região oceânica –––––– nictheroy

passar por uma porta automática
galeria comercial / centro de niterói
e rir-se da preguiça contemporânea
(será que não conseguiríamos abrir
a porta sozinhos) o controle remoto
siri-alexa-cortana-bixby-alice
o sofá os telemóveis a cama
a vida deitada a cadeira a televisão
os bots a fazer automóvel
a abrir as portas (como se viu)
———— beber um copo d’água
de um recipiente que fôra
engarrafado por maquinaria
especializada ou perguntar-se
no que se tornara
o ser humano[?]

incluir na paisagem tudo o que sei
(ou aquilo que penso saber) não me
limitar apenas ao que enxergo
galeria comercial / centro de niterói
evitar conceitos prévios
cultivar percepções sensoriais
espontâneas
sem ter sido colonizado &tc.

querer abrir as portas
com as próprias mãos
e não conseguir
como deve ser horrível
sentir-se assim.

— p. r. cunha

Breves notas [semi] [auto] biográficas // ou «expor-se com ressalvas» &tc

com tantos computadores
armazenamentos
o que será do nosso
direito de esquecer?
[marchinha humana]

Então que podemos sim enterrar os vivos pelo menos ao cemitério das lembranças:
—— de certeza que ela continua a viver a própria vida acorda ducha trabalho trânsito casa cama enquanto essa coisa esponjosa & rosada que se espreme dentro do meu crânio // ceifa embalsama soterra incinera até sobrar [no more intercourse]
————— um qualquer vestígio {ALGO COMO UMA ENFADONHA CÓCEGA QUE SE SENTE QUANDO SE PISA A RELVA COM OS PÉS}
descalços

estes e outros tantos absurdos (à tarde canta o passarinho não de alegria mas de saudade)*

*a vaidade é um
combustível às criações [revista feminina de Helsinki | maio de 1978]
querer que se lembrem de mim
mesmo que eu não esteja mais aqui
para ter
consciência
de que estão a lembrar-se
a vaidade releva esses
e outros
tantos absurdos

«Die Nichtigkeiten werden zunichte werden»
[as nulidades serão reduzidas a nada]

CITAR PETER COMO SE FOSSE MEU — Weissagung // peças faladas

Durante quase uma década podemos acreditar…

que determinado ser humano nos significa TUDO para depois perceber que basta um parzinho de meses e tudo como se diz cai por água abaixo

poucas
coisas
são
mais
terríveis
do que a desconstrução de um ser humano que num dia é caríssimo no outro estranhíssimo

uma lembrança
um vestígio
dois nadas

— P. R. Cunha