meu

Papai era um daqueles malucos que não se importavam de meter três filhos + esposa dentro de um automóvel popular e percorrer os intermináveis 1169 km de distância entre Brasília e Rio de Janeiro (BR-040). Para que a eternidade andasse mais depressa, papá e mamã elaboravam pertinentes trilhas sonoras — as antigas mixtapes: Sinatra, Crosby, Jobim, Ray Charles, João Gilbeto. Sim, tinha que ter João Gilberto, do contrário nem sequer partiríamos. 

O amor encontrará
ouvindo esta canção
alguém compreenderá
seu coração

João Gilberto cantou-me a forma mais canalha de procrastinação, isto é: falar sem pudores sobre o processo criativo. Como nesta interpretação da letra «Samba de uma nota só», de Newton Ferreira de Mendonça. Eis aqui este sambinha feito numa nota só, outras notas vão entrar, mas a base é uma só. Metamúsica, metapoesia, metatudo, metanada. Manhã banal, o céu encoberto, as ondas de um mar preguiçoso, faz um bocadinho de frio, o artista em busca de inspirações, momento difícil, o medo de não encontrar a força de dizer aquilo que mais se desejaria dizer, a moça que dorme no quarto, e para não se sentir ainda mais inútil, João Gilberto dedilha as cordas do violão e continua a cantarolar justificativas: quanta gente existe por aí, que fala tanto e não diz nada (ou quase nada), sem dúvida corroborando o estilo minimalista que viria a ser a assinatura deste romântico repleto de saudades. Porque quem toca todas as notas, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, fica sempre sem nenhuma… então, fique numa nota só.

Sou, de muitas formas, a consequência inevitável de se escutar João Gilberto. Não foi (tudo) inventado. Foi negócio bem bolado.

— P. R. Cunha


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Em vez de amor, uma saudade vai dizer quem tem razão: o pai da bossa está livre para desafinar (Crédito da imagem: © Tom Copi)

Tintas biográficas

Inverno, Rio de Janeiro, clínica psiquiátrica (sanatório) / Não estou a gostar do meu estado de espírito — escreve García Aspe para a irmã —, sinto um vazio, algo assim. Há dias que não come, apenas trancado, ou melhor, enclausurado dentro de um quarto sombrio, com pequena janela que não dá para sítio algum. Tomar notas todas as manhãs, continua García Aspe, tornou-se de certeza uma obsessão difícil de controlar. Um dos funcionários da clínica percebera a genialidade do paciente e arranjara para o sr. Aspe uma pequena mesa à qual o filósofo dedica os escassos momentos de lucidez para pôr no papel, como se diz, o doloroso processo do próprio pensamento. García Aspe gosta de citar Albert Camus sem, no entanto, cair nas armadilhas da erudição. Pensa que o excesso de leitura, em mãos erradas, só faz alimentar o egotismo do sujeito, que sai por aí afora a contar vantagem só porque leu um ou outro livrinho existencialista. O suicídio, diz García Aspe, um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Ele pede para a irmã que lhe envie mais livros, para, segundo ele mesmo, distrair-se desses pensamentos autodestrutivos. O suicídio à base de metonímias, porque ainda tabu. A irmã responde que alguma coisa está para chegar. O irmão enche-se das melhores expectativas. Camus questionava, anota García Aspe, sobre os motivos que provocariam uma crise incontrolável e que levariam à chamada morte com as próprias mãos. Há imensas causas para o suicídio. Mas era preciso saber se, nesse próprio dia, um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente — é ele o culpado. Alguém bate à porta e diz que segura uma encomenda importante para o sr. García Aspe. Ele abre o pacote e se depara com a obra do finlandês Arto Paasilinna: Um aprazível suicídio em grupo. O paciente não sairá do quarto nos próximos três meses porque muitíssimo compenetrado, não lhe apetece largar a prosa de Paasilinna. O tom irônico e por vezes bonachão do romance de facto arrefece as tragédias internas de García Aspe, que não encerra a própria vida de maneira precoce; muito pelo contrário.

— P. R. Cunha

Tudo se modifica / eventualmente

Agosto de 1997, Paris. Ao tentar fugir do assédio de paparazzi, o motorista que conduzia Lady Di e Dodi Fayed perdeu o controle do automóvel e bateu num dos muros do túnel Pont de l’Alma. O único sobrevivente da tragédia foi Trevor Rees-Jones, segurança pessoal de Fayed.

