Breves apontamentos à guisa de distração (i.e.: sair da cave para um merecido respiro/é domingo, sinto saudades de «bloguear»/[old habits die hard])

O facto de eu não conseguir escrever nada de muito substancial enquanto trabalho num livro inquieta-me desde os primórdios da fazenda de Paraquedas – um ensaio filosófico. É como se o livro se transformasse num buraco negro, numa estrela supergigante a sugar toda a minha (sic) criatividade. Ou, numa analogia mais mundana: o livro no qual estou trabalhando é bem o epicentro de um terramoto. Todas as ideias que tenho são transformadas e armazenadas para servirem à narrativa, ao manuscrito. A ser franco, nesta minha segunda tentativa de escrever um romance a solo tenho lidado com essa exclusividade encefálica com posturas menos belicosas. Aceito/compreendo que é assim que funciono, está na minha natureza e pronto. Tudo que penso, falo, reflito, pondero, sonho, sofro, gosto, amo, odeio acaba nas páginas da minha próxima obra. O livro é lá uma amante um bocado exigente, digo-vos isto sem receios. Mas se isto é bom ou mau, não vem ao caso agora. O importante é que eu consiga terminar o enredo de maneira satisfatória, e depois revisar o primeiro esboço, procurar as lacunas, preencher tais lacunas, tornar as personagens mais plausíveis etc. etc. Acontece de às vezes a imaginação manifestar-se em frequências pouco compreensíveis — pelo menos a mim. E vejo-me às traseiras da minha casa molhando as plantinhas, a colocar abruptamente o regador no chão, tirar do bolso das calças um bloco-notas e escrever umas coisas bem aleatórias como este epitáfio de mentirinha:

Aqui jaz P. R. Cunha
Que em vida sofria insônia
agora dorme
Tranquila
mente

Ou quiçá esta cena que esbocei ontem à noite, depois de uma tumultuosa partida de xadrez, de uma humilhante derrota para o Computer Level 9, e que só consigo imaginar (muito pretensiosamente) o Werner Herzog colocando-na, como se diz, «em prática»:

Um homem está parado com lanterna na mão. Vemos apenas a luminosidade da lanterna e uma silhueta atrás, porque o local está escuro, sombrio — talvez uma caverna. Eventualmente, o homem aponta a lanterna para um sítio específico, mas a câmera continua a enquadrar apenas o homem. Depois ele aponta a lanterna para o próprio rosto e vemos uma fisionomia aterrorizada. O homem está suando imenso, tenta mover-se mas não consegue. Ele volta a apontar a lanterna para o mesmo sítio ao qual apontara antes. Agora escutamos um outro barulho, um barulho de respiração, de algo ofegante, como se ali houvesse um animal monstruoso pacientemente à espera do último suspiro do homem para enfim começar a agir. Mas a câmera nunca se move para vermos quem (ou o quê?) estaria àquele sítio.

Acho que quando estou a trabalhar em algo a sério — quando desejo que a obra cresça bem-nutrida e tenha lá as melhores das intenções — é provável que esta atenção incondicional ao livro seja mesmo a melhor providência. O resto é apenas vestígio; sobras de um banquete altruísta oferecido por divagações errantes.

P. S.: gosto também das promessas disparatadas que fazemos quando estamos a escrever literatura — tais como «deixarei a barba e os cabelos crescerem até ao dia em que finalmente terminar o livro» etc.; extravagâncias que colocam a minha futura esposa num indigesto estado de negação.

— P. R. Cunha

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: Évora entre ossos e feridos

Grosso-modo, estás a viver uma vida boazinha, és feliz, e as coisas amiúde correm-te apropriadamente. Até que chega a morte, a perda, um desastre e não te mostras de forma alguma preparado para o que vem a seguir.

A velha dicotomia de sempre: vida & morte, deusas imprevisíveis que lutam entre si, mas também, ao fim e ao cabo, dependem uma da outra.

