devaneios da própria máquina de escrever (episódio #27)

levo a máquina de escrever para o apartamento da minha namorada. ela abre a porta & diz: que troço é este? eu digo: olivetti lettera 82, máquina de escrever. ela ri-se, faz aquela cara engraçada que as mulheres sensatas costumam fazer quando lidam com homens insensatos em apuros. nesta altura um só pode agradecer «aos caprichos do universo» por ter encontrado alguém que se depara com o seu perfil mais desengonçado & mesmo assim permanece, não foge algures, nem lhe manda para o olho da rua. trinta & quatro anos de planeta terra me mostram que muito provavelmente esse seja o tipo mais honesto de amor. a astronauta que se arrisca ao lado escuro da lua, àquelas profundezas cósmicas, mas não se assusta, pois sabe que na outra face há luz, compreende que não é só de sombras que vive um aluado &tc.

[quartinho de estudos, a ler wylie sypher / um estilo nasce devagar, depois de muitos esforços, falsos inícios & erros.] concordo quando wylie sypher diz que a história da arte é uma interpretação que não pode ser final, um assunto fechado. certo clube do livro formado por cinco leitoras é mais que o suficiente para percebermos que a mesma obra será lida com várias, digamos, lentes. leitora X achará o texto distópico; leitora Y insistirá na versão romance à moda antiga; uma outra leitora discordará de X/Y/Z/W & dirá que não é nada disso: a narrativa era um sonho hedonista com influências estoicas. pensemos naquele velho adágio que diz que «a partir do momento em que mostramos nossas criaturas ao público, elas deixam de ser só-nossas»; passam a navegar oceanos subjetivos cujas ondas imprevisíveis não deveriam tirar o sono do marujo criador. pensemos também nos pais que dizem: crio meus filhos para o mundo. mas dizem-no com o coração intranquilo, pois têm medo de serem abandonados. sugere-se portanto que o artesão apenas observe (à uma distância segura) o afastamento da jangada. isto é: não se intrometa. permita que os outros desvendem livremente os códigos da embarcação. pois um dos maiores prazeres de qualquer obra de arte talvez seja o livre diálogo entre remetentes & destinatários, diálogo em que todos participam, imaginam, perdem, ganham, acertam, equivocam-se. é chegar ao ponto final da jornada & gratificar-se: sou um ser humano melhor, modifiquei-me.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #21)

considerações sobre nietzsche — providencialismo. 

nietzsche não matou deus, apenas anunciou o funeral. se possível, evite atirar no mensageiro. achava-se que o divino seria substituído pela música. mas não foi. richard wagner era (pausa dramática) «demasiado humano». quem não gosta de um clichezinho filosófico é mulher do padre (assim falou a sabedoria do povo). basta abrir as janelas para se perceber que lá fora ainda procuram um substituto (sic) à altura. oh, deus…

[os espaços vazios, como escrevera certa admiradora de palavras cruzadas, estão aí para serem preenchidos.] 

algumas pessoas adoram sorvete de morango, outras adoram sorvete de chocolate. o problema é quando a pessoa que adora sorvete de chocolate joga o sorvete de morango de alguém no chão & diz: o seu sorvete é terrível!, inadmissível você adorar sorvete de morango.

a ideia do eterno retorno — muito já se falou sobre isso também. nietzsche levanta um tridente demoníaco, & ri de forma perturbadora (estou a descrever uma caricatura do século 19) enquanto garante que o animal humano viverá sempre a mesma vida, morte após morte, um looping eterno de mimese.

pois trate de abaixar o tridente do bigodudo. nietzsche é bom personagem.

veja só.

suponhamos que alguém diga que você viverá a mesma vida durante toda a eternidade. sim: você morreria, nasceria, morreria, nasceria. mesma vida. a ideia pode/deve assustá-lo imenso se você não faz nada além de encher a pança com «papas fritas con queso» & assiste ao programa do fausto silva todos os domingos (àquelas tardes azuladas que metem medo). mas suponhamos que você tenha tido uma vida bem digna, movimentada, aprendeu muitas coisas, viajou, conheceu gente à beça, apaixonou-se, você foi um artista respeitado, excelente modelo de paternidade &tc. agora você está no leito de morte & diz para consigo: que formidável existência a minha, poderia vivê-la novamente de muito bom grado. 

