Intercâmbios

Depois que a minha esposa morreu, fiquei sozinho com o Leandro, nosso único filho. Talvez eu estivesse a desenvolver certos mecanismos de defesa contra o luto, sei lá, contra as dores da saudade, negação, mas a verdade é que sempre soube que fui um pai intransigente pacas. Ou seria melhor escrever «restrito»? Pai restrito, pai intransigente, pai rigoroso. O que eu quero dizer é que pegava muito no pé dele. Leandro, abaixa a música; Leandro, por que cargas tu não levantas a droga da tampa antes de fazer o xixi; Leandro, fecha a sacola do pão; Leandro, para de tocar bateria até tarde. Ele nunca reclamou. Sempre me obedeceu, jamais fez cara feia ou algo do tipo, apenas dizia: «Tá bom, papai, vou abaixar o volume; tá bom, papai, da próxima vez prometo levantar a tampa; tá bom, papai, estou a fechar a sacola do pão…» para uma semana depois voltar a repetir o mesmo roteiro de traquinagens. E eu cá pensava com os meus botões: o menino precisa urgentemente de ir morar longe a ver se aprende algo sobre a vida etc. Agora o Leandro está lá em cima a fazer as malas porque vai passar uns tempos na Nova Zelândia com a namorada. E nem preciso dizer que sentirei uma falta absurdas de todas essas coisas das quais eu reclamava, das picuinhas, das peculiaridades que tornam o meu filho quem ele é.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #42)

robert gould estava em pé a mexer nos papéis sobre a mesa de estudos. a esposa saiu do banho enrolada na toalha: o que estás a fazer, robbie? o marido ajeitou os óculos de leitura enquanto segurava uma espécie de lista: li noventa & oito livros este ano. helen vestia a roupa de dormir: ora, muitos parabéns, robbie. não, não, não, ele disse, não é disso que se trata. helen abraçou o marido como se abraçasse uma criança perdida, deu-lhe um beijo na testa: então, do que é que se trata? ele tirou os óculos, esfregou os olhos, deu um peteleco na lista: noventa & oito livros & me sinto vazio como os diabos, como se não tivesse realizado coisa alguma. oh, robbie, ela sussurrou, oh, robbie, vamos deitar. os dois se ajeitaram na cama. robert gould apagou a luz do abajur: te contei que ontem sonhei com o meu pai? helen virou a cabeça na direção do marido: com o teu pai? sim, com o meu pai. permaneceram em silêncio. helen estava prestes a fechar os olhos quando lembrou-se da última vez em que deixara o marido a falar sozinho & no dia seguinte ele se mostrava absolutamente intratável: como… foi, o sonho? robert gould ligou a luz do abajur, colocou o travesseiro na cabeceira da cama para encostar-se: estou sentado na areia, é bem cedo, sei lá, sete, oito horas, no máximo, meu pai nos acordava muito cedo para irmos à praia, & a praia estava praticamente vazia quando chegávamos, talvez um aposentado a praticar o running, ou uma moça com trajes new wave a fazer yoga, de forma que papai pegava o melhor lugar, a melhor mesa, & logo fazia amizade com o dono da barraquinha diante da qual arrumávamos as nossas trouxas, & o resultado era que todos adoravam as conversas do meu pai, o jeito extrovertido do meu pai, & chamavam-no de chefe, sempre traziam as nossas comidas primeiro, serviam-nos o peixe frito, perguntavam para o meu pai se «tudo certinho por aqui, chefe», & meu pai dizia que sim, tudo certinho, &tc, daí lá estou eu sentado na areia, pequeno, branco, loiro, desengonçado, sunga com motivos ducktales, tio patinhas, emburrado porque eram sete horas da manhã, sonolento, colérico, enquanto papai era tratado como um rei & perguntava-me com uma voz leve, brincalhona, descompromissada, sem entender nada do meu azedume, papai perguntava-me se eu queria milho verde com manteiga, ou um potinho de salada de frutas com leite condensado, enquanto estou a observar as ondas, & não me viro para o meu pai, não viro, quero continuar a mostrar a ele que estou zangado, muito zangado, que não faz sentido acordar tão cedo para ir à praia, & no fundo eu adoraria um milho verde com manteiga, um potinho de salada de frutas com leite condensado, mas não pretendo ceder, & de birra, sem tirar os olhos do mar, apenas digo não!, não quero nada!, & consigo sentir o ar expelindo dos pulmões do meu pai, o desapontamento do meu pai, a melancolia que invade o coração dele por ser tratado com tamanha indiferença pelo próprio filho, o príncipe… helen não aguentara ouvir tudo — decidiu que lidaria com os complexos do marido no dia seguinte, ao pequeno-almoço, depois de uma noite de sono mais ou menos revigorante.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #40)