Estás em conflito contigo mesmo porque passaras a tua existência em casulos hermeticamente fechados, protegido do mundo, sem lidar com a possibilidade, como se costuma dizer algures, da finitude. Nessa tua morada, ninguém morria, ninguém morreria. Era tudo calmo, era tudo certo.

(O viajante que acaba invariavelmente por utilizar elementos da própria biografia em seus relatos de viagem.)

A bandeira de Évora.

A bandeira de Évora é qualquer coisa curiosa. De longe, a trepidar ao sabor do vento alentejano, parece uma bandeira como tantas outras, com formas triangulares amarelas e vermelhas a preencher a superfície do pano. Mas se chegares perto, perceberás um brasão assustador adornado com motivos medievais. Dentro do escudo dourado, certo cavaleiro com armadura metálica ergue espada ensanguentada — é Geraldo Geraldes, o Geraldo sem Pavor, galopando um saudável cavalo negro.

Triunfante, o animal salta a cabeça de duas vítimas decapitadas, e daí compreendes a origem do sangue que escorre pela espada do supracitado cavaleiro: vem dum homem e duma mulher; mouros. A faixa branca a contornar o escudo que diz MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE ÉVORA parece querer justificar o assassínio cometido por Geraldo Geraldes.

Esta bandeira causa-te um inverno na espinha.

Dada a tua tendência natural para o inconcebível, decides agora visitar a Igreja de São Francisco, cujos limites, contaram-te, abrigam convento, museu, coleções diversas (presépios Canha da Silva), órgão setecentista, sala régia, sala dos castros, etc., além da Capela dos Ossos — construída no século XVII com o «propósito de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana».

O céu matutino, azul e completamente sem nuvens de Évora contrastava com o vento glaciar que cortava-te a alma. Sentes aquela estranha sensação de estares a ser observado por algo ou alguém.

À entrada da Capela dos Ossos, com duas colunas ao estilo romano, podes ler a famosa inscrição:

NÓS OSSOS QUE AQUI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS 

De início, ficas perturbado com a visão das paredes interiores — repletas de crânios, de toda a sorte de ossos humanos. Ossos que não estavam ali para brincar, isso era certinho. Mas, tal e qual ocorre com o noticiário moderno (quanto mais atrocidades alguém lê, menos escandalizado fica), a capela macabra aos poucos torna-se um bocadinho mais aprazível até que finalmente chega a altura de poder colocar o visitante no seu devido posto.

Aqueles restos de pessoas que um dia foram não te deixam esquecer de que tu também irás, cedo ou tarde, ter aquele mesmíssimo fim: transformar-te-á num mero amontoado de osteócitos, osteoblastos e osteoclastos. Serás também caveira, esqueleto.

Poema sobre a existência
(Este soneto do Padre António da Ascensão Teles pode ser lido no interior da capela.)

Aonde vais, caminhante, acelerado? 
Pára…não prossigas mais avante; 
Negócio, não tens mais importante, 
Do que este, à tua vista apresentado. 
Recorda quantos desta vida tem passado, 
Reflecte em que terás fim semelhante, 
Que para meditar causa é bastante 
Terem todos mais nisto parado. 
Pondera, que influído d’essa sorte, 
Entre negociações do mundo tantas, 
Tão pouco consideras na morte; 
Porém, se os olhos aqui levantas, 
Pára…porque em negócio deste porte, 
Quanto mais tu parares, mais adiantas.

(…)

Ouviste dizer que algumas pessoas não se aguentam nem cinco minutinhos dentro da Capela dos Ossos; não dão conta de olhar para aquele espelho cadavérico. Fogem. Mas aquela decoração esquelética causara-te outra coisa. Tens, mais do que jamais tiveras, a certeza de que o derradeiro suspiro chegará, e queres aproveitar o interlúdio da melhor maneira possível.

Refletes também a respeito dos donos daqueles ossos, se um dia teriam imaginado que um escritor brasileiro nos seus trintas, a levar uma vida algo dissipada, escreveria sobre aquela estranha morada, quatro século mais tarde.