pimba!, moribundo. acertou na mosca. nietzsche orgulhar-se-ia de si.

viva de uma forma plena, divirta-se, ame, crie, busque novos conhecimentos, novas experiências, escreva, cante, pule, brinque, dance, construa a própria trajetória de um jeito que a suposição «eterno retorno, viver a mesma vida para sempre» não lhe assuste (tanto assim).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #16)

certa noite, ernesto carrión, o famoso — ou melhor —, o relativamente bem-sucedido documentarista radiofônico estava deitado no sofá assistindo à televisão quando um besouro amarelo entrou pela janela da sala do apartamento atolado de papéis avulsos, cheiro persistente de toalha úmida, o carpete ao centro que, pelos vistos, não recebia as carícias do aspirador de pó há meses. os besouros percebem o brilho azulado da televisão, a luz laranja que vem das luminárias dos apartamentos & confundem essas claridades com a lua ou com o sol ou com qualquer outra coisa que deveria guiá-los para algum sítio seguro. mas lá está o besouro amarelo. voa feito um piloto bêbado pelo teto da sala & aterra no livro cujas páginas ernesto carrión folheava distraidamente. o encontro entre humano & besouro é curto, inusitado. ernesto curva a ponta do dedo indicador até apoiar a unha sobre a cabeça do polegar & levanta o besouro amarelo para os ares. o inseto tenta se estabilizar, mas cai torto, virado, com as asas voltadas para o chão. ernesto fecha o livro. fica observando as patinhas do besouro amarelo que se mexem de forma aleatória, como se tentassem agarrar um móbile musical para crianças. alguém na televisão comenta sobre a alta taxa de obesidade nos países desenvolvidos. ernesto vai até à cozinha. pega uma garrafa de cerveja no frigorífico. volta para a sala. o besouro amarelo continua de cabeça para baixo, parado, balançando as patinhas, sem propósito nenhum. ernesto carrión entorna um longo gole de cerveja & sabe que não demorará muito para começar a fazer comparações filosóficas entre a própria vida e aquele balançar despropositado do besouro amarelo.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #7)

uma daquelas manhãs em que se acorda & não se sabe ao certo se haverá algo, algum tema, ou mesmo faísca de ideia. 

a escrita é um prato que se prepara aos poucos.

sentar-se para escrever durante algumas horinhas talvez não faça diferença nenhuma. mas depois de um ano, cinco anos, oito anos de prática — acordar, escrever, acordar, escrever — o cérebro meio que entende/apre(e)nde: «ah, sim, o senhor quer criar literaturas, pois não»…

a máquina de escrever beneficia-se do hábito. acomodar-se diante dela, faça-chuva-ou-faça-sol, & esperar. porque sempre surge qualquer coisa.

há uma janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol. à noite, gosto de abri-la e mirar as estrelas — aquelas que consigo ver & aquelas que só consigo imaginar (70 sextilhões delas: mais estrelas do que todos os grãos de areia das praias terrestres). pontos luminosos que preenchem o céu noturno, que oferecem falsas impressões, ou melhor, falsas esperanças, pois, a despeito da ilusão de óptica (parecem tão próximas), essas estrelas se mostram absurdamente longe umas das outras, longe de nós, tão longe que quase poderíamos considerá-las todas inatingíveis.

é possível que num futuro mais apropriado a raça humana desenvolva tecnologias que permitam percorrer essas distâncias irracionais. porém, com o que temos hoje, limitamo-nos a observar a vastidão de espaços vazios, cosmo insaciável que desafia os nossos sensos mundanos de percepção.

ainda somos crianças tentando compreender o que há lá fora.

