devaneios da própria máquina de escrever (episódio #17)

então que de muitas formas escrever é como cozinhar. você sente fome, quer preparar para si algum alimento, você ainda não tem tanta certeza do que quer comer. você vai até à dispensa & escolhe os ingredientes. pode ser que você não possua muita experiência & acaba que o prato não sai do jeito que esperava. falta um pouco de sal? ficou muito mole? passou do ponto? acontece de ser uma comida que você gosta imenso. daí não quer desistir, sabe? você volta, tenta de novo, vários dias, & começa a notar que a coisa ganha certa desenvoltura. acertara na quantidade de sal, muito boa apresentação — a consistência, bem, a consistência ainda deixa a desejar, mas você está no caminho certo. outras pessoas também começam a dizer: nossa, isto aqui, hein, está gostoso pacas… & você, um pouco encabulado, agradece: oh!, que nada, é só um prato. & você continua a empreitada: erra-acerta-acerta-erra-erra-acerta. quando você menos espera, chega a altura em que começa a improvisar. sim. aprendera a receita, pelo menos o suficiente para se sentir confiante & modificar & acrescentar outros ingredientes, dar o próprio estilo ao prato. certa tarde, supomos que seja quinta-feira, faz um calor dos diabos, & você escuta duas/três batidinhas na porta. você abre. é a sua avó que mora para o litoral, estava caminhando por perto, decidira visitá-lo, pois é bem isso que as avós fazem, não é mesmo? por sorte, quis o destino que você estivesse justamente a incrementar o seu prato, sabe, uma dessas agradáveis coincidências. a avó experimenta, faz uhmnnn!, isto é bom, muito bom mesmo, & ainda garante que foi uma das comidas mais saborosas que ela já comera na vida, & olha que ela já comera um monte de coisa na vida. &tc. &tc. &tc.

— p. r. cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Peregrinação chilena ao templo vulcânico

Para chegar à cidade de Puerto Varas — da qual eu nada sabia a não ser que era o sítio em que se podia avistar o vulcão Osorno — o viajante precisa de percorrer uma bucólica estradinha a cortar quintas e choupanas dignas do álbum Atom heart mother, dos Pink Floyd. São imensas pradarias verdes com vacas, lhamas, cavalos, ovelhas e outras espécies a se alimentar despreocupadamente, uma disposição quase teatral comprovando diante dos olhos de todos que é ainda correto o axioma a enaltecer a vida no campo como qualquer coisa menos vertiginosa. A despeito de toda a calmaria meditativa, inclinei-me com ansiedade no assento do automóvel a ver se encontrava o verdadeiro protagonista da Região de Los Lagos: o próprio Osorno. Mas não é assim tão fácil desvendá-lo. Quando o motorista da carrinha apontou para o local onde a montanha supostamente estava, o que pude enxergar foi uma linha branca, anuviada, algo mais parecido com os cenários apocalípticos nos filmes de Fritz Lang.

O Osorno encontra-se ao nordeste do Llanquihue — que em mapudungun, língua dos mapuches (ameríndios que habitam as bermas do vulcão há milhares de anos), significa «lugar para se mergulhar na água». O lago possui 860 km² e os nativos costumam explicar, não sem um certo orgulho nos termos, que toda a capital Santiago caberia ali dentro e ainda sobraria espaço.

Foi apenas no passeio no dia seguinte à chegada a Puerto Varas, dentro de uma furgoneta Ford que leva passageiros curiosos para perto do Osorno, que pouco a pouco a fisionomia glaciar do vulcão começou a adquirir nitidez. Durante a viagem penetramos territórios que em tempos foram habitados pelo povo mapuche, mas que hoje encontram-se tão desfigurados que é difícil imaginar como teria sido de facto a diversidade daquela paisagem.

Pelo conhecimento que se tem das tradições mapuches, cabe duvidar de qualquer tentativa de minimizar a avassaladora intervenção estrangeira desde a chegada dos chamados conquistadores espanhóis a partir do século XVI. Os mapuches foram expulsos, humilhados, escravizados e hoje sobrevivem como podem em zonas urbanas completamente diferentes daquelas vastas e férteis florestas onde os próprios antecessores criaram raízes.

