devaneios da própria máquina de escrever (episódio #16)

certa noite, ernesto carrión, o famoso — ou melhor —, o relativamente bem-sucedido documentarista radiofônico estava deitado no sofá assistindo à televisão quando um besouro amarelo entrou pela janela da sala do apartamento atolado de papéis avulsos, cheiro persistente de toalha úmida, o carpete ao centro que, pelos vistos, não recebia as carícias do aspirador de pó há meses. os besouros percebem o brilho azulado da televisão, a luz laranja que vem das luminárias dos apartamentos & confundem essas claridades com a lua ou com o sol ou com qualquer outra coisa que deveria guiá-los para algum sítio seguro. mas lá está o besouro amarelo. voa feito um piloto bêbado pelo teto da sala & aterra no livro cujas páginas ernesto carrión folheava distraidamente. o encontro entre humano & besouro é curto, inusitado. ernesto curva a ponta do dedo indicador até apoiar a unha sobre a cabeça do polegar & levanta o besouro amarelo para os ares. o inseto tenta se estabilizar, mas cai torto, virado, com as asas voltadas para o chão. ernesto fecha o livro. fica observando as patinhas do besouro amarelo que se mexem de forma aleatória, como se tentassem agarrar um móbile musical para crianças. alguém na televisão comenta sobre a alta taxa de obesidade nos países desenvolvidos. ernesto vai até à cozinha. pega uma garrafa de cerveja no frigorífico. volta para a sala. o besouro amarelo continua de cabeça para baixo, parado, balançando as patinhas, sem propósito nenhum. ernesto carrión entorna um longo gole de cerveja & sabe que não demorará muito para começar a fazer comparações filosóficas entre a própria vida e aquele balançar despropositado do besouro amarelo.

— p. r. cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – quarta parte (o som dos guerreiros da Patagônia)

Os mapuches, assim como os maias-quiché, possuem uma tradição predominantemente oral. Não à toa o idioma utilizado por este povo ameríndio que habita determinadas regiões do Chile e da Argentina chama-se mapudungun (o som da terra). Trata-se de um conjunto linguístico com imensa quantidade de palavras relacionadas com a flora, com o céu, com os Andes. O mapuche (nativo) — que por vezes também se autodenomina reche (homem verdadeiro) — adota posturas de veneração e respeito diante da complexidade ecológica. A natureza sempre caracterizou e deu sentido a essa gente do solo, cujos sobrenomes são toponímias dos lugares em que costumavam viver os antepassados.

Outra característica que os mapuches compartilham com os diversos povos que habitavam as Américas antes da absurda colonização europeia é o espírito integrador, de identidade, de pertencimento, com a evocação dos antigos triunfos, da cosmogonia, e das lendas que hoje, depois de incontáveis mutilações encorajadas pela igreja católica, permanecem à custa de relatos dispersos.

Guglielmo Marconi, considerado o pai do rádio, tinha a convicção de que o som nunca morreria. Uma vez que as palavras fossem emitidas por algum aparelho sonoro ou mesmo pelas cordas vocais de um ser humano, a informação estaria disponível para sempre, a vagar algures.

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É pena que Marconi estivesse equivocado. Um aparato que conseguisse resgatar as narrativas dos nativos americanos mostrar-se-ia crucial à sobrevivência de culturas que confiaram sobremaneira na memória, na inconstante oralidade.

— P. R. Cunha

Adolf Hitler — uma tragédia anunciada

Durante os intervalos das aulas do curso de filosofia expus para os meus professores algumas hipóteses que explicariam (ou pelo menos tentariam explicar) a ascensão de Hitler ao poder, como ele se tornou possível. O objetivo era apenas comentar brevemente sobre determinados pontos que amiúde norteiam as minhas reflexões a respeito daquilo a que W. G. Sebald chamara de História natural da destruição. No entanto, como da praxe, devo ter me agitado mais do que o necessário, de forma que finalmente tiveram de sugerir que eu escrevesse e publicasse este «artigo». O texto que se segue é o resultado de uma empreitada filosófica que pretende ser sintética e objetiva.

 

I

Teorias conspiratórias à parte, aceita-se que no dia 30 de abril de 1945, ciente da aproximação do Exército Vermelho, Adolf Hitler cometera suicídio no próprio bunker em Berlim. Envenenamento por cianeto e tiro de pistola na cabeça. Meses depois, a Segunda Guerra terminaria e a comunidade internacional ver-se-ia diante de um macabro impasse: o que fazer com as autoridades nazis que sobreviveram?

Após ardilosas negociações — principalmente para conter os ânimos de diplomatas russos que exigiam medidas drásticas a fim de vingar a morte de mais de 20 milhões de soldados e civis soviéticos (de longe a nação que mais sofrera baixas durante os combates) —, os Aliados chegaram ao histórico consenso: organizariam uma série de encontros jurídicos para decidir as punições adequadas àqueles que durante anos comandaram a burocracia nazista.

Que começassem os Julgamentos de Nuremberg.