Ficas ali dentro, em absoluto silêncio, a observar os rostos sem pele até serem horas de ir para outros sítios da Igreja de São Francisco, porque nesta vida não se pode atrasar. Poderás dormir imenso quando morreres.

Segues para a frente.

Estás em Évora, afinal.

— P. R. Cunha


O livro Paraquedas – um ensaio filosófico do P. R. Cunha já se encontra disponível à lojinha do sítio web. Para mais informações, aperta aqui.

Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Estou no Holiday Inn Lisbon (Continental) a anotar em um papel de carta do hotel os lugares aos quais pretendo ir nos próximos dias e escrevo ao lado de Sintra a palavra INDISPENSÁVEL, caixa alta. Uma brochura mostra o Castelo dos Mouros num dos cumes da serra que abraça a região e fico a pensar nas noites de insônia da minha infância, quando remexia-me sob as cobertas por causa da leitura prematura de Drácula, do Bram Stoker. Trata-se de um castelo imponente ao estilo Game of Thrones e se esperássemos o bastante quem sabe não conseguiríamos observar a sair pelos portões da fortaleza um dândi audacioso e melífluo com golas altas, asas de morcego, dentes avantajados, sobrevoando em meio à neblina com objetivos nefastos.

Então disseram-me que para conhecer melhor Sintra é conversar (e lá ir) com quem melhor conhece Sintra. Tomei meu pequeno-almoço e às oito da manhã encontrei-me com o sr. Jorge, que prometera levar-me ao fantasmagórico distrito de Lisboa.

Coisas estranhas costumam acontecer no alto da serra, disse-me o sr. Jorge enquanto abria a porta do Renault Espace. 

São os fantasmas, ele acrescentara.

Do Holiday Inn até Sintra são 26.4 km — aproximadamente meia hora de viagem com aquilo a que o Google Maps chama de «the usual traffic». Sr. Jorge fez o trajeto em menos de vinte minutos. Não vás fazer xixi nas calças quando lá chegarmos, ele brincou com aquele ar sério e compenetrado que nossos tios bonachões costumam ter enquanto fazem troça.

À medida que o Renault aproximava-se de Sintra o tempo começara a mudar imenso. Em Lisboa o céu era daquele azul clarinho ao qual podemos assistir em Il Decameron, do Pier Paolo Pasolini com a banda sonora do Morricone ao fundo. Às portas da vila, no entanto… nuvens pesadas, neblina, geada. Sintra era outra coisa.

Sintra tem um microclima muito específico, imprevisível, dissera o sr. Jorge.

Se estou num país estrangeiro costumo fazer constantemente um exercício de autocontrole para não me decepcionar. Adoto a postura mais neutra possível: se por um acaso falam que determinado sítio é magnífico, fico já com a pulga atrás da orelha, como se diz, e preparo-me para visitar um sítio legalzinho. Não obstante, se explicam que determinada cidade é terrível, que ali não há nada, vou até lá com o coração aberto, pronto para ser surpreendido positivamente.

Noutros termos, sou uma embarcação de expectativas que vai para-lá-e-para-cá ao sabor dos comentários nativos, a aguardar o juízo final, isto é: pisar no sítio eu mesmo, tirar as minhas próprias conclusões, etcétera.

À moda Lisboa, Sintra — cujo brasão com lua crescente e estrela revela logo as raízes árabes — também possui prédios coloridos a contrastar com telhados cor de laranja, ruas simpáticas com um leve cheiro a açúcar queimado que dão a um pequeno nenhures. Geográfica e arquitetonicamente é sem dúvida um sítio muito promissor àqueles que pretendem vagar de maneira despretensiosa durante o resto dos tempos depois de, como diria Eugénio de Andrade, bater as botas.

