P. R. Cunha reflete brevemente a respeito do P. R. Cunha / palavra de honra

Sou o louco da família, segundo a minha própria família; sou o estranho, o absurdo, o distante, o engraçado, temperamental, bipolar, tênue, carinhoso, explosivo. Quando não escrevo, pratico o cycling (moderado) e a vipassana meditation (em sânscrito: विपश्यन). Não creio muito nos deuses, já vi fantasma(s), acho que o meu falecido pai está a me observar — não sempre, às vezes, à noite, ou quando a casa mostra-se «vazia». Gosto de me fingir de escritor perturbado, escrevo todos os dias das oito e trinta às onze e trinta da manhã. Gosto de, como se diz, meter o bedelho nas coisas para as quais não dou a mínima. Não sou muito bom em descrever cenários, prefiro mostrar aquilo que se passa dentro da cabeça das personagens. Só no escrito é que me sinto seguro (refugiado! [imagem do exílio]), utilizo as prateleiras da minha biblioteca como muralha para o mundo. Meu escritor favorito é o W. G. Sebald. Sim, W. G. Sebald — para sugerir a imagem do intelectual outsider e pouco compreendido que também pretendo encarnar. Etcétera.

— P. R. Cunha

Ação/reação: sentidos opostos (fugir algures)

Para o Daniel Jatobá

Antes de sair para umas merecidas férias (cerca de dez dias [porque mais do que isso enlouqueço]), achei coerente publicar texto que me fizesse refletir um bocadinho enquanto longe desta atividade literária que, de muitas formas, me legitima quando estou à sociedade. Uma recente conversa com o grande amigo e professor existencial Daniel Jatobá* instigara-me como da praxe a questionar o papel do escritor num contexto cada vez mais mutável, imprevisível; como a pessoa que se dedica aos livros** precisaria — ou não — se posicionar diante de determinados contextos contemporâneos etc. Estas foram as intenções, como se diz. Em que medida as consegui pôr na prática não me compete a mim julgar.

*Intrigante escritor-personagem sobre quem os leitores brasileiros, em breve, terão o prazer de ler no conforto dos respectivos lares.

**A confissão arrepiante, sussurrada, de um homem que dedicou a vida à obra e que agora precisa de se controlar para não se arrepender; construir para si narrativas que justifiquem as fugas para cantos fechados enquanto o tempo passa, enquanto a vida passa.


Estamos em 2018 e está a acontecer todo o tipo de porcaria, coisas realmente doidas, isso para dizer o mínimo.

O escritor maduro — ou seja: aquele que não sofre mais antes de escrever, aquele que encontrara a própria voz, aquele que tem já na memória um sem-número de referências que lhe auxiliam a qualquer momento, aquele que se esquecera do jargão «bloqueio criativo» pois tem sempre algo engatilhado a respeito do qual deseja discorrer com afinco —, o escritor maduro, como eu estava a dizer, que depois de tanto estudar/pensar/matutar/problematizar está agora a ouvir no rádio as últimas notícias do mundo e se vê invadido por uma estranha sensação de culpa, como se fosse um dos maiores responsáveis pelas anomalias sociais: escuta passivamente, acredita que não se envolvera o bastante até ao ponto de fazer a diferença, de influenciar de maneira positiva a escolha das outras pessoas, de compartilhar o conhecimento que adquirira nesses anos em que a boa fortuna lhe dera todas as condições possíveis e inimagináveis para exercer literaturas.

Depois do setembro mais quente de sempre, estou farto de tanto calor.

Qual seria, portanto, a missão do escritor (por vezes a confundir-se com a figura do intelectual), a prioridade, o que deve exigir a atenção e a engenhosidade do escritor, escritor que, como já foi dito, passara anos a estudar, a adquirir toda a sorte de conhecimentos, qual o propósito disso tudo?

Deve ou não ter empenho político, ser alienado, ter engajamentos, convicções, que postura adotar diante dos acontecimentos tenebrosos, da possibilidade cada vez mais plausível de o Brasil eleger um protótipo de fascista com cérebro de Homo neanderthalensis (sem querer desrespeitar os Neandertais), um fascista falsificado, e toda a gente que já se deparara com mercadoria falsificada sabe do risco que estamos a correr.

Fica-se muito confuso, diz que «puxa vida!, a verdade é que odeio política, mas as pessoas sabem que eu escrevo, e pensam que tenho muito a dizer sobre política, economia, taxas, ideologias, mas acontece que se alguém me perguntasse qualquer coisa sobre o Sebald eu saberia responder, sobre o Paul Auster, também saberia imenso, sobre o Winston Groom, sobre o Tchekhov, mas sobre política […]».

Escritor politizado: ou bem se faz de ridículo ou muito raramente se torna um guia digno de se seguir — como um George Orwell ou um Jonathan Swift.

Compreende que a casa está prestes a desmoronar mas não imagina como uma massa encefálica repleta de referências literárias conseguiria melhorar a conjuntura; sente dores, sente medo, sente-se impotente, fraco, vaidoso, suscetível, vingativo, perdido — não quer se responsabilizar por nada nem por ninguém, não quer adotar posturas pedantes à moda eu avisei. Estão todos no mesmo barco.

Minha avó chega de Niterói, daqui a pouco. A que ponto habituei-me às pequenas ocasiões desta existência em ebulição. Passear com vovó enquanto tudo está a ruir, pensar que não sou babá de vivalma, que não só os escritores têm responsabilidades, todos os brasileiros têm responsabilidades, e cada um pode e deve decidir por si quais são essas responsabilidades, sempre com a terceira lei de Newton à cabeça = as ações possuem reações, consequências. 

Que os demônios eleitorais tenham piedade de nós…

— P. R. Cunha

Reflexões (aparentemente) desconexas: fim de semana & um brinde ao Bukowski

Acho que foi o Kingsley Amis — pai de Martin Amis — que disse certa vez que a prosa combina com decepções, e o verso com amor. Talvez porque as decepções costumam ser longas, exigem linhas-e-mais-linhas de justificativas; enquanto o amor é curto como as estrofes de uma noite enluarada. Onde é que querias chegar, Sr. Amis?

Tema predileto de aqueles que gostam de problematizar a própria escrita: gangorras literárias. Isto é: saber o momento de se afastar e de se aproximar da fazenda livresca. Passar uma temporada com a narrativa, depois, fugir dela, sentir saudades, voltar revigorado etc. Dizer para consigo: narrativa, não me imagino mais sem ti; para depois contradizer-se: narrativa, tu me devoras sem piedade, precisamos nos distanciar. Escrever de mais, causa dores. Não escrever totalmente; febres.

A romantização de qualquer profissão é um espelho do que se pode chamar de «melhor cenário possível». Você admira os projetos arquitetônicos de Frank Gehry, diz que quer ser um arquiteto tão incrível quanto Frank Gehry e no fim torna-se um arquiteto medíocre. Problemas dos idealizadores, e das idealizações. De aí haver qualquer coisa rancorosa nas palavras de quem tentou (e falhou) em determinada área: a realidade raramente atende às expectativas oníricas. Noutros termos, à Nietzsche — as idealizações tornam pesado o coração do pensador.

Porque, no fim de contas, muitos preferem embelezar a vida com mentiras, castelo de areia. Abro a janela, recebo o vento glaciar da realidade, fecho a janela e me escondo atrás das «cortinas do que poderia ser». Marcel Proust, por exemplo, raramente saía de casa.

Os seres humanos somos defeituosos.

Viajamos longe, às civilizações de um remoto passado, e constatamos que sempre houve grande diferença entre os discursos teóricos (novamente o «melhor cenário possível», condições ideais de temperatura e pressão) e o que de fato a nossa espécie coloca em prática. Como aquele filósofo que discorre sobre o suicídio depois de comer um belo jantar de bife com batatas fritas e salada, acompanhado de uma garrafa do melhor vinho francês.

— P. R. Cunha 

Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha

Domingo azul — à noite, obscura, é a Lua que decide aquilo que tu podes ver

A mesma cabeça
paralisia/movimento
juventude/velhice
dissolução/composição
fadiga/sossego
liberdade/servidão
peso
leveza
é a mesma cabeça.

— P. R. Cunha