O colonialismo interessado na lã dos animais da localidade logo precisou de ser expandido para atender às demandas em larga escala da Revolução Industrial. Os abundantes recursos naturais encontrados em territórios dos mapuches fizeram com que os exércitos chileno e argentino se mobilizassem para expulsar os nativos das florestas e abrissem espaço para as iniciativas multinacionais. No caso de Puerto Varas a mão de obra foi suplantada pelo metódico trabalho de emigrantes alemães — motivo pelo qual a cultura germânica mostra-se tão presente em Los Lagos.

É de se imaginar que os bosques que hoje recuam até à remota Reserva Nacional Llanquihue eram também a morada de incontáveis chucao tapaculo (la voz del bosque del sur), carpintero negro, loro choroy e outros pássaros com cantos melodiosos e persistentes. Hoje, no entanto, o que se vê é a cicatriz de uma floresta que, tal como os mapuches, parece demonstrar sinais de desistência. Os animais que porventura são encontrados a tentar cruzar as estradas escondem-se onde podem, com os olhos esbugalhados e sempre na expectativa da morte. Parecem esperar pelo som metálico do machado alemão, que numa altura passeou-se por lá e levou consigo boa parte da biodiversidade.

* * *

Os paleontólogos conseguem reconstruir a estrutura de um dinossauro a partir de pequenos, quase insignificantes, fragmentos fósseis. Assim também me parece que são aqueles que escrevem sobre a própria viagem. Recortes de visões, de memórias. No mais íntimo do coração, o sujeito que se predispõe a relatar o que ocorrera algures tem a curiosa certeza de entrar numa máquina do tempo. Sentado à escrivaninha, leva a caneta até à boca, escolhe entre as paisagens nas quais esteve. Compõe a maqueta do passeio, a maqueta de si mesmo. 

Inseguro e com aquela relutância que as pessoas costumam sentir quando se aproximam muito de um vulcão ativo, o condutor da furgoneta avançava vagarosamente. A estrada era uma jiboia sinuosa a fazer curvas abruptas e traiçoeiras enquanto o Osorno mostrava a conhecida silhueta à monte Fuji da ilha Honshu.

Com cada vez mais força as dimensões do Osorno inquietavam-me. O artista húngaro László Moholy-Nagy certa vez escrevera que podemos estar em toda a parte, rodeados por pessoas, e ainda assim estarmos sós. Era como eu estava a me sentir. Havia qualquer coisa nas fornalhas do Osorno que me colocava no meu devido lugar, como se diz. Um silêncio devastador, um presságio de que algo estava para acontecer.

Olhei para o céu e pude observar uns quantos condores-dos-andes desenhando figuras circulares por cima do cume do Osorno. Comentei com o condutor da furgoneta a respeito dessas aves que se alimentam de carne em putrefação mas o velho homem garantira-me que naquela parte da subida era muitíssimo raro avistar condores, ao que julguei estar delirando ou coisa ainda pior.

Recordei-me também que quando nos encontramos longe de casa só podemos ver aquilo que estamos aptos para ver — aquilo que espelha a nossa mente num momento específico. Nesse ardiloso processo, pistas falsas misturam-se com as verdadeiras.

De modo súbito notei que os condores de porte avantajado circulavam não o cume do Osorno, mas a nossa própria furgoneta. Um simbolismo de morte que pode ter passado despercebido para o condutor e também para os outros passageiros, porém criara em mim um desconforto indelével. Os condores-dos-andes seguravam a segadeira, como se dissessem que também eu, brevemente, me dissolverei em cinzas, transformar-me-ei numa massa informe, irreconhecível. Esses bichos necrófagos, pensei comigo, estavam à espera do meu cadáver.

Aqui uma passageira arruma o cabelo; ali, um passageiro espia a relva, leva as mãos ao rosto para proteger os olhos ofuscados pelo sol; num momento alguém limpa os braços no tecido da calça, no outro assobia uma canção andina.

Estava completamente perdido naquela fantasia de que quando visitamos um vulcão ativo estamos numa espécie de busca, numa jornada que transcende a nossa ínfima e temporária passagem por este planeta. Queria que aquela minha viagem se enchesse de significados, que eu pudesse escrever um relato tão interessante a respeito do Osorno que as autoridades de Puerto Varas dar-me-iam um título de cidadão honorário. 

Não sabia muito bem o que pensar dessas pretensões egotistas enquanto mirava a manta de neve do imponente vulcão. De bloco-notas, caneta Bic (quatro cores) entre os dedos ainda observava condores-fantasmas no céu e não estava a tremer-me.