Um dos proeminentes membros do partido nazi que na altura estavam a ser julgados pelo Tribunal Militar Internacional foi Albert Speer, arquiteto-chefe do III Reich e depois nomeado ministro do Armamento. Ao dizer as últimas palavras antes de a sentença ser anunciada, Speer questionou-se de forma um tanto cínica como uma nação tão avançada, culta e sofisticada como a Alemanha pôde cair nas armadilhas diabólicas de Adolf Hitler.

 

II

Vinte e seis anos antes de Nuremberg, a derrota na Primeira Guerra Mundial transformara a Alemanha numa panela de pressão imprevisível. Os termos impostos pelos vencedores no Tratado de Versalhes mostraram-se duríssimos para os interesses políticos e sociais alemães. É possível, inclusive, conjecturar se justamente o fato de a Alemanha ser uma nação culta, civilizada e sofisticada não teria acentuado ainda mais o revanchismo daqueles que, como Hitler, participaram do conflito e sentiram-se absolutamente humilhados com a forma que foram tratados depois.

Poder-se-ia observar também que essas características culturais que começavam a traçar os esboços do nacionalismo paranoico à moda Mussolini em Itália eram (e são) construções artificiais, mutáveis, narrativas criadas para manter certa coerência e justificar a arbitrariedade de fronteiras imaginárias. Vale lembrar que o Estado moderno como é conhecido atualmente só começou a surgir na segunda metade do século XV e passaria ainda por inúmeras transformações durante os séculos seguintes. Não seria exagero dizer que o orgulho ferido dos alemães depois de novembro de 1918 era, em muitos aspectos, baseado em ficções — literatura.

O problema de se misturar conto de fadas com política é que a fantasia pode se mostrar instável quando as condições reais não forem assim tão favoráveis. Num contexto de sobrevivência natural, o muro de papel construído com identidades arbitrárias (hinos, bandeiras, leis, mitos formadores) é o primeiro a ruir, expondo as entranhas de uma sociedade que se sentirá perdida sem o amparo da bússola cultural. Foi o que aconteceu com a Alemanha no século XX; duas vezes.

 

III

A tradição alemã, e aqui cito Karl Jaspers, demonstra que o povo germânico foi educado, durante longos períodos, a ser obediente, a ter uma índole dinástica, a ser indiferente e irresponsável diante da realidade política. A Alemanha seria um país que se acostumara com a autoridade, onde as pessoas, via de regra, fazem aquilo que lhes ordenam sem criar confusão.

Gustave Gilbert, que trabalhou como psicólogo dos prisioneiros durante o Julgamento de Nuremberg, escrevera ainda que os alemão sempre obedeceram aos pais, aos professores, aos clérigos, aos superiores. Desenvolveram-se para não questionar figuras de liderança.

Quando nas décadas de 1920 e 1930 a panela política enfim explode, os alemães se deparam com um Estado tampão chamado República de Weimar, quebrado economicamente, sem qualquer perspectiva de melhora — um povo à procura de bodes expiatórios para explicar como um país tão avançado, culto e sofisticado como aquele pôde cair naquele abismo surreal.

 

IV

Em 23 de março de 1933, a República de Weimar é dissolvida e os alemães exigem um novo líder, um salvador à moda antiga, alguém para acertar as contas. É crucial ressaltar isto: por mais carismático e persuasivo que Hitler fosse, ele só foi possível porque os alemães queriam, precisavam de um herói. E, assim como Napoleão, Hitler aproveitou-se do caos instaurado, compreendeu o que as massas desejavam ouvir. Ofereceu-lhes o plano perfeito, a realidade que aspiravam.

Portanto, à medida que Hitler e o partido nazi começaram a destruir todas as instituições democráticas com o pretexto de «recolocar a Alemanha no protagonismo que ela sempre mereceu», muitos alemães (e aqui encontra-se certo cabimento nas generalizações tradicionais) acharam perfeitamente normal acreditar e apoiar de forma irrestrita os mandamentos que o Führer pregava.

 

V

Outro fator foi preponderante não só para o estabelecimento da ideologia nazi, como também para a manutenção de Hitler no poder por mais de uma década. Curiosamente, um dos primeiros a denunciá-lo foi o próprio Speer, durante o Julgamento de Nuremberg: a manipulação estratégica das comunicações modernas. 

Com a popularização do rádio, por exemplo, o líder não precisava mais de enviar ordens que demoravam dias para chegar até aos subordinados, que teriam então de repassar a mensagem sem a força e o carisma necessários. Hitler falava diretamente com o eleitorado, entrava na intimidade dos lares alemães, conversava com pais, filhos, avós, tios de uma forma até então inimaginável.

Hoje em dia muitos já se acostumaram com a onipresença das mídias, com as mensagens instantâneas, informações a um clique de distância, mas na década de 1930 escutar a voz de alguém que não estava na mesma sala, ou sequer na mesma cidade, era ainda qualquer coisa de fantástico. O rádio e os filmes produzidos pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels tornaram Hitler ainda mais místico, mágico, venerável: uma entidade sobrenatural. 

O palco estava armado para que o Führer saciasse a vontade do povo que o idolatrava.