Junho de 2019, Paris/Rio de Janeiro. O futebolista Neymar Jr. é acusado por Najila Trindade de a ter violado. Para se defender, o atleta utiliza-se das redes sociais e publica vídeos com imagens íntimas, mensagens privadas, e outros esclarecimentos relacionados.

Há vinte anos, uma princesa que só queria ser deixada em paz fugia de bisbilhoteiros e morreu por defender o próprio direito de privacidade. Hoje, muitas celebridades que não admitem ser deixadas em paz sobrevivem num contexto de superexposição, mostram e contam tudo, tin-tin-por-tin-tin, para os voyeurs cibernéticos.

Como diria um sábio estóico: a impermanência das coisas que nos rodeiam, dos valores que nos regem, dos homens; imprevisíveis.

— P. R. Cunha

O blogue «Ludo e Vico» está a falar do meu paraquedas

Quando fui receber o Prémio Aldónio Gomes à Universidade de Aveiro e depois entregaram-me um par de caixas pesadas com exemplares de Paraquedas – um ensaio filosófico comentei com mamã que aqueles livrinhos não me seriam fonte de renda, mas um meio para alcançar novos leitores. Não me importo de vender três ou trezentas unidades, disse eu à mamã, trata-se de uma empreitada qualitativa. E, felizmente, posso dizer-vos que aos poucos o meu objetivo tem se concretizado. Hoje de manhã, o blogue Ludo e Vico – livros, passeios, e brincadeiras de bolso também publicou a respeito da minha criatura. É deveras gratificante saber que este paraquedas abre-se em casa de gentes tão admiráveis.

— P. R. Cunha


Paraquedas em si mesmo
Mãe do Ludo e do Vico

Cair em si é uma expressão idiomática que significa tomar consciência.

Existem membros respeitados da sociedade que não têm consciência da sua ignorância; parentes que se julgam bons ao criticar em vez de amar; pessoas que vivem para impressionar e não se impressionam com os outros…

Há dois dias encontrei na caixa do correio o livro que encomendei: Paraquedas – um ensaio filosófico do escritor P. R.Cunha, com delicada dedicatória e uma história surpreendente.

Comprei o livro porque adoro os posts do autor, mas não sabia o que esperar até começar a leitura.

Em alguns momentos pensei no personagem esquizofrênico da série Maniac, desagregado de uma família artificial e cruel.

O personagem de Paraquedas – um ensaio filosófico não é esquizofrênico, mas a família o trata como se fosse o louco inconveniente.

Ele foge dessa dolorosa realidade para a realidade de outros livros, de outros personagens, de outros escritores, de outras formas de arte, enquanto constrói a própria história, com coragem para seguir seus instintos e amor pela fazenda literária.

Em outros momentos, eu parei a leitura para compartilhar com meu marido, que se viu em certas agruras do personagem, assim como compartilho a indicação do livro do P. R. Cunha a quem ainda não conhece esse talentoso e premiado escritor.

Boa Semana e Boas Leituras!

Notas do aeródromo — voltar para casa meio que olhando em todas as direções [seleção de trechos aleatórios]

Os aeroportos — assim como os hotéis — estão cada vez mais iguais. Galeão (Rio de Janeiro) = Humberto Delgado (Lisboa); praticamente idênticos. As mesmas lojas, as mesmas roupas, as mesmas «pessoas».

Não sei quem disse isto: o Rio de Janeiro não é mais uma cidade bonita, mas um lugar bonito para uma cidade. Baía de Guanabara tem um cheiro esquisito (benzina, gasóleo, dejetos humanos, peixes em decomposição [haverá peixe de duas cabeças nas profundezas da baía, pergunto ao taxista, que rir-se sem saber a resposta]).

Niterói não tem aeroporto.

Starbucks ao portão B 34 (embarque doméstico) — o café da aldeia global (McLuhan/Fiore); é tudo tão estrangeiro que quase me assusto quando a funcionária à moda teen fala-me em português.

A sala de espera para as pessoas que têm muito mais dinheiro do que todos nós chama-se PREMIUM LOUNGE. (Observo um homem com fato Armani que entra e desaparece no LOUNGE e fico com a impressão de que a mala de ouro dele vale tanto ou quanto um Learjet de médio porte.)