* * * 

Há cerca de trinta quilômetros do vulcão Osorno encontra-se um primo temperamental que nos últimos tempos ameaça catástrofes. No dia 22 de abril de 2015, às 17h50, o vulcão Calbuco começou a soltar para a atmosfera uma parede vertical de cinzas que causaria graves danos à agricultura, suspensão do tráfego aéreo e acionamento de alerta vermelho. 

As últimas erupções do Calbuco foram um lembrete geológico. São nove vulcões em Los Lagos, todos ativos. À distância, parecem simples rochas a cortar o horizonte do Llanquihue, mas por dentro é outra coisa. Montanhas entaladas prontas para cuspir pedras de fogo para qualquer sítio.

Pergunto ao condutor como deve ser dormir com essa mortífera possibilidade. O velho me explica que o Calbuco é como um cachorro que ladra e ninguém teme os cachorros que ladram. De todos os vulcões que fazem parte do complexo regional, o Osorno — o mais discreto e calado — é o que realmente mete medo. Ele tira do porta-luvas umas pedrinhas minúsculas e explica que são vestígios do Calbuco. Depois, pega uma rocha de considerável tamanho e diz: esta, grandona — aqui o condutor aponta para o cume nevado da montanha, a quase três mil metros de altura —, esta saiu da barriga do Osorno.

* * *

Enquanto subíamos o último trecho pavimentado do vulcão fiquei a pensar que estava a desenvolver uma estranha obsessão pelo Osorno; transcendental, místico, algo que os devotos de certeza sentem quando se aproximam da figura que adoram. A furgoneta Ford estacionou perto de um estabelecimento com motivos da Patagônia e o condutor esclarecera que a partir dali o caminho teria de ser feito a pé. 

O clima que há poucos minutos se mostrava ameno, agora encobria com uma fumaça fantasmagórica praticamente todo o cimo da montanha. Rajadas de vento acertavam as encurvadas fisionomias humanas, o frio invadia a medula óssea sem trégua. Era como se o Osorno não quisesse receber visitas.

Mas lá estava eu, inconveniente, a caminhar sobre o meu novo deus de pedra, um vulcão ativo que já tirava um longo cochilo geológico. Se alguém me visse daquele jeito, praticamente ajoelhado, com aquela postura subordinada, bem capaz de acreditar que aquele sujeito encapuzado rezasse. E talvez eu estivesse mesmo a rezar. Não uma prece eclesiástica, mas um canto pagão que refletisse o atual estado da minha existência.

A ingênua (e até um bocadinho tola) sensação de que eu era o primeiro a sentir aquilo ao cimo do Osorno, sim, só eu tinha o direito de adorá-lo, de conversar com ele. Fiquei a observar dois andarilhos invasores que também subiam o vulcão, duas figuras com trajes negro caminhando lentamente para nenhures. Numa altura os dois também pararam, e vi naquele repentino gesto a negação de toda a vontade de se locomover, símbolo da imobilidade humana diante do absurdo das subidas.

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A neblina tornava-se cada vez mais densa e cogitei que aquela tristeza de gelo, a invisibilidade branca da montanha, explicava muito do meu caráter — quanto mais não seja o facto de sempre (mesmo nos momentos mais soalheiros e felizes) ter perto de mim o anjo taciturno de Albrecht Dürer. 

Sabe-se que quando o espírito do viajante une-se perfeitamente à paisagem todo o momento se transforma numa revelação em que um simples detalhe mostra-se capaz de explicar a errática trajetória do sujeito a refletir. Balzac diria que o conjunto de uma vida pode estar resumido nisto, em uma aparência absurdamente momentânea.

Fechei o casaco de neve, virei-me para o precipício e lembrei do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do filho que não tenho — e que muito provavelmente nunca conseguirei ter. No escritor medíocre que me tornei. Nesta figura cabisbaixa, indolente, preguiçosa, que guarda, acumula, sempre à beira de um colapso, de uma explosão catastrófica.

Não à toa encontrei no Osorno uma metáfora perfeita para a minha mutante personalidade. Estou ficando velho, cansado, intransigente, com pouca paciência, abalado pela vida, ditatorial nos modos, posso entrar em erupção a qualquer altura e devastar tudo e todos que se arrisquem a ficar perto de mim.

Analisei com afinco o desfiladeiro inclinado do vulcão, as marcas deixadas pela lava, as transformações geográficas causadas pela atividade do Osorno. Talvez os mapuches que se aventuram até ali também fiquem a admirar aqueles violentos rastros, talvez os vulcões dos Andes sejam os últimos vingadores de um povo que há séculos precisa de aturar a barbárie contínua da colonização artificial, a ganância de um consumo que não tem fim. Bastaria uma série de erupções para que tudo voltasse a ser como sempre foi.