No entanto, quando se lá chega sente-se alguma pitada de desilusão. Sintra é a clara evidência do turismo moderno, do texto publicitário construído para atrair gentes de toda a parte, das fotografias livres do excesso humano, livres do barulho das canções techno-pop, da balbúrdia dos telemóveis, dos gritos (em espanhol, italiano, inglês, mandarim, russo e contando) dos transeuntes desesperados à procura da casa de banho.

Parecia-me que Sintra não estava a sair-se muito bem com as almas penadas. Comentei com o sr. Jorge que conseguia imaginar um passado fantasmagórico à vila, mas que do jeito que as coisas estavam agora (sete de dezembro de dois mil e dezoito), não podia sequer considerar um brevíssimo rendez-vous sobrenatural. Os fantasmas, sabemos, não gostam de multidões com câmeras a fazer cliques a cada dois passinhos. Os fantasmas preferem o vazio, pensei, são seres minimalistas.

Se havia mesmo uma população fantasmagórica aqui, insisti eu ao sr. Jorge, receio que há tempos já tenha corrido algures, com muito medo dos animais humanos.

Agora estou sentado à mesa da padaria Piriquita deliciando-me com um travesseiro de Sintra — iguaria a respeito da qual pretendo escrever noutra ocasião. Atrás de mim, um miúdo italiano chora à mamã porque o irmãozinho pegara-lhe a bola com a silhueta do Cristiano Ronaldo estampada; à direita, uma espanhola arrisca-se no portuñol a pedir água fresca com gás; à esquerda, uma croata mostra-se completamente perdida. Chove a cântaros. Um altifalante estridente toca canções natalinas interpretadas por Bing Crosby, Dean Martin, Fred Astaire.

E a impressão é que cheguei à vila de Sintra tarde demais.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: andas em círculos (para onde vais?, não sabes…)

Voltar de uma longa viagem ao estrangeiro — o oceano etc. — & falar sobre essa longa viagem & interromper o relato porque outra viagem (desta vez ao centro do Brasil) & distrações agradáveis — viagens sobrepostas/acumulativas — toda a viagem exibe uma beleza & (trecho baseado nas leituras da sra. Sontag) torna-se superficial (i.e. desnecessário) privilegiar certas jornadas como belas (boas?) & outras não.

A viagem para Portugal, ou para o mato brasileiro. Arbitrário (ainda é Sontag) tratar alguns momentos como importantes & a maioria como pura banalidade. Viajar é atribuir significado(s), não importa se algures, ou nenhures. Conferir valor às viagens (se estou a fazer determinada viagem, tu pensas, logo, ela tem importância; certa intransigência, no entanto, com a viagem dos outros [se lá não estou, deveria interessar-me pelo relato alheio?], tu perguntas).

Repetes: nenhuma viagem é mais bonita/importante/interessante do que outra; nenhum viajante é mais preparado do que qualquer outro viajante.

A figura que vem à tua cabeça: barca, estamos todos na mesma barca.

Uma viagem que hoje soa estranha ao teu temperamento, amanhã (isto é, futuramente [não sabes ao certo quando]) pode se mostrar crucial. Queres fazer a tal viagem, porque (vide contextos individuais) ela agora te chama.

Imperativo categórico, Kant, ação necessária em si mesma, sem referência a qualquer outra finalidade.

Da mesma forma que a escrita precisa te chamar, ou seja, não é algo forçado. Escrever e viajar: paradigma, como já disseram, paradigma de atividades nas quais não podemos ser bem-sucedidos (estou a citar) só por tentarmos afincadamente. Podemos preparar-nos para a tarefa (escrever/viajar), sentirmo-nos gratos quando conseguimos construir algo que mexe com os brios de outros seres humanos (a gratificação da empreitada: outra pessoa se identifica com os teus trejeitos, sentes-te encorajado, recompensado, queres continuar).

Pensar na seguinte situação: Yovkov viajara muitíssimo e pensara desesperadamente sobre essas viagens — como transformá-las em mercadoria, vendê-las aos noticiários. Mas quanto mais atenção o sr. Yovkov dava às viagens menos ele conseguia aproveitá-las, relatá-las.

Não digas nada com pressa — parafraseio o Ulisses —, não penses agora, não faças perguntas. Perde-te.

O viajante começa a interpor-se no caminho da prória capacidade para agir de modo natural, pensa excessivamente uma atividade que, de certa forma (ver yips/mão fria [Dreyfus & Dorrance Kelly]), devia ser reflexa.

É bem isto: viajar enquanto estás a escrever sobre as tuas viagens.

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: decides anestesiar (alguns dos) teus pensamentos

Não viajas —
corres atrás
de ti mesmo.

Pode-se dizer que uma cidade desconhecida é como um planeta distante — podemos compreender melhor se observarmos. A primeira vez que viste Marte através das lentes arredondadas do teu telescópio, e Marte de súbito ganhara novos significados para ti. Do mesmo modo, a primeira vez que estiveste em Portugal, e Portugal agora mostra aspectos diferentes, outras paletas cromáticas, outras realidades, outras dimensões.

(Tornar visível o que antes era invisível.)

Alguns viajam
para fugir às dores —
que já tinham.

Enrique Vila-Matas numa altura escrevera que viajava antes mesmo de viajar; lia tudo a respeito do país ao qual estava prestes a ir, arriscava-se mesmo a fazer pequenos (e grandes) esboços sobre esses sítios que ainda seriam visitados — roteiro previamente estipulado, viver aquilo que anotara, de certa forma confirmar algumas expectativas, remodelar previsões: eu já cá estive?

Lisboa: em dezembro, quando as nuvens permitem, e o céu se faz presente, e o forte azul do infinito, azul-turquesa, azul-glaciar, e tu queres agarrar-te à cidade, do mesmo modo como agarras aos braços de alguém por quem estás perdidamente apaixonado.

Constataras que a viagem, por mais «real» e experimentada que ela seja, é altamente ficcionável. Qual era mesmo a temperatura daquele dia?, que roupa usavas?, era mesmo dia?, foi num táxi?, comboio? o nome dela era Antonina?, era ela?, era ele?, era Macedo?, Jorge?, era Lisboa? era Óbidos?, era-te a ti mesmo? Tu não sabes muito claramente como distinguir.

As lembranças da viagem — como as lembranças da tua infância — também são ingênuas, vulneráveis, oníricas. Tu batalhas contra a amnésia, queres ainda sugar o último sumo daquelas memórias. São, por vezes, representações, abstrações. Estás a construir um estranho edifício com tijolos verdadeiros, vigas imaginárias, um terraço ao cimo com vidro de fantasia.

Falar sobre uma viagem que não exija qualquer pré-requisito.

Longos dias de tranquilidade em Portugal, e de imperturbadas caminhadas. Para onde voltaste? Para os campos esverdeados do Alentejo com vaquinhas e carneirinhos a pastar, para o trator que corta os corredores de uma vinícola em Bacalhôa Buddha Eden, para o cavalo a descer uma encosta aveirense, para os estudantes flutuando no pátio perto da capela de S. Miguel (Universidade de Coimbra), não muito distante do Penedo da Saudade.

Uma brisa que atravessa os cabos da ponte 25 de Abril, cujo despretensioso balançar reanima as tuas inclinações introspectivas. Não pensas em contas, boletos, em prazos, em compras, não pensas no mundo, não pensas em absolutamente nada.

Brisas que trazem consigo a esperança de tempos melhores. Mostras o teu coração aberto — percebes que és também um bocadinho de Portugal, terra do teu bisavô. Tens, assim como o velho poeta, uma alegre confiança na vida, no porvir, em ti mesmo. Etc.

Efeito libertador da viagem: jornadas que salvam vidas, que dão norte e propósito a existências por vezes desnorteadas e despropositadas.

E, por enquanto, fez-se o silêncio total.

— P. R. Cunha