Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quarta parte (o som dos guerreiros da Patagônia)

Os mapuches, assim como os maias-quiché, possuem uma tradição predominantemente oral. Não à toa o idioma utilizado por este povo ameríndio que habita determinadas regiões do Chile e da Argentina chama-se mapudungun (o som da terra). Trata-se de um conjunto linguístico com imensa quantidade de palavras relacionadas com a flora, com o céu, com os Andes. O mapuche (nativo) — que por vezes também se autodenomina reche (homem verdadeiro) — adota posturas de veneração e respeito diante da complexidade ecológica. A natureza sempre caracterizou e deu sentido a essa gente do solo, cujos sobrenomes são toponímias dos lugares em que costumavam viver os antepassados.

Outra característica que os mapuches compartilham com os diversos povos que habitavam as Américas antes da absurda colonização europeia é o espírito integrador, de identidade, de pertencimento, com a evocação dos antigos triunfos, da cosmogonia, e das lendas que hoje, depois de incontáveis mutilações encorajadas pela igreja católica, permanecem à custa de relatos dispersos.

Guglielmo Marconi, considerado o pai do rádio, tinha a convicção de que o som nunca morreria. Uma vez que as palavras fossem emitidas por algum aparelho sonoro ou mesmo pelas cordas vocais de um ser humano, a informação estaria disponível para sempre, a vagar algures.

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É pena que Marconi estivesse equivocado. Um aparato que conseguisse resgatar as narrativas dos nativos americanos mostrar-se-ia crucial à sobrevivência de culturas que confiaram sobremaneira na memória, na inconstante oralidade.

— P. R. Cunha

Águas do rio

Em maio de dois mil e dezesseis, depois de um período particularmente confuso, parti para Niterói a ver se conseguia recolher alguns documentos sobre a infância do meu pai. Passei toda a viagem com a poltrona inclinada a olhar para o botão de chamar a aeromoça, com vontade de pressioná-lo, mas sem de fato fazê-lo. O plano inicial era ficar quatro dias no apartamento da minha avó e talvez sair com ela para caminharmos pelas ruas em que papai costumava brincar em menino. Mas que vovó já estivesse a me esperar à portaria do edifício com uma vestimenta, de pronto notei, completamente adequada para uma longa caminhada foi algo que me pegou de surpresa — de modo que só tive tempo de sair do táxi amarelo e deixar minha mochila aos cuidados do porteiro. Durante alguns minutos caminhamos em silêncio e de vez em quando vovó permitia-se uma careta quando passávamos por algum dos canais terrivelmente fedorentos que cortam o bairro de Icaraí e que em tempos melhores, dizem, brilhavam com o azul do céu. Hoje está tudo mudado, minha avó disse, tudo mudado. Antigamente, ela continuou, era uma cidade bonita, sabe, de cuja beleza a memória aos poucos se esquece. Paramos em frente a uma casa abandonada e vovó apontou para uma janela de madeira no segundo andar: quarto do seu pai. Sempre senti uma espécie de inquietação quando diante de uma estrutura arruinada, pensei. Como se o declínio arquitetônico me perturbasse da mesma maneira que os acidentes automobilísticos, o desemprego, a perda de tudo, do conforto, da dignidade, porque receio poder vir a ter um final parecido. Seu pai tinha muitos amigos, disse a minha avó, de início queremos lá ter muitos amigos, estar rodeados de amigos, mas isso mudo à medida que envelhecemos, pois começamos a perceber que quanto mais amigos nós temos, mais ao cemitério precisamos ir. E a cada ano, ela continua, a cada ano é um monte de gente que morre. Nós cá ficamos, e para quem fica é sempre pior. Um pouco mais adiante, sentamos num banco de cimento a partir do qual podia-se ver a praia de Icaraí, com o Pão de Açúcar a ilustrar o horizonte acinzentado. A cidade, o mar, as pessoas, todos viram costas à desgraça de uma mãe que perdera o filho, vovó disse. Seguiu-se uma breve pausa até que ela de súbito me perguntou: já leu Adalbert Stifter? Respondi que nunca havia lido nada de Stifter, apenas um ensaio sobre Stifter escrito pelo Sebald. Vovó então fitou um ponto de fuga invisível: curioso destino, este de as pessoas que têm de aprender a conhecer-se e reconhecer-se, a compreender-se e a estimar-se para a seguir e para todo o sempre — se separarem. É Jenny Lind, ela disse.

