Não abras mão de um ambiente personalizado e bonito em tua casa

Osvaldo estava a lavar louças enquanto Lucy tomava o pequeno-almoço. O nome Lucy é porque a rapariga nascera em Austin, Texas — nome estrangeiro, portanto. Osvaldo lavava as louças de um modo descompromissado, por vezes hostil, furioso. Sim, Osvaldo parecia pouco feliz. Lucy só conseguia ver as costas do Osvaldo. Ela mastigava a torrada com queijo e geleia Queensberry sabor morango e observava as costas do Osvaldo. Amiúde, o Osvaldo resmungava qualquer coisa incompreensível, chutava a porta do armário, mas a Lucy nunca achava que era a sério. Ao deixar os copos sobre o escorredor, Osvaldo refletiu se era possível amar Lucy sem tornar-se prisioneiro do amor por Lucy. Mas Lucy, como já se disse, não percebia nada dos pensamentos do Osvaldo. Ela continuava a mastigar as torradinhas com queijo e geleia Queensberry sabor morango*.

— P. R. Cunha


*Aquilo que importa para os propósitos desta narrativa é: Queensberry sabor morango.

Angustiada, uma tragédia moderna

Personagens

Angustiada, mulher na casa dos trinta com agorafobia
Zélia, amiga de Angustiada, dona de uma loja de sapatos 

A ação passa-se em Brasília em frente do Seu Patrício Querido Café. 

Ato Único

É tarde, por volta das quinze horas. Angustiada e Zélia estão sentadinhas. Num volume ameno, confortável, toca Lágrimas, de Kelton Gomes. 

ANGUSTIADA
Há qualquer coisa no meu marido
que me dá vontade de
cortar os pulsos

(Ela faz o dedo indicador da mão direita de serra, tenta cortar o pulso da mão esquerda com o indicador direito. Zélia arregala os olhos.)

ZÉLIA
Às vezes assustas-me

ANGUSTIADA
Homem terrível
com uma família igualmente
terrível
mãe irmã primos irmão
gente terrível

(Pausa.)

ANGUSTIADA
Percebes bem
o que estou eu a dizer

(Zélia levanta o cardápio, discretamente.)

ANGUSTIADA
Um pavor
ou melhor
um ódio mortal
gostava de vê-los mortos
ele claro
ele principalmente
e a irmã
sim
os dois
principalmente ele e ela
cunhada e marido
(Acentua a palavra marido, divide-a em sílabas.)
ma-ri-do
(Pausa.)
odiáveis
(Pausa.)
monstros

(Garçom aproxima-se. Angustiada pede macchiato, Zélia o cappuccino.)

ANGUSTIADA
Vamos para o nosso
oitavo ano de casados
bodas de lã
ou bodas de algodão
nunca sei

ZÉLIA
Barro

ANGUSTIADA
Como é

ZÉLIA
Oito anos de casamento
bodas de barro

ANGUSTIADA
Bodas de merda
vai lá

(Garçom coloca macchiato e cappuccino sobre a mesa.)

ANGUSTIADA
Ronca
não ajuda em nada
pede-me para lavar as ceroulas
aquelas ceroulas horrorosas
roupa interior
molha a casa de banho
joga a toalha no chão
arranha as panelas com
a esponja de aço
(Pausa.)
Eu lhe falo
cacete
usa a parte amarelinha da esponja
ele usa a parte verde
arranha destrói
faz de propósito

(Zélia dá um gole no próprio cappuccino.)

ANGUSTIADA
Volta tarde
meia-noite
uma hora da manhã
três horas da manhã
bêbado
obviamente
muito bêbado
com aquele cheiro
conhaque
Dreher
Jägermeister
monstro

(Zélia mastiga o biscoito de natas que veio com o cappuccino.)

ANGUSTIADA
(Faz que vai se levantar, não levanta.)
Xinga-me
diz que estou acabada
que não sirvo
que envelheci
ele diz
estás velha
caduca
estás a perder os dentes
(Mostra os dentes para a amiga.)
tenho-os cá todos
todos os dentes
os sisos inclusive
trinta e dois dentes
(Mostra os dentes para a amiga novamente.)
meus dentes
(Sorri, orgulhosa dos próprios dentes.)

(Passa uma senhora a vender panos de prato — Angustiada e Zélia não precisam dos panos de prato.)

ANGUSTIADA
Tédio
pavor
desprezo
este gênero de sentimento
repete-se incessantemente
ser humano lastimável
eu penso
onde fui me meter
eu penso
(Pausa.)
Até que me traz flores
o maldito
trouxe-te flores
amorzinho pra lá
dependência
amorzinho pra cá
ódio
como está o cheiro das flores
ele me pergunta
estão cheirosas as florzinhas
ele me pergunta
necessidade
e de ali estamos na cama
um horror

(Zélia acende o cigarro. Garçom diz que ali não pode fumar. Zélia apaga o cigarro.)

ANGUSTIADA
Amanhece
e volta a ser como antes
esquece-se
caio em desuso
sou ruína
de novo
pergunta-me se lavei-lhe as ceroulas
pergunta-me o que teremos para o jantar
e volta às três da manhã
com cheiro de Campari
Vermouth
Bitters
Aperol
e não só

(Zélia respira profundamente, como se estivesse a praticar a vipassanā meditation. As luzes escurecem.)

FIM

— P. R. Cunha

Siri, o que é ser humano?

Em recente campanha publicitária da Amazon Echo — cujo sugestivo título é «Dad’s day» (dia do pai) — uma mãe caucasiana com cerca de trinta anos chamada Laura está a se despedir do próprio bebê, um gorduchinho pendurado no colo do papai a fazer coisas que os miúdos de comerciais costumam fazer. 

Laura tem uma pele excelente, os cabelos arrumados, mostra-se confiante, com pressa para algum compromisso a respeito do qual nunca saberemos. Ela dá um despretensioso bye-bye para o bebezinho. O papá, no entanto, tem os cabelos desgrenhados, claro início de calvície nas laterais da testa, está em mangas de camisa, sonolento, veste calça moletom surrada. A mamã pergunta para o papá se ele ficará bem, o papá responde com convicção duvidosa que sim. 

A câmera se afasta e temos uma breve porém reveladora amostra do apartamento da família: mesa ainda com as sobras do pequeno-almoço, os móveis coloridos, as almofadas com estampas discretas, as paredes de tijolo, o piso de madeira rústica, a luz da manhã com aquela modorrenta névoa das cidades do leste estadunidense — Nova York, Boston? Ao lado do sofá amarelo, sobre uma mesinha de canto, a verdadeira estrela da campanha: a assistente virtual Alexa, versão Echo. 

Echo tem aproximadamente vinte e quatro centímetros de altura, voz feminina, parece com aquelas caixinhas de som que os banhistas gostam de colocar perto da piscina a curtir os últimos sucessos com batidas (e letras) incompreensíveis. O papai, num temporário lapso de firmeza, pede para a Alexa aumentar a música When I wake, do Justin Hurwitz*. Alexa obedece prontamente. 

Pai e filho estão agora brincando na poltrona, tudo parece correr bem, dentro dos conformes. Mas aos poucos começamos a entender por que a mamã saiu alhures sem aparentar grandes preocupações. Alexa interrompe a música e alerta: aqui vai um lembrete, Laura diz que o anel dos dentinhos está guardado na geladeira. O pai faz cara de aluado. Ele se dirige então à geladeira, o bebê começa a chorar, papai entrega o anel dos dentinhos, o bebê morde o anel dos dentinhos, o bebê se acalma. 

De aí vemos o papai a tirar as roupas da máquina, a lavar a louça, limpar a mamadeira e outras miudezas afins, tudo porque Alexa está a lembrá-lo. O papai age de forma muito estranha, como se nunca tivesse estado sozinho com o próprio filho antes. O bebê, por sua vez, continua a fazer coisas de bebês em comerciais. Alexa lembra também que Laura havia agendado um encontro de jogos infantis às 15h.

Depois há uma série de cenas tragicómicas: está a chover a potes, pai desesperado a empurrar o carrinho do gorduchinho na calçada voltando para a casa, pai encharcado abre a porta do apartamento, senta-se com o bebê na poltrona, pai em choque com olhos vidrados que fitam um horizonte invisível, bebê dorme no colo do pai. Alexa apita e diz: aqui vai um lembrete, Laura te ama muito e tu estás a fazer um excelente trabalho. Pai abre um sorriso estúpido, de regojizo, de alívio, como se tivesse se safado de um crime imperfeito, como se dissesse para si: oh, Alexa, o que seria de mim sem o teu auxílio…

O comercial dura meros trinta segundos e é basicamente uma compilação de clichês e esteriótipos a respeito dos casais contemporâneos. Mas há algo ali muito mais complexo e perturbador: a dependência cada vez maior de serviços tipo Alexa, Siri e Google Assistant. 

Na campanha da Amazon Echo pelo menos ainda se pode observar a presença de um ser humano, o papá bobão que quase tem uma taquicardia depois de algumas horinhas sem o auxílio da Super-Mamã. Chegará o dia em que os pais deixarão os filhos sozinhos com essas babás robotizadas e quase ninguém achará isso um absurdo, ou mesmo um aglomerado de lugares-comuns sobre o matrimônio moderno.

Talvez seja um futuro de preguiças, de limitado pensamento intelectual, de inércias. Lá estão as máquinas a fazer tudo pela gente, a responder tudo pela gente, o pai e a mãe no sofá diante do próprio bebê, o bebê que escuta as instruções da Alexa. O pai e a mãe não se sentem explorados, nem culpados; sentem-se irrelevantes.

— P. R. Cunha


*Vide trilha sonora do filme Whiplash.

Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira

Ele andava de um jeito engraçado, como se estivesse prestes a levitar, ela segurava o braço direito dele com suavidade, ternura. Eles tinham acabado de tomar sorvete & depois de ela tanto insistir ele finalmente aceitou levá-la para conhecer o apartamento em que ele morava há quase um ano. Eles pararam à portaria, ele a abraçou & disse: passo importante, este. Ela sorrira. Ele ajeitou os cabelos dela. Entraram no elevador, ele tirou as chaves do bolso da calça. Antes de destravar a fechadura do apartamento ele olhou para ela: tens a certeza de que queres mesmo fazer isto? Ela consentira com a cabeça, os olhinhos a brilhar. Ele então abriu a porta & como se fosse um guia turístico explicando as peças de um museu estranho começou a mostrar todos aqueles livros jogados, centenas, milhares de livros, no chão, nas prateleiras de madeira clara, sobre o sofá de três lugares perto da escrivaninha — também amarrotada de livros —, livros em cima do fogão, livros em cima da pia, livros na cama, centenas e milhares de livros, é importante repetir, Francisco de Moraes, Le Carré, Virginia Woolf, Pinker, Ballard, Starobinski, Horgan, Panek, Austen, Kafka, Mendes Campos, Cheever, Plath, Camus, Baudelaire, Beauvoir, Harari, Eco, Melville, Begley, Haroldo de Campos, &tc. &tc. &tc., livros em cima do rádio, livros dentro do banheiro, livros, em suma, para tudo quanto é lado, & parecia que ele tinha sempre uma anedota a fazer sobre esses livros, ou uma história edificante sobre esses livros, ou uma lembrança que determinada coleção oitocentista lhe trazia, & quando ele finalmente parou para respirar, como se diz, quando ele percebeu que desde que começou a falar sobre esses livros todos não dera a mínima atenção para ela, quando ele decidiu olhar para ela, portanto, ela que ficara em absoluto silêncio durante as explicações dele sobre todos esses livros, quando ele finalmente se voltou para observá-la, ele definitivamente não estava nem um pouco preparado para o que viu.

— P. R. Cunha

Aqui se descansa de todo o resto

Estavam casados há vinte anos e ela se dera conta de que precisavam de umas férias, como se diz, ao sossego do oceano marítimo. Colocaram as malas na traseira de um Volkswagen, ele se acomodou no banco do passageiro, ela se ajeitara ao volante e girou a chave de ligar. Olha para o retrovisor na hora de sair da garagem, pois não — disse ele. Ela conduzia bem devagarzinho, parando sempre quando a luz do sinal estava no amarelo. Você sabe que não precisa disto, ele disse. Do quê?, ela perguntou. De parar no sinal amarelo, ele disse, pode acelerar um tanto, passar antes de ir para o vermelho. Ela continuou a dirigir a seu modo, ou seja, devagar, parando no sinal amarelo. Ele bagunçou os próprios cabelos com as duas mãos, como costumam agir os adolescentes mimados quando são contrariados pelo papai e pela mamãe. Ficou a pensar o que acontecera com aquele relacionamento — afinal, foi justamente pelo modo cuidadoso e precavido que ele um dia a amou. Num dia somos completamente apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido de uma pessoa, no outro, ele pensou, no outro já não somos mais apaixonados pelo modo cuidadoso e precavido dessa pessoa, em verdade, esse modo cuidadoso e precavido deixa a nossa cabeça à roda. O belo transforma-se em feio, refletiu ele enquanto o automóvel se aproximava de uma pousada isolada junto à frente de mar. Ela estacionou, abriram as portas sem dizer palavra. Tiraram da traseira do Volkswagen as malas e caminharam sem dar as mãos até à porta da pousada. Havia uma placa de madeira com a frase «Aqui se descansa de todo o resto» em tipologia cursiva e ele sentiu vontade de rir. Uma senhora de uns sessenta-setenta anos estava para a recepção e declarara de um modo muito afável: que bom terem vindo, estamos muitíssimos satisfeitos por terem vindo.

— P. R. Cunha

Isto aqui tem que ver com a verdade

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— Fotografia: P. R. Cunha

Muito já se escreveu sobre as dificuldades de homens e mulheres das chamadas «letras» de se relacionarem com outros seres humanos. Escritores, como se sabe, bichos arrogantes e megalomaníacos, que por vezes metem lá nas ideias o desejo de compartilhar o mesmo teto com um certo alguém. Manter, portanto, a lente focada nas intrigas dos relacionamentos amorosos. A ideia de que o escritor só é um verdadeiro artista se for louco dos pés à cabeça, se se entregar totalmente à loucura. Malucos, poços de manias, obsessivos. Esta imagem de fragilidade pode atrair, porque romantizada. — Gosto de você porque você é diferente etc. Um bípede se aproxima com ingênuas pretensões de salvá-lo da insanidade, sem compreender que dessa mazela gramatical não se pode fugir. Teresa e João tiveram um namorico de dois meses e estão agora ajoelhados para o altar; o padre pergunta se eles têm certeza. Ele acena com a cabeça que sim. Teresa hesita, relutante em aceitar, mas acaba por o fazer. Teresa, dos dois, é a que escreve. Na primavera do ano seguinte, João cai em profunda depressão porque Teresa não quer sair do próprio gabinete por nada, nem para um despretensioso amorzinho vespertino. Teresa só escreve, com ausência de afetividade — artificial, fria como um boneco de gelo. Mais tarde João sai amortalhado com o seu casaco preto para fazer compras, e como nunca recebesse da Teresa uma palavra cortês decide não voltar.

— P. R. Cunha

Crenças equivocadas produzidas por cérebros em exageradas tentativas de estabelecer conexões — ou as demandas de um qualquer relacionamento

Para Mauro Belmiro

Talvez devêssemos confiar no
testemunho de muitas gentes,
gentes da literatura,
vocês sabem,
dos fazedores de livros.
Que lá dizem ser raro,
encontrarmos alguém.
Alguém com quem estejamos
bem-dispostos a nos relacionar.
Bem como ela
conosco.
Ou como dissera
certo filósofo
do pessimismo:
que observava homem feio
estúpido,
rude.
Passar à frente de rapaz
talentoso, dos melhores modos.
Afável.
Por quê:
Excessivo poder mental,
ele diz,
ou até genialidade,
podem agir desfavoravelmente.

— P. R. Cunha