(ou estamos sozinhos nesta imensa morada cósmica ou não estamos. e ambas as possibilidades, como diria um antigo [& muitos daqueles que tentam responder ao paradoxo de fermi {afinal, onde estariam os extraterrestres?!}] assustam.)

por enquanto, fecho a janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol, à noite, ao infinito.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #4)

depois de aceitar a dura realidade, isto é: que a minha máquina de escrever não é benquista em parte alguma (tentei restaurantes, bibliotecas, toda a sorte de cafeterias, até um bar etílico & só recebi reprimendas): «muito elegante a máquina, companheiro, mas não podemos deixá-lo entrar aqui com esse aparato bélico» &tc. &tc. &tc.

olivetti, metralhadora verbal.

então que estou agora sentado ao jardim da casa de mamã, perto da minha horta. leio os jornais, toc-tac-tac-toc na olivetti & lembro-me cá do george orwell — acho que quando lemos toda a obra de determinado escritor meio que ganhamos o direito de tratá-lo, como se diz, sem papas na língua (de aí justifica-se o uso do artigo definido masculino singular): o george, que numa altura escrevera que qualquer pessoa com mais de trinta anos que analisasse o próprio passado acharia ali imensos defeitos dos quais não se orgulharia.

estava a criticar aqueles que apontavam o dedo para os «outros defeituosos», a desmascarar aqueles que se viam como juízes sociais, que garantiam ter vivido sem percalços, incólumes, que se davam o direito de decidir além do bem & do mal.

essa beatitude tão almejada pelas narrativas religiosas, dizia o george, mas tão antagônica aos modos do ser humano. não à toa, o george foi um dos mais ativos críticos do revisionismo histórico que se alastrava pelo século passado & cujas consequências mais devastadoras ele não pôde perceber, pois morreu aos quarenta & seis anos em janeiro de 1950.

enaltecer as conquistas, as medalhas adquiridas, os diplomas pregados na parede do escritório, o relógio de ouro, o automóvel importado, o telemóvel com seis câmeras, o bilhete de primeira classe; desconsiderar os fracassos, as dores, as perdas, o coração partido, as falhas de caráter, a ira, a fúria, os termos inapropriados, as mentiras, os abusos, a finitude…

biografias paradoxais editadas de acordo com as circunstâncias. o george aconselhava-nos a pensar nisso ao sermos julgados — & principalmente antes de julgarmos vivalma.

— p. r. cunha

Aproximar-se um bocadinho de si mesmo em tempos de guerra e paz

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Certas ocasiões parecem mesmo exigir do escritor uma total mudança de perspectiva. É altura de reler — e finalmente compreender — Schopenhauer, a quem o mundo dos homens se mostrava o reino do acaso, onde o que há de melhor entre aqueles que criam só aparece após grandes esforços. A morte de alguém próximo, ou mesmo o lidar com o luto tardio dessa perda, um acontecimento notável (separação conjugal, velho emprego, novos empregos, outros amores etc.), uma viagem ao estrangeiro. A viagem, especialmente, porque dividida em etapas: 1) preparação; 2) partida; 3) a jornada em si; 4) despedir-se; 5) retornar; 6) descrevê-la. Deslocamento físico, geográfico, a mostrar que poucas coisas são fixas na vida, nem dor infinita, nem alegria eterna, nem moradas permanentes. O escritor viaja, e volta, e chega à conclusão de que o presente é agora outro animal, outra bossa, outro jazz. Pode ser que durante alguns dias o silêncio lhe apeteça. Afinal, esteve alhures e faz agora a digestão de sentidos: o que viu, ouviu, leu, provou, falou, riu, chorou, mudou, permaneceu. Almeja esclarecer que qualquer criatura que surja dessas reflexões será algo diferente dos floreados relatos turísticos da praxe. Noutros termos schopenhauerianos: uma viagem criativa não se apresenta apenas como um mimo, um adocicado cocktail à beira-mar, mas também como uma tarefa introspectiva, por vezes penosa, imprevisível — qual o confuso pássaro em um bosque num dia soalheiro, cujo belíssimo canto não é resultado de espírito alegre, mas antes de um momento tenso e revelador. Os objetivos surgem sem filtros. Fluxos. Longe de serem um leviano exercício de melancolia descartável, pretendem primeiro livrar-se das maquilagens artificias que a incessante busca contemporânea por uma felicidade completa parece exigir.