— P. R. Cunha

«Guru está estressado» seguido de «Breve nota aos leitores da União Europeia»

Isto foi em 2017. O Harold apareceu da forma que costumava aparecer, ou seja, do nada, sem aviso, tal comboio descarrilhado — o que me fez lembrar das palavras da mamã dele, que não está mais entre nós (foi morar na Turquia com um sujeito que é bem a lata do Orhan Pamuk). A mamã do Harold costumava me dizer que é bem coisa do Harold soar e agir como um comboio descarrilhado. Então Harold apareceu e disse: tu escreves de mais, tu ficas aí sentado e escreves e escreves e escreves, enquanto lá fora há um mundo de possibilidades. Expliquei inutilmente que tinha acabado de voltar das praias de Pipa-RN, que precisava mesmo de escrever, enquanto o Harold insistia: escreves, escreves, tac-tac na máquina de escrever, escreves. E aqui ele me puxa da cadeira e diz que vamos ter com Guru. Entramos no automóvel do Harold, um Lada Niva 4×4, e seguimos para a quinta onde Guru, pelos vistos, gosta de passar as férias. O Harold dirige feito um louco, ou um condenado à prisão perpétua. Não vais ficar enjoadinho justo na altura em que vamos ter com Guru — diz o Harold, num tom incisivo, patriarcal. Pergunto a ele se Guru é aquele sujeito laranja com cara de quem ingeriu doses inapropriadas de Ritalina® e o Harold fica possesso com essa comparação disparatada, talvez a pensar que ter me tirado do meu habitat, ter me tirado da minha escrivaninha não tenha sido mesmo grande ideia. De certeza que agora apetece ao Harold, ou pelo menos passa pela cabeça do Harold, levar-me de volta a casa, mas isto não é mais possível, estamos longe. O rádio do Niva toca uma canção foleira dos 1980 com bateria eletrônica afogada num Gated Reverb que a coisa toda faz os altifalantes do automóvel quererem sair pelas portas. Meu comentário leviano sobre Guru enfurecera o Harold, isto é certinho. Quando chegamos ao reduto de Guru — com aqueles tipos de árvores perfeitas para se esvaziar a bexiga, dar uma generosa mijada depois de beber litros da Sagres Pilsen «como se não houvesse o amanhã» (cito uma canção folclórica) — percebemos que Guru está a tomar o pequeno-almoço na varanda com uma loura esbelta à moda Claudia Schiffer e o Harold logo me cutuca, apertando-me o braço com força para que eu mantivesse o bico calado, pois a loura é bem a esposa de Guru, ele diz, a loura é outra coisa, para que eu não cobiçasse a mulher alheia e etiquetas relacionadas. Guru, vestido mais como um Oberleutnant zur See (oficial de primeira classe) do que um líder espiritual propriamente dito, levanta a embalagem de cornflakes e depois entorna o conteúdo numa tigela com motivos do rato Mickey. A cena é tão absurda e tão hilária que preciso de conter um riso em estado de ebulição. Não comento nada sobre a cena, muito menos sobre a vestimenta tipo Kriegsmarine, por respeito ao Harold. Guru nos convida para comer o pequeno-almoço com ele, apontando com dedos nodosos às cadeiras vazias ao redor da mesa. Percebo que a loura está a ler qualquer coisa vulgar, uma edição vintage da Playboy. A mulher da capa da revista lembra um pouco a própria loura, a senhora esposa de Guru, poder-se-ia dizer até que eram irmãs, ou primas. O Harold começa a falar sobre uns assuntos transcendentais com Guru. A loura altera o olhar da seguinte forma: espia a Playboy vintage e flerta comigo enquanto não espia a Playboy vintage. O Harold meio que percebe tudo, percebe que há qualquer namorico entre mim e a loura. Mas Guru come cornflakes, Guru não percebe nada. A loura então se levante e diz que vai dar um passeio. Eu preciso de ficar sentadinho a ouvir o papo trance de Guru e Harold. Guru começa a falar que recentemente perseguira um homem de uns quarenta anos que invadira a quinta dele para mijar numa das árvores (apenas confirmando as minhas observações iniciais de que me parecem excelentes árvores para descarregar-se), Guru teria então perseguido o homem, Guru segurando uma espécie de machadinha, Guru tresloucado, forçando o homem a deitar-se na relva e, ainda segundo Guru, quase matando o invasor com a machadinha. Harold tem o rosto perplexo, de quem abrira a porta da casa de banho errada, pergunta os porquês de tanta animosidade ao que Guru apenas responde na terceira pessoa do singular: Guru está estressado, acrescentando logo a seguir (ainda na terceira pessoa do singular) que hoje é aniversário de Guru, mas que, infelizmente, o clima não está para festa.