 

VI

Alemanha com raízes belicosas, pormenores geográficos que geravam necessidade de se manter militarmente forte a todo o instante, a vontade de se ter um líder para proteger as fronteiras dos invasores (um pouco como aconteceu/acontece com a Rússia), crises econômicas, propaganda falsa e paranoica, a tentativa de se encontrar um substituto divino diante da impotência religiosa, a busca por soluções precipitadas, ilusórias. Uma nação ressentida, diplomaticamente humilhada, um desastre anunciado.

Procurei apresentar o panorama instável que preparou o caminho de Hitler ao poder. A discussão, porém, é uma colcha de retalhos que não dá qualquer sinal de encolhimento. Melhor que seja assim. O nazismo e as peculiaridades do contexto no qual ele estava inserido não podem ser esquecidos; principalmente se levarmos em conta a conjuntura política contemporânea.

— P. R. Cunha


Referências bibliográficas

BESSEL, Richard. Alemanha, 1945, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler, Rio de Janeiro: Record, 2011.
JASPERS, Karl. A questão da culpa, São Paulo: Todavia, 2018.
REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler, São Paulo: Leya Casa da Palavra, 2013.

RYBACK, Timothy W. A biblioteca esquecida de Hitler, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Quarta nota #3 — a casa está a ruir

§ É preciso tocar na ferida de uma vez por todas. O começo do fim foi em 2015, quando Charles Cosac decidiu encerrar as atividades da editora Cosac Naify por conta das graves recessões econômicas que assolavam o país. A Livraria Cultura — que comprou e fechou todas as lojas Fnac no Brasil — há pouco entrara com um pedido de recuperação judicial porque não consegue pagar fornecedores. No início desta semana a rede de livrarias Saraiva decidiu encerrar 20 das suas 104 unidades. Motivo? — dinâmica do varejo. Ontem foi a vez de outra gigante se entregar à pior crise vivida pelo mercado editorial brasileiro desde sempre: a Companhia das Letras, fundada por Luiz Schwarcz em 1986, acaba de ser majoritariamente assumida pela norteamericana Penguin Random House. Apesar de o sr. Schwarcz ter tentado colocar os paninhos quentes e dizer que «do ponto de vista editorial não muda nada» e que só espera alterações nas áreas administrativas e tecnológicas, o fedor já está forte de mais para continuarmos a ignorar o defunto na relva. E diante de um novo governo federal mais preocupado com bombas e metralhadoras do que com as letras, essa marcha fúnebre não deve se alastrar por muito tempo.

§ Cientistas acreditam que o período glacial na Terra costuma ocorrer com frequência de 40 a 100 mil anos. No Brasil, porém, a era do gelo ocorre a cada quatro anos.

§ Chávenas de café, uns livros clássicos, outros livros que ninguém lê, rádio, cinzeiros sujos, duas toalhas azuis, armários divididos, copos de cerveja, chuveiro elétrico que por vezes dá choque quando o banhista gira a torneira sem que os próprios pés estejam sobre o tapetinho de borracha Made in China.

§ NFL aos fins de semana e a vida é basicamente aquilo que acontece entre um jogo e outro, preenchimentos, domingos com uma dúzia de futebol americano e o resto dos dias a seguir trajetórias circunstanciais.

— P. R. Cunha

Silêncio falado

Para a Irina M.

Londres, 18 de abril de 1930. 20h45. Boa parte dos britânicos prepara-se para escutar o boletim noturno da BBC. Famílias inteiras estão reunidas ao redor do rádio enquanto uma voz granulada, grave, porém amistosa, anuncia: «Boa noite. Hoje é uma ótima sexta-feira, não temos notícias». Então a BBC simplesmente preferiu tocar concertos de música clássica. O dia sem notícias. Parece que há 88 anos não era vergonhoso admitir isto, que o mundo por vezes não tem mesmo nada a dizer. E o vazio podia ser preenchido com o tilintar de um piano, com as cordas de um violoncelo, com o sopro de um oboé.

O vazio. Costumo guardar meus livros mais antigos dentro de um baú. Trata-se de uma lustrosa caixa de madeira com 32 centímetros de altura, 42 de comprimento e 50 de largura. Hoje de manhãzinha decidi remover todas essas relíquias a fim de averiguar se as traças alimentavam-se dos meus velhos companheiros de letras. Olhei para o baú e pensei: agora este baú está vazio. Mas, em verdade, o baú nunca esteve vazio — há sempre vestígios de poeira, vapor d’água, moléculas de ar, fótons, eléctrons, partículas elementares. Apenas não conseguimos enxergá-los. 

O vazio absoluto, portanto, não existe; assim como um dia em que nada acontece. Mas, ao fim e ao cabo, pode-se filtrar a poeira, eliminar o máximo de ruído externo. E talvez, quem sabe, consigamos qualquer coisa parecida com os «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage: aquele silêncio permeado pelos movimentos do próprio compositor, o discreto metrônomo de fundo, e um comedido aplauso, se estivermos em público. 

— P. R. Cunha