ela colocou a chávena de café sobre a mesa. respirou fundo. ajeitou-se no sofá & disse: bom…, a imagem que ainda me arranca lágrimas, você quer saber, a imagem que ainda parte o meu coração em pedacinhos é o david a sair de casa com o nosso filho no colo, a abrir a porta do carro para levá-lo até à escola. eu aguardo na calçada, naquele modo «estou-ali-mas-não-estou-ali». com todo o cuidado do mundo o david aperta o nosso filho na cadeirinha vermelha que minha mãe nos dera de natal. ele fecha a porta do carro & olha na minha direção: sorri da forma mais encantadora que se possa imaginar, um sorriso simples, mágico. & eu continuo parada na calçada, sem mover-me um centímetro. certa de que não amava mais o david.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha

Quem é que está a rir agora

SALA DE INTERROGATÓRIO, 21H54

O polícia Ionesco fecha a porta atrás de si. Joga a pasta com os documentos de investigação sobre a mesa. A mesa de metal range e balança como se fosse uma velha locomotiva soviética. A mulher sentada assusta-se imenso com o barulho, recua. Os dedos nodosos dela movem uma madeixa de cabelos que está a cobrir-lhe o olho direito (especificamente o olho direito). A mulher parece embriagada, ou sob efeito de soníferos (calm caps).

IONESCO: dama, vou precisar que repita… [breve pausa, Ionesco fita a câmera de segurança, prossegue], por obséquio, preciso que repita o seu nome.

[Sem olhar para o polícia, a mulher diz: Marta.]

IONESCO: de quê?

MARTA: isto é mesmo necessário?

IONESCO [toma notas, levanta a manga do paletó, olha para o próprio relógio, depois compara-o com as horas do relógio de parede da sala de interrogatório]: sim, dama, completamente necessário.

MARTA: marta, marta de albuquerque, senhor. [um «senhor» que soa teatral, jocoso, como um soldado rebelde que responde sem vontade aos superiores.]

IONESCO: gostava que a senhora Marta de Albuquerque contasse-me o que realmente aconteceu na noite de ontem.

MARTA [olha para as mãos de Ionesco, sem anel]: já foste casado?

IONESCO: como é?

MARTA: não sejas um idiota, a pergunta é simples. Já foste casado?

IONESCO: não compreendo como isso pode nos ajudar aqui, senhora Marta de Albuquerque.

MARTA: briga entre marido e mulher, foi isso, uma simples briga entre marido e mulher. Se tivesses sido casado, compreenderias.

IONESCO [sem esboçar qualquer tipo de reação abre um dos envelopes e tira uma pilha de fotografias. As imagens mostram um homem roxo com inúmeras facadas no peito, o pescoço aberto, os olhos vidrados e sem vida parecem antever um encontro com o próprio diabo. Ionesco organiza metodicamente as fotos sobre a mesa, tal qual psicólogo durante aqueles estranhos testes de sanidade]: simples briga entre marido e mulher.

MARTA [solta um desdenhoso humn]: francamente… [pausa]. estávamos no quarto. a minha irmã tinha acabado de ligar. E ela tem um daqueles casamentos perfeitinhos, sabes?, o marido perfeitinho, os filhos perfeitinhos que tiram notas perfeitinhas, e passam as férias a ler gontcharóv, tchekhov, escutando claude debussy, e escrevem resenhas a explicar os porquês de acharem que o niilismo de sartre faz mais sentido do que o niilismo de nietzsche. eu desligo o telemóvel e digo: francisco, quero o divórcio, do jeito que está não pode. mas o francisco nem me olha, fica a ler o jornal, como se, sei lá, como se eu estivesse a fazer a previsão do tempo, se chuva, se sol, essas coisas. então eu decido insistir, porque, sabes, quero mesmo resolver tudo de uma vez por todas. O francisco continua lá lendo o jornal: francisco, estou a falar a sério, quero o divórcio. devo ter repetido isso umas cinquenta vezes, percebes? e estava a aturar o silêncio do francisco da melhor maneira possível, eu inspirava e expirava e dizia para mim mesma: tem calma, mulher, tem calma. Até que numa altura eu disse: francisco, estamos a nos divorciar, amanhã vem aqui uma advogada, vamos nos divorciar, e o francisco ri-se, um daqueles risos que duram apenas alguns segundos, riso de escárnio, prepotente, riso imbecil, de uma superioridade desprezível. [marta olha para a mesa, dá duas batidinhas com o indicador na superfície lisa de uma das fotografias do homem mutilado]: pois bem, garanhão, quem é que está a rir agora?