— P. R. Cunha

O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Desde já esclareço que utilizo o verbo conhecer com aquela despreocupação do viajante que passa duas horinhas ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris e volta para casa a pavonear que conheceu a França. Pois que tietagem pressupõe atitude, afinal. E quando um mero escriba se mete a falar sobre a admiração que sente por determinado escritor famoso, corre-se sem dúvida o risco de cair para o bobo. Em julho de dois mil e doze saí de Brasília dentro de um Nissan Tiida para percorrer mil duzentos e cinquenta e três quilômetros de estrada até a Festa Literária Internacional de Paraty — a boa e simpática Flip. Era a décima edição da festinha livresca e permiti-me grandes expectativas porque 1) Enrique Vila-Matas e 2) Jennifer Egan, Ian McEwan, Dany Laferrièrre, Alejandro Zambra. Mas a primeira coisa em que realmente reparei no lugarejo não tinha muito que ver com literatura: foi a quantidade expressiva de seres humanos que andavam lá para a chamada melhor idade. Velhinhos e velhinhas tropeçando nas ruelas de paralelepípedos de Paraty. Pensei com os meus botões que teria sido gira se a organização também tivesse se dado conta de que boa parte do público leitor brasileiro já passara dos sessenta/setenta carnavais e construísse caminhos mais seguros, pelo menos durante o evento. Nada. À guisa de desabafo compartilho a tese que elaborei quando diante dessas negligências: acredito que os idosos têm medo de reclamar e depois serem tachados de «velhinhos rabugentos», e a organização Flip bem sabe disso, e fica quietinha na dela porque não quer investir dinheiros em caminhos seguros para aqueles que, no fim de contas, são bem os que financiam a coisa toda. A cidade é bonita e agradável para os jovens adultos. Depois de um tempinho a perambular pelo centro, confesso que senti enorme vontade de cortar os pulsos por conta dos comerciantes de poesia que me abordavam a cada dois passos para ler estrofes de gosto duvidoso ao estilo: estas palavras, meu amigo, são Paraty. É necessário um esforço considerável para não cair numa branda melancolia e para não começar a achar toda aquela overdose de literatura um verdadeiro absurdo. Felizmente, percebi ligeiro que havia uma espécie de antídoto «contra» os poetas de rua: sentar-se nalgum canto, abrir um livro do Foster Wallace e responder numa qualquer língua estrangeira que je ne parle pas portugais. É claro que depois de me utilizar desse subterfúgio canhestro eu comecei a me sentir culpado e por vezes cheguei mesmo a abordar poetas-comerciantes na rua para pedir poema: vá lá, leia-me alguma coisa. Eles abriam sorriso que ia até Angra dos Reis e citavam: o corpo, a alma, Paraty, não fazem sentido. Fim da tardinha, chegara o momento de ir ao bate-papo Vila-Matas/Zambra. Este meu jovem coração se sublevou e assaltou-me o primeiro sentimento de mamãe-eu-sou-patético-idolatro-escritores. Duas horas depois, estava eu na fila de autógrafos a ver de longe a cabeça grisalha do Vila-Matas, as mãos disciplinadas do escritor espanhol num surto de assinaturas e os leitores que saíam com os livros coloridinhos editados pela saudosa Cosac Naify. Quando cheguei perto o bastante para conseguir escutar o que o Vila-Matas falava para as pessoas e o que as pessoas falavam para o Vila-Matas reparei que ninguém dizia nada, absoluto silêncio. O processo se passava da seguinte maneira: ser humano se aproximava do Vila-Matas, jogava o livro do Vila-Matas sobre a mesa, Vila-Matas abria o livro, assinava, devolvia o livro para ser humano e pronto. Não me orgulho em dizê-lo, mas essas cenas Tempos modernos — com o livro a fazer as vezes do parafuso — causaram-me uma incontrolável Schadenfreude (prazer pelo infortúnio alheio). Vila-Matas não levantava a cabeça porque ninguém lhe dirigia a palavra, parecia óbvio. E muito provavelmente ninguém lhe dirigia a palavra porque Vila-Matas não levantava a cabeça. Resolvi colocar essas ruminações em prática. Na minha vez, fiquei parado numa postura ridícula, hoje consigo perceber com clareza, numa postura imbecil e teatral diante do Vila-Matas. Daí mostrei o exemplar de O mal de Montano — que juntamente com O náufrago, do Bernhard, foi a obra que mais reli na vida — e lhe disse: el libro más increíble de la literatura española, sin dudas. Vila-Matas levantou a cabeça. Arregalou os olhos. Fitou-me por alguns segundos: ¿Cómo te llamas, joven? Eu disse meu nome, ele autografou na folha de rosto do Montano e estendeu-me a mão: ¡Suerte, chico! Estarrecido, fiquei ainda uns bons trinta minutos perto da fila a ver se ele iria conversar com mais alguém. Não conversou. A linha de montagem dos leitores tinha voltado a funcionar: joga o livro, o Vila-Matas assina, pega o livro, vai embora. Em silêncio. Absoluto.

— P. R. Cunha

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