— P. R. Cunha


Os leitores de Europa que porventura queiram adquirir Paraquedas – um ensaio filosófico já podem fazê-lo através do sítio web da UA Editora. Ou, se estiverem a visitar os canais aveirenses, podem também ler a minha criatura nas confortáveis cadeiras da Biblioteca da Universidade de Aveiro. À guisa de celebração, compus este tema musical com inclinações marítimas. Portanto, adeus!

Breves apontamentos à guisa de distração (i.e.: sair da cave para um merecido respiro/é domingo, sinto saudades de «bloguear»/[old habits die hard])

O facto de eu não conseguir escrever nada de muito substancial enquanto trabalho num livro inquieta-me desde os primórdios da fazenda de Paraquedas – um ensaio filosófico. É como se o livro se transformasse num buraco negro, numa estrela supergigante a sugar toda a minha (sic) criatividade. Ou, numa analogia mais mundana: o livro no qual estou trabalhando é bem o epicentro de um terramoto. Todas as ideias que tenho são transformadas e armazenadas para servirem à narrativa, ao manuscrito. A ser franco, nesta minha segunda tentativa de escrever um romance a solo tenho lidado com essa exclusividade encefálica com posturas menos belicosas. Aceito/compreendo que é assim que funciono, está na minha natureza e pronto. Tudo que penso, falo, reflito, pondero, sonho, sofro, gosto, amo, odeio acaba nas páginas da minha próxima obra. O livro é lá uma amante um bocado exigente, digo-vos isto sem receios. Mas se isto é bom ou mau, não vem ao caso agora. O importante é que eu consiga terminar o enredo de maneira satisfatória, e depois revisar o primeiro esboço, procurar as lacunas, preencher tais lacunas, tornar as personagens mais plausíveis etc. etc. Acontece de às vezes a imaginação manifestar-se em frequências pouco compreensíveis — pelo menos a mim. E vejo-me às traseiras da minha casa molhando as plantinhas, a colocar abruptamente o regador no chão, tirar do bolso das calças um bloco-notas e escrever umas coisas bem aleatórias como este epitáfio de mentirinha:

Aqui jaz P. R. Cunha
Que em vida sofria insônia
agora dorme
Tranquila
mente

Ou quiçá esta cena que esbocei ontem à noite, depois de uma tumultuosa partida de xadrez, de uma humilhante derrota para o Computer Level 9, e que só consigo imaginar (muito pretensiosamente) o Werner Herzog colocando-na, como se diz, «em prática»:

Um homem está parado com lanterna na mão. Vemos apenas a luminosidade da lanterna e uma silhueta atrás, porque o local está escuro, sombrio — talvez uma caverna. Eventualmente, o homem aponta a lanterna para um sítio específico, mas a câmera continua a enquadrar apenas o homem. Depois ele aponta a lanterna para o próprio rosto e vemos uma fisionomia aterrorizada. O homem está suando imenso, tenta mover-se mas não consegue. Ele volta a apontar a lanterna para o mesmo sítio ao qual apontara antes. Agora escutamos um outro barulho, um barulho de respiração, de algo ofegante, como se ali houvesse um animal monstruoso pacientemente à espera do último suspiro do homem para enfim começar a agir. Mas a câmera nunca se move para vermos quem (ou o quê?) estaria àquele sítio.

Acho que quando estou a trabalhar em algo a sério — quando desejo que a obra cresça bem-nutrida e tenha lá as melhores das intenções — é provável que esta atenção incondicional ao livro seja mesmo a melhor providência. O resto é apenas vestígio; sobras de um banquete altruísta oferecido por divagações errantes.

P. S.: gosto também das promessas disparatadas que fazemos quando estamos a escrever literatura — tais como «deixarei a barba e os cabelos crescerem até ao dia em que finalmente terminar o livro» etc.; extravagâncias que colocam a minha futura esposa num indigesto estado de negação.

— P. R. Cunha

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha