Reflexões (aparentemente) desconexas: fim de semana & um brinde ao Bukowski

Acho que foi o Kingsley Amis — pai de Martin Amis — que disse certa vez que a prosa combina com decepções, e o verso com amor. Talvez porque as decepções costumam ser longas, exigem linhas-e-mais-linhas de justificativas; enquanto o amor é curto como as estrofes de uma noite enluarada. Onde é que querias chegar, Sr. Amis?

Tema predileto de aqueles que gostam de problematizar a própria escrita: gangorras literárias. Isto é: saber o momento de se afastar e de se aproximar da fazenda livresca. Passar uma temporada com a narrativa, depois, fugir dela, sentir saudades, voltar revigorado etc. Dizer para consigo: narrativa, não me imagino mais sem ti; para depois contradizer-se: narrativa, tu me devoras sem piedade, precisamos nos distanciar. Escrever de mais, causa dores. Não escrever totalmente; febres.

A romantização de qualquer profissão é um espelho do que se pode chamar de «melhor cenário possível». Você admira os projetos arquitetônicos de Frank Gehry, diz que quer ser um arquiteto tão incrível quanto Frank Gehry e no fim torna-se um arquiteto medíocre. Problemas dos idealizadores, e das idealizações. De aí haver qualquer coisa rancorosa nas palavras de quem tentou (e falhou) em determinada área: a realidade raramente atende às expectativas oníricas. Noutros termos, à Nietzsche — as idealizações tornam pesado o coração do pensador.

Porque, no fim de contas, muitos preferem embelezar a vida com mentiras, castelo de areia. Abro a janela, recebo o vento glaciar da realidade, fecho a janela e me escondo atrás das «cortinas do que poderia ser». Marcel Proust, por exemplo, raramente saía de casa.

Os seres humanos somos defeituosos.

Viajamos longe, às civilizações de um remoto passado, e constatamos que sempre houve grande diferença entre os discursos teóricos (novamente o «melhor cenário possível», condições ideais de temperatura e pressão) e o que de fato a nossa espécie coloca em prática. Como aquele filósofo que discorre sobre o suicídio depois de comer um belo jantar de bife com batatas fritas e salada, acompanhado de uma garrafa do melhor vinho francês.

— P. R. Cunha 

Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha

Domingo azul — à noite, obscura, é a Lua que decide aquilo que tu podes ver

A mesma cabeça
paralisia/movimento
juventude/velhice
dissolução/composição
fadiga/sossego
liberdade/servidão
peso
leveza
é a mesma cabeça.

— P. R. Cunha