As famílias numerosas do século XXI (pai, mãe, menino[a] de colo, outras duas crianças que ficam a puxar papá-e-mamã porque querem a meia Puket com cisne bordado), o desespero dos pais, a pressa, um certo arrependimento — tipo: o que fizemos de nossas próprias vidas etc. Para onde vão?

Fila para o embarque. Um padre idoso (devidamente vestido de padre, roupa eclesiástica [batina toda preta, colarinho branco, crucifixo]) a enviar mensagens pelo WhatsApp, numa altura leva o telemóvel à boca e manda um áudio com voz desaforada: valha-me!, estamos embarcando, graças a Deus. Parece que só eu acho a cena curiosa/absurda/um bocadinho perturbadora.

Pensamentos inquietantes, descolagem-aterragem, sentado, poltrona perto da janelinha. Olhar para os passageiros à volta e dizer comigo mesmo: então estas podem ser as últimas pessoas que verei. Sentir-se um pouco desapontado (i.e.: talvez eu preferisse morrer com outras pessoas).

Não sou católico, mas preciso de confessar que o facto de termos 3 (três) padres a bordo me tranquiliza à beça — mais do que eu estaria disposto a admitir noutras circunstâncias.

— P. R. Cunha


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Literature only: enfim uma aeronave que compreende a minha filosofia de vida

Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.

Outras tentativas (um bocadinho frustradas) de esgotamento de uns locais niteroienses

Ir a um café em Niterói ——
entra no café
faz postura de quem vai
escrever trechos edificantes
de um romance inovador
e não escreve nada
escutar [somente] e fazer postura
de quem vai escrever.

Música aleatória;
Café aleatório;
Cidade aleatória;
Isto não é um poema.

Toda a sorte de ruídos: máquinas de café espresso, o choro de uma bebezinha, dois adolescentes que pretendem ir ao McDonald’s na sexta-feira, a pensionista que faz as palavras cruzadas em voz alta (os lábios da pensionista movem as possíveis respostas), os talheres, os copos, as teclas do computador de um executivo apressado.

Algumas vezes tu escreves num café, noutras ——— não.

Aqui (i.e.: nível do oceano) a manteiga é diferente. MOTIVOS/HIPÓTESES: maresia; as coisas que provamos longe de casa sempre têm outros gostos etcétera.

Use o assento para flutuar (seat bottom cushion [for flotation]): reflexões atmosféricas

Havia época —— penso em 1924 —— em que as pessoas viajavam maioritariamente de navio. Hoje, as pessoas preferem as aeronaves [airbus].

Não se agitam mais os braços de despedida. Viajar tornou-se tão banal quanto o dobrar de uma esquina. Alguém diz: vou viajar ———— e pensa-se na imagem de quem vai ali comprar o pão.

Quem poderia dar nomes às naves aéreas sucateadas do século XXI? Os navios tinham/têm nomes, eram/são batizados por reis e rainhas e gentes notáveis. Se algum afundava/afunda, os jornais escreviam/escrevem: Martha afundara, o Santa Catarina naufragou-se no irascível Atlântico. Os aviões têm números —— são números.

Se o avião cai, há poucos sobreviventes [não é bem o medo de morrer, mas o medo de desesperar-se antes de morrer]. Toda a gente perde a dignidade quando despenca das nuvens. Isto é certinho.

P.S.:

Nomes, cores, e outros aspectos relevantes dos autocarros de Niterói; enquanto sentado à mesa da «Atlântica – padaria & confeitaria» [desde 1957]. Transoceânico, Pendotiba, 2.1.014, Miramar, Jurujuba/Cachoeira, verde-limão, outra linha observável: 2.3.032. Viação 1001, azul-claro e branco (os números [1001] pintados de vermelho, borda branca). Expresso Garcia, suspensão a ar, azul (tons marítimos) e branco. Transnit, Araçatuba/Brasília, três tons de vermelho. Brasolisboa first class, cor de laranja. O que se comeu: misto preparado na hora (pão francês), um cafezinho — carioquinha, obviamente. Acompanhamentos: biscoitinho de natas + copo de água com gás. 16h38. Clima ameno. 

(o que há ao lado da atlântica – padaria & confeitaria uma banca de jornais e revistas tipicamente niteroiense [cinza com faixas amarelas nas laterais] em destaque uma revista sobre o poder do pensamento positivo e a edição vespertina do jornal extra uma motorizada barulhenta buzina ao atravessar o cruzamento.)

— P. R. Cunha