— P. R. Cunha

Peregrinação chilena ao templo vulcânico

Para chegar à cidade de Puerto Varas — da qual eu nada sabia a não ser que era o sítio em que se podia avistar o vulcão Osorno — o viajante precisa de percorrer uma bucólica estradinha a cortar quintas e choupanas dignas do álbum Atom heart mother, dos Pink Floyd. São imensas pradarias verdes com vacas, lhamas, cavalos, ovelhas e outras espécies a se alimentar despreocupadamente, uma disposição quase teatral comprovando diante dos olhos de todos que é ainda correto o axioma a enaltecer a vida no campo como qualquer coisa menos vertiginosa. A despeito de toda a calmaria meditativa, inclinei-me com ansiedade no assento do automóvel a ver se encontrava o verdadeiro protagonista da Região de Los Lagos: o próprio Osorno. Mas não é assim tão fácil desvendá-lo. Quando o motorista da carrinha apontou para o local onde a montanha supostamente estava, o que pude enxergar foi uma linha branca, anuviada, algo mais parecido com os cenários apocalípticos nos filmes de Fritz Lang.

O Osorno encontra-se ao nordeste do Llanquihue — que em mapudungun, língua dos mapuches (ameríndios que habitam as bermas do vulcão há milhares de anos), significa «lugar para se mergulhar na água». O lago possui 860 km² e os nativos costumam explicar, não sem um certo orgulho nos termos, que toda a capital Santiago caberia ali dentro e ainda sobraria espaço.

Foi apenas no passeio no dia seguinte à chegada a Puerto Varas, dentro de uma furgoneta Ford que leva passageiros curiosos para perto do Osorno, que pouco a pouco a fisionomia glaciar do vulcão começou a adquirir nitidez. Durante a viagem penetramos territórios que em tempos foram habitados pelo povo mapuche, mas que hoje encontram-se tão desfigurados que é difícil imaginar como teria sido de facto a diversidade daquela paisagem.

Pelo conhecimento que se tem das tradições mapuches, cabe duvidar de qualquer tentativa de minimizar a avassaladora intervenção estrangeira desde a chegada dos chamados conquistadores espanhóis a partir do século XVI. Os mapuches foram expulsos, humilhados, escravizados e hoje sobrevivem como podem em zonas urbanas completamente diferentes daquelas vastas e férteis florestas onde os próprios antecessores criaram raízes.

O colonialismo interessado na lã dos animais da localidade logo precisou de ser expandido para atender às demandas em larga escala da Revolução Industrial. Os abundantes recursos naturais encontrados em territórios dos mapuches fizeram com que os exércitos chileno e argentino se mobilizassem para expulsar os nativos das florestas e abrissem espaço para as iniciativas multinacionais. No caso de Puerto Varas a mão de obra foi suplantada pelo metódico trabalho de emigrantes alemães — motivo pelo qual a cultura germânica mostra-se tão presente em Los Lagos.

É de se imaginar que os bosques que hoje recuam até à remota Reserva Nacional Llanquihue eram também a morada de incontáveis chucao tapaculo (la voz del bosque del sur), carpintero negro, loro choroy e outros pássaros com cantos melodiosos e persistentes. Hoje, no entanto, o que se vê é a cicatriz de uma floresta que, tal como os mapuches, parece demonstrar sinais de desistência. Os animais que porventura são encontrados a tentar cruzar as estradas escondem-se onde podem, com os olhos esbugalhados e sempre na expectativa da morte. Parecem esperar pelo som metálico do machado alemão, que numa altura passeou-se por lá e levou consigo boa parte da biodiversidade.