— P. R. Cunha

Há algo de errado, mas não se sabe ao certo o quê

Ele está a lavar a louça. Ela passa, espreguiça-se e diz: bons-dias, Frank. Sem desviar os olhos do conjunto esponja-prato-talheres-detergente, Frank acena com a cabeça. Ela abre a geladeira e pega do fundo um copo de requeijão light. Frank distrai-se, alguma coisa cai na pia e faz aquele barulho metálico de coisas que caem na pia — talvez um garfo, ou uma colher. Ela fecha a geladeira com imensa força e diz com voz infantil: ora, Frank, que tal se tomássemos cuidado com a louça? Os lábios de Frank tremem, mas hoje ele não irá dizer nada.

— P. R. Cunha

Breves apontamentos à guisa de distração (i.e.: sair da cave para um merecido respiro/é domingo, sinto saudades de «bloguear»/[old habits die hard])

O facto de eu não conseguir escrever nada de muito substancial enquanto trabalho num livro inquieta-me desde os primórdios da fazenda de Paraquedas – um ensaio filosófico. É como se o livro se transformasse num buraco negro, numa estrela supergigante a sugar toda a minha (sic) criatividade. Ou, numa analogia mais mundana: o livro no qual estou trabalhando é bem o epicentro de um terramoto. Todas as ideias que tenho são transformadas e armazenadas para servirem à narrativa, ao manuscrito. A ser franco, nesta minha segunda tentativa de escrever um romance a solo tenho lidado com essa exclusividade encefálica com posturas menos belicosas. Aceito/compreendo que é assim que funciono, está na minha natureza e pronto. Tudo que penso, falo, reflito, pondero, sonho, sofro, gosto, amo, odeio acaba nas páginas da minha próxima obra. O livro é lá uma amante um bocado exigente, digo-vos isto sem receios. Mas se isto é bom ou mau, não vem ao caso agora. O importante é que eu consiga terminar o enredo de maneira satisfatória, e depois revisar o primeiro esboço, procurar as lacunas, preencher tais lacunas, tornar as personagens mais plausíveis etc. etc. Acontece de às vezes a imaginação manifestar-se em frequências pouco compreensíveis — pelo menos a mim. E vejo-me às traseiras da minha casa molhando as plantinhas, a colocar abruptamente o regador no chão, tirar do bolso das calças um bloco-notas e escrever umas coisas bem aleatórias como este epitáfio de mentirinha:

Aqui jaz P. R. Cunha
Que em vida sofria insônia
agora dorme
Tranquila
mente

Ou quiçá esta cena que esbocei ontem à noite, depois de uma tumultuosa partida de xadrez, de uma humilhante derrota para o Computer Level 9, e que só consigo imaginar (muito pretensiosamente) o Werner Herzog colocando-na, como se diz, «em prática»:

Um homem está parado com lanterna na mão. Vemos apenas a luminosidade da lanterna e uma silhueta atrás, porque o local está escuro, sombrio — talvez uma caverna. Eventualmente, o homem aponta a lanterna para um sítio específico, mas a câmera continua a enquadrar apenas o homem. Depois ele aponta a lanterna para o próprio rosto e vemos uma fisionomia aterrorizada. O homem está suando imenso, tenta mover-se mas não consegue. Ele volta a apontar a lanterna para o mesmo sítio ao qual apontara antes. Agora escutamos um outro barulho, um barulho de respiração, de algo ofegante, como se ali houvesse um animal monstruoso pacientemente à espera do último suspiro do homem para enfim começar a agir. Mas a câmera nunca se move para vermos quem (ou o quê?) estaria àquele sítio.

Acho que quando estou a trabalhar em algo a sério — quando desejo que a obra cresça bem-nutrida e tenha lá as melhores das intenções — é provável que esta atenção incondicional ao livro seja mesmo a melhor providência. O resto é apenas vestígio; sobras de um banquete altruísta oferecido por divagações errantes.

P. S.: gosto também das promessas disparatadas que fazemos quando estamos a escrever literatura — tais como «deixarei a barba e os cabelos crescerem até ao dia em que finalmente terminar o livro» etc.; extravagâncias que colocam a minha futura esposa num indigesto estado de negação.

— P. R. Cunha