* * *

Os paleontólogos conseguem reconstruir a estrutura de um dinossauro a partir de pequenos, quase insignificantes, fragmentos fósseis. Assim também me parece que são aqueles que escrevem sobre a própria viagem. Recortes de visões, de memórias. No mais íntimo do coração, o sujeito que se predispõe a relatar o que ocorrera algures tem a curiosa certeza de entrar numa máquina do tempo. Sentado à escrivaninha, leva a caneta até à boca, escolhe entre as paisagens nas quais esteve. Compõe a maqueta do passeio, a maqueta de si mesmo. 

Inseguro e com aquela relutância que as pessoas costumam sentir quando se aproximam muito de um vulcão ativo, o condutor da furgoneta avançava vagarosamente. A estrada era uma jiboia sinuosa a fazer curvas abruptas e traiçoeiras enquanto o Osorno mostrava a conhecida silhueta à monte Fuji da ilha Honshu.

Com cada vez mais força as dimensões do Osorno inquietavam-me. O artista húngaro László Moholy-Nagy certa vez escrevera que podemos estar em toda a parte, rodeados por pessoas, e ainda assim estarmos sós. Era como eu estava a me sentir. Havia qualquer coisa nas fornalhas do Osorno que me colocava no meu devido lugar, como se diz. Um silêncio devastador, um presságio de que algo estava para acontecer.

Olhei para o céu e pude observar uns quantos condores-dos-andes desenhando figuras circulares por cima do cume do Osorno. Comentei com o condutor da furgoneta a respeito dessas aves que se alimentam de carne em putrefação mas o velho homem garantira-me que naquela parte da subida era muitíssimo raro avistar condores, ao que julguei estar delirando ou coisa ainda pior.

Recordei-me também que quando nos encontramos longe de casa só podemos ver aquilo que estamos aptos para ver — aquilo que espelha a nossa mente num momento específico. Nesse ardiloso processo, pistas falsas misturam-se com as verdadeiras.

De modo súbito notei que os condores de porte avantajado circulavam não o cume do Osorno, mas a nossa própria furgoneta. Um simbolismo de morte que pode ter passado despercebido para o condutor e também para os outros passageiros, porém criara em mim um desconforto indelével. Os condores-dos-andes seguravam a segadeira, como se dissessem que também eu, brevemente, me dissolverei em cinzas, transformar-me-ei numa massa informe, irreconhecível. Esses bichos necrófagos, pensei comigo, estavam à espera do meu cadáver.

Aqui uma passageira arruma o cabelo; ali, um passageiro espia a relva, leva as mãos ao rosto para proteger os olhos ofuscados pelo sol; num momento alguém limpa os braços no tecido da calça, no outro assobia uma canção andina.

Estava completamente perdido naquela fantasia de que quando visitamos um vulcão ativo estamos numa espécie de busca, numa jornada que transcende a nossa ínfima e temporária passagem por este planeta. Queria que aquela minha viagem se enchesse de significados, que eu pudesse escrever um relato tão interessante a respeito do Osorno que as autoridades de Puerto Varas dar-me-iam um título de cidadão honorário. 

Não sabia muito bem o que pensar dessas pretensões egotistas enquanto mirava a manta de neve do imponente vulcão. De bloco-notas, caneta Bic (quatro cores) entre os dedos ainda observava condores-fantasmas no céu e não estava a tremer-me.

* * * 

Há cerca de trinta quilômetros do vulcão Osorno encontra-se um primo temperamental que nos últimos tempos ameaça catástrofes. No dia 22 de abril de 2015, às 17h50, o vulcão Calbuco começou a soltar para a atmosfera uma parede vertical de cinzas que causaria graves danos à agricultura, suspensão do tráfego aéreo e acionamento de alerta vermelho. 

As últimas erupções do Calbuco foram um lembrete geológico. São nove vulcões em Los Lagos, todos ativos. À distância, parecem simples rochas a cortar o horizonte do Llanquihue, mas por dentro é outra coisa. Montanhas entaladas prontas para cuspir pedras de fogo para qualquer sítio.

Pergunto ao condutor como deve ser dormir com essa mortífera possibilidade. O velho me explica que o Calbuco é como um cachorro que ladra e ninguém teme os cachorros que ladram. De todos os vulcões que fazem parte do complexo regional, o Osorno — o mais discreto e calado — é o que realmente mete medo. Ele tira do porta-luvas umas pedrinhas minúsculas e explica que são vestígios do Calbuco. Depois, pega uma rocha de considerável tamanho e diz: esta, grandona — aqui o condutor aponta para o cume nevado da montanha, a quase três mil metros de altura —, esta saiu da barriga do Osorno.

* * *

Enquanto subíamos o último trecho pavimentado do vulcão fiquei a pensar que estava a desenvolver uma estranha obsessão pelo Osorno; transcendental, místico, algo que os devotos de certeza sentem quando se aproximam da figura que adoram. A furgoneta Ford estacionou perto de um estabelecimento com motivos da Patagônia e o condutor esclarecera que a partir dali o caminho teria de ser feito a pé. 

O clima que há poucos minutos se mostrava ameno, agora encobria com uma fumaça fantasmagórica praticamente todo o cimo da montanha. Rajadas de vento acertavam as encurvadas fisionomias humanas, o frio invadia a medula óssea sem trégua. Era como se o Osorno não quisesse receber visitas.

Mas lá estava eu, inconveniente, a caminhar sobre o meu novo deus de pedra, um vulcão ativo que já tirava um longo cochilo geológico. Se alguém me visse daquele jeito, praticamente ajoelhado, com aquela postura subordinada, bem capaz de acreditar que aquele sujeito encapuzado rezasse. E talvez eu estivesse mesmo a rezar. Não uma prece eclesiástica, mas um canto pagão que refletisse o atual estado da minha existência.

A ingênua (e até um bocadinho tola) sensação de que eu era o primeiro a sentir aquilo ao cimo do Osorno, sim, só eu tinha o direito de adorá-lo, de conversar com ele. Fiquei a observar dois andarilhos invasores que também subiam o vulcão, duas figuras com trajes negro caminhando lentamente para nenhures. Numa altura os dois também pararam, e vi naquele repentino gesto a negação de toda a vontade de se locomover, símbolo da imobilidade humana diante do absurdo das subidas.

Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

A neblina tornava-se cada vez mais densa e cogitei que aquela tristeza de gelo, a invisibilidade branca da montanha, explicava muito do meu caráter — quanto mais não seja o facto de sempre (mesmo nos momentos mais soalheiros e felizes) ter perto de mim o anjo taciturno de Albrecht Dürer. 

Sabe-se que quando o espírito do viajante une-se perfeitamente à paisagem todo o momento se transforma numa revelação em que um simples detalhe mostra-se capaz de explicar a errática trajetória do sujeito a refletir. Balzac diria que o conjunto de uma vida pode estar resumido nisto, em uma aparência absurdamente momentânea.

Fechei o casaco de neve, virei-me para o precipício e lembrei do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do filho que não tenho — e que muito provavelmente nunca conseguirei ter. No escritor medíocre que me tornei. Nesta figura cabisbaixa, indolente, preguiçosa, que guarda, acumula, sempre à beira de um colapso, de uma explosão catastrófica.

Não à toa encontrei no Osorno uma metáfora perfeita para a minha mutante personalidade. Estou ficando velho, cansado, intransigente, com pouca paciência, abalado pela vida, ditatorial nos modos, posso entrar em erupção a qualquer altura e devastar tudo e todos que se arrisquem a ficar perto de mim.

Analisei com afinco o desfiladeiro inclinado do vulcão, as marcas deixadas pela lava, as transformações geográficas causadas pela atividade do Osorno. Talvez os mapuches que se aventuram até ali também fiquem a admirar aqueles violentos rastros, talvez os vulcões dos Andes sejam os últimos vingadores de um povo que há séculos precisa de aturar a barbárie contínua da colonização artificial, a ganância de um consumo que não tem fim. Bastaria uma série de erupções para que tudo voltasse a ser como sempre foi.

— P